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Encontro23.07.2016
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Programa LIDERAR - IIEB

História de Vida

Sonia Guajajara

Sou filha do guerreiro povo Guajajara /Tentehar, que habita nas matas da Terra Indígena Araribóia estado do Maranhão. Meu nome é Sonia Bone, tenho 39 anos de luta e resistência pelo meu povo e pelos povos do Brasil. Sou casada e mãe de três filhos: Luiz Mahkai, Yaponã e Y’wara. Graduada em Letras e Pós graduada em Educação Especial pela Universidade Estadual do Maranhão. Com muito orgulho, fui diretora de uma das entidades mais representativas da luta indígena no Maranhão, a COAPIMA – Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão por um período de 6 anos correspondente a 2 mandatos e hoje sou a Vice Coordenadora da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira com sede em Manaus – AM e que faz uma luta há 24 anos na defesa dos povos indígenas da Amazônia.

Nós Guajajara /Tentehar, ocupamos 11 Terras Indígenas no Maranhão e somos o povo mais numeroso do estado. Com uma história de mais de 400 anos de contato podemos afirmar que apesar da exploração, do escravismo e do domínio europeu que exterminou povos, sufocou culturas e expulsou nações, somos um povo resistente, pois mantemos vivas as nossas tradições e a chama que nos incendeia de coragem para continuarmos na luta. Enfim, se permanecemos vivos até aqui, é porque ainda temos muita história para contar.

Atualmente vivemos em situação de risco dentro da própria casa, embora com as Terras demarcadas, registradas e homologadas, somos constantemente ameaçados, caçados e assassinados por invasores – fazendeiros, madeireiros e mercenários que vivem da pistolagem, que destroem, roubam, matam e ainda tentam acabar com os nossos costumes e tradições, ameaçando, assim, a vida de homens e mulheres indígenas de nossa região.

Sempre gostei de trabalhar em parcerias, articular junto, fazer juntos e sempre soube distinguir bem as organizações indígenas das indigenistas e do órgão oficial;

Desde menina ouvia falar na tutela dos índios. Ouvia com rejeição os preconceitos de que índio não pensava, que era um bicho violento, que não podia exercer um trabalho além da roça, que deveria ficar isolado na mata, que existe muita terra para pouco índio, que índio bom é índio morto, entre outras barbaridades. Ser índio no Maranhão é ter a paciência de um velho sábio porque, sinceramente, ouvimos cada coisa! Mas o fato de às vezes ficarmos calados não quer dizer que estamos em silêncio. Como era uma criança, eu não entendia bem o porquê daquelas idéias, mas acreditava que não condiziam com a realidade. Sempre acreditei em um mundo diferente, mas um diferente que valorizasse as diferenças, as competências, as habilidades e, sobretudo, as riquezas das diversidades culturais, o Deus que cada ser humano é.

Sempre quis estudar, pois acreditava que a educação poderia transformar o mundo, que a revolução poderia ser feita por meio da educação, mesmo que para mim tudo parecia impossível, ainda assim dizia: ” qualquer luta é vitoriosa quando se luta por educação”. Filha de pai e mãe analfabetos por não terem tido nenhuma oportunidade, eu não via possibilidades de sair daquela redoma, pois além de não ter condições financeiras, não tinha ninguém na cidade que pudesse me acolher, mesmo assim não me curvei aos descaminhos que essa sociedade da concorrência e do capitalismo selvagem projeta para os filhos desse imenso país.

Dos 10 aos 14 anos, cursei o ensino fundamental (antigo ginásio) na cidade de Amarante, no Sul do Maranhão. Para estudar, trabalhava de doméstica e de babá em casas de família. Meus pais sempre incentivando a mim e aos meus outros irmãos, para que não nos tornássemos “ignorantes” como eles pensavam que eram, porque ignorantes eles nunca foram. Ignorância não é saber distinguir entre uma letra e outra, ignorância é não ter a capacidade de amar, e isso na minha casa nunca faltou. Fui entendendo com os meus pais desde cedo que a peleja por um mundo melhor se faz com luta e paixão e comecei a entender que independente da educação formal, quem é liderança, lidera sem precisa estudar na escola, pois a escola da vida nos ensina quase tudo, só não dar o papel, mas garante a sabedoria de fazer a luta.

Ao completar 15 anos recebi um convite da FUNAI de Imperatriz - MA para cursar o Ensino Médio em um colégio interno na cidade de Esmeraldas – MG. Eu mal acreditava, pois a chance de continuar estudando era tudo o que eu sonhava, embora os meus pais não permitissem que eu fosse para tão longe. Eu não tive dúvida, com os meus 15 anos encarei a oportunidade cara a cara, desafiei meus pais dizendo que iria e voltaria para ajudá-los. No dia 16 de março de 1989 segui para Imperatriz, e de lá para a Fundação Caio Martins em Minas Gerais. Realizava, portanto, um sonho em minha vida, e mesmo com o medo de sair tão jovem da casa de meus pais, encarei os desafios e corri em busca de novos horizontes.

Em Minas, permaneci por três anos. Cursei o Magistério, confesso que me sentia só, apesar das muitas amizades que conquistei, eu sentia que a aproximação se dava pela curiosidade de conhecer uma pessoa diferente, como se índio fosse esse ser exótico ou de outro planeta. À noite, eu olhava para o céu e contemplava as estrelas pensando na distância que eu estava do meu povo, da minha família e começava a chorar as lágrimas da saudade. E a volta parecia ainda mais distante e irreal. Entre soluços, eu profetizava para mim mesma: “Não posso, não devo, não quero desistir. Preciso mostrar para todos que vou vencer. Sou uma guerreira”.


Nestes três anos fui sempre aprovada com as melhores notas, e iniciei-me nos movimentos sociais participando do grêmio estudantil da Fundação Caio Martins, oportunidade em que participei de inúmeras apresentações teatrais na escola e nas cidades vizinhas, retratando a realidade do meu povo, debatendo e envolvendo os colegas e sempre mostrando que ser índio não era como a mídia e os livros europeizantes das escolas brasileiras diziam. Aprendi muito, mas também fui capaz de ensinar. Foi assim que todos na escola começaram a entender e mudar o pensamento em relação aos povos indígenas. Sempre tentei mostrar que ser Índio não é simplesmente andar pintado, morar no mato, usar penas e adornos, mas sim poder participar, construir e ajudar proteger a humanidade do caos.

Em 1992, retornei para minha terra e fui trabalhar nas aldeias com um projeto de Monitoria de Educação e Saúde, eu falava sobre os prejuízos do álcool, medidas preventivas de saúde, DST’S, drogas e outros assuntos relevantes, além de professora municipal no povoado vizinho. No ano seguinte, fui convidada pela Igreja Católica de Amarante para fazer um estágio de medicina alternativa no IPPH - Instituto Paulista Promoção Humana em Lins - SP. Lá fiquei durante cinco meses e aprendi muitas coisas boas, inclusive reiterando as práticas medicinais naturalistas usadas tradicionalmente por nossos povos. E assim as oportunidades foram surgindo, tudo dava certo, mas eu queria muito fazer um curso superior.

Em 1995, mais uma vez, fui para a cidade de Imperatriz e fiz o curso de Auxiliar de Enfermagem. Para me manter na cidade e pagar meu curso, trabalhei em escolas públicas e particulares. Ao mesmo tempo, por várias vezes viajei em caravana com o meu povo para Brasília reivindicando melhorias nas áreas de saúde, educação, proteção territorial, dentre outros direitos. Todos os anciãos, caciques e lideranças me tinham como relatora oficial dos Guajajara: “A grande pequenina”. Era assim que me chamavam.

Ao concluir o curso de auxiliar de enfermagem fui admitida pela FUNAI, trabalhei nas aldeias Canudal e Zutiw’a. Nesse período, casei e tive uma filha. No final de 1996 comecei a trabalhar na APAE - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. Em 1998, fui aprovada no concurso público municipal para auxiliar de enfermagem , mas sempre participando de eventos locais e estaduais do movimento indígena. Em 2000 consegui aprovação em outro concurso público municipal para professora do nível “I” e em seguida passei no vestibular da UEMA.

História de luta

Em 2001 participei do primeiro evento nacional indígena que foi a pós-conferência da Marcha Indígena, para discutir o Estatuto dos Povos Indígenas em Luziânia, no estado de Goiás.

A partir desse Encontro minha vida se transformou, e me inspirava muito nas palavras do Che “ se você se sente indignado perante as injustiças da vida, então somos companheiros” e assim fui ampliando a minha visão em relação à luta indígena, conheci muitas pessoas ligadas ao movimento, como as representações da APOINME - Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, por exemplo. Foram eles que me mostraram a importância do movimento organizado, o que mais me chamou a atenção foi a luta pela retomada das terras no Nordeste, as conseqüências como ameaças e assassinatos de lideranças indígenas. Tudo isso causou em mim uma vontade de ser mais útil, de participar mais das discussões da política indigenista, pois até então tinha uma participação somente a nível local. Participei então da Assembléia Extraordinária da COIAB em Manaus e fui crescendo e aprendendo na luta.

Em 2003, mais uma vez fui para o Encontro dos Povos Indígenas em Brasília e ao retornar juntamente com Lourenço Krikati, lideramos grandes encontros no Maranhão. Ainda neste ano, realizamos o 1° Encontro Estadual dos Povos Indígenas do Maranhão, com a presença do presidente da FUNAI, supervisores de educação do estado e outras autoridades. Ali foi o pontapé inicial para a institucionalização do movimento indígena no Maranhão. Realizamos outros encontros preparatórios para a assembléia que foi realizada em setembro de 2003, e fui eleita secretária executiva da COAPIMA .

A COAPIMA, que já havia tido uma discussão inicial, estava passando por um processo de paralisação, então a reativamos e buscamos o seu fortalecimento. Neste mesmo ano organizamos um grande movimento de ocupação da FUNASA, visando melhorias no atendimento da saúde indígena. . Infelizmente não obtivemos êxito naquela ocasião, porém reafirmamos a importância da luta indígena e mantivemos acesas as chamas da nossa tradição e acreditamos que seria possível incendiar o mundo com a nossa vontade e com o sonho de justiça social. A partir de 2004, através da COAPIMA, a luta se intensificou. Estruturamos a sede e realizamos várias atividades com os povos, como cursos, seminários, encontros, oficinas, palestras, entre outros. Por conta de nossa militância em torno das lutas da COAPIMA e do movimento indígena em geral, fui escolhida para representar a Amazônia Legal como membro da Comissão para Avaliação de Projetos (CAP) do Programa Carteira Indígena do MMA/MDS. Em 2005, interditamos a Ferrovia Carajás – Vale , por uma semana, também na luta por saúde, ai sim conseguimos alcançar alguns de nossos objetivos.

Em Janeiro de 2007 fui reeleita para a coordenação da COAPIMA para um cargo de Diretoria. Em seguida fui indicada para coordenar o Núcleo Regional do PDPI e reeleita em 2008 na Oficina Nacional para compor o Comitê Gestor do Programa Carteira Indígena. Ainda Em 2008, participei do Fórum Permanente da ONU - Organização das Nações Unidas para Questões Indígenas, em New York. Na oportunidade, ao perceber que os discursos orbitavam em torno dos EEUU, disse para o mundo que os EUA não são o centro do mundo como muitos pensam e eles mesmos apregoam, mas que o centro do mundo é a Amazônia, pois se acabarem com as nossas matas, riquezas naturais não haverá Estados Unidos, ou Nova Iorque que sobreviva. Tive uma participação de destaque com várias entidades e organizações internacionais sempre atentos às apresentações dos casos emblemáticos em relação à falta de políticas públicas adequadas aos povos indígenas aqui no Brasil.

No ano de 2009, fui eleita vice Coordenadora da COIAB, foi um momento de muita emoção, pois os homens haviam decidido que eu seria Secretária, tava tudo orquestrado, foi quando com apoio das mulheres decidi que não seria secretária, e sim concorreria para Vice Coordenadora, foi um constrangimento para a maioria dos homens, pois não aceitavam o confronto. Daí, se seguiram quase 04 anos de peleja pela defesa de direitos. Como todos sabem, a política de desenvolvimento do país é baseada somente em crescimento econômico, financeiro e capitalista, que abandona, isola, massacra e expulsa pessoas de suas Terras, tudo vale para construir hidrelétricas para geração de energia que beneficiará as multinacionais e os donos do Capital. Hoje a Amazônia vive assaltada não mais por invasores, mas por decisão, imposição e determinação do próprio governo Federal como é o caso de Belo Monte, que continua acelerando o crescimento e impedindo o curso natural do Rio XINGU; as hidrelétricas de Teles Pires, Tapajós, Madeira mesmo contra a vontade da população brasileira seguem em frente, escravizando trabalhadores, expulsando indígenas, pescadores e pequenos agricultores que perdem toda uma história de vida e dignidade por caprichos de um governo que afirma que esta é a única forma de desenvolver a região, ”pois é possível fazer reservatório de água, mas, reservatório de vento não” palavras da própria presidente da República numa reunião com ambientalistas.
História de Liderança

CITO AQUI ALGUMAS DAS AÇÕES RELEVANTES



  • Por conta de minha atuação contra essas ofensivas meu nome virou sinônimo de “ocupação” onde há uma ocupação, acampamento do Norte e Nordeste do país, recebo convite.

  • Fiz várias viagens internacionais denunciando Belo Monte, a violência e a violação de direitos ;



  • Ações que se tornou notícia mundial como, a entrega da Moto serra de ouro para a Senadora Kátia Abre em defesa do Código Florestal;

  • Encontros com o relator Especial da ONU – Belo Monte, MS, criminalização de lideranças;

  • Encontro com assessoria do Obama falando da importância da organização indígena e dos indígenas para a preservação do Meio ambiente e para o equilíbrio do clima;

  • Entrega de um documento e fala com a Presidente Dilma, em 2012 por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente;

  • Participação em várias revistas informativas e culturais,...

  • Coordenação da organização do Acampamento Terra Livre em 2012 na Cúpula dos povos contrapondo o evento mundial da Rio +20;

  • Coordenação da Semana dos povos indígenas em 2013 e a ocupação do plenário da Câmara e do Palácio do Planalto;

  • Indicada por unanimidade do acampamento para compor a Mesa de Trabalho formada por 10 indígenas e 10 Deputados Federais.

Em agosto de 2013 finda o meu mandato na coordenação executiva da COIAB, e regresso ao aconchego do meu lar a pedido dos povos indígenas do Maranhão, o que não quer dizer que deixarei a luta, pois pra mim independente de estar ocupando função, o meu compromisso é com o meu povo e com nossos direitos.



Enfim, plantamos vida, não alimentamos a morte. Eis o que aprendemos e o que queremos ensinar, pois somos os nossos sonhos. E o meu sonho é transformação social por meio da participação popular.

Revolução Indígena agora e sempre!


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