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TOMÁS DA FONSECA
NA COVA DOS LEÕES
LISBOA

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(Paginação Cabeçalho)
NA COVA DOS LEÕES

PRINCIPAIS OBRAS DO AUTOR
Evangelho dum Seminarista, 1903 (esgotado)

Deserdados (Poemas, com prefácio de Guerra Junqueiro), 1909 (esgotado)

Sermões da Montanha - 1.a edição portuguesa, 1909; última

edição brasileira. Editorial Germinal, Rio de Janeiro, 1947

Cartilha Nova - 1.a edição, 1912; 2.a, 1915 (esgotado)

Origem da Vida - 1912 (esgotado)

Memórias do Cárcere - 1919 (esgotado)

Musa Pagã (Poemas) - 1921

História da Civilização relacionada com a de Portugal - 2.a edição, 1929

Cartas Espirituais - A Mulher e a Igreja - 1922 (esgotado)

As Congregações e o Ensino - 1924 (esgotado)

Erro de Origem - Transformismo Religioso - 1925

Questão Romana (colaboração de Brito Camacho) - 1930 (esgotado)

No Rescaldo de Lourdes - 1932 (esgotado)

O Santo Condestável - 1932 (esgotado)

A Igreja e o Condestável - 1933 (esgotado)

O Púlpito e a Lavoura - 1947 (esgotado)

D. Afonso Henriques e a Fundação da Nacionalidade - 1949

Memórias dum Chefe de Gabinete - 1949 (esgotado)

Águas Novas (Peça Dramática) - 1950 (esgotado)

Águas Passadas - 1950 (esgotado)

Filha de Labão (Romance) - 1951

A Pedir Chuva... - 1955

Fátima - 1955 - edição brasileira

Guerra Junqueiro (Conferências) - 1956

Agiológico Rústico - I - Santos da minha Terra - 1957


A Publicar:

Agiológico Rústico - II - Santos da Terra Alheia

O Diabo no Tempo e no Espaço IX,

- Oferta


(2002-07
Tomás dA fonseca
NA COVA

DOS LEÕES


- Para mostrar Que a gente pela Verdade Se deve deixar matar

JOÃO DE DEUS
Destinada ao Brasil

LISBOA - 1958 =

À Honrada Memória de

ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS -que, no exercício de suas funções de Administrador do Concelho de Vila-Nova-de-Ourém, muito se esforçou por evitar o embuste de Fátima, - que a Igreja continua perfilhando e explorando com a repulsa dos cristãos verdadeiros.



EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA
Numa reunião de delegados republicanos, eFectuada em Lisboa, para tomarem conhecimento do programa apresentado pelo candidato à presidência da República - General Norton de Matos - e assentar na orientação a dar à campanha eleitoral, o Dr. Santos Silva, que fizera parte da mesa e conversava com o candidato, chamou-me para me dizer:

- Lembrámos a conveniência de você aparecer na imprensa, escrevendo coisas no género que lhe é familiar. Já tem um belo tema - a pregação do sacerdote minhoto, a que se referiu o Dr. António de Macedo. 1)

Aleguei razões de escusa, às quais poderia ter juntado o facto de estar ainda quente o lugar que durante um mês ocupara no Aljube. Além disso os jornais já por várias vezes tinham aludido à minha “provecta idade”. Deveriam chamar os novos, alguns bem preparados e aguerridos. E fiquei nisto.
(1) Afirmara aquele advogado portuense que, numa Igreja do Norte, um sacerdote iniciara a campanha eleitoral, dizendo aos seus paroquianos: “Votem todos com o nosso pároco”

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Mas, no dia seguinte, quis o destino que eu subisse à redacção da “República), onde encontrei diversos publicistas, entre os quais perorava Rocha Martins, que, mal me viu, exclamou:



- Você também deve aparecer... A hora exige-o. Escreva, por exemplo, uma carta a um pároco de aldeia, naquele seu estilo, que tanta agrada às massas.

- Homem, deixe-me em paz - respondi-lhe. E contei o diálogo havido na reunião dos delegados provinciais.

Mas do grupo outros me invectivaram e com argumentos de tal peso que eu tive de vergar:

- Pois bem, Carvalhão Duarte! Amanhã aqui terá a prosa que me impõe.

Foi assim que apareceram no dia 8 de Janeiro de 1949, as “Palavras calmas a um provinciano inquieto”. O incêndio que em seguida atearam vê-lo-ão adiante, em alterosas chamas, que

dir-se-ia anunciarem o dies irae da justiça divina, tão impetuosamente galgou e abrasou, em poucos dias, a pobre terra portuguesa, de ordinária resignada e apática.

E por culpa de quem, apavorada gente? Para que me acordaram? E, acordado, para que me empurraram? Ignoravam, porventura, que não tenho a fala para ocultar os pensamentos? Ou

julgariam que a tal “provecta idade” me teria levado a desertar do campo onde, durante meio século, me bati, enfrentando a Reacção, quer me surgisse de coroa, quer de mitra ou de tiara, a tolher-me os passos ou a desviar a luz que alegra os corações e fortalece a alma?

Pois aí têm. E agora extingam, se virem que há vantagem, o incêndio a que não quiseram acudir, quando era ainda um pequeno fogacho, que qualquer abafaria com um simples ramo verde, ou com a sola do sapato. Por mim, não tentei o menor gesto para o dominar, porque achei bem que se lançasse e longamente ardesse, a ver se aquecia tanto o corpo arrefecido, iluminando ao mesmo tempo a legião de consciências e vontades que jazem amodorradas no indiferentismo, na miséria ou nas desilusões que os anos acarretam.

Só o tempo nos dirá se realmente iluminou e pôs de pé esses amodorrados, ou se a labareda foi tão forte, que tudo haja esterelizado e reduzido a cinzas.

Alguém me diz que um livro da natureza deste, posto a circular em Portugal, põe em risco, não apenas a liberdade do autor, mas ainda a sua própria vida. Embora! Morra ele, mas vivam os tristes que salpicam de lágrimas e sangue os caminhos que levam aos santuários donde regressam mais pobres e mais desventurados!

Sim. Morra ele, mas vivam esses e, com eles, todos os que têm fome e sede de justiça E morra como deve morrer: no campo donde se volta livre, ou se não volta mais!

PRIMEIRA PARTE
“CASUS BELLI”

PALAVRAS CALMAS A UM PROVINCIANO INQUIETO (1)


Caro Amigo:

Diz você na sua carta: “O pároco da minha freguesia iniciou há dias a propaganda eleitoral com esta exortação: Votai todos com o vosso pároco! E comenta: “É necessário opor-lhe, desde já, uma campanha tal que o faça recolher à sua função de pastor de almas. Porque o padre, ou representa Cristo, e nesse caso só lhe compete pregar o Amor e a Concórdia, ou é agente eleiçoeiro, e então forçoso se torna irmos ao seu encontro, a fim de o conduzirmos ao caminho de que se haja desviado”.

Não sei se alguém respondeu já à sua inquietação. Apesar disso, também quero acudir, na esperança de que as minhas palavras possam atenuar o alvoroço que a sua carta nos revela.

Não é preciso ser-se muito lido, nem ter largo convívio com pessoas de igreja, para poder afirmar que, embora o sacerdote em causa haja lançado esse convite às ovelhas que pastoreia,

(1) Publicadas no diário lisbonense “República” a 8 de Janeiro de 1949.

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não acredito que o seu exemplo seja contagioso a ponto de constituir perigo para a vitória do candidato, que o meu amigo tão ardorosamente se propõe defender.



Sucederá isso numa ou noutra freguesia minhota, onde a ignorância e a miséria enchem a igreja até à porta; mas, nas outras, como no resto do país, a prudência e o bom senso do clero evitarão que as ovelhas que pastoreia enveredem por tal caminho, onde, por vezes, há silveirais e pedregulhos de pôr medo. Demais sabe ele que o eleitor dos nossos dias há muito se encontra suficientemente esclarecido para poder votar, não por sugestões, venham de onde vierem, mas segundo o seu critério e conveniências sociais, que, quase sempre, condicionam também as económicas.

Por muito que se tenha feito para limitar a propaganda de pessoas e de credos políticos, pouca gente haverá que não esteja elucidada acerca do momento que passa e, portanto, dos interesses do país e posição dos homens que se propõem governá-lo. Não pode, pois, o clero constituir excepção, sobretudo os velhos sacerdotes que, pelo muito que já viram e ouviram, e ainda pela esperiência de passados embates, perfeitamente sabem que o povo deixou de ser criança, tendo atingido aquela maioridade que lhe trouxe a noção do dever e da responsabilidade, tanto dos actos que pratica, como dos que, por incúria ou negligência, deixa de praticar. Sabe, pois, o clero que as qualidades morais, a piedade, a tolerância e a bondade do povo são tradicionais; mas sabe igualmente que, quando alguém abusou desses dons naturais,

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raramente o povo deixou de responder com aquela coragem e civismo que a história nacional regista a cada passo.



O tempo ensinou-o a ser cauto. E essas lições, aliadas às que, por vezes, lhe chegam dos superiores hierárquicos, têm-no tornado mestre na arte de prever e saber conciliar. Pois não guarda ele, entre as pastorais diocesanas, a prudente mensagem que, em 29 de Março de 1934, o representante da Santa Sé junto do episcopado português lhe transmitiu, primeiro, através da Emissora Nacional, e em seguida, por toda a denominada boa imprensa? Recomendava, com efeito, o Patriarca Cerejeira, já nessa altura assistente ao Sólio Pontifício: “Todo o esteio duma coação puramente policial não fará mais que manter de pé um cadáver”.

Foi conciso e terminante. E o clero português registou o aviso, e, assim prevenido, mantém-se nas paróquias à escuta e de olhos bem abertos sobre a passagem do Evangelho que aconselha prudência, naquela fórmula tanta vez recordada nas encíclicas e rescritos pontifícios, que em seguida se repetem dos púlpitos e de boca em boca são levadas a crentes e descrentes: A Deus o que é de Deus e a César o que a César pertence”.

Ora, o pároco da sua freguesia sabe perfeitamente que o César de que fala o Evangelho é o Mundo, que Deus, no acto da criação, separou logo do Céu. Esclarecido como está, também esse padre saberá separar os dois poderes, considerando, sobretudo, aqueles que os teólogos de todas as idades e nações recomendaram sempre - o de Deus. E como Deus é puro espírito, o seu pároco, um momento esquecido

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das doutrinas do divino Mestre, há-de voltar, se é que já não voltou, à lei de Deus.



E tão grande a confiança que nele ponho, que se me não dava de apostar em como, embora não vote no nosso candidato, a ninguém ousará recomendar o contrário. E se não experimente. Procure-o no tribunal da penitência, onde não recusará ouvi-lo, e invocando escrúpulos de consciência, formule-lhe o quesito: - Vim aqui, meu padre, porque desejo não errar, votando em cidadão menos digno. Qual é, pois, o nome da pessoa em que vota?

Creio que a minha fé me não ilude, e por isso apostaria novamente em como a fala dele não irá fora disto: “O meu candidato é Deus, para o espiritual, mas como estou ligado ao mundo pelo rebanho que o mesmo Deus me confiou, votarei também no outro, que, embora mortal e pecador, reunirá, decerto, virtudes morais e cívicas em grau suficiente para bem conduzir a nau do Estado. Portanto, indague como eu, e vote conforme a sua consciência”.

Noutra carta apontarei as razões que tenho para afirmar que o clero português votará largamente no candidato nacional, ou seja - o da Oposição.
Caro Amigo:

Antes de mais nada, desejo recordar, para que me não julguem incoerente com um passado que vem já de muito longo, as seguintes palavras que pronunciei no Senado, em sessão de 29 de Março de 1917, acerca do regresso das congre-gações religiosas a Portugal, que lhes ficou

devendo, além de séculos de miséria e opressão, o grande atrazo cultural que a história registou em páginas que não esquecem mais: (1)

(1) Escreveu Alexandre de Gusmão, Ministro de D.João V:

- “Quanto se não faz odiosa a perniciosa conduta dos Jesuítas, pretendendo com as suas máximas arruinar três reinos os mais poderosos? (Colecção de Vários Escritos

Na mesma ordem de ideias, o Cardeal Saraiva (Fr. Francisco de S. Luís), que morreu Cardeal Patriarca de Lisboa, deixou-nos, entre os seus numerosos escritos, a famosa Memória sobre o estado das leiras em Portugal na primeira metade do século XVIII, de que registaremos apenas uma simples amostra:

“Ninguém hoje ignora a triste decadência e abatimento a que chegou a literatura portuguesa nos fins do século XVI e por todo o XVII

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“Não veja o Senado, nas palavras que vou pronunciar, qualquer fórmula de ataque ao sentimento religioso, ao ideal místico daqueles que sinceramente crêem e confiam na intervenção de um Deus, que é, para muita gente simples, essa esperança falaz que os norteia na vida e os embala na morte.,. Não venho ferir crenças, mas atacar embustes... Falo daqueles que têm Deus como instrumento do seu ódio; que, aproveitando a religião como gazua, exercem o sacerdócio, não para salvar as almas, mas forçarem a espórtula, sua ambição suprema... As palavras veementes que da minha boca se soltarem, essas vão para os caixeiros-viajantes do dogma cristão - os arlequins que andam de templo em templo,


(continuação da nota da página anterior)

“Assim, desde o ano de 1620, em que fechamos com, o

nome do grande Frei Luís de Sousa a lista dos nossos bons escritores, começamos a observar entre nós, em todos os ramos de literatura e erudição, a mais rápida e sensível decadência, mostrando-se nos engenhos portugueses tão incrível e prodigiosa transformação, que parece indicar um geral transtorno em toda a sua constituição física, moral e política.

“Não foi esta notável mudança obra de um só momento ou de uma só causa.

“Um fatal concurso de circunstâncias a preparou e chegou a consumar pelo decurso de muito mais de um século...

“Podemos, sem receio de errar, atribuir uma das primeiras e não menos principais causas daquela decadência ao inconsiderado arbítrio de se confiar a uma só corporação o importante cargo de educação e ensino da mocidade - à introdução e estabelecimento dos jesuítas em Portugal.

“Esta corporação ambiciosa e astatuta, constante nos seus planos e uniforme em suas operações, serviu-se oportunamente de todos os meios que as circunstâncias lhe ofereciam para assenhoriar-se da educação e ensino da mocidade, que é a primeira base e fundamento dos progressos nacionais”,. (Obras Completas, Vol. X, pág. 273 a 306;. (fim da nota)

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vendendo a peso de ouro o corpo do seu Deus, ou trespassando a retalho a túnica que o cobriu”. (1)



Assim apresentado às gerações que de mim nunca ouviram falar, passo ao tema que me propus agra desenvolver e que em três pontos se desdobra:

1.) O clero português não está com a actual situação política; 2.) O clero sofre com o povo, e, por isso,… 3.) o clero português anseia, como nós, tempos melhores, sem miséria, sem ódio e sem tiranos.

Para demonstrar o 1." ponto, bastariam as queixas formuladas em jornais, boletins, circulares e relatórios, que de contínuo são levados junto das estações oficiais, a começar nos bispos e a findar nos curas das aldeias. Como as escolas públicas, também as igrejas, capelas e ermidas, mormente na província, se encontram em estado de ruína, umas; ao abandono, outras, e grande número totalmente esquecidas. Em muitas delas o exercício do culto é mantido quase exclusivamente com as alfaias que a República lhes deixou após a Lei da Separação, tão benigna, afinal, que nem sequer aproveitou, para usos civis, muitos dos templos que os próprios bispos desprezavam como desnecessários. A República preveniu a miséria do clero e deu trabalho, em repartições do Estado, aos que, tendo perdido a fé, não quiseram continuar a exercer actos de culto, que os rebaixariam perante a própria consciência. Para os que já tinham constituído família, procedeu em harmonia com a verdadeira

(1) As Congregações e o Ensino, pág. 1 e 2.



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caridade cristã, deste modo salvando da miséria e do opróbio criaturas sem culpa.

Tem procedido assim a situação actual, unida à Igreja pela Concordata? Todos sabem que não. Pelo contrário: os que despem o hábito e procuram trabalho compatível com a sua cultura são apontados como indesejáveis e banidos de postos ao abrigo das receitas do Estado. E padres há que enlouqueceram, porque os obrigaram a renegar filhos que muito amavam.

Há terras onde o padre, para poder viver, é obrigado a acumular o serviço de duas ou mais paróquias. E quantas vezes recorre ainda a trabalhos agrícolas?! Outros sei eu que se viram na dura contingência de vender os próprios santos e alfaias do culto. {-) Culpa de quem? Dos crentes que não pagam, ou dos bispos, que lhes não assistem como devem?

Mancomunada com o Estado pelo cordão umbilical da Concordata e sob o peso de orçamentos brutais que levam coiro e cabelo, a Igreja desligou-o daquele nível de vida a que
(1) Um deles, conhecido e creio que amigo do jornalista Rocha Martins, vivia, há pouco ainda, nos arredores de Lisboa.

(2) Há numerosos casos, em todos os bispados, principalmente no centro e sul do país. Que o digam os antiquários e coleccionadores de imagens. Um dos párocos do meu concelho, há poucos anos falecido, conseguiu que o regedor, (também já deu contas a Deus") retirasse da sua capela uma rara e valiosa imagem de S. Pedro (Século XIV), que escondeu num carro de mato, para que o Povo ignorasse os valores do roubo. Acabou por saber, mas quando o santo já fora negociado por um coleccionador de imagens medievais.

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se julga com direito, garantido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada e aceite por todos os povos cultos.



Por seu lado o povo, incluindo o próprio aldeão, na ânsia de garantir aos seus o pão de cada dia, nem tempo encontra para assistir à missa, quanto mais para frequentar os sacramentos! Desligou-se da Igreja, porque o Estado o desligou também do tal nível de vida, que conheceu em tempos que não vão longe. Além disso, as populações rurais deixaram de ler, de se congregar em centros de cultura, de ouvir preleções, de serem despertadas para as coisas do espírito. Nas escolas ainda se ensina a ler, escrever e contar, mas a maioria das crianças, passado pouco tempo, lembra apenas, e isso muito confusamente, a doutrina da Cartilha, com que os professores, mal preparados para a catequese, lhes martelaram a memória. E daí a antipatia que lhes fica por um ensino que não puderam compreender, não só por ser ministrado antes da idade e fora do lugar próprio, mas ainda por mestres, muitas vezes ateus, que, tendo Deus nos lábios, acarinham o Diabo no coração.

“Cada coisa tem a sua idade e o seu lugar! - comenta o pároco sensato. - O ensino na escola, a catequese nas igrejas. Porque razão deixaria o Estado de confiar-nos esse piedoso exercício?” O resultado está à vista. A doutrina com que o escolar aparece na igreja leva tudo menos o sentido cristão, que lhe não souberam ou não quiseram transmitir. Um tal espectáculo deprime, diminui e desalenta o clero, pois vê que a indiferença pelas coisas de Deus principia nas escolas.



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Ora é sabido que o espírito, abalado pela indiferença, passa rapidamente à dúvida, caminho aberto para a negação de toda a fé religiosa.

Outros aspectos poderia focar, mas os que acabo de apontar-lhe bastam para justificar a oposição de grande parte do clero à situação actual.

2. ponto: o clero sofre com o povo.

Como é sabido, ou por ordens de Roma ou por zelo apostólico dos bispos, determinou-se que por toda a parte se entronizasse o Cristo-Rei. Quer dizer: apearam-no da cruz, onde brilhou durante muitos séculos, para o entronizarem como rei de Portugal e dos Algarves. Mau passo deram os promotores de semelhante dinastia. Ignoravam que a grande maioria dos portugueses já não crê em Messias, quanto mais em monarcas. Mesmo entre católicos militantes, muitos há contrários à realeza e por isso lhe recusaram assistência. Mas não foi só o povo crente que deixou de assistir-lhe. A própria igreja arrefeceu nas homenagens, acabando por esquecer o Cristo amarrado ao seu trono, sem glória para ele nem benefício para as almas. Apesar de o terem proclamado não só Grande Senhor, como ainda filho único de um Deus, que também dizem ser único e verdadeiro, ei-lo aí, soberano sem domínios, sem corte, sem vassalos e, pior que tudo, sem orçamento e sem crédito nos Bancos. Agora, de que vale entregarem-no ao povo? Pois não vêem que este ou é pobre e não pode contribuir para os fundos reais, ou é republicano e, como tal, não vê o novo Rei com bons olhos, quanto mais vesti-lo, calçá-lo e alombar o andor nas procissões!

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Pergunto agora: Para que procedeu assim a Igreja Católica? E qual a verdadeira razão desse abandono? Todos o sabem: a Igreja voltou costas ao Cristo, porque lhe opôs uma Senhora que dizem ter sido sua mãe. Esta, porém, deixou não só de o trazer ao colo, como ainda de lhe dar os peitos, cujo leite bebia, regalado e bendito, como sempre se disse e a estatuária antiga o confirma. Mas não só lhe tiraram o filho, como também lho esconderam ou totalmente suprimiram. Erguem-se ainda cruzes é certo, mas muitas delas, como a que levantaram no Castelo (1), já não suspendem o Mártir do Calvário. Cruzes de madeira ou cruzes de ferro são hoje, não símbolos de amor, piedade e redenção, mas chuços com que certos missionários ameaçam os que não se lhes ajoelharem aos pés, nos confissionários, onde se inculcam como verdadeiros e únicos enviados de Deus.

E o velho pároco na sombra, espantado com semelhantes destempêros!

Mas o sofrimento do clero e dos devotos vai mais longe. A tal Senhora, vestida de seda e ouro, essa é quem circula hoje como verdadeira soberana de Portugal, daquém e dalém-mar. Quando ela passa, é obrigatório ter-se na mão uma vela, ajoelhar em terra, cantar louvores, abrir a bolsa e, ao seguir para outras paragens, dizer-lhe adeus com lenços, brancos como as pombas que lhe amarram no andor. Resultado

(1) Cruz de ferro erguida no Castelo de S. Jorge por ocasião das comemorações da conquista de Lisboa aos mouros.

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de todo este espectáculo? Que o digam os párocos de Norte a Sul de Portugal, em cujas Igrejas e capelas dormem hoje, no olvido e cobertas de pó, além da velha Padroeira, todas as santas mães, desde a que velava no presépio, asssistia aos partos, socorria os navegantes, amparava os inválidos, acarinhava os órfãos, até à própria Mater-Dolorosa, que nunca mais deixaram vir à rua, para se não saber que foi mulher e teve filhos.

Hoje a santa que o pobre Zé-pagante é obrigado a transportar aos ombros, de paróquia em paróquia, de santuário em santuário, é diversa das outras que, dando à luz, se tornaram matronas veneráveis. A da Cova da Iria é unicamente virgem. Lá dizia aquela nobre dama de Cascais, ao receber, no guiché dos Correios, o selo com a Padroeira: “O quê? A Senhora de Fátima com um filho?” - Não, alma piedosa: aquela santa não tem filhos.

Caro amigo: Sei de padres que chegaram ainda a revoltar-se contra a superstição, dizendo em plena Igreja que a mão de Deus era uma só, e essa tinham-na ali os crentes, pronta a receber as súplicas de todos, dando em troca, além da divina graça, o necessário amparo a cada um, nas suas dores e trabalhos. Esses, porém, foram obrigados não só a pôr termo a semelhantes prédicas, como ainda a enfileirar, com os paroquianos, nas peregrinações que mensalmente se dirigiam à referida Cova, que muita gente afirma já que há de servir de túmulo ao culto de Maria em Portugal.

Insisto neste ponto, para que se avalie a soma de sacrifícios necessária para assim arrastar

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pobres campónios dos pontos mais distantes do país. E quantos milhares a pé, dormindo ao acaso, sob alpendres, em manjedouras, ao ar livre, e em terras onde ninguém os conhece nem deseja conhecer! Depois, que triste, que doloroso regresso! Muitos ficam por hospitais, e dos que alcançam o lar, quantos se vão abaixo e longos dias sofrem, estendidos no leito e sem ninguém que lhes cultive as leiras de que vivem!

Ainda se o pároco, como fazia outrora, pudesse recorrer às bulas de composição, muitos desses campónios, alegando não poderem cumprir, ficariam em casa, a troco de alguns escudos. Mas ao pároco de hoje é-lhe negado esse recurso, e ele mesmo não o solicitaria, para não ser suspeito de fé dúbia. Porque a nova ordem preceitua: quem prometeu é obrigado a cumprir. Adoeça embora na jornada, morra embora quando chegar a casa: o que se precisa é formar legião e transportar numerário, abarrotando os cofres da Senhora. O número impressiona sempre, os coros tocam os corações, e os lenços que dizem adeus ao ídolo são igualmente perturbantes. E é isso que se quer. Num país onde os governos só procuram fachadas, que outra coisa podemos esperar dos novos empresários da fé?

Esta vai longa, caro amigo, e por isso deixemos o terceiro ponto para amanhã ou dias próximos.

III (1)

Caro Amigo:



Compreende, de certo, que não devo abusar do espaço que me deixam nas colunas deste jornal para desenvolver, como era meu desejo, o tema que me serve de título, e por isso apontarei apenas alguns factos dentre muitos.

Começando pelo que se refere à Concordata hoje em vigor, afirmarei ser erro grave supor-se que o sacerdote verdadeiramente cristão acatou de bom grado esse deprimente e inconcebível diploma, sem precedentes não apenas entre nós, mas em qualquer nação de regular cultura. Efectivamente, como poderá ele, vivendo à luz dos preceitos evangélicos, ver sancionados os direitos que regulam a sua profissão por Governos de força, como o que há mais de vinte anos


(1) No dia 10 voltei à “República”, sendo logo abordado por um dos redactores daquele jornal, propondo uma entrevista acerca do último discurso do Presidente do Conselho. Abancámos ali mesmo, e as impressões trocadas saíram a público, no dia 11, sob o título A Questão Religiosa. Voltei no dia 12, para ver as provas da terceira carta, a fim de evitar transposições e gralhas. Na sala da redacção, conversava um dos membros da comissão de propaganda da candidatura do General Norton de Matos, que, alarmado com a celeuma que tanto as cartas como a entrevista estavam levantando nos arrais católicos, se me dirigiu nestes precisos termos: “E porque não dizer-lhe que mesmo entre os nossos causaram desagrado?! Em alguns até irritação! Por tal motivo o General manda dizer-lhe que suspenda os ataques à Igreja”.

Anui, sem hesitação. E, passando ao gabinete do director do jornal, contei-lhe o caso, pedindo ao mesmo tempo que retirasse a terceira carta. Carvalhão Duarte acedeu, mas

acrescentando estas palavras que me cumpre registar:-”O meu amigo retira-a porque quer, visto que o jornal é por mim dirigido e está sempre ao seu dispor”.

Fiz mal? Talvez, porque esta, como poderão verificar, é tão cristã e verdadeira como as outras. Lida ao Rocha Martins, comentou este: “Alguns republicanos estranharam as outras? Pois todas elas poderiam ser assinadas por um verdadeiro cristão”.


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vigora em Portugal?! Ainda se ele não conhecesse a História Eclesiástica, nem lesse os jornais de grande informação... Mas conhece, mas lê, e por isso não ignora o que a Igreja tem lucrado, todas as vezes que alarga as suas ambições e sacia apetites nos domínios de César, onde, nos dizeres dos Doutores, o Diabo comanda os seus obreiros. Considerem, por exemplo, o que em 1789 lhe sucedeu em França, quando tomou partido pela corte e pelos nobres que, escravizando o povo, o haviam lançado na mais negra miséria e dependência. Em troca da sua cumplicidade, o clero enriqueceu, teve honrarias, exerceu altos cargos, mas degradou-se. E o resultado viu-se: Quando o povo tomou conta dos destinos da Nação, a grande maioria dos sacerdotes que não conseguiram alcançar a fronteira sofreram por toda a parte duras perseguições e vexames sem conta nem medida. Outro tanto lhes ia sucedendo em Portugal, mormente às ordens religiosas, que nos últimos anos da monarquia apoiaram todas as violências e desmandos oficiais, mesmo quando já em conflito aberto com o povo. As velhas instituições foram depostas, e todos sabem

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o que então se passou: prisão de bispos e de párocos, expulsão de ordens religiosas e, por fim, a votação, pelas Constituintes, duma lei de Separação que, longe de deprimir o clero, o nobilitaria - lei que há muito o próprio clero deveria ter reclamado, para fugir à tutela governamental, que, em troca de certas regalias, exigia funções que o apoucavam e punham em conflito com o povo.



Poucos anos depois, assistimos na Espanha a um fenómeno da mesma natureza, mas de muito maior envergadura e projecção no mundo: Farto de ser ludibriado, expoliado e oprimido, o Povo espanhol, quando alcançou tomar conta do poder, não demorou o ajuste de contas com aqueles que mais haviam contribuído para as suas desgraças, sendo o clero tratado com desusada violência. Ele, os templos e os mosteiros, onde exercia o culto, iludindo ou falseando as doutrinas do Cristo.

Estes exemplos bastam para me garantirem que o clero português desejará a paz e a prosperidade nacional, mas não à sombra de concordatas impostas pelo poder de Roma, mormente quando abrem as portas a entidades há tanto indesejáveis, como sejam as congregações religiosas, à frente das quais campeia a Companhia


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de Jesus, de sinistra memória - razão bastante para que o país inteiro sinta contra ela a mais viva repulsa. Na sua lógica simplista, vendo-se rodeado de frades e de freiras, o Povo mede pela mesma razoira o clero secular e o regular, o que representa uma grande injustiça, sabendo-se que o primeiro aborrece o segundo, tanto ou mais que as massas populares.

É notório que, onde domina o frade, o clero secular é um subordinado e uma vítima. Alimenta-o, agasalha-o, recomenda-o, entrega-lhe o confissionário e o púlpito; e quando ele parte, a despensa paroquial fica vazia e os devotos exaustos, porque o frade é sempre o mesmo: pede tudo, aceita tudo, come ou leva tudo.

Há tempos, na minha região beirã, apareceram missionários congreganistas, que alarmaram a população rural. O mulherio, sobretudo, perturbado pelas suas exortações, não os abandonou de dia nem de noite, ouvindo-os no confissionário e no púlpito, donde eles chegaram a proclamar que enquanto demorassem naquela freguesia - e o mesmo diriam nas demais! - qualquer devoto que morresse, subiria logo direitinho ao Céu. Nem pelo Purgatório passaria!

Avalie-se agora a situação do sacerdote honesto, vendo interpretar a doutrina evangélica por criaturas tão incultas e de tão baixa moralidade. Não querendo enganar os seus paroquianos, abusando da sua boa fé, vê-se em grande inferioridade, pois não sabe nem quer prometer coisas de tal categoria.

Na mesma região, e com pleno conhecimento dos poderes públicos, uma “santa” mulher completa

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a acção missionária, enviando para o Céu, a troco de algumas centenas de escudos, as almas que os parentes queiram recomendar-lhe. Baratinho, sem dúvida, mas tal sistema de salvação repugna também ao clero secular.



Outra forma de propaganda religiosa, que o perturba e aborrece: a das folhas soltas e de jornais diocesanos, redigidos em linguagem plebeia ou despejada, e, além disso, em conceitos de tão dúbia moral, que a maioria dos párocos se envergonha de os comunicar às zeladoras, mesmo às analfabetas, que nas aldeias são os correios dessa literatura aviltante.

Depois, os párocos estão fartos de viagens a Fátima; fartos de circulares do seu bispo para apertar com as famílias, a fim de contribuírem para a sustentação dos seminários; fartos de procurar nessas famílias vocações para a vida eclesiástica, que de cem não vingam cinco; fartos de pedir para o dinheiro de S. Pedro, sabendo eles que a Santa Sé é hoje talvez o mais categorizado representante da alta finança (tantos e tão fortes são os cofres, que a piedade cristã lhe vai enchendo, além do crédito ilimitado que desfruta nos principais bancos do mundo (1); fartos de convocar famílias para se restabelecer ou avivarem cultos esquecidos; fartos de


(1) Recorte da Vida Mundial. N.o 979, de 15-3-58, que igualmente o recortou da revista francesa Aux Ecoulex: “O fundo especial da Santa Sé foi criado em 1920 por Pio XI e representa hoje um dos elementos essenciais da fortuna pontifícia. Não dispondo, a princípio, senão de dois biliões de liras que lhe foram entregues pelo governo italiano



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