PRÁticas de leitura de um sujeito proveniente dos meios populares em caetité-bahia



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PRÁTICAS DE LEITURA DE UM SUJEITO PROVENIENTE DOS MEIOS POPULARES EM CAETITÉ-BAHIA (SÉCULOS XIX E XX)


Joseni Pereira Meira Reis (UNEB – Campus XII)

Ana Maria de Oliveira Galvão (UFMG)

Neste trabalho1, buscamos reconstruir as práticas de leitura e de escrita de João Gumes, um sujeito proveniente dos meios populares, como detalharemos a seguir, que viveu entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do XX. Essa reconstrução foi realizada a partir dos indícios presentes nos seus escritos e nos vestígios de alguns livros que pertenceram a sua biblioteca. Inicialmente, mapeamos quais foram os possíveis espaços de leitura utilizados por ele, os tipos de leitura que realizou, bem como os temas e autores que estiveram presentes nas suas leituras e os gêneros textuais que predominaram em sua escrita.

Para a realização da pesquisa, consultamos a produção escrita do sujeito pesquisado, romances impressos e outros que permaneceram manuscritos, as edições do jornal A Penna2, assim como anotações pessoais que se encontram no APMC (Arquivo Público Municipal de Caetité3). Tivemos também acesso a livros que pertenceram a João Gumes e se encontram com familiares e na biblioteca do Centro Espírita Aristides Spínola, em Caetité.


Antes de nos debruçarmos sobre as práticas de leitura desse sujeito, é necessário trazer alguns dados sobre João Gumes.
João Gumes (1858-1930), natural de Caetité, teve a sua vida restrita à região próxima à cidade. Seus pais eram mestres-escolas; o pai também era funcionário da Intendência, ocupando os cargos de secretário e, posteriormente, de funcionário dos Correios, além de ter ocupado a cadeira de vereador. Embora fosse composta de membros que exerciam ocupações de certo prestígio, que exigiam uma proximidade com a cultura escrita e tivessem construído um forte capital social, a família de Gumes não pode ser caracterizada como pertencente às elites econômicas da região, vinculadas, de modo geral, à posse de terras.
Gumes provavelmente frequentou a escola primária do pai; não localizamos, entretanto, documentação que indique que frequentou as aulas de ensino secundário que eram oferecidas na cidade, na época. Aos dezoito anos passou a atuar como mestre-escola em fazendas dos coronéis na região de Palmas de Monte Alto. Durante esse período, traduziu o livro em francês Le Brésil, de Ferdinand Denis, resultando num trabalho manuscrito cuidadosamente elaborado. Retornando a Caetité, Gumes torna-se secretário da intendência. Paralelamente a essa função, desenvolveu atividades como tipógrafo, escritor, advogado provisionado, arquiteto, músico, tradutor e jornalista.
Na tentativa de apreender que tipo de leitor Gumes teve condições de se tornar, investigamos, inicialmente, quais eram os seus possíveis espaços de leitura.
A casa, a escola e bibliotecas particulares existentes em Caetité foram, provavelmente, os principais espaços de formação e leitura frequentados por João Gumes. A sua relação com os livros deve ser pensada como algo bem anterior à realização das diversas funções que desempenhou ao longo de sua vida e que exigiam uma certa intimidade com o ler e escrever. Possivelmente, essa relação foi iniciada ainda na infância e teve os pais como incentivadores, pois, como já se viu, ambos (pai e mãe) eram mestres-escolas. Certamente, o ambiente familiar dispunha de material escrito, assim como a escola que frequentou, pertencente aos seus pais. Infere-se que o fato de ter nascido numa família relativamente letrada e detentora de certo capital cultural permitiu que Gumes herdasse o gosto pela leitura4. Para o sociólogo Pierre Bourdieu “gostar de algo significa apropriar-se do objeto” (2007, p.257). Nesse sentido, pode-se inferir que, para Gumes apropriar-se do processo da leitura, deveria ter existido uma intensa identificação dele com o tipo de leitura que realizava, transformando o gesto da leitura num ato de prazer, o que lhe permitiu apropriar-se do objeto; afinal, só nos apropriamos de algo quando temos condições de interagir e dominar aquilo que pretendemos.
A sua biblioteca particular foi certamente outro espaço de leitura; infelizmente não tivemos condições de manusear na sua totalidade os livros que compunham a possível biblioteca que pertenceu a Gumes, que acabou sendo desfeita após o seu falecimento, em 1930. A ação de distribuir entre os herdeiros o acervo bibliográfico de um sujeito, após a sua morte, costuma ser comum; “o esfacelamento do acervo é um problema com o qual o pesquisador tem de lidar quando estuda as bibliotecas pessoais” (GALVÃO; OLIVEIRA, 2007, p.101), fato que dificulta, em parte, o desenvolvimento do estudo, impedindo ou restringindo o acesso a determinadas informações. Acreditamos que os livros que pertenceram a João Gumes tiveram esse destino: foram divididos entre os filhos, segundo a área de interesse de cada um. A visita à casa em que João Gumes nasceu e viveu ratifica a ideia de que o seu proprietário foi possuidor de boa e ampla biblioteca, considerando que ainda existem estantes com livros que pertenceram aos filhos de Gumes, principalmente às filhas mais novas, que residiram na casa e foram professoras da Escola Normal de Caetité5.

Outras bibliotecas particulares também parecem ter sido espaços de leituras de Gumes. Os indícios encontrados permitem inferir que, no século XIX, em Caetité, materiais escritos se faziam presentes nos ambientes familiares. Um dos indicadores que permitem fazer essa afirmação é a existência, na cidade, em 1842, de três professores públicos, que certamente deveriam dispor e utilizar-se de livros de leitura. Havia na cidade uma elite culta e letrada que cultivava o gosto pela leitura, tanto em função das atividades profissionais que realizava, como pela necessidade de se manter informada. Marieta Lobão Gumes6, rememorando a casa do avô materno, relata que, num salão, ao lado de um corredor que levava à sala de jantar, funcionava o gabinete de Marcelino Neves7, mestre-escola e tio materno do sujeito investigado.

[...] Com boa biblioteca, mesa redonda onde se espalhavam os seus papéis, livros, dicionários, jornais, lápis, tinteiros, canetas, um candeeiro de centro de chama forte, enfim, tudo que o homem intelectual e escritor precisa ter à mão [...] (LOBÃO GUMES 1975, p.22).

Além dessa biblioteca, havia outras bibliotecas particulares na cidade. A biblioteca de Deocleciano Teixeira8, por exemplo, mantinha uma ampla e atualizada coleção composta de diversos títulos, bem como a assinatura de diferentes periódicos da capital do Estado e do Rio de Janeiro. O coronel Cazuzinha9, também político de grande prestígio no período, também possuía uma biblioteca, a julgar pela significativa quantidade de livros do final do século XIX e início do século XX, muitos deles franceses, que ainda se encontram na residência que a ele pertenceu. Em período posterior, no início do século XX, a cidade contava também com a biblioteca do professor Alfredo José da Silva com a presença de um maior número de materiais de leitura instrucional e pedagógica. A existência desses espaços de leitura implica pensar que havia uma certa ordenação da leitura no espaço e um espaço destinado à leitura, ou seja, existia de alguma forma uma valorização da leitura nessa sociedade, uma vez que a ela se dedicava um espaço reservado; a existência dessas bibliotecas ou gabinetes particulares de leituras, sem dúvida, expressa, assim, algo dos hábitos de leitura e das possíveis práticas de escrita de parte da população caetiteense. De certo modo, a posse de um acervo de livros, no final do século XIX e início do XX, deveria conceder a seu proprietário uma forma de distinção social10, determinado status e reconhecimento perante a comunidade, o que implica, também, a posse de capital cultural. Conforme ressalta Gisele Venâncio:

Colecionar livros era uma etapa importante na formação de um intelectual. Possuir um gabinete de leitura, estantes cobertas de livros, uma quantidade de raridades ou de livros pertencentes aos cânones literários nacionais ou estrangeiros simbolizava para seus pares sua importância intelectual (2006, p.90).

Ainda com relação à relevância de se possuir um gabinete de leitura, a autora destaca que o “tamanho das bibliotecas era frequentemente associado ao refinamento intelectual de seus proprietários” (2006, p.90); o tamanho e a posse de um acervo considerado legítimo eram condições que garantiam ao seu proprietário a oportunidade de ser reconhecido como um “intelectual erudito”, sendo, também, uma forma de “registro das suas atividades intelectuais”. A autora recorre ao estudo realizado por Márcia Delgado, referente a sebos e livros em Minas Gerais, para questionar os motivos que levam um sujeito a formar uma biblioteca pessoal. Segundo Delgado, os motivos “são de ordem arbitrária e variada, indo desde o amor pelos livros de determinado gênero ou assunto até o interesse mercadológico pelo livro como fonte de investimento” (apud VENÂNCIO, 2006, p.90). Nesse sentido, as bibliotecas que existiram em Caetité, em meados do século XIX e início do XX, poderiam de alguma forma estar relacionadas a alguns desses motivos, desde o gosto pelo hábito da leitura, ou talvez fossem uma condição de demonstrar a erudição ou, ainda, uma necessidade de vinculação às atividades profissionais de seu proprietário. No caso, as bibliotecas citadas de Caetité pertenciam a um médico, a um professor e a um coronel que tinham filhos estudantes. Esses indícios nos levam a afirmar que existiam, em Caetité, no interior das residências, espaços destinados à leitura, fato que também reafirma a ideia da circulação do escrito na cidade.

A biblioteca do Centro Espírita em Caetité foi outro espaço de leitura de Gumes, que também colaborou na sua formação como leitor. João Gumes foi um dos fundadores em 1907 do Centro Espírita em Caetité. Possivelmente desde o final do século XIX, ele já possuía aproximação com as leituras espíritas. Ao manipular o acervo de livros antigos do Centro Espírita e conhecer suas instalações, pudemos fazer algumas inferências sobre as possíveis relações que se construíram naquele espaço, tendo em vista que o centro se localiza bem perto da residência que pertenceu a João Gumes, em uma área que era de propriedade da família, tendo como vizinhos próximos os seus descendentes; ou seja, as residências dos filhos localizavam-se em volta do Centro. Percebe-se o quanto esse espaço esteve imbricado na vida de João Gumes. Mesmo sendo apenas um dos membros que compunham a direção do Centro, fica evidente que Gumes teve um intenso envolvimento em sua organização, principalmente na sua biblioteca, pois, pelo que verificamos, vários foram os livros adquiridos por ele na constituição do acervo.

Além de investigarmos os espaços que possivelmente foram determinantes na formação de Gumes como leitor, buscamos compreender quais eram as principais formas de acesso aos livros e a outros materiais impressos. A prática da circulação ou trocas de materiais escritos parecia ser bastante comum em Caetité, considerando que foram constantes as notas no jornal A Penna agradecendo o recebimento de livros e principalmente de periódicos que vinham dos mais diversos municípios do Brasil. Muitos desses materiais de leitura serviam como suporte para elaboração das matérias e crônicas veiculadas pelo jornal, a exemplo de uma coleção de escritos sobre agricultura que foram remetidos à redação de A Penna, cujo redator agradeceu a gentileza de quem os enviou (não identificou os doadores), e se comprometeu a que, a partir daquele momento e “dentro da orbita traçada por nosso programma, enriquecer a nossa folha com uma secção sobre tão importante assumpto”11.



Gisele Venâncio, ao estudar a biblioteca de Oliveira Vianna, verificou que uma das formas utilizadas pelo escritor na atualização do seu acervo era “através da troca de livros com outros intelectuais” (2006, p.99). Venâncio ressalta que a prática de “envio e recebimento” de materiais escritos esteve presente na vida do intelectual e argumenta ainda que, através dessas trocas, “pode-se vislumbrar uma prática epistolar específica”. (2006, p.99). Pode-se afirmar que essa “prática epistolar” também fez parte da dinâmica do jornal A Penna; como foi citado, Gumes recebia diversos periódicos que eram devidamente notificados pelo jornal, com agradecimentos pela “visita” recebida. No ano de 1897, foram registradas as “visitas” de 14 jornais, identificados pelos respectivos nomes, locais de produção, bem como os seus respectivos campos de interesses. Verifica-se que eram jornais e revistas destinados aos mais diversificados assuntos, como: literatura, evangelização, humorismo e notícias. Entre os periódicos relacionados, encontra-se um com o nome de A Penna editado na cidade de Santos, no estado de São Paulo. Ao final da nota, o redator agradece aos colegas a gentileza e a cordialidade dispensadas e se compromete a visitá-los, desejando “continuar a permutar”12. Essa circulação entre periódicos de diferentes municípios do Brasil indica que o jornal A Penna manteve uma intensa rede de sociabilidades. Esses contatos e trocas eram relevantes, já que atendiam a várias funções: serviam como parâmetro de avaliação dos materiais produzidos pelos jornais, assim como representavam, também, uma forma de o jornal se tornar conhecido e reconhecido entre os seus pares. Deve-se ressaltar que esse intercâmbio não ficou restrito à região próxima a Caetité ou ao estado da Bahia, as trocas eram mais intensas com as cidades de Minas Gerais principalmente, seguidas de São Paulo e Rio de Janeiro. Corroborando a ideia de circulação de informações entre os periódicos no Brasil, no século XIX, Jinzenji e Galvão (2010, p.6), estudando o jornal O Mentor das Brasileiras, nos informam que o periódico “utilizou pelo menos 46 jornais diferentes para compor suas matérias, além de mais de uma dezena de livros”. Esse fato reafirma a intensa circulação dos materiais escritos e as trocas que havia entre os periódicos no Brasil. Acreditamos que essa “prática epistolar”, no caso de Gumes, não esteve vinculada apenas ao jornal A Penna; certamente ele também manteve contatos com escritores de outras localidades do Brasil, a exemplo de Anísio Teixeira. Segundo relatos da memória familiar, Gumes também teria mantido correspondência com Afrânio Peixoto, ao qual teria fornecido informações sobre episódios ocorridos numa família da região. Posteriormente esses dados foram utilizados por Afrânio para compor o enredo do romance Sinhazinha (1929). Esse fato, no entanto, não foi comprovado, pois, infelizmente, esses registros escritos, que seriam as correspondências trocadas entre os escritores, não foram preservados.

Deve-se ficar alerta também para o fato de que “nem sempre a posse de um livro implica sua leitura e o número de livros efetivamente lidos por alguém pode ultrapassar aqueles que constam em sua biblioteca (na medida em que podem ser tomados de empréstimo)” (GALVÃO, 2009, p.3). Essa é, também, uma hipótese plausível que se pode aplicar a João Gumes na medida em que havia uma circulação de livros na cidade que podia ser alimentada pelas redes de sociabilidade às quais os sujeitos estavam ligados. No caso de Gumes, as leituras por meio de empréstimos parecem ter sido uma prática comum, que justifica, por exemplo, ter sido encontrado, juntamente com o acervo do Centro Espírita, o livro As raças humanas, de Louis Figuier, que pertencia à biblioteca da Escola Normal13. A presença desse livro pertencente a outro espaço de leitura leva a pensar que alguém o tomou de empréstimo, possivelmente João Gumes, já que ele tinha um contato intenso com o acervo da Escola Normal. Esse fato reforça a ideia da circulação dos materiais de leitura em Caetité por meio de uma rede que mantinha as trocas e empréstimos de livros entre os usuários e os proprietários de bibliotecas. Do acervo que pertenceu a João Gumes tivemos acesso a uns poucos exemplares, principalmente da área do Direito e da doutrina espírita.



As leituras realizadas por Gumes

Diante da falta de parte considerável do acervo do sujeito, foi feito um levantamento a partir das produções escritas para compreender que tipo de leitor foi Gumes, já que interessa ao desenvolvimento deste estudo saber o que lia, ou seja, levantar os tipos de leituras feitas, bem como os seus autores preferidos. Nesse sentido, Venâncio acredita ser possível considerar que a “verdadeira fonte para se conhecer a trajetória de leitura de um escritor é a sua obra, e que as citações feitas por um determinado autor representam aquilo que sua escrita reteve das leituras que realizou [...]” (2006, p.101).

Acreditamos que as leituras didáticas possivelmente foram um dos primeiros tipos de leitura realizada por Gumes. Em seus escritos, ele se refere a pelo menos dois livros que eram recomendados para a leitura em escolas de primeiras letras: A ciência do bom homem Ricardo, de autoria de Benjamin Franklin, (Pelo Sertão, 1927, p.11) e o Catecismo de Montpellier. A recomendação dessas leituras pelo sujeito narrador, no romance, se deve ao fato de que, para ele, eram livros que traziam explícitos modelos de comportamentos, formas de conduta, valores religiosos entre outros que eram considerados corretos, portanto deviam ser imitados ou adotados por todos os indivíduos. Segundo informações de José Carlos Silva (1999, p.121-122), essas obras faziam parte de uma lista de materiais de leitura que foram aprovados pela Assembleia Legislativa da Bahia em 1848, que deviam ser distribuídos às escolas de primeiras letras da província. Conforme relatou Silva, as obras, no geral, e principalmente o livro A ciência do bom homem Ricardo, eram leituras de cunho moralizante e/ou religioso, uma vez que o objetivo do ensino era a conformação do sujeito aos moldes de uma educação de caráter doutrinário. Quanto à utilização do catecismo nas escolas de primeiras letras, Evelyn Orlando comentou que o Catecismo de Montpellier foi elaborado em 1702, em 1721 integrou a lista do Index, por ter uma orientação jansenista14. Porém, algumas traduções “italianas, espanholas e portuguesas escaparam à condenação” (2008, p.63). A autora nos informa, ainda, que, entre os quarenta e seis títulos de catecismos, numa relação de textos de leitura indicados para as escolas primárias e secundárias do Brasil no século XIX, o Montpellier é o segundo mais mencionado. Vê-se como a religião e a educação estavam vinculadas a um programa de governo, no contexto do regime de padroado vigente no Império, tornando a educação e a religião “processos interdependentes”.

Possivelmente esses livros fizeram parte das leituras realizadas por Gumes, ainda no período em que cursou a escola de primeiras letras, na sua infância ou início da juventude, o que nos permite identificar as marcas deixadas por essas leituras e como elas repercutiram na sua escrita. Nesse sentido, entendemos que as leituras deixam marcas nos leitores, marcas que podem repercutir em etapas posteriores da sua experiência no mundo da escrita.



As leituras espíritas constituem outro relevante tipo de leitura realizada por João Gumes. É possível afirmar que João Gumes foi um colaborador ativo na formação e constituição do acervo do Centro Espírita, assim como seu leitor, conforme foi anunciado. Portanto, fica a suposição de que esse acervo influenciou a constituição das matrizes intelectuais e discursivas dele como escritor. Pode-se afirmar que as produções escritas de João Gumes tiveram certa influência da doutrina espírita, de que era adepto, haja vista as citações feitas por ele de autores, frases e ideias que expressam princípios e valores do espiritismo. Esse tipo de literatura religiosa ocupou, portanto, uma dimensão relevante em sua vida. Listamos nas obras de Gumes nomes de autores espíritas que apareceram com mais recorrência. Na relação dos autores citados, alguns como Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Friedrich Zollner, Charles Richet, Alexandre Aksakof entre outros se destacam, sendo considerados clássicos para a doutrina, já que de certo modo foram os precursores nas pesquisas, estudos e sistematização do espiritismo. Entre eles, existem os que tinham em comum a dedicação ao estudo dos fenômenos físicos da natureza, da astrologia, da química, entre outras áreas, a exemplo do escritor francês Camille Flammarion (1842-1925), amigo de Allan Kardec, cujos livros tratam dos “postulados da doutrina espírita e da pluralidade dos mundos habitados”. O astrônomo Flammarion teve grande reconhecimento nas ciências, campo no qual os franceses se destacavam (HALLEWELL, 2005, p.218). Esses estudiosos inicialmente se debruçaram nas pesquisas que defendiam a legitimação da doutrina espírita como ciência. Chama a atenção a origem desses escritores, todos são estrangeiros. O fato de a doutrina espírita ter surgido em meados do século XIX, na França, talvez explique a referência que Gumes faz aos autores franceses. Mas a doutrina não ficou restrita ao país de origem, difundiu-se pela Europa, passando a ter livros espíritas editados por escritores de diversas nacionalidades. João Gumes fez referência a esses e outros escritores espíritas nos seus romances e no jornal A Penna.
As leituras da área de saúde constituem outro tipo de leitura realizada por Gumes. De acordo com informações obtidas através da memória familiar, há a recordação de que existiam, no seu gabinete de trabalho, muitos livros e de diversos tamanhos; sobre o assunto, uma neta relatou que, quando criança, tinha especial curiosidade por um livro grande de capa vermelha que continha várias ilustrações sobre reprodução humana; a gravura que lhe chamava a atenção era a do útero materno com um feto. Esse relato evidencia que, na biblioteca de Gumes, existiam também livros de medicina. Por exemplo, um livro sobre A prática da homeopatia, de 1905. Corroborando também a ideia da presença de leituras da área médica, entre as leituras feitas por Gumes, encontra-se referência, no romance O sampauleiro, a um guia prático de medicina de grande circulação no Brasil oitocentista. Assim o sujeito-narrador a ele se referiu: “ [...] pelo que tiveram que velar durante toda a noite mãe e filho revezando-se, este lançando mão de todos os recursos de que se lembrava e valendo-se de um formulário de Chernoviz e uma pequena[...]” (O sampauleiro, vol. I, 1922, p.248-249). O formulário foi elaborado por Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1882), tornando consulta obrigatória, principalmente no interior do Brasil, em função da dificuldade e escassez de médicos. Maria Regina Guimarães (2005, p.502) comenta que o Formulário ou guia médico (primeira obra de Chernoviz) vendeu trezentos exemplares no primeiro dia e teve 19 edições, num espaço de tempo de quase oitenta anos.
Identificam-se as leituras jurídicas como outro grupo de leituras realizadas por Gumes, que também, acredita-se, podem ser consideradas como leituras interessadas15, uma vez que faziam parte de uma das funções que Gumes desempenhou, a de advogado provisionado. Entre os livros da área jurídica que pertenceram a Gumes, cita-se, José Tito Nabuco de Araújo Manual pratico do advogado (acções cíveis), 1873; Conselheiro José Martiniano de Alencar, Propriedade, 1883; José Homem Corrêa Telle Doutrina das accões, 1902; Lúcio de Mendonça Paginas juridicas: estudos, pareceres e decisões, 1903.

Nas leituras realizadas por João Gumes destaca-se a relação de intimidade que manteve com a língua francesa, já que foi o tradutor do livro em francês de Ferdinand Denis. Vê-se, também, como foram significativas as referências aos termos em francês tanto nos romances como no jornal, o que demonstra que o uso da língua francesa, que teve marcante influência no Brasil no século XIX, também era uma prática disseminada no contexto no qual João Gumes estava inserido.

Tânia Maria Ferreira (2007), citando Gilberto Freyre, comenta que o “livro francês no Brasil, na primeira metade do século, era o preferido em detrimento do latino e do inglês” (2007, p.318-319), e a opção era pelos livros de literatura, filosofia e política. Ferreira atribui a marcante influência francesa nas bibliotecas, principalmente do curso de medicina, à presença da “escola francesa na formação dos médicos”, bem como às viagens de estudo que os médicos faziam à França. A autora, estudando bibliotecas de médicos e advogados no Rio de Janeiro no século XIX, comenta que as bibliotecas eram diversificadas, o acervo constava tanto de temas relativos à profissão como dos que atendiam a interesses pessoais de seus proprietários.

As leituras históricas eram outro tipo de leitura praticada por João Gumes, principalmente as que tratavam do mundo e do Brasil. Possivelmente, na biblioteca de Gumes foi marcante a presença desses livros, como os compêndios sobre a História do Brasil e a História Universal. Mas, afinal, qual a relevância das leituras históricas? Sabe-se que, no século XIX, a literatura histórica era parte integrante e precípua da biblioteca de um erudito, conforme cita Lima Barreto no seu romance autobiográfico Triste fim de Policarpo Quaresma; ao tratar da biblioteca existente na residência do sujeito-narrador, afirmou que, em relação à “História do Brasil, era farta a messe: [...] Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, Saint-Hilaire além de outros mais raros ou menos famosos [...]”16. Vê-se que, nesse período da História do Brasil, havia uma necessidade preeminente da discussão sobre a ideia de nacionalidade, portanto conhecer e argumentar sobre a História Pátria era a condição primordial para que os eruditos pudessem apontar caminhos para o país seguir rumo ao “progresso” e ao “desenvolvimento”.

Entre os tipos de leituras históricas, destacam-se as leituras dos viajantes e cronistas, outro tipo de leitura feita por João Gumes; em uma das referências a esse tipo de literatura, ele chega a se contrapor ao pensamento de Saint-Hilaire17, quando este apresenta o homem que reside nos sertões do Brasil como conservador, resistente às mudanças, que, portanto, não sabe explorar as potencialidades naturais que o meio lhe oferece.

A literatura brasileira também foi outro tipo de leitura realizada por Gumes. Os indícios levam a crer que essa literatura tinha espaço reservado nas suas leituras, certamente chegando a fazer parte da sua biblioteca; entre as referências, ele identificou a figura de Júlio Ribeiro18, citado no romance O sampauleiro, quando o sujeito-narrador comenta que o referido autor influenciou o personagem Abílio: “elle que não cria em outra vida que não fosse a presente, elle que em São Paulo ouvira tantas vezes o sabio philologo, communicativo e talentoso Julio Ribeiro provar por a mais b que Deus não existe sinão na mente dos pascácios?” (O sampauleiro, 1922, p.256). A referência a Júlio Ribeiro é sintomática, na medida em que permite inferir que as leituras de João Gumes não se restringiam apenas aos autores que compartilhassem das suas matrizes filosóficas, o que demonstra que era um leitor eclético, que, portanto, estava aberto ao diálogo com as diferentes formas de pensamento. O fato de não compartilhar do pensamento de Júlio Ribeiro não impediu Gumes de reconhecer os seus méritos, definindo-o como “sabio philologo, communicativo e talentoso”.

A maior parte dos tipos de leituras feitas por João Gumes, referentes às mais diversas áreas do conhecimento, podem, assim, ser consideradas como leituras interessadas, já que as leituras se referiam a assuntos que eram discutidos e abordados com frequência pelo jornal A Penna, principalmente as questões sobre higiene e saúde, a prática do curandeirismo e do charlatanismo, temas que foram exaustivamente debatidos pela imprensa nacional e regional, como forma de romper com práticas e usos que ainda resistiam no interior do Brasil. Assim, podemos pensar que João Gumes foi um leitor que esteve, no seu tempo, em “construção e desconstrução constante, dialética entre vanguardas e permanências [...]” (LAJOLO; ZILBERMAN, 2003, p.57), uma vez que não se manteve vinculado a um ou dois tipos de leituras, mas diversificou-as.

Percebe-se que havia uma identificação de João Gumes com as leituras por ele realizadas, haja vista que elas lhe possibilitaram dar inteligibilidade aos problemas do mundo, das pessoas e, principalmente, de questões específicas da região. Considerando a variedade de livros que compunham a sua possível biblioteca, as citações e referências feitas a autores dos diferentes campos do conhecimento, pensamos que esses indícios nos permitem dizer que João Gumes desenvolveu uma leitura extensiva19 em função da diversidade e amplitude dos interesses das leituras. Mas, nem por isso, essas leituras podem ser consideradas menos interessadas; evidente que, entre a variedade de obras que lia, havia, certamente, algumas, a exemplo das espíritas e jurídicas entre outras, às quais dedicava mais tempo e estudos, considerando que elas foram determinantes na sua formação. Após a tentativa de mapear as leituras realizadas por João Gumes, bem como de conhecer os seus autores preferidos, interessa-nos saber que tipo de escritor ele se tornou.



A produção escrita de João Gumes

Como escritor e tipógrafo, João Gumes produziu diversos gêneros de escrita, destacando-se os textos jornalísticos, as crônicas, documentos oficiais, os romances, a tradução, textos em versos (poesia), texto jurídico, entre outros. Entre os textos jornalísticos, veiculados pelo jornal A Penna, sobressaem os noticiosos e as crônicas. Estas tinham espaço garantido no periódico e tratavam de temas variados que abrangiam desde a política, economia, cultura até a sociedade. Os textos noticiosos abordavam os problemas da vida cotidiana ou da região, a exemplo das notícias sobre agricultura. Realmente, a agricultura era um dos temas considerados relevantes pelo jornal; quase todos os exemplares consultados traziam notícias referentes à questão agrícola. Ratificando essa relevância, observa-se que a questão agrícola foi um tema bastante discutido no ano 1899, em virtude da grave seca que assolou a região. Pode-se ainda observar referência a esse tema no frontispício do periódico e verificar que, nas décadas iniciais do século XX, o jornal A Penna era identificado como “órgão dos interesses comerciais, agrícolas e civilizadores do Alto Sertão”20. Portanto, era coerente que o periódico voltasse a atenção para essa questão; afinal, a agricultura constituía a base da economia regional.

Quanto às crônicas, eram produções que relatavam fatos de ordem tanto local quanto regional, nacional ou internacional. Geralmente, estavam impregnadas de conteúdo de cunho político.

Documentos oficiais, ou seja, textos vinculados às funções do trabalho, também estão entre os demais tipos de textos produzidos por João Gumes. Destacam-se principalmente os escritos quando ele ocupou a função de secretário da Intendência; podemos citar: a redação do Código de Postura do Município de Caetité, os Regulamentos e Normas do Município, livros de Atas, Atas de exames para seleção de professores21, enfim, inúmeros outros documentos dos poderes executivo e legislativo que foram redigidos e assinados por Gumes.

As obras de ficção foram outro gênero que ele produziu. Citem-se as comédias Sorte grande e A vida doméstica – sem exemplares para a nossa consulta; delas se tem conhecimento apenas por serem citadas na contracapa do romance O sampauleiro, no rol das obras do mesmo autor; o conteúdo de cada uma provavelmente terá relação com o título. Outras peças teatrais devem ser referidas: Mourama (texto inédito) e A abolição. A questão abolicionista foi um dos primeiros temas da produção escrita de Gumes. Os romances escritos pelo autor foram, por sua vez: Uma insurreição de negros: um pequeno esboço da escravidão no Brazil, em 1874, Seraphina (188..), Pelo Sertão: narrativas de costumes rurais do sertão baiano (1914), Vida campestre: narrativas dos costumes e hábitos dos lavradores do Alto Sertão Sul da Bahia (1926). O sampauleiro volumes I (1922) e II (1932), Os analphabetos (1928). Consideramos O caso Gumes (1923) como um relato autobiográfico.

Com referência às demais produções escritas de Gumes, destaca-se a já comentada tradução do livro Le Brésil, de Ferdinand Denis, do francês, um trabalho bem acabado e que demonstra a familiaridade que Gumes tinha com o idioma de Victor Hugo. Ainda podemos citar os textos em versos, as poesias, embora sejam em número menor. Gumes aproveitava o espaço do jornal A Penna para publicar algumas desses poemas feitos para homenagear uma pessoa, um fato histórico, enfim algum acontecimento marcante.

Temos, também, como exemplo de um possível texto autobiográfico que encerra uma peça jurídica, O caso Gumes, de 1923. Nele o escritor relata, em forma de desabafo, a sua trajetória de vida, esclarecendo sobre as atividades que desenvolvia no setor público. O livreto assume uma conotação de defesa pública da vida de um serventuário. Embora não tenhamos conseguido acessar outros textos desse gênero, acreditamos que João Gumes tenha produzido vários textos jurídicos, considerando que atuou como advogado.

Observamos como eram diversificadas as práticas de leitura e escrita de um sujeito proveniente dos meios populares na região do Alto Sertão baiano nos séculos XIX e XX. Presume-se que a diversidade de suas leituras estava, de certa forma, vinculada às variadas funções que desempenhou, servindo para auxiliá-lo na realização das suas atividades. Portanto, essas leituras visavam atender as necessidades prementes da redação dos textos jornalísticos, a escrita dos romances, ou ainda, na função como secretário da Intendência.





1 É parte da dissertação de mestrado defendida na FAE-UFMG em 2010, com o título Instâncias formativas, Modos e condições de participação na cultura escrita: o caso de João Gumes (Caetité-Bahia 1897-1928). Sob a orientação da profª. Ana Maria de Oliveira Galvão.

2 O jornal A Penna foi fundado por João Gumes em Caetité e circulou de 1897 a 1943. Para instalação da tipografia Gumes contou com auxílio financeiro da Intendência.

3 Caetité localiza-se na região Sudoeste da Bahia a 750 Km de Salvador. Na época a região era denominada de Alto Sertão bahiano. A cidade exerceu notável influência política e cultural na região a partir de meados do século XIX até as primeiras décadas do século XX.

4 Bernard Lahire nos informa que o “gosto pela leitura no caso de uma obra literária específica, não pode ser deduzido de uma disposição cultural e, portanto, de um volume (mais fraco ou mais forte) de capital cultural. Não é muito atribuível a um único critério social de especificação, a saber, a posição no espaço social” (2002, p.96). Para o autor, esse “gosto ou sensibilidade literária” pode ser particularmente mudado a depender do contexto social em que se encontra o leitor, de acordo com a sua condição social no momento da leitura, a sua pertença sexual, as experiências sociais, entre outros aspectos que interferem na formação do gosto pela leitura, portanto não se resume a “um simples efeito de legitimidade”, mas depende das experiências que o indivíduo incorporou ao longo da sua trajetória.

5 A Escola Normal de Caetité foi criada em 1898, funcionou até 1904, quando foi fechada por questões políticas. Voltou a funcionar apenas em 1926 por influência de Anísio Teixeira.

6 Marieta Lobão Gumes (1908), autora do livro de memórias: Caetité e o clã dos Neves (1975), foi casada com Huol dos Santos Gumes (filho de João Gumes).

7 Natural de Caetité, Marcelino José das Neves (1841-1914) tornou-se mestre-escola na cidade, exerceu a função em vilas da região e foi nomeado lente de pedagogia da Escola Normal em 1898. Foi, ainda, redator do jornal A Penna. Como escritor, é autor do drama: O designado, dos romances: Mulher do xale preto (publicados em A Penna em forma de folhetim), Lavras diamantinas (único romance editado, pós-morte) e Naninha.

8 Deocleciano Pires Teixeira, pai do educador Anísio Teixeira, era médico.. Exerceu notável influência junto ao governo do Estado e na região do Alto Sertão Baiano. Amigo de João Gumes, fazia parte da sua rede de relações sociais e políticas. Parte do acervo da biblioteca de Deocleciano Pires Teixeira foi doada pelos seus familiares ao Arquivo Público Municipal de Caetité.

9 Segundo Santos (1997, p.224), José Antônio Rodrigues Lima, conhecido como coronel Cazuzinha era irmão de Dr. Joaquim Manoel Rodrigues Lima, 1º governador eleito da Bahia, portanto, também “foi chefe político de grande prestígio, até 1919, quando divergiu do governador José Joaquim Seabra, por causa da candidatura de Rui Barbosa à presidência da República. Retirou-se da política, já adoentado, vindo a falecer em 1923”.

10 A posse dos livros, no final do século XIX e no início do século XX, representava bens simbólicos que conferiam aos sujeitos um status social. Márcia Abreu (2002) comenta que era comum os sujeitos, ao posarem para as fotografias, utilizarem livros para compor a cena retratada; tal prática conferia ao sujeito destaque e distinção. Corroborando essa ideia, no Arquivo Público em Caetité, encontram-se fotos datadas de 1911 de sujeitos anônimos que posam para a foto tendo à mão diferentes suportes de leituras. Consulta feita ao www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/Marcia/marcia.htm

11 A Penna, 20/06/1897, p.1.

12 A Penna, 20/12/1897, p.2-3.

13 Na contracapa do livro encontra-se o carimbo da biblioteca da Escola Normal de Caetité.

14 O jansenismo foi um movimento que surgiu no âmbito da Igreja em 1638, baseado nas propostas de Cornelius Jansen (1563-1638). Segundo Evelyn Orlando (2008), a base da reforma era a mudança de sua teologia, do tomismo para o augustianismo, que produziu ensinamentos religiosos muito parecidos com os calvinistas. Jansen declarou que a conversão dependia da vontade de Deus e que a justificação se dava no relacionamento do homem com Deus, independente das boas obras.

15 A expressão “leitura interessada” é utilizada com base nos estudos realizados por Galvão (2007, p.114) que se baseia, por sua vez, nos estudos da sociologia da leitura para utilizá-la. Neste estudo, nos a tomamos emprestada para designar as leituras que se relacionavam com a escolarização do sujeito, dos seus filhos, as atividades profissionais que realizava, a sua formação geral, a formação religiosa, moral ou emocional, enfim leituras que demonstraram ter uma utilidade prática para João Gumes.

16 Lima Barreto (2002, p.16).

17 Auguste de Saint-Hilaire veio ao Brasil junto com a missão francesa; durante os seis anos que viveu aqui, de 1816-1822, viajou pelo interior do Brasil, desempenhando diversas funções: de botânico, geógrafo, geólogo, etnógrafo, sociólogo, etnólogo, folclorista, ecologista, zoólogo e, acima de tudo, naturalista e humanista. Saint-Hilaire realizou minucioso trabalho de registro das condições culturais e físicas das províncias do Centro e do Centro-Sul do Brasil. Os resultados da produtiva viagem feita ao Brasil renderam parte considerável das suas publicações, assim como “serviram também de argumento na demanda de votos para sua admissão na Academia de Ciências de Paris, para a qual foi eleito em 1830”. (KURY, p.7). www.intellectus.uerj.br

18 Júlio Ribeiro (1845-1890) nasceu em Sabará-MG. Estudou no Rio de Janeiro, mas foi em São Paulo que exerceu as funções de jornalista, filólogo, romancista e professor. Possuía profundo conhecimento em português, grego e latim. Como jornalista envolvia-se em questões polêmicas, principalmente com a publicação do romance A carne (1888), que escandalizou a sociedade da época, marcada por rígidos padrões morais. No entanto, o romance obteve grande êxito, ao menos pela polêmica então suscitada, que provocou insatisfações em parte do clero, mas com ele, Júlio Ribeiro ficou incorporado ao grupo dos principais romancistas do seu tempo (NOVA BARSA, 1999, p.337, v. 12).

19 O conceito de leitura extensiva é utilizado na perspectiva de Cavalo e Chartier (1998, p.28), quando afirmam que o leitor extensivo é movido por certa “obsessão de ler”, assim esse leitor possui especificidades próprias, “consome impressos numerosos, diferentes, efêmeros; ele os lê com rapidez e avidez, [...]”. Nesse sentido, pode-se pensar que a relação que o leitor estabelece com o escrito é “livre, desenvolta e irreverente”. Apesar de ler muito e de forma diversificada, isso não significa que o leitor extensivo não se aprofunde nessas leituras.

20 A Penna, 23/05/1914, p.1.

21 Fundo: Intendência Municipal, Grupo: Ensino Público, Série: Registro de Frequência, Data: 1896-1897, maço:2, caixa:3.

Fontes


  • Edições microfilmadas do jornal A Penna

  • Fundo: Intendência Municipal, Gupo: Ensino Público, Série: Registro de Frequência, Data: 1896-1897, maço:2, caixa:3.

  • GUMES, João. Uma insurreição de negro: um pequeno esboço da escravidão no Brazil – 1874. (Acervo particular).

  • GUMES, João. Pelo Sertão: narrativas de costumes rurais do sertão baiano. 1927. Transcrição.

  • GUMES, João. Os Analphabetos. Bahia: Escola Typographica Salesiana, 1928

  • GUMES, João. Serafina. s/d (manuscrito) no APMC.

  • GUMES, João. Vida Campestre. 1914.

  • GUMES, João. O Caso Gumes. Caetité: Typographia d’ A Penna, 1923. 30 p.

  • GUMES, João. O Sampauleiro. Caetité: Typografia d’A Penna, 1922, vol. I.

  • GUMES, João. O Sampauleiro. Caetité: Typografia d’ A Penna, 1932, vol. II.

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