Propaganda ideológica: um estudo de caso da revista maranhense



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História da Publicidade e da Propaganda


Coordenação: Prof. Adolpho Queiroz (UMESP)

PROPAGANDA IDEOLÓGICA: UM ESTUDO DE CASO DA REVISTA MARANHENSE


Autor: Marla Cristiane Araújo Medeiros


São Paulo-2004



1. O positivismo como ideologia


O presente trabalho analisa ensaios que divulgam as ciências no início do século XX, e corresponde à concepção empirista de ciência. Não nos colocaremos como sua defensora, mas explicaremos que esta concepção, por meio da doutrina positivista, foi uma prática social marcante no início do século XX e responde, portanto, a alguns parâmetros da sociedade moderna. A intenção é, ao mesmo tempo, ter um quadro de contribuição que mostre o “fazer-ciência” naquele momento e abstrair percepções do olhar científico da sociedade maranhense entre os anos de 1916 a 1920, portanto, no final da segunda década do século XX.

Para chegarmos a esse entendimento recorremos a noção de ciência Moderna. Segundo Bacon (apud CHAUÍ, 1995, p. 255), o “saber é poder” e, completando ainda com o filósofo Descartes, “a ciência moderna nasce vinculada a idéias de intervir na natureza, de conhecê-la para apropriar-se dela, para controlá-la e dominá-la”.

A ciência, em sua versão moderna, não é apenas “contemplação da verdade, mas é, sobretudo, o exercício do poderio humano sobre a natureza” (CHAUÍ, 1995, p. 255).

Nosso objeto, localizado no início do século XX, mais precisamente até o início do ano de 1920, nos fala de uma ciência que procurava somente através dela a resposta para quase tudo, construindo um otimismo social, pois trazia a esperança na Medicina, na Engenharia e em tantas outras áreas, porém construía também um ceticismo diante daquilo que não compunha a compreensão científica. Ou seja, pairava no ar um extremismo incentivado por algumas correntes científicas de cunho filosófico que acabam se tornando de forte conotação ideológica.

Segundo SCHWARTZMANM (1981, p.38), a perspectiva de moderno traz em sua essência “a noção liberal de desenvolvimento através da racionalização”. E esta é essencialmente individualista e supõe que a sociedade “será tanto mais racional e eficiente quanto cada pessoa maximize sua racionalidade individual, deixando de lado normas de comportamento que possam restringir ou limitar a iniciativa dos indivíduos”, o que nos leva a crer que essa colocação expressa o modelo da sociedade que despontava para um ideal competitivo.

Nesse sentido, o racionalismo, como motor dessa sociedade moderna, pregava uma ideologia que se dizia “libertária” e desafiava a organização tradicional das sociedades e seus sistemas estabelecidos de poder e autoridade. A ciência como instituição social caminhava também nessa versão liberal, inseparável dos ideais dos séculos XVIII e XIX, que tratavam da evolução e do progresso através do desenvolvimento da razão e racionalidade dos indivíduos. Para os pensadores da época, aqueles moldes do conhecimento científico deveriam prevalecer, porque possuíam mais incrementos e eram mais convincentes do que a sabedoria convencional. SCHWARTZMAN (1981) se apropria desta noção para dizer que ela supõe elementos fundantes da elaboração positivista para o “pensar” científico.

O pensamento científico tinha um pacto com o sistema moderno e este, por sua vez, com uma lógica capitalista que operava e ascendia na sociedade européia. Ele contribuía para a manutenção das condições de produção da sociedade moderna. E nela apostava o equilíbrio e a construção de uma sociedade “feliz”.

O que esboçamos representa o embrião de uma doutrina positivista. As obras de Comte marcadas em seus escritos trazem, em cada um, fragmentos que culminam na sua Filosofia Positiva, numa doutrina ideológica que parece ter sido, naquele momento, bastante apropriada aos interesses da classe hegemônica do século XIX, projetando para o século XX.

Nas considerações filosóficas de Comte, o verdadeiro princípio científico advém de uma grande lei filosófica que prevê a “sucessão constante e indispensável dos três estados gerais (...)”, que ele define como: o mais primitivo, o teológico; o transitório, o metafísico; finalmente, o estágio positivo. Para Comte, nossa inteligência passa sempre por esses estágios (BENOIT, 1999 p. 214).

Eles são a “chave da teoria histórica do progresso (...)”, pois o núcleo da Filosofia de Comte reside na idéia de que a “sociedade só pode ser convenientemente reorganizada através de uma completa reforma intelectual do homem” (COMTE, 1983, p. 9 ).

Comte se distanciou do pensamento de outros filósofos de sua época. Esse afastamento ocorreu porque seu pensamento era de que as transformações deveriam iniciar com a ação de “fornecer aos homens novos hábitos de pensar de acordo com o estado das ciências de seu tempo”, segundo interesses da ordem vigente. Outros pensadores discordavam dessa idéia (COMTE, 1983, p. 9).

O positivismo, como ideologia, solidificou sua base agregada ao pensamento capitalista. O burguês, entendido como o homem do capital, mas também o intelectual de influência, aparece como propagador desse modelo socioeconômico e científico que desponta com força naquele momento histórico. HOBSBAWN (2000, p. 336) argumenta que “a quintessência do burguês era ser um capitalista”.

As idéias positivistas têm a evolução como o elo entre as ciências naturais e as ciências humanas ou sociais. Foi uma ideologia triunfante, principalmente porque tinha, como representantes, instituições religiosas, governamentais e simbólicas, como era a imprensa.

No Maranhão, pairava uma resistência a romper com tradicionalismos e religiosidade com relação ao que era divulgado como informação de ciência. Essa é uma postura dos grupos dos mais emancipados e instruídos, uma discussão que dificilmente saía do ciclo dos mais cultos.

Um modelo que representava uma sociedade de “status” contrapondo-se à nova tendência que já despontava, marcada pela lógica do “contrato” determinado pelas especificações do capitalismo industrial já bastante forte (HOBSBAWN, 2000, p.365).

O início do século XX, ao menos no Brasil, pelo que aponta a história, está registrado pelo continuísmo de idéias anti-revolucionárias, expresso pelo discurso social que colocava o “progresso” sob a “forma de sociedades burguesas, capitalistas e, num sentido, gerais, liberais” (HOBSBAWN, 2000, p.424).

Esse positivismo com inclinações naturalistas condizia, segundo CRUZ COSTA (1967, p. 280), com a mentalidade das elites brasileiras, com inteligências pouco inclinadas para críticas, com capacidade de aceitação sem contestação, sendo raras as exceções. Um fenômeno marcado por preconizar o antiidealismo e uma aversão à metafísica.

Naquele momento, o Brasil estabelecia com a Europa contatos através dos quais permitia que, sem demora, tivéssemos acesso às idéias que eram pregadas naquele continente. Tínhamos curiosidade e anseio de conhecer. Éramos, como somos até hoje, um país importador de idéias dos grandes centros de cultura (no caso, aqui, da Europa). Notadamente, nossas elites litorâneas, de norte a sul do país, exerceram papel formador de opinião naquela época (CRUZ COSTA, 1967, p. 28).

Existiam, de norte a sul do país, os autodidatas e brasileiros literatos de formação acadêmica ou cultura filosófica adequada. Eles foram curiosos e aderiram mais ao norte, em Recife, à corrente alemã, influenciando algumas outras localidades. Mas o que predominou no Brasil foram as correntes positivistas.

Ao chegar o século XX, constituíamos uma nação republicana com usos, costumes, instituições, valores, hábitos, ainda do século anterior. Portanto, nossa República nada teve de um caráter revolucionário. O contexto político e social tradicional e inalterado, apesar da República, aos poucos foi ficando insustentável. A manutenção do status conservador entrava em conflito com as novas condições conjunturais pelas quais o Brasil passava, marcando, principalmente, a passagem do capitalismo comercial para o capitalismo industrial, especialmente nos grandes centros urbanos do país (CRUZ COSTA, 1967, p. 327).

As mudanças que ocorreram, principalmente nas primeiras décadas do século XX, segundo CRUZ COSTA (1967, p. 332-333), apontavam para um desenvolvimento confuso. “Ainda são as idéias do pensamento filosófico europeu as que irão ter eco nos primeiros anos da República”.

LINS (1967, p.37) diz que o positivismo puramente científico era o que ecoava. No entanto, quem articulava, fosse através de conferências, fosse pelos jornais, folhetins, nem de longe suspeitava do alcance estético do aspecto social e moral da doutrina enquanto Filosofia que influenciava valores e costumes.

As idéias positivistas ou evolucionistas, segundo aponta Cruz Costa, foram sólidas até 1928, quando, paulatinamente, deram lugar aos interesses sociais que geraram a Revolução de 1930.

Os jornais daqueles anos, principalmente os do Rio de Janeiro e de São Paulo, promoviam sátira à neutralidade brasileira durante a maior parte da Primeira Guerra Mundial. O escritor Monteiro Lobato, em outro momento, chegou a se declarar “germanófilo”, ou seja, amigo ou admirador da Alemanha e dos alemães, mas logo se retratou, afirmando que fizera isso apenas para irritar o jornal “O Estado de São Paulo”. Ridicularizando o ufanismo guerreiro, apregoado pela imprensa e por grande parte da intelectualidade nacional, Monteiro Lobato escreveu a crônica “O espião Alemão” (ENCICLOPÉDIA NOSSO SÉCULO XX, 1981, p. 38).

A guerra mundial, até 1917, portanto, em três anos de conflito, não influenciou a participação brasileira, que se manteve neutra até o ataque aos navios brasileiros pela Alemanha por volta de abril do mesmo ano (ENCICLOPÉDIA NOSSO SÉCULO XX, 1981, p.42).

Poucos intelectuais brasileiros, os fascinados e seduzidos pela França, se manifestaram através dos jornais a favor dos aliados. “O crítico literário José Veríssimo, por exemplo, foi um dos mais fervorosos defensores dos aliados” (ENCICLOPÉDIA NOSSO SÉCULO XX, 1981, p. 39).

Pelas reflexões dos autores, o Brasil, nessa primeira fase do século XX, transitava entre um contexto causado pelas perspectivas do capitalismo industrial e as necessidades sociais que se faziam necessárias em função das próprias mudanças conjunturais. Era ainda um país tradicional, preso a uma herança cultural portuguesa, e principalmente algumas elites nacionais não queriam se desvencilhar da influência européia, tanto cultural como até ideologicamente, já que ela era razão de orgulho para muitos brasileiros, em especial para os maranhenses.

Segundo pesquisa realizada no jornal Pacotilha (1916 a 1920) e na Revista Maranhense (1916 a 1920), a imprensa maranhense tinha intensa produção jornalística e literária. As sociedades literárias participavam ativamente da vida pública do Estado. As temáticas de ciências eram uma entre os tantos assuntos pautados pelos membros dessas sociedades. Essa característica peculiar do lugar já existia desde o século XIX.

Na passagem do século XX, as transformações no Brasil demonstram a transição da pequena à grande imprensa. Surgem as empresas jornalísticas, com estrutura específica, dotadas de equipamentos gráficos que respondiam àquelas necessidades no plano da produção acarretando alterações na circulação e nas relações do jornal com o anunciante, com a política, com os leitores. A estrutura dos meios de produção capitalista atinge a imprensa, fazendo-a adotar caráter de empresa que visa lucro.

Segundo SODRÉ (1966, p. 315), “o jornal como empreendimento individual, como aventura isolada, desaparece nas grandes cidades”, porém nas pequenas e no interior os periódicos de caráter amador sobrevivem ainda por muitas décadas. A Revista Maranhense pode ser enquadrada neste tipo de formato.

SODRÉ (1966) mostra que, nessa época, a imprensa carrega traços de uma burguesia economicamente em ascensão, que passa a ter poder social, o que, em vários aspectos, entra em confronto com o estado pré-capitalista resistente e preocupado com a relevância social que aquele novo momento poderia tomar, fragilizando o Estado na sua autoridade quase que absoluta.

SODRÉ (1966) chama essa fase do início do século XX de infância das relações capitalistas, ensejadas pelo capital comercial responsável pelo crescimento da vida urbana brasileira. E foi sustentadas por esta base comercial que as empresas jornalísticas viveram sua fase inicial. O autor mostra que, nessa perspectiva, as forças que dominavam a imprensa do tempo eram o Estado e o capital comercial.

SODRÉ (1966) chama essa fase do início do século XX de infância das relações capitalistas, ensejadas pelo capital comercial responsável pelo crescimento da vida urbana brasileira. E foi sustentadas por esta base comercial que as empresas jornalísticas viveram sua fase inicial. O autor mostra que, nessa perspectiva, as forças que dominavam a imprensa do tempo eram o Estado e o capital comercial.

No que concerne ao conteúdo, os textos, segundo SODRÉ (1966, p. 323), eram precários, de atitude morna e trivial, com poucas páginas (quatro ou oito), “literatura cor-de-rosa”, com um noticiário redigido de forma difícil, empolada”. O jornalismo feito por literatos acabava sendo confundido com literatura, as duas coisas se mesclavam, formando, segundo o autor, uma combinação no pior sentido. “Os homens de letras buscavam encontrar no jornal o que não encontravam no livro: notoriedade, em primeiro lugar; um pouco de dinheiro, se possível”. Esta afirmação de SODRÉ (1966) explica por que os literatos buscavam a imprensa com tanto afinco, chegando esse livre curso entre as duas áreas a ser colocado em questionamento naquele momento. Ao serem questionados sobre se “o jornalismo no Brasil era um fator bom ou mau para a arte literária”, a maioria dos literatos responderam que era bom, afirmando que “ toda a melhor literatura brasileira dos últimos trinta e cinco anos fez escala pela imprensa”.

Ganharam nesta empreitada social tanto a imprensa, com a contribuição da arte das letras e seus gêneros, como a literatura, que pôde popularizar autores de alta estirpe. Pelo jornal Semana Ilustrada, passaram escritores e jornalistas como Machado de Assis, Quintino Bocaiúva e Joaquim Nabuco, entre outros, com contribuições valiosas de suas obras e pensamentos.

Falar da imprensa no início do século XX e falar dessas marcas que tiveram força social e da dialética constatada pela influência que a difusão da imprensa passou a exercer e exerce sobre o comportamento das massas e dos indivíduos (SODRÉ, 1966, p. 1).

A imprensa sempre pairou sobre esse campo que designaríamos como impregnado de contradição, e isso se justifica, pois, segundo o autor, “só existe imprensa livre quando o povo é livre; imprensa independente, em nação independente; e não há nação verdadeiramente independente em que seu povo não seja livre” (SODRÉ, 1966, p. 9).



1. A Revista

O início da circulação da Revista Maranhense está datado de 12 de março de 1916, na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão. Com periodicidade mensal, a revista foi idealizada por jovens literatos, estudantes, como é relatado na própria revista. A proposta era construir conteúdos literários que falassem de artes, ciências e letras. Dentre suas características, as mais fortes a qualificam como saudosista, romântica, nacionalista, o que está relacionado ao próprio modo de pensar dos jovens da época. Suas temáticas tinham preocupação com ideais transformadores da sociedade, com problemas sociais e apresentava os estudos realizados em outros estados do país sobre a temática das ciências.

Sua linha literária era romântica, sem ser especificamente da escola romântica e sem influência do que ocorria em outras partes do país, no campo literário que se convencionou chamar de pré-modernismo. Até porque o movimento do pré-modernismo não constitui uma “escola literária”, ou seja, não tínhamos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário, seguindo determinadas características. Os grupos de literatos do Maranhão, naquele momento, não sofreram, efetivamente, influência do pré-modernismo.

O pré-modernismo, segundo NICOLA (1988, p. 9), constituía um termo genérico que designava uma vasta produção literária que abrangia os primeiros 20 anos do século XX. Dentre as características do pré-modernismo, está o rompimento com o conservadorismo, representando uma ruptura com o passado, com o academismo. Uma outra marca deste movimento é a denúncia da realidade brasileira, negando um Brasil literário herdado do Romantismo e do Parnasianismo. As tendências e estilos literários do pré-modernismo se misturaram aos poetas parnasianos e simbolistas, que continuavam a produzir em seus estilos. Esta nova tendência pré-modernista tinha escritores preocupados em desenvolver uma outra visão regionalista, inovadora, retratando o Brasil não oficial do sertão nordestino, dos caboclos interioranos e dos subúrbios, construindo uma nova interpretação da realidade brasileira e de seu valor estilístico. Havia também os mais preocupados com uma literatura política, com os fatos sociais e econômicos, diminuindo a distância entre a realidade e a ficção.

A Revista Maranhense se lança com uma proposta literária. Como espaço de participação popular, mesmo que esse “popular” se refira a uma elite intelectual estudantil. Sua intenção era permitir a manifestação das pessoas e suas inquietações, propósitos pessoais ou sociais, abrindo um leque de possibilidades de expressão a quem quisesse se posicionar quanto às Artes, às Letras e às Ciências. Analisando seu sumário, observamos que cerca de 80% de seus títulos correspondem a gêneros literários. Segundo o Manual de Teoria Literária organizado por SAMUEL (1985. p. 192), a classificação moderna dos gêneros nos demonstra que, do gênero ensaístico, a Revista Maranhense apresenta os estilos Ensaio e Crônica. Do gênero narrativo, a revista apresenta os estilos Romance, Conto e Novela. Já do gênero dramático não foi encontrado nenhum elemento textual e, do gênero lírico, somente o Soneto se fez presente na revista. Portanto, a revista não tinha predominância de um estilo jornalístico, ou melhor dizendo, finalidade factual, embora situações de factualidade estivessem presentes em alguns dos ensaios, principalmente nos que se referiam a notícias da Primeira Guerra Mundial e à problemática da educação. Esse caráter jornalístico, encontrado nos ensaios e em algumas crônicas noticiosas, abordava informações dos fatos importantes que aconteciam naquele contexto, mas, certamente, sua proposta jornalística tinha um caráter diferenciado dos moldes atuais de jornalismo.

Sua diagramação apresentava um tamanho 31,3cm de altura e 21cm aproximadamente em largura, duas colunas por página, contendo três a cinco títulos por página. Dependendo do assunto abordado, alguns assuntos demandavam mais espaço que outros. Possuía uma margem de 10 a 12 páginas, incluindo a capa e os anúncios comerciais, em cada edição. Na sua primeira edição, foram verificados 25 títulos, segundo demonstra o sumário na capa desta edição.

A maioria dos títulos muda de uma edição para outra, outros se mantêm permanentes, mudando apenas de conteúdo. Alguns desses títulos eram novelas que se iniciavam em uma edição com continuidade em várias edições posteriores. Certamente por isso sua numeração tinha continuidade de uma edição1 para outra, indo até a última edição do ano. No ano seguinte, a numeração das páginas zerava, iniciando a mesma sistemática.

A revista, como os muitos periódicos daquele momento, não tinha uma linha editorial clara. Entretanto, com o lançamento das outras edições, vai se tornando claro o cunho ideológico positivista, no que se refere aos textos das ciências (REVISTA MARANHENSE, 1916).

Por serem estudantes e autodidatas, os redatores proclamavam que aquele periódico teria uma vida efêmera e concluíam: “(...) mas que seja um relâmpago que ilumine uma geração” (REVISTA MARANHENSE, 1916). Como muitos dos periódicos da época, a Revista Maranhense é um projeto um tanto quanto estudantil que, porém, em função da seriedade dos seus redatores, recebia status de proporções sociais maiores.

A análise dos textos da revista, propagados na imprensa local do Maranhão no início do século XX, evidencia elementos que dão subsídios para entendermos melhor a herança que recebemos e os modelos de ciência que, muitas das vezes, ainda não foram superados. O Positivismo, embora não seja mais uma ideologia de costumes e de pensar o humano pela ciência, ainda compõe o quadro de muitas ciências que se legitimam pelo paradigma da observação dos fatos.

A sutil diferença está em que ele não é mais um paradigma social, ou seja, a ideologia que o configurava perdeu força e sentido ao longo das décadas subseqüentes. A complexidade que o fenômeno social da modernidade atingiu, exige parâmetros bem diferenciados de análise do contexto científico. Hoje o Positivismo é visto com preconceito por vários cientistas, porque sua teoria de evolução do homem foi totalmente refutada. O que deu lugar à forte influência positivista foi um conjunto de novos contextos, meios de comunicação de massa, globalização e tecnologia agregada ao capitalismo. Esses fenômenos incorporaram novos propósitos para o desenvolvimento da ciência, para a sua prática.

O que isso quer dizer é que eles nos dirão algo sobre a maneira de pensar da sociedade, o seu comportamento, suas conquistas, suas formas de alienação. Enfim, uma gama de questões que constitui um povo e suas práticas. Mas a questão fundamental neste trabalho, neste momento, seria saber onde a imprensa entra nisso tudo. A imprensa entra com um papel social, o de criar as representações pelas quais nós seres humanos vamos enxergar o mundo. Porque, ao ler o conteúdo de um jornal ou revista, nós estamos interagindo num mundo simbólico e, a partir dele, construindo nossa visão da realidade. A imprensa, então, introduziu, à medida que ela foi se tornando meio massivo, o poder simbólico legitimado.

Com esse papel, a imprensa, no início do século XX, torna-se co-autora, principalmente no caso aqui específico, de conduzir a sociedade pelo campo das letras, das artes e da ciência. Isso aconteceu até pelo menos o momento de desenvolvimento das tecnologias de radiodifusão, que então mudam o fenômeno social, agregando novas necessidades. A imprensa consolidou sua prática através da literatura, pelos jornalistas autodidatas. Essa foi sua proposta enquanto meio, desde ainda os séculos XVIII e XIX (THOMPSON, 2001).

Os meios de comunicação entram nessa noção como o que tem o maior poder de legitimação dessas “verdades” ideológicas. Utilizados numa abrangência que vai das artes a ciências, em todas as instâncias, os meios produzem cultura, desde a cultura geral à cultura científica. Aos jornalistas em especial cabe, no contexto atual, exercer sua prática com responsabilidade social, que passa não só pela veiculação dos fatos, mas principalmente pela interpretação, de forma que a informação liberte o leitor de uma apatia e alienação.



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1 Modelo da capa no anexo 1.



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