Professor: Humberto Tommasi



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1.6. Alguns números da Previdência Social no Brasil

A Previdência Social é uma gigante no Brasil, sustenta milhões de pessoas e fomenta a economia da maioria dos municípios do país por meio da receita proveniente de seus aposentados e beneficiários.

A população brasileira, em agosto de 20107, estava em 190.755.799 (cento e noventa milhões, setecentos e cinqüenta e cinco mil e setecentos e noventa e nove) de habitantes. Segundo dados da Previdência Social8, em 2009, 101.110.213 (cento e um milhões, cento e dez mil e duzentos e treze) das pessoas eram economicamente ativas e 61.696.613 (sessenta e um milhões, seiscentos e noventa e seis mil e seiscentos e treze) das pessoas não eram economicamente ativas.

Em 20099, 78,1 milhões das pessoas economicamente ativas estavam ocupadas; destas, 3,1 milhões eram contribuintes urbanos do RGPS e 370,9 mil eram contribuintes rurais (os chamados segurados especiais). Já 2,3 milhões das pessoas ocupadas não contribuíam para a Previdência Social; destas, 56,9 mil eram beneficiárias do INSS; o restante estava na informalidade, e, portanto, encontravam-se socialmente desprotegidas pela Previdência Social. Portanto, 64,9% de pessoas ocupadas estavam socialmente protegidas e 35,1% não tinham sobre elas o manto da proteção previdenciária (O que representa cerca de 27 milhões de brasileiros e brasileiras).



Segundo dados obtidos ao Anuário Estatístico da Previdência Social de 2009, os benefícios ativos da Previdência Social, “correspondem aos que efetivamente geram pagamentos mensais ao beneficiário e, em conjunto com os suspensos, compõem o estoque de benefícios do sistema previdenciário. Um benefício é incorporado ao cadastro logo após ser concedido, o que implica pagamentos mensais até que cesse o direito ao seu recebimento, exceto no caso de suspensão temporária (por motivo de decisão judicial ou auditoria, por exemplo). Nesse caso, o benefício deverá, em um momento posterior, retornar à condição de ativo ou vir a ser cessado.

São apresentadas distribuições por grupos de espécies, clientela, sexo e idade do beneficiário, idade na DIB e Unidades da Federação. São também mostradas informações sobre as aposentadorias por tempo de contribuição do segurado. O período de referência corresponde ao mês de dezembro de cada ano. As tabelas de seção apresentam informações agregadas, enquanto nas tabelas de capítulo as informações são detalhadas por grupos de espécies.

Os dados de quantidade não incluem as pensões alimentícias, porém incluem os desdobramentos de pensões por morte. As informações de valor correspondem à Mensalidade Reajustada (valor MR). Nas tabelas de distribuição etária, a idade do beneficiário é calculada com base na posição do mês de dezembro de cada ano. Já nas distribuições de idade na DIB, a idade considerada é a que o beneficiário tinha na data de concessão do benefício.

Em dezembro de 2009, a Previdência Social mantinha cerca de 27 milhões de benefícios ativos em cadastro, dos quais 84,0% eram previdenciários, 2,9% acidentários e 13,1% assistenciais. Cerca de 69,7% desses benefícios pertenciam à clientela urbana e 30,3% à clientela rural. Comparado com 2008, o estoque de benefícios aumentou 3,3%, sendo que os previdenciários aumentaram 3,2%, os assistenciais cresceram 5,5% e os acidentários diminuíram 2,4%. As espécies que apresentaram maior participação na quantidade total de benefícios ativos foram todas previdenciárias: aposentadoria por idade (29,3%), pensão por morte (24,1%) e aposentadoria por tempo de contribuição (15,8%).

O valor dos benefícios ativos atingiu R$ 17,2 bilhões em dezembro de 2009, o que correspondeu a um aumento de 12,2%, com relação a dezembro do ano anterior. Cerca de 78,4% do valor dos benefícios ativos era da clientela urbana e 21,6% da clientela rural. As espécies que apresentaram maior participação em termos de valor foram a aposentadoria por tempo de contribuição, a aposentadoria por idade previdenciária e a pensão por morte previdenciária com, respectivamente, 29,5%, 22,4% e 20,9% do total.

O valor médio dos benefícios ativos em dezembro de 2009 foi de R$ 641,95 (Em 03/2011 este valor foi de R$ 765,66, ao passo que o teto é de R$ 3.689,66), o que correspondeu a um aumento de 8,6% em relação ao ano anterior. O valor médio dos benefícios urbanos era 57,8% mais elevado que os benefícios rurais (R$ 722,19 e R$ 457,57, respectivamente). Os benefícios do sexo masculino representaram 52,1% da quantidade e 61,0% do valor total, o que fez com que o valor médio dos benefícios masculinos fosse 43,5% maior do que o feminino, respectivamente R$ 782,20 e R$ 544,97. Cerca de 68,7% dos benefícios ativos no cadastro eram devidos a beneficiários com mais de 60 anos de idade, porém, quando se considerou a distribuição dos benefícios segundo a idade na DIB, esta participação foi de apenas 41,6%.” (Grifou-se)
Tabela correspondente abaixo:

Outros dados importantes de serem registrados dizem respeito ao FPM (Fundo de Participação destinado ao tesouro do Município) que serve de objeto de estudo para comparação com os benefícios previdenciários, pois ambos advêm de recursos providos pela União e têm influência sobre a economia dos municípios, tornando-se assim elementos equiparáveis para análise.

Segundo dados do próprio INSS, dos 5564 municípios brasileiros, mais de 60% (sessenta por cento) têm na Previdência Social, um valor de receita maior do que o FPM, o que mostra que os recursos destinados a pagamentos de benefícios previdenciários representam o motor destas economias e colocam a previdência social como a maior distribuidora de renda do país.

Outro dado estatístico muito interessante mostra que um benefício previdenciário sustenta, em média 2,5 pessoas, o que evidencia a máxima sempre sustentada pela ANFIP, no sentido de que a Previdência Social é hoje, efetivamente, o único sistema de distribuição de renda que funciona no Brasil, além de um poderoso instrumento de fortalecimento da nossa economia interna, responsável por gerar empregos e renda. Mais do que uma mera constatação, trata-se da confirmação da importância de fortalecer cada vez mais a Previdência Social, em vez de enfraquecê-la ou privatizá-la, como querem aqueles que teimam em permanecer alheios aos anseios da população.

Deixo, por fim, a reflexão: A quem interessa alardear o falso déficit da Previdência Social? Será que grandes instituições financeiras não estariam interessadas em criar uma situação onde todos acabem acreditando que a única saída para a previdência é a privatização?

2. QUALIDADE DE SEGURADO
2.1. Introdução

A pertinência do tema se mostra evidente no dia a dia da atuação jurisdicional, para todos os operadores do direito e principalmente para todos os trabalhadores brasileiros, sendo de suma importância ter bem definidos os contornos e as possibilidades que se desdobram quando o assunto é manutenção e perda da qualidade de segurado.

Seja por ignorância ou por simples desconhecimento de leis e, portanto dos direitos que são garantidos aos segurados do Regime Geral de Previdência Social, milhares vêem sua única possibilidade de conseguir mínimas condições econômicas e, portanto, dignidade, barrada pela falta ou perda da qualidade de segurado.

Entender um pouco melhor este instituto jurídico e conhecer os meios de aplicá-lo na defesa dos interesses do segurado e de seus dependentes, visando a garantia de direitos humanos fundamentais, é o cerne destas aulas.

Para tanto vamos estudar a legislação previdenciária, mais especificamente a Lei nº 8.213/91, passando também pela análise de dispositivos da Constituição Federal de 1988, da Lei nº 8.212/91, do Decreto 3.048/99.

A apresentação de farta jurisprudência também se mostra essencial para o aproveitamento prático destas aulas pelos operadores do direito e pelo cidadão comum, que terão uma noção básica de como os Tribunais Superiores e as Turmas Recursais têm se posicionado a respeito da qualidade de segurado, suas possibilidades e nuances.

Decisões avançadas, reveladoras da evolução e importância que o tema vem ganhando junto aos Magistrados têm se mostrado de fundamental importância na garantia de dignidade aos segurados do RGPS e seus dependentes.

2.2. O Início da Proteção Previdenciária

Neste tópico, são necessárias algumas considerações distintivas entre filiação e inscrição na Previdência Social.

Com o exercício de uma atividade remunerada de vinculação obrigatória à Previdência Social, nasce a filiação ao Regime Geral de Previdência Social - RGPS, não sendo necessário qualquer ato formal para sua efetivação.

A inscrição, por seu turno, constitui-se em ato formal pelo qual o segurado é cadastrado no Regime Geral de Previdência Social, dependendo da informação e confirmação de dados pessoais, além de gerar para o segurado um número de identificação perante a Previdência Social, que em muitos casos é o próprio número do PIS - Programa de Integração Social e em outros o NIT ou Número de Identificação do Trabalhador, com o qual é possível acessar e consultar os dados cadastrais do segurado, tanto pela Internet como nas Agências da Previdência Social - APS.

Assim, o simples fato de estar exercendo atividade remunerada de vinculação obrigatória, já importa em filiação ao Regime Geral de Previdência Social, para todas as categorias de segurados obrigatórios previstas no art. 11 da Lei nº 8.213/91.

Já no caso do segurado facultativo, previsto na Lei de Benefício da Previdência Social no art. 13, a filiação necessita de inscrição no Sistema e pagamento da primeira contribuição sem atraso, como prevê o art. 27, II, da Lei nº 8.213/91.

Neste aspecto, vale lembrar que para efeitos de cômputo da carência para a obtenção de benefícios do RGPS, os segurados empregados e trabalhadores avulsos, referidos no art. 11, I e VI, da Lei nº 8.213/91, contam como termo “a quo” a data de sua filiação ao Regime Geral, na forma prevista no art. 27, I, da Lei nº 8.213/91.

Já para os segurados empregados domésticos, contribuintes individuais, especiais e facultativos, referidos, respectivamente nos incisos II, V e VII, do art 11 e no art. 13, todos da Lei nº 8.213/91, o termo inicial da contagem da carência se dá com o recolhimento, sem atraso, da primeira contribuição aos cofres da Previdência Social, como determina o art. 27, II, do mesmo diploma legal.

Neste ponto, valem algumas considerações sobre a regra do art. 27, II, da Lei nº 8.213/91, mais especificamente no que atine ao segurado empregado doméstico.

Antes, porém, observe-se que este dispositivo legal, a exceção do empregado doméstico, somente desvinculou o início da carência à filiação ao Regime Geral, quando a categoria de segurado de que se faz referência ou é obrigada por si mesma a verter as contribuições previdenciárias ou está desobrigada de fazê-lo.

Explicitando melhor, tanto o contribuinte individual como o facultativo, devem, pessoalmente, recolher aos cofres previdenciários o montante das contribuições devidas, segundo a base de cálculo escolhida pelo facultativo, entre os limites mínimo e máximo estipulados pela Previdência Social (atualmente entre R$ 545,00 e R$ 3.689,66) ou, no caso dos contribuintes individuais, referente aos rendimentos auferidos no mês de competência (salário de contribuição), observados os limites mínimo e máximo.

No tocante aos contribuintes individuais, vale ressalvar que nos casos de segurados prestadores de serviços para pessoas jurídicas, a própria empresa tomadora dos serviços estará obrigada a descontar os valores das contribuições previdenciária e repassá-las aos cofres públicos, a contar de 1º de abril de 2003, por força da MP nº 83, arts. 4º e 5º, de 12/12/2002 (DOU 13/12/2002), convertida na Lei nº 10.666, de 08/05/2003 (DOU 09/05/2003).

De outra banda, o segurado especial não é obrigado a recolher contribuições previdenciárias, bastando apenas comprovar o efetivo exercício de atividade rural em regime de economia familiar, salvo se quiser obter um benefício maior do que o salário mínimo, hipótese em que, por si mesmo, terá que recolher as contribuições previdenciárias.

Desta forma, não faz sentido incluir os empregados domésticos nesta regra, pois estes não são obrigados a recolher pessoalmente as contribuições previdenciárias, quem tem de fazê-lo é o empregador doméstico, que deve descontar uma alíquota variável entre 8% e 11% do empregado (Art. 20 da Lei nº 8.212/91), dependendo do valor do salário de contribuição, acrescer mais 12% referente à parte patronal e efetuar o recolhimento das contribuições.

Felizmente, a jurisprudência dos Tribunais pátrios tem mitigado a exigência do art. 27, II, da Lei nº 8.213/91, considerando como carência inclusive aquele período em que o trabalhador doméstico esteve exercendo suas atividades normalmente, mas, por omissão do empregador, não teve suas contribuições previdenciárias devidamente recolhidas10.

A doutrina especializada também se posiciona no mesmo sentido:


“Não nos escapa o tratamento equivocado conferido ao empregado doméstico, trabalhador que não é responsável pelo recolhimento das contribuições, que muitas vezes sequer tem carteira assinada, e que, pela letra fria da lei, caso sofresse alguma contingência social, por não ter principiado o recolhimento das contribuições, não conseguiria comprovar a carência.”11
Desta forma, tem-se o início da proteção previdenciária para os segurados do Regime Geral de Previdência Social – RGPS, com as observações e ressalvas acima elencadas.

Por fim, pertinentes são algumas considerações sobre os limites de idade para ingresso no Regime Geral de Previdência Social.

A idade mínima para ingresso no Sistema de Previdência Social, tanto para trabalhadores urbanos como para rurais, tem seu escopo legal na Constituição Federal.

Assim, até 28/02/1967, a idade mínima era de 14 anos. Entre 01/03/1967 e 04/10/1988, 12 anos de idade. A partir da atual constituição (05/10/1988), até 15/12/1998, 14 anos de idade, sendo permitida a filiação de menor aprendiz a partir dos 12 anos (art. 7º, XXXIII, da CF/88, redação original). Finalmente, a partir de 16/12/1998, a idade mínima de filiação passou a ser de 16 anos, permitindo-se o ingresso a partir dos 14 anos para o aprendiz (art. 7º, XXXIII, da CF/88, com redação dada pela EC nº 20/98).

É bom lembrar que para o reconhecimento e cômputo do trabalho rural, em regime de economia familiar, a jurisprudência tem aceitado a contagem do tempo trabalhado a partir do doze anos de idade12, com decisão inclusive do Supremo Tribunal Federal – STF sobre o assunto.

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal negou provimento, em decisão unânime, a Agravo de Instrumento (AI 529694) interposto pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Com o julgamento, foi mantido acórdão do Superior Tribunal de Justiça - STJ que decidiu, para fins previdenciários, que o exercício da atividade empregatícia rural por menor de 14 anos deve ser considerado como tempo de serviço.

O INSS interpôs Recurso Extraordinário sob o argumento de que o STJ teria afastado a aplicação do artigo 11, inciso VII, da Lei nº 8.213/91, ao reconhecer a contagem do tempo de serviço prestado por menor de 14 anos. O dispositivo exclui menores nessa faixa etária da classificação como segurado especial, não reconhecendo direitos previdenciários.

O instituto sustentou ofensa ao artigo 97 da Constituição Federal, bem como ao artigo 5°, XXXVI. Afirmou que o exercício de trabalho rural, em regime de economia familiar, por filhos de produtor rural, somente foi reconhecido como trabalho após a publicação da Lei 8.213/91. "Antes dessa lei, os filhos de produtores rurais não eram considerados segurados, mesmo que eventualmente ajudassem no trabalho, a não ser que tivessem contribuído como autônomos", afirmou a Autarquia Previdenciária.

Como o STJ não permitiu a remessa do Recurso Extraordinário ao Supremo, o INSS interpôs Agravo de Instrumento, a fim de revogar o despacho do STJ e submeter o caso a apreciação do Supremo Tribunal Federal.

O Ministro Gilmar Mendes, relator do agravo, entendeu que não houve violação ao artigo 97, da Constituição Federal, pois o STJ não declarou a inconstitucionalidade do artigo 11, inciso VII, da Lei 8.213/91. O relator ressaltou que a decisão do STJ está de acordo com a jurisprudência do STF, que afasta a incidência do artigo 97, da CF/88.

Gilmar Mendes afirmou, ainda, que os efeitos jurídicos relevantes da relação de trabalho, mesmo que nula, devem ser interpretados em favor do beneficiário. Assim, o relator negou provimento ao Agravo, sendo acompanhado pelos demais ministros da Turma.

Em relação à idade máxima para filiação ou Regime Geral de Previdência Social, até a edição das Leis nº 8.212 e 8.213, em 24 de julho de 1991, a idade limite era de 60 anos, após, foi extinto este limite e hoje é possível vincular-se ao RGPS em qualquer idade.

No que toca aos dependentes, antes da publicação da Lei nº 10.403, de 08/01/2002 (DOU 09/01/2002), sua inscrição era feita pelo próprio segurado, que apresentava os documentos necessários à qualificação dos dependentes diretamente à Previdência Social.

Após a vigência da referida Lei, em 09/01/2002, a inscrição dos dependentes passou a ser feita apenas no momento do requerimento dos benefícios a que tiverem direito e pelo próprio beneficiário, mediante a apresentação dos documentos constantes no art. 22 do Decreto 3.048/99.



2.3. Manutenção e Perda da Qualidade de Segurado

A manutenção da qualidade de segurado da Previdência Social está prevista no artigo 15 da Lei nº 8.213/91.

Enquanto estiverem contribuindo para a Previdência Social, tanto os segurados obrigatórios como os facultativos têm mantidos todos os seus direitos perante o Regime Geral de Previdência Social e, por conseguinte, seus dependentes também terão assegurados todos os direitos inerentes a esta qualidade.

Importante antes de esmiuçar os contornos legais e jurisprudenciais sobre a manutenção da qualidade de segurado é deixar bem claro que existe uma sutil diferença entre período de graça e qualidade de segurado, a qual nem sempre é observada e que em muitas situações pode ser decisiva para o deslinde de casos concretos.

Por período de graça, entenda-se como sendo apenas os prazos estipulados no art. 15 da Lei nº 8.213/91, os quais podem ser de 03, 06, 12, 24 ou 36 meses, concedidos aos segurados da Previdência Social após a cessação das contribuições ou término do exercício de atividade remunerada de vinculação obrigatória, para que possam retomar as contribuições ou atividades laborativas sem prejuízo de qualquer ordem no tocante aos direitos perante a Previdência Social.

Por seu turno, a qualidade de segurado é adquirida com o início do exercício de atividade de vinculação obrigatória ou com o recolhimento de contribuições para o caso de segurado facultativo e se estende para além do período de graça, caracterizando-se como o lapso temporal em que o segurado mantém todos os seus direitos perante a Previdência Social, ainda que não esteja no interregno temporal correspondente ao período de graça.

Em suma, no tocante ao termo final ou data fatal do período de graça e da qualidade de segurado, tal diferença está incerta no §4º, do art. 15, da Lei nº 8.213/91 e será visto com mais vagar a seguir.

Se o segurado passa a receber qualquer benefício da Previdência Social, mantém a qualidade de segurado, sem limite de prazo, conforme dispõe o artigo 15, I, da Lei nº 8.213/91.

Neste ponto, vale dizer que apensar de o texto legal ser absolutamente claro e inequívoco, pois não faz nenhuma distinção ou exceção e tão pouco deixa dúvida sobre sua abrangência, existem julgados entendendo que a percepção do benefício de auxílio acidente, não enseja a manutenção da qualidade de segurado, sob o argumento de que, por não ser este um benefício substitutivo da renda do trabalhador, mas indenizatório, em virtude de uma redução na capacidade laborativa para o trabalho que habitualmente exercia, não haveria direito em manter a qualidade de segurado visando a percepção futura de outro benefício da Previdência Social. Neste sentido:
“TURMA RECURSAL DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SANTA CATARINA. PROCESSO nº 2005.72.95.003140-2 – RECURSO CONTRA SENTENÇA Relator: Juiz Federal João Batista Lazzari Recorrente: Pedro Hinckel Recorrido: Instituto Nacional do Seguro Social – INSS. EMENTA. PREVIDENCIÁRIO. JEF. PERDA DA QUALIDADE DE SEGURADO. PERCEPÇÃO DE AUXÍLIO SUPLEMENTAR POR ACIDENTE DO TRABALHO. PEDIDO DE CONCESSÃO DE AUXÍLIO-DOENÇA. IMPROCEDÊNCIA. I – O recebimento de auxílio suplementar por acidente do trabalho não mantém a qualidade de segurado, por não ser substitutivo do salário de contribuição, haja vista seu caráter indenizatório pela redução da força produtiva. II – Acórdão que nega provimento ao Recurso Inominado para manter a sentença que julgou improcedente o pedido de concessão de auxílio-doença, tendo em vista a perda da qualidade de segurado, não obstante a percepção de auxílio suplementar por acidente do trabalho. ACÓRDÃO. Acordam os Juízes da Turma Recursal da Seção Judiciária do Estado de Santa Catarina, à unanimidade, nos termos do art. 46 da Lei nº. 9.099/95 c/c o art. 1º da Lei nº. 10.259/01, em negar provimento ao recurso e confirmar a sentença por seus próprios fundamentos. Acordam, ainda, à unanimidade, em condenar a parte Recorrente ao pagamento de honorários advocatícios (art. 55 da Lei nº. 9.099/95 c/c o art. 1º da Lei nº. 10.259/01), fixados em R$ 520,00 (quinhentos e vinte reais), sobrestada a sua execução até a modificação favorável de sua situação econômica. Sala de Sessões da Turma Recursal. Florianópolis (SC), 20 de abril de 2005. João Batista Lazzari Juiz Federal.” (Grifou-se)
Em sentido contrário, a Instrução Normativa INSS/DC Nº 118, de 14 de abril de 2005 – DOU de 18/4/2005, em seu artigo 11, I, assegura que é mantida a qualidade de segurado, sem limite de prazo para quem está em gozo de benefício, inclusive durante o período de percepção do auxílio-acidente ou de auxílio suplementar.

Lembremos o artigo 31 da Lei nº 8.213/91, o qual assegura que o valor mensal do auxílio acidente integra o salário de contribuição, para fins de cálculo do salário de benefício de qualquer aposentadoria, observado, no que couber, o disposto no artigo 29 e no artigo 86, §5º, da Lei nº 8.213/91.

Por outro lado, o artigo 28, §9º, “a”, da Lei nº 8.212/91 – Lei de Custeio da Previdência Social, estabelece que não integra o salário de contribuição para os fins desta Lei, os benefícios da previdência social, nos termos e limites legais, salvo o salário maternidade.

Desta forma, existe uma flagrante divergência de entendimento entre uma parte da jurisprudência e a interpretação dada pelo INSS no tocante à manutenção da qualidade de segurado para aquele que recebe o benefício de auxílio acidente.

Outra contradição aparentemente existente, no tocante à inclusão do montante recebido a título de auxílio acidente no valor do salário de contribuição, em verdade não existe, pois para a Lei nº 8.213/91 (Lei de Benefícios), o auxílio acidente integra o salário de contribuição apenas para efeito de cálculo do benefício enquanto que, para os efeitos da Lei nº 8.212/91 (Lei de Custeio), nem o auxílio-doença e nem qualquer outro benefício da Previdência Social, exceto o salário maternidade, integram o salário de contribuição para efeitos de cálculo das contribuições previdenciárias devidas.

Isto tudo, força da Lei nº 9.528, de 10/12/1997, que alterou a redação original do artigo 86 da Lei nº 8.213/91, passando a determinar que o auxílio acidente a ser pago apenas até a data de início de qualquer aposentadoria, integra o salário de contribuição para cálculo da Renda Mensal Inicial – RMI, o que não acontecia anteriormente, quando o auxílio acidente era vitalício, acumulável com qualquer outro benefício.

Sem embargo, não foge aos olhos, que a leitura pura e simples do art. 15, I, da Lei nº 8.213/91, faz crer que o recebimento de auxílio acidente também faz manter a qualidade de segurado para seu beneficiário.

Portanto, para evitar a perda da qualidade de segurado, na prática é bom observar a possibilidade de que a partir da data de início do recebimento do auxílio acidente (dia imediatamente posterior à cessação do auxílio doença), inicia-se a contagem do período de graça, devendo o segurado retornar ao trabalho ou pelo menos contribuir como facultativo se quiser manter todos os seus direitos perante a Previdência Social, evitando a discussão ainda não pacificada trazida linhas acima.

O inciso II, do artigo 15, da Lei nº 8.213/91, prevê um período de graça de pelo menos 12 meses após a cessação das contribuições, para aquele segurado que deixar de exercer atividade remunerada abrangida pela Previdência Social ou estiver suspenso ou licenciado sem remuneração.

Neste ínterim, vale uma observação sobre as expressas disposições legais do inciso II, da referida Lei.

Segundo uma interpretação literal e inversa do texto legal, a manutenção da qualidade de segurado se perpetua mesmo sem o recolhimento das contribuições devidas, bastando para tanto que o segurado continue exercendo qualquer atividade de vinculação obrigatória à Previdência Social.

Esta interpretação é possível porque o dispositivo legal acima citado prevê que apenas aquele segurado que deixar de exercer atividade remunerada abrangida pela Previdência Social estará sujeito a um período de graça de 12 meses e à perda da qualidade de segurado após o prazo do art. 15, §4º, da Lei nº 8.213/91.

Logo, mesmo sem contribuição, basta estar exercendo atividade de vinculação obrigatória à Previdência Social para manter a qualidade de segurado, situação que não se vislumbra apenas para a categoria de segurado facultativo, já que para este tipo de filiado, verter as correspondentes contribuições ao Sistema Previdenciário é condição sine qua non para a garantia dos direitos.

É claro que, para não ocorrerem distorções interpretativas prejudiciais à Previdência Social e, conseqüentemente aos cofres públicos e à toda sociedade em última análise, tendo em conta que o Regime Geral de Previdência Social se baseia em um sistema contributivo e solidário, o aproveitamento do período em que o segurado continuou exercendo atividade de vinculação obrigatória à Previdência Social, mas sem contribuição pode e deve ser computado, força de todos os princípios norteadores da hermenêutica constitucional afeta aos direitos fundamentais, porém, o recolhimento das contribuições em atraso deve ser levada em conta no momento da concessão do benefício e exigida para a manutenção da saúde financeira do Sistema.

Para tanto, é perfeitamente possível se pensar em uma solução “Salomonica”, cobrando as contribuições em atraso, a partir do término do período de graça, descontando-se um percentual de, no máximo 30% do benefício concedido, atendendo tanto aos interesses da Previdência Social, que terá computadas as contribuições devidas e não paga em dia, como aos dos segurados ou dependentes, que terão uma fonte de renda garantida, a qual, em muitos casos, é o único alicerce de uma família inteira, situação muito comum no Brasil de hoje.

Esta providência estaria em completa harmonia com os princípios constitucionais e com a dignidade da pessoa humana, sendo perfeitamente viável e operacionalizável, bastando, para tanto, apenas vontade política.

Comungando de entendimento bem próximo, Marcelo Leonardo TAVARES assim ensina:
“Vimos que a filiação do segurado obrigatório decorre do mero exercício da atividade laboral, independentemente de inscrição e contribuição; enquanto, para o segurado facultativo, ela depende da inscrição e do pagamento da primeira contribuição. Sendo assim, mantêm os segurados obrigatórios a qualidade de filiados, ordinariamente, com a continuidade do trabalho; já o segurado facultativo, se estiver regularizado com as contribuições. Afirma-se, portanto, que se o segurado obrigatório trabalhar em qualquer atividade laboral prevista e acolhida pelo RGPS, manterá a qualidade de filiado indefinidamente, mesmo se não estiver inscrito ou contribuindo (por esse motivo, permite-se o reconhecimento retroativo de filiação, com o pagamento das contribuições em atraso, a qualquer tempo). O mesmo não se dá para o facultativo, que tem a manutenção ordinária da qualidade de segurado vinculada ao regular pagamento da contribuição.”13
Continuando com os dispositivos legais que prevêem a manutenção da qualidade de segurado, o inciso III, do artigo 15, da Lei nº 8.213/91, estabelece um período de graça de até 12 meses após cessar a segregação os segurados acometidos de doenças de segregação compulsória.

Neste caso, a opção do legislador foi de destacar uma situação rara e que necessita de atenção especial, pois impor a segregação do enfermo, somente se justifica em casos de patologias que impliquem risco à saúde pública. Nestas situações, a Lei determina que somente após a cessação da segregação comece a correr o prazo de cobertura da Previdência Social (período de graça), sendo que, na prática, estes 12 meses somente terão início após o término do recebimento de um benefício previdenciário de prestação continuada, geralmente o de auxílio doença.

Também para o segurado recluso, a Lei estabeleceu um período de graça de 12 meses após o livramento, sendo certo que o lapso temporal somente começa a fluir após estar o segurado gozando de sua plena liberdade, independente do fato de seus dependentes estarem ou não recebendo o benefício de auxílio reclusão, previsto no art. 80 da Lei nº 8.213/91, pois este somente será concedido quando os dependentes do segurado forem considerados pessoas de baixa renda, nos termos do artigo 13 da Emenda Constitucional nº 20 de 15/12/1998, o que para muitos, não é medida de justiça, mas não cabe aqui desenvolver esta tese.

Ainda sobre o recluso, caso este fuja da prisão, reinicia a contagem do período de graça, mas caso haja trabalho no interregno temporal da fuga, este será computado para efeitos de perda ou não da qualidade de segurado, nos termos do artigo, 17, §3º, do Decreto Lei nº 3.048/99.

Para aqueles que são convocados ou se oferecem voluntariamente para prestar o Serviço Militar, o inciso V, do artigo 15, da Lei nº 8.213/91, contempla um prazo diminuto de 03 (três) meses de período de graça após o encerramento dos trabalhos militares ou da “baixa”, para que o segurado mantenha seu vínculo com a Previdência Social.

Ressalte-se aqui que a Lei quis abarcar aquele que já era segurado da Previdência Social antes de prestar o serviço militar e não aqueles que não mantinham este vínculo antes de ingressarem nas Forças Armadas, ainda que o tempo de serviço militar seja computado para aposentadoria, permanecendo suspenso o contrato de trabalho do segurado empregado enquanto durar a obrigatoriedade do serviço militar, nos termos do art. 472 da CLT e Lei º 4.375/64, com redação dada pela Lei nº 4.754/65.

Também é bom destacar que transcorrido o prazo do serviço militar obrigatório, caso o indivíduo permaneça nas Forças Armadas, esta atividade se torna voluntária e o vínculo com a Previdência cai na regra geral, ou seja, permanece por um período de graça de 12 meses, independente do Regime Próprio dos Militares.

Já para o segurado facultativo, a cessação das contribuições ao Regime Geral, permite um período de graça de apenas 06 (seis) meses, a teor do que reza o artigo 15, inciso VI, da Lei nº 8.213/91.

No §1º do art. 15 da Lei nº 8.213/91, o legislador trouxe um benefício aos segurados da Previdência Social que já tenham vertido mais de 120 contribuições aos cofres públicos, concedendo-lhes mais 12 meses de período de graça, além dos outros 12 já estipulados no inciso II, do mesmo artigo.

Observe-se, no entanto, que este dispositivo legal concede a benesse de estender o período de graça por até 24 meses, tão somente para aqueles segurados que verteram mais de 120 contribuições mensais sem interrupção que acarrete a perda da qualidade de segurado, o que não parece justo, pois não pode haver diferenças e tratamentos desiguais para aquele empregado que trabalha por dez anos ininterruptos e vem a ficar desempregado e aquele que trabalha por cinco anos, deixa de exercer atividade remunerada, perde a qualidade de segurado, reingressa no sistema e após outros cinco anos, deixa novamente de trabalhar e tem, por isso, seu período de graça restrito à metade daquele concedido para o primeiro trabalhador.

De qualquer sorte, a regra está posta e cabe ao intérprete final (juiz), dizer o direito de cada segurado no caso concreto e a cada advogado, pedir bem, defendendo a justiça antes da Lei.

Seja como for, a jurisprudência tem tendido a prorrogar o período de graça somente se as 120 (cento e vinte) contribuições foram vertidas sem perda da qualidade de segurado. Veja-se:


“TRF3 - PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL. PENSÃO POR MORTE. LEI 8.213/91, ART. 74. QUALIDADE DE SEGURADO. DEPENDÊNCIA ECONÔMICA. TERMO INICIAL.

I - A dependência econômica do cônjuge e dos filhos menores de 21 anos não emancipados é presumida (Lei 8.213/91, art. 16, § 4º).

II - Mantém a qualidade de segurado por 24 meses após o rompimento do vínculo empregatício o segurado que recolher 120 contribuições, desde que sem interrupção que acarrete a sua perda.

III - Relativamente aos menores, o termo inicial do benefício é a data do óbito, nos termos dos artigos 74, I, e 79 da Lei 8.213/91.

IV - Quanto ao cônjuge supérstite, o benefício é devido a contar da citação, quando da constituição em mora da autarquia previdenciária (Lei 8.213/91, art. 74, II).

V - Remessa oficial parcialmente provida.

(Remessa Ex Officio nº 729689/SP (2001.03.99.043865-1), 10ª Turma do TRF da 3ª Região, Rel. Juiz Castro Guerra. j. 17.08.2004, unânime, DJU 13.09.2004).” (Grifou-se)
Também no §2º, do art. 15 da Lei nº 8.213/91, o legislador ventilou uma possibilidade de aumento do período de graça, concedendo um acréscimo de mais doze meses nos prazos estipulados no inciso II e no §1º, visando proteger aqueles trabalhadores desempregados que comprovem esta situação mediante registro no órgão próprio do Ministério do Trabalho e da Previdência Social, hoje, Ministério do Trabalho e Emprego.

Assim, a Lei protege o segurado empregado com um período de graça mais elástico visando manter no seio da Previdência Social o maior número possível de trabalhadores.

Contudo, a exigência de registro da condição de desempregado no Ministério do Trabalho e Emprego, tem sido mitigada pela jurisprudência dos Tribunais Superiores, que consideram a falta de anotação de contrato de trabalho na Carteira Profissional – CTPS, prova suficiente da condição de desempregado do segurado, não sendo necessário registro formal desta condição no Ministério do Trabalho e Emprego14.

Reiteradas decisão neste sentido, deram ensejo à edição da Súmula nº 27 da Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudência dos Juizados Especiais Federais, a qual garante que “A ausência de registro em órgão do Ministério do Trabalho não impede a comprovação do desemprego por outros meios admitidos em Direito”.


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