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III SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA DAS RELIGIÕES

“O ORÁCULO COMO CIÊNCIA: uma proposta de estudo”



Prof. Ms. JOSÉ ORLANDO RODRIGUES



UNESP – ASSIS


O ORÁCULO COMO CIÊNCIA”: Uma proposta de Estudo. 1



José Orlando Rodrigues (P.G – Unesp – Assis)
... Todos meditamos sobre uma parte da vida; mas ninguém medita sobre a vida inteira...” Sêneca

... A vida é um livro do qual só leu uma página quem apenas conhece o seu país de nascimento...” F. Pananti


Gostaria de colocar primeiramente que não pretendo aqui fazer nenhuma apologia à ciência ou ao oráculo em particular, nem tentar exaurir um tema tão abrangente, mas discutir sobre algo que acredito ser pertinente quando se trata de insurgências e ressurgências no mundo moderno e contemporâneo, já que as atividades oraculares, têm surgido e ressurgido durante milhares de anos de diversas formas e sobre diversos nomes. Em alguns momentos ela esta vinculada à religião, em outros ao poder governante, ou ainda aos meios populares. Difundida e conhecida, através dos livros, das condenações papais e legais, dos rituais, entre tantos outros meios de se manter viva uma atividade que, ao meu ver, é inerente a toda sociedade, pois desde o momento em que o homem buscou interpretar a sua própria razão de existência, e acima de tudo organizar-se em bandos ou em grupos, encontramos neles o desejo da busca pelo desconhecido, da busca por si próprio e de se fazer diferente dos outros animais. Enfim quero com esta breve comunicação apenas alertar para a necessidade de lançarmos um novo olhar crítico, desprovido de pré-conceitos, sociais, culturais, acadêmicos, econômicos, religiosos, de todo o tipo de sistema de valores que nos foi implantado durante séculos, (algo certamente impossível à “famosa neutralidade histórica”) como podemos perceber em PENNA (1943, p.21)

o historiador estará sempre e irremediavelmente comprometido, face à sua condição de homem vinculado a um determinado grupo social ou classe econômica.”


Este olhar sobre os oráculos é, muitas vezes, apenas lido, lembrado, porém necessita ser estudado mais profundamente com a devida consideração, respeito e importância que o tema propõe, em função da sua presença na sociedade. Considerando-se o fato oracular no mínimo polêmico (o oráculo é ciência , ou há uma ciência oracular?) apud PENNA (1975, p.23/24)

somente uma classe de fatos realmente interessa aos cientistas: tais fatos sãos os polêmicos, isto é, aqueles que se chocam com qualquer certa ou válida. Fato polêmico, pois, é o fato que não encontra explicação dentro da perspectiva teórica dominante, obrigando a um esforço de reestruturação explicativa...”.

Indo ainda mais além, este autor lembra que:

... Os fatos polêmicos parecem revelar-se com tanto mais freqüência quanto mais avançadas as técnicas cientificas e mais refinadas as técnicas de medida, lembrando ainda que a ciência não parte de fatos. Na verdade ela parte de problemas levantados pelo aparecimento dos fatos polêmicos. Os fatos, então, com que os cientistas trabalham não são os resultados constatados pela observação mas conclusões.”

Ainda conforme assinala Goldmann, apud PENNA (1975, p.25)

... tudo que teve ou têm ainda influencia notável na natureza da comunidade, tudo que ultrapasse o indivíduo para atingir a vida social (da qual a vida intelectual e, particularmente, os valores fazem parte integrante) constitui um acontecimento histórico...”


Certamente, há polêmicas sobre o que os autores acima assinalam, contudo história sem polemica, sem critica, sem reflexão não é história é apenas um conto.

Por isso, não pretendo filosofar ou ficar compilando muitos retalhos de diversos livros de História, Sociologia, Psicologia, Antropologia, Filosofia, Física, Teologia, ou qualquer outra disciplina para provar esta ou aquela teoria, mesmo porque, ao meu ver, teorias servem para criar outras teorias ou para tentar explicar práticas propostas por teorias, teorias estas que já nascem sujeitas ao um conceito de valor muitas vezes implícito, que ofusca o objeto a ser estudado.

JUNG, em um de seus textos fala da questão do valor, do conceito e das formas simbólicas, para ele o conceito de valor e forma simbólica estão estritamente ligados; assim como a ciência tem a sua linguagem de signos, assim também a arte tem a sua linguagem simbólica, ligada a um sistema exato de regras e baseado em convenção. Os oráculos também possuem signos próprios, significados próprios, leis próprias, toda uma linguagem simbólica, métodos próprios que transcendem o mundo científico formal, porém podem ser claramente entendidos por ele, desde que tomada ciência na sua essência, ou seja, Ciência vem do lat. Scientia, Sf. Que significa: Conhecimento ou tomar ciência, ou ainda, saber que se adquire pela leitura e meditação; instrução, erudição, sabedoria. FERREIRA (2000).

Mas principalmente como um conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender, orientar a natureza e as atividades humanas. Ou seja, é a soma dos conhecimentos humanos considerados em conjunto: os progressos da ciência em nossos dias.

Popularmente conhecida como habilidade intuitiva, sabedoria: "A ciência da aranha, da abelha e a minha muita gente desconhece" (Luiz Vieira e João do Vale, da canção popular Na Asa do Vento) FERREIRA (2000). E são encontrados no referido dicionário como em outros tantos os diversos ramos da ciência, entre eles as chamadas ciências ocultas, classificadas e discutidas por muitos, pesquisadas por outros tantos e conhecidas por poucos acadêmicos, que as julgam ciência menor ou uma não- ciência.

Não pretendo aqui desqualificar qualquer estudo científico contra ou a favor dos oráculos e nem poderia fazê-lo, já que mesmo que eu vivesse mil anos, não poderia ler tudo, nem conhecer em todas as vertentes científicas, ou não, do que se conhece sobre o oráculo ou seus adjetivos, tendo visto que podemos reconhecê-los em todas as línguas e culturas humanas, tratados de formas muitas vezes diferentes, pois os seres e as suas maneiras de ver e viver a vida são diferentes em cada cultura até mesmo dentro de uma única cultura.

A interpretação que faço de mim mesmo como indivíduo de uma determinada sociedade nem sempre é a mesma que esta sociedade faz de minha pessoa, como nos mostra claramente KRECH (1975) e também PETER BURKE (1992), ou ainda KAPLAN (1950) KEITH TOMAS (1933) entre tantos outros que tratam deste tema. Denominações tais como: bruxaria, magia, dons espirituais, dons do divino espírito santo, intuição, adivinhos, profetas, cartomancia, taro, I Ching, búzios, ifá, vidência, clarividência, , pregonição, premonição, previsão de futuro, bola de cristal, enfim termos diversos que confundem práticas com conceitos religiosos, políticos, econômicos e sociais, colocando tudo num mesmo saco de gatos, daria, por si só, cada tema uma tese e este não é o meu propósito neste momento.

Obviamente, que a primeira pergunta que surge, portanto, é do que vou tratar, e como analisar o “oráculo”, algo aparentemente tão subjetivo, tão pessoal (já que cada profissional do oráculo têm seu sistema próprio), conceito que, já de antemão sugere ao leitor, ao pesquisador, ao estudioso uma prática, ou uma atividade “marginal”, pois se encontra à margem da sociedade estabelecida cientificamente e academicamente.

Para iniciar esta análise é preciso considerar que a prática oracular e desde já considerada ilegal, como de fato, até pouco tempo a “função oracular no Brasil” foi condenada pelo Código Penal (art. 282, 283 e 284) em diversos aspectos, ora conotando como charlatanismo, abuso da boa fé alheia, curandeirismo etc..., o famoso 171, sendo sua legalização no Brasil, foi possível somente com o fortalecimento das religiões espiritualistas, no final da década de 70, principalmente com a expansão das religiões de origens africanas, como a Umbanda e o Candomblé, e do Kadercismo, tornando-se então “permitido desde que dentro de um contexto religioso”.

Mas é nas chamadas ciências objetivas, positivistas, cartesianas que o oráculo ainda sofre o seu maior preconceito. É dentro de algumas academias pseudocientificas, que parecem não conseguir compreender de que forma algo tão “cultural” pode se enquadrar no mundo real, concreto, palpável, de fatos sistematizados e diagnosticados o não-acadêmico, ou seja, um estudo das ciências adivinhatorias, não pertence ao mundo das coisas exatas, onde o método científico exige uma resposta científica. Certamente não quero generalizar, mas apenas constatar , porque também há academias reconhecidamente científicas, com todo o significado que a palavra permite, que aceitam a busca de novos conhecimentos como um desafio a vencer.

O que podemos perceber em nossa pesquisa preliminar é que a questão oracular, ou melhor, das artes divinatórias tem sido “objeto de estudo” 2, para as chamadas ciências humanas, no campo da Antropologia, Sociologia, História da cultura, História em geral, Paleontologia, Psicologia, Etnografia. Objeto, portanto das chamadas ciências humanas que têm como objetivo de estudo o comportamento do homem e os fenômenos culturais humanos, que procuram mostrar o homem em um contexto mais abrangente. Mas, mesmo assim, estas “ciências”, que parecem estar tão abertas ao conhecimento do homem como ser total, ainda coloca “dúvidas” com relação ao oráculo enquanto uma ciência ou o oráculo como uma forma de ver o mundo, com uma ciência própria. A academia ainda é cruel quando se trata de algo que lhes foge à explicação cientifica formal, tratando alguns dos pesquisadores desta área como pseudo-historiadores, místicos, religiosos (no sentido de não-científico), como se o oráculo fosse algo que pertence à história, mas fica um pouco à margem da história. Ao meu ver, há por parte de alguns estudiosos um certo receio em trabalhar com algo do qual não se tem ainda certeza empírica, que está no limite entre o normal e o paranormal, o real e o imaginário, o mito e a verdade, a crença e a veracidade, o legal e o ilegal, o oculto e o desvelado.

Dizia-me outro dia um amigo historiador “...esta história de oráculos, de prever o futuro, isto tudo parece uma loucura, mais coisa para psiquiatra do que para historiador, como você espera que a academia entenda ou aceite algo que ela desconhece, e não parece ter muita vontade de conhecer...” minha resposta foi simples “conhecendo”, acredito que esta deva ser a função do historiador ou qualquer outro estudioso sério , é nossa função enquanto produtores de um conhecimento, deve ser a de trazer o conhecimento implícito, e explicita-lo, ou seja, explicar o que não se conhece, da maneira mais clara e simples possível, pois mesmo sabendo que os oráculos ou as atividades adivinhatorias existem há milhares de anos, como no caso do xamãnismo, das culturas orientais, ainda há pessoas que os colocam no campo do imaginário, do irreal, da ignorância, da não-ciência. Quem nunca ouviu falar do oráculo de Delfos, quem nunca ouviu falar das pitonisas e de tantos outros oráculos que estão no nosso quotidiano, entram em nossas casas via jornais, televisão, cinema, rádio, computador, amigos ou qualquer outro meio de transmitir mensagens que o homem dispõe.

O oráculo não é uma novidade e sim uma realidade.

Hoje mais do que nunca, muitos de nós colocamos o cérebro em ação, sem descanso, para analisar, deduzir, sintetizar, simular, formular e experimentar toda a sorte de combinações de elementos humanos que se transformam, no final das contas, em produtos e em processos provenientes do próprio homem. O nosso objeto de estudo é sempre impiedosamente submetido à prova da eficácia, da utilidade, da confiabilidade, de quem apreendeu a realidade do mundo e está, assim, certo de poder transformá-lo. “Pois não há duvidas...” Precisamente aqui alguns pecam, na ausência do conceito da dúvida, pois o pensamento engenhoso, industrioso, científico, mecanicista move-se em espaços fechados da academia, no interior de territórios bem desenhados, protegidos por sólidas muralhas que excluem qualquer vadiagem intelectual e em cujo abrigo é proibido enganar-se. Esse é o domínio restrito da razão instrumentalizada, aquela que esqueceu que é de sua natureza sempre questionar a si mesma, sempre pesar o próprio procedimento, aguçar o espírito crítico, correr o risco do erro e retomar sempre que necessário.

Parece que alguns de nós esquecemos das lições de alguns mestres do passado como Descartes, que dizia “que é uma coisa que pensa? É uma coisa que duvida e que sente” (DECARTES, “Meditação Segunda”)

Em diversas partes do mundo, está se buscando ainda que timidamente entender esta nova visão de mundo, com as chamadas ciências holísticas ou transpessoal..

No Brasil, as práticas divinatórias disseminaram-se pelas cidades, é muito antiga a utilização dos oráculos pela população. Conciliando um catolicismo rústico, a religião africana dos negros escravos, o judaísmo, o mulçumano,o hinduismo, entre tantas outras tradições trazidas pelos primeiros colonos, logo se espalhou pelos grandes centros urbanos em que o contingente de descendentes africanos era expressivo, misturando-se com outros oráculos populares amplamente utilizados, e tidos então como superstição. Hoje, a consulta oracular aos búzios passou a ser aberta não exclusivamente aos fiéis do candomblé, inclusive nas ruas de São Paulo, ficando muito difícil trabalhar apenas com historiadores esta questão. Por isso buscamos também os conhecimentos dos companheiros antropólogos, dos sociólogos, psicólogos, etnólogos, escritores, enfim, todos aqueles que pudessem dar pistas para elucidar o nosso objeto de estudo, tendo em vista que a transdisciplinidade é sempre necessária quando se fala em oráculos ou métodos advinhátórios.

Certamente é impossível trabalhar todos aqui, por isso cita-se apenas alguns desses autores com os quais estou trabalhando em minha pesquisa.

No seu livro O Diabo e a Terra de Santa cruz, Laura de Mello e Souza (SOUZA;1994) trabalha no seu capitulo 3 sobre as adivinhações no Brasil que vale a pena transcrever:

...Aos adivinhadores locais vinham pois se juntar os da metrópole: indivíduos que, como o lavrador Álvaro Martins – preso pela inquisição em 1557, com 80 anos de idade – atendiam às necessidades concretas de sua comunidade através de adivinhações. Álvaro Martins procurava objetos, dinheiro, animais e escravos desaparecidos por meio de adivinhações feitas com base nas estrelas. ... Inúmeros eram os sortilégios utilizados pelos adivinhos e adivinhas dos tempos coloniais ....” p. 158


Da p. 157 a 193 , Laura nos da vários exemplos de adivinhos e métodos de adivinhação no período colonial, o que nos surpreende é que a mentalidade da época continua de “certa forma” a permear o imaginário popular, mesmo nos anos 90 visto que ainda encontramos “clientes” que têm uma certa duvida se realmente ler cartas ou consultar oráculos é coisa de Deus ou do Satanás, se realmente não tem intervenção do “Demo”, duvida esta que a Igreja Católica e as Igrejas Evangélicas tentam manter viva a todo o momento seja por novas encíclicas, seja pela mídia ou por pregações em seus templos.

Já no seu Livro do Destino, o autor Nidarmano (1994) tenta nos mostrar de que forma o tarô as pessoas podem apreender as técnicas do tarô para modificar as suas vidas.

Mircea Eliade (1996), tanto no seu livro O Sagrado e o Profano quanto no livro Imagens e Símbolos, não trabalha exatamente a questão dos oráculos ou das adivinhações mas nos dá em diversas partes de seus livros exemplos de como o homem religioso vê com naturalidade estas expressões de fé, já no seu livro Dicionários das Religiões (1999) os autores nos mostra como os oráculos permeiam as diversas religiões com diversos nomes, formas e funções, assim como da uma definição de Oráculos na p. 326.

O Inglês Keith Thomas (1991), têm um estudo interessante sobre a questão da magia e das religiões, apesar de tratar das crenças populares na Inglaterra do século XVI e XVII., ele trata bastante a questão das predições principalmente no capitulo sobre Astrologia, Antigas profecias, bruxarias e crenças assemelhadas e de que forma eles as eram vistas e interpretadas neste período, assim como o aparecimento da tecnologia, do “conhecimento” e das melhoras sociais fez com que a magia se declinasse mas não extinguisse como nos diz o autor:

...Somos, portanto, forçados a concluir que os homens se emanciparam das crenças mágicas sem terem, necessariamente, criado quaisquer tecnologias eficazes para pôr no lugar delas...” p. 540
E.E. Evans – Pritchard (1937)., que trabalha a questão da Bruxaria, magia e Oráculos em os Azandes, nesta obra o autor nos mostra de que forma os oráculos são importantes nesta cultura e de que forma ele conduz a própria vida individual e coletiva de uma sociedade, a importância não apenas como meio mágico, mas como um certo controle da própria sociedade, dando-nos não apenas detalhes ritualísticos como também nos descrevendo o pensamento Azande com relação à bruxaria , a magia e o oráculo, assim como sua vida quotidiana vinculada a estes pontos, é uma obra muito rica e nos dá detalhes como o chamado oráculo do veneno e de que forma a sociedade Azande se organizava em função do oráculo.

Já o sociólogo Max Weber, em seu livro Economia e Sociedade (WEBER;1991), nos coloca que a:

... A arte” divinatória “provem, no principio, diretamente da magia da crença nos espíritos...” p. 297
Weber no capitulo O mago e o sacerdote o autor busca distinguir a função de cada um dentro de uma determinada sociedade assim como as suas diferenças, assim como ele nos mostra na pg. 297 que Ao circulo das divindades éticas pertence, freqüentemente, como é natural, o deus especializado na administração do direito, em cujo poder está o oráculo.

Certamente que uma leitura mais profunda de Max Weber e de sua obra em muito auxiliará no norteamento do trabalho.

Enfim, como se afirmou no início, são diversos os autores que trabalham a questão dos oráculos, seja voltado à área especifica da História, Antropologia, Sociologia, Psicologia, Mística, Esotérica ou História da religião, entre outras, tais como C.G.Jung (em diversas obras) Freud, Richard Wilhelm, Ivan H. Costa, Victor Hellern, Henry Notaker, Jostein Gaarder, Umberto Eco e Carlo Maria Martini, Pierre Weill, Roberto Crema, Reginaldo Prandi, Antonio Flávio Pierucci, entre tantos outros, por isso elencar a discussão de todos é impossível. Na bibliografia aparecem diversos autores que dão sua colaboração ao tema e, com certeza, na conclusão do trabalho mostraremos o quanto estes diversos pesquisadores de renome nacional e internacional influenciaram o trabalho.

Fica claro em meus estudos a tendência a uma prática nova, inserida num novo contexto simbólico, na qual os indivíduos lançam mão da magia e das artes adivinhatorias com muita desenvoltura. Quanto mais envolvidos com esse sistema de crenças como o da Nova Era, religiões orientais e religiões afro-brasileiras, mais os indivíduos vêem a consulta aos oráculos como elemento integrante do seu cotidiano, não percebendo ruptura com um conhecimento científico racional, com isso, há uma forte convicção da existência de uma unidade cosmológica, na qual não se pode separar céu e Terra, mundo superior e mundo inferior, o indivíduo e o todo. Como nas grandes civilizações orientais e pequenas sociedades tribais, onde o conhecimento mítico é valorizado, a visão unitária do universo corresponde a uma exigência real de unificação dos conhecimentos e a um critério de continuidade na consideração da realidade.

As ciências holísticas não querem ocupar o lugar das ciências exatas, pois elas já possuem lugar próprio, contudo, a interação entre ambas, só elevará o nível de conhecimento do homem, proporcionando uma melhor qualidade de vida.

Os acontecimentos não são casuais e cada qual se encontra estritamente ligado à estrutura do universo. Conhecendo esse universo, através de um oráculo, por exemplo, é possível o indivíduo influir sobre o desenvolvimento do futuro, dando conta do aleatório e dos acontecimentos incertos.

É uma racionalidade, não objetivada agora nas determinações causais, mas profundamente enraizada na espiritualidade e subjetividade. Tal não fosse, teríamos o místico apenas como instrumento de satisfação de curiosidades superficiais sobre o futuro e manutenção de crendices supersticiosas.

Os exemplos poderiam se estender, mas o importante é perceber a articulação dessas práticas com a vida cotidiana. A comparação do oráculo com a ciência não é meramente fortuita. A opção pelos oráculos, longe de ser uma escolha pelo imediatismo ou pela economia monetária, deve ser entendida muito mais pelo substrato mítico que sustenta os oráculos. Como na expressão atribuída por Geertz (1978) aos sistemas religiosos, o místico e, fundamentalmente, a religiosidade Nova Era, estabelece a síntese entre ethos e visão de mundo, fazendo com que a opção que poderia ser simplesmente racional torna-se plena de significados emocionais subjetivos, conforme também Mircea Eliade (1996).

A opção pelas artes adivinhatorias é mais forte para um grupo que busca mais explicações sobre tudo que o rodeia, pois mexe com forças que a pura razão científica não consegue. O que o místico fala tem um peso maior, pois traz junto às verdades superiores dos mitos. A orientação dada, ou a palavra que desperta o que estava latente, é muito diferente da descoberta realizada num consultório psicológico. É uma palavra apenas repassada pelo místico que, através da sua intuição e da força do oráculo, traz presente o poder cósmico universal.

O adivinho de hoje não é mais o representante dos deuses nas questões divinatórias, mesmo porque o próprio conceito de divindade foi profundamente alterado. O divino não é mais personalizado, mas uma energia integradora que pode ser captada através dos oráculos. Não há magia como manipulação de forças sobrenaturais, mas como técnica de controlar essa energia.

Os oráculos modernos não podem ser considerados uma moda superficial ou uma superstição de ignorância. Situam-se numa zona descontínua de crença e ceticismo que toca o âmago do indivíduo. É aí que está a sua força.

Ainda lembrando JUNG, quando lhe foi perguntado se ele era místico, na conferência de Tavistock em 1935, Londres, a sua resposta deve ser revista por vários estudantes do comportamento humano entre eles os historiadores das religiões , antropólogos e tanto outros:

... Eu preferiria que o Dr. Grahan Howe não fosse tão indiscreto. O senhor está com a razão mas não deveria dizer estas coisas. Como já disse, tentei começar com as proposições menores, aí o senhor botou a sua colher, falando em” quatro dimensões “e em” místico “, afirmando que todos teríamos um longo tempo de reação diante desses estímulos. O senhor está certo, seriamos todos fulminados, porque nesse campo somos todos apenas principiantes (...).A História existe e devemos ser bastante cuidadosos com as palavras. Quanto mais se avança na compreensão da psique, tanto mais cuidado se deve ter com a terminologia, porque ela é cunhada e pré-concebida...Quanto mais se penetra nos problemas básicos da psicologia, tanto mais se aproxima das idéias religiosas, filosóficas e moralmente preconcebidas, tais coisas devem ser consideradas da maneira mais cuidadosa ...” (JUNG 1972)
Certamente que Jung não foi o primeiro e não será o ultimo a nos solicitar para que olhemos os fenômenos que acontecem a nossa volta, pois eles também fazem parte de nossa cultura, de nossa religião, de nossa visão de mundo e principalmente de nossa história.

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1 O texto abaixo faz parte do projeto de Doutorado do autor, com o qual busca analisar a função do Oráculo na modernidade, especificamente na cidade de Londrina-Paraná , nos anos de 1975 a 2001.

2 Como parte de uma determinada cultura e não como algo inerente a diversas culturas.



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