Primeiro princípio a entender



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O INTELIGÍVEL, O INTERPRETÁVEL E O COMPREENSÍVEL (ENI P. ORLANDI – LEITURA: PERSPECTIVAS INTERDISCIPLINARES – CAPÍTULO 05)
As discussões propostas pela autora têm objetivos externos e internos.


  1. externos – problematizar os processos de produção da leitura aos que trabalham com o seu ensino;

  2. internos – apreender o funcionamento da compreensão (seus mecanismos, o que representa em termos de discurso etc).


Primeiro princípio a entender: não é só quem escreve que significa; quem lê também produz sentidos.
Segundo princípio: a determinação histórica dos processos de significação.
É fundamental entender que:

a) quando lemos estamos produzindo sentidos (reproduzindo-os ou transformando-os).

b) quando lemos estamos participando do processo (sócio-histórico) de produção dos sentidos e o fazemos de um lugar e com uma direção histórica determinada.
Continuando...

A autora diz que o cerne da produção de sentidos está no modo de relação (leitura) entre o dito e o compreendido.
Vamos entender melhor o processo...

Afinal, o que é o signo?

- o signo é o resultado de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no curso de um processo de interações.


Para compreender a discussão da professora Orlandi, é fundamental ficar clara a seguinte idéia:

O homem faz história mas a história não lhe é transparente.


A naturalidade dos sentidos é, pois, ideologicamente constituída. A transparência dos sentidos que “brotam” de um texto é aparente, e tanto quem ensina quanto quem aprende a ler deve procurar conhecer os mecanismos que aí estão jogando.
Vale ressaltar que a historicidade é central para nossas considerações...
Também que:

- o discurso materializa o contato entre o ideológico e o lingüístico no sentido em que ele representa, no interior da língua, os efeitos das contradições ideológicas e, inversamente, ele manifesta a existência da materialidade lingüística no interior da ideologia (Courtine, 1982).
Finalizando a introdução, a autora vai dizer:

- os sentidos não nascem ab nihilo. São criados. São construídos... estão permeados pelas relações de poder com seus jogos imaginários.
O MODO DE LEITURA E O SUJEITO-LEITOR CORRESPONDENTE

O que temos não é transmissão de informação mas efeitos de sentido entre locutores. Daí decorre o que se pode chamar de efeito-leitor.


A gente não pode esquecer que os sentidos não são propriedades privadas: nem do autor, nem do leitor. Tampouco derivam da intenção e consciência dos interlocutores.
Os sentidos são partes de um processo. Realizam-se num contexto mas não se limitam a ele. Têm historicidade, têm um passado e se projetam num futuro.
O LUGAR-SOCIAL DA LEITURA: O ALOCUTÁRIO, O DESTINATÁRIO, O LEITOR

Há três funções enunciativo-discursivas do sujeito:



  1. locutor – é que aquele que se representa como “eu” no discurso;

  2. enunciador – corresponde às perspectivas como que esse “eu” se apresenta;

  3. autor – é o princípio de agrupamento do discurso, unidade e origem das suas significações. Nessa perspectiva, o autor é a função que o “eu” assume enquanto produtor de linguagem, sendo a dimensão do sujeito mais determinada pela relação com a exterioridade, com o social.


Do lado da recepção, também há três funções:

  1. alocutário – corresponde à função do locutor;

  2. destinatário – à do enunciador;

  3. o leitor – corresponde a função do autor.


Vamos entender melhor...

O alocutário é o “tu” a quem o “eu” do locutor se dirige;


O destinatário é o “outro” da perspectiva do enunciador, ou seja, uma perspectiva de leitor construída pelo enunciador; é o leitor ideal, inscrito no texto, por antecipação.
E o leitor é aquele que se assume como tal na prática da leitura, numa ordem social dada, em um lugar específico.
O leitor se constituí um sujeito afetado pela sua inscrição no social. Ele entra com as condições que o caracterizam sócio-historicamente.
INDIVIDUALIDADE E INDIVIDUAÇÃO: AS DUAS FACES DA SUBJETIVIDADE

O sujeito do discurso é constituído pela interpelação ideológica e representa uma forma-sujeito historicamente determinada.


Isto quer dizer que pode ser diferente nos diferentes momentos históricos.
E como é o sujeito histórico de hoje?

A ideologia o tornou um sujeito supostamente autônomo, livre. Ele hoje é o sujeito capitalista.


Estamos amarrados à individualidade. Temos que ser originais, criativos...
Por isto, a autora vai nos lembrar que o sujeito-leitor do século XIII, do século XVII e o de hoje são diferentes.
O nosso sujeito-leitor acolhe ao mesmo tempo a idéia de individualismo e o mecanismo coercitivo de individualização imposto pela instituição e que produz sentidos, ao ler.
A RELAÇÃO ENTRE O CONTEXTO DE ENUNCIAÇÃO E O CONTEXTO HISTÓRICO

O contexto de enunciação está relacionado com o contexto de situação – em sentido estrito (o aqui e agora).
Já o contexto histórico tem relação com um contexto mais amplo – ou seja, que se busca na própria história.
Quando levamos em conta o contexto histórico, identificamos que há um repetível (pré-construído) – que faz ou constrói o “domínio do saber”.
FORMAÇÃO DISCURSIVA, PRÉ-CONSTRUÍDO E REFERENCIALIDADE

Neste tópico, vamos entender como se inscreve o espaço do repetível.
A autora vai nos dizer sobre memória e esquecimento; vai dizer que memória e esquecimento se misturam.
Sujeito, memória, sentido

Primeira coisa a entender é a idéia de ilusão do sujeito.
Essa ilusão se realiza por dois esquecimentos:

  1. o de que o discurso não nasce no sujeito, por isso os sentidos não se originam nele, são retomados por ele;

  2. o de que ao longo do seu dizer se formam famílias parafrásticas com aquilo que ele poderia dizer mas rejeitando para o não-dito, e que também constitui o seu dizer.

Primeiro esquecimento se origina na ilusão do sujeito de que é a fonte de seu discurso (o que eu digo tem o sentido que eu quero – onipotência do sujeito);


Segundo, se origina na ilusão da realidade de seu pensamento (o que eu disse só pode significar “x”).
No primeiro se inscreve a eficácia do assujeitamento (ou ilusão da autonomia do sujeito); no segundo, a estabilidade referencial (ilusão da transparência dos sentidos).
Formação discursiva e a constituição do sentido

É o que determina o que pode e deve ser dito, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada. Isso significa que as palavras, expressões etc... recebem seu sentido da formação discursiva na qual são produzidas.


O sentido de uma palavra, de uma expressão etc... não existe em si mesmo (não existe literalidade – embora tenhamos a impressão de transparência do sentido – dado pela ideologia).
Resumindo a tese, diríamos que as palavras, expressões, proposições etc mudam de sentido segundo as posições mantidas pelos que as empregam, o que significa que elas tomam seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referência às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem.
A formação discursiva – em sua correspondência com a formação ideológica – define as condições de exercício da função enunciativa.
A afirmação acima é fundamental para o analista do discurso.
Entretanto, é importante ressaltar que a formação discursiva não funciona como uma máquina lógica.
Há deslocamentos contínuos – contradições. Cada formação discursiva define-se em sua relação com as várias outras formações, em sua articulação (contraditória) com a ideologia.
Por isso, em análise do discurso, se considera que o que define o sujeito é o lugar do qual ele fala, em relação diferentes lugares de uma formação social.
Não podemos deixar de inserir o sujeito num contexto e muitos menos de considerar as condições de produção de um enunciado – relação do sujeito com a situação, com os interlocutores, com a ideologia numa conjuntura histórica dada etc.
Formação discursiva e o repetível

Orlandi vai dizer que constituição e formulação são duas instâncias, mas são inseparáveis. E é nessa relação que o sujeito intervém no repetível.
O interdiscurso (o repetível) está no intradiscurso (seqüência lingüística específica).
O repetível (domínio de saber) é uma sistematicidade que não é abstrata, incorpórea – é histórica.
É na relação com a memória – enquanto espaço de recorrência das formulações com a ideologia – que os objetos do discurso adquirem sua estabilidade referencial.
Importante: os objetos de discurso – que não enunciação são colocados por conta do sujeito – adquirem sua estabilidade referencial pelo repetível (o pré-construído). Sem esquecer que o que joga na relação com o repetível não é o sujeito-em-si mas posições do sujeito que regulam já o próprio ato de enunciação.
O ajuste enunciativo desaparece aos olhos de quem enuncia, garantindo, na aparição de um eu-aqui-agora, a eficácia do assujeitamento: o sujeito tem a ilusão de ser a origem do que diz (e do que lê).
UMA METÁFORA VISUAL: TEXTO E PERCEPÇÃO

Sobre a leitura, Orlandi vai fazer uso de uma metáfora.
Ela ressalta que a percepção não é linear, completa, fechada, “plana”.
A nossa percepção é “desorganizada” – não é fixa, não se faz de um lugar só. O olhar é móvel, atinge e se desloca por pontos (posições) diferentes.
Há várias perspectivas que o olhar assume (a polifonia, na linguagem verbal), e a foto fixa uma, idealizada. Por outro lado, há vários pontos de fuga.
Todo texto em relação à leitura teria, pois, vários pontos de entrada e vários pontos de fuga.
Os pontos de entrada corresponderiam a múltiplas posições do sujeito.
O leitor pode produzir leituras que encaminham-se em várias direções. Não necessariamente previstas, nem organizadas, nem passíveis de cálculo.
Os pontos de entrada são efeitos da relação do sujeito-leitor com a historicidade do texto. Os pontos de fuga são o percurso da historicidade do leitor, em relação ao texto.
Há um efeito de refração – em relação à sua (do leitor) história de leituras... é isto que faz o leitor se apoderar e intervir no legível.
A relação entre o sujeito-leitor e o texto não é, pois, nem direta nem mecânica. Ela passa por mediações, por determinações de muitas e variadas espécies que são a sua experiência da linguagem.
CONCLUSÃO: A FORMA-SUJEITO E A COMPREENSÃO

Três relações do sujeito com a significação
Aqui nós vamos entender a idéia do que é inteligível, o interpretável e o compreensível.


  1. inteligível – é a simples codificação e decodificação (exemplo: ele disse isso).




  1. Interpretável: aqui se atribui sentido – quando temos a impressão de que há uma relação direta entre o texto e o que ele significa. O leitor apenas reproduz o que já está lá produzido.

A leitura do intérprete não desconstrói o funcionamento ideológico de sua posição como (forma) sujeito-leitor, apenas a reflete.




  1. Compreensível – é atribuição de sentidos, considerando o processo de significação – é saber que o sentido poderia ser outro.

Para chegar à compreensão não basta interpretar, é preciso ir ao contexto de situação (imediato e histórico).


Resumindo... O sujeito que produz uma leitura a partir de sua posição, interpreta. O sujeito-leitor que se relaciona criticamente com sua posição, que a problematiza, explicitando as condições da sua leitura, compreende.
Sem teoria não há compreensão.
A interpretação: hermenêutica e análise de discurso

A análise de discurso não é um método de interpretação, não atribui nenhum sentido ao texto. O que ela faz é problematizar a relação com o texto, procurando apenas explicitar os processos de significação.







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