Projeto whitecoat



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O "PROJETO WHITECOAT"*
OU A CONTRIBUIÇÃO ADVENTISTA À GUERRA BIOLÓGICA


Um projeto do exército dos Estados Unidos, que concluiu faz mais de 25 anos, é novamente objeto de escrutínio. O "Projeto Whitecoat" era o nome em código do exército para uma série de estudos sobre guerra biológica levados a cabo com aproximadamente 2.300 militares Adventistas do Sétimo Dia desde 1954 até 1973. Agora o exército está a pesquisar os efeitos em longo prazo que o projeto possa ter causado nos participantes. Os veteranos do Whitecoat se reuniram recentemente para uma reunião em Frederick, Maryland. Segundo reportagens recentes de Associated Press [1] e National Public Rádio [2], a maioria está orgulhosa do papel que desempenharam na defesa da nação e informam ter experimentado pouco ou nenhum impacto adverso sobre sua saúde. Ainda que possa haver alguns que apóiem o uso de “humanos porquinhos-da-índia” na investigação sobre guerra biológica, há pontos maiores em disputa do "Projeto Whitecoat" que estão a surgir novamente. Estes pontos em disputa se focalizam no papel que a Igreja Adventista do Sétimo Dia jogou no desenvolvimento, por parte do exército dos Estados Unidos, de armas químicas e biológicas (CBW, por suas siglas em inglês) para a destruição em massa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, e sob estrito segredo, o Exército dos Estados Unidos estabeleceu Camp Detrick nos arredores de Frederick, Maryland, com o único propósito de desenvolver armas bacteriológicas. O programa estava controlado pelo Serviço de Guerra Química do Exército, um ramo que tinha trabalhado com armas gasosas usadas pelos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. O exército começou a estudar os efeitos tanto ofensivos como defensivos da guerra biológica.

Em 1952, o Corpo Médico do Exército destacou uma unidade médica em Fort Detrick e em 1954 esta unidade começou a utilizar soldados Adventistas do Sétimo Dia em sua investigação, presumivelmente nos aspectos defensivos da guerra bacteriológica. Em 1956, a unidade médica foi reorganizada numa unidade permanente e independente chamada Unidade Médica do Exército dos Estados Unidos, Fort Detrick. em 1969, o nome foi mudado novamente, desta vez para Instituto de Investigação Médica do Exército dos Estados Unidos Para Doenças Infecciosas (USAMRIID, por suas siglas em inglês). Fort Detrick foi a base para o que se conheceu como o "Projeto Whitecoat", o nome em código para o grupo de soldados Adventistas do Sétimo Dia que eram usados como porquinhos-da-índia humanos na investigação sobre guerra biológica.



Porquinhos-da-Índia-Humanos
Proporcionados Pela

Igreja Adventista do Sétimo Dia

Nas forças armadas, o "Projeto Whitecoat" era único porquanto utilizava como sujeitos de prova exclusivamente a soldados que eram Adventistas do Sétimo Dia. Estes jovens adventistas tinham sido recrutados pelo exército e registrados como "objetores de consciência", porque recusavam desempenhar atividades de combatentes por razões religiosas. A estes objetores classificou-lhos como 1-A-O e foram enviados ao Centro de Treinamento Médico do Exército dos Estados Unidos em Fort Sam Houston, Texas. Ali foram habilitados para ser enfermeiros de primeiros socorros. Foi deste corpo médico não combatente de onde o Exército escolheu seus sujeitos de prova para o "Projeto Whitecoat".

Se somente a metade dos não combatentes que se estavam treinando em Fort Sam Houston era de Adventistas do Sétimo Dia, por que foram adventistas os únicos selecionados dessa reserva de soldados? A razão disto era um "acordo de cavalheiros" que havia entre os dirigentes adventistas e o exército. A revista Spectrum informou:

Em outubro de 1954, o então Cirurgião Geral, George Armstrong, enviou uma carta a Theodore R. Flaiz, secretário do Departamento Médico da Conferência Geral, dizendo-lhe que o Tenente Coronel W. D. Tiggertt, oficial comandante da unidade médica de Fort Detrick, tinha sido convidado 'a apresentar aos representantes da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia uma solicitação de ajuda num estudo da maior importância para a saúde de nossa nação. Só com a ajuda de voluntários pode obter-se a necessária informação'. [3] (O grifo é nosso).

A cálida resposta do Dr. Flaiz estava datada no dia seguinte. Nessa carta, acusava resposta da carta do general Armstrong e dizia que tinha ouvido a apresentação do Cel. Tiggertt. Flaiz escreveu:

Achamos que, se alguém devesse reconhecer uma dívida de lealdade e serviço pelas muitas cortesias e considerações recebidas do Departamento de Defesa, nós, como Adventistas, temos uma dívida de gratidão por estas amáveis considerações. O tipo de serviço voluntário que se está a oferecer a nossos rapazes, neste problema de investigação, oferece uma excelente oportunidade para que estes jovens prestem um serviço que será de valor, não só para a medicina militar, senão para a saúde pública em geral. Acho que expresso, não só a opinião de nosso grupo administrativo neste escritório, senão também de nossos jovens adventistas nos serviços militares, observando que se deveria considerar um privilégio ser identificado com o significativo passo adiante na investigação clínica. [4]  (O grifo foi acrescentado).

É claro que a correspondência do exército com a igreja apresentava esta operação conjunta como um importante projeto de saúde pública que resultaria em "um significativo passo adiante na investigação clínica". Para uma denominação que se orgulha de sua ênfase sobre a saúde, a oportunidade de fazer ressaltar seu zelo "humanitário" pode ter sido demasiado boa para a passar por alto. A Adventist Review explicou mais tarde por que o exército procurou a ajuda dos Adventistas em seu programa de guerra bacteriológica. O artigo de 1969 diz:



Sabia-se que os militares médicos adventistas estavam altamente motivados para o serviço humanitário. Assim, pois, a aproximação à Igreja Adventista do Sétimo Dia tinha o propósito de estabelecer se isto seria considerado algo para o qual um soldado adventista oferecer-se-ia como voluntário. Após um estudo exhaustivo, o Departamento Médico da Conferência Geral e o Comité da Conferência Geral concordaram em que este serviço humanitário era da mais alta categoria, e que qualquer soldado adventista podia se sentir livre para se oferecer como voluntário para ele. [5]

O coronel Dan Crozier, naquela época comandante do USAMRIID, tinha dito que "por causa de seus altos princípios e sua vida temperante, os soldados adventistas são mais uniformes em aptidão física e atitude mental. Percebemos que os soldados [adventistas] são cooperadores e estão dispostos a servir". [6]

A boa saúde e o humanitarismo dos adventistas não lhes faziam imunes às lisonjas do exército, segundo Neil C. Livingston, um Adventista do Sétimo Dia que vive em Spokane, Washington, e que pesquisou e escreveu a respeito do "Projeto Whitecoat". "Foram adulados pelo exército para que entrassem neste projeto", disse. "Foi um intenso trabalho de persuasão".

Depois que os oficiais da igreja estiveram de acordo em que os recrutas adventistas poderiam participar na investigação de Fort Detrick, o general Armstrong elogiou o fato de que eles cressem no "benefício de toda a humanidade". Livingston sustenta que "a verdadeira opinião do exército é que os adventistas são os únicos estúpidos o bastante para oferecer seus jovens como voluntários para um projeto tão perigoso".



O Caminho Para a Guerra Biológica
Pavimentado de Boas Intenções

"completamente ... defensivo ... e, portanto, humanitário".

Os perigos potenciais do "Projeto Whitecoat", bem como sua relação com a guerra biológica ofensiva, são pontos em debate suscitados por vários grupos durante a década de 1960. Em 1962, a revista canadense Macleans informou:

A utilização de voluntários humanos para provar novos agentes químicos e biológicos não carece de riscos. Os experimentos ingleses resultaram pelo menos numa morte, que foi discutida na Câmara dos Comuns. Informou-se que o programa norte-americano teve pelos menos três decesos, durante os dez últimos anos, e uns 715 casos de doença e lesões de "intensidade variável". Os voluntários norte-americanos são recrutados nas penitenciárias e nas forças armadas. Muitos dos porquinhos-da-índia humanos neste último grupo foram jovens Adventistas do Sétimo Dia. Pacifistas por convicção, preferem participar em atividades não militantes enquanto estão no exército”. [7]

Os oficiais da Igreja Adventista e do exército fizeram questão de que os voluntários do "Projeto Whitecoat" fossem utilizados somente na investigação da guerra biológica defensiva ou na investigação de "doenças infecciosas", como dizem eles, e que o USAMRIID estivesse completamente separado da investigação biológica ofensiva de Fort Detrick. Os oficiais do exército afirmam que os voluntários de Whitecoat contribuíram para o desenvolvimento de vacinas para a febre amarela, a hepatite A, o antrax e a peste negra, bem como vacinas, ainda experimentais, para a tularemia, a febre Q e a encefalite eqüina venezuelana. [8]

Clark Smith, diretor do (Adventist) National Service Organization (NSO) [Organização do Serviço Militar Nacional (Adventista)], um departamento de capelania da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, informou que, desde 1956 até 1969, o USAMRIID tinha publicado 160 documentos nos diários profissionais de muitos países. A investigação da unidade não está classificada e está livremente disponível em qualquer biblioteca médica adequada, convertendo supostamente o "Projeto Whitecoat" num significativo colaborador na luta contra as doenças infecciosas ao redor do mundo. [10]

No entanto, a estimativa de 160 trabalhos de investigação conduz a erro, pois esta cifra pertence a toda a investigação levada a cabo no USAMRIID entre 1956 e 1969. O "Projeto Whitecoat", parte de USAMRIID e o único programa de Fort Detrick a usar porquinhos-da-índia humanos, produziu apenas cinco trabalhos de investigação publicados durante os primeiros doze anos do projeto e um total de 23 para quando o projeto foi concluído, em 1973. [10]  Os oficiais do exército e da igreja tentaram criar uma fachada de "investigação sobre a saúde pública" e "medicina militar", mas não puderam sustentá-la. Até Smith apartou-se da tolice de falar de "saúde pública" quando reconheceu:



[O Projeto Whitecoat] remonta-se ao período de 1953-1954, com o conceito original de que o estudo estabelecesse a vulnerabilidade do homem ao ataque com armas biológicas e submetesse a prova a eficácia das vacinas contra a febre Q e a tularemia ... [um conceito levado adiante até 1973].

Deve-se assinalar que, em estando a obra do USAMRIID publicada e disponível livremente, os que trabalham no campo da ofensiva podem utilizar esta informação como o poderia fazer qualquer outra pessoa interessada. [Uma maneira sub-reptícia de reconhecer que a investigação beneficiou ao campo da ofensiva].

No entanto, na opinião deste comitê de estudo, a obra dos voluntários adventistas no USAMRIID pertence inteiramente à área defensiva da guerra biológica e é, portanto, de natureza humanitária. O comitê pensa que os esforços e os sacrifícios destes voluntários são perfeitamente corretos para o cristão que deseje entrar neste campo. [Reconhece que os adventistas estiveram envolvidos na investigação sobre a guerra biológica]. [11]

Neste ponto, a mente que raciocina pode ter dificuldades para conciliar o termo "humanitário" com o de "guerra biológica". Agora, como na década de 1960, surge a pergunta: Em que área da guerra biológica deveria se envolver a igreja?



Recrutando aos Cordeiros

"... a antigo e provada arte de vender, estilo adventista".

A Enciclopédia Adventista do Sétimo Dia diz: "Outro exemplo de heroísmo não combatente enquanto se está no serviço militar é a 'Operação Whitecoat', um projeto de experimentação médica, cujo pessoal está composto INTEIRAMENTE de voluntários ASD...." [12]  (os grifos são nossos). Ainda que essa proporção talvez se deva, em parte, à parcialidade do USAMRIID para espécimes adventistas, as afirmações dos oficiais da igreja e dos voluntários indicam que a igreja estava envolvida ativamente no recrutamento de rapazes adventistas para o projeto.

Além das afirmações que antecedem, o diretor de NSO, Clark Smith, disse que "os voluntários do Whitecoat são recrutados dentre o pessoal militar durante o Treinamento Individual Avançado no Centro de Treinamento Médico do Exército dos Estados Unidos, Fort Sam Houston, Texas". [13]  (o grifo é nosso).

Um artigo em Youth´s Instructor, de 1963, dizia que "durante este período de treinamento, aos recrutas adventistas era proporcionada informação concernente à Operação Whitecoat. Duas ou três vezes em cada ano, o diretor do projeto, o coronel Dan Crozier, de Frederick, Maryland, e o pastor J. R. Nelson, secretário da Organização para o Serviço Militar Nacional da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, viajam ao Texas para entrevistar a possíveis candidatos para o projeto". [14]  (o grifo é nosso).



"Um amigo meu assistiu à Academia [Adventista] de Mount Ellis, em Bozeman, Montana", Neil Livingston lhe disse a The Winds. "Quando se graduou em 1957, foi recrutado pelos representantes do NSO..." para o Projeto Whitecoat. [15]

Um veterano do "Projeto Whitecoat", César Vega escreveu: "Eu, sim, tive algo de experiência como estudante na Escola Superior [Adventista] de La Sierra. Durante esse tempo, falou-se-me da experiência pela primeira vez (não o chamavam o Projeto Whitecoat ainda e eu fui um dos primeiros a participar da experiência)... Por que o fiz, ainda não o sei. Estou seguro de que foi sobretudo pela pressão de meus iguais e a antiga e provada arte de vender adventista". [16]  (O grifo é nosso).

Um veterano do Whitecoat, G. R. Bietz, disse: "Não lembro como nos recrutaram ... Lembro de um homem da conferência, ainda posso ver seu rosto, mas não recordo seu nome". [17]  (O grifo é nosso).

Um artigo numa publicação adventista declara: "Um coronel e um representante da Organização do Serviço Militar Nacional da Conferência Geral apareceram durante uma reunião especial [de recrutas], falaram de um desusado projeto de investigação médica e pediram voluntários". [18]

Um homem da Conferência Geral, junto com um oficial de alta patente do exército, foram a Fort Sam Houston para procurar voluntários para um programa governamental secreto chamado "Projeto Whitecoat". Soava como uma boa maneira de servir a meu país e, acima de tudo, o programa era patrocinado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. [19]

A julgar pelos depoimentos dos oficiais da igreja e de os recrutar por igual, parece que o papel que a Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia atuou na Operação Whitecoat não foi uma mera sanção passiva da participação dos membros da igreja. Parece, muito mais, que recrutavam pessoal ativamente para o USAMRIID, atuando como adjuntos.



Eram Realmente Voluntários?

"A verdade é que estavam matando a nossa gente lá no Vietnã ..."

A palavra "voluntário" aparece em todos os artigos e documentos que cercam o Projeto Whitecoat, e sim, os que participavam se ofereciam como "voluntários" para o projeto. Após assinar, ficavam livres para se retirar do projeto em qualquer momento. Segundo o Código de Nuremberg de 1947, os voluntários do Whitecoat eram plenamente informados por médicos competentes dos possíveis efeitos que cada experimento podia ter sobre seus corpos. Após serem infectados, aos voluntários eram proporcionados excelentes cuidados médicos e, no entanto, apesar das aparentes garantias de qualidade, é claro que era a coerção o que os mantinha unido ao projeto.



"A igreja se tinha colocado de acordo com a autoridade governamental para convencer a estes jovens de que deviam fazer isto para que não tivessem que ir ao Vietnã", disse Livingston à Associated Press em outubro. [20]  Foi o temor de enfrentar o serviço ativo como enfermeiros de campo no Vietnã ou na Coréia o que manteve ao Projeto Whitecoat transbordante de voluntários adventistas.

"Disseram-nos que, se não nos oferecêssemos como voluntários, atribuir-nos-iam o serviço militar ativo em ultramar", disse um dos voluntários a Livingston durante uma entrevista por telefone. "Eu me ofereci para este experimento para não ser enviado a ultramar", escreveu Wilson Wynn, outro voluntário. [21]   "A verdade é que estavam a matar a nossa gente lá no Vietnã... Não há muitos de nós [Adventistas], creio eu, que não teríamos ido ao Vietnã se não nos tivéssemos oferecido como voluntários [para Whitecoat]", explicou um veterano de Whitecoat, Lester Bartholomew, numa entrevista com The WINDS.[22]

"A maioria dos que participaram eram recrutas que escolheram o Whitecoat a ter que ir à Coréia ou ao Vietnã", escreveu John E. Keplinger, capelão (COR.) AUS, Ret. [23]

Evidentemente, foi o temor, muito mais que os "ideais humanitários", o que reteve aos recrutas adventistas no Projeto Whitecoat, pois, tão cedo se concluiu o recrutamento, o projeto fracassou, aparentemente por falta de "voluntários". "O Projeto Whitecoat se deu por finalizado em janeiro de 1973 com a finalização do recrutamento", escreveu o Coronel Dan Crozier, antigo oficial comandante do USAMRIID. [24]   (O grifo é nosso).



Simulação de Febre Q no

Campo de Batalha em Dugway

"Não nos disseram que este era um projeto de 'Guerra Bacteriológica' ..."

Tom Kopco era um adventista recrutado pelo exército em 1954. Ofereceu-se como voluntário para o Projeto Whitecoat e estava no primeiro grupo de soldados adventistas "que serviram num projeto experimental de guerra bacteriológica altamente classificado que se levou a cabo em Fort Dugway, Utah", segundo uma declaração assinada por ele em 1989. [25]  "Soava como uma boa maneira de servir a meu país e, acima de tudo, o programa estava patrocinado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia", escreveu. O projeto era uma experiência de febre Q executado em sujeitos de prova humanos no Campo de Provas de Dugway, onde o Exército leva a cabo provas de guerra química e biológica. Foi aqui onde foram enviados muitos dos primeiros voluntários do Projeto Whitecoat.

Kopco e seus parceiros voluntários foram separados em oito grupos, de cerca dez soldados cada um, e transportados a lugares de provas situadas a aproximadamente 40km, na salina de Utah. Fizeram-nos sentar em cadeiras situadas em diferentes níveis sobre uma alta plataforma de madeira. Ao redor deles havia jaulas com ratos, graciosos, e porquinhos-da-índia. Exatamente após a meia-noite, quando as condições do vento eram favoráveis, os oficiais se punham máscaras anti-gás e a prova começava. Um fresco orvalho carregado do infeccioso vírus da febre Q era espalhado por grandes leques ou jogado de aviões sobre os voluntários, segundo se dizia. Após ficar contagiados, os soldados eram levados de volta a Fort Detrick em avião para serem submetidos a provas e observações. Alguns soldados não foram a Dugway para ser expostos ao contágio porque, em vez disso, inalavam o vírus da febre Q por uma máscara facial em Fort Detrick.

Kopco informou ter-se sentido um pouco doente, enquanto outros se sentiram "mortalmente doentes". "Tínhamos que passar por seus alojamentos muito silenciosamente porque o mais ligeiro ruído os deixava loucos", escreveu. Um deles era César Vega, um voluntário do Projeto Whitecoat, de Riverside, Califórnia. Disse que esteve bem durante uma semana após ser contaminado em Dugway, mas que depois caiu doente com uma febre terrível e perdeu a consciência. Acordou dois dias mais tarde, coberto de gelo, numa tentativa do pessoal médico, para lhe baixar a febre. Esteve doente durante as três semanas seguintes. Os experimentos com a febre Q em Dugway levaram-se a cabo ao começo do Projeto Whitecoat, enquanto as provas subseqüentes se efetuaram no quartel geral do USAMRIID em Fort Detrick, Maryland.



"Não nos disseram que este era um projeto de 'guerra bacteriológica', como eu entendo que realmente o era", escreveu Harry V. Wiant, Jr., um veterano do Whitecoat que participou das experiências com a febre Q em Dugway. [26]

Experiências Com Tularemia

Após as experiências iniciais com a febre Q, o Projeto Whitecoat avançou para outras doenças exóticas como a febre amarela, o antrax, e a tularemia, todas potencialmente fatais. Lester Bartholomew era um jovem adventista de 20 anos quando foi recrutado em meados da década de 1960. Ele contou a The WINDS que se ofereceu como voluntário para o Projeto Whitecoat enquanto estava em treinamento básico em Fort Sam Houston. Após ser transferido à unidade do Whitecoat em Fort Detrick, participou em três projetos nos quais foi contagiado com tularemia, peste negra, e febre de coelhos [sic]. Durante o primeiro projeto, contagiou-se respirando de uma máscara facial. As seguintes duas infecções foram-lhe administradas em injeções.

Bartholomew disse que adoeceu gravemente, com febre de 106 graus em certo ponto. O pessoal médico o cobria de gelo e tomava-lhe amostras de sangue com freqüência. Bartholomew foi hospitalizado e recuperou-se, mas experimentava febre recorrente e fadiga após ter recebido alta.

Thomas Ford é outro veterano do Whitecoat que foi infectado com tularemia. Ele também se recuperou após ser hospitalizado, mas, após receber alta, experimentou uma recaída de "febre alta, calafrios e mal-estar", bem como "latidos rápidos crônicos". [27]

Aproximadamente 2.300 adventistas estiveram envolvidos no Projeto Whitecoat entre 1954 e 1973. Diz-se que a Administração de Veteranos não reconheceu nenhuma afirmação relacionada com o programa.

A Grande Mentira

"Minha primeira objeção ao projeto da febre Q era que nos foi representada falsamente como uma obra humanitária, não de guerra bacteriológica". Harry V. Wiant, Jr.

Tanto o USAMRIID como a Igreja Adventista do Sétimo Dia asseguraram que a investigação levada a cabo com voluntários adventistas era puramente defensiva e que resultou em importantes vacinas e informação. Acentuaram a separação entre os aspectos ofensivo e defensivo da guerra biológica, chamando ao Projeto Whitecoat "o estudo das doenças infecciosas", uma frase que implica uma conotação puramente médica. Mas, é a investigação "defensiva" da guerra química e bacteriológica (CBW) tão separada da "ofensiva" como o branco do negro? Não é "guerra bacteriológica" outra maneira de dizer "guerra de doenças infecciosas"?

A chegada do Projeto Whitecoat em 1954 correspondia à crescente dependência do Exército dos Estados Unidos de CBW como um componente viável de sua estratégia geral. Em 1959, o Exército encarregou uma campanha de relações públicas chamada em código "Operation Blue Skies" [Operação Céus Azuis], que tinha o propósito de criar uma imagem positiva da guerra química e biológica na mente do público. Alarmado por esta tendência, o congressista por Wisconsin, Kastenmeir, apresentou um projeto de resolução reafirmando a política dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial de que este país não seria o primeiro a usar CBW. Durante um discurso após ter tomado a palavra, advertiu que o exército estava a tratar de reverter esta política. Seu projeto de resolução fracassou, muito mais por causa da ativa oposição dos Departamentos de Defesa e de Estado.

Em correspondência com a campanha "Blue Skies" do exército, havia uma série de artigos escritos por Don A. Roth e publicados no periódico adventista Youth´s Instructor, em outubro de 1963. Roth relatava a história do jovem soldado raso Tom Kopco, um voluntário do Whitecoat, que acabava de abordar um transporte aéreo do exército que se dirigia a Fort Dugway, Utah. Sentado em seu assento, o jovem soldado raso recordava seu treinamento básico. Roth escreveu:

O lugar era Fort Sam Houston, Texas, e ele quase tinha terminado seu treinamento básico pós-recrutamento. Um coronel e um representante da Organização do Serviço Militar Nacional da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia apresentaram-se numa reunião especial, falaram de um desusado projeto de investigação médica e pediram voluntários. Nesse ínterim, ele não compreendeu bem todos os pequenos detalhes do programa, mas lhe pareceu que devia participar do projeto. A resposta plena e completa a suas inquietudes deu-lhe a certeza de que esta era uma obra cuja qual valia a pena participar. Seu sangue patriótico lhe correu pelas veias com força ao antecipar a possibilidade de fazer algo de benefício material por seu país. Seu nome apareceu em linha pontilhada.” [28]

Quando lho compara com a declaração de Kopco em 1989, é claro que este relato era uma versão adocicada da participação adventista na investigação sobre guerra química e biológica. Num segundo artigo, Roth escreveu:

O projeto tem que ver simplesmente com experimentación médica. Mas, como resultado desta atividade, o Serviço Médico do Exército fez progressos materiais no desenvolvimento de métodos apropriados para a prevenção e o tratamento de doenças infecciosas. Ao aproximar-se estes estudos a sua conclusão, a informação obtida comunica-se directamente à profissão médica dos Estados Unidos. Assim, pois, todos os cidadãos se beneficiam do programa, não só os membros das forças armadas.” [29]

No entanto, alguns médicos do exército tinham aparentemente mais escrúpulos que a Igreja Adventista do Sétimo Dia quanto aos possíveis envolvimentos da "experimentação médica". Isto levou o Coronel Tigertt, comandante do USAMRIID, a criticar, num artigo publicado em Military Medicine nesse mesmo ano, aos médicos que se negaram a participar do programa por causa das implicações morais. Tigertt escreveu:

O que surpreende é que muitos médicos recusaram ter algo que ver com o problema [da investigação]. Explicam sua apatia dizendo que a ética proíbe sua participação em qualquer esforço cujos derivados possam ser usados para causar sofrimento ou a perda da vida... Tais atitudes, sejam plenamente desenvolvidas ou não, não podem ser ignoradas porque estorvam seriamente os esforços para proceder as investigações apropriadas.” [30]  (O grifo é nosso).

Esta aparente "apatia" à qual se refere Tigertt era causada  pelo juramento hipocrático, que diz:

“Usarei tratamentos para ajudar aos doentes segundo minha capacidade e meu julgamento, mas nunca com o propósito de fazer dano nem cometer mal. Também não administrarei veneno a ninguém quando se me peça faze-lo, nem sugerirei tal curso de ação.” (O grifo é nosso).

Talvez, o Código de Ética em Tempo de Guerra da Associação Médica Mundial tenha apagado o entusiasmo investigativo dizendo: "Considera-se não ético que os médicos debilitem a fortaleza física e mental de um ser humano sem justificativa terapêutica, e que empreguem o conhecimento científico para pôr em perigo a saúde ou destruir a vida". [31] (O grifo é nosso).

Era este o mesmo Coronel Tigertt, que estava tão ansioso em subverter o juramento de "não causar dano", o qual entusiasmou e convenceu aos adventistas oferecendo-lhes a oportunidade de participar "num estudo da maior importância para a saúde de nossa nação"? Era o próprio, sim. No entanto, a capa superficial "humanitária" é tão delgada que os dentes caninos deste programa se sobressaem quase em cada ponto.

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