Primeira parte



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No Invisível


Índice
Introdução
Prefácio da edição de 1911
PRIMEIRA PARTE

O Espiritismo experimental: As leis

I - A Ciência Espírita

II - A marcha ascensional: os métodos de estudo

III - O Espírito e a sua forma

IV - A mediunidade

V - Educação e função dos médiuns .

VI - Comunhão dos vivos e dos mortos

VII - O Espiritismo e a mulher

VIII - As leis da comunicação espírita

IX - Condições de experimentação

X - Formação e direção dos Grupos. Primeiras experiências

XI - Aplicação moral e frutos do Espiritismo

Notas de Rodapé

INTRODUÇÃO

Desde cinqüenta anos se tem estabelecido uma intima e freqüente comunicação entre o nosso mundo e o dos Espíritos. Soergueram-se os véus da morte e, em lugar de uma face lúgubre, o que nos apareceu foi um risonho e benévolo semblante. Falaram as almas; sua palavra consolou muitas tristezas, acalmou bastantes dores, fortaleceu muita coragem vacilante. O destino foi revelado, não já cruel, implacável como o pretendiam antigas crenças, mas atraente, eqüitativo, para todos esclarecido pelas fulgurações da misericórdia divina.

O Espiritismo propagou-se, invadiu o mundo. Desprezado, repelido ao começo, acabou por atrair a atenção e despertar interesse. Todos quantos se não imobilizavam na esfera do preconceito e da rotina e o abordaram desassombradamente, foram por ele conquistados. Agora penetra por toda à parte, instala-se em todas as mesas, tem ingresso em todos os lares. A sua voz, as velhas fortalezas seculares - a Ciência e a própria Igreja (1), até aqui hermeticamente aferrolhadas, arrasam suas muralhas e entreabrem suas portas. Dentro em pouco se imporá como soberano.

Que traz ele consigo? Será sempre e por toda à parte a verdade, a luz e a esperança? Ao lado das consolações que caem na alma como o orvalho sobre a flor, de par com o jorro de luz que dissipa as angústias do investigador e ilumina a rota, não haverá também uma parte de erros e decepções?

O Espiritismo será o que o fizerem os homens. Similia similibus! Ao contacto da Humanidade as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Pode constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai, continua sendo pérola ou se transforma em lodo.

E com desgosto que observamos a tendência de certos adeptos no sentido de menosprezar a feição elevada do Espiritismo, a fonte dos puros ensinamentos e das altas inspirações, para se restringirem ao campo da experimentação terra-a-terra, d investigação exclusiva do fenômeno físico.

Pretender-se-ia acomodar o Espiritismo no acanhado leito da ciência oficial; mas esta, inteiramente impregnada das teorias materialistas, é refratária a essa aliança. O estudo da alma, já de si difícil e profundo, lhe tem permanecido impenetrável. Os seus métodos, por indigentes, não se prestam absolutamente ao estudo, muito mais vasto, do mundo dos Espíritos. A ciência do invisível há de sempre ultrapassar os métodos humanos. Há no Espiritismo uma zona - e não a menor - que escapa d análise, d verificação: é a ação do Espírito livre no Espaço; é a natureza das forças de que ele dispõe.

Com os estudos espíritas uma nova ciência se vai formando lentamente, aias é preciso aliar ao espírito de investigação científica a elevação de pensamento, o sentimento, os impulsos do coração, sem o que a comunhão com os seres superiores se torna irrealizável, e nenhum auxílio de sua parte, nenhuma proteção eficaz se obterá. Ora, isso é tudo na experimentação. Não há possibilidade de êxito, nem garantia de resultado sem à assistência e proteção do Alto, que se não obtém sendo mediante a disciplina mental e uma vida pura e digna.

Deve todo adepto saber que a regra por excelência das relações com o invisível é a lei das afinidades e atrações. Nesse domínio, quem procura baixos objetivos os encontra, e com eles se rebaixa: aquele que aspira às remontadas culminâncias, cedo ou tarde as atinge e delas faz pedestal para novas ascensões. Se desejais manifestações de ordem elevada, fazei esforços por elevar-vos a vós mesmos. O bom êxito da experimentação, no que ela tem de belo e grandioso - a comunhão com o mundo superior - .não o obtém o mais sábio, mas o mais digno, o melhor, aquele que tem mais paciência e consciência e mais moralidade.

Com o cercearem o Espiritismo, imprimindo-lho caráter exclusivamente experimental, pensam alguns agradar ao espírito positivo do século, atrair os sábios ao que se denomina de Psiquismo. Desse modo, o que sobretudo se consegue é pôr-se em relação com os elementos inferiores do Além, com essa multidão de Espíritos atrasados, cuja nociva influência envolve, oprime os médiuns, os impele d fraude e espalha sobre os experimentadores eflúvios maléficos e, com eles, muitas vezes, o erro e a mistificação.

Numa. ânsia de proselitismo, sem dúvida louvável quanto ao sentimento que a inspira, mas excessiva e perigosa em suas conseqüências, desejam-se os fatos a todo o custo. Na agitação nervosa com que se busca o fenômeno, chega-se a proclamar verdadeiros os fatos duvidosos ou fictícios. Pela disposição de espírito mantida nas experiências, atraem-se os Espíritos levianos, que em torno de nós pululam. Multiplicam-se as manifestações de mau gosto e as obsessões das energias que supõem dominar. Muitíssimos espíritas e médiuns, em conseqüência da falta de método e de elevação moral, se tornam instrumentos das forças inconscientes ou dos maus Espíritos.

São numerosos os abusos, e neles acham os adversários do Espiritismo os elementos de uma crítica pérfida e de uma fácil difamação.

O interesse e a dignidade da causa impõem, o dever de reagir contra essa experimentação banal, contra essa onda avassaladora de fenômenos vulgares que ameaçam submergir as culminâncias da idéia.
*
O Espiritismo representa uma fase nova da evolução humana. A lei que, através dos séculos, tem conduzido as diferentes frações da Humanidade, longo tempo separadas, a gradualmente aproximar-se, começa a fazer sentir no Além os seus efeitos. Os modos de correspondência que entretêm na Terra os homens vão-se estendendo pouco a pouco aos habitantes do mundo invisível, enquanto não atingem, mediante novos processos, as famílias humanas que povoam as Terras do espaço.

Contudo, nas sucessivas ampliações do seu campo de ação, a Humanidade tropeça em inúmeras dificuldades. As relações, multiplicando-se, nem sempre trazem favoráveis resultados; também oferecem perigos, sobretudo no que se refere ao mundo oculto, mais difícil que o nosso de penetrar e analisar. Lá, como aqui, o saber e a ignorância, a verdade e o erro, a virtude e o vício existem, com esta agravante: ao passo que fazem sentir sua influência, permanecem encobertos aos nossos olhos; donde a necessidade de abordar o terreno da experimentação com extrema prudência, de longos e pacientes estudos preliminares.

E necessário aliar os conhecimentos teóricos ao espírito de investigação e d elevação moral, para estar verdadeiramente apto a discernir no Espiritismo o bem do mal, o verdadeiro do falso, a realidade da ilusão. E preciso compenetrar-se do verdadeiro caráter da mediunidade, das responsabilidades que acarreta, dos fins para que nos é concedida.

O Espiritismo não é somente a demonstração, pelos fatos, da sobrevivência; é também o veiculo por que descem sobre a Humanidade as inspirações do mundo superior. A esse título é mais que uma ciência, é o ensino que o Céu transmite d Terra, reconstituição engrandecida e vulgarizada das tradições secretas do passado, o renascimento dessa escola profética que foi a mais célebre escola de médiuns do Oriente. Com o Espiritismo, as faculdades, que foram outrora o privilégio de alguns, se difundem por um. grande número. A mediunidade se propaga; mas de par com as vantagens que proporciona, é necessário estar advertido dos seus escolhos e perigos.

Há, na realidade, dois espiritismo. Um nos põe em comunicação com os Espíritos superiores e também com as almas queridas que na Terra conhecemos e que foram à alegria da nossa existência. É por ele que se efetua a revelação permanente, a iniciação do homem nas leis supremas. E a fonte pujante da inspiração, a descida do Espírito ao envoltório humano, ao organismo do médium que, sob a sagrada influência, pode fazer ouvir palavras de luz e de vida, sobre cuja natureza é impossível o equívoco, porque penetram e reanimam a alma e esclarecem os obscuros problemas do destino. A impressão de grandiosidade que se desprende dessas manifestações deixa sempre um vestígio profundo nos corações e nas inteligências.. Aqueles que nunca o experimentaram, não podem compreender o que é o verdadeiro Espiritismo.

Há, em seguida, um outro gênero de experimentação, frívolo, mundano, que nos põe em contacto com os elementos inferiores do mundo invisível e tende a amesquinhar o respeito devido ao Além. 9 uma espécie de profanação da religião da morte, da solene manifestação dos que deixaram o invólucro da carne.

Força, entretanto, é reconhecer: ainda esse Espiritismo de baixa esfera tem sua utilidade. Ele nos familiariza com um dos aspectos do mundo oculto. Os fenômenos vulgares, as manifestações triviais fornecem às vezes magníficas provas de identidade; sinais característicos se evidenciam e forçam a convicção dos investigadores. Não nos devemos, porém, deter na observação de tais fenômenos senão na medida em que o seu estudo nos seja proveitoso e possamos exercer eficiente ação sobre os Espíritos atrasados que os produzem. Sua influência é molesta e deprimente para os médiuns. S preciso elevar mais altas as aspirações, subir pelo pensamento a regiões mais puras, aos superiores domicílios do Espírito. Somente aí encontra o homem as verdadeiras consolações,- os socorros, as forças espirituais.

Nunca será demasiado repeti-lo: nesse domínio jamais obteremos efeitos que não sejam. proporcionais às nossas condições. Toda pessoa que, por seus desejos, por suas invocações, entra em relação com o mundo invisível, atrai fatalmente seres em afinidade com seu próprio estado moral e mental. O vasto império das almas está povoado de entidades benfazejas e maléficas; elas se desdobram por todos os graus da infinita escala, desde as mais baixas e grosseiras, vizinhas da animalidade, até os nobres e puros Espíritos, mensageiros de luz, que a toda os confins do tempo e do espaço vão levar as irradiações do pensamento divino. Se não sabemos ou não queremos orientar nossas aspirações, nossas vibrações fluídicas, na direção dos seres superiores, e captar sua assistência, ficamos d mercê das influências más que nos rodeiam, as quais, em muitos casos, têm conduzido o experimentador imprudente às mais cruéis decepções.

Se, ao contrário, pelo poder da vontade, libertando-nos das sugestões inferiores, subtraindo-nos das preocupações pueris, materiais e egoísticas, procuramos no Espiritismo um meio de elevação e aperfeiçoamento moral, poderemos em tal caso entrar em comunhão com as grandes almas, portadoras de verdades; fluidos vivificantes, regeneradores nos penetrarão; alentos poderosos nos elevarão das regiões serenas donde o espírito contempla o espetáculo da vida universal, majestoso harmonia das leis e das esferas planetárias.


Prefácio da edição de 1911

Nos dez anos que transcorreram, do aparecimento desta obra até à presente edição, o Espiritismo prosseguiu a sua marcha ascensional e se opulentou com experiências e testemunhos de subido valor, entre os quais particularmente os de Lodge, Myers, Lombroso lhe vieram realçar o prestígio e assegurar, com a autoridade cientifica que lhe faltava, uma espécie de consagração definitiva. Por outro lado os abusos e as fraudes, que precedentemente assinalamos, se multiplicam. Haverá nisso porventura uma lei histórica, em virtude da qual o que uma idéia ganha em extensão deverá perder em qualidade, em força, em intensidade?

No que respeita aos testemunhos coligidos e aos progressos realizados, a situação do Espiritismo na França não é idêntica à alcançada em certos países estrangeiros. Enquanto na Inglaterra e na Itália o conquistou, nos círculos acadêmicos, adesões de singular notoriedade, a maioria dos sábios franceses adotou a seu respeito uma atitude desdenhosa e, mesmo, de aversão (2), no que revelaram eles bem escassa clarividência; porque, se a idéia espírita apresenta às vezes, exageros, repousa, entretanto, em fatos incontestáveis e corresponde às imperiosas necessidades contemporâneas.

Há de todo espírito imparcial reconhecer que nem a ciência oficial nem a Religião satisfazem às necessidades e às aspirações da maior parte da Humanidade. Não é de admirar, portanto, que tantos homens tenham procurado em domínios pouco explorados, posto que abundantíssimos em subsídios psicológicos, soluções, esclarecimentos, que as velhas instituições não são capazes de lhes fornecer. Pode esse gênero de estudos desagradar a uns tantos timoratos e provocar, de sua parte, condenações e criticas. Arrazoados vãos que o vento leva. Apesar das exigências, das objurgações e anátemas, as inteligências não cessarão de encaminhar-se ao que mais justo, melhor e mais claro lhes parece. As repulsas de uns, as desaprovações de outros nada conseguirão. Fazei mais e melhor - é a objeção que se oporá. Padres e sábios, que vos podeis consagrar aos lazeres do espírito, em lugar de escarnecer ou fulminar no vácuo, mostrai-vos capazes de consolar, de amparar os que vergam sob um trabalho material esmagador, de lhes explicar o motivo de seus sofrimentos e lhes fornecer as provas de compensações futuras. Será o único meio de conservardes a vossa supremacia.

Pode além disso perguntar-se qual será mais apto a julgar os fatos e discernir a verdade, se um cérebro atravancado de prevenções e de teorias preconcebidas, se um espírito livre, emancipado de toda rotina científica e religiosa.

Por nós responde a História!

E indubitável que os representantes da ciência oficial têm prestado valiosos serviços ao pensamento e muitos extravios lhe evitaram. Quantos obstáculos, porém, não opuseram eles, em numerosos casos, à ampliação do conhecimento, verdadeiro e integral!

O professor Charles Richet, que é autoridade na matéria, pôs vigorosamente em relevo, em Annales des Sciences Psychiques, de janeiro de 1905, os erros e as debilidades da ciência oficial.

A rotina ainda hoje impera nos meios acadêmicos; todo sábio que se esquiva a seguir a trilha consagrada é reputado herético e excluído das prebendas vantajosas. Demonstração lamentável desse fato é o exemplo do Dr. Paulo Gibier, obrigado a expatriar-se para obter uma colocação.

A esse respeito não se tem a Democracia mostrada menos absolutista nem menos tirânica que os regimes decaídos. Aspira, ao nivelamento das inteligências e proscreve os que a procuram libertar das materialidades vulgares. A interiorização dos estudos depauperou o pensamento universitário, deprimiu os caracteres, paralisou as iniciativas. Inutilmente se procuraria entre os sábios, na França, um exemplo de intrepidez moral comparável aos que deram, na Inglaterra, William Crookes, Russel Wallace, Lodge, etc., Lombroso e outros, na Itália. A única preocupação que parece terem os homens em evidência é modelar suas opiniões pelas dos "senhores do momento", a fim de se beneficiarem dos proventos de que são estes os dispensadores.

Em matéria de psiquismo parece haver carência do vulgar bom-senso à maioria dos cientistas. O professor Flournoy o confessa: "Para a Humanidade das remotas eras, como atualmente ainda para a grande massa que a compõe, a hipótese espirita é a única verdadeiramente conforme ao mais elementar bom-senso, quanto a nós, cientistas, saturados de mecanismo materialista desde os bancos escolares, essa mesma hipótese nos revolta até às maiores profundezas do bom-senso, igualmente mais elementar." (3)

Em apoio de suas asserções, o citam os dois seguintes exemplos (4), relativos a um fato universalmente reconhecido verdadeiro:
O grande Helhholtz - relata o Senhor Sarrett - certa vez disse que nem o testemunho de todos os membros da Sociedade Real, nem a evidência de seus próprios sentidos o poderiam convencer sequer da transmissão de pensamento, impossível que era esse fenômeno”.

Um ilustre biologista - refere também o Senhor W. James - teve ocasião de me dizer que, mesmo que fossem verdadeiras as provas da telepatia, os sábios se deveriam coligar para as suprimir ou conservar ocultas, pois que tais fatos destruiriam a uniformidade da Natureza e toda espécie de outras coisas de que eles, sábios, não podem abrir mão, para continuar suas pesquisas."
Os fatos espíritas, entretanto, se têm multiplicado, imposto com tamanho império que os sábios se têm visto obrigados à tentativa de os explicar. Não são, porém, as elucubrações psicofísiológícas de Pierre Janet, as teorias poligonais do Doutor Grassei, nem a criptomnésia de Th, Flournoy que podem satisfazer aos pesquisadores independentes. Quando se possui alguma experiência dos fenômenos psíquicos fica-se pasmado ante a penúria de raciocínio dos críticos científicos do Espiritismo. Escolhem eles sempre, na multidão dos fatos, alguns casos que se aproximem de suas teorias e silenciam cuidadosamente de todos os inúmeros que as contradizem. Será esse procedimento realmente digno de verdadeiros sábios ?

Os estudos imparciais e persistentes induzem a outras conclusões. Falando do Espiritismo, Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham e membro da Real Academia, o afirmou: "Fui pessoalmente conduzido à certeza da existência futura mediante provas assentes em bases puramente científicas." (Annales cies Sciences chiques, 1897, página 158.)

J. Hyslop, professor da Universidade de Colúmbia, escrevia: "A prudência e reserva não são contrárias à opinião de que a explicação espírita é, até agora, a mais racional."

Se, pois, não têm sido poupados sarcasmos aos espíritas, nas esferas científicas, há, como se vê, sábios que lhes têm sabido fazer justiça. O professor Barrett, da Universidade de Dublin, se exprimia do seguinte modo, por ocasião de sua investidura na presidência da Society for Psychical Research em 29 de janeiro de 1904 (5):
Não poucos dos que me ouvem se recordam certamente da cruzada outrora empreendida contra o Hipnotismo, que então se denominava mesmerismo. As primeiras pessoas que com tais estudos se ocuparam foram alvo de incessantes opugnações do mundo científico e médico, de um lado, e do mundo religioso, do outro. Foram denunciadas como impostoras, repudiadas como parias, enxotadas, sem cerimônia, das sinagogas da Ciência. e da Religião. Passava-se isso numa época bastante próxima de nós para que eu tenha necessidade de o recordar. A ciência médica e filosófica brandou pode deixar de curvar as cabeças envergonhadas, lembrando-se desse tempo e vendo o Hipnotismo e o seu valor terapêuticos atualmente reconhecidos, tornados parte integrante do ensino científico em muitas escolas de Medicina, sobretudo no Continente!... Não é nosso dever cultuar hoje a memória daqueles intrépidos pesquisadores, que foram os primeiros desse ramo dos estudos psíquicos!”.
Não devemos do mesmo modo esquecer esse pequeno grupo de investigadores que, antes do nosso tempo e ao fim de pacientes e demoradas pesquisas, tiveram a coragem de proclamar sua crença em tais fenômenos, que denominaram espiríticos... Não foram sem dúvida os seus métodos de investigação totalmente isentos de crítica, o que, todavia, os não impediu de ser pesquisadores da verdade, tão honestos e dedicados como pretendem ser; e tanto mais dignos são eles da nossa estima quanto sofreram os maiores sarcasmos e oposição. Os espíritos fortes sorriam então, como agora, dos que mais bem informados que eles se mostravam. Suponho que todos somos inclinados a considerar o nosso próprio discernimento superior ao do nosso próximo. Não são, porém, afinal o bom-senso, as precauções, a paciência, o estudo contínuo dos fenômenos psíquicos que maior valor conferem d opinião que viemos por fim a adotar e não a argúcia ou o cepticismo do observador?”.

Devemos ter sempre em consideração que o que é afirmado, mesmo pelo mais obscuro dos homens, em resultado de sua experiência pessoal, é sempre digno de nos prender a atenção; e o que é negado, mesmo pelos mais reputados indivíduos, desde que ignoram a coisa, jamais no-la deve merecer”.



"Aquele perspicaz e valoroso espírito que era o professor De Morgan, o grande denunciador do charlatanismo científico, teve a coragem de publicar, há muito, que por mais que se tente ridicularizar os espíritas, nada deixam por isso eles de estar no caminho que conduz ao adiantamento dos conhecimentos humanos, seguindo embora o espírito e o método primitivos, quando era preciso rasgar nas florestas virgens a estrada por onde podemos agora avançar com a maior facilidade."
Rendendo homenagem aos espíritas, o professor Barrett reconhecia, como juiz imparcial, que não era isento de critica o seu zela Hoje, como então, essa opinião é inteiramente justificada A exaltação de uns tantos adeptos, o seu entusiasmo em proclamar fatos duvidosos ou imaginários, a insuficiência de verificação nas experiências têm prejudicado muitas vezes a causa que acreditavam servir. E isso talvez o que, até certo ponto, justifica a atitude retraída, por vezes hostil, de alguns sábios a respeito do Espiritismo.

O professor Ch. Richet escrevia nos Annales des Sciences Psychiques, de janeiro de 1905, pág. 211: "Se os espíritas foram muito arrojados, usaram, entretanto, de bem pouco vigor, e é uma deplorável história a de suas aberrações. Basta por agora ficar estabelecido que eles tinham o direito de ser muito arrojados e que não lhes podemos, em nome da nossa ciência falível, incompleta, ainda embrionária, censurar esse arrojo. Dever-se-lhes-ia, ao contrário, agradecer o terem sido tão audaciosos."

As restrições do Sr. Richet não são menos fundadas que os seus elogios. Muitos experimentadores não conduzem os seus estudos com a ponderação, a prudência necessárias. Empenham-se de preferência em obter as manifestações tumultuárias, as materializações numerosas e repetidas, os fenômenos de grande notoriedade, sem considerar que a mediunidade só excepcionalmente e de longe em longe pode servir à produção de fatos desse gênero. Quando têm à mão um médium profissional dessa categoria, o atormentam e esgotam. Levam-no fatalmente a resvalar para a simulação. Daí as fraudes, as mistificações, assinaladas por tantas folhas públicas.

Muitíssimo preferíveis são, a meu ver, os fatos mediúnicos de índole mais intimam e modesta, as sessões em que predominam a ordem, a harmonia, a comunhão dos pensamentos, por cujo veículo fluem as coisas celestes, como orvalho, sobre a alma sequiosa e a esclarecem, confortam e melhoram. As sessões de efeitos físicos, mesmo quando sinceras, sempre me deixaram uma impressão de vácuo, de desgosto e mal-estar, em razão das influências que nelas intervêm.

A médiuns profissionais deveram sem dúvida sábios como Crookes, Hyslop, Lombroso, etc., os excelentes resultados que obtinham; em suas experiências, porém, adotavam precauções de que não costumam os espíritas munir-se. Em sessões de materialização realizadas em Paris por um médium americano, em 1908 e 1907, e que alcançaram desagradável notoriedade, haviam os espíritas estabelecido um regulamento que os assistentes se comprometiam a observar e de cujas estipulações resultava a inesperada conseqüência de isentar o médium de toda eficaz verificação. A obscuridade era quase completa no momento das aparições. Os assistentes tinham que conversar em voz alta, cantar, conservar as mãos presas formando a cadeia magnética e, além de tudo, abster-se de tocar nas formas materializadas. Desse modo, a vista, o ouvido, o tato ficavam pouco menos que aniquilados. Tais condições, é certo, se inspiravam numa louvável intenção, porque, em tese geral, como teremos ocasião de ver no curso desta obra, favorecem a produção dos fatos; mas no caso em questão contribuíam também para mascarar as fraudes. As faculdades do médium, entretanto, eram reais, e nas primeiras sessões se produziram autênticos fenômenos, que adiante relatamos. Houve em seguida uma mistura de fatos reais e simulados, e o embuste veio por fim a tornar-se constante e evidente. Depois de haver, numa revista espírita, assinalado os fenômenos que apresentavam garantias de sinceridade, mais tarde me senti realmente obrigado a denunciar fraudes averiguadas e comprometedoras.
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