PRÊmio viva leitura 2014 – categoria III: sociedade fazendo Minha História



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PRÊMIO VIVA LEITURA 2014 – CATEGORIA III: SOCIEDADE

Fazendo Minha História

Tio, lê esse!”. Iniciou-se, assim, a mediação de “Pedro está encolhendo”. O livro conta a história de um menino que convoca a atenção da família em seu cotidiano e, ao não ser escutado, começa a encolher e encolher até escorregar pelo ralo da pia e iniciar uma longa viagem pela tubulação da casa. Ali encontra Lisa, uma garotinha que também havia encolhido, segundo conta Pedro, por falta de atenção das pessoas ao seu redor. Com o desenrolar da conversa ambos começam a crescer novamente. Neste momento, as três crianças exclamaram: “Eu já me senti assim”. A palavra circulou entre nós, a história terminou e, ao fim da mediação a garota exclamou: “Tio, acho que estou crescendo de novo!” O casal de irmãos sorriu e um deles foi escolher a próxima história. Depoimento de João Verani, colaborador do Fazendo Minha História



Justificativa

Existem no Brasil cerca de 37 mil crianças e adolescentes vivendo em situação de acolhimento institucional, medida excepcional e provisória prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, responsável por acolher crianças e adolescentes, de 0 a 18 anos, cujos direitos foram ameaçados ou violados. Os principais motivos de acolhimento são abandono, negligência e violência. A ida para uma instituição representa na vida da criança ou adolescente um momento de ruptura e crise, pois além de ter vivido uma situação extrema que levou ao acolhimento, a criança ou adolescente vivencia perdas e separações diversas: de sua casa, de pessoas próximas, vizinhos, amigos, escola, etc. A experiência institucional deve se constituir em um ambiente reparador, onde a criança tenha a chance de elaborar as situações vividas, entendendo sua situação atual e podendo construir planos futuros. É papel dos educadores ajudar cada criança ou adolescente neste processo, a partir de um trabalho personalizado. Este é o maior objetivo dos serviços de acolhimento hoje em dia e é ao mesmo tempo um grande desafio. A rotina de uma instituição de acolhimento é normalmente bastante corrida, cheia de acontecimentos, tarefas e emergências. Nesta dinâmica, educadores esforçam-se para dar conta de tarefas urgentes: acordar as crianças e adolescentes, dar banho, comida, escola, levar ao médico, entre outras tantas, restando pouco ou nenhum espaço para atividades não tão urgentes, mas não menos importantes como ler livros e conversar afetivamente com os meninos e meninas sobre suas histórias. Além disso, existe muitas vezes uma dificuldade da equipe para trabalhar assuntos difíceis, por conta de um receio de trazer à tona dor e sofrimento. Assim, muitas vezes sem a possibilidade de falar, as crianças e adolescentes acabam expressando suas angústias através de comportamentos, por exemplo, atitudes agressivas ou depressivas e dificuldade de aprendizagem.

A implantação de bibliotecas em instituições de acolhimento e a realização sistemática de mediações de leitura são recursos que contribuem para um trabalho afetivo e acolhedor nas instituições. As narrativas funcionam como organizadoras do mundo interno: auxiliam a elaboração de questões emocionais e promovem auto-conhecimento. Através das histórias, é possível trabalhar temas diversos como amor, morte, separação, amizade, rejeição, crescimento, violência, família, sexualidade, adoção, diferenças e singularidades. Meninos e meninas, tocados pelas questões apresentadas nos livros, entram em contato com as próprias vivências e sentimentos e desenvolvem recursos internos para lidar com elas. A partir da leitura eles experimentam novos papéis, descobrem possibilidades nunca antes pensadas, refletem sobre determinadas situações e são impulsionados a sonhar e recriar a vida. O livro é um objeto transformador, que torna possíveis ações impossíveis; que transporta o leitor para um mundo fictício, onde pode encontrar respostas para muitas de suas perguntas do mundo real.

Dessa forma os livros contribuem para que crianças e adolescentes acolhidos ampliem seus recursos para fantasiar, imaginar, criar, pensar e sentir, desenvolvendo a capacidade de se inventar, reinventar e vislumbrar um futuro. A leitura de uma história junto a uma pessoa disponível e afetiva, geralmente, equivale a um convite para uma conversa, a uma abertura de espaço para a expressão espontânea das crianças e dos adolescentes. A partir dos momentos de mediação de leitura, as crianças e adolescentes são convidadas a construírem um livro com os registros de suas próprias histórias. Esses livros ajudam no processo de elaboração das vivências, na promoção de auto-conhecimento e na formação da identidade, através da busca pela preservação da história individual e familiar de cada criança e adolescente.

Assim, apostando no potencial da literatura e das relações humanas, visando melhorar a qualidade do atendimento de crianças e adolescentes acolhidos, o programa Fazendo Minha História, nascido em 2002 na cidade de São Paulo vem, desde 2009, ampliando sua metodologia para instituições por todo o estado de São Paulo e por outros estados brasileiros, desenvolvendo projetos com livros e implementando bibliotecas nestas casas.

Objetivo Geral

Propiciar espaços de expressão através do contato com os livros, para que crianças e adolescentes em instituições de acolhimento possam se apropriar de suas histórias presentes e passadas.



Objetivos Específicos

1. Que as crianças e adolescentes acolhidos leiam mais e com prazer

2. Que as crianças e adolescentes acolhidos possam compreender, elaborar e registrar suas histórias de vida.

3. Que trabalhadores das instituições de acolhimento desenvolvam relações de confiança e afeto junto às crianças e adolescentes.



Metodologia

O projeto Fazendo Minha História acontece sempre através da parceria com instituições de acolhimento. Logo no início são realizados encontros com a equipe da casa para alinhamento das expectativas, diagnóstico inicial da instituição no que se refere ao trabalho com as histórias dos livros e histórias das crianças e adolescentes (marco zero) e para instrumentalizar a coordenação e equipe técnica para a gestão do projeto na casa. Após esta etapa, é realizada uma formação sobre mediação de leitura e trabalho com histórias para toda a equipe de educadores e voluntários da comunidade. Para que adultos possam ajudar as crianças e adolescentes a desenvolver o prazer pela leitura é preciso que tenham também descoberto este prazer em suas vidas, por isso a sensibilização para o projeto é essencial e ocorre durante todo o processo.

Concomitantemente à primeira etapa (gestão e formação), é fornecida à instituição a estrutura necessária para o projeto: esteiras de leituras, estantes e outros itens para montagem de um espaço aconchegante para as leituras e 200 títulos cuidadosamente selecionados, compondo um acervo variado de literatura infanto-juvenil. Os livros são sempre inteiros (não rasgados ou faltando partes), com ilustrações bonitas, de diferentes editoras e autores e tratam de assuntos diversos, interessantes e instigantes. É importante que o local da biblioteca favoreça a interação com os livros, propondo um ambiente tranquilo e aconchegante. Incentiva-se que os títulos fiquem acessíveis para que crianças e adolescentes tenham autonomia e liberdade para explorá-los.

Após essa organização inicial do projeto, têm início os encontros semanais para mediação de leitura, conversas e registro de histórias. Educadores inserem em suas rotinas momentos de mediação de leitura em grupo, oferecendo acolhimento à expressão das crianças e jovens e ajudando-os a elaborarem suas histórias. Ao mesmo tempo, colaboradores voluntários formam duplas com crianças e adolescentes, acompanhando-os durante um ano em encontros semanais para leitura de histórias e construção dos livros de suas próprias histórias. Crianças e adolescentes tornam-se, dessa maneira, autores de suas próprias histórias que passam a ser registradas e valorizadas através de diferentes formas de expressão − desenhos, relatos, fotos. Este livro pertence à criança e irá acompanhá-la por onde for.

São realizadas reuniões periódicas de acompanhamento do projeto junto aos trabalhadores, técnicos e coordenação da instituição de acolhimento. Além do suporte às dificuldades, discute-se, frequentemente, o uso do livro no cotidiano da casa, o vínculo entre colaborador e criança ou adolescente e o registro das histórias nos livros. Profissionais do Fazendo Minha História, da instituição de acolhimento e membros da comunidade, no decorrer do projeto e após sua finalização, pensam juntos em como dar continuidade a uma prática de cuidado e atenção às histórias, e em como garantir a vida da biblioteca.

Avaliação

A avaliação é realizada durante todo o processo, através de instrumentos (com crianças e adolescentes, colaboradores, coordenadores e técnicos da instituição de acolhimento) que permitem acompanhar os resultados obtidos. Nas instituições parceiras, foi possível encontrar resultados significativos tais como o aumento ou início do contato com literatura; trabalhadores lendo para as crianças na hora de dormir; crianças solicitando a leitura de livros, jovens lendo para as crianças e sozinhos também. Observa-se a apropriação do espaço da biblioteca, visto por crianças e adolescentes como um “lugar gostoso”, alternativa a outras atividades muito frequentes como, por exemplo, a televisão. Muitas vezes é possível observar que as crianças e adolescentes não possuíam familiaridade com a literatura antes da entrada na instituição e a forma com que é apresentada estimula o prazer pela leitura. Ocorre ampliação do acervo através da aquisição de novos títulos e meninos e meninas recebem as novas obras com alegria e curiosidade. Os livros, que antes permaneciam apenas nas estantes, começam a ter circulação pelos ambientes da casa: quartos, banheiro, sala...



Nos encontros oferecidos, crianças e adolescentes trazem conteúdos importantes de suas histórias a partir da leitura de livros. Também é possível observar grande valorização dos livros de autoria própria por parte de meninos e meninas acolhidos. Eles desejam guardar consigo seus livros, mostrá-los a pessoas queridas e expressam o desejo de levá-los ao sair da instituição de acolhimento. São feitos registros de qualidade de importantes passagens na vida das crianças e adolescentes. Eles compartilham suas histórias, abrindo a possibilidade de elaboração das vivências. Reconhece-se o fortalecimento de vínculos afetivos, a melhora na auto-estima, no auto-conhecimento e na capacidade de expressão, de sonhar e construir projetos futuros. Trabalhadores também se sentem mais capacitados a trabalhar com as histórias e reconhecem a importância da literatura como ferramenta de trabalho com crianças e adolescentes.

Indicadores de resultado

Para objetivo específico 1 (Que as crianças e adolescentes acolhidos leiam mais por prazer): Crianças e adolescentes solicitam, pelo menos uma vez por semana, leitura de livros; Crianças e adolescentes leem e manuseiam os livros durante a semana; Crianças e adolescentes leem espontaneamente, para si e para os outros, durante a semana; Livros circulam pelos diversos cômodos da casa; Crianças e adolescentes sabem mostrar seus livros favoritos, quando questionados; Crianças e adolescentes reconhecem os títulos da biblioteca; Crianças e adolescentes demonstram interesse na chegada de novos livros; livros são cuidados pelas crianças e adolescentes.

Para objetivo específico 2 (Que as crianças e adolescentes acolhidos possam, através dos livros, compreender e elaborar suas histórias de vida): Crianças e adolescentes trazem questões da própria história a partir da leitura dos livros; Crianças e adolescentes contam fatos importantes e significativos nos livros de suas histórias de vida; Crianças e adolescentes querem levar os livros de suas histórias de vida para encaminhamentos; Crianças e adolescentes leem e manuseiam os livros durante a semana; Crianças e adolescentes sabem mostrar seus livros favoritos, quando questionados; Crianças e adolescentes reconhecem os títulos da biblioteca; Crianças e adolescentes querem mostrar os livros de suas histórias de vida para outras pessoas; Colaboradores ouvem as histórias das crianças e adolescentes sem fazer julgamentos; Colaboradores estimulam as crianças a falarem sobre suas histórias.
Para objetivo específico 3 (Que trabalhadores das instituições de acolhimento − voluntários e contratados − ao oferecer atividades com os livros, desenvolvam relações de confiança junto às crianças e adolescentes, propiciando desenvolvimento saudável): Colaboradores acolhem as manifestações das crianças e adolescentes; Colaboradores refletem junto à equipe estratégias para lidar com as crianças e adolescentes; Colaboradores conhecem os títulos do acervo; Colaboradores respeitam os dias e horários combinados para o encontro; Colaboradores ouvem as histórias das crianças e adolescentes sem fazer julgamentos morais; Crianças e adolescentes perguntam sobre suas histórias e encaminhamentos futuros para os colaboradores; Melhoria na auto-estima das crianças e adolescentes; Redução de sintomas de crianças e adolescentes relacionados a não possibilidade de elaboração de suas histórias; Crianças e adolescentes reconhecem seus colaboradores como pessoas importantes nas suas vidas; Crianças e adolescentes ouvem, pelo menos uma vez por semana, histórias; Colaboradores leem para crianças e adolescentes pelo menos uma vez por semana.

Resultados

Desde 2005, o Instituto já atuou nos seguintes estados: São Paulo, Maranhão, Paraíba, Ceará, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. O Fazendo Minha História já foi implementado em mais de 120 abrigos espalhados pelo país, cerca de 4.500 crianças e adolescentes já foram atendidos diretamente neste Programa, mais de 2.300 voluntários já atuaram com mediação de leitura em processos de acompanhamento dessas crianças e adolescentes, além dos funcionários dos serviços de acolhimento envolvidos, e mais de 36.000 livros foram distribuídos em bibliotecas cuidadosamente selecionadas e organizadas.


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