Protocolo: 2192 Orientadora: Profa. Dra. Dilma Beatriz Rocha Juliano Bolsista



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RELATÓRIO DE PROJETO DE PESQUISA


Projeto: Ditadura militar e sua influência na literatura brasileira nas décadas de 70 e 80

Protocolo: 2192

Orientadora: Profa. Dra. Dilma Beatriz Rocha Juliano

Bolsista: Sandra Aparecida Muniz

Campus/Unidade: Unisul Grande Florianópolis/ Pedra Branca

Data do Relatório: 15/09/2008

Tipo de Projeto: PUIC Individual


  1. Introdução

Afirma-se que o meio social exerce influência sobre a obra de arte, bem como esta pode suscitar questionamentos e influir no meio social. Isso é constatado na literatura, já que, segundo Candido (2000), o sistema literário é composto pela tríade autor-obra-público, no qual há uma interação, pois esses três elementos estão diretamente interligados.

No ato da criação literária, o autor não está imune às influências do mundo que o rodeia, tampouco dos valores e das ideologias que regem a sociedade de sua época, assumindo, por vezes, o papel de porta-voz desse grupo social. No entanto, em períodos de repressão e censura, quando uma instituição, seja ela qual for, controla a expressão de um artista, essa relação torna-se prejudicada. Semelhante situação foi a que ocorreu no Brasil, a partir de março de 1964, com o golpe militar que depôs o então presidente João Goulart (Jango).

O regime que se instaurou governava através de atos institucionais e decretos-leis e, logo com as primeiras medidas do governo do general Castelo Branco (1964-67), ficou claro que a vida nacional passaria por mudanças drásticas como: intervenção nos sindicatos e nas entidades estudantis, proibição de greves, instauração da censura, criação do SNI (Serviço Nacional de Informações), cassação de mandatos e suspensão por dez anos dos direitos políticos de parlamentares oposicionistas, bem como das eleições para governadores e presidente da República. Para garantir a eficácia dessas e de outras medidas, houve forte repressão política às manifestações de oposição ao regime, principalmente aos movimentos camponês, estudantil e operário, além das organizações de esquerda. Como conseqüência disso, grande número de militantes desses movimentos e organizações foram presos e mortos. Também, levas de brasileiros deixaram o país como exilados.

Em dezembro de 1968, ano marcado por contestações sociais, políticas e culturais em várias partes do mundo, o governo do general Costa e Silva (1967-69) instituiu o AI-5 (Ato Institucional nº 5), numa reação ao amplo movimento social de protesto e de oposição à ditadura, com destaque para o movimento estudantil e operário. Se a situação era ruim, tornou-se trágica. O ato outorgou poderes ilimitados ao Executivo e “permitiu-lhe fechar o congresso por tempo indeterminado, continuar a cassar mandatos, suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, demitir ou aposentar qualquer funcionário público civil ou militar, estender a censura prévia à imprensa e aos meios de comunicação.”(HABERT, 2001, p.10). Como se não bastasse, seguiu-se o Decreto nº 477 de repressão aos estudantes.

A década de 70 começou com um clima pesado no país. Era o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-74), conhecido como “os anos de chumbo”. Prisões e mortes, com requintes de tortura, tornaram-se fatos corriqueiros. “A ação policial da ditadura foi rotineiramente defendida como resposta adequada e necessária à ameaça terrorista.” (GASPARI, 2002, p. 19). Por outro lado, a censura era implacável aos meios de comunicação e às manifestações artísticas, cerceando a liberdade de expressão.

A nação brasileira ficou sob o comando dos militares até o ano de 1985, quando se deu a volta do governo civil. Esse período marcante da história nacional repercutiu em todos os setores, inclusive nas artes, e, apesar das imposições e repressões do regime ditatorial, houve relevante criação artística. E é essa produção, especificamente a literária, o interesse desta pesquisa, que investigou os reflexos desse contexto na literatura daquela época.

Para o referido trabalho, houve a seleção de dois autores brasileiros, que publicaram textos literários (crônicas e contos) nas décadas de 70 e 80: Caio Fernando Abreu (1948-1996) e João Antônio (1937-1996). Um fator determinante para essa escolha foi a constatação de que há poucos estudos sobre a obra desses escritores no âmbito acadêmico, estando os existentes voltados mais para o cânone literário. O outro é a significante produção apresentada por ambos nos decênios investigados.




  1. Objetivos

A pesquisa teve como objetivos:


Objetivo Geral
Investigar as influências do contexto histórico-político-social sobre a literatura brasileira, publicada nas décadas de 70 e 80 (século XX), elegendo como foco investigativo as narrativas curtas (crônicas e contos).
Objetivos específicos
- Investigar o contexto histórico-político-social brasileiro nas décadas de 70 e 80.

- Eleger dois autores da literatura brasileira, que tenham publicado crônicas e contos nas referidas décadas.

- Fazer levantamento bibliográfico dos autores escolhidos e da crítica literária sobre as suas obras.

- Verificar se houve influência da abertura política, permitindo o surgimento de outros temas que não só os relativos à repressão e à ditadura militar.


  1. Material e métodos

O método de trabalho utilizado foi a investigação bibliográfica e, no primeiro momento, foi realizada uma pesquisa teórica com leituras sobre o contexto histórico-político-social das décadas de 70 e 80 (século XX). Após essa etapa, foi empreendido um levantamento de autores brasileiros que publicaram crônicas e contos no período investigado. Com esse levantamento concluído, houve a seleção dos dois escritores analisados: Caio Fernando Abreu e João Antônio.

Desse momento em diante, a pesquisa desenvolveu-se da seguinte forma:


  1. estudo biográfico dos autores selecionados;

  2. levantamento bibliográfico dos escritores;

  3. seleção de textos publicados nas décadas de 70 e 80;

  4. leitura da crítica literária sobre os autores;

  5. leitura e análise da influência da ditadura militar na obra dos autores pesquisados.

Coletâneas analisadas:


- Caio Fernando Abreu: Inventário do Irremediável (contos-1970); Pedras de Calcutá (contos-1977); Morangos Mofados (contos-1982); Os dragões não conhecem o paraíso (contos-1988).

- João Antônio: Leão-de-Chácara (contos-1974); Casa de Loucos (contos e crônicas – 1976); Dedo-duro (contos-1982); Abraçado ao meu rancor (contos-1986).




  1. Resultados

Desde o início a pesquisa pôde constatar que os autores investigados possuem estilos literários distintos. O estilo de João Antônio é jornalístico, com uma linguagem bem peculiar, criada a partir do linguajar cotidiano. Caio Fernando Abreu já apresenta uma prosa mais poética e reflexiva. Essas características instigaram ainda mais o interesse pela literatura de ambos, contribuindo sobremaneira no trabalho investigativo.

No decorrer do trabalho de análise foram produzidos ensaios críticos sobre os dois autores enfocados (anexos 1 e 2), nos quais são abordados detalhadamente os aspectos mais relevantes da ficção de ambos. No entanto, para efeito deste relatório apresenta-se resumidamente, abaixo, algumas das principais características da escrita e do estilo dos autores.
João Antônio:
- As narrativas do autor paulistano privilegiam os espaços urbanos, geralmente a periferia das grandes cidades, e seus personagens fazem parte de uma classe ‘marginalizada’, que tanto pode ser uma criança abandonada, um jogador de sinuca, um guardador de carro, um cafetão ou uma prostituta;

- As temáticas dos contos giram em torno do universo desses personagens e da luta que eles travam cotidianamente pela sobrevivência, enfrentando situações limite como a fome, o frio, a polícia, ou até um malandro mais forte;

- Na maioria dos textos, a abordagem da situação política do país não aparece diretamente, talvez porque as classes menos abastadas não tiveram uma participação efetiva nos movimentos de resistência ao regime ditatorial, haja vista que essas mobilizações foram lideradas pela classe média, principalmente pelos estudantes secundários e universitários, além das pessoas envolvidas no debate político-cultural brasileiro da época;

- Somente em alguns contos-reportagem há uma abordagem mais explícita sobre a ditadura militar. Olá, professor, há quanto tempo! e Abraçado ao meu rancor são dois desses contos.


Caio Fernando Abreu:
- Constatou-se que as narrativas de Caio Fernando Abreu privilegiam as questões existenciais e os conflitos internos do ser humano;

- A angústia e o temor perpassam quase todas as narrativas, talvez reflexo dos momentos tensos pelos quais a sociedade brasileira passava naquela época;

- Em alguns contos publicados na década de 70, há menções claras sobre as arbitrariedades cometidas pelo governo dos militares, inclusive com o relato de tortura sofrida pelos personagens, o que é bem explorado em Garopaba mon amour.

- As primeiras publicações dos anos 80 abordam a desilusão de toda uma geração que acreditava no sonho socialista, e estavam em busca de alternativas de vida, já ao final do período de repressão militar. Os sobreviventes é uma das narrativas mais significativas.

- Traço marcante nos contos analisados é a sexualidade/homoerotismo, aqui visto como uma ‘arma transgressora’ de combate ao regime opressor e aos padrões de comportamento da época. Alguns desses contos são: Sargento Garcia, Terça-feira gorda e Aqueles dois.
5. Conclusões
Esta pesquisa ampliou os conhecimentos sobre a obra de dois autores brasileiros pouco estudados na academia, João Antônio e Caio Fernando Abreu, especificamente a produção relativa às décadas de 70 e 80 ( século XX), e comprovou que ambos, cada um no seu estilo, são exemplos do talento literário brasileiro.

O estudo também veio aprimorar os conhecimentos de uma acadêmica do curso de Letras, oferecendo subsídios para a futura prática docente, já que se trata de um curso de licenciatura.

Investigando o contexto histórico brasileiro será possível manter viva a história do país e, conseqüentemente, a participação da literatura na cultura dos brasileiros.
6. Referências

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 8.ed. São Paulo: Publifolha, 2000.


COSTA, Jurandir Freire. Inocência e vício: estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
__________. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
HABERT, Nadine. A década de 70. Apogeu e crise da ditadura militar brasileira. 3 ed. São Paulo: Ática, 2001.
RODRIGUES, Marly. A década de 80. Brasil: quando a multidão voltou às praças. 3 ed. São Paulo: Ática, 2001.
SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
_________. As malhas da letra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.


Anexos


Ditadura e repressão em Caio Fernando Abreu

Caio Fernando Abreu (1948-1996) despontou na literatura brasileira durante a vigência da ditadura militar no país. Seu primeiro livro, Inventário do irremediável, foi publicado em 1970, período de forte repressão do regime ditatorial, instaurado em março de 1964, com o golpe que depôs o presidente João Goulart (Jango). “Os militares, associados aos interesses da grande burguesia nacional e internacional, incentivados e respaldados pelo governo norte-americano, justificaram o golpe como ‘defesa da ordem e das instituições contra o perigo comunista”.(HABERT, 2001, p.8). A estratégia dos militares, conforme Habert (2001) foi uma reação das classes dominantes ao crescimento dos movimentos sociais, já que o golpe ocorreu num momento de crise da economia brasileira e de grandes mobilizações operárias e camponesas em torno de reformas políticas e institucionais –“ as reformas de base”-, defendidas pelo governo de João Goulart.

O regime que se instaurou governava através de atos institucionais e decretos-leis e, logo com as primeiras medidas do governo do general Castelo Branco (1964-67), ficou claro que a vida nacional passaria por mudanças drásticas como: intervenção nos sindicatos e nas entidades estudantis, proibição de greves, instauração da censura, criação do SNI ( Serviço Nacional de Informações), cassação de mandatos e suspensão por dez anos dos direitos políticos de parlamentares oposicionistas, bem como das eleições para governadores e presidente da República. Para garantir a eficácia dessas e de outras medidas, houve forte repressão política às manifestações de oposição ao regime, principalmente aos movimentos camponês, estudantil e operário, além das organizações de esquerda. Como conseqüência disso, grande número de militantes desses movimentos e organizações foram presos e mortos. Também, levas de brasileiros deixaram o país como exilados.

Em dezembro de 1968, ano marcado por contestações sociais, políticas e culturais em várias partes do mundo, o governo do general Costa e Silva (1967-69) instituiu o AI-5 (Ato Institucional nº 5), numa reação ao amplo movimento social de protesto e de oposição à ditadura, com destaque para o movimento estudantil e operário. Se a situação era ruim, tornou-se trágica. O ato outorgou poderes ilimitados ao Executivo e “permitiu-lhe fechar o congresso por tempo indeterminado, continuar a cassar mandatos, suspender por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, demitir ou aposentar qualquer funcionário público civil ou militar, estender a censura prévia à imprensa e aos meios de comunicação”.(HABERT, 2001, p. 10). Como se não bastasse, seguiu-se o Decreto nº 477 de repressão aos estudantes.

O início da década de 70, governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-74), foi também conhecido como “os anos de chumbo”. Um clima pesado pairava sobre o país. Prisões e mortes, com requintes de tortura, tornaram-se fatos corriqueiros. Segundo Gaspari (2002, p. 19), “a ação policial da ditadura foi rotineiramente defendida como resposta adequada e necessária à ameaça terrorista”. Por outro lado, a censura era implacável aos meios de comunicação e às manifestações artísticas, cerceando a liberdade de expressão.

Nesse momento conturbado da história nacional, parte da juventude mobiliza-se em duas vertentes: uma militante, clandestina, engajada politicamente e que acredita numa revolução armada para combater o regime ditatorial; a outra, manifesta-se contra certos padrões estabelecidos culturalmente e luta, de forma pacífica, por um novo modo de viver e pelo respeito à individualidade, mas não se envolve efetivamente no combate à ditadura.

Quanto ao jovem autor gaúcho Caio Fernando Abreu, percebe-se, nas primeiras publicações, uma tendência à segunda vertente, já que suas narrativas privilegiam os questionamentos existenciais e os conflitos íntimos do ser humano. A proposta aqui, neste estudo, é verificar como o contexto da ditadura militar repercutiu nos textos de Caio Fernando Abreu, publicados nessa época.

Em Inventário do irremediável quase não existem diálogos, e sim, reflexões dos personagens acerca da própria existência, em busca de algo que amenize o viver. Exemplo é a personagem que clama por amor, intimamente, ao embarcar em um ônibus superlotado e deparar com um desconhecido: “E súbito, o homem estava ali. [...] E ela pedia. Ah como doía solicitar tanto e ir-se tornando cada vez mais lúcida dessa solicitação. Conseguia adivinhar o externo, mas o interno se perdia indefinido em sombras. Então quase odiava e não contribuía para o amor desesperado gritando dentro dela”.(ABREU, 2005, p. 93-94). Em outra narrativa, um jovem sente-se confuso: “Pudesse abrir a cabeça, tirar tudo para fora, arrumar direitinho como quem arruma uma gaveta. Tomar um banho de chuveiro por dentro [...] Em um metro e oitenta, dezoito anos [...] sessenta quilos de magreza e solidão.” (Ibid., p. 73). Um homem refugia-se em um parque para refletir sobre uma provável mudança de atitude frente à vida: “Seria preciso abdicar de meu ser cotidiano, construído com tanto labor.[...] Em luta, meu ser se parte em dois. [...] Recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos.”(Ibid., p. 63-4), mas o relógio o traz de volta à realidade: “Tudo me diz que estou de volta. Aceito. Suspenso no meu pulso, o tempo tiquetaqueia no ritmo do relógio. Onze horas. Preciso ir andando. Há mulher há filhos há trabalho há a prestação da televisão [...]” (Ibid.,p. 64).

Assim como nessas transcrições, nota-se que o temor e a solidão perpassam quase todos os contos desse primeiro livro de Caio, talvez reflexo da tensão causada pelo quadro político-social brasileiro naquele momento. Há uma dor coletiva. A angústia não é só do fulano, do beltrano ou do sicrano; é de todos. E a omissão dos nomes da maioria dos personagens dessas narrativas pode estar associada à idéia de um todo. Todos carregam um sentimento comum de incerteza e de medo que os une, os aproxima, os iguala. Pra não dizer que não falei de flores, música de Geraldo Vandré, que se tornou quase um hino contra a ditadura, motivo pelo qual foi censurada e proibida nas rádios e em locais públicos, ilustra bem esse clima da época: “Caminhando e cantando/ e seguindo a canção/ somos todos iguais/ braços dados ou não/ nas escolas, nas ruas/ campos, construções/ caminhando e cantando/ e seguindo a canção[...]”.

Na coletânea de contos Pedras de Calcutá, publicada em 1977, há uma continuidade nas questões subjetivas e, em algumas narrativas, aparecem menções claras sobre as arbitrariedades cometidas durante o governo dos militares e que horrorizavam o país, como a manchete que o protagonista do conto Rubrica lê em um jornal: “Torturado-até-a-morte-o-professor-de-sociologia”.(ABREU, 1996, p.31).

No conto Garopaba mon amour, um grupo de jovens comemora a passagem de ano, na praia: “[...] suspiramos fundo e damos graças por este ano que se vai e nos encontra vivos e livres e belos e ainda (não sabemos como) fora das grades de um presídio ou de um hospício. Por quanto tempo?”(Ibid., p.93), e, quando o dia amanhece, os jovens são surpreendidos por uma batida policial: “Não corre mais o vinho por nossas bocas secas, nossos dedos de unhas roídas até a carne seguram o medo enquanto os homens revistam as barracas. Nos misturamos confusos, sem nos olhar nos olhos.” O próximo passo é o interrogatório e a violência: “-Conta./-Não sei. (Bofetada na face esquerda.)./-Conta./-Não sei. (Bofetada na face direita.) /-Conta./-Não sei. (Pontapé nas costas.)[...] Os nomes, quero os nomes. Confessa. O anel pesado marca a testa, como um sinete.[...] Quem sabe uns choquezinhos pra avivar a memória?”(Ibid.,p.93-4). A marca indelével do horror, físico e psicológico, vivido por toda uma geração, está representado nestas palavras: “Pedir o quê, agora, Mar? Se para sempre teremos medo. Da dor física, tapa na cara, fio no nervo exposto do dente. Meu corpo vai ficar marcado pelo roxo das pancadas [...]”.(Ibid., p.95), e a impassibilidade conivente, daqueles que estavam no comando da nação, fica registrada neste trecho:
O homem caminha para o fio com a bandeira do Brasil dependurada. Não quero entender. Isso deveria ser apenas uma metáfora, não essa bandeira real, verde-amarela que o homem joga para um canto ao mesmo tempo que seus dedos desencapam com cuidado o fio. Depois caminha suavemente para mim, olhos postos nos meus, um sorriso doce no canto da boca de dentes podres. Da parede, um general me olha imperturbável. (ABREU, 1996, p. 96)

A tortura foi um instrumento extremo de coerção e de extermínio durante a ditadura militar. Embora condenasse e negasse essa prática, o governo não aceitava investigações acerca das denúncias que saíam dos porões. Para Gaspari (2002, p.24), “Quando tortura e ditadura se juntam, todos os cidadãos perdem uma parte de suas prerrogativas, e, no porão, uma parte dos cidadãos perde todos as garantias”. A transcrição de alguns trechos da Apostila do Centro de Informações do Exército – Interrogatório, esclarece como a situação era velada:


O uso da tortura é uma técnica de interrogatório eficiente.

Será necessário, freqüentemente, recorrer a métodos de interrogatório que, legalmente, constituem violência. [...] Se o prisioneiro tiver de ser apresentado a um tribunal para julgamento, tem de ser tratado de forma a não apresentar evidências de ter sofrido coação em suas confissões. (GASPARI, 2002, p. 21-2)


Os horrores cometidos contra aqueles que não se enquadravam ao regime dominante não causaram apenas dor física. Os perseguidos, presos e torturados, como o personagem de Garopaba mon amour, e que conseguiram sobreviver, ficaram com marcas profundas, mas não na carne, “ pois não é mais o corpo, é a alma [...] o coração, o intelecto, a vontade, as disposições.”(FOUCAULT, 1987, p. 18). Almas feridas foi o legado de um dos mais tenebrosos períodos da história nacional.


Alguns contos de Pedras de Calcutá deixam transparecer um certo desencanto daqueles que almejavam um novo modo de viver, integrado à natureza, numa sociedade mais livre, solidária e igualitária – ‘o sonho hippie’. Exemplo é a narrativa Zoológico Blues, na qual três amigos constatam o descompasso entre o sonho e a realidade: “- O que fizeram de nós? [...] existiam cercas, concreto, arame farpado, existiam cercas segregando animais e verde. – As cercas – ele disse. – Já não somos humanos.”(ABREU, 1996, p.59). As pressões de um regime capitalista, que levantava a bandeira do progresso a qualquer custo, sugerido em slogans como “Este é um país que vai pra frente” ou “Desenvolvimento e segurança: bem-estar da coletividade”, vinham de encontro à filosofia daqueles que acreditavam em uma relação harmoniosa entre humanos e natureza:

O ar cheirava mal, a fuligem das chaminés depositava-se nas dobras da roupa, um dia, disseram, um dia talvez consigam acarpetar toda a terra de alfalto. [...] o sangue dos caminhões e o muro separando a cidade do rio como a parede de um túnel fechando-se sobre eles nos últimos andares dos edifícios – como se escorregassem pela garganta de um enorme animal metálico, como se caíssem sem fundo nem volta, sugados por um estômago que os digeriria faminto, massa visguenta, em direção às inúmeras voltas de um intestino de concreto para defecá-los numa vala podre.(ABREU, 1996, p. 60-61)


Quando Caio publica Morangos Mofados, em 1982, o título do livro já sugere que algo está deteriorado. As narrativas dessa edição trazem representantes de uma geração ciente de que o sonho acabou; a utopia do socialismo ficou para trás. O jeito é encontrar alternativas e adequar-se ao sistema: “Quanto a mim [...] seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias [...] ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados.”(ABREU, 2005, p. 25), como bem aponta Heloísa Buarque de Holanda: “ Morangos não deixa de revelar uma enorme perplexidade diante da falência de um sonho e da certeza de que é fundamental encontrar uma saída capaz de absorver, agora sem a antiga fé, a riqueza de toda essa experiência.”(Ibid., p. 9).



Os Sobreviventes é o conto mais representativo dessa desilusão com o sonho socialista. São dois os narradores, ora um ‘eu masculino’, ora um ‘eu feminino’, que encaminham a narrativa, talvez no intuito de mostrar que tanto os homens quanto as mulheres envolveram-se nas mobilizações e discussões relativas às questões político-sociais do momento. A mulher desabafa: “[...] tenho uma coisa apertada aqui no peito, um sufoco, uma sede, um peso [...] a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca.”(Ibid., p. 27), e seu companheiro tenta amenizar: “Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo.”(Ibid., p. 26). Eles estão em busca de algo que os impulsione, que os faça reagir frente à nova situação:
[...] que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. (ABREU, 2005, p. 29)

Marcante também, em Morangos Mofados, é a temática sexualidade/homoerotismo, talvez como uma “arma” política para questionar os padrões de comportamento da época. Relações homoeróticas tendem a serem consideradas como “anormalidade”, por isso, a pertinência, já que sugerem oposição e transgressão. Segundo Costa (1992), as condutas morais obedecem a um tipo de ordenação. Respeitamos e aprovamos a conduta daqueles que se aproximam de nossos ideais morais, enquanto reprovamos os que não seguem os modelos, apontando-os como anormais. E, quando há uma quebra nas regras ou padrões pré-estabelecidos, os transgressores, via de regra, são punidos de alguma maneira, assim como aqueles que faziam oposição ao governo dos militares.

Essa idéia fica bem clara no conto Terça-feira gorda, no qual o narrador-protagonista relata a atração que sente por outro homem, durante um baile de carnaval: “Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também.”(ABREU, 2005, p. 57). O comportamento de ambos chama a atenção: “Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.”(Ibid., p.57), e quando eles resolvem abandonar o salão, percebem que não usavam máscaras: “Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara.[...] mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.”(Ibid., p. 58). Um grupo de pessoas os perseguem, e eles acabam vítima da violência: “O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas.”(Ibid.,p.59).

Isso se repete em Aqueles Dois, narrativa da relação de amizade e de carinho entre Saul e Raul. Conhecem-se no local de trabalho: “Eram dois moços bonitos, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou de olhos arregalados uma secretária.”(ABREU, 2005, p. 134), e, aos poucos, tornam-se amigos. Além das afinidades, algo mais forte os une: “Como se houvesse, entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia”(Ibid.,p.134), um sentimento que eles mesmos não sabem explicar. Cabe, aqui, uma observação do psicanalista Jurandir Freire Costa, após assistir homens adultos que procuraram análise porque tiveram alguma experiência ou atração homoerótica relevante: “o homoerotismo variava desde um forte apelo por relações físicas até um mitigado desejo de companheirismo erotizado, batizado de amizade.”(COSTA, 1992, p. 82). É o que ocorre com Saul e Raul. Esse relacionamento acaba chamando a atenção dos colegas de repartição, e, depois de algumas cartas anônimas: “[...] ‘relação anormal e ostensiva’, ‘desavergonhada aberração’, ‘comportamento doentio’, ‘psicologia deformada’, sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral.”(Ibid., p. 140), os jovens são despedidos.

Já em Sargento Garcia, relato da iniciação sexual de um jovem, essa ‘psicologia deformada’, esse ‘comportamento doentio’ parte justamente do lado considerado “normal”, modelo a ser seguido. Nessa narrativa, a escolha de um personagem ligado à direita, que acaba transgredindo a “ordem”, critica não só os padrões moralizantes da sociedade, como também o governo dos militares. Hermes se apresenta para o alistamento militar, mas é dispensado de servir à pátria. Ao sair do quartel, o sargento que o dispensara oferece-lhe uma carona. Ele aceita, apesar do estranhamento, já que havia sido tratado de forma dura e ríspida anteriormente. O homem se apresenta. “Luiz Garcia de Souza. Sargento Garcia.[...] Sabe que idade eu tenho? Pois tenho trinta e três. A vida me ensinou a ser um cara aberto, admito tudo. Só não agüento comunista. Mas graças a Deus a revolução já deu um jeito nesse putedo todo. Aprendi a me virar [...] A me defender no braço e no grito.[...] Mas contigo é diferente.[...] Assim, um moço fino, educado. Bonito.”(ABREU, 2005, p. 86-7). Garcia propõe ao moço que lhe acompanhe a um local: “- Um lugar aí. Coisa fina. A gente pode ficar mais à vontade, sabe como é. Ninguém incomoda. Quer? [...] – Nunca fiz isso. – Não me diga. Nunca? – É verdade. – Pois eu te ensino. Quer? – Quero.”(Ibid., p. 88-9). Aqui, nesse conto, é questionada a postura assumida pelos governantes, de retidão e de ordem, mas que encobria uma série de desmandos e arbitrariedades.

O homoerotismo continua a aparecer na obra de Caio Fernando Abreu, na coletânea de contos Os dragões não conhecem o paraíso, publicado em 1988, quando o processo de redemocratização já ocorrera no Brasil. Mas agora, a abordagem da temática suscita reflexões sobre o amor, incluindo os questionamentos relativos a AIDS, como no conto Linda, uma história horrível.

O que fica evidente em todos os textos de Caio Fernando Abreu, publicados durante as décadas de 70 e 80, do século XX, é que ele soube imprimir um traço marcante em sua literatura, numa cumplicidade com as palavras, ora de forma delicada, ora de forma áspera, para falar dos medos, das frustrações e dos anseios de toda uma geração da qual ele fez parte.

REFERÊNCIAS

ABREU, Caio Fernando. Pedras de Calcutá. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.


___________. Os dragões não conhecem o paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
___________. Caio 3D: O essencial da década de 1970; apresentação Maria Adelaide Amaral. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
___________. Morangos Mofados. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
COSTA, Jurandir Freire. A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir; tradução de Raquel Ramalhete. 26 ed. Petrópolis: Vozes, 1987.
HABERT, Nadine. A Década de 70 – Apogeu e crise da ditadura militar brasileira. 3 ed. Ática: São Paulo, 2001.
GASPARI, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Por que estudar João Antônio?

Para Walter Benjamin (1994, p. 198-9), há dois grupos de narradores que podem ser representados pelas seguintes figuras arcaicas: um é o camponês sedentário, que nunca saiu de seu país e conhece suas histórias e tradições; o outro é o marinheiro comerciante, que percorre o mundo e tem contato com outras culturas. Duas formas distintas de viver que acabaram produzindo narradores - contadores de histórias -, com estilos muito próprios, e que conservaram suas particularidades no decorrer dos tempos. Segundo Benjamin, quando se trata de narrativas escritas, as melhores são aquelas nas quais há uma interpenetração desses dois tipos de narradores, surgindo, então, a figura de um narrador que consegue aliar as experiências do passado e do espaço que o rodeia, com o saber de terras distantes.

São esses dois narradores que se revelam na literatura de João Antônio (1937- 1996), um autor fortemente ligado as suas raízes, com um olhar atento à realidade da terra onde nasceu, por mais adversa que ela se apresente, sem perder o elo com as questões universais.

Fruto da união entre um português e uma mestiça carioca, João Antônio Ferreira Filho nasceu na cidade de São Paulo. O pai era um bom tocador de bandolim, fator que, provavelmente, influenciou no seu gosto pela música, principalmente choro e samba de raiz. Menino pobre, passou sua infância brincando nas ruas do bairro operário onde morava, permitindo que conhecesse de perto a vida difícil daquelas pessoas que ali moravam, e presenciasse as transformações da cidade.

Na adolescência, segundo João da Silva Ribeiro Neto (1981, p. 3-5), os primeiros relacionamentos amorosos o instigam a escrever. É nessa época, também, que conhece a zona do meretrício de São Paulo, localizada no bairro do Bom Retiro. Nesse ambiente notívago, João Antônio descobre as mulheres, os boêmios e os jogadores de sinuca, e logo se identifica com aquele mundo. Tudo o que viveu e observou nesse espaço influenciou sobremaneira a obra literária desse paulistano. Seus personagens – os ‘merdunchos’ - transitam por um espaço à margem da sociedade e travam uma luta diária pela sobrevivência: “Não são bem os bandidos, não são bem os marginais, são bem uns pés-de-chinelo, o pé-rapado, o Zé-mané, o eira-sem-beira.”(ANTÔNIO, 1976, p.55).

Ribeiro Neto (1981) afirma que a obra de João Antônio sofreu influências de Lima Barreto, a quem ele dedicou alguns trabalhos, e inclusive publicou um livro, em 1977, Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, que é uma colagem de textos de Barreto, num enfoque da vida desse escritor e das idéias dele a respeito da literatura. Pode-se perceber que uma das similitudes entre a obra desses dois autores, é, justamente, quando trazem para a literatura a voz das classes desfavorecidas.

As narrativas de João Antônio privilegiam dois espaços urbanos: sua terra natal: “São Paulo tem um encanto diferente. O misticismo da luz elétrica como existe em São Paulo não existe em nenhum outro lugar. A poesia da luz elétrica é a marca da solidão que se vive na cidade; e o Rio de Janeiro, cidade que o fascinava e onde sua carreira de jornalista se firmou: “Esta cidade tinha uma sensualidade, vibração, colorido, beleza, charme, borogodó, carisma, que vão desaparecendo à medida que a vão destruindo. Beleza tropical é no Nordeste. Beleza sem adjetivo é no Rio.”(RIBEIRO NETO, 1981, p. 5).

É nos subúrbios dessas grandes cidades que seus personagens circulam, valendo-se, por vezes, da malandragem para driblar os obstáculos da difícil tarefa do sobreviver. De um lado ficam ‘os bacanas ou otários’, e do outro, aquele que imagina levar vantagem. Essa é a maneira de enfrentar situações limite como a fome, o frio, a polícia e a própria morte, sem, no entanto, haver perversidade nos atos. Como diz Chico Buarque na música Homenagem ao malandro: “ aquela tal malandragem não existe mais”, são figuras de um tempo que já se foi.

Para retratar esse universo, o autor utiliza a linguagem das ruas, o personagem tem voz , como a prostituta do conto Maria de Jesus de Souza (1986, p. 37) : “Meu nome, desde que me entendo, é Maria de Jesus de Souza. E, meu Deus, preciso fazer um ganho. Não ‘güento mais miserê. Se isto for boa vida, berimbau é gaita-de-fole e paralelepípedo, pão-de-ló. Aturo zoada de pilantra a noite inteirinha e, na virada, ganho o quê?” ou Paulinho Perna Torta, engraxate na infância e rufião na fase adulta: “Agüentava frio nas pernas, andava de tênis furado, olhava muito doce que não comia e os safanões que levei no meio das ventas, quando me atrevia a vontades, me ensinaram que o meu negócio era ver e desejar. Parasse aí.”(1981, p. 58) O uso da primeira pessoa dá a oportunidade de expressão àqueles que se sentem injustiçados, ou seja, o ponto de vista é das classes desfavorecidas. Quem encaminha a narrativa são os personagens, não havendo um narrador que os apresente.

O estilo literário de João Antônio é jornalístico, como um retrato, o mais fiel possível, da realidade. Ele não usa subterfúgios para amenizar os acontecimentos, pode até chocar, como no conto Paulinho Perna Torta, quando a polícia dá uma batida na zona do meretrício : “As mulheres engolem depressa tubos de tóxicos e despejam álcool no corpo. Os corpos pelados, sem pressa pelas ruas, vão às labaredas, ardendo como bonecos de palha. O horror é uma misturação. Gente, cantoria, grito; é esguicho d’água, é tiro, correria desnorteada. Xingação, berreiro, choro alto e arrastado, cheiro de carne queimada e fumaça.

Esse estilo também se apresenta em contos que mais parecem relatos, como se fossem contos-reportagem, aproximando-se dos romances-reportagens que emergiram na década de 70, no Brasil, quando vigia o regime militar e a censura reprimia o direito de se expressar. Segundo Silviano Santiago (1982, p. 52), a intenção fundamental dessas narrativas “é desficcionalizar o texto literário e com isso influir, com contundência, no processo de revelação do real.” Dentre os contos de João Antônio que exemplificam bem esse pensamento estão Casa de Loucos, relato do cotidiano de um sanatório, Testemunho de cidade de Deus, no qual moradores desse local dão depoimentos e revelam as condições de moradia, ou A Lapa acordada para morrer, revelando o cotidiano desse bairro boêmio do Rio de Janeiro, do apogeu à decadência. Todos esses textos estão incluídos na coletânea Casa de Loucos.

Nas narrativas em primeira pessoa, publicadas durante o período da ditadura militar no Brasil, percebe-se que o autor paulistano privilegia as questões sociais, elegendo um personagem das classes menos abastadas para falar das agruras de uma vida em condições que não são as mais desejáveis. Pode ser um operário, uma prostituta, um garoto engraxate, um leão-de-chácara, um jogador de sinuca, um guardador de carros ou uma adolescente que lidera um bando de esmoleiros e pedintes.

A abordagem da situação política do país pouco aparece, talvez porque as classes mais baixas não participassem efetivamente dos movimentos de resistência ao regime ditatorial, haja vista que essas mobilizações foram lideradas pela classe média, principalmente pelos estudantes secundários e universitários, além das pessoas envolvidas com o debate político-cultural no país. É claro que isso está implícito nos textos, pois o quadro político de um país reflete na vida dos cidadãos de todas as classes sociais. O que difere é a maneira e o grau de intensidade desse reflexo na vida de cada um.

O conto Abraçado ao meu rancor é um dos poucos que traz referências à ditadura militar e à censura imposta aos jornais: “Noutro tempo, bem outro, a redação fora um lugar de entusiasmo, rumor e movimento. Isso, sem a ditadura. Agora, transpirava-se nojo, derrota, e pior, um nhém-nhém-nhém, um chove não molha dos capetas”(ANTÔNIO, 1986, p. 79).

Nesse texto, o narrador-personagem é um jornalista paulistano, que trabalha no Rio de Janeiro, e é escalado para fazer uma reportagem sobre o turismo na cidade de São Paulo. Ele percorre a metrópole com nostalgia e uma certa desilusão. Desilusão com as mudanças ocorridas na cidade: “A cidade deu em outra. Deu em outra cidade, como certos dias dão em cinzentos, de repente, num lance. As caras mudaram, muito jogador e sinuqueiro sumiu na poeira.[...]Ou a cidade os comeu.”(ANTÔNIO, 1986, p.80) e, também, com a profissão de jornalista: “Parece-me que comecei direito no jornal. Agora, meio corroído, acabarei sabujo. Nada. Provavelmente, desde o princípio, eu tinha pouca têmpera e me julgava grande coisa, mas já dando sinais, ainda que vagos, de aceitação”(ANTÔNIO, 1986, p. 88). O momento é de desabafo: “O seu caso é escrever o que os homens mandam e os poderosos querem. Ou para que pensa que é pago? Achava que sairia inteiro dessa complicada?(ANTÔNIO, 1986, p.94).

No conto, o personagem tem a liberdade de expor seus pensamentos: “Nos bares, depois do expediente, meus colegas, nem tão indignados quanto raivosos, chiam contra a censura”(ANTÔNIO, 1986, p. 122); “Logo caio em mim. Não foram os jornalistas que encomendaram ditadura, mas são eles, principalmente, quem a têm no lombo”(ANTÔNIO, 1986, p. 124). Ao caminhar pela cidade, ele visita os locais por onde andou no passado e resolve pegar um trem para o subúrbio: “Na tropelia, um pensamento. A palavra vagão, proibida aos jornais pelos órgãos oficiais, só deve ser usada para transporte de carga ou animais. Assim, que culpa terão os jornalistas com uma ditadura no lombo, além dos patrões?Alguns, afoitos ou rebeldes, estão comendo processos ou cadeia.”(ANTÔNIO, 1986, p. 134).



Olá, professor, há quanto tempo! é outro texto que enfoca o quadro político brasileiro durante a década de 70. O narrador é um jornalista incumbido de entrevistar Darcy Ribeiro, exilado político de 64, de volta ao país devido uma permissão especial para o tratamento de um câncer pulmonar. Vigiado vinte e quatro horas por dia, Darcy Ribeiro recebe o jornalista em seu apartamento do Posto Seis, em Copacabana, Rio de Janeiro: “O professor havia envelhecido pouco[...]era o mesmo das fotografias, onze anos antes, ministro, antes de o cassarem e de ir para o exílio.[...]Os homens que o deixaram entrar aqui, contavam com a sua morte infalível, inadiável, cancerígena”(ANTÔNIO, 1976, p. 6-7)

Os dois conversam sobre vários assuntos, inclusive sobre a situação política brasileira: “Há medo generalizado no país[...]Hoje temos repressão ostensiva. Seqüestros indiscriminados, interrogatórios com tortura, meios bestiais e desrespeito completo pela pessoa humana. Há tanto policial, principalmente em São Paulo, que já não os notamos mais. Estamos calejados. Estamos empedernidos com a bestialidade”(ANTÔNIO, 1976, p. 10).

Quando a entrevista termina, o narrador está impressionado com Darcy Ribeiro: “Passei duas horas em seu apartamento e não ouvi uma lamentação do homem cassado, perseguido, sofrido, um pulmão fora do peito, o câncer jogado fora [...] Mais alegre, descontraído e saudável que eu [...]disse: -A gente não pode dar trela. Senão, os policiais sentam à mesa com a gente e tomam conta.”(ANTÔNIO, 1976, p. 12).

Nesse período conturbado da história do Brasil, além de se dedicar à literatura, João Antônio exercia o jornalismo e, segundo Ribeiro Neto (1981), lançou a expressão “imprensa nanica” para designar uma imprensa que floresceu numa época de intensa censura e repressão aos principais órgãos de comunicação. Lançadas semanalmente, essas publicações eram conhecidas também como marginais, e tornaram-se uma alternativa de expressão jornalística naquela época, destacando-se o Pasquim e Opinião.

A literatura de João Antônio é carregada de realismo, numa linguagem direta, por vezes dura, sem floreios. A sensação é de pés fincados bem firmes no chão; porém, há momentos que é possível ‘levitar’ um pouco:
Vou pendurar um sanduíche no botequim dos mendigos. Desce um fio preto, cravejado de sujeira de moscas a que se pendura a lâmpada fraquinha de quarenta velas. Ilumina mal o muquinfo abafado onde, além da cachaça, tira-gosto.Mas só jiló, cabeça de peixe, pão e mortadela. Encosto à porta do boteco e enquanto masco, vejo de costas o casal sebento de mendigos, arriados, esfiapados, sentados no meio-fio. Ele como que escolhe alguma coisa escondida para ela, todo interessado. Vou ver, pisando macio. Estão namorando. O mendigo pousa nos joelhos uma lata de goiabada tomada de guimbas de cigarros que decerto, na andança, catou nas ruas. Ela fica quieta, só olhando o movimento dos dedos do homem. Então, ele escolhe uma das melhores pontas de cigarro, das maiores e menos amassadas, das de que ainda se poderá sugar alguma fumaça e, numa gentileza, quase tímido, amorosamente, oferece a ela: - Toma. Saio mascando pão, coração pequenininho. Desço para a Avenida Mem de Sá. (ANTÔNIO, 1986, p. 47)
Eis a literatura de João Antônio!

E estudar a literatura desse autor paulistano é mergulhar num universo muito particular, no qual se utiliza uma linguagem também muito peculiar. É o mundo dos ‘merdunchos”,



Referências bibliográficas:

ANTÔNIO, João. Casa de loucos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.


______________. Literatura comentada; seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico por João da Silva Ribeiro Neto. São Paulo: Abril Educação, 1981.
______________. Abraçado ao meu rancor. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura; tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
SANTIAGO, Silviano. Repressão e censura no campo das artes na década de 70. In:Vale quanto pesa. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1982.


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