Produção e edição de vídeo-documentário a partir do texto histórico: concepção e realização



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Produção e edição de vídeo-documentário a partir do texto histórico: concepção e realização
Fernando Sergio Dumas dos Santos

Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

fdumas@fiocruz.br
Esta comunicação tem por objetivo discutir o processo de produção de um vídeo documentário derivado de pesquisas e reflexões historiográficas acerca das estratégias de cura desenvolvidas pelos caboclos do Rio Negro ao longo do século XX. Este trabalho se insere na proposta de John Mraz, que defende a tese de que a tensão entre o videasta e o historiador se resolverá “na medida em que os historiadores desenvolvam sua própria linguagem dentro da vídeo-história” (1993, p. 33).1

A metodologia escolhida para a execução desta pesquisa privilegiou as histórias de vida da população ribeirinha, as quais foram coletadas em videotape de formato profissional. Esta escolha, que já vislumbrava a produção de um relatório de pesquisa com este suporte (o que efetivamente ocorreu), gerou uma matéria-prima muito rica, a qual será trabalhada a partir dos seguintes critérios: construção do roteiro a partir de dois textos acadêmicos publicados; destes textos serão destacados os entrevistados citados e os trechos das entrevistas usadas, além dos lugares citados; o conteúdo acadêmico gerará, ainda, a narração do documentário (em primeira pessoa) e a composição de uma canção (trilha sonora). As questões que se colocam, prendem-se, assim, às relações entre a textualidade escrita – em suas duas vertentes presentes no trabalho (acadêmica e videográfica) – a textualidade imagética – ditada não apenas pelo produto, mas pelo fato de que, quando chegamos ao Rio Negro, em 1995, o principal conjunto de informações históricas sobre a região de que dispúnhamos era uma série de fotografias realizadas em 1913 – e a linguagem específica do produto (o vídeo-documentário) a ser gerado.

A relação entre a narrativa textual dos resultados de uma pesquisa histórica e uma narrativa audiovisual, construída a partir dos mesmos resultados, não se limita a uma simples transferência de mídia. Para que se possa atingir o patamar de um vídeo-documentário que seja, ao mesmo tempo, o produto final de uma investigação historiográfica e um produto áudio-visual capaz de transmitir as informações e análises desejadas, deve-se desenvolver uma linguagem própria, articulada às características próprias da mídia escolhida e antenada aos objetivos do realizador, no caso, o historiador que precisa transmitir os resultados de seu trabalho. Para tanto, é necessário refletir que a dimensão textual, convencional nas narrativas dos historiadores, dialoga com descrições e interpretações críticas das fontes, e não com o conteúdo imagético concreto das mesmas. Este movimento se dá de diferentes maneiras, conforme os diferentes suportes dos documentos trabalhados.

Assim, quando se utiliza de documentos textuais, manuscritos ou impressos, o historiador procura fazer a crítica ao documento, indagando acerca de sua origem, objetivo, autoria e datação. Ele dialoga com o conteúdo informativo do documento, ou seja, com os significados das palavras ali contidas, e não com suas formas gráficas (tais como o tamanho das letras, o tipo de caligrafia, ou, para documentos mais modernos, o tipo de “fonte” utilizada). A análise destes documentos é do tipo interpretativa, mesmo quando o historiador interpreta o documento como a expressão de uma verdade histórica absoluta (casos da historiografia positivista e descritiva), e crítica, na medida em a compatibilização destas informações com outras, já resultantes de processos analíticos ou não, e a sua colocação em contextos historiográficos, costuma promover indagações e questionamentos.

Já o manuseio de uma documentação iconográfica, embora submetido ao mesmo critério de crítica ao documento já referido para os documentos textuais, aponta para dois pontos convergentes. De um lado, a descrição da imagem é trabalhada do ponto de vista de seu conteúdo informativo, onde uma maior densidade da capacidade de observação do pesquisador resulta em uma maior complexificação dos elementos disponíveis para a análise. Esta se dá através da interpretação dos significados e das representações dos elementos, sendo que a dimensão representativa é muito importante do ponto de vista da obtenção dos resultados analíticos, na medida em que a imagem é uma representação pictórica intencional da realidade e, portanto, esta faceta sempre deverá ser levada em conta.

É claro que numa interpretação moderna do ofício do historiador, credita-se à produção de fontes textuais uma dimensão representativa tão forte quanto às iconográficas, pois considera-se que este tipo de documento não possui em seu âmago a tal “verdade histórica absoluta”, mas, tão somente, uma representação da realidade textualmente conformada. Por outro lado, a apresentação das imagens, ao longo da narrativa final, depende de uma série de fatores, tais como o espaço de divulgação / publicação do texto, que pode, ou não, aceitar a inclusão de imagens ou a proposta analítica do autor, em relação ao texto, que influirá na decisão de mostrar as imagens, ou apenas parte delas, conforme o desenho definido para o trabalho.

Mais recentemente, alguns historiadores têm ampliado seu escopo de fontes com a inclusão das imagens em movimento (cinema e vídeo), que aparecem submetidas, em primeiro lugar, ao critério geral de avaliação de fontes históricas demarcado pela crítica à produção do documento (já descrito para os textuais e iconográficos). O uso deste tipo de acervo caracteriza-se pela necessidade de produzir descrições densas, no mesmo sentido já colocado para os documentos iconográficos, os quais são acrescidos, muitas vezes, de uma outra base informativa, definida pela sonoridade (ou o áudio).

Assim, quando o pesquisador se vale apenas da imagem em movimento, sua análise constituirá um universo interpretativo dos significados e das representações dos elementos contidos no documento. Entretanto, a complexidade desta leitura se multiplicará quando o documento for um áudio-visual, pois o historiador deverá estabelecer a relação, existente no documento, entre estas duas dimensões, as quais muitas vezes se complementam como o fruto do trabalho do realizador do filme. Mas, principalmente no caso de cine ou vídeo documentários e de depoimentos orais gravados em mídias audiovisuais, os conteúdos das imagens, muitas vezes, se contrapõem aos conteúdos sonoros, criando dificuldades interpretativas que devem ser superadas pela contextualização histórica dos documentos (avaliação de suas condições e intenções de produção, inserção em um contexto mais amplo de produções semelhantes e contemporâneas, etc.) e pela compatibilização com outros tipos de documentos vinculados ao áudio-visual em questão (por exemplo, roteiro, entrevistas com diretor, produtores, atores e personagens).

A tipologia de fontes históricas apresentada até aqui se completa com um recurso que, de certa forma, está contido no anterior. Trata-se dos documentos sonoros, os quais, em sua grande maioria, compreendem os frutos da história oral, ou seja, de um conjunto de técnicas de construção de materiais primários baseado em entrevistas gravadas, as quais costumamos chamar de “depoimentos orais”, reforçando a característica investigativa do fazer historiográfico. Estes depoimentos podem ser balizados por diversos padrões de produção, entre os quais destacam-se os depoimentos temáticos e as histórias de vida, e a sua utilização prende-se, praticamente, às mesmas normas apontadas para os outros tipos de fonte. É interessante destacar, contudo, que, na maioria das vezes, os documentos sonoros são transformados em documentos textuais, através do procedimento de transcrição dos conteúdos gravados, e é neste formato que são mais utilizados pelos pesquisadores.

Nas narrativas convencionais dos historiadores, a textualidade imagética aparece, normalmente, como ilustrativa e não como parte do conteúdo historiográfico. Embora este quadro venha se modificando lentamente, o que vemos, quase sempre, é que as imagens apresentadas nos textos não possuem grande efetividade informativa, em si mesmas, em relação às análises apresentadas. Isto é ainda mais forte quando tratamos de uma historiografia quase positivista, onde as imagens servem, apenas, como ilustração.

Por outro, lado, na medida em que as imagens são utilizadas como fontes de informação histórica, elas tendem a gerar descrições densas, as quais servem de base para os resultados analíticos da pesquisa. Entendemos esta noção de “descrição densa”, como sendo as interpretações textuais construídas a partir das imagens e integradas à narrativa historiográfica, a partir da mediação dada pelos seus significados e representações.

Alguns historiadores vêm, todavia, construindo suas análises a partir do documento imagético concreto, seja ele iconográfico ou de imagem em movimento. Nestes casos, a imagem aparece completamente integrada à narrativa historiográfica. A inclusão efetiva da fonte iconográfica como componente do texto final fica muito mais simples dada a própria característica de mídia impressa a que pode ser, quase sempre, reduzida.

Já a documentação que contem imagem em movimento e/ou audiovisual é objeto de uma crítica derivada da antiga noção de que o historiador deve manter um certo distanciamento das fontes, e incorporada como fruto de uma interpretação, ou seja, com um sentido historiográfico produzido a partir da leitura que dela fez o pesquisador, observando: a) a mensagem ou o objetivo do documento; b) a construção da textualidade imagética, componente do documento; c) a construção do argumento / roteiro do áudio-visual; d) a construção de sua narrativa textual, expressa pelas “falas” (diálogos, depoimentos, narrações) do filme.

É importante destacar, ainda, algumas questões sobre a produção de histórias de vida em formato vídeo e sobre a sua utilização. Como eu já escrevi num outro artigo,2 quando se trabalha com histórias pessoais, entramos em contato com determinados pressupostos típicos das fontes orais, dos quais destaco dois: a memória é o primeiro deles, pois é a partir da memória do depoente que vai se construir a entrevista;3 o segundo é a noção de cultura, que permeia qualquer pesquisa que tenha como ponto de partida o uso de histórias orais.4

Os procedimentos técnicos impostos pela definição de gravar os depoimentos em VT interferem diretamente na produção das entrevistas, pois, principalmente devido ao alto custo dos materiais utilizados e, às vezes, por causa da destinação final das entrevistas (edição de programas para a TV ou de vídeo-documentários), torna-se necessário que o pesquisador busque fazer perguntas bem claras e concisas, que estimulem respostas bem articuladas. A escolha do entrevistado passa a ser alvo, também, dos critérios técnicos vinculados à mídia escolhida e à linguagem audiovisual. Desta maneira, deve-se procurar depoentes com boa dicção e linguajar compreensível, além de alguma capacidade de sintetizar idéias.

Este perfil, no entanto, eliminaria uma das principais virtudes da produção de histórias de vida como fontes historiográficas, que é a capacidade de deixar o depoente à vontade para organizar suas memórias com tranqüilidade, expondo-as em conversas quase informais, embora seguramente dirigidas pelo pesquisador.5 Portanto, não se deve submeter completamente o rigor exigido de uma pesquisa histórica através de fontes orais aos dogmas da linguagem e da produção audiovisuais. É importante que o historiador consiga combinar todos os elementos que compõem esta equação, porque disso depende o êxito desta difícil empreitada.

Assim, não se deve descartar bons informantes apenas porque não são bons narradores, ou porque apresentam problemas de voz. Muitas vezes, a guarda da memória coletiva da comunidade é atribuída aos membros mais idosos, que não se adequam, na maioria dos casos, aos padrões supracitados. Se a pesquisa objetiva uma questão específica, como a cura de doenças ou determinadas práticas produtivas, o depoente tem que ser o principal conhecedor do assunto. Não há como fugir disso.

A solução está no uso combinado de diversos padrões tecnológicos, tais como equipamentos em vídeo de alta definição (formato Beta, por exemplo) e de menor resolução de imagem (como os modelos DV-Cam), somados aos tradicionais equipamentos de captura de depoimentos em áudio e às fotografias. A articulação destes equipamentos e formatos, se bem conduzida, torna possível a realização de diversos produtos, numa verdadeira expressão multimídia do trabalho do historiador. Texto, fotografia, vídeo, áudio e outras formas de iconografia (pinturas, desenhos e mapas), podem ser estruturados em artigos, filmes, CD-Rom ou até como acervos documentais disponibilizáveis para outros pesquisadores.



Para finalizar, gostaria de afirmar que a vídeo-história “O Universo da Cura” exercerá dois papéis simultâneos, funcionando, de um lado, como veículo de divulgação científica dos resultados da pesquisa, e, de outro, como problematizador da utilização de fontes visuais para a produção historiográfica, e da produção de áudio-visuais como resultados da pesquisa histórica.


1 Mraz, John. Vídeo e historia obrera em México. In: Voces y cultura, nº 5. Barcelona, 1993, p. 33.

2 Santos, Fernando Sergio Dumas dos. Histórias de vida e histórias da cultura. In: História, Ciência e Saúde -

Manguinhos. Rio de Janeiro: , v.5, n.1, p.85 - 98, 1998.

3 Sobre as relações entre memória e história ver, entre outros: Le Goff , Jacques. História e Memória. Lisboa: Edições 70, 2000, 2º vol.; Leroi-Gourhan, A. O gesto e a palavra. Lisboa: Edições 70, 1983; Nora, Pierre. Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1985; Pollak, Michel. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos, vol. 5 nº 10, pp. 201/215.

4 Nas sociedades ocidentais, a transmissão de valores, tradições, costumes, hábitos, enfim, de cultura, permanece viva e com significativa importância nos processos de formação do indivíduo e dos comportamentos sociais. Logo, o historiador que se vale das memórias contadas através das histórias pessoais está lidando diretamente com uma das matérias-primas da produção de cultura. Ver: Santos, F.S.D. Histórias de vida e histórias da cultura. Op. cit.; Bosi, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1994.

5 A relação de confiança que se estabelece entre o entrevistado e o entrevistador é condição fundamental para a ativação dos elementos mais recônditos da memória individual, como também para a constituição de dados de confiabilidade no relato.


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