Psicodiagnóstico e livro de história: possibilidade de uma experiência integradora na devolutiv a para crianças



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PSICODIAGNÓSTICO E LIVRO DE HISTÓRIA: POSSIBILIDADE DE UMA EXPERIÊNCIA INTEGRADORA NA DEVOLUTIV A PARA CRIANÇAS *

Elisabeth Becker U. P. MACKENZIE

Marizilda Fleury Donatelli UNIP

Mary Dolores Ewerton Santiago UNIP


I. Introdução
O atendimento de crianças na área de psicodiagnóstico no Centro de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista onde trabalhamos como supervisoras de estagiários do curso de Psicologia, tem nos possibilitado uma constante reflexão sobre as questões que permeiam essa prática clínica.
Uma delas é relativa à devolução das informações psicodiagnósticas à criança. Nossa experiência nos mostrava que a devolução com os pais parecia ser mais fácil, talvez por termos em comum a mesma forma de comunicação, mediada pelas palavras. Com as crianças, contudo, encontrávamos dificuldades peculiares para transmitir nossa compreensão acerca de sua problemática e possibilitar-lhes, ao mesmo tempo, o compartilhamento de uma experiência significativa. Como alternativa à tradicional forma de comunicação verbal com utilização da caixa de brinquedos ou de material expressivo resultante dos procedimentos de avaliação, surgiu a idéia de construir uma narrativa sobre os aspectos mais relevantes observados no processo psicodiagnóstico, apresentando-a à criança sob a forma de um livro de história infantil.
Diversos autores com distintos enfoques teóricos reconhecem as narrativas como vitais para a evolução da humanidade e para a formação da identidade do ser humano, na medida em que espelham conteúdos intrínsecos ao próprio ser.
As narrativas na forma de mitos, fábulas e contos de fada têm sua origem em épocas muito remotas. Provavelmente, são estas as primeiras formas de literatura da qual se tem notícia. Existem diferenças e semelhanças entre as três formas de narrativa. Os mitos e as fábulas são derivados dos contos, sendo estes considerados como a forma mais primitiva de contar histórias.
Segundo Souza (2003), o mito e a fábula são narrativas que têm, freqüentemente, uma origem anônima e popular, mas divergem quanto a seus propósitos.O que diferencia o mito da fábula é seu caráter coletivo e sua origem, fundamentada em questões espirituais e acontecimentos históricos. Estas experiências foram dramatizadas, romanceadas, fantasiadas pela imaginação humana, que também buscou dar sentido aos fenômenos inusitados, de natureza espiritual ou sobrenatural, que carecem de explicação. Desse modo, os mitos não obedecem ao princípio da razão, transmitindo um conhecimento, uma realidade não-racional. Nas palavras do autor citado:
“... de acordo com o conceito mais generalizado, o mito é um tipo de narrativa alegórica e/ou simbólica, de origens remotas e caráter coletivo, que pretende transmitir uma realidade não racional, mas sempre tida como verdadeira. Em nível de narrativa, o mito possui uma estrutura própria, com princípio, meio e fim, constituindo-se em uma forma de transmissão de alguma experiência vital, diluída no tempo e geralmente ligada ao sobrenatural. Com o passar dos séculos, muitos desses relatos míticos perderam seu primitivo caráter sagrado, devido ao desaparecimento da noção de que todo mito nasce (num determinado momento histórico-cultural) ligado às crenças de uma comunidade, pressupondo portanto um ato de fé". ( p.xxx )
A importância dos mitos enquanto narrativa foi focalizada por Eliade (1986) como uma forma de transmissão oral de conhecimentos relativos a uma cosmogonia, possibilitando, desse modo, ao homem conhecer sua origem e a origem do mundo, inserindo-se neste. "O mito designa... uma 'história verdadeira' e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo" ( p 7). As fábulas, diferentemente dos mitos, são histórias construídas por um determinado autor e seu objetivo é transmitir uma idéia moral, um valor. Relatam situações do cotidiano, a maneira das pessoas se comportarem no dia a dia. Para Souza( 2003):

"... a fábula costuma ser conceituada como uma breve narrativa alegórica, de caráter individual, moralizante e didático, independente de qualquer ligação com o sobrenatural. Nela, os personagens apresentam situações do dia-dia, de onde podem ser extraídos paradigmas de comportamento social, com base no bom-senso popular. Seres irracionais e, às vezes, até mesmo coisas e objetos, contracenam entre si, ou com as pessoas, ou com deuses mitológicos. Tais cenas simbolizam situações, comportamentos, interesses, paixões e sentimentos, humanos ou não, que nem sempre podem ser focalizados explicitamente " (p. xxx e xxxi).


Os contos de fada, por sua vez, também são criações bastante antigas. Transmitem conhecimento sobre questões humanas universais, colocando em foco as questões-limite da existência como nascimento, vida e morte. Para Bettelheim (1980) os contos de fada trazem à luz comportamentos latentes e manifestos, oferecem mensagem de desenvolvimento e encorajamento, falando à criança muito mais que qualquer outro tipo de literatura. O caráter mágico dos contos de fada tem proximidade com o universo psíquico da criança, atingindo- o em suas diferentes nuances, possibilitando que esta entre em contato com suas lutas internas e problemas existenciais, bem como com outras batalhas que a aguardam no decorrer de sua vida. Nos contos de fada o mal e o bem existem, mas estão separados e há um caráter moral em cada história. Assim, nas palavras desse autor:
"As figuras dos contos de fadas não são ambivalentes -não são boas e más ao mesmo tempo, como somos todos na realidade. Mas dado que a polarização domina a mente da criança, também domina os contos de fada ". ( p.17). Essas narrativas são úteis aos psicólogos tanto na compreensão do psiquismo, quanto no atendimento a clientes. Freud recorreu ao mito de Édipo e de Narciso para explicar certos fenômenos psicológicos relativos ao desenvolvimento humano. Outros autores descrevem os beneficios dos contos quando são utilizados como técnica nos processos psicoterapêuticos, de modo geral ( Oaklander, 1980; Gardner, 1993; Coelho,2003 e Gutfreind, 2003).
O livro de história elaborado com a finalidade de devolução diagnóstica à criança, tal como temos feito em nossa prática clínica, aproxima-se dos contos de fada em alguns aspectos e difere em outros.
Quanto às semelhanças, os contos de fada e o livro de história como devolutiva têm por objetivo a transmissão de algum conhecimento. No último caso é o conhecimento de si, da sua história, de seus conflitos; no primeiro, é o conhecimento de alguma situação peculiar ao existir humano. Os contos de fada atingem diferentes camadas da psique e o livro de história também, na medida em que contempla a trajetória de vida e os conflitos da criança através de metáforas, analogias e imagens visuais que favorecem uma apreensão adequada às suas possibilidades de consciência.
Em ambos, a verdade é apresentada, não é omitida. Nos contos de fada. não raramente há a morte ou enfraquecimento de alguma figura parental e, de algum modo, a criança é colocada em contato com essas questões-limite da existência. Muitas crianças trazidas para um psicodiagnóstico têm histórias de vida trágica e esta fará parte do livro, embora de forma metafórica.
Com relação às diferenças, os contos de fada têm um caráter moral, o que não ocorre com o livro de história. Além disso, os contos de fada promovem a interiorização de certos valores e este também não é o propósito do livro de história. Ao contrário, seus objetivos contemplam as possibilidades criativas da criança, cabendo sempre a ela os julgamentos e, principalmente, as possíveis soluções para os conflitos centrais.
II- Fundamentos da devolução psicodiagnóstica
Há três décadas, surgiram em nosso meio os primeiros trabalhos sistematizados acerca dos fundamentos teóricos e da técnica de devolução de informação psicodiagnóstica ao paciente. Tais trabalhos foram desenvolvidos na Argentina por acampo e Arzeno (1974). De acordo com elas, a devolução é realizada em uma ou duas entrevistas no final do processo psicodiagnóstico e é necessária para que o paciente possa integrar aspectos de sua identidade que estão dissociados. A devolutiva funciona, portanto, como mecanismo de reintrojeção, sobretudo da identidade latente do paciente, contribuindo para diminuir fantasias de doença, incurabilidade e loucura, possibilitando-lhe perceber-se com mais critérios de realidade, com menos distorções idealizadoras ou depreciativas. Isso é possível na medida em que o paciente pode resgatar aspectos próprios que ele depositou no psicólogo durante o processo, tanto aqueles desvalorizados e temidos, como outros, enriquecedores e adaptativos.
Para essas autoras, o objetivo essencial da devolutiva deve ser, portanto, auxiliar o paciente a realizar uma integração psíquica daqueles aspectos de sua personalidade que estão dissociados, contribuindo, desse modo, para a preservação de sua identidade. Se isto é conseguido, a devolução terá para ele um caráter terapêutico. V ale lembrar a complexidade dessa tarefa, considerando-se as peculiaridades do desenvolvimento da criança.
Também para Verthelyi (1989) o conceito de devolução está baseado na idéia de projeção e posterior reintrojeção de aspectos que o paciente revelou durante o processo psicodiagnóstico Esta autora, entretanto, junto a Friedenthal (1976), sinaliza que um único momento devolutivo, ao ténnino do processo, talvez não seja o modo mais adequado disso ser obtido. Considerando a importância desse tipo de trabalho ambas propuseram realizar devoluções parciais durante todo o processo psicodiagnóstico, o que permitiria explorar melhor as hipóteses levantadas e aumentar os seus possíveis efeitos terapêuticos. Argumentam ser mais apropriado, nessas devoluções, incluir aspectos acessíveis e aceitáveis ao ego do paciente do que fazer interpretações.. Assim, se as devoluções parciais são feitas ao longo do processo, pode ocorrer que, ao final deste, não seja necessário comunicar algo novo e que a entrevista de encerramento se destine mais a resumir tudo aquilo que foi visto e a despedir-se do paciente.
III. A técnica de devolução e suas possibilidades
Quanto à questão de como realizar a devolução, acampo e Arzeno (1974) consideram "recomendável utilizar o material de testes, no qual geralmente aparece condensado ou expressado plasticamente o que podemos dizer" (p.402), começando sempre pelos aspectos mais adaptativos para depois abordar aqueles que são menos adaptativos, fazendo uso de uma linguagem simples, apropriada a criança, para que ela possa compreender nossa comunicação.
Opinião semelhante tem Verthelyi (1989), para quem as técnicas projetivas, especialmente os testes gráficos e os relatos, podem ser o material mais adequado para mostrar ao paciente aspectos de si mesmo observáveis em sua própria produção. Uma análise cuidadosa da totalidade do material permitirá privilegiar aqueles aspectos revelados cuja temática seja mais facilmente reconhecível pelo sujeito e cujos conteúdos estejam mais próximos de sua consciência, a fim de facilitar a sua assimilação.
Como supervisoras de psicodiagnóstico e psicólogas clínicas, trabalhando em uma concepção interventiva, também temos utilizado devoluções parciais durante todo o processo, bem como focalizado a questão de que esse processo pode e deve ter um caráter terapêutico. Em um trabalho anterior, Santiago (2001) comenta que a utilização de material de técnicas projetivas, como o CAT -A enquanto mediadores na devolução à criança mostrou-se limitada quanto às possibilidades de contribuir efetivamente para que ela pudesse integrar alguns aspectos de seu próprio funcionamento psíquico, assim como de obter uma compreensão daquelas situações ( familiares, escolares ou sociais) que estavam relacionadas à manifestação de seus sintomas. Freqüentemente eram observadas reações de desinteresse, ou atitudes passivas, de aparente aceitação de tudo que lhe era dito, até expressões diretas de intolerância à devolução que lhe estava sendo dada, como por exemplo, fazendo ruídos, falando de outros temas ou mesmo tentando impedir o psicólogo de prosseguir na sua comunicação.
Estas dificuldades vivenciadas nos levaram a pesquisar a possibilidade de utilizar novos procedimentos que se mostrassem mais eficazes no sentido de alcançarmos nossos objetivos no encerramento do psicodiagnóstico da criança. Tais objetivos seriam: apropriar-se da própria historia, bem como de seus conflitos, defesas, desejos e modo de se relacionar com o ambiente de modo geral, o que inclui retomar a relação estabelecida com o psicólogo, podendo despedir-se dele e da situação de uma forma mais autônoma e integrada do que quando se iniciou o processo.
Na literatura pesquisada encontramos referências ao uso de histórias como forma de interpretação na psicoterapia de crianças.
IV. O uso de histórias na psicoterapia de crianças
Um trabalho pioneiro sobre o uso de histórias em psicoterapia para comunicar à criança o significado psicodinâmico de seus sintomas foi realizado por Gardner (1993). Considerando que contar histórias é um dos modos favoritos da criança se comunicar e que as crianças gostam tanto de contá-las como de escutá-las, Gardner criou a "técnica de relato mútuo de histórias", propondo-a para crianças de 5 a 11 anos. Nesta técnica, o psicoterapeuta estimula a criança a criar uma historia, apreende seu tema psicodinâmico tomando-o como uma projeção e então formula e narra uma outra historia para a criança com as mesmas características presentes na dela, mas introduzindo soluções de conflitos mais saudáveis do que aquelas originalmente propostas pela criança.
Para este autor, o psicoterapeuta tem mais chance de ser escutado quando fala a linguagem própria da criança -a linguagem da alegoria. Com esta técnica, as interpretações são recebidas pelo inconsciente da criança, não havendo confrontações diretas que suscitem ansiedade.
O uso de histórias na psicoterapia de crianças também é relatado por Oaklander (1980). Baseando-se nas concepções da Gestalt e tendo como objetivo ajudar a criança a tomar consciência de si mesma e de sua existência no mundo, a autora faz um amplo uso de histórias: contar, ler, escrever, estimular a criação de histórias através de figuras, bonecos e, ainda registrá-Ias no gravador e aparelho de vídeo para serem posteriormente vistos pela criança. Os objetivos da utilização desta técnica se assemelham, em alguns aspectos dos de Gardner.
No Brasil, Safra (1984) pesquisou um método de consulta que se utiliza das histórias infantis como meio de intervenção. De orientação teórica winnicottiana, esse autor considera a narrativa de uma história como uma forma lúdica de expressão compatível com a vida mental da criança e que, em seus termos, "por favorecer o aparecimento do espaço

transicional, é elemento importante para que a criança introjete a intervenção sem se sentir invadida" (p. 10). Nesta proposta, o terapeuta obtém um conhecimento da criança através de um contato com ela ( hora de jogo) e de uma entrevista com os pais. Depois, junto a estes, constrói uma história que revela uma compreensão dos problemas da criança, que deve ser lida para ela, pelos pais, durante certo tempo. Os resultados a que o autor chegou em sua pesquisa mostraram a diminuição ou desaparecimento do sintoma.
Também no Brasil foi publicado um interessante e extenso trabalho em que, aliando pesquisa à atividade clínica de analista de crianças, Gutfreind (2003) propõe a utilização de contos no processo psicoterapêutico. Para esse autor, contar o conto é o aspecto essencial, sendo isso mais relevante que a necessidade de investigação das teorias subjacentes pois, para ele II oferecer histórias a uma criança é promover um programa eficiente de saúde mental" (p. 12). Gutfreind assume como sendo extremamente relevantes as múltiplas alternativas de leituras e atribuição de significados à história, na medida em que isso remete a criança a wn mundo de infInitas possibilidades de contar, ouvir e imaginar.
" Contar e ouvir. E contando e ouvindo entrar em interação com o outro e, a partir desses conteúdos e dessa troca, construir-se como ser humano capaz de ter uma identidade (feito uma personagem), de sentir, pensar, imaginar. " (Gutfreind, 2003, p. 146).
V. A utilização do livro de história como procedimento devolutivo no psicodiagnóstico de crianças
As referências à utilização de narrativa de história como encerramento do processo psicodiagnóstico de crianças aparecem em nosso meio inicialmente como trabalho (pôster) apresentado em um encontro de supervisores de clínicas-escola ( Becker, 1999). Seguiram-se várias outras apresentações de trabalhos e publicações sobre esta proposta realizadas por esse grupo de supervisores (Becker 2001,2002; Becker et al.,2002; Donatelli, 2001; Santiago, 2001; Santiago et al.,2001 a, b; Santiago et al.,2003). Mas foi Constance Fischer , psicóloga norte-8nlericana, a pessoa a nos inspirar e incentivar para isso, em palestra proferida no ano de 1998 para supervisores de psicodiagnóstico na cidade de São Paulo. Nesta ocasião, relatou-nos suas experiências com a criação de poemas, músicas e cartas como possibilidades de informações psicodiagnósticas transmitidas a crianças e adolescentes. Em suas publicações anteriores Fischer (1970, 1989, 1994) expôs sua proposta de um psicodiagnóstico centrado na vida, o que confere particular importância a como são transmitidas pelo psicólogo as compreensões advindas de um psicodiagnóstico . Para essa autora, partindo de um enfoque existencial, o cliente é um participante informado desde o início de seu papel de ativo envolvimento, sendo assim um co-assessor com quem o psicólogo desenvolve um trabalho interventivo contextualizado e compartilhado. Dessa forma, embora ainda sejam presentes nas devolutivas com as crianças as alternativas mais tradicionais de empregar os brinquedos, bem como os estímulos à atividade expressiva gráfica e verbal das técnicas projetivas , assumimos, como essa autora, a importância de oferecer à criança outras alternativas, das quais o livro de história tem sido o melhor expoente.
Consideramos que o livro de historia é o resultado da compreensão de todo o trabalho realizado no psidiagnostico. Ele contém aspectos significativos do desenvolvimento da criança e de suas relações com o meio em que vive, assim como uma compreensão de seus sintomas. Supomos que, desse modo, é possível dar a ela um entendimento melhor de seu problema, contextualizando-o em sua história familiar e pessoal, incluindo também seus recursos para lidar com as dificuldades apresentadas.
Em nossa experiência, a criação de uma história devolutiva exclusiva para a criança permite-lhe uma vivência psicológica também única. Utilizando-se de recursos analógicos propiciados pelas identificações com personagens, a criança parece obter uma percepção do seu sintoma, bem como, a expressão dos sentimentos com ele envolvidos.
Pudemos observar diferentes reações das crianças durante e após a apresentação do livro de história: reconhecimento de que a história dizia respeito a ela, interesse e atenção durante a leitura (até nas crianças muito agitadas), disponibilidade para interagir na situação, querer compartilhar a história com a professora, com colegas, com avós, pedir aos pais insistentemente a releitura da narrativa ou, ao contrário, guardá-lo, "esquecê-lo" até um momento de retomada.
Consideramos que a elaboração do livro de histórias como devolutiva supõe alguns elementos norteadores:

  • O livro de histórias é uma metáfora que expressa a compreensão do psicodiagnóstico. É uma síntese que contempla a história vital da criança e suas vivências durante o psicodiagnóstico, suas dificuldades e recursos internos, em uma linguagem acessível à sua compreensão.

  • A história e os personagens devem ser escolhidos em função das afinidades e analogias com os conteúdos evidenciados no psicodiagnóstico. Por exemplo, pulgas e macaquinhos como personagens para crianças com condutas hiperativas, pássaros e peixes como personagens para famílias migrantes. Deve-se dar especial atenção ao emprego de personagens que têm, culturalmente, sentidos conotativos. No Brasil, veados, burros, urubus e gatos pretos podem ligar-se a sentidos pejorativos.

  • Quanto ao conteúdo formal é fundamental que o livro de história traduza

    • a história de vida (familiar e da criança)

    • o sintoma

    • a busca de atendimento e a relação com o psicólogo

    • a explicitação dos sentimentos do personagem de identificação

    • a integração dos diferentes aspectos observados através da hora de jogo, testes, visitas, etc.




  • O final da história ainda é um tema controverso, entretanto é muito importante que a criança tenha a chance de expressar sua própria solução final quanto ao encaminhamento dado.

Supomos também que o trabalho de elaboração psíquica pode prosseguir após o encerramento do psicodiagnóstico, visto que o livro é entregue a ela no [mal do processo e o texto e as gravuras podem servir de estímulos para que, gradativamente, se aproprie mais das analogias. Dessa compreensão e apropriação resulta um "encontro" da criança com o trabalho do psicólogo de forma mais intensa do que já vinha ocorrendo durante o processo.


Desta forma, este procedimento tem se mostrado satisfatório em termos das reações das crianças e comentários dos pais ou responsáveis no encerramento do processo psicodiagnóstico ou início da psicoterapia, parecendo favorecer e fortalecer o estabelecimento de uma área de intersecção entre estes e o psicólogo, necessária à continuidade do trabalho.
Sendo assim, a devolutiva dada através do livro de história tem se mostrado mais do que a etapa [mal de um processo de psicodiagnóstico. Ela remete, entre outras, às possibilidades de pesquisa quanto ao seu caráter terapêutico, às especificidades das histórias em função do momento evolutivo da criança e às ressonâncias na família. ( Mas isso já seria uma outra história...)
VI. Referências Bibliográficas
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Elisabeth Becker E-mail: bethbe@terra.com.br

Marizilda Fleury Donatelli E-mail: fdonatelli@uol.com.br

Mary D.E. Santiago E-mail: cacarizzo@ig.com.br

* Artigo originalmente publicado em: MACHADO, CARLA; ALMEIDA, LEANDRO S. ; GONÇALVES, MIGUEL ; RAMALHO, VERA. (Orgs.). Avaliação Psicológica.. Formas e Contextos. Braga, Portugal: Psiquilíbrio Edições, 2004, v. X, p. 261-266.







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