Processo e Desenvolvimento de Karl Jaspers



Baixar 20.88 Kb.
Encontro04.08.2016
Tamanho20.88 Kb.




Processo e Desenvolvimento de Karl Jaspers

Os dois conceitos colossais da obra de Karl Jaspers: o processo e o desenvolvimento, apesar de seus quase noventa e cinco anos de existência, conservam pleno vigor e interesse , continuando a ser, por direito próprio, conceitos psicopatológicos básicos, tanto para a reflexão teórica como para a aplicação clínica.

Análise da Primeira concepção de Jaspers

Jaspers nas três primeiras edições de sua "Psicopatologia Geral", dedica-se aos conceitos de desenvolvimento e processo, como "ciclos de evolução típicos", uma parte do capítulo "psicopatologia explicativa". Esta in­clusão no explicativo é de per se, muito reveladora sobre as fontes de inspiração de Jaspers. Fase, broto, processo e desenvolvimento são os principais modos de evolução típicos que ali aparecem. Coloquemos por um instante os desenvolvimentos entre parênteses. Desta forma, podemos advertir que "os ciclos de evolução típicos" da obra jasperiana coincidem plenamente com os tipos evolutivos comuns descritos na Patologia Geral da Medicina.

Evolução de uma doença somática

1. Aguda:

1.1. Reversível: FASE

1.2. Irreversível: BROTO

2. Crônica: PROCESSO

Esta distinção de três tipos evolutivos precisos, cuja utilidade con­siste em servir de ponto de referência à descrição dos múltiplos modos possíveis de evolução das doenças, funda-se, por um lado, no caráter evolutivo ou temporal: aguda frente à cronicidade, e, por outro, no resultado evolutivo: restabelecimento frente à destruição.

A maior par­te das doenças agudas são reversíveis e a maior parte das crônicas são irreversíveis, mas há exceções. Nessa distinção reside a dimensão objetiva e científico-natural dos ciclos de evolução de Jaspers. E aqui há de entender-se o porquê da inclusão desta temática no capítulo que versa sobre a psicopatologia explicativa.

Uma vez tendo ficado patente o papel assumido peIa Medicina cientí­fico-natural neste setor da obra de Jaspers, re­cuperemos o conceito de desenvolvimento. Aqui opera a "Psicologia" de Dilthey como fonte de inspiração. Martin Santos (1955) documentou ampla­mente as relações existentes entre as idéias de Dilthey e Jaspers.

O desenvolvimento é para Dilthey (1954) a conexão da totalidade da vida psí­quica ao longo do tempo. Dilthey, por sua vez, havia tomado o método compreensivo da história. A versão originária deste método, segundo demonstra a obra de Droysen (1960), corresponde à hermenêutica cien­tífico-histórica.

Frente ao desenvolvimento de uma personalidade ou das disposições indivi­duais da mesma como continuidade compreensível, Jaspers (1913) colo­ca o processo como a interrupção desta continuidade compreensível. Aten­dendo ao caráter desta interrupção evidente, distingue o processo orgâ­nico do processo psíquico.

O processo orgânico é a união resultante de transportar à psicopato­logia o conceito clínico correlato de processo corporal destrutivo de evolução pro­longada que produz um defeito definitivo no rendimento do indivíduo. No processo orgânico como entidade psicopatológica, a destruição afeta o cérebro, sendo a desintegração da personalidade seu epifenômeno psí­quico (ver em Teorias da Mente).

O processo psíquico é uma das revelações fun­damentais da obra de Jaspers. "Nossa concepção da Psiquiatria - diz Lanteri Laura (1962) - é função do conceito de processo psíquico que tenhamos". A transformação psicologicamente incompreensível da personalidade é a característica básica do processo psíquico. Característica que, naturalmente, pertence à ordem psicológica. Já advertia Jaspers (1928): "os processos psíquicos nos são acessíveis somente do ponto de vista psicológico".

A iniciação do processo psíquico pode ser gradual ou súbita e tumultuo­sa, aplicando-se, neste último caso, a designação de broto ao período agudo. A transformação psíquica que leva implícita o processo psíquico tem um caráter persistente, quase sempre irreversível. Sua persistência ou irreversibilidade é o traço diferencial com respeito à fase, onde a trans­formação psíquica, também incompreensível tem lugar de um modo passageiro, chegando o doente a recuperar-se totalmente.

A constante progressão do processo psíquico pode deter-se em um momento qualquer para deixar aparecer o defeito ou estado terminal. "Enquanto que nos processos cerebrais orgânicos a cura - diz Jaspers (1928) - não é absolutamente impossível, as alterações dos processos psíquicos são, por princípio, definitivas". Há que insistir neste ponto: a irreversibilidade seria mais própria do processo psíquico que do processo orgânico, o qual "comporta remissões e interrupções e pode inclusive ser susceptível de cura em certos casos".

Postula-se a existência de uma somatose determinante correlata do processo psí­quico, mas sua identidade permanece ignorada. Também aqui se produz uma contraposição com o processo orgânico: base corporal conhecida ou apreensível no processo orgânico e base corporal desconhecida, ainda que postulada no processo psíquico. Apesar disso, Jaspers (1928) assinala que o processo orgânico e o processo psíquico devem tomar-se como noções limite, em lugar de noções definidoras de espécies distintas.

Ao propor este dilema, que encerra uma refe­rência ao problema corpo-alma (vide Filosofia da Mente), Jaspers (1913 e 1928) pretende fixar o limite entre o acontecer mórbido persistente e as variações anômalas da personalidade de curso também prolongado. Utiliza para isso um cri­tério um tanto subjetivo: a irrupção de elementos estranhos, heterogê­neos e psicologicamente incompreensíveis, determinando uma espécie de ponto de inflexão na linha evolutiva da personalidade, é o dado comprobatório do começo de um processo psíquico; isto é, o dado demonstrativo da invasão da vida psíquica normal pelo mórbido orgânico.

Da aplicação nosológica destes conceitos se obtém as seguin­tes equivalências:

1ª. O desenvolvimento anormal resulta nas personalidades psicopáticas, e em certas neuroses;

2ª. O processo cerebral, nas desestrutu­rações orgânicas da personalidade e nas síndromes demenciais;

3ª. O pro­cesso psíquico, nas esquizofrenias nucleares e malignas; a fase, nas psicoses ciclotímicas, e o broto, nas esquizofrenias agudas processuais.

Aqui está o esquema sinóptico dos "ciclos de evolução típicos" de Jaspers:

Evolução de uma alteração psíquica

1. Aguda

1.1. Fase, episódio e acesso.

1.1. Broto

2. Persistente

2.1. Processo

2.1.1. Orgânico

2.1.2. Psíquico

2.2. Desenvolvimento

Chama a atenção uma omissão: Por que não foi incorporada a estes ciclos evolutivos a reação vivencial enquanto manifestação compreensível e aguda? A reação vivencial está para a fase, o que o desenvolvimento está para o processo.

Inovações na concepção de Jaspers

A partir de 1942 o próprio Jaspers adota nova postura, na qual aparecem quatro inovações:

1ª. A definição do fio biológico da biografia humana normal como um processo biológico;

2ª. Um novo conceito de processo psíquico é levemente insinuado;

3ª. A proposta algo mais explícita de proble­mas clínicos sobre a alternativa: processo / desenvolvimento, e

4ª. A ina­cessibilidade do quadro neurótico à compreensão psicológica em sua plenitude.

Essas quatro novidades têm o denominador comum de haver-se forjado sob a pressão de obras alheias. Nos demais pontos, Jaspers (1953) se reafirma em sua posição inicial.

Jaspers (1953) submete a uma análise empírica o curso da vida humana para tornar mais claro o caráter especial da evolução do acontecer mórbido, posto que a doença psíquica está ligada à vida tomada em sua totalidade ou "bios" e há de captar-se sem ser isolada dela. Trabalha para conseguir seu propósito com o material biográfico; "a biografia é a descrição do ‘bios' do homem". E distingue quatro categorias biográficas fundamentais:

1ª. O processo biológico ou curso biológico da vida;

2ª. O desenvolvimento histórico-vital ou história interna da vida psíquica;

3ª. Os rendi­mentos e obras pelos quais a vida se expressa objetivamente, e

4ª. O desenvolvimento espiritual concebido como um movimento dialético no qual a existência humana, através de elementos contrapostos, vai avançando por meio de assunções, sínteses e decisões.

Para a problemática, que é objeto deste lembrete que lhes faço, só nos interessam as duas primeiras categorias. O conceito de desenvolvimento ou história da vida psíquica, que agora Jaspers (1953) nos transmite em amplitude um tanto diminuída em relação à que apareceu em seus primeiros trabalhos, onde constituía a única categoria básica do desdobramento histórico da vida. Esta perda em amplitude do desenvolvimento histórico-vital se deve a que Jaspers (1953) considera agora o acontecer biológico implícito neste desdobramento histórico do homem como um autêntico processo biológico. A mudança conceitual é importante: "O conjunto que temos chamado desenvolvimento de uma personalidade por oposição a ‘processo' tem somente por origem as disposições individuais que evoluíram através de épocas da vida sem fases endógenas, e sem descontinuidade incompreensível por agregar-se alguma coisa inteiramente nova" (Jaspers, 1928). "Na forma temporal do homem, como na de toda espécie vivente, há um transformar-se como processo biológico...; o desabrochar histórico do homem é, um paulatino crescimento e maturação, dando-se, também as transformações críticas, a aparição repentina do novo e a realização de grandes oscilações ou saltos...; o acontecer bio­lógico do ‘bios' se mostra como a conseqüência da idade e se manifesta pelos cursos típicos dos acessos, das fases e dos processos" (Jaspers, 1953).

Vemos que Jaspers (1953), de uma perspectiva biográfica, con­sidera a maturação vital do homem como um processo biológico e anota a apresentação de cursos processuais irreversíveis e conteúdos psíquicos bio­Iogicamente condicionados e inacessíveis à compreensão dinâmica no transcorrer histórico da vida psíquica normal. Mas não equipara o processo biológico (normal) ao processo psíquico ou orgânico (mórbido): "Todas as idades da vida... estão conectadas por uma unidade que transcende a todas elas". A destruição dessa unidade, isto é, da unidade da personalidade e a história da vida, constitui o processo orgânico. Sua transformação, o processo psíquico.

É provável que Jaspers (1953), no momento de definir o acontecer vital presente no florescer histórico do homem como um processo bioló­gico, haja operado sob as influências de autores entre si tão distantes como Kretschmer e Binswanger. A expressão de que "o desenvolvimento da perso­nalidade está sujeito a transformações e saltos" é tipicamente kretsch­meriana. A separação conceitual da função vital e a história vital interna, como é sabido, foi obra de Binswanger (1928). Straus (1930) e Minkowski (1931), que haviam distinguido também o desabrochar biológico como acontecer no tempo objetivo do desabrochar anímico como acon­tecer no tempo subjetivo.

Jaspers (1953) insinua levemente um novo conceito de processo psíquico que parece haver sido inspirado nas idéias de Kurt Schneider sobre a continuidade de sentido: "A perda do caráter unitário de uma vida que é segmentada em duas partes por um desgarramento, nos indica que se iniciou um processo no acontecer biológico que altera a vida psíquica de modo incurável e irreversível".

Também lhe agrega um novo matiz cronológico que parece aproximá-Io ao broto: "Aspectos biográficos do processo são a aparição do novo em um lapso de tempo limitado e breve; a irrupção de múltiplos sintomas conhecidos durante esse lapso de tempo..." Se bem que é certo que já antes havia definido o processo como a irrupção do novo e o defeito como o estado residual se­guinte, nunca havia expressado até o ponto sua exigência cro­nológica. Esta nova qualidade acrescida ao conceito de processo suscita con­fusão em lugar de luz. Se a admitirmos, qual a designação a aplicar aos processos psíquicos de evolução paulatina e gradual?

Ainda que Jaspers (1953) continua mantendo-se firme na aceitação da alternativa, processo ou desenvolvimento reconhece explicitamente a existência de certos tipos de doentes que não permite tomar uma decisão diagnóstica. Enumera entre eles os escassos quadros paranóides legítimos, a neurose obsessiva progressiva e certas psicoses atípicas à base de interceptações e negativismo.

"Se nestes casos não se dá a ruptura na biografia, nem há uma síndrome conhecida, os diagnósticos, ainda que de especialistas experimentados, podem entrar em confronto...; por causa destes doentes, os mesmos conceitos bá­sicos se tornam problemáticos...". Mas, Jaspers já em anteriores edições de sua obra (1928), formulava o mesmo reconhecimento, sem citar tipos de doença:

"Nos casos particulares encontramos dificuldades. Certos indivíduos apresentam durante toda a vida os sinais de um desenvolvimento da anormalidade, tanto que, em alguns traços, se reconhece a existência de um débil processo que põe no conjunto uma nota mórbida. Tais casos não são tão raros, e não se chega a algum resultado peIas discussões que têm por objeto discernir se se trata de um processo ou de um desenvolvimento regular das disposições individuais". Penso que a inclusão das neuroses obsessivas nos casos limites entre o processo e o desenvolvimento, foi promovida, de um lado, por um novo modo de ver as neuroses, e, de outro, peIas influências das concepções de Straus e von Gebsattel.

Jaspers (1953) formula estas expressões sobre as neuroses nucleares e as neuroses obsessivas: "Um fenômeno estranho à personalidade domina a própria personalidade...; um acontecer progressivo, cuja essência é impenetrável, talvez uma doença biologicamente fundamentada...; ainda que nem as manifestações neuróticas e nem as psicóticas sejam compreensíveis como simples desvios quantitativos..." Há algo nas neuroses psicologica­mente incompreensível.



É urgente distingui-lo do processo psíquico: "Ainda que haja uma radical diferença (entre o processo e a neurose nuclear), a qual é imediatamente acessível à intuição do todo, é muito difícil de captar em critérios de detalhe e conceitos definidores...; mas o que chamamos processo, em oposição ao desenvolvimento de uma personalidade, não aparece aqui; para isso a doença teria que realizar-se no núcleo da existência em lugar de crescer da sintomatologia particular". É evidente que esta distinção torna-se totalmente inadequada. Algumas modalidades de neurose, que Schultz denominou neuroses nucleares, afetam inclusive mais ao núcleo da personalidade que certos tipos de processos. A propósito de suas respectivas relações com a normalidade, Jaspers (1953) indica que existem transições entre o homem sadio e o neurótico e que a psicose fica isolada da normalidade por um abismo intransponível.

Nota: A bibliografia está à disposição do leitor psi, com o Autor.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal