Projeto Mala Viajante



Baixar 30.43 Kb.
Encontro04.08.2016
Tamanho30.43 Kb.
Projeto Mala Viajante
O projeto Mala Viajante se foi uma resposta aos apelos observados na realidade escolar, primeiro sobre a importância da leitura no cotidiano escolar e segundo, a participação da família na vida escolar dos alunos.

Desde que comecei a trabalhar nesta escola esse ano, trabalhei com a mediação e a contação histórias nas salas por onde passava. Pois sentia a necessidade de aguçar a curiosidade para a leitura. Ao mesmo tempo, pensei em aproximar pais/cuidadores, alunos e escola.

Como educadoras sabemos que o vinculo familiar e a escola proporcionam um aprendizado de qualidade aos alunos.

Nesse sentido, pretendeu-se com este projeto, criar situações que reforcem aos alunos o interesse pelo hábito da leitura, por meio de contação de história, nas mais variadas formas, utilizando para tanto os mais diversos materiais em sala de aula e a Mala Viajante, onde filhos e pais/cuidadores podem ler e escrever apenas pelo prazer de fazê-los.

Os alunos que fazem parte do Projeto Mala Viajante, estão entre 5 e 11 anos, ou seja, crianças da Educação Infantil e 1º ao 4º ano do Ensino Fundamental de uma escola municipal de Criciúma.

Os objetivos que utilizei para o projeto foram:



  • Propiciar a prática de leitura no ambiente familiar e promover a participação da família na vida escolar dos alunos.

  • Oportunizar o desenvolvimento da imaginação por meio de histórias e criatividade, para despertar emoções e formar o hábito da leitura nos alunos;

  • Incentivar a reconstrução de histórias por meio da escrita ou pelo desenho.

Já quanto a metodologia utilizei a mala recheada de livros e a contação de historias nas aulas. Na mala viajante, escrevi a frase: Era uma vez..., decorei e dentro dela foram colocados: três livros infantis (Livro escolhidos conforme a idade da criança), uma revista Recreio ou Ciência Hoje, um gibi, uma caixa de lápis de cor, um lápis de escrever, uma borracha, uma caneta e um caderno para registro de pais e alunos.

Os livros foram escolhidos de acordo com a faixa etária de cada turma. A caneta inclusa na mala foi colocada para que os responsáveis pela criança escrevam um depoimento/comentário sobre experiência da criança em levar para casa a mala viajante.

Os depoimentos serão importantes para que a professora avalie o conteúdo e metodologia do projeto, além do mais tenho certeza que a simples participação do responsável faz a alegria da criança, pois é um momento de dedicação à mesma.

As crianças também fazem um registro no caderno escrevendo o título do livro e desenhando uma parte da história.

Em sala, antes de aplicar o projeto, foram dias passando de sala em sala, ofertando diferentes gêneros textuais, formas de ler. Mas a mediação de leitura e a contação de histórias, foram as atividades que mais gostaram, e, partindo desses elementos faço minhas aulas.

Logo que comecei dar aulas nesta comunidade, notei que as professoras já tinham o hábito de ofertar um livro semanal para que as crianças levassem para casas. E também pude perceber que alguns alunos levavam para casa, mas acabavam não lendo, assim os mesmos tinham mais dificuldades em falar do livro ou até falavam que os pais não liam.

Neste meio tempo, fui conversando com alguns alunos. E uma das frases que utilizei bastante foi, “-Como podemos contar a história para o pai, para a mãe, para a vovó ou para a tia se ainda não sei ler?”

– “Olhem só, vou contar essa história apenas lendo as ilustrações para vocês”! Eu contei apenas lendo as imagens.

– “Viram, como é legal!”

Foi deste modo que desarmei aqueles em que a leitura era um bicho papão. Hoje todos querem levar a mala para casa.

Como a mala vai recheada de diferentes gêneros, a criança tem a liberdade de ler todos eles, assim como de ler apenas um deles. Na hora de desenhar no caderno o que imaginou enquanto estava lendo, a criança vai criando um laço de carinho com o material de leitura que levou para casa. Afinal se sente livre para escolher qual deles ler e desenhar, o que me faz lembrar de um trecho do livro de Alicia Fernández (2001):

-“Vou aprender a nadar- diz Silvina com a alegria de seus seis anos recém-feitos.

- Vai nadar?- intervém a irmã, três anos mais jovem.

- Não, vou aprender a nadar.

- Eu também vou brincar na piscina.

-Não é o mesmo. Eu vou aprender a nadar, diz Silvina.

- O que é aprender?

- Aprender é ... como o papai me ensinou a andar de bicicleta. Eu queria muito andar de bicicleta. Então...papai me deu uma bici...menor do que a dele. Me ajudou a subir. A bici sozinha cai, tem que segurar andando...

- Eu fico com medo de andar sem rodinhas.

- Dá um pouco de medo, mas papai segura a bici. Ele não subiu em sua bicicleta grande e disse “assim se anda de bici”... não, ele ficou correndo ao meu lado sempre segurando a bici... muitos dias e, de repente, sem que eu me desse conta disso, soltou a bici e seguiu correndo ao meu lado. Então eu disse: Ah! Aprendi!”

Olhe só, que lindo é aprender! É como brincar.

Da mesma forma, ler sem se preocupar em ter que escrever muito depois. Apenas a criança com a mala, um material farto, na linguagem apropriada com a idade dela, se divertindo, mostrando para os responsáveis da criança como é importante a leitura, de uma forma lúdica.

Como consequência, os responsáveis leem as orientações que têm no caderno e escrevem sobre a experiência de receber a Mala Viajante.

O contato como os livros acontece na biblioteca ou na própria sala de aula. Na biblioteca, tenho o objetivo de oportunizar o prazer de ler sem se preocupar com interpretações por escrito, apenas a oralidade, afinal tenho o propósito de despertar o desejo pelas histórias e as viagens pela imaginação que a leitura proporciona.

Já na sala de aula, na maioria das vezes, sou a mediadora de leitura. Ora leio uma história para a turma, ora cada criança lê uma história e só depois dou sequência didática.

A sequência didática se dá de diferentes formas. Por exemplo: os alunos do 4º ano trocaram cartas com os alunos do 5º ano de outra escola durante três meses. Desta forma, levei para sala de aula o livro “Felpo Filva” de Eva Furnari.

Apresentei o livro á turma, seu título, a ilustração da capa, com o intuito de despertar a curiosidade das crianças. Perguntei se alguém já conhecia aquela história, se tinha alguém com o sobrenome igual ou parecido. Quatro alunos responderam que sim, era Silva. Falei que havia uma pequena ilustração na capa, logo queriam ver do que se tratava. Era um senhor coelho, sentado frente a uma máquina de escrever. “Qual seria sua profissão?” Alguns responderam, dizendo que poderia ser um advogado, um escritor, enfim uma profissão que utilize a escrita, mas lá no cantinho um menino perguntou: “Mas ainda se usa máquina de escrever?” Bom, respondi que algumas pessoas ainda utilizam, mas é bem raro, pois hoje muitos já possuem computador e este faz o mesmo trabalho ou até melhor que a máquina de escrever.

Na verdade, as crianças sempre fazem muitas perguntas e isso é maravilhoso, afinal quero despertar a curiosidade deles.

Comecei a leitura. “Na Toca 88, da Rua Despinhos, na Cidade de Rapidópolis morava um coelho solitário”. Ao mesmo tempo desenhei na lousa e disse: “- Ora vejam, tem o número na casa dele, assim como nós temos em nossas casas, mas a dele é uma toca! - E o nome da rua e o nome da cidade, a primeira letra é maiúscula! Por que será?” Alguns sabiam e responderam que tinha que ser assim, porque a gente escreve assim também. Respondi: _ “Sim, claro. Escrevemos assim, porque são nomes próprios, vocês lembram que aprenderam na aula da professora Bela?”

Que delícia escutar eles fazerem essa ligação: _É verdade, então é para isso que aprendemos os substantivos! Claro em meio a risos.

Dando sequência, perguntei se já sabiam escrever carta, a resposta não foi muito animadora, então como tinha um modelo de como escrever uma carta, dei a eles, e lemos juntos. Após a leitura cada aluno recebeu uma folha e pedi a eles que escrevessem uma carta para mim, mas tinha que ser com a estrutura da carta modelo, e lembrassem como os personagens Felpo e Charlô se comunicavam nas cartas.

Levei para casa para ler e responder, fique impressionado com a escrita dos alunos, evidentemente com os elogios.

Como as crianças desta sala ainda não recebem a mala e o apelo é grande por levar livros para ler em casa, peguei na biblioteca um punhado de revistas Ciência Hoje.

E em uma de minhas aulas mediei uma história chamada “A família Fermento”, eles adoraram. Enquanto lia, eu ia fazendo perguntas como, “mais um irmão com oito anos? Como assim, eles são diferentes entre si: loiro, índio, com idades iguais, o que vocês acham? Não estou entendo, prestem atenção para ajudar a professora!” Dava de vê-los fazendo as contas, dizendo as hipóteses para os colegas.

Gostaram tanto que pediram para ler também uma história da revista. Desde então cada aluno escolhe uma revista e leva para casa, e a cada aula trocam entre si, falam das histórias e curiosidades que têm nas revistas. Estamos no rodízio de revistas.

Certo dia, na turma do grupo V, dei início ao trabalho da história “A girafa sem sono” de Michele Iaccoca. As crianças estavam sentadas em uma roda de cadeirinhas, quando disse que iria contar uma história sobre uma girafa que não conseguia dormir. Eu estava com os fantoches nas mãos. Tinha uma árvore e uma estrela. Desenhei mais estrelas na lousa, a lua e a uma nuvem e coloquei uma máscara de girafa.

Todos ficaram atentos, com os olhinhos brilhando quando dei início a história.

“Naquela noite, enquanto todos os animais da floresta já estavam dormindo há muito tempo, a girafa andava pra lá e pra cá e não conseguia pegar no sono... -É verdade! Como é que eu não tinha pensado nisso! - disse a girafa e encostou a cabeça no meio dos dois galhos da árvore”.

Logo, sempre que um personagem sugeria a girafa a melhor maneira de ajudá-la pegar no sono, todas as crianças respondiam, -“É verdade! Como eu não pensei nisso”!

Depois da contação da história alguns queriam também vestir a máscara e ser a girafa enquanto outros dividiam os fantoches de árvore e estrelas. Como atividades pintaram a história em papel pardo que ficou lindo decorando a sala.

No outro dia ao relembrar da história, as crianças fizeram a carinha da girafa usando tinta guache nas mãos e carimbando-as na folha de papel sulfite onde já estava escrito a palavra GIRAFA na parte superior e o nome do aluno na parte inferior. Construíram também seus próprios fantoches de girafa utilizando rolinhos de papel higiênico. Cada fim de tarde é hora da história.

Já no 1º ano contei a história “A girafa sem Sono”, porém as atividades contemplam o conteúdo que a professora titular está trabalhando.

Comecei a aula me apresentando como a girafa da história, usando a máscara. Mas logo tive que tirar e improvisar, pois uma das alunas ficou com medo dos fantoches e da máscara de girafa. Então desenhei no quadro, e para meu espanto todos ficaram atentos. Bastou a entonação na voz e a ilustração na lousa.

Contei a história na primeira pessoa, ou seja, eu era a girafa e estava contando o que tinha acontecido comigo em um dia desses.

_ “Certa noite, todos já estavam dormindo, mas eu dona girafa não tinha sono algum...”

Como eu era a protagonista ele faziam perguntas para mim, dona girafa, e completavam a frase “como eu não pensei nisso antes?”

No final da história falei para eles que a história que eu tinha contado saíra de um livro escrito por Michele Iaccoca.

Na continuidade, dei a eles uma folha com atividades sobre a girafa sem sono. A atividade contemplou a interpretação e compreensão da história contada, e, a soma das estrelinhas.

Assim que terminaram as atividades, a maioria dos alunos insistiram que gostariam desenhar a sua girafa, desta forma, dei uma folha sulfite para cada um e escrevi o título da história na lousa para colocarem no desenho. Criaram desenhos lindos. Assim como alguns já fizeram no caderno da mala.

Quanto a mala viajante, toda aula, que é uma vez por semana, os alunos imploram para ser a vez deles, e isso é muito gratificante, pois falam entre eles como é legal levar os livros para casa e isso contagia os demais.

Já é possível ver mudanças em muitos alunos na postura que tem em relação aos livros. Um exemplo disso é que muitas vezes, em minha hora atividade, vou à biblioteca para pegar alguns livros para ler em casa e aprender sobre os personagens, e só depois poder contar com detalhes que podem fazer toda a diferença. Pois bem, às vezes esses livros contêm mais que uma história, e quando acabo de ler, ou contar a história, digo para eles que tem muito mais histórias no mesmo livro, e geralmente alguém pede para levar e trazer no outro dia.

E no outro dia me procuram para entregar o livro. E sabe o que me deixa feliz? É que cuidam dos livros com muito carinho. Estão aprendendo a ter um zelo pelo material que levam para casa e que são de uso da comunidade escolar.

Quanto a avaliação, neste curto espaço de tempo do projeto já é visível o quanto está sendo significativo para os alunos e pais/cuidadores.

Eu esperava ver o brilho nos olhos das crianças na hora de receber a mala, mas foi além, eles trazem a mala e mostram o que o pai, mãe ou responsável escreveram no caderno, e são relatos maravilhosos. A família esta mais presente na vida escolar da criança.

As expectativas foram superadas nesta primeira etapa, a direção já pensa em adquirir mais material para contemplar todas as salas e dar continuidade no projeto.

O projeto tem sido uma atividade lúdica que está despertando o desejo pelo aprender em muitas crianças. Penso que este projeto é uma simples ação a favor do vínculo com a aprendizagem.

Os pais ou responsáveis talvez nem se deem conta que ao participarem do projeto estão dando um valor simbólico à escola, deste modo a criança estabelece um vínculo prazeroso com a professora e o aprender.

Da mesma forma é com a professora, pois ela é a mediadora do ensino e quando garante que aprender é bom, prazeroso e possível, mas que errar, falhar também faz parte natural do processo de aprender consegue-se que a criança deseje o aprender.

Aprendi muito com as crianças, principalmente que cada um tem possibilidades de aprender e que enquanto educadora tenho que buscar formas lúdicas que fascinem os mesmos, que despertem a curiosidade e o gosto pela educação, pois esta é seu maior tesouro.

Isso posto, acredito que podemos fazer a diferença com pequenas atitudes. Ajudando crianças a serem capazes não só de atender aos desejos de sua família, da escola, mas, sobretudo ao prazer e desejo de aprender para ela mesma, questionando e construindo conhecimentos para a vida.


Referência: FERNÁDEZ, Alicia. O saber em jogo: a psicopedagogia propiciando autorias de pensamentos. Porto Alegre: Artmed, 2001.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal