Psicologia Comunitária e Psicologia Histórico-Cultural: Análise e Vivência da Atividade Comunitária pelo Método Dialógico-Vivencial Community Psychology and Cultural-Historical Psychology



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Psicologia Comunitária e Psicologia Histórico-Cultural: Análise e Vivência da Atividade Comunitária pelo Método Dialógico-Vivencial
Community Psychology and Cultural-Historical Psychology: Analysis and Experience of Community Activities by the Dialogical and Experiential Method

Francisco Gilmário Rebouças Júnior1


Verônica Morais Ximenes2
Resumo
Este artigo, fundamentado em trabalhos de Góis, tem o objetivo de evidenciar as contribuições da Psicologia histórico-cultural para o arcabouço teórico-metodológico da Psicologia Comunitária, argumentando que o método microgenético de Vigotski oferece à Psicologia Comunitária uma teoria de leitura da realidade e de transformação social. Essa teoria sugere a postura dialógico-vivencial de Góis que utiliza o diálogo e a vivência como base para facilitar à comunidade transformações de sua vida. As metodologias participativas da Psicologia Comunitária promovem a compreensão da atividade comunitária. Elas se valem de: círculo de cultura, grupo comunitário de produção, caminhada comunitária e mutirão. A interação envolvendo morador e psicólogo possibilita a ambos compreender e assumir a vida da comunidade tendo em vista transformar o indivíduo, o coletivo e a realidade social.
Palavras-chave: Psicologia Comunitária; Psicologia histórico-cultural; diálogo; vivência; atividade comunitária.
Abstract
This article, based on Góis’s works, aims at highlighting the contributions from cultural-historical psychology to the theoretical and methodological framework of Community Psychology, claiming that Vigotski’s microgenetic method offers community psychology a theory for reality reading and social change. This theory suggests Góis’s dialogical and experiential posture that utilizes dialogue and experience as the basis for making community’s life changes easier. Community Psychology’s participatory methodologies promote the understanding of community activities. They make use of: culture circle, community group of production, collective walking, and community effort. The interaction involving dwellers and psychologists makes it possible for both to understand and assume the community life aiming at transforming the individual, the collective, and social reality.
Keywords: Community psychology; cultural-historical psychology; dialogue; experience; community activities.


Introdução
A Psicologia Comunitária que vem sendo desenvolvida por Góis (1994, 2002, 2005a, 2005b, 2008) valeu-se, para a formação inicial do seu arcabouço teórico, da teoria rogeriana (Rogers, 1978), da biodança (Toro, 2005) e da educação libertadora (Freire, 1983). Com o desenvolvimento da prática e com as reflexões teóricas, cresceu a necessidade de não apenas aprimorar a definição de seu objeto de estudo e sua forma de compreendê-lo, como também incorporar outras teorias como a psicologia histórico-cultural (Vigotski, 1991, 2001, 2002, 2004; Luria, 2001; Leontiev, 1978; Leontiev; Vigotski & Luria, 1991) e a psicologia da libertação (Martín-Baró, 1998).

Neste artigo, fruto de uma monografia de conclusão de curso de graduação em Psicologia, busca-se evidenciar as contribuições da psicologia histórico-cultural para o arcabouço teórico-metodológico da Psicologia Comunitária, considerada como


uma área da Psicologia Social da Libertação, voltada para a compreensão da atividade comunitária como atividade social significativa (consciente), própria do modo de vida (objetivo e subjetivo) da comunidade e que abarca seu sistema de significados e relações, modo de apropriação do espaço da comunidade, a identidade pessoal e coletiva, a consciência, o sentido de comunidade e os valores e sentimentos ai implicados. Tem por objetivo a construção do sujeito da comunidade, mediante o aprofundamento da consciência (reflexivo-afetiva) dos moradores com relação ao seu modo de vida e ao modo de vida da comunidade, através de um esforço interdisciplinar que perpassa a organização e o desenvolvimento dos grupos e da comunidade. (Góis, 2005a, p. 51)
A teoria histórico-cultural com base nas formulações marxistas e no interacionismo dialético proporciona à Psicologia Comunitária uma visão mais concreta do psiquismo humano (Ribeiro & Rocha, 2002), da forma como ele se estrutura, além de permitir uma maneira de compreendê-lo. Segundo Ximenes & Barros (2009), Vigotski sempre criticou os métodos naturalistas e mentalistas que não davam conta da complexidade dos processos humanos. Como a Psicologia Comunitária trabalha com a categoria atividade comunitária, o método microgenético de Vigotski (2002) oferece à disciplina um arcabouço teórico-metodológico de leitura e transformação da realidade, por meio da análise da atividade humana.

Neste trabalho, inicialmente serão abordados os aspectos metodológicos da Psicologia histórico-cultural, apontando a concepção de psiquismo humano nela presente. Em seguida, apresenta-se o método dialógico-vivencial – MDV (Góis, 2005b) da Psicologia Comunitária e as contribuições do método microgenético (Vigotski, 2002) para o arcabouço teórico-metodológico da disciplina. Por fim, detalham-se os instrumentos que o MDV coloca em prática.


Aspectos Metodológicos da Psicologia Histórico-Cultural
Para a Vigotski (2001), o desenvolvimento do ser humano acontece em duas linhas, uma biológica e outra cultural. A primeira atua desde o nascimento do ser humano e a segunda se dá a partir do desenvolvimento do indivíduo. Além dessas linhas, há os níveis desse processo: “filogenético (desenvolvimento da espécie humana), sociogenético (história dos grupos sociais), ontogenético (desenvolvimento do indivíduo) e microgenético (desenvolvimento dos aspectos específicos do repertório psicológico dos sujeitos), os quais interagem na construção dos processos psicológicos” (Oliveira, 1998, p. 55).

Todo animal possui a base biológica que orienta o seu estar no mundo dentro do processo de desenvolvimento. Essa base é herdada da espécie ao longo da evolução. A aprendizagem que ocorre ao longo da vida a partir de experiências vivenciadas no mundo, de seu lado, é inerente a cada animal, não sendo transmitida a outros filogeneticamente (Leontiev, 1978).

No caso do homem, além da base biológica herdada no seu processo de hominização, ocorre o desenvolvimento cultural fundamentado em construções elaboradas de uma vida social que antecede o surgimento de cada indivíduo particular. Trata-se de um processo histórico que
é extremamente rápido, acelera-se muitas vezes e, por conseguinte, as “aptidões” que as próprias condições da vida social exigem do homem mudam rapidamente e de uma maneira absolutamente independente em relação à marcha muito mais lenta das fixações biológicas da experiência. (Leontiev, Vigotski & Luria, 1991, p. 63)
Assim, o processo de aprendizagem do homem por meio da interação com o meio externo ocorre de forma elaborada, a partir de um diferencial que é a experiência histórico-cultural. Esse tipo de experiência traz consigo outras formas de transmissão de ideias, conceitos construídos pela humanidade antes do indivíduo nascer, ou seja, o homem assim, como o animal, possui um desenvolvimento através do que é vivido, mas, no caso humano, a experiência é compartilhada culturalmente.

A leitura da realidade sob a luz da Psicologia histórico-cultural tem como base o interacionismo dialético e as concepções marxistas (Andery, 2001). Compreendendo o psiquismo humano como sendo forjado em uma interação homem-mundo, Vigotski (1991) propõe um novo método de investigação que possibilita uma visão integral do comportamento humano. A partir de sua base biológica, o homem constrói-se culturalmente, através da interação com outros indivíduos. Ao longo desse processo histórico, ele passa por diversas transformações, bem como transforma a realidade (Vigotski, 2002; Leontiev, 1978; Luria, 2001; Góis, 2005).

O materialismo histórico-dialético toma como pressuposto básico a transformação da natureza, da história e do espírito como um processo contínuo de interação e mudança que ocorre mesmo sob uma aparência estática (Teixeira, 2005). O pressuposto materialista opera a partir de categorias que possibilitam a percepção da realidade como as relações de reciprocidade entre a forma e o conteúdo, essência e fenômeno, causa e efeito, concreto e abstrato, dentre outras. Essas categorias existem independentes da consciência, mas caracterizam-se por ser o resultado de uma organização produzida pela própria matéria, nesse caso, o cérebro. Ou seja, as coisas concretas existem no mundo independente da consciência humana e ajudam a constituir a realidade psíquica, ao mesmo tempo em que são nomeadas por essa realidade.

A relação entre a matéria e o pensamento é estreita de tal forma que a lógica é a forma pela qual o pensamento desvela a realidade. Assim, o processo histórico é tomado como um ponto fundamental na percepção do desenvolvimento da matéria (Teixeira, 2005). Dessa forma, o homem tem a capacidade de nomear, construindo uma rede de significados a partir do que percebe no meio onde vive, criando uma realidade abstrata sobre essa realidade material.

Segundo Andery (2001), um método com base no materialismo histórico-dialético tem:
a necessidade de partir do real para se produzir conhecimento, de se buscar a lei de transformação do fenômeno, de se buscar as relações e conexões desse fenômeno com a totalidade que o torna concreto, reconhecendo o momento de análise como momento de abstração, o que torna a reinserção do fenômeno na realidade passo imprescindível do método; e, finalmente, afirmando a necessidade de se reconhecer sujeito produtor de conhecimento, a atividade presente em cada momento do método, que torna o conhecimento, a um só tempo, representativo do real e produto humano, marcado pela atividade do homem. (p. 416) 
O homem no processo de conceituação da realidade material produz um conjunto de representações que são peças fundamentais na compreensão de como ele se relaciona com o mundo, como o percebe através da forma e como conceitua abstratamente a realidade. As relações de contradição entre fenômenos implicam um movimento que gera um novo fenômeno. No entanto, essa não é a solução para as relações contraditórias e sim um elemento novo da realidade, contendo novas contradições. Assim, o aparente desacordo entre fenômenos funciona como força motriz para  desenvolvimento da humanidade.

A partir das influências do materialismo histórico e dialético, Lane (1988) afirma que: 


É dentro do materialismo histórico e da lógica dialética que vamos encontrar os pressupostos epistemológicos para a construção do conhecimento que atenda a realidade social e ao cotidiano de cada indivíduo e que permita uma intervenção efetiva na rede de relações sociais que define cada indivíduo – objeto da psicologia social. (p. 15-16) 
Essa concepção tem importância epistemológica e metodológica na definição do objeto da psicologia social e da Psicologia Comunitária. Segundo Vigotski (1991), o método "es al mismo tiempo premisa y producto, herramienta y resultado de la investigación" (p. 47). Assim, o método proposto por Vigotski (2002), intitulado de microgenético ou genético-experimental, possibilita ao psicólogo compreender a constituição do comportamento humano, olhando as dinâmicas e processos presentes nele.

Vigotski (2002) propõe três princípios norteadores para a construção de um novo método em Psicologia: a análise do processo e não de objetos, a explicação do processo em vez da descrição e o estudo da dinâmica do comportamento ao invés do comportamento fossilizado.

Com base nesses três princípios, ele defende olhar o comportamento humano como movimento constante, sem cristalizar as formas de manifestação da atividade humana para estudá-la. O objeto da Psicologia deve ser estudado a partir de sua gênese e de suas bases dinâmico-causais. A evolução do comportamento humano ocorre de forma histórica e estudar o comportamento de forma "fossilizada" (Vigotski, 2002) seria perder toda a forma como ocorrem as transformações e como se dá a relação do homem e do mundo nesse processo, o "que seria requisito básico do método dialético” (Vigotski, 2002, p. 86).

Barros (2007) oferece uma definição do método quando diz que "o termo ‘micro’ refere-se à ênfase em detalhes das relações intersubjetivas; enquanto que a denominação ‘genética’ não se refere à hereditariedade, mas sim, à gênese, à historicidade e ao movimento de um determinado aspecto da subjetividade" (p. 29). Por sua vez, Góes (2000) afirma que a análise microgenética é “orientada para os detalhes das ações; para as interações e cenários socioculturais; para o estabelecimento de relações entre microeventos e condições macrossociais" (p. 11). Observa-se, assim, que a análise das relações intersubjetivas, nesse método, traz uma análise sociogenética que busca a relação dos eventos singulares do contexto cultural com as práticas e discursos do meio social.

Esse interacionismo ocorre de forma mediada3, inicialmente por meio de instrumentos externos, concretos e presentes no meio e, em seguida, ocorre à medida que o sujeito se desenvolve, por meio dos instrumentos psicológicos e dos signos que possibilitam um avanço da espécie humana em relação aos outros animais. Esses instrumentos psicológicos surgem através do processo de internalização caracterizado por Vigotski (2002, p. 74) como “a reconstrução interna de uma operação externa”.

Com o processo de internalização surgem as funções psicológicas superiores4 (Vigotski, 2002), através das quais o homem adquire capacidades como memória, pensamento, linguagem. Essas funções se desenvolvem “a partir da relação da pessoa com as demais, com os objetos e com o legado simbólico do seu contexto histórico-cultural” (Barros, 2007, p. 27), sem que as funções elementares desapareçam.

A consciência do homem não se constitui apenas em sua dimensão individual, mas também por uma consciência social (Leontiev, 1978) em que são compartilhadas as construções culturais do meio social. O olhar sobre a construção dos signos, sentimentos, significados, sentidos presentes no âmbito da consciência de cada indivíduo se faz possível por meio da análise semiótica (Góis, 2005), ou seja, análise da forma como esses instrumentos são internalizados, formando um campo de significações construídas a partir dos fenômenos culturais que refletem a forma como o sujeito lida com a realidade.

A linguagem permite analisar as representações compartilhadas pelo sujeito. Para Luria (1990, citado por Góis, 2008), "linguagem inclui o significado, o sentido e as unidades fundamentais da consciência que refletem o mundo exterior" (p. 163). Assim, a análise do discurso (Góis, 2005), como instrumental metodológico, permite perceber a riqueza que há na fala do sujeito, não só nas palavras, mas também em todo um conjunto de expressões, como a repetição, a entonação, estilo, "configurações em um modo particular de comunicação, expressão, interação e significação pessoal (sentido) acerca de si mesmo e do mundo" (p. 114).

Apesar de a linguagem ser peça fundamental no processo de compreensão da consciência humana, ela é apenas uma das dimensões de análise, pois a ação mediada como um todo traz uma percepção mais complexa das formas de interação do sujeito. Tomando os pressupostos da atividade humana5, percebe-se que o homem não se faz no mundo apenas pelo discurso, mas também por sua dimensão instrumental e prática sobre a matéria. Daí por que a necessidade de ir além da linguagem sem, é claro, negar a importância dela nesse processo.

Segundo Wertsch (1998), nos estudos socioculturais, costuma-se estabelecer uma relação de antinomia entre indivíduo e sociedade. A ação seria a unidade de análise que uniria esses dois pontos, pois através dela os elementos dessa antinomia poderiam "ser vistos como momentos dialeticamente interativos" (p. 68). Esse autor realiza um resgate histórico, observando transformações nas ações dos sujeitos a partir de alterações ocorridas na realidade, como o surgimento de novas tecnologias influenciado atividades esportivas, ou acontecimentos políticos interferindo na forma dos jornalistas transmitirem as informações.

Para Vigotski (2002, p. 83), se os comportamentos humanos fossem determinados apenas pelo meio, "a experiência do dia-a-dia seria plenamente suficiente para substituir a análise científica”. Dessa forma, ele defende que, para compreender a estruturação psicológica do pensamento humano, "são necessários meios especiais de análise científica para por a nu as diferenças internas escondidas pelas similaridades externas", um tipo de análise que "procura mostrar a essência dos fenômenos psicológicos ao invés de suas características perceptíveis" (Vigotski, 2002, p. 83).

A consciência possui uma realidade construída historicamente, que apresenta a forma como o ser humano interage com o meio externo. A partir da leitura do reflexo psíquico da realidade (Leontiev, 1978), o psicólogo obtém a compreensão de como trabalhar com o sujeito6.

Pautado em uma base materialista, o método microgenético concebe o interacionismo dialético entre homem e mundo como a possibilidade de transformação de ambos, criando condições de vida que influenciam o desenvolvimento humano (Figueiredo, 2008). Inspirada em noções marxistas, a construção do método histórico-cultural não se propõe apenas a fazer uma leitura crítica da realidade, mas sim adotar uma atitude transformadora dessa realidade, permitindo intervir e modificar (Brandão, 1999).

O processo de aprendizagem e desenvolvimento é crucial para essas transformações. Rego (1994, p. 71), com base nas ideias de Vigotski, afirma que "o aprendizado é [...] um aspecto necessário e fundamental no processo de desenvolvimento das funções psicológicas superiores".

Vigotski (2001) compreende dentro da estrutura das funções psicológicas superiores, níveis de desenvolvimento que repercutem nas formas de interação do sujeito. Caracteriza como Nível de Desenvolvimento Real (Vigotski, 2001; Rego; 1994) as funções que o ser humano pode realizar sozinho, resultantes de processo de aprendizagem e desenvolvimento completados e internalizados. Outro é o Nível de Desenvolvimento Potencial (Vigotski, 2001; Rego; 1994), em que estão presentes as funções que o sujeito realiza por meio de ação mediada por outras pessoas ou instrumentos, compartilhando experiências vividas, solucionando problemas através do diálogo e da colaboração (Rego, 1994).

A distância entre esse dois níveis é conceituada como "Zona de Desenvolvimento Potencial ou Proximal" (Rego, 1994). Essa conceituação sugere o parâmetro para atuação do psicólogo, possibilitando-lhe propor atividades de mudanças significativas na forma do sujeito de lidar com o mundo. O profissional de Psicologia, a partir desse conhecimento, propõe atividades que estimulem o desenvolvimento das ações do sujeito, percebendo as condições reais de realizar determinadas atividades, mas também a capacidade de realizar outras, através de ações mediadas.

Para Vigotski (2001), propor uma atividade que as pessoas já realizam sozinhas não se caracteriza como uma ação facilitadora de desenvolvimento, pois não estimula um avanço, bem como atividades que não podem ser realizadas sozinhas, sem mediação.

Ximenes & Barros (2009) relacionam as contribuições teórico-metodológicas da Psicologia histórico-cultural para a atuação dos psicólogos comunitários e apontam alguns conceitos importantes, como a constituição social das funções psicológicas propriamente humanas, o conceito de mediação semiótica, o método genético de investigação, a mútua implicação entre aprendizagem e desenvolvimento, bem como o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal.

A partir da Psicologia histórico-cultural que apontou categorias para a compreensão do psiquismo humano e de como os aspectos metodológicos contribuem para a atuação do psicólogo, serão abordadas, a seguir, as relações da análise e vivência da atividade comunitária como método de trabalho da Psicologia Comunitária.
O Método Dialógico-Vivencial: Análise e Vivência da Atividade Comunitária
O objeto da Psicologia Comunitária é caracterizado como o reflexo psíquico do modo de vida comunitário (Góis, 2005) que se desenvolve nos processos deflagrados na atividade comunitária que é:
[...] a atividade prática e coletiva realizada por meio da cooperação e do diálogo em uma comunidade, sendo orientada por ela mesma e pelo significado (sentido coletivo) e sentido (significado pessoal) que a própria atividade e a vida comunitária têm para os moradores da comunidade. (p. 89)
A comunidade é um espaço territorial em que a subjetividade se constrói nas relações de seus moradores entre si e com os contextos sociais. São construídos vínculos afetivos, sentimento de pertença, problematizações sobre a vida e a realidade. Segundo Leontiev (1978, p. 88), “a consciência individual do homem só pode existir nas condições em que existe a consciência social. A consciência é o reflexo da realidade refratada através do prisma das significações e dos conceitos lingüísticos, elaborados socialmente”.

O psicólogo comunitário que desenvolverá o seu trabalho com os moradores das comunidades através do processo de análise e vivência da atividade comunitária mediante o método dialógico-vivencial – MDV (Góis, 2005b) terá como metodologia a díade facilitar-pesquisando e pesquisar-facilitando a dinâmica comunitária. Nesse contexto, a facilitação é definida como: “priorizar o processo, o encontro dialógico e afetivo para conhecer e agir, nesse caso, para a construção da saúde pela via da aprendizagem conscientizadora e da ação solidária organizada e transformadora” (Góis, 2008, p. 79). O método caracteriza-se como um ato de construção conjunta, com base na cooperação entre o profissional e o morador, em um movimento que se orienta para a prática da libertação e desenvolvimento do sujeito comunitário.

A pesquisa dentro do método da Psicologia Comunitária caracteriza-se como a leitura da realidade, durante todo o período de atuação nesse espaço, permitindo reflexões sobre essa dinâmica e sobre o trabalho realizado, bem como a construção de conhecimento tendo como princípio teoria, prática e compromisso social. Assim facilitar-pesquisando implica em deflagrar processos com os moradores, permitindo uma releitura da realidade, aprofundando a consciência, e analisar como caminha esse movimento voltado para a práxis de libertação individual e coletiva. (Góis, 2008; Góes, 2009)

O foco da atuação do método em Psicologia Comunitária é a interação social, compreendendo que o desenvolvimento do psiquismo do homem tem como ponto central a relação que ele estabelece com o mundo, mediada pela criação e uso das ferramentas e da comunicação. A compreensão de uma consciência que se constrói numa interação sujeito-contexto social é outra importante contribuição da Psicologia histórico-cultural para a Psicologia Comunitária.

Adentrando nos caminhos da Psicologia Comunitária a partir da visão de homem como um ser construído a partir das relações, foca-se a facilitação comunitária no grupo popular, reconhecido como um espaço de interação entre os sentidos e significados e entre as emoções das pessoas nele presentes. É um lugar onde estão as dimensões individuais e coletivas das relações humanas, interagindo constantemente, refletindo o possível diálogo entre o micro e o macro-social (Góis, 2008), ou seja, o espaço de interação entre os eventos subjetivos e o contexto cultural em que os sujeitos se encontram (Góes, 2000). Assim, reconhece-se o grupo popular como um espaço de potência para deflagrar as transformações sociais, reconhecendo as interações que nele se misturam, criando sua identidade própria.

Resumindo, o MDV é constituído pelo diálogo e pela vivência. Freire (1983, p. 45) caracteriza o diálogo como "encontro dos homens mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu7". Segundo Góis (2005, p. 110), "o diálogo vai além do intercâmbio verbal, se torna um mecanismo de interiorização da realidade físico-social, em sua diversidade e mudança, e ao mesmo tempo de expressão do indivíduo no mundo". Através do diálogo, reconhecendo as diversas formas de ler a realidade presentes nesse momento, problematiza-se a realidade, evidenciando contradições, possibilitando uma releitura da mesma, uma re-significação através do diálogo-problematizador.

Toro (2005, p. 30), a partir da biodança, define vivência como "a experiência vivida  com grande intensidade por um indivíduo no momento presente, que envolve a cenestesia das funções viscerais e emocionais". Almeida (1994, citado por Góis, 2002, p. 69) classifica a vivência em duas: a vivência  epistemológica e a ontológica; “a primeira se refere à possibilidade da vivência de levar ao conhecimento ou fazer-se conhecer; enquanto a outra trata da vivência mesma do Ser". Apesar da dimensão da experiência, do viver, não se pode esquecer que também existe a elaboração sobre todo esse processo.
Portanto, o grande aporte que a Biodança traz à Psicologia Comunitária é a possibilidade de alcançar, em seus processos de facilitação, dimensões originais da consciência, dimensões vitais da identidade humana, possibilitando um processo de conscientização que se enraíza numa dimensão instintiva, emocional e intuitiva. (Pinho, Castro, Ximenes, Moreira & Barreto, 2009, p. 35) 
Assim, vivenciar o modo de vida comunitário consiste em compartilhar junto às pessoas da comunidade, sentimentos, significados, sentidos que constroem e são construídos pelos sujeitos (Vigotski, 2002) e estão presentes no espaço da comunidade. É contemplar a realidade a partir do que se é, profissional ou morador da comunidade, contribuindo para a vinculação afetiva das pessoas envolvidas nesse espaço, permitindo implicações para o acontecimento do trabalho além das dimensões cognitivas. Para Góis (2008):
A análise nos permite um distanciamento crítico da comunidade e de nós mesmos, e a vivência nos faz entrar sensível e emocionalmente no lugar, identificar-nos com ele, levando-nos a sentir a realidade social profunda acontecendo na vida de cada morador em seu cotidiano de luta, sofrimento e esperança. (p. 83)
A dimensão analítica do método dialógico-vivencial e a forma de perceber as interações entre o sujeito e o mundo são influenciadas pelo método microgenético (Vigotski, 2002). Com base nesse método, compreende-se o reflexo psíquico do modo de vida comunitário. O método leva a olhar o sujeito percebendo-o na sua relação com o mundo e buscando conhecer como ele capta essa realidade internamente,  a partir da dimensão sociogenética. A análise microgenética, por observar o movimento singular do homem-mundo, tem, no espaço de diálogo, a capacidade de evidenciar e compreender as contradições existentes no lugar. Como não há apenas um padrão de comportamento dos moradores de uma comunidade, cabe ao psicólogo comunitário lidar com as singularidades dos sujeitos na complexidade do contexto comunitário.

Segundo Góes (2000), o estudo microgenético tem como fortes aliadas a atenção ao diálogo e a compreensão de outras formas de saber para compreender os episódios interativos dos sujeitos. Essa autora assegura que, no espaço de diálogo, é possível compreender  “a posição de poder dos sujeitos, a imagem dos interlocutores, as formações discursivas, os gêneros discursivos” (Góes, 2000, p. 17). Dessa forma, o diálogo é um encontro em que se evidenciam as contradições nas interações entre os sujeitos, dentro de um grupo. A partir desse encontro, percebem-se o sistema cultural compartilhado e como ele influencia a constituição das funções psicológicas superiores – FPS e, consequentemente, as formas de conduta do indivíduo.

A abertura para esse diálogo teórico entre o materialismo histórico e dialético e a teoria da biodança está presente na busca de compreensão da realidade complexa, como apontado por Montero (2004):
la apertura igualmente se expresa en la multidimensionalidad del análisis y en la diversidad de racionalidades, puesto que los investigadores e interventores no provienen de un solo campo, como ocurre con otros métodos de investigación. La apertura es una respuesta compleja a la complejidad de los problemas  estudiados, que a su vez se deriva de los complejidad de la vida comunitaria y de sus fenómenos y procesos psicosociales. (p. 34)
Trata-se também da abertura para perceber a realidade comunitária, não só pelo olhar do psicólogo comunitário, mas por meio dos diversos olhares dos indivíduos envolvidos na atuação comunitária (Montero, 2004). Como compreender a rede de representações presentes na comunidade a partir das pessoas que fazem esse espaço no seu dia-a-dia? É importante compreender que o campo de atuação do sujeito se faz na comunidade, não se podendo de forma alguma esquecer a sua relação com o meio onde vive. Segundo Góis (2008), não se pode “compreender e atuar sobre os indivíduos fora de seus contextos sociais, culturais e proximais, nem de suas possibilidades de se construírem através das interações sociais e comunitárias" (p. 80).

Assim a leitura da dinâmica comunitária não diz respeito apenas a adotar determinados instrumentos, mas também à postura do psicólogo comunitário nesse processo. O olhar da Psicologia é apenas uma das formas de compreender as pessoas e a sua relação com a comunidade. Há outras formas, como trazer consigo esse saber para dialogar com outros saberes, como o popular e o religioso presentes nas comunidades.

Compreender os valores ideológicos e culturais da dinâmica comunitária possibilita a apropriação do contexto histórico-cultural produzido naquele local e vivido concretamente. Montero (2004, p. 27) afirma que os objetos da Psicologia Comunitária são “la comunidad y los processos y relaciones psicossociales que en ella se producen, ambos construídos entre los indivíduos que integran dicha comunidad y que reciben asismismo su influencia". Separar o ideológico do psicológico é separar o "indivíduo da sociedade, de sua cultura e de seu cotidiano local" (Góis, 2008, p. 76). Percebe-se então a constante relação homem-mundo presente no método da Psicologia Comunitária, sob forte influência da Psicologia histórico-cultural.

O psicólogo comunitário deve reconhecer que a comunidade, apesar de ter significações vindas de uma superestrutura, possui suas questões menores, peculiares, construídas a partir de sua realidade histórico-cultural. Deve também perceber que o macro e o micro interagem de forma dialética,  tendo como síntese a construção significativa de um modo de vida.

Trabalhar valores comuns para uma caminhada no sentido de uma transformação social implica não em negar as posições diferentes, mas sim em facilitar o diálogo entre elas, reconhecendo a dimensão individual e de sentidos de todos os sujeitos, possibilitando que os pontos em comum sejam laços de forças para a mudança social.

A dimensão analítica do método dialógico-vivencial se dá a partir da análise semiótica dos significados compartilhados e construídos localmente que permitem analisar as formas de interações entre os sujeitos e a realidade em um grupo social, o que é feito geralmente a partir da língua ou idioma em que o indivíduo objetiva a sua compreensão de realidade e a expressa para o mundo (Vigotski, 2002; Luria, 2001). Em alguns casos, é melhor considerar a ação mediada como foco da análise desse processo, pois, como afirma Vigotski (2002), a relação homem-mundo se dá de forma mediada, ou seja, através de pontes e instrumentos que unem esses dois pólos.

Assim, o olhar sobre essa atividade mediada é o olhar sobre a forma segundo a qual o sujeito interage e se coloca com as coisas do mundo. Daí capta-se formas de possível atuação, num diálogo contínuo com as pessoas que fazem o dia-a-dia. A atividade comunitária permite compreender a estruturação complexa na qual se desenvolve o psiquismo humano. As interações instrumentais e comunicativas evidenciam a forma como o sujeito comunitário percebe seu mundo e como age nele a partir dessa percepção. Segundo Góis (2005), a dimensão instrumental é caracterizada pelo uso de ferramentas necessárias à transformação objetiva e ao funcionamento da comunidade. A dimensão comunicativa compreende diálogo, expressão de sentimentos e cooperação.

A compreensão da complexidade humana deve ir além das formas objetivas de se estar no mundo, considerando linguagem, pensamento e outros elementos e formas subjetivos. Nesse ponto, entra-se na questão da vivência que permite um contato maior com o sentido, com o individual, com o que é compartilhado pelos que vivem na comunidade. Leva ao contato pré-reflexivo8 (Góis, 2002), quando as definições objetivas deixam de dar conta do todo. O psicólogo comunitário tem que vivenciar essa realidade que possibilita a partilha com os moradores de questões que os afetam, sem esquecer quem é e de onde ele vem. O processo consiste em jogar-se na realidade concreta e, através dos sentidos e do conhecimento, perceber o que existe no local, o que fere, alegra, faz rir e faz chorar a população.

Para compreender melhor como se dá o processo de facilitação da atividade comunitária, abordam-se alguns métodos que contribuem com a atuação do MDV, bem como algumas técnicas de facilitação.
Algumas Trajetórias do Método Dialógico-Vivencial
A partir do arcabouço teórico e metodológico da Psicologia histórico-cultural, um marco teórico-metodológico da Psicologia Comunitária, apresenta-se o círculo de cultura, o grupo comunitário de produção, a caminhada comunitária e o mutirão, que são formas de atuação do psicólogo comunitário, cujo papel deverá ser o de um facilitador de processos humanos que utiliza metodologias participativas. Segundo Thiollent (2005), as metodologias participativas são aplicadas de forma coletiva, com diversos graus de participação dos interessados. Montero (2006) enfatiza que a participação favorece o trabalho comunitário dos diferentes atores sociais e o alcance de um objetivo comum. Góis (2008) enfatiza a importância da participação. Para ele, a atuação comunitária propicia a autonomia, participação e sentimento de pertença de todos nas atividades comunitárias. A influência de instrumentais metodológicos participativos na construção do método dialógico-vivencial em Psicologia Comunitária possibilita um aparato maior para a compreensão da atividade comunitária.
Círculo de cultura
O círculo e cultura é um processo de grupo popular desenvolvido por Freire (1983) no qual as pessoas compartilham a sua realidade, dentro de um espaço, no caso o círculo ou roda, de modo reflexivo e participativo (Góis, 2008). Foi criado com o objetivo de alfabetizar adultos; porém, sua aplicabilidade ultrapassou a área da educação, sendo utilizado em várias áreas do conhecimento.

O objetivo do círculo de cultura é possibilitar que os sujeitos percebam sua realidade de uma forma mais complexa, aprofundando a consciência; há nele, também, um o convite a transformar o meio. Nesse contexto, há participação de todos, respeito e reconhecimento da fala do outro. Percebe-se “a consciência pessoal e social em um só processo de desenvolvimento, no qual são essenciais a ação-discurso, o diálogo-problematizador, a conscientização, o conhecimento crítico e a transformação positiva da realidade” (Góis, 2005, p. 87).

Os elementos presentes no círculo de cultura são: círculo – foca na igualdade de condições e possibilidades que cada um tem no grupo; cultura – cada participante traz sua história de vida, seus valores e seus sonhos; palavras-geradoras – são palavras que fazem parte do universo vocabular e é significativa para o grupo; animador – é um integrante do grupo ou um agente externo que facilitará o processo de diálogo do grupo a partir das palavras geradoras.
A ação problematizadora incide sobre as circunstâncias do cotidiano dos moradores, as atividades costumeiras, os saberes e expressões estereotipadas que legitimam a perpetuação de determinadas situações. As situações-limite, surgidas no Círculo de Cultura, brotam sempre de situações de caráter concreto, do âmbito do tangível. Não por acaso, é, exatamente, a partir da análise da situação de vida dos moradores e dos efeitos resultantes de determinadas ações e posicionamentos, que ocorrem os processos de aprofundamento da consciência: etapa básica de uma atuação em Psicologia Comunitária e em Educação Libertadora. (Oliveira, Ximenes, Coelho & Silva, 2008, p. 156)
Nessa roda, as pessoas presentes compartilham o diálogo-problematizador, através do universo vocabular daquele espaço. A problematização é facilitada por um agente externo ou interno da comunidade, o qual media o exercício de evidenciar as contradições da realidade. A partir das interações sociais, o caráter mediado (Vigotski, 1991) desenvolvido no círculo de cultura, mediante a utilização de instrumentos (relação com os objetos) e signos (operações mentais), possibilita a análise de funções como a memória, o pensamento e a atenção. As contradições anunciadas permitem a releitura da realidade comunitária e uma nova relação do sujeito com ele e com a realidade a partir dessa nova percepção, como também, um processo de aprofundamento da consciência.
Grupo comunitário de produção
Segundo Góis (2008), as comunidades, em geral, procuram alguma forma de solucionar os seus problemas econômicos, como a organização de padarias comunitárias, hortas comunitárias, casa de farinha, cooperativas de produção, feiras populares e outros. Nesses espaços, as questões financeiras concretas são mobilizadoras para o surgimento das atividades. Assim determinadas ações são estimuladas a partir das necessidades concretas. Muitas atividades estão relacionadas com a economia solidária, que segundo Eid e Pimentel (2005, p. 132) “deve ser um setor econômico dinâmico e estratégico, efetivo gerador de trabalho e renda, segurança humana e bem-estar”. O sujeito, ainda que sob situação de opressão e desigualdade social, tem a capacidade realizar determinadas ações com o objetivo de transformar a realidade, melhorando sua qualidade de vida.

Percebe-se assim um exemplo da atividade comunitária (Góis, 2005) em que as interações instrumentais e comunicativas se fazem presentes entre os sujeitos, voltados para um objetivo, para a solução de um determinado problema. Observa-se como a categoria trabalho (Leontiev, 1978), como atividade humana, transforma a realidade e o sujeito, possibilitando o processo de hominização. As significações são compartilhadas entre as pessoas envolvidas nessa atividade; a consciência social, compartilhada e construída coletivamente, adota seus novos objetivos e focos, a partir das situações problematizadoras da realidade.

Outro ponto importante no andamento do grupo comunitário de produção é perceber o processo de interação entre as pessoas nele presentes, que vai da formação do grupo, do estabelecimento de metas, da definição dos produtos a serem construídos, até a forma como as pessoas interagem. O psicólogo comunitário, a partir do método dialógico-vivencial, compreende o processo de desenvolvimento humano que se desenvolve nas relações de trabalho que têm caráter de trabalho coletivo e comunitário, diferentemente do contexto presente nas empresas e indústrias. Vale salientar, que muitos desses processos de trabalho surgem como forma de suprir necessidades e problemas específicos de uma comunidade.
Caminhada comunitária
A caminhada como processo de apropriação da realidade da comunidade é um momento de conhecimento da história do lugar, contada por seus moradores e profissionais que aí trabalham. O agente externo e o morador caminham juntos e descobrem os lugares e as pessoas que fazem parte da comunidade. Segundo Góis (2008, p. 197-198), “é importante caminhar em diversos momentos e horários, ora pela manhã, ora pela tarde e outras vezes pela noite, caminhar durante a semana e durante os finais de semana”.

Existe uma dificuldade entre profissionais das políticas públicas e agentes externos, pois muitos não entendem a importância de caminhar na comunidade. Somente quando vivenciam isso é que percebem a diferença. A caminhada deve ser realizada juntamente com um morador, visto que ele conhece mais o lugar e assume uma função de guia, o que propicia mais segurança a todos. O morador sabe quais são os lugares perigosos, os melhores horários e quem são as pessoas importantes que devem ser visitadas. Dessa maneira, o morador transmite suas percepções do meio onde vive e a maneira como interage nesse meio. É nesse processo que se percebe sua interação com a comunidade e como ele a significa, como se dá o reflexo psíquico do seu contexto cultural (Luria, 2001; Góis, 2005).

Nesse processo de caminhada, o psicólogo comunitário buscará informações objetivas e subjetivas para construir o mapeamento psicossocial da comunidade: história do bairro, principais lideranças e políticos, festas típicas, quantidade de escolas, igrejas, equipamentos das políticas públicas, principais problemas e potencialidades, situação de saneamento básico, de água e de energia, áreas de risco e outros elementos. A análise desse processo facilitará a compreensão dos processos psicológicos e propiciará a aproximação entre o Nível de Desenvolvimento Real e o Nível de Desenvolvimento Potencial (Vigotski, 2001; Rego; 1994), facilitando a interação na Zona de Desenvolvimento Potencial ou Proximal (Rego, 1994).
Mutirão
Há espaços coletivos construídos para resolver problemas de um grupo. Os moradores de uma comunidade e os profissionais da iniciativa privada e das políticas públicas podem organizar mutirões para solucionar problemas coletivos. A história dos mutirões na realidade brasileira tem relação com a falta de condições mínimas de vida que está presente na maioria da população pobre, como falta de moradia, de saneamento básico, de água, de assistência médica, de escola e muitas outras. Mutirões propiciam não somente a solução de um problema específico, mas também facilitam o processo de apropriação e de conscientização dos participantes. Para Vieira e Ximenes (2008), a conscientização e a atividade comunitária fazem parte de um mesmo processo, com suas dimensões comunicativas e instrumentais, também presentes no método dialógico-vivencial, na Psicologia histórico-cultural e na Psicologia Comunitária.

Do ponto de vista da atividade comunitária, Góis (2008) explicita que a comunidade define o problema, realiza o planejamento, executa a ação e avalia os resultados. Assim considerar o processo de interação entre os sujeitos é um fator importante para a avaliação do trabalho comunitário, para perceber quais são as dificuldade e potencialidades presentes no grupo e de que maneira podem-se proporcionar ações que resultem no desenvolvimento humano e comunitário.


Considerações Finais
A relação da Psicologia histórico-cultural e da Psicologia Comunitária presente nos trabalhos de autores como Lane (1988), Montero (2004, 2006) e Góis (1994, 2002, 2005a, 2005b, 2008) respalda a atuação do psicólogo comunitário enquanto profissional que trabalha no contexto comunitário, utilizando teorias e metodologias desenvolvidas a partir do materialismo dialético e histórico. A ressignificação de conceitos, categorias e metodologias contextualizados em uma realidade concreta, no caso específico a comunidade, propicia a ampliação da atuação da psicologia e o seu compromisso social com a superação da opressão vivenciada por tantos povos que se encontram em situação de pobreza e miserabilidade.

A sistematização de metodologias que tenham como foco a análise e vivência da atividade comunitária (Góis, 2005) não é uma tarefa simples e fácil: exige um esforço de pesquisa e prática de psicólogos que trabalham nesse contexto. O método dialógico-vivencial que busca conhecer e facilitar processos humanos mediante metodologias participativas nas comunidades é um dos caminhos possíveis de desenvolvimento da práxis psicológica nas comunidades. Sabe-se que ainda há um longo percurso a desbravar na relação entre Psicologia Comunitária e metodologias favorecedoras da atuação dos psicólogos como profissionais com habilidades, competências e compromisso social para desenvolver trabalhos em contextos comunitários, indo além do profissional da “escuta” e utilizando teorias e metodologias que o capacitem para o desenvolvimento de atividades potencializadoras do desenvolvimento humano e social.


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Categoria de contribuição: Intervenção

Recebido: 28/09/09

Aceito: 25/06/10




1 Psicólogo do Núcleo de Apoio a Estratégia de Saúde da Família – NASF de Fortaleza, ex-integrante do Núcleo de Psicologia Comunitária (NUCOM). Endereço eletrônico: gilmariojr@gmail.com.

2 Doutora em Psicologia pela Universidade de Barcelona, Profa. da Graduação e do Mestrado em Psicologia da Universidade Federal do Ceará e Coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária (NUCOM). Endereço para correspondência: Av. Santos Dumont, 7000/903, Papicu, Fortaleza, Ceará, CEP: 61.190-971. Endereço eletrônico: vemorais@yahoo.com.br

3 Oliveira (1998, p. 26) define mediação como “o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação”. A concepção da atividade mediada na obra vigotskiana confere a compreensão da relação entre o homem e o meio de uma forma mais complexa.

4 Vigotski (2001) define as funções elementares como aquelas atreladas à linha biológica do desenvolvimento. Entre elas pode-se destacar a memória mecânica, a atenção involuntária, a imaginação reprodutora e a vontade impulsiva. As funções psicológicas superiores (FPS) compreendem todo um aparato de funções que constituem a consciência do homem e que refletem no seu modo de agir e de ler o mundo. Dentre elas, a partir das conceituações de Vigostky (2001), pode-se destacar a memória lógica, o pensamento abstrato, a imaginação criativa e a atenção voluntária.

5 De acordo com Leontiev (1972), a consciência humana é forjada através da atividade, processo que tem duas dimensões: uma comunicativa, referente às relações estabelecidas entre os homens nessa ação, e outra instrumental, referente às construções realizadas pelo homem na sua realidade. Através do processo de internalização da atividade, o individuo subjetiva a realidade, constituindo assim as funções psicológicas superiores e, por conseguinte, a consciência.

6 A partir do olhar da Psicologia histórico-cultural, Luria (2001, p. 21) afirma que “o objeto da psicologia não é um mundo interno em si mesmo, é o reflexo do mundo externo no mundo interno (...), é a interação do homem com a realidade”.

7 Buber (1979) considera a relação eu-tu como um encontro no qual os sujeitos se encontram em pé de igualdade, uma relação na qual um consegue perceber a si e ao outro, mutuamente, respeitando suas formas de estar nesse contexto.

8 Compreende-se a dimensão pré-reflexiva como a capacidade do sujeito de perceber e interagir com a realidade a partir das bases mais biológicas, das sensações, sem formas elaboradas, no nível cognitivo (Góis, 2002).



Pesquisas e Práticas Psicossociais 5(2), São João del-Rei, agosto/dezembro 2010




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