Psicanálise e Cultura Elogio de um vazio virtual e virtuoso



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Psicanálise e Cultura

Elogio de um vazio virtual e virtuoso

Porto, 21 de Março de 1988 Prof. Doutor Daniel Serrão


Tenho à minha frente uma folha de papel, branca, vazia.

Será insuportável o vazio desta folha?

Será que não conseguirei escrever nela nada que interesse aos participantes neste encontro de Psicanálise e Cultura?

Será que o Dr. Jaime Milheiro que me convidou e me vai comentar, dirá que o vazio não é da folha de papel  que cumpre o seu papel de ser folha e ser vazia  mas da minha inteligência, essa sim realmente vazia, inutilmente vazia?

Que grande desafio, minhas Senhoras e Senhores, o que fiz a mim próprio ao aceitar intervir e ao assumir, contra a corrente, não a angústia do vazio mas o elogio de um vazio que pode ser apenas virtual e poderá tornar-se virtuoso.

Olho a folha de papel, branca e vazia, e vejo nela o espaço onde vou projectar-me, onde vou colocar, com ordem e método se possível, o que tenho para vos comunicar.

Sem nenhuma angústia. Com tranquilidade e optimismo.

Começo com uma citação de Bernardo Soares e do seu "Livro do Desassossego" que é, todo ele, uma análise subtil mas corrosiva da percepção individual do vazio.

"Sim, é o poente..." "Nesta hora, em que sinto até transbordar, quisera ter a malícia inteira de dizer, o capricho livre de um estilo por destino. Mas não, só o céu alto é tudo, remoto, abolindo-se, e a emoção que tenho, e que é tantas, juntas e confusas, não é mais que o reflexo desse céu nulo num lago em mim  lago recluso entre rochedos hirtos, calado, olhar de morto, em que a altura se contempla esquecida.

Tantas vezes, tantas, como agora, me tem pesado sentir que sinto sentir como angústia só por ser sentir, a inquietação de estar aqui, a saudade de outra coisa que se não conheceu, o poente de todas as emoções, amareleceu-me esbatido para tristeza cinzenta na minha consciência externa de mim.

Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra cousa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. É todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da Lua emerge numa brancura eléctrica parada, recortado a longínquo e a insensível.

É toda a falta de um Deus Verdadeiro que é o cadáver vácuo do céu alto e da alma fechada. Cárcere infinito  porque és infinito não se pode fugir de ti”. Fim de citação.

A inteligência analítica de Pessoa  uma inteligência judaica que vai até ao mais fundo de si própria, sejam quais forem as consequências, numa volúpia insaciável de descobrir a verdade  desenha, neste texto, os contornos nítidos do vazio possível numa existência humana.

É porque o existir é descoberto na "consciência externa de mim"  le soi-même comme un autre, de Paul Ricoeur  que o vazio não tem que ver nem com a vida nem com a morte; é outra coisa que até brilha, que pode ser ou não um diamante, mas está no fundo de uma cova à qual não se pode descer. Mas, não poderá?  interrogo eu.

A apóstrofe final do texto de Bernardo Soares é a caracterização deste vazio, do vazio tal como Pessoa o descobre em si  Cárcere infinito e acrescenta, depois de um travessão, porgue és infinito não se pode fugir de ti.

Tenho neste texto o essencial para defender a minha tese: o vazio é virtual e pode, em certas condições, ser virtuoso.

Primeiro argumento  a Natureza tem horror ao vazio; ou: não há vazio na Natureza.

Esta Natureza, que grafei com N maiúsculo, é todo o mundo natural físico e químico; não há nele vazio porque o espaço é gerado pela expansão da matéria no tempo; e um espaço exterior à matéria é impensável pela inteligência humana. A matéria pode ser sólida, líquida ou gasosa mas porque é ela que define o espaço, não há vazio; o vazio seria um espaço sem matéria o que não é concebível no interior da categoria lógica que, bem ou mal, conforma o nosso pensamento.

No mundo real, inorgânico ou biológico, não há vazio, não há espaço sem matéria. Quando os histopatologistas descrevem, nos tecidos, espaços sem matéria, espaços vazios, como o espaço de Disse entre as células hepáticas, apenas estão a descrever artefactos da técnica histológica aplicada a tecidos mortos pela fixação.

No mundo natural não há vazio, nem real nem virtual.

Se não há vazio na natureza  e é certo que não há, nem mesmo os buracos negros no universo cósmico são espaços vazios e eram os últimos que resistiam  se a natureza é toda ela compacta então é fora desta opacidade da natureza que poderemos encontrar o tal vazio anunciado no programa deste encontro de psicanálise e cultura e dado, pelos organizadores, como insuportável.

Onde descobrirei esse vazio?; já que não tive oportunidade de me informar junto do Dr. Jaime Milheiro.

Não está de certo na Psicanálise. Ciência recente, ela está bem cheia de cultores especializados, de pacientes confiantes, de teorias, de doutrinas, de métodos de intervenção, de criatividade por vezes quase esotérica de tão profundamente interpretativa ou explicativa. Cheia também de alguns fracassos e desilusões.

Também não estará na Cultura porque esta enche-se todos os dias com os produtos da actividade criativa da inteligência humana, racional ou emocional. E quando os velhos, como eu, dizem: os jovens actuais vivem num vazio cultural, apenas estamos a afirmar que estão cheios de uma cultura diferente da nossa. Não leram Eça de Queiroz, mas devoram Jeffrey Archer; não ouvem Bach mas compraram milhões de discos do Good-Bye Rose; e por aí fora.

Se não é o vazio na Natureza, nem na Psicanálise, nem na Cultura, será o vazio no homem que é, afinal, tudo isto, é natureza, é espírito e é cultura?

Vou assumir que é o vazio no Homem; o tal animal aflito, no dizer de Gedeão, que vai de mais infinito a menos infinito. Então haverá algum espaço, entre as duas coordenadas do Infinito, que possa apresentar-se, ao homem e no homem como um espaço vazio? Há, mas é um vazio virtual.

Para expor este segundo argumento  o vazio no homem é virtual  vou ter de arranjar um conceito de homem e movimentar-me dentro dele.

Chegado a este ponto, confrontado com semelhante necessidade metodológica  propor uma concepção de homem  que é uma tarefa ciclópica e, se calhar, para mim, inacessível, olho a folha branca e sinto-me vazio.

Se conseguir escrever alguma coisa que vos interesse ou apenas vos irrite concluirei que este vazio é, claramente, virtual; veremos no final se acabou por ser virtuoso.

Costuma dizer-se que a nossa cultura é judaico-cristã e que tudo o que nos acontece, de bom ou de mau, tem aí, nessa cultura judaico-cristã, a sua origem verdadeira.

Vamos ver, então, se a descrição hebraica do homem me ajuda.

É sabido que um pequeno povo, destacado de entre os povos semitas, em pleno período mítico-oral, formulou uma descrição da origem do mundo e da natureza do homem, sob a forma de um mito, narrado oralmente de geração em geração durante um tempo que é estimado entre 15 a 20 mil anos antes do início da era actual. A peculiaridade deste mito originou o isolamento, a deambulação e a destruição, sempre parcial, deste povo, às mãos dos seus vizinhos.

A diferença radical do mito hebraico em relação aos mitos dos outros povos era a noção, inteiramente nova, de que o homem não era um joguete das forças da natureza  o Sol, a Lua, os raios e os trovões deificados e representados por figurações às quais se ofereciam sacrifícios humanos, mas era, ele próprio, a figuração da potência criadora do mundo natural, aquela que é em si própria e por si própria  Yahweh  e que criou o homem.

A Adam, em hebraico, significa a natureza humana e não é, claro está, o nome de nenhum homem concreto (na época não havia ainda Arquivo de Identificação!). O texto inicial do Génesis é o que se chama uma narrativa sapiencial e procurou, logo que este povo descobriu uma escrita, exprimir por escrito o que era até aí uma narrativa oral, constituindo-


-se assim o mais significante corpus da Tradição Judaica. Porque os restantes livros são crónicas históricas e códigos ético-administrativos, principalmente, se excluirmos os Salmos e os Provérbios.

E o que é que exprimem as primeiras páginas do Génesis?

Deus é a potência criadora que se manifesta como um projecto evolutivo no tempo  universo sideral, terra, oceanos, plantas, animais e, finalmente, o homem.

O homem introduz a perturbação no que era serenidade e o Génesis explica porquê, e aqui começa a caracterização da natureza humana. O texto, na tradução possível para a língua portuguesa, é (Gl - 26 - 27):

Deus, a seguir disse: "Façamos o homem à nossa imagem à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Deus criou o homem à sua Imagem, criou-o à Imagem de Deus, Ele os criou homem e mulher.

Não será necessário aprofundar muito a reflexão exegético-teológica e linguística sobre estas páginas do Génesis para afirmar que se Yahweh é uma potência que cria um projecto universal desenvolvido no tempo, o homem, à sua imagem e semelhança será, igualmente, uma potência que cria um projecto pessoal desenvolvido no tempo; projecto este que se pode autonomizar do projecto próprio de Deus; para os hebreus esta autonomização, bem caracterizada, logo a seguir, pela capacidade humana de distinguir o bem do mal, o proibido e o consentido, e de escolher, livremente, o mal proibido, é um defeito da sua origem (mais tarde transformado pela teologia cristã na complexa doutrina do chamado pecado original que aliás aparece, com variantes, em religiões primitivas, ainda actualmente praticadas, e é sempre uma justificação "moral" para os castigos dos deuses aos homens desobedientes ...)

Usando a técnica estilística do paralelismo, tão frequentemente utilizada no ritmo da escrita hebraica, e em tradução livre será:


Deus criou o homem

à Imagem de Si Próprio

À Imagem de Deus

Ele o criou

Macho e fêmea

Ele os criou


Assim ser macho e fêmea, homem e mulher é que é ser à Imagem de Deus.


Não para atribuir a Deus uma estrutura de género sexual o que foi sempre vigorosamente repudiado pelos hebreus (ao contrário das divindades dos povos vizinhos e mesmo dos gregos e dos romanos que sempre eram deuses procriadores à maneira dos humanos); mas para afirmar que o ser humano constrói o seu projecto pessoal gerando outros seres humanos e gerando toda a riqueza da vida humana que não é apenas corporal e geneticamente condicionada.

Deus cria, o homem procria poderíamos dizer, em síntese.

A natureza do homem, no Génesis tem ainda outra característica, para além desta extraordinária capacidade geradora de seres semelhantes a Deus, característica outra que nos ajuda a compreender o sentido profundo deste conceito de imagem e semelhança.

Para marcar a singularidade do homem o texto hebraico usa três palavras: nefesh e ruah cuja tradução foi semânticamente condicionada pela cultura grega; e basar que tem o sentido não ambíguo de corpo ou corporeidade ou ipseidade física de cada homem concreto.



Nefesh é traduzido por alma, a alma de todas as coisas viventes e ruah pelo espírito do homem de carne (basar). Mas ruah não é a psyché dos gregos, é bastante mais.

Ora bem, na tradição judaica não há, no homem, oposição dialética entre corpo e espírito. O espírito, ruah foi soprado diz-se nas traduções descuidadas; mas o nishmat não é soprar é interiorizar e integrar. Os exegetas modernos como G. Ravasi (II libro della Genesi, 1-11. Cittá Nuova  Roma 1990), propõem que nishmat significava, para os hebreus, o que hoje chamamos o poder de introspecção, a capacidade de cada um se conhecer e se julgar, numa palavra, a auto-consciência.

A auto-consciência como nishmat (interiorização) do ruah (espírito), revela-nos a unidade do ser humano como síntese de uma estrutura triádica: corpo (basar), alma (nefesh) e espírito (ruah).

É a auto-consciência, como síntese, que marca, no homem, as duas referidas características: Imagem e semelhança de Yahweh.

Na tradição hebraica esta síntese pode ser criadora ou destruidora, pode aceitar o projecto de Yahweh ou negá-lo, pode ser positiva ou negativa. A primeira, a síntese criadora, é representada pelo triângulo com o vértice para cima, a segunda pelo contrário é representada com o vértice para baixo.

A representação simultânea dos dois triângulos simboliza a convicção hebraica da natureza do homem: livre para escolher ora uma ora outra das opções possíveis, sendo que numa e noutra usa a auto-consciência à imagem e semelhança de Deus.

Para não aumentar o vosso enfado, e talvez a vossa irritação, com esta análise teológico-
-exegética e linguística, embora superficial, do texto hebraico, que fundamenta a concepção judaico-cristã do homem, deste animal aflito, direi que esta concepção vai do mais infinito, que é a potência criadora, ao menos infinito que é a morte corporal. Neste espaço, construído no tempo de cada vida individual, fica a geração da auto-consciência, onde tudo acontece, fica a criação, maravilhosa, de outras vidas humanas, fica a indiscutível revelação, a cada um, de que ele não é um mero acontecimento biológico mas também não é uma figuração angélica; que é anatomia e sabedoria, na ampla e feliz expressão de Emmanuel Lévinas.

Poderá este espaço apresentar-se vazio à consciência externa de mim, como se apresentou à de Bernardo Soares?

Pode. E a Psicanálise bem o tem escrutinado, a este vazio.

Uma auto-consciência vazia será a representação do homem antes de ter ou descobrir a auto-consciência como este campo ordenado, feito de presente, mas, também, de passado e de futuro, cheio com a percepção de episódios complexos e com a percepção de estímulos simples, sensitivos e sensoriais, enriquecido com a carga afectiva que esses episódios e estímulos transportam consigo e enriquecido ainda com o sentido ou valor simbolizador que a inteligência reflexiva humana a cada episódio ou estímulo atribuiu.

O campo da consciência, como auto-consciência, não é a memória das experiências passadas, não é o território onde se situam os estímulos presentes (o que agora vejo, ouço ou sinto) não é a inteligência reflexiva e o seu universo de ideias abstractas que inclui a invenção do futuro.

O campo da auto-consciência é onde tudo isto entra e sai, onde eu me vejo e julgo, a mim, ao mesmo tempo sujeito que conhece e objecto desse conhecimento.

Eu, sujeito que conhece, estou a conhecer-me no presente, mas só posso conhecer-me como passado, longínquo ou recente. Esta dissociação, por vezes muito clara na esquizofrenia, é utilizada pela psicanálise para tentar entrar no campo da auto-consciência, embora com técnicas ainda imperfeitas que não permitem provocar, de forma segura, a re-
-leitura de circuitos da rede neuronal que permanecem anos e anos em repouso; por isso não sabemos até onde vai o longínquo, no nosso passado, para além da vida intra-uterina; por isso não podemos negar ou confirmar a hipótese de a rede neuronal, incompleta e imperfeita, que constitui o padrão básico da estrutura neuronal, que é geneticamente programado, e se constrói com os estímulos bioquímicos gerados apenas no embrião, e que são os sinais para a diferenciação, não se pode negar ou confirmar, dizia, a hipótese de que esta rede neuronal primordial tenha uma linguagem e possa exprimir experiências evocáveis que são memória da espécie e não do indivíduo.

Mas isto é um solilóquio. Vamos continuar a imaginar uma auto-consciência vazia. Será um eu, sujeito, que quer conhecer-se, a si, como objecto e não encontra nada: nada memorizado que possa ser evocado, nada que chegue pelas percepções sensitivas ou sensoriais, nenhum conteúdo afectivo, nenhum conceito intelectual abstracto que entenda o presente e projecte o futuro.

Este vazio pode acontecer mas será um vazio virtual porque é o vazio da capacidade cognitiva da auto-consciência; este homem, vazio, tem uma memória rica mas não a evoca, tem uma inteligência activa mas não lê os seus conteúdos, tem orgãos sensoriais e sensitivos a funcionar mas silencia os seus estímulos no gelo da total indiferença afectiva.

Tal homem não está vazio, ele apenas recusa o nishmat, impede a interiorização do espírito, a circulação, em si, da verdadeira vida humana. Reproduz e representa o único vazio humano real que é a morte corporal; vazio real porque impede, de forma radical, a síntese da estrutura triádica a que me referi há pouco  basar, nefesh e ruah.

Creío, porém, que não é esta catástrofe do eu, este desmonoramento total da arquitectura própria da auto-consciência, a situação de vazio que mais nos interessa.

O que nos interessa é um outro vazio; é o vazio fabricado, construído pela auto-consciência, e que resulta de um jogo complexo entre afectividade, inteligência emocional e inteligência reflexiva.

Nos tempos modernos evoco o vazio proclamado pelos heróis românticos dos amores impossíveis que morriam vazios de amor e noivavam no sepulcro; já neste século lembro o vazio do projecto humano anunciado pelos grandes intelectuais, com relevo para os filósofos mas também presente na literatura e na pintura, sintetizado na frase de Camus – “le sentiment de l'absurdité peut frapper à Ia face n'importe quel homme au detour de n’importe quelle rue” expresso com alguma violência em Nietzsche e com alguma insolência em Sartre  "l’enfer sont les autres” ; este vazío dos intelectuais está particularmente presente, felizmente de forma muito complexa e, por isso, de circulação limitada, na dissecção minuciosa do Ser feita por Heidegger que, levando às últimas consequências a redução eidética husserliana, destroi completamente a unidade do Ser.

Claro que a experiência fenomenológica da unidade do Ser no existir concreto de cada homem salva-o do vazio, salva-o da desconstrução heideggeriana.

O vazio afectivo, como o vazio intelectual, são, portanto, vazios declarados pelo sujeito no interior de uma narrativa individual que é, sempre, discurso da auto-consciência. Este discurso do vazio alimenta-se, principalmente da opacidade do futuro para a auto-
-consciência, a partir de um presente tido como medíocre pela mesma auto-consciência; esta mediocridade tem múltiplas faces como Janus; ora é cósmica  o planeta Terra é um minúsculo grão de areia na imensidade das galáxias e o homem é coisa nenhuma ; ora é bio-ecoiógica  chegamos ao fim dos recursos disponíveis e vem aí o fim total da vida da Terra; ora é sócio-política  o homem é lobo do próprio homem, é escravo de poderes invencíveis, não há nada a fazer senão sofrer e morrer; ora é claramente individual  faça eu o que fizer de nada me servirá nem aos outros, sou uma ilha deserta num oceano de indiferença; etc, etc.

Este vazio declarado, porque declarado é claramente virtual e sai-se dele tornando-o virtuoso, dando-lhe um valor próprio.

Como ?

Atrevo-me agora a dizer que todas as grandes realizações da auto-consciência humana, todas as grandes obras culturais que estruturam o magnífico escrínio em que vivemos que é o da cultura exterior simbólica, resultaram da superação virtuosa de um vazio de cariz individual, sócio-político, bio-ecológico ou cósmico, por parte dos seus criadores.



A pauta simbólica fundamental de toda a obra de arte, de toda a obra cultural, é, antes da forma e da relação forma-conteúdo, esta característica de superação do vazio, de um certo vazio.

Poderia estar horas a dar exemplos.

Darei apenas dois.

Quando a inteligência de alguns gregos, meio século antes da nossa era, se defrontou com o vazio no entendimento do homem e do seu lugar no mundo, iniciou uma reflexão profunda e tão virtuosa que, ainda hoje, é dela que se alimentam todos os filósofos; essa reflexão criou conceitos novos e as palavras que passaram a simbolizá-los e a exprimilos pelo seu conteúdo significante  Caos, Cosmos, Physis, Logos, Ethos, Pathos, Psyché e tantos outros. Esta reflexão grega, incontornável como se diria hoje, abriu o caminho para a reflexão racional dos homens que se continuou até ao momento presente e se continuará no futuro. Excelsamente virtuosa, direi, a forma como foi superado este vazio.

Outro exemplo é o do vazio gerado pela descoberta consciente da morte pessoal.

A morte  muito mais do que o amor que não é vazio, é plenitude  foi, é e continuará a ser a maior fonte de criações culturais e artísticas todas orientadas, expressa ou simbolicamente, para a superação do vazio gerado pela vivência auto-consciente da morte individual. E isto acontece em todas as sociedades humanas, sejam quais forem as linguagens culturais disponíveis  das pirâmides egípcias, à Pietá de Miguel Ângelo ou às desconstruções de Marc Chagal.

Onde quero chegar, porque é tempo de terminar, é que a percepção auto-consciente do vazio seja ele afectivo, emocional, intelectual ou total, pode ser, tem sido o ponto de arranque para um trabalho de superação que pode não encher o vazio individual  Dostoiewslay teve a virtude de criar uma obra genial mas viveu no vazio até ao fim  mas dá, a este vazio, um carácter virtuoso para o próprio e para os outros homens.

Melhor ser vazio, assim, do que estar cheio de si próprio, engordado por uma balofa auto-


-suficiência e pela empáfia orgulhosa de tudo saber e tudo controlar.

Melhor sofrer este vazio do que não levar "angústia para o jantar”, e poder dormir o sono tranquilo dos antropóides sem história.

Melhor viver perigosamente o seu vazio pessoal do que gastar, inutilmente, a vida no conformismo cinzento de todo o mundo para ser, afinal, ninguém.

O vazio pode ser virtuoso e criativo.

A vida cheia, supostamente cheia, pode estar oca e ser inútil.

Para terminar como comecei com uma referência hebraica, chamo em meu auxílio Job, o paradigma do homem esvaziado de tudo mas que soube virtualizar e superar esse vazio  da família, da saúde, dos bens.

Eis como Job preencheu o seu vazio  "Nudus evertit ex utero matris mea et nudo reverterit illuc"  " Saí nú do ventre da minha mãe e nú voltarei para ele. O Senhor mo deu o Senhor mo tirou; Bendito seja o Nome do Senhor”.

A folha já não está branca. Ficou enegrecida com uma escrita miúda, nervosa, pouco ágil. Encheu-se de ideias algo amontoadas, umas de certo, absurdas, outras talvez desafiantes e proporcionadoras de reflexão mais alargada e ambiciosa. Não sei.

Sei que me livrei de um vazio real  a folha branca a irritar-me com a sua brancura inútil  e não de um vazio virtual.

Por isso, tenho agora a certeza, nada criei de virtuoso.


Daniel Serrão







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