Primeiro ciclo dos estudos do lazer no brasil



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PRIMEIRO CICLO DOS ESTUDOS DO LAZER NO BRASIL:

CONTEXTO HISTÓRICO, TEMÁTICAS E PROBLEMÁTICAS.
Prof. Dra. Maria de Fátima Rodrigues Pereira (UnC)

Prof. Dra. Elza Margarida de Mendonça Peixoto (UEL)

Introdução:

Em levantamento recente quanto ao estado da arte na produção do conhecimento referente aos estudos do lazer produzidos no Brasil, localizamos 2641 trabalhos entre 1891 e 2006. A análise desta produção a partir de suas características internas permitiu localizar quatro grandes ciclos de desenvolvimento dos estudos do lazer no Brasil (PEIXOTO, 2007). Neste trabalho, procuramos aprofundar a investigação sobre o primeiro ciclo dos estudos do lazer no Brasil, orientadas pelo entendimento de que a explicação para a produção de idéias deve ser buscada na realidade brasileira nos diferentes momentos históricos nos quais se desenvolvem estes ciclos. Orientadas pela Concepção Materialista e Dialética da História (MARX e ENGELS, 1974, 1977), buscamos reconhecer o movimento contraditório das forças produtivas e das relações de produção em desenvolvimento no Brasil, que, a nosso ver, vão determinar o interesse pelo controle e preenchimento do tempo livre com conteúdos culturais diversificados, configurando-se uma política educacional de caráter conformador dos interesses da classe operária aos interesses da burguesia brasileira.

Identificamos um primeiro e longo ciclo dos estudos do lazer ocorrendo entre 1891 e 1968 – marcado pela publicação de 67 trabalhos em 77 anos. Neste primeiro ciclo, a literatura é farta na produção de (1) sugestões de jogos, brinquedos e brincadeiras voltados ao convívio familiar e escolar; (2) de orientações para o que devia ser feito no tempo livre gerado com a regulamentação da duração do trabalho e a redução da jornada. Tal fartura, quando direcionada à classe trabalhadora, parte do pressuposto da incompetência para a tomada de decisão sobre o que fazer com o próprio tempo livre. Neste contexto, aparece o projeto de educação para a ocupação adequada deste tempo. Surgem as justificativas para a estruturação de uma área (a recreação), com profissionais especializados (os recreadores) na arte de orientar o tempo livre do trabalho profissional e escolar; assim como as justificativas para a ação social organizada de elaboração de programas e políticas que ofereçam alternativas para o preenchimento do tempo livre do trabalhador. Alternativas ao que os diferentes autores, enquanto intelectuais orgânicos de suas respectivas classes e interesses de classes vão identificar como práticas nocivas à vida do trabalhador e de seus filhos.

Há uma tendência forte nos estudos do lazer que é o da não consideração por parte de seus autores das múltiplas determinações de caráter histórico para o estudo dessas práticas sociais. Ora, é justamente nesta perspectiva que este estudo se propõe a fazer contribuições. Este procedimento exige examinar a base material da formação social brasileira e suas relações com o modo de produção capitalista.

Interessa-nos, então, desvelar a relação da construção de padrões morais e as relações de produção, para o período que consideramos: 1891-1968. Ou seja: propomos um pensar histórico a respeito da formação social brasileira (forças produtivas e relações de produção) e dos estudos sobre o lazer (enquanto ideologia) no período da industrialização quando se deu a passagem de um trabalho extensivo a um trabalho intensivo o que foi acompanhado pela organização dos sistemas de educação. Portanto, este ciclo vai ocorrer no contexto da industrialização no Brasil, que pediu a organização da educação. A produção dos estudos de que falamos diz respeito à disseminação de acervos de jogos, brinquedos, brincadeiras, escotismo, acampamentos, acantonamentos, excursões, e à definição de uma política de recreação, visando à conformação moral e ideológica da classe trabalhadora e de seus filhos ao projeto burguês de instalação e desenvolvimento da industrialização (MARCASSA, 2002; GOMES, 2003; BRAGA, 2005, SUSSEKIND, 1950).

Este ciclo é expressão da conjuntura da formação social brasileira na qual se dá a transição de um sistema produtivo com base na agricultura e no extrativismo para um sistema produtivo com base na industrialização, no contexto do capital monopolista.



1. Contexto histórico: o capital monopolista e os arranjos na formação social brasileira

Identificamos o contexto histórico deste primeiro ciclo no seio do modo de produção capitalista na sua fase monopolista. O processo de monopolização do capital tem sua gênese na superação do capital concorrencial e como estratégia histórica para a sua manutenção. Esse processo começou nas últimas décadas do século XIX, quando o capitalismo era vitorioso, não só na velha Europa, incluindo então a Alemanha e a Itália unificadas, mas também nos Estados Unidos e Japão, em relação a outros modos de produção. Mas a ordem instaurada pela burguesia e seu fim máximo – a acumulação de capital – enfrentava desafios que se prendiam, de um lado, às lutas da classe operária e de outro, ainda que intrinsecamente ligados, com a necessidade de superação das crises próprias da sua natureza. No fim do século XIX, para o capital tratava-se de impor-se ao trabalho, mas também de subsumir os modos de produção tradicionais que ainda persistiam e se constituíam em entraves à organização da produção e circulação dos produtos, tratava-se de subsumir e destruir todas as formas de produção que não estivessem ao serviço da produção ampliada de mais-valia1.

Após Marx e Engels, Lenine (1982) fez contribuições muito importantes para entendermos o capitalismo na sua fase monopolista. Em sua obra Imperialismo: fase superior do capitalismo, escrita entre janeiro e junho de 1916, apontou cinco características fundamentais do capital monopolista. A primeira refere-se à concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo. Nessa fase da ordem burguesa o capital empenha-se (1) na destruição e superação de modos arcaicos de produção (pré-capitalistas, de subsistência, extrativistas); (2) da luta para controlar o trabalho, e paradoxalmente, (3) para se proteger, concorre entre si, concentrando-se, do que decorre a socialização da produção, da mão-de-obra, da técnica. “O capitalismo na sua fase monopolista conduz à socialização integral da produção nos seus mais variados aspectos; arrasta por assim dizer os capitalistas, contra sua vontade e sem que disso tenham consciência, para um novo regime social, de transição entre a absoluta liberdade de concorrência e a socialização completa” (LENINE, 1980, p. 593). À socialização da produção, a ordem burguesa atrela a educação. A segunda característica diz respeito à fusão do capital, ou seja: o capital junta os vários ramos da sua atuação, fortalece-se, funde o que estava separado, o capital bancário com o capital industrial, junta-se a fazenda com o banco, recompõem-se, assim, as oligarquias. Como terceira característica Lenine aponta como o capital monopolista opera a exportação de capitais. Se na fase concorrencial o capital operava pela exportação de mercadorias, na fase monopolista o capital impera pela exportação de capitais. Abrem-se estradas de ferro, no Brasil instalam-se empresas madeireiras, algodoeiras, têxteis. A quarta característica tem a ver com a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas. A quinta característica diz respeito à partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas que levou à Primeira Grande Guerra e depois a tantos conflitos até hoje como a guerra no Afeganistão, no Iraque. Lenine escreve esta obra no calor destes acontecimentos, olhando o que está acontecendo em condição privilegiada de análise.

É deste ponto de vista que se explica o fim do trabalho escravo no Brasil (1888) e sua substituição pelo trabalho de imigrantes europeus, sob as mais diversas formas de contrato, também eles acossados nos seus países de origem pela concentração da propriedade, tratava-se de integrar, ainda que de maneira periférica, o Brasil à divisão social do trabalho do capital monopolista. É deste ponto de vista que entendemos a proclamação da república no Brasil em 1889 e a promulgação da primeira constituição da república brasileira, em 24 de fevereiro de 1891, expressão de um federalismo favorável aos setores mais modernos da burguesia usineira e cafeeira que desejava mais poder e autonomia. “Queriam mais poder decisório, para não depender de um distante e burocratizado poder central” (ALENCAR, CARPI, RIBEIRO, 2000, p. 186).



1.1 Uma formação histórica fracionada e contraditória

No Brasil do final do século XIX, não havia, portanto, um único projeto econômico, nem tão pouco um único projeto político, ao contrário havia vários e por conta, embates. Os embates eram entre as várias frações da burguesia (novas que trabalhavam com trabalho assalariado ligados ao que acontecia no mundo produtivo avançado que dirigiam a produção, e, velhas que tinham dificuldade de transitar do trabalho escravo ao assalariado, constituído por produtores fechados em ambientes rurais. Estes embates foram resolvidos por meio de acordos político-econômicos “pelo alto” (BRAGA, 2005, p. 59), que envolviam ciclos de ocupação do poder de Estado (FAUSTO, 2006) nos quais estavam garantidos interesses através do controle das contestações sociais pelo aparelho repressor (as questões sociais eram resolvidas pela polícia e exército – Canudos - 1995; a revolta da Chibata - 1910; Contestado – 1912-16). Além disto, para fortalecer-se a burguesia recorre ao protecionismo econômico, principalmente aos cafeicultores (além de aos produtores de cacau, algodão, açúcar e borracha), com políticas de criação e atuação de órgãos organizativos do processo de modernização e industrialização (o IDORT2 é um exemplo). Completando-se com justificativas científicas-ideológicas para tais empreendimentos (WEINSTEIN, 2000; CUNHA, 1980, p. 210, SODRÉ, 1990) 3.

Este setor moderno das forças produtivas organizava-se no partido republicano: “Em São Paulo existia, desde 1873, o partido republicano mais organizado do País, formado, sobretudo, por proprietários”. Para este setor convinha a organização da república numa perspectiva individualista, definindo o público como uma soma de interesses individuais. Esta visão liberal conferia-lhes a justificativa para a defesa dos seus interesses particulares. Tratava-se de interesses na base produtiva que encontravam, predominantemente, a sua expressão ideológica no darwinismo social, “absorvido no Brasil via Spencer, o inspirador do principal teórico paulista da República, Alberto Sales”. Esta versão científica- ideológica – darwinsimo sepenciano – justificava a atuação de organismos e práticas educativas e recreativas consentâneas com os interesses das elites econômicas. “Nestas circunstâncias, o liberalismo [que se expressava por aquela ideologia] adquiria um caráter de consagração da desigualdade e de sanção da lei do mais forte” (CARVALHO, 1999, p. 92-93).

Mas, é preciso dizer que no cenário social, no espectro das frações de classe, que estava posto ao final do século XIX e início do XX no Brasil, não era somente esta a ideologia que se manifestava como expressão das classes sociais hegemônicas.

Havia um setor da população urbana, formada por pequenos proprietários, profissionais liberais, jornalistas, professores e estudantes, para quem o regime imperial aparecia como limitador das oportunidades de trabalho. [...].

Para estas pessoas, a solução ortodoxa não era atraente, pois não controlavam recursos de poder econômico e social capazes de colocá-las em vantagem num sistema de competição livre. Atraíam-nas antes os apelos abstratos em favor da liberdade, igualdade, da participação, embora nem sempre fossem claros de que maneira tais apelos poderiam ser operacionalizados. A própria dificuldade de visualizar sua operacionalização fazia com que ficasse no nível das abstrações. A idéia de povo era abstrata (CARVALHO, 1999, p.94).

Era um grupo pequeno, que encontrava vantagens na defesa de uma ideologia positivista.

1.2. Organização e Resistência da Classe trabalhadora

Por outro lado e ao mesmo tempo em que se efetivava no Brasil o projeto burguês, e, que se davam passos para a expansão do trabalho intensivo (industrialização), formava-se a classe operária que se organizava. Em 1º de julho de 1892, ocorreu no Rio de Janeiro o 1º Congresso Socialista Brasileiro, encontro organizado por operários de várias partes do país e em sua maioria imigrantes, identificados com o anarquismo. A partir de 1907, os trabalhadores imigrantes com experiência artesanal e industrial, estavam já incorporados pela nascente indústria de bens de consumo que, até aqui, eram importados. Já se organizavam em sindicatos, intensificando-se a partir de 1913, lutas por melhores condições de trabalho. Cunha as descreve:

A partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o movimento operário no Brasil ingressou numa fase revolucionária: os trabalhadores tomaram consciência da possibilidade de tomar o poder. Essa mudança foi determinada, de um lado, pela deterioração das condições de vida e de trabalho, por causa da guerra; de outro, pelo amadurecimento das organizações políticas.

O efeito paradigmático de acontecimentos em outros países não foi desprezível: no período de 1917-1920, verificou-se o acirramento das lutas de classes na Europa, tendo seu ponto culminante na revolução socialista na Rússia. Em 1917, teve início um período de greves nacionais de trabalhadores. Em 1918, houve uma tentativa de golpe operário contra o governo, no Rio de Janeiro. Em 1919, as reivindicações dos trabalhadores, por meio de greves, atingiram seu ponto mais alto. Na cidade de São Paulo ocorreram 64 greves, e, na do Rio de Janeiro, 17. A partir desse ano, o movimento operário declinou com o desfecho desfavorável das greves de 1920 e por foca de repressão policias sistemática, e de contra-ofensiva ideológica. Em janeiro de 1921, foi promulgada uma lei de repressão ao anarquismo, chamada de “lei infame”. Previam-se penas para as pessoas que provocassem “danos, depredações, incêndio, homicídio” com o fim de subverter a organização social existente, fizessem a “apologia dos crimes praticados contra a atual organização social”, ou cometessem “atos de terrorismo e sabotagem”. Previa-se, também, o fechamento temporário das associações, sindicatos e outras entidades que praticassem “atos nocivos ao bem público” (CUNHA, 1980, p. 142-144).

A partir de 1920 houve novos arranjos na organização dos trabalhadores brasileiros “com o desenvolvimento da experiência soviética, a hegemonia do movimento operário foi transferindo-se dos libertários para os comunistas, haja vista que em 1922 é fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB) com a participação de um grupo de anarcosindicalistas. Aliás, os próprios anarquistas já vinham divulgando, por órgãos de imprensa, as realizações da sociedade soviética no campo educativo” (SAVIANI, 2007, p.183). Na contenção por parte do capital o PCB foi submetido à ilegalidade, ainda no mesmo ano da sua fundação, mas não deixou de se pronunciar através do BLOC - Bloco Operário e Camponês. Neste mesmo processo incluímos as realizações da Coluna Prestes – o Cavaleiro da Esperança – que entre 1924 e 1926 percorreu doze Estados brasileiros, mais de 20.000 km, no sentido de despertar a revolta da população contra o poder das oligarquias. Perseguida incessantemente pela forças governamentais, a Coluna se refugiou na Bolívia onde se desfez.

Efetivamente, entre 1922 e 1926 o governo de Arthur Bernardes é conduzido à custa do estado de sítio, “legalizando o aumento da repressão policial”. Realiza-se “uma reforma do ensino secundário e superior onde a contenção política era a tônica principal”. Entre 1926 e 1930 são acirrados os conflitos. O setor cafeeiro se depara com dificuldades em decorrência da crise do capital, cujas expressões significativas são a “quebra da bolsa de Nova York” e a queda acentuada dos níveis do emprego4.

Em 1925 o Brasil tinha 35.804.704 milhões de habitantes, a maioria vivia no campo. Ao terminar a República Velha – 1889-1930, o país contava com um setor industrial que já significava a passagem de um sistema agrário-comercial exportador a um sistema urbano – industrial e que incorporara de forma consistente a orientação fordista e a aplicava com o objetivo de submeter o trabalhador aos ditames da fábrica, controlando, inclusive sua vida íntima, como se pode ver no relatório das associações empresariais paulistas, redigido em 1926 por Otávio PUPO Nogueira, secretário – geral da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP): “Os lazeres, os ócios, representam um perigo iminente para o homem habituado ao trabalho, e nos lazeres ele encontra seduções extremamente perigosas, se não tiver suficiente elevação moral para dominar os instintos subalternos que dormem em todo o ser humano” (SAVIANI, 2007, p. 190). Em 1928 era criado o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP). A industrialização vinha se fazendo com investimentos internos e externos, a ideologia do controle do tempo livre aparece como instrumento de controle da classe operária e com dimensões formativas e educacionais em ambientes formais.

3.1 A Reorganização na Era Vargas

Os vários projetos existentes próprios das várias frações da burguesia, a crise do capital em nível externo – crash da bolsa de Nova York – e a resistência dos trabalhadores desembocaram na Revolução de 1930, que ao mesmo tempo foi a manifestação das dissidências no conjunto das frações da burguesia e contenção de um projeto socialista – Façamos a revolução antes que o povo a faça – dizia Antônio Carlos governador de Minas Gerais. O desfecho do conturbado processo eleitoral de 1930 foi a posse de Getúlio Dornelles Vargas que no contexto do período entre guerras e da Segunda Guerra Mundial vai estar à frente do governo brasileiro, entre 1930-1945 durante o qual o capital ora com um grupo ora com outro vai consolidando a sua hegemonia.

Portanto, a partir de 1930 intensificou-se no Brasil, enquanto país periférico no modo de produção do capital monopolista: (1) o processo de industrialização e urbanização; (2) a intensificação da expansão do trabalho intensivo e concomitantemente (3) a regulação do trabalho (CLT), e (4) a organização do sistema de educação pelo Estado. Neste contexto, foi desencadeada uma intensa produção de orientações não só para a condução das práticas escolares propriamente ditas, mas também para a ocupação do tempo livre, dimensões e espaços formativos tidos como importantes para a consecução do processo societário brasileiro.

A organização das várias frações do capital na Era Vargas foi feita por dentro de um Estado que uso da centralização e do recurso de forças repressoras. Os projetos e ideologias da burguesia oscilaram entre promover a produção para um mercado interno e produzir com resultados ligados a mercados externos, representados pela UDN e PSD. O saldo do período decorrido entre 1930 e 1945 foi favorável ao capital que teve no Estado totalitário getulista os instrumentos necessários para tal, entre os quais, (1) os sindicatos controlados, (2) a impressa e a propaganda controlada pelo DIP, (3) a educação formal no qual sobressai o culto às figuras do poder e os desfiles patrióticos (práticas próximas ao que os estados fascistas faziam na Itália e na Alemanha) e (4) não formal, com as orientações ao controle do tempo livre da classe trabalhadora.

A resistência ao fascismo aglutinou-se em 1934 e 1935 na Frente Antifascista, na Aliança Nacional Libertadora que reunia líderes sindicais, líderes tenentistas, comunistas e socialistas e tinha como presidente de honra Luís Carlos Prestes. A ALN foi fechada em 1935 pelo governo. Este ato provocou a reação dos comunistas que organizaram as insurreições militares no Rio Grande do Norte, em Pernambuco, Rio de Janeiro, dominadas pelo governo.

Implementa-se o projeto burguês de neutralização da luta de classes (Simonsen, citado por Weinstein, 2000, p. 88) promovendo-se o controle da organização dos trabalhadores em sindicatos através da Consolidação das Leis do Trabalho (1943) e a conformação da classe trabalhadora, através de projetos educacionais. Regulamenta-se o ensino industrial e secundário (1942), o ensino comercial (1943), normal e primário agrícola (1946), complementados pela criação do Sistema “S” (SESC, SENAI, SENAC e SESI) e das bases daquele que será o maior Sistema de Prestação de Serviços em Lazer no Brasil5.

Quando o Governo de Getúlio Vargas (1930-1945) põe em prática a política de contenção da classe trabalhadora e o atendimento aos interesses que a fazia rebelar-se, era considerando, ao mesmo tempo, o atendimento aos interesses da burguesia interna, e a necessidade de cuidados com a conjuntura internacional. Os textos de Arnaldo Sussekind, intelectual orgânico dos interesses burgueses hegemônicos na ocasião, ao defender o direito ao repouso remunerado tutelado, revelam que o projeto de Vargas visava, ao mesmo tempo, às condições para a modernização e industrialização do país e ao debate com os interesses liberais (radicais) que não consideravam a necessidade de contenção das pressões sobre os trabalhadores na conjuntura do Brasil e do mundo na década de 40. Este embate entre visões sobre a forma mais adequada para encaminhar os conflitos entre capital e trabalho, é descrito por Hobsbawm (1995) como um movimento que vai ocorrer em todo o mundo.

Um dos intelectuais orgânicos da burguesia, para este período, foi Roberto Simonsen. Nos seus discursos, pronunciados na década de 30, traça um programa para a indústria brasileira, baseado na organização racional da produção. Weinstein ao analisá-los destaca uma evolução no discurso de Simonsen, demonstrando uma comparação entre os modelos de administração científica e fordista, “... acusando o sistema de bônus de Taylor, de despertar de forma cruel o apetite dos operários pelos ganhos materiais, ao mesmo tempo em que aprovava o destaque dado por Ford à cooperação, aos serviços e padrões mais altos de consumo”, destacando a defesa de Simonsen de uma “racionalização integral da produção” que envolvia “conhecimentos sociológicos e psicológicos e também inovações puramente técnicas”. Interessa-nos destacar a visão de mundo de Simonsen, muito bem exposta pela autora:

[...] Simonsen previa uma era de harmonia social decorrente da organização científica da sociedade. Depois de inspirar uma política de trabalho avançada, a racionalização iria evoluir para um “sistema político” baseado na “razão e no conhecimento técnico”. Em seguida Simonsen dissertou sobre “um verdadeiro equilíbrio entre os elementos que constituem as forças vivas da produção. A racionalização tem profundos efeitos sociais e contraria de forma patente as idéias fundamentais do marxismo[...] O contínuo desenvolvimento da cultura técnica e profissional, que os próprios sindicatos reclamam, a aceitação do controle operário na solução de problemas econômicos, tudo isso contribui para neutralizar a luta de classes prevista por Karl Marx” (WEINSTEIN, 2000,p. 88).

Os governantes brasileiros sabiam o que estavam fazendo. Os traços que definiram as características da Recreação nas décadas de 30 e 40, em que esta é destinada à recuperação física, à contenção das mobilizações de classe dos trabalhadores e à formação das crianças trabalhadoras serão mantidos nas publicações durante as décadas de 50 e 60, até, aproximadamente, os movimentos de 1968, quando, a nosso ver, entra em cena, nos estudos a respeito, o questionamento dos pilares do desenvolvimento do capitalismo: a ideologia liberal do trabalho como produtor da riqueza individual e a centralidade da razão instrumental na organização do mundo e do conhecimento.

Este processo histórico, a nosso ver, expandiu-se, afirmou-se até à década de 1960, quando, então, foram produzidos novos arranjos para a intensificação de produção de lucros e consolidação do sistema sob a forma de um regime político liberal totalitário, processo que se inicia com o golpe de 1964 e se fortaleceu com o Estado de exceção que culminou com o Ato Institucional n. 5 de 13 de dezembro de 1968 e que buscou consolidar-se com a atuação do aparelho repressor – Decreto-Lei n. 477 de fevereiro de 1969 que in institucionalizou e rotina de prisões e tortura. Em 1960 o Brasil passou a 70.967.185 milhões de habitantes, ou seja: a população havia dobrado em 25 anos, destes, no meio desta década, 50% estava no campo e outros 50% na cidade. O aumento de operários entre 1920 e 1960 cresceu 579, 2%. Necessariamente isto exigia cuidados por parte dos ideólogos, dos legistas, dos educadores, do aparato da superestrutura.

No Brasil, na década de 1960 fecha-se também um ciclo econômico caracterizado pela instalação da industrialização, que possibilitou o fim da substituição das importações. A contenção aceita pela classe operária em troca da industrialização e trabalho explode em reivindicações exigindo reformas de base. O Regime político civil militar imposto em 1964 foi para impor os limites às mudanças reivindicadas na ordem econômica e social. É neste contexto de contenção e fortes resistências e no cenário da guerra fria que um novo ciclo de estudos sobre o lazer vai acontecer no país.




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