Psicologia do ambiente



Baixar 13.96 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho13.96 Kb.






PSICOLOGIA DO AMBIENTE

“We give shape to our buildings and they, in turn, shape us”

Winston Churchill, 1943 speech to the House of Commons)

I – Caracterização do Campo de Aplicação

Na aplicação da Psicologia à área do AMBIENTE importa em primeiro lugar definir o que se entende, neste contexto, por ambiente. O conceito é entendido como toda a envolvente que rodeia o ser humano. Referimo-nos pois ao espaço físico e aos estímulos que nele existem (som, ar, paisagem…), dirigindo-se a Psicologia do Ambiente ao estudo e intervenção sobre a forma como o ambiente influencia o indivíduo ou grupos, e sobre o modo como o comportamento dos indivíduos e grupos influenciam o ambiente. Contudo, este ambiente está ele próprio imbuído de significados sociais, na linha de Stokols (1978, Stokols e Altman, 1987) a Psicologia ambiental centraria o seu estudo no interface entre o comportamento humano e o ambiente sócio físico” (Stokols, 1978). No manual de Psicologia Ambiental editado por Robert Bechtel e Arza Churchman (2002), Wapner e Demick analisam detalhadamente a unidade de análise da psicologia ambiental referente ao sistema ‘pessoa-ambiente’.

Esta nova área desenvolveu-se no âmbito da psicologia no final dos anos 50 e durante os anos 60, de uma forma mais sistemática nos Estados Unidos, apesar de se encontrarem por toda a Europa, uma preocupação crescente sobre o impacte do ambiente físico sobre o comportamento humano.

Um marco importante no seu desenvolvimento foi a formação de um grupo de investigação em 1958, que integrava William Ittelson e Harold Proshanky da Universidade de Nova Iorque. Este grupo foi financiado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos EU, e teve como objectivo investigar a influência das características espaciais/arquitecturais de um hospital psiquiátrico no comportamento dos doentes. Neste contexto, Ittelson em 1964, na conferência dos Hospitais americanos sobre planeamento hospitalar, introduz a designação no título da sua intervenção “Psicologia ambiental e planeamento arquitectural”.

Na sequência deste grupo, ainda na década de sessenta, assinalam-se dois marcos para o desenvolvimento da disciplina: a criação, em 1968 da Environmental Design Research Association (EDRA) com conferencias anuais desde 1969 até hoje; e em 1969 a criação da revista Environment and Behavior. Em 1976 a APA formou uma nova divisão que denominou de “Population and Environmental Psychology”. Na Europa a formalização desta nova área só aconteceu em 1981, com a criação da associação europeia equivalente IAPS, hoje denominada de International Association for People-Environment Studies, com conferências bianuais. É da mesma data a publicação do Journal of environmental Psychology editado por David Canter na Universidade de Surrey (Guildford).

Mas a necessidade de criação desta nova área é o resultado da confluência de forças internas e externas à psicologia, anteriores aos anos sessenta. Sendo uma área de interface com outras disciplinas, foi em primeiro lugar pela influência de factores externos à psicologia que esta área surge. De acordo com Mirilia Bonnes (Bonnes e Bonaiuto, in Bechtel & Churchman, 2002; Bonnes & Secchiaroli, 1995), fora da psicologia há a considerar duas principais correntes ou movimentos que levaram ao desenvolvimento da Psicologia do Ambiente.

A primeira, relacionada com os aspectos do ambiente físico-espacial e das ligações da Psicologia com a Arquitectura e Geografia, tem o seu início por volta da década de 1950. Emergiu da preocupação em compreender a forma como o espaço físico-espacial influencia o comportamento das pessoas. Uma corrente desencadeada pela insatisfação da abordagem egocêntrica do design e pelo desejo de um design mais centrado no utilizador, numa tentativa de criar ambientes óptimos para as actividades humanas; mas também pela destruição de diversas cidades europeias durante a segunda guerra mundial e a necessidade da sua reconstrução de modo funcional. Emergiram investigações sobre a organização do espaço hospitalar e comportamentos de doentes mentais ou a recuperação dos pacientes (Proshansky, Ittelson, e Rivlin, 1970), e também relativos à forma como a disposição do espaço em residências universitárias e lares de idosos influencia e é moldada pela interacção social, a territoritalidade humana e o espaço pessoal (Osmond, 1957; Sommer, 1969), e sobre os desenraizamentos causados pelos realojamento impostos (e.g. Fried, 1963 Relph,1976) . Desenvolveram-se estudos sobre as representações mentais que as pessoas detêm das cidades ou áreas geográficas (e.g.: Lynch, 1960; Golledge, 1987) e do impacto do factor humano sobre a paisagem ao longo do tempo (Sauer, 1921, Wright, 1947), e sobre a relação entre as funções sociais e a organização espacial em espaços específicos como escolas, igrejas e outros (e.g.:Barker e Wright, 1955).

A segunda, orientada pelas preocupações ambientais associadas à poluição, preservação de recursos, e sustentabilidade; e impulsionada na década de 1970 pelo programa Man and Biosphere da UNESCO. Inicia-se a investigação sobre as percepções e representações ambientais e o modo como as mesmas influenciam o comportamento de diferentes grupos face ao uso de recursos e face a infra-estruturas. Analisam-se percepções sobre a qualidade ambiental (e.g.:Craik, Zube 1976; White, 1977) e as preferências da paisagem (e.g.:Gibson, 1979; Kaplan e Kaplan, 1982, Ulrich, 1983); estudam-se atitudes, preocupações e comportamentos ambientais (e.g.: Geller, 1981; Schultz, 1995, Kaiser et al., 1999; Gardner e Stern, 2002;); avaliam-se conflitos entre actores da sociedade civil e a ligação entre conhecimento e participação pública (e.g.: Bonnes & Secchiarolli, 1995), e procura-se compreender a natureza da percepção de risco ambiental (e.g.: Douglas, 1992; Slovic, 2000).

Na tradição da psicologia a inclusão do ambiente foi de certa forma ambigua. Se por um lado houve sempre uma preocupação sobre o efeito do ambiente no ser humano, ambiente esse concebido como tudo o que é exterior ao sujeito, por outro lado, existe uma quase ausência de teorização e investigação sistemática sobre a relação entre as características especificas do ambiente e o comportamento. Excepção feita para a psicologia da percepção.

Mas se recuarmos no tempo vamos encontrar referência ao espaço em autores determinantes na história da psicologia (e.g.: James, 1989, Erickson, 1956). Contudo, apesar de terem tido a preocupação de identificar o ambiente físico como um elemento importante nas suas conceptualizações, em termos de estudos empíricos não se verificou uma continuação nesta preocupação com o ambiente.

Um autor fundamental é Kurt Lewin (1890-1947), tendo passado os primeiros anos da sua carreira na Europa (Berlim) foi profundamente influenciado pela escola Gestáltica, tendo-se dedicado na última fase da sua vida, já nos EUA, aos estudos no âmbito da psicologia social aplicada, em particular na dinâmica grupal. É neste contexto que o autor se centra sobre a influência do meio (social e não social) no comportamento colectivo. Influenciado também pela Teoria de campo da física que transpõe para a Psicologia, considera que deve ser estudado o campo de forças global e não apenas os objectos componentes. Assim, considera que a psicologia se deve centrar no “campo psicológico” ou “espaço de vida” que identifica como o “conjunto de variáveis que influem no comportamento do indivíduo num dado tempo t, englobando o subsistema pessoal e o subsistema ambiental, e a zona fronteiriça que separa as variáveis psicológicas e não-psicológicas” (1951). Fica, assim, famosa a sua formula C=f(P x A), sendo o comportamento função das relações dinâmicas e reciprocas entre a pessoa e o ambiente.

Lewin aplica estas noções aos grupos, que são considerados gestalts, campos de forças definidos por objectivos, normas e valores próprios, formas de organização,... irredutíveis a uma análise dos indivíduos que os compõem. São os trabalhos sobre os grupos e os trabalhos sobre a mudança dos hábitos alimentares, onde teve que alargar o quadro de análise às variáveis sociológicas, política, económicas e ambientais, que o levará a concluir mais tarde que a psicologia deverá tornar-se o estudo da ecologia particular dos indivíduos ou dos grupos, falando então em psicologia ecológica.



Neste contexto não podemos deixar de referir dois autores que seguiram a tradição lewiniana: Roger Barker, hoje reconhecido como um dos pais da PA, e Urie Brofenbrenner não ligado directamente à psicologia ambiental mas com uma contribuição fundamental para a compreensão da importância do ambiente na compreensão do comportamento.
Catálogo: rdpc -> bitstream -> 10174
10174 -> Capítulo 1 – Os disfarces de amor
10174 -> Formação e sustentação da cooperação nas organizações educativas: o dilema da reciprocidade forte
10174 -> Habermas e Ricoeur sobre a Hermenêutica ou uma convergência divergente Fernanda Henriques – Universidade de Évora resumo
10174 -> O papel do professor na instrução democrática da criança: Uma reflexão crítica ao programa de Filosofia para Crianças de Matthew Lipman
10174 -> I considerações preliminares de carácter pedagógico e didáctico
10174 -> Os Docentes e a Biblioteca Escolar: uma relação necessária Ângela Balça & Maria Adelina Fonseca Resumo
10174 -> Breve nota histórica
10174 -> 1. Designação do imóvel Ermida de Santa Catarina de Monsaraz
10174 -> Review of Culture, Macau, Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, Ed. Internacional, nº 40, Outubro de 2011
10174 -> Tereno*, Maria do Céu Simões, Pereira**, Marízia M. D. & Monteiro, Maria Filomena


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal