Professora: Luisa Massarani



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Encontro29.07.2016
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Disciplina: História da Divulgação Científica

Inscrição pelo Depto. de Bioquímica Médica – UFRJ

Professora: Luisa Massarani

Aluno: Gabriel Limaverde Soares Costa Sousa

DRE: 103003804

e-mail: gabriel@biof.ufrj.br

Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho

Laboratório de Física Biológica


Tema: “A Ciência no Cinema”

Numa época em que os avanços científicos mostram-se cada vez mais evidentes, a sociedade questiona-se acerca dos benefícios e das adversidades que eles podem trazer. Admirada e temida, a ciência traz ainda muitas incertezas. Até que ponto pode ir o homem na busca incessante pelo conhecimento? Até onde os fins justificam os meios? Qual o limite entre a curiosidade e a ganância? Quando a ciência deve se conter para que a ética prevaleça? Tais questões são expostas na sétima arte concretizando os desejos, as esperanças e a angústia da sociedade em relação à ciência.

Para este trabalho, selecionei cinco filmes, abrangendo temas fictícios e reais, nos quais a ciência aparece com destaque, sendo na tentativa de curar doenças e vencer a morte ou contribuindo para o desenvolvimento da espécie humana. Fiz uma abordagem comparativa entre os filmes, caracterizando aspectos que julguei interessantes no contexto de como a ciência é apresentada para o público. Separei os filmes em dois subconjuntos principais: “ficção científica” e “baseados em fatos reais”. Fazem parte do primeiro grupo os títulos “Frankenstein de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankenstein), de Kenneth Branagh e “Blade Runner, o Caçador de Andróides” (Blade Runner), do diretor Ridley Scott. No segundo, encontram-se “O Óleo de Lorenzo” (Lorenzo’s Oil), de George Miller e “E a Vida Continua” (And the Band Played On), de Roger Spottiswoode. O quinto filme, “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Close Encounters of Third Kind), de Steven Spielberg, separei dos demais, criando uma espécie de “grupo intermediário”, representando uma categoria que está na transição entre ficção e realidade. Resolvi assim fazê-lo para evidenciar as incertezas e os segredos que envolvem o mundo da ciência e que mexem com o imaginário popular.

Muitos caracterizam o início das obras de ficção científica com o livro “Frankenstein” de Mary Shelley. A origem do livro situa-se no século XVIII, quando um anatomista da época descobriu que as pernas de uma rã que tivesse sido dissecada se contraíam desenfreadamente quando submetidas a uma corrente elétrica. A conseqüência de tudo isso foi que a eletricidade, cujo estudo havia começado a tomar impulso somente na metade anterior do século, encerrava alguns mistérios, mas também indicava que ela tinha uma íntima relação com a vida. Os homens começavam até mesmo a especular sobre a possibilidade de criação artificial da vida. Neste contexto, Mary Shelley imaginou um doutor, Victor Frankenstein, criando um ser artificial ao infundir vida a um corpo inteiro com o auxílio da eletricidade. Neste filme, o objetivo de Frankenstein foi de tentar abolir a morte e a doença do mundo, livrando o ser humano da dor e do sofrimento causado por estes “males”. Contudo a criação a partir da união de órgãos e membros de diversos cadáveres tornou o ser criado um indivíduo com dúvidas a respeito de sua identidade e do seu papel na sociedade.

Outra vez aparece o tema da criação no filme “Blade Runner”, que representa, também, uma projeção de nossos medos atuais. Este foi baseado no texto “Do Androids Dream of Eletric Sheep?”, de Phillip K. Dick, tendo como cenário cidades superpopuladas e violentas, meio ambiente destruído e o domínio econômico das grandes corporações. Na Los Angeles do filme, chove o tempo todo, nunca se vê o sol e nas ruas se fala um dialeto que mistura inglês, chinês e outras línguas. O visual futurista de grande impacto, onde se destacam grandes construções moderníssimas, é caracterizado pela utilização exagerada de vidro e ligas metálicas. A névoa que aparece ao longo de todo o decorrer da história e o tom escuro nos dão a sensação de estarmos presenciando um filme policial dos anos 1940-1950, nos quais os detetives usavam sobretudo e tinham um grande mistério para resolver, sempre dentro dessa atmosfera cinza, escura, sombria.

O filme pode ser visto como uma parábola pós-moderna sobre a relação do homem com Deus. Os replicantes são criados à imagem e semelhança dos humanos, assim como a Bíblia diz que fomos feitos à imagem do Criador. Os andróides procuram por seus fabricantes (no filme, dois cientistas, como Pai e Filho na Trindade: um idoso e sábio, outro jovem e com uma doença incurável) tentando encontrar um sentido para sua existência.

Através da Ciência, pretende-se criar condições para que possamos realizar o surgimento da vida sem recorrer aos encaminhamentos que a natureza nos oferece. Mesmo os filmes “Frankenstein de Mary Shelley”, datado de 1994, quanto “Blade Runner”, de 1982, são anteriores ao “boom” da clonagem que se deu em 1997 com a veiculação intensiva do primeiro mamífero clonado. Isso demonstra a capacidade com que a arte se antecipa à realidade. E tão eficazes são estas previsões que foi possível verificarmos o aparecimento de técnicas como o transplante de órgãos, premeditadas por Mary Shelley, ou até mesmo de problemas como o envelhecimento precoce de clones, referido por Phillip K. Dick. Além disso, trouxe à tona discussões de questões éticas que viriam a fazer parte do cotidiano atual em relação ao tratamento ao qual os “resultados experimentais” seriam submetidos pela sociedade. Ambos os filmes tratam também do embate “Criador vs. Criatura”, levantado a pergunta se não é apenas uma questão de tempo para que isso venha a se tornar realidade.

No outro pólo, encontram-se os filmes que tratam de fatos reais vistos pelo prisma cinematográfico. Estes visam apresentar ao público uma face mais próxima à real, destacando diversos empecilhos no desenvolvimento da pesquisa científica, as questões financeiras e éticas envolvidas. Explora também os estereótipos dos cientistas, os “insights”, as descobertas e frustrações.

O filme “O Óleo de Lorenzo” (1992) é recheado de informações técnicas e densas discussões científicas. Porém, desmistifica a “inatingível” ciência, só compreendida (se for) por “alvos anciões com óculos garrafais”. Isso porque trata de um casal comum que tem o filho acometido por uma grave e desconhecida doença, até aquele momento incurável, partindo para os estudos, movidos pela esperança de deter o avanço da enfermidade. A história começa em 1984 e segue contando o tempo a partir de diagnosticada a doença ALD (Adrenoleucodistrofia) em Lorenzo. “E a Vida Continua” (1993) utiliza o mesmo estilo de contagem temporal (desta vez computando o número de casos de AIDS registrados e de mortes decorrentes nos Estados Unidos) iniciando-se em 1981. Esse artifício coloca o público a par do drama do tempo se esvaindo enquanto a pesquisa em busca de tratamento esbarra em interesses financeiros, preconceitos e falta de divulgação por parte da imprensa.

Em “O Óleo de Lorenzo”, não há mercado pra uma doença rara como a ALD, logo, não há verbas ou laboratórios a fim de investir em algo com pouco retorno. Os jornais não abrem espaço para a divulgação de informações, dificultando a angariação de fundos para pesquisa, alegando pouco interesse do público geral.

Em determinado momento do filme “E a Vida Continua”, Dr. Don Francis, um dos mais engajados em pesquisar a AIDS, brada em uma das reuniões da CDC (Center for Disease Control): “Quantos terão que morrer para se tomar uma providência, me dêem um número que quando atingirmos eu aviso.”. E mesmo assim, hoje em dia tudo se repete, como com a pneumonia asiática (SARS) que teve de tomar proporções gigantescas no mundo todo para que os chineses divulgassem os acontecimentos e tentassem conter a doença. Neste filme são inseridas várias cenas reais de passeatas e outras manifestações da época.

Nestes dois últimos filmes, a experimentação é mostrada de forma bem fiel, destacando variadas técnicas utilizadas nos laboratórios contemporâneos, contrastando com a linguagem apoteótica ou caricata dos filmes de ficção. Os cientistas vestem diferentes máscaras, assumindo o papel de pesquisador heróico e incansável, como o velhinho Dr. Suddaby de “O Óleo de Lorenzo” ou do cientista inescrupuloso como o Dr. Robert Gallo de “E a Vida Continua”. Podem ser também os “loucos” ou “incompreensíveis” como o pequeno-asiático-fabricante-de-olhos-de-replicantes em “Blade Runner”. Os sonhos e a distração aparecem como elementos importantes para aqueles que pesquisam, sendo nestes dois filmes “baseados na realidade”, encarados como elementos de inspiração. São os famigerados “insights” que vêm quando geralmente não se está trabalhando, demonstrando a real necessidade de momentos de descanso. Porém, mostra também o lado obsessivo dos cientistas que ficam maturando idéias de forma subconsciente, sem nunca tirar, seja por um instante, o trabalho da cabeça...



Por último, temos o que tomei como “a fronteira” entre ficção e realidade. “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1977) trata de uma porção nebulosa da ciência que retrata um contexto de plausíveis maquiagens da realidade em uma contestada área do conhecimento, a ufologia. A vida em outros planetas povoou a mente de diversos escritores e diretores ao longo deste século cinematográfico.

Pontos relevantes para esta discussão são a respeito do encobrimento pelas autoridades (fato recorrente em diversas obras sobre o tema) e da interessante combinação de diferentes linguagens “universais” utilizadas durante a comunicação com outras espécies. Dentre elas, se encontram a linguagem de sinais, o espectro de cores e a música. Estará mais uma vez a ficção se antecipando à realidade? Está a realidade sendo mostrada em conta-gotas para uma aceitação mais pacífica de uma nova ordem? Estarei eu viajando demais?


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