Protestantismo em Feira de Santana: algumas considerações. Elizete da Silva



Baixar 58.47 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho58.47 Kb.
III Simpósio Nacional de História das Religiões.

Comunicação: A Expansão Protestante em Feira de Santana.

Texto: O Protestantismo em Feira de Santana: algumas considerações.

Autora: Dra. Elizete da Silva (UEFS e UFBA).

Local: Recife – Pernambuco –20 -22/06/2001
Protestantismo em Feira de Santana: algumas considerações.

Elizete da Silva*
Introdução

Pretende-se nesta comunicação abordar a implantação do protestantismo em Feira de Santana, bem como estudar as relações com a sociedade circundante e as representações construídas pelos diversos grupos em relação aos aspectos sociais e políticos da realidade local. O universo cronológico vai de 1935 a 1995. Trata-se de uma pesquisa em andamento com resultados provisórios.


Feira de Santana no início do século XVIII era uma fazenda localizada na estrada das Boiadas, próxima do arraial de São José das Itapororocas e pertencia a comarca de Cachoeira, Bahia. O comércio de gado era a atividade mais importante , embora contasse também com atividades agrícolas.

Conforme Poppino, já no início do século XIX a “Princesa do Sertão” era considerada o maior arraial da Paróquia de São José das Itapororocas e uma das três principais feiras da Província”.1 Destacando-se dos demais arraiais pelo seu desenvolvimento econômico, em 1873 a vila foi elevada à categoria de cidade com o significativo topônimo de Cidade Comercial de Feira de Santana.

Considerado como a porta do sertão, o município localiza-se “entre a zona da mata e o sertão, numa área de transição denominada agreste baiano. Quase sua totalidade (96% da área) está inserida no polígono das secas excluindo-se somente o distrito de Humildes”2. Logo, observa-se que a população feirense compartilhava as vicissitudes e os problemas atávicos, que ainda hoje assolam o nordeste brasileiro, o que contribuiu, dentre outras razões, para forjar o sertanejo forte e ao mesmo tempo descrente dos poderes públicos, apegado ao fatalismo das intempéries da natureza.

Durante a segunda metade do século XIX grassou na região de Feira de Santana o banditismo. Lucas da Feira, foi uma espécie de bandido social, um escravo rebelado que organizou um bando que atemorizava e assaltava ao longo da estrada que ligava Salvador a Feira de Santana e adjacências deste município. Ficou no imaginário popular que Feira de Santana era uma região perigosa e causadora de pânico aos que se aventuravam visitá-la. A partir da década de 20 do século passado tais representações começam a mudar: o clima, os bons ares, as terras férteis passam a ser elogiados e indicados para a cura de doenças. Por outro lado, o grande comércio de gado impulsionava o crescimento econômico do município e seus arredores.

Em 1930 a cidade de Feira de Santana afirmava-se como comercial e progressista e foi exatamente na mesma década que o primeiro núcleo protestante instalou-se na Princesa do Sertão.

O crescimento demográfico acentuou-se no início século XX, facilitado pela “vocação” comercial da cidade de Feira de Santana, a qual transformou-se nas décadas subsequentes num centro de convergência regional, pela capacidade de concentração de uma maior quantidade de bens e serviços na região. Como um pólo atrativo na microrregião, transformou-se em palco de movimentos migratórios densos, ocasionando a aceleração da ocupação urbana e provocando o surgimento de favelas, aglomerados habitacionais populares e subemprego.

Ao estudar a situação econômica da região feirense Rossine Cruz constatou que o “município de Feira de Santana, que em 1940 já possuía a quinta maior população do estado ( a maioria rural como, aliás, aconteceu em quase todo o país), passaria por um processo de urbanização acelerada nas décadas seguintes, com taxas anuais de crescimento crescentes, até alcançarem 4,4% nos anos 70. A abertura e melhoria de estradas, aliada ao desenvolvimento do sistema de transportes, facilitaria os deslocamentos em direção à capital do estado, tornando Feira um grande “colchão amortecedor” dos fluxos migratórios que destinavam-se a Salvador ou mesmo ao Sudeste do país. Em 1970 haviam 35.209 habitantes não naturais e residentes há menos de 10 anos no município. Isto significava 72% do acréscimo populacional ocorrido entre 1960 e 1970.”3 O que buscava essa nova população? Evidentemente emprego e oportunidades para pequenos empreendimentos.

Fundamentalistas, Batistas, Congregacionais, Presbiterianos, Assembleianos e posteriormente IURDIANOS ( da Igreja Universal do Reino de Deus) instalaram-se definitivamente em Feira de Santana, nesse contexto de mudanças demográficas e urbanas na cidade. A Igreja Católica estava na região desde o início do século XVIII. Em 1846 tornou-se Sede Paroquial a freguesia de Feira de Santana. Portanto, o campo religioso feirense era hegemônica e historicamente católico, desde a fundação do arraial. O protestantismo constituía-se, assim, como um credo alternativo e concorrente da religião majoritária, especialmente pela sua caracterização missionária e proselitista, sempre em busca de novos fiéis.

Certamente que esse novo contigente populacional migrante tornou-se alvo preferencial das doutrinas reformadas e posteriormente clientela e membrezia. A mensagem protestante, a rede de solidariedade e vida comunitária tornavam-se um grande atrativo para esses “estrangeiros”, que buscavam em Feira de Santana um novo espaço de convivência/sobrevivência. Essas denominações religiosas apresentavam-se, talvez, como o único espaço de sociabilidade para essa população não feirense, desenraizada e pobre.

Além de oferecerem a promessa das bênçãos e do Reino dos Céus, ofereciam vida comunitária, a fraternidade dos irmãos e a respeitabilidade da religião do livro.

Tomando como ponto de referência teórica a religião com um elemento constitutivo da cultura, portanto mantendo uma relação dinâmica com os demais elementos formadores de uma dada realidade cultural, elegeu-se como linha de abordagem a que se elabora recentemente nos marcos da História Cultural.

A historiografia francesa, em especial a Escola dos Annales, na virada nos anos 50 deu um novo impulso ao estudo dos novos objetos da História. A partir dos anos 60, o chamado campo das mentalidades abriu um leque de perspectivas de objetos , de novos estudos que buscavam principalmente identificar e registrar as atitudes mentais das populações, é inegável a contribuição dos historiadores das mentalidades. Lynn Hunt reconhece dentre outras influências a dos historiadores marxistas e dos Annales na elaboração da Nova história Cultural4.

Chartier, na sua obra “A História Cultural – Entre Práticas e Representações”, opina que o principal objeto de uma História Cultural é identificar o modo como em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade social é constituída, pensada, dada a ler5.

Na tentativa de responder as indagações formuladas, anteriormente, de perscrutar as representações que os protestantes construíram para tornar a realidade inteligível e consequentemente a(s) leitura(s) que fizeram do cotidiano, dos fatos marcantes ocorridos na sociedade local do período, o conceito de representação torna-se imprescindível no desenvolvimento e na tessitura da presente pesquisa.



PROTESTANTES NA BAHIA

A presença sistemática do protestantismo na Bahia data da primeira metade do século XIX, quando se têm notícias, por Maria Graham, que em 1821 havia uma capela inglesa, hospital e um cemitério britânico para atender os anglicanos súditos de S. M. Britânica que formavam uma promissora colônia inglesa formada por comerciantes, capitalistas, diplomatas e posteriormente engenheiros interessados na implementação de empreendimentos modernizadores na Província baiana. A S. George Church ou Bahia British Church representava um protestantismo de imigração, funcionando apenas para prestar assistência espiritual aos ingleses residentes na Bahia, tal como ocorreu nas principais cidades portuárias do País.

Os presbiterianos chegaram a Salvador buscando organizar uma congregação. Em 1871, um casal de missionários, um escravo e um homem livre fundaram a Igreja Presbiteriana, visando o trabalho de conquista de prosélitos baianos, expandiram-se para o Recôncavo e outras regiões do território baiano.

Em 1882, fazendo jus à sua característica proselitista, os missionários batistas fundaram a Primeira Igreja Batista do Brasil, em Salvador, Bahia. A escolha do local deveu-se a fatores geográficos e estratégicos, além dos religiosos. A pequena missão batista organizada sob a direção da Junta de Missões Estrangeiras da convenção Batista do Sul dos EUA desenvolveu, expandindo-se por várias regiões do interior baiano e do território nacional. Em 1910 uma dissidência no interior da Denominação Batista organizou a Igreja Independente do Garcia e posteriormente a Missão Batista Independente, autônoma financeira e administrativamente da Convenção Batista, dirigida pelos missionários norte-americanos.6

Congregacionais e Metodistas fixaram-se na Bahia na segunda metade do século XX, quando as demais denominações históricas já estavam consolidadas no cenário religioso local.


A presença Protestante em Feira de Santana


Ao que parece o acordo entre o Rev. Taylor, missionário batista fundador da Primeira Igreja Batista do Brasil e o missionário Schneider, de origem presbiteriana, foi levado a sério, pelo menos nas duas últimas décadas do século XIX: os batistas expandiram-se para o Recôncavo baiano, sudeste, sul e norte da Bahia, enquanto os presbiterianos avançaram para a Região de Feira de Santana e Chapada Diamantina (Wagner).

A Igreja Presbiteriana do Brasil só estabeleceria uma congregação em Feira de Santana na segunda metade do século passado, porém esforços e atividades evangelísticas foram promovidas desde o final do século XIX. Em 1889 o Rev. G. Chamberlain, missionário norte – americano presbiteriano distribuía Bíblias e folhetos evangélicos e realizava culto público. Conforme a folha do Norte, em uma dessas atividades “é vaiado o pastor protestante Chamberlain, cidadão norte-americano, ao iniciar na praça João Pedreira, uma conferência de propaganda religiosa. A polícia intervém no sentido de dispersar os agressores, que retornavam de uma procissão. Estabeleceram-se correrias e tumultos. Sahem feridos, a pedra, diversas pessoas”.7

A Igreja Presbiteriana deu continuidade as suas atividades de colportores na região, sem muito sucesso. O Rev. Chamberlain não se amedrontou e voltou a cidade em tarefas missionárias, tendo inclusive falecido na cidade de Feira de Santana está sepultado no Cemitério Piedade. Foi vítima de malária.

A presença protestante em Feira de Santana guarda profundas similaridades com o processo de implantação das doutrinas reformadas ao nível nacional. Precederam os missionários pioneiros os esquecidos colportores, vendedores de Bíblia, no geral agentes da Sociedade Bíblica Britânica ou da Sociedade Bíblica Americana, os quais, aplainaram o terreno para a semeadura evangélica. Em 1935 chega a Feira de Santana o casal Isobel C. Gillanders e Roderick M. Gillanders. Inicialmente missionários da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, filiaram-se à União Evangélica Sul – Americana. Após dois anos de intenso trabalho proselitista, em 1937 organizou-se a Igreja Evangélica Unida de Feira de Santana, a primeira denominação protestante a fixar-se na Princesa do Sertão.

Conforme as memórias da missionária Isobel Gillanders, os primeiros anos foram muito difíceis: perseguições e intolerância por parte do clero católico, que ameaçava até os fiéis que alugassem casas para os “crentes fazerem o seu culto”.8 Inicialmente a congregação era formada pela família dos missionários e uma dezena de irmãos, porém, gradativamente o grupo cresceu e ganhou visibilidade na região.

O casal Gillanders era de origem neozelandesa e tradicionalmente pertencentes a denominação congregacional, porém batizavam os membros da congregação por imersão e mantinham um certo espírito ecumênico em relação aos demais grupos protestantes existentes na região. Ao que parece o Rev. Roderick não cultivava o denominacionalismo excludente dos missionários norte-americanos. Em 1949 os Estatutos da Igreja, assinados por R. Gillanders como pastor, manteve a designação de Igreja Evangélica Unida de Feira de Santana, porém a partir de 1966 a comunidade adotou o título e as concepções doutrinárias do fundamentalismo, pleiteando uma maior pureza evangélica, ética e litúrgica e um explícito conservadorismo comportamental e político para sua membrezia.

Conforme Antonio Alves da Silva, um dos mais antigos membros vivos da comunidade e poeta cordelista, a Igreja passou a se denominar fundamentalista por razões externas e internas. Além do grupo se opor às tendências políticas de origem socialista que na década de 60 se opunha ao governo militar instalado no País em 64, também criticava o movimento de renovação carismática que atingiu as denominações protestantes históricas, o qual introduzira uma liturgia mais participativa e movimentada nos cultos evangélicos.

Apoiado o movimento



Contra a idéia comunista

A igreja muda o nome

Para fundamentalista

Firme na base apostólica

Um novo ideal conquista.

Exorcismo na igreja

Banda de rock e embalo

Crentes pulando nos cultos

Igual a boi e cavalo

Esse é o outro evangelho

Que fala o apóstolo Paulo...” 9
A pequena congregação evangélica fundada pelo Rev. Roderick cresceu, organizou pontos de pregação na região de Feira de Santana, atraiu fiéis que se convertiam basicamente do catolicismo. Na década de cinqüenta o grupo consolidou-se e ganhou visibilidade na cidade, adquiriu um terreno e construiu um amplo templo com linhas arquitetônicas que lembram o gótico mais recente, com torre e vitrais, em nada parecido com a pequena sala alugada, apesar das pressões do padre católico, no Bairro Olhos D’água onde aconteceram os primeiros cultos dirigidos pelo Rev. Roderick.

A composição social do grupo vinculava-se às camadas mais baixas da sociedade feirense, que geralmente compunha-se de migrantes que se deslocavam de outros sertões do nordeste em busca de emprego e sobrevivência na Princesa do Sertão, a qual na década de 40 do século passado destacava-se no cenário nordestino como uma promissora cidade com um vasto comércio e alvissareiras oportunidades para nordestinos que viviam/sobreviviam às intempéries climáticas e aos desmandos governamentais. Antonio Limeira Neto, um antigo membro da Igreja Evangélica Unida chegou a Feira de Santana em 1949, proveniente de Pernambuco, pedreiro e desempregado encontrou trabalho em uma construção, na qual comia e dormia, é um exemplo típico de fiel atraído pela mensagem evangélica. Eis o seu relato: “Como todo nordestino que deixa a sua terra, não tinha outro objetivo senão ganhar dinheiro. A saudade da família, dos amigos de infância e da Igreja (Católica) em que fora sacristão por oito anos seguidos, me deixava num estado de nostalgia profunda... num domingo de novembro fui à Igreja Matriz. Lá chegando, encontrei as portas fechadas; quando alcancei a Rua Marechal Deodoro, na esquina avistei a Igreja Evangélica Unida, em pleno culto de pregação do Evangelho; parei por instantes, convidaram-me a entrar e, como não tinha para onde ir, entrei e assisti o culto até o fim.”10

Não só a Igreja Evangélica Unida, mas as demais denominações protestantes em Feira de Santana, foram espaços de sociabilidade, comunidade participativa, representações simbólicas de relações familiares para uma fatia densa da população migrante e flutuante que chegava à região feirense no período estudado. O fiel que visitava os cultos tornava-se um interessado que merecia toda atenção pastoral e, geralmente, de visitante tornava-se um fiel praticante. Segundo o testemunho de Limeira Neto: “Minha adaptação na Igreja foi rápida, os crentes me acolheram como irmão; em pouco tempo percebi que ganhara uma nova família.”11 Antonio Limeira Neto batizou-se logo depois continuou os estudos como seminarista, no Rio de Janeiro, tendo em 1957 assumido o pastorado da própria comunidade que o acolhera inicialmente.

A filiação ao movimento fundamentalista nacional ocasionou mudanças nas exigências éticas e comportamentais da congregação. Além do conservadorismo teológico adotado pelo pastor Rev. Antonio Ribeiro Fernandes de Oliveira, aprovou-se um regimento interno que controlava desde o vestuário das mulheres até a escolha de conjugues, que só deveria ser feita no seio da comunidade. 12

As mudanças doutrinárias e o rigor comportamental geraram alguns distúrbios e afastamento de dezenas de membros. Em 1995, limite cronológico desta pesquisa, a referida Igreja Fundamentalista contava, além da comunidade da sede, com três congregações e oito pontos de pregação em cidades da região e do Recôncavo baiano. Contava com um total de 250 membros batizados.


Os Batistas

Os batistas da Convenção Batista Baiana, ligados ao comitê de Richmond, chegaram a Feira de Santana no início da década de 40. Em outubro de 1941 o jornal Folha do Norte noticiou a presença de uma caravana evangélica “da Igreja Dois de Julho da capital da Bahia, devendo fazer pregações pela manhã e tarde do dia 05 de outubro, sendo liderada pelo talentoso pastor Ebenezer Gomes Cavalcante, da qual também faz parte o pastor Rev. Alfredo Mignac13 No mesmo ano organizou-se a Congregação Batista em Feira de Santana sob os auspícios da Igreja Batista de Nazaré das Farinhas e o apoio do Pastor da Igreja Batista de Serrinha, cidade próxima à Feira de Santana.

Em 1947 a congregação tornou-se a Primeira Igreja Batista de Feira de Santana, tendo como presidente do concílio de instalação o Rev. M. G. White, missionário norte-americano da junta de Richmond. Uma década depois do estabelecimento da Primeira Igreja Batista, mais duas congregações foram organizadas, alcançando um total de 282 membros.

Na década de 60 instalou-se a 4ª Igreja Batista de Feira de Santana, denominada posteriormente de Igreja Batista Alvorada com 48 membros fundadores. Com um crescimento lento, mas contínuo a comunidade cresceu, organizando pontos de pregação e posteriormente congregações em logradouros da periferia da cidade: no bairro Aviário e Mundo Novo e uma congregação no litoral norte da Bahia, em Sítio do Conde, seguindo a tradição proselitista dos batistas.

Um ano após a sua fundação 1964, a Igreja Batista Alvorada aderiu a Campanha Nacional de Evangelização da Convenção Batista Brasileira. Campanha esta que queria ser uma resposta dos batistas à fermentação política que culminaria com o golpe de 64. As “clarinadas da fé” visavam levar a população brasileira a um encontro com o evangelho. Com o slogan “Jesus Cristo, esperança nossa”, receitava-se o Evangelho como remédio para os problemas vividos pelo país. “Quanto mais o evangelho de Jesus Cristo, em toda a sua pureza e integridade, vencer no Brasil, tanto mais longe ficaremos de qualquer ditadura ou forma de pressão.” 14

Nem a Primeira Igreja Batista de Feira de Santana, muito menos a Igreja Batista Alvorada fizeram quaisquer comentários sobre o golpe militar de 64. Houve, ao contrário, um silêncio revelador que compactuava com a adesão e acolhimento das lideranças da Convenção Batista Brasileira ao golpe e a reverberação da condenação aos comunistas: “O presidente que estava fazendo um jogo extremamente perigoso foi afastado. A democracia já não está mais ameaçada. A vontade do povo foi entendida e respeitada... o povo brasileiro por sua índole, pela sua formação, repele os regimes totalitários e muito particularmente o regime comunista”15 Seguindo a prática conservadora de legitimar as autoridades constituídas, os batistas cantavam loas pela salvação do País das garras dos vermelhos, ao mesmo tempo em que intensificavam o proselitismo triunfalista que proclamava “Cristo a Única Esperança”.

Nas primeiras décadas, a composição social das congregações batistas vinculava-se às camadas mais baixas da população: ao longo dos livros de atas, registram-se pedidos de auxílio para irmãos mais pobres cuidarem da saúde e de outras necessidades básicas. Convém destacar que as mulheres eram a maioria nas comunidades, seguindo assim uma tendência visível em outras denominações pesquisadas no Estado da Bahia. A partir da década de 80, portanto em quase quatro décadas de existência do trabalho batista em Feira de Santana, começou a haver uma certa diversificação na composição social da membrezia: registram-se a presença de alguns profissionais liberais, pequenos comerciantes e professores, os quais seriam sempre muito prestigiados, exercendo cargos de liderança na congregação local.16

Além dos batistas da Convenção Brasileira, estão presentes em Feira de Santana, no período estudado a Igreja Batista Independente Filadélfia, fundada em 1963 e a Igreja Batista Missionária, vinculada a Convenção Batista Nacional, doutrinariamente carismática e organizada na região na década de 70.

No início da década de 60, como uma demonstração do crescimento batista e da importância de Feira de Santana na estratégia expansionista dos princípios batistas, foi organizado o Instituto Bíblico Batista, para a formação de novos pastores e obreiras, recentemente transformado em Seminário Batista do Nordeste do Brasil. Convém salientar que desde as suas origens até o limite cronológico deste trabalho (1995) o seminário foi sustentado financeiramente e dirigido por missionários norte-americanos da Junta de Richmond.

Os Pentecostais


A Assembléia de Deus foi oficialmente organizada em Salvador em 1930, pelo missionário Otto Nelson. Conforme E. Conde: “não se pense que foi tarefa fácil o trabalho em Salvador. É conhecida de todos a fama idolátrica da Bahia, tão bem retratada no exagerado número de templos que abrigam ídolos. Não menos numerosos são, também, os ritos fetichistas e bem assim o de outros cultos pagãos de origem africana. Todos esses elementos parecia haver se reunido para hostilizar o Evangelho de Cristo”17 Após as primeiras dificuldades naturais ao início de um empreendimento religioso de tal natureza, o Pentecostalismo na Bahia encontrou terreno fértil, difundindo-se por todo o interior baiano, chegando também à Feira de Santana, considerada atualmente a segunda cidade mais importante do Estado.

Em Feira de Santana a congregação central da Assembléia de Deus instalou-se em 1939, próxima a estação Rodoviária, local de intensa movimentação de moradores da cidade, passageiros e migrantes que se deslocavam para outras regiões do Estado e do País, especialmente para São Paulo. Feira de Santana no período não era apenas um grande centro comercial, mas uma cidade entroncamento, ligando por linhas de transportes terrestre o Nordeste e o Sudeste do País. Confirma-se, assim a tendência do protestantismo de origem pentecostal de desenvolver-se em cidades de grande concentração populacional e em crescente urbanização. Em 1958 a Assembléia de Deus contava com 3 templos e vários pontos de pregação, perfazendo um total de 338 membros batizados. No limite cronológico deste trabalho os assembleianos haviam expandido-se em quase todos os bairros da cidade e na zona rural próxima, contando com 80 templos e quase 10.000 fiéis praticantes. 18 A Igreja Evangélica Assembléia de Deus contava com 49 congregações espalhadas pelos diversos bairros da cidade de Feira de Santana. Estas congregações, pelo menos uma vez no mês, participavam de um culto de louvor na sede central do trabalho assembleiano, atualmente dirigida pelo Pastor Joeser Cruz Santana.

Do ponto de vista político eram conservadores. Conforme uma tendência nacional, os assembleianos têm buscado espaço político e eleger seus representantes. A Assembléia de Deus em Feira de Santana já teve um suplente de vereador e nas últimas eleições tentou eleger dois candidatos à Câmara de Vereadores da cidade, não tendo êxito.




Os Neopentecostais

Em Feira de Santana há congregações da Igreja Renascer, Casa da Benção e outros. Escolheu-se enfocar a Igreja Universal do Reino de Deus em virtude da sua visibilidade nacional e do crescimento que tem tido na Bahia. A primeira congregação da IURD organizou-se em Salvador no início da década de 80, numa pequena sala de subsolo num prédio do centro da cidade. Imediatamente desenvolveu-se atingindo o interior do Estado e a região feirense. Em 1985 a IURD central instalou-se numa das principais ruas de Feira de Santana. Segundo a característica espetacular do grupo, que constrói grandes catedrais, a sede feirense comporta em torno de 4000 pessoas e tem atualmente 3.000 fiéis nos seus quadros, a Catedral da Fé, em Salvador em fase de conclusão do novo templo, tem capacidade para 5.200 pessoas.19 Segundo o pastor da Igreja Central existe atualmente 29 templos, espalhados nos diversos bairros da Princesa do Sertão. Localizam-se em logradouros de grande concentração popular, geralmente próximos a pontos de ônibus ou mercados.

Conforme uma tendência nacional, a IURD na Bahia tem garantido espaço político através de dois deputados estaduais, dois federais e quatro vereadores. Em Feira de Santana conta com dois vereadores, os quais têm sempre pautado a atuação política voltada para os interesses da comunidade iurdiana 20, numa clara relação clientelista que tem orientado os políticos conservadores no País e a tradição coronelística do interior baiano.

No que se refere a composição social, a mensagem “iurdiana” tem atraído, significativamente, fiéis de baixa renda, pessoas desempregadas ou de classe média pauperizada em busca de alternativas de sobrevivência. “O pentecostalismo oferece certas vivências e valores aos pobres o que os ajudam a melhor enfrentar suas dificuldades cotidianas, ou seja, essas igrejas ajudam na sobrevivência, se constituindo, entre outras coisas, num instrumento de enfrentamento da pobreza21 Na teologia pentecostal, Deus é grande e é Senhor de todas as riquezas, portanto só ele pode libertar o fiel da pobreza. Certamente que a chamada “teologia da prosperidade” constitui-se como um grande atrativo para homens e, sobretudo mulheres pobres e desamparadas, órfãos e viúvas de políticas sociais públicas esquecidas pelo Estado neoliberal.

A membrezia das congregações iurdianas compõe-se majoritariamente de mulheres. Buscar as razões de tal preferência feminina é uma tarefa que exige maior aprofundamento de nossas pesquisas, por ora, ainda numa fase inicial.


Conclusão

O protestantismo histórico que se desenvolveu em Feira de Santana manteve as características básicas das denominações brasileiras, uma certa atitude contra-cultura que condenava as manifestações culturais tradicionais da cidade. Ao mesmo tempo e de forma vinculada, o anticatolicismo esteve presente, ocasionando práticas intolerantes e excludentes. Apesar disso as denominações históricas consolidaram-se e passaram a ter visibilidade no cenário local, convertendo os seus fiéis, basicamente, do catolicismo.

Quanto aos grupos pentecostais e neopentecostais acharam terreno fértil no contexto das mudanças urbanas e demográficas da cidade, atraindo fiéis que migravam para a região feirense em busca de alternativas de sobrevivência e emprego numa cidade em franco desenvolvimento comercial.

O crescimento vertiginoso dos grupos pentecostais e neopentecostais proporcionaram mudanças no campo religioso feirense majoritariamente católico até a década de 50. Por outro lado, os neopentecostais têm buscado o uso constante da mídia: a IURD tem uma rádio AM e um pool de grupos carismáticos e da Igreja Renascer controlam duas rádios FM.

Um segundo momento da pesquisa será investigar que transformações culturais e sociais a expansão protestante provocou na região de Feira de Santana. No momento o que podemos assegurar é que a paisagem urbana, com a presença de tantos templos e salões de cultos, pregadores itinerantes fazendo sermões evangelísticos em pleno centro nervoso da cidade é completamente diferente da urbes do final do século XIX, onde o populacho escorraçou um missionário presbiteriano. O protestantismo em Feira de Santana não é mais uma “planta exótica”.No limite cronológico deste trabalho, as denominações protestantes aqui abordadas já têm um espaço garantido na sociedade feirense. Assim, urbanização, pobreza crescente numa economia globalizada aliados a um reflorescimento da religiosidade ao nível geral, configura-se como o contexto histórico que tem permitido a expansão protestante na região.

Bibliografia Citada

CAMPOS, Leonildo et alli. Na Força do Espírito. Os pentecostais na América Latina: um desafio às Igrejas Históricas. São Paulo. AIPRAL. 1996.

CHARTIER, Roger. A História Cultural Entre Práticas e Representações. Rio de Janeiro Bertrand Brasil. 1990.

CONDE, Emílio. História das Assembléias de Deus no Brasil. S. Paulo. Casa Publicadora das Assembléias de Deus. 1960

CRUZ, Rossine Cerqueira da. A Inserção de Feira de Santana nos processos de Integração Produtiva e Descontração Econômica Nacional. Campinas. Tese de Doutorado. UNICAMP. 1990.

FERREIRA, Júlio. História da Igreja Presbiteriana no Brasil. São Paulo. Presbiteriana. 1959.

FREITAS, Nacelice Barbosa. Urbanização em Feira de Santana: Influência da Industrialização – 1970-1996. Salvador. Dissertação de Mestrado. UFBA. 1988.

GILLANDERS, Isobel. A História Inacabada. Feira de Santana. Planzo Serviços mimeográficos. 1990.

GRAHAM.Maria.Diário de uma Viagem ao Brasil.São Paulo.Nacional.1956.

HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo. Martins Fontes. 1992.

LEONARD, Emile. O Protestantismo Brasileiro Estudo de Eclesiologia e História Social. São Paulo. ASTE.

LIMEIRA Neto, Antonio. Da Seca à Fonte. Ed. Naós. São Paulo. 2000.

MARIZ, Cecília. Pentecostalismo e a Luta Contra a Pobreza no Brasil in Na Força do Espírito.São Paulo. AIPRAL.1996.

POPPINO, Rollie. Feira de Santana. Salvador. Itapuã. 1968.

ROLIN, Francisco Cartaxo. Os Pentecostais no Brasil. Petrópolis. Vozes. 1985.

SILVA, Antonio Alves. Aniversário da Reconstrução do Templo da Igreja Evangélica Fundamentalista. in Breve História da Igreja Evangélica Fundamentalista. Cordel. Fundamentos. 1999.

SILVA, Elizete da. A Missão Batista independente: Uma Alternativa nacional. UFBA. Dissertação de Mestrado. Salvador. 1982.

SILVA, Elizete da. Cidadãos de Outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. USP. Tese de Doutorado. São Paulo. 1998.

TEIXEIRA, Marli Geralda. Os Batistas na Bahia – 1882-1925. Salvador. FFCH. UFBA. 1975.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo. Pioneira. 1967.



* Doutora em História. Professora da UEFS E UFBA.

1 POPPINO, R. Feira de Santana, p.21

2 FREITAS, Nacelice Barbosa. Urbanização em feira de Santana. Fluência da Industrialização – 1970-1996. UFBa p.53

3 CRUZ, Rossine. A Inserção de Feira de Santana... p.208

4 HUNT, Lynn. A Nova História Cultural, pp..5-9

5 CHARTIER, Roger op. cit., p.17

6 SILVA, Elizete da. A Missão Batista Independente: Uma Alternativa Nacional. Salvador. UFBA, 1982.


7 Folha do Norte. Coluna Vida Feirense 24/03/1940 p.04.

8 GILLIANDERS, Isobel. A História Inacabada. Feira de Santana. Planzo Serviços mimeográficos. 1990. P.23 e s.

9 SILVA, Antonio Alves. Aniversário da Reconstrução do Templo da Igreja Evangélica Fundamentalista. in Breve História da Igreja Evangélica Fundamentalista. Cordel. Fundamentos. 1999 p.6/7.

10 LIMEIRA NETO, Antonio. Da Seca à Fonte. Ed. Naós. São Paulo. 2000. p.60.

11 Idem p. 61

12 Regimento Interno Igreja Evangélica Fundamentalista p. 12. Doc. Avulsos.

13 Jornal Folha do Norte. n º 1682. 4/10/1941 p. 01.

14 Jornal Batista 12/04/1964 p. 3.

15 Idem.

16 Livros de Atas da Primeira Igreja Batista de Feira de Santana e da Igreja Batista Alvorada.

17 CONDE, Emílio. História das Assembléias de Deus no Brasil. S. Paulo. Casa Publicadora das Assembléias de Deus. 1960.

18 Estatística do Culto Protestante no Brasil e Entrevista oral com informantes válidos da comunidade.

19 A Folha Universal n º 459 – Jan 2001 p. 1.

20 A Folha Universal outubro a dezembro de 2000.

21 MARIZ, Cecília. Pentecostalismo e a Luta Contra a Pobreza no Brasil in Na Força do Espírito p. 171.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal