Psicotecnologia da escrita: o recuo no tempo



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III Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Novo Hamburgo, RS - 2005
GT de História da Midiologia

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PSICOTECNOLOGIA DA ESCRITA: O RECUO NO TEMPO

Profa Dra Maria Luiza Cardinale Baptista
Professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)

Professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

e Diretora da Pazza Comunicazione, Brasil
O artigo apresenta o relato de um levantamento sobre aspectos da história da psicotecnologia da escrita. Resgata, neste sentido, acontecimentos que marcaram a história da escrita, relacionados às suas implicações sócio-econômico-políticas. Ao mesmo tempo, considera a tecnologia escrita como um dispositivo complexo, que é produzido e, simultaneamente, produz seres humanos e sociedades. Este texto sobre psicotecnologia da escrita e seu desenvolvimento através dos tempos, neste sentido, é um resgate do início de uma midiologia inscricional, em que o humano passou a se imprimir, produzindo marcas nos suportes. Marcas de controle. ‘Ensaios’ de uma comunicação impressa, que contagiou o mundo pós-Lutero.
PSICOTECNOLOGIA DA ESCRITA: O RECUO NO TEMPO
Artefatos de expressão - impressão do ser.

Processos psíquicos de produção de marcas.

Uma história associada a marcas e tempo.

Inscrições que se transformam.

Suportes que se tornam etéreos.

O sujeito ‘des-gruda’ da inscrição material.

Complexidade inscriacional.

Apresento neste texto o resgate de aspectos históricos sobre a escrita, que realizei há algum tempo, quando fazia o doutorado na ECA/USP (2000), acrescido de algumas considerações recentes. Além disso, proponho a escrita como psicotecnologia a ser estudada. Isto implica, a partir do conceito de Derrick de Kerckhove (1997), de psicotecnologia, no envolvimento com o assunto, tentando compreender como a escrita ajudou – e ajuda – a construir o sujeito da comunicação, nos diversos tempos.

A escrita é um dispositivo complexo, com fortes implicações psicológicas. A história dos processos de inscrição da humanidade nos mostra isso, bem como nos ajuda a compreender a singularidade dessa tecnologia intelectual. A multiplicidade de suportes – bem como a complexidade dos processos de escrita – foi sendo ampliada, acompanhando os processos de sofisticação tecnológica, a tal ponto que, pode-se dizer, foi se maquinizando. Parodiando Guattari1 (1987; 1988; 1992), poderia falar, então, na contemporaneidade, de uma escrita maquínica. A escrita maquínica é tanto a produzida através de dispositivos tecnológicos, ou seja, com a mediação direta das máquinas – aqui consideradas como agenciamentos de produção, ou seja, o que facilita, provoca a produção –, quanto a escrita maquinizada – a que incorporou mecanismos das máquinas, concretas, nos seus agenciamentos abstratos. Quer dizer, temos um fluxo-vida, que é o texto que tende a ser escrito. Este, gradativamente se produz com base nos agenciamentos de uma coisa objeto, alterando a dimensão viva e a produzindo de outra forma.

As características da relação do ser que escreve com as tecnologias são o resultado de um longo processo. Resgato agora elementos desse processo, destacando, claro, que a intenção não é esgotá-lo. Não se trata da pretensão de constituição de uma história da escrita, mas do resgate de elementos que podem demonstrar o quanto há de conjunção entre o sujeito da comunicação, o dispositivo de inscrição e o território de relações e produção em que estes se encontram, territórios de sobrevivência e reconhecimento.

Considero crucial este resgate, até porque concordo com a afirmação de Debray (1994, p. 21): “Quem recua no tempo, avança no conhecimento”. Percebo que muito do que compreendo hoje dos processos de escrita decorre de incursões na sua história – a despeito de que, diante da magnitude do processo histórico de produções de inscrições na humanidade, qualquer relato, neste sentido, será sempre uma visão com limitações. Ressalvadas as limitações, convido-o para discutir um pouco do que venho chamando de ‘psicotecnologia da escrita’.

A escrita é uma tecnologia intelectual de grande importância para as transformações do ser humano. Seu surgimento resultou de um longo processo, marcando diferenças de culturas, de povos, de relações e interações. O ato de inscrever-se, de produzir inscrições, variou desde as condições e características da comunicação dos povos, passando pela necessidade econômica, materiais disponíveis, interesses políticos e religiosos. Trata-se de diferentes processos da produção de marcas. Marcas que comunicam intenções de dizer e, como tal, expressam ‘personalidades’ – no sentido de sujeito-conceito. Conceito do eu, o que marca, diferencia.

Interessante, nesse sentido, notar que vários estudos (GIOVANNINI in GIOVANNINI et alii, 1987; LÉVY, 1993; KERCKHOVE, 1997) associam a origem da escrita à fixação do homem à terra, quando do surgimento da agricultura. O processo desencadeado durante o chamado período Neolítico – 8 000 a 4 000 a.C. – significou também a inscrição do próprio homem na terra, produzindo marcas, semeando, para depois colher sua produção. Não são raras também as comparações da escrita com a aragem da terra. O escritor seria o que semeia idéias, para depois colhê-las como resultado da inscrição. O texto, as palavras, poderíamos dizer, seriam alimento para um outro corpo, uma espécie de grande corpo abstrato, energia.

As mudanças decorrentes do fato de que o homem passou a ser vinculado fisicamente à terra – como se fosse um caractere impresso – foram muito grandes. Isso, é claro, fez com que o ser humano estabelecesse vínculos diferentes com os processos da natureza, com o tempo e com o espaço. O tempo de espera. O tempo de maturação para o alimento ficar pronto para a colheita. O tempo bom, o mau tempo. A observação e o reconhecimento dos processos da natureza aos poucos ganham importância de ‘sobre-vivência’.


A agricultura […] pressupõe uma organização pensada do tempo delimitado, todo um sistema do atraso, uma especulação sobre as estações. Da mesma forma, a escrita, ao intercalar um intervalo de tempo entre a emissão e a recepção da mensagem, instaura a comunicação diferida, com todos os riscos de mal-entendidos, de perdas e erros que isto significa. A escrita aposta no tempo. (LÈVY, 1993, p. 88) (grifo meu).
Além disso, a fixação na terra marca também um momento importante no que tange à convivência. Era o momento de passar a viver em comum, em comunidade, em pequenos agrupamentos que, aos poucos, foram surgindo ao lado dos rios. E viver em conjunto implica sempre em sofisticar dispositivos de relação, em desenvolver regras, em compartilhar espaços e sentidos; implica em comunicação.

É o caso, por exemplo, das pequenas cidades-estado dos sumérios, entre os rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia – região correspondente ao atual Iraque Meridional – no período de 5.000 a 4.000 a.C. A forte centralização do poder e o caráter religioso dessas cidades fez com que a escrita surgisse como um sistema de controle dos produtos cultivados, já que uma parte era encaminhada como tributo ao Deus da cidade (GIOVANNINI in GIOVANNINI et alii, 1987, p.p. 24-83). Sistema de controle e avaliação da produção cultivada. Assim também se constitui com relação à ‘cultura’ como um todo – no sentido de ‘cultivo do ser’.

Considero rica também a pista que aponta a relação forte entre o surgimento da escrita suméria e o do dinheiro – ambos inscrições em terracota (SCHMANDT-BESSERAT apud KERCKHOVE, 1997, p. 54). KERCKHOVE (1997, p. 57) explica que a invenção das placas, os símbolos sumérios desvendados por Besserat, significou o estabelecimento da fórmula, do meio e dos princípios do processo de simbolização de coisas através de marcas. Além disso, apresentou condições de um sistema de comunicação aceito por todos de uma mesma cultura.

Essa pista me ajuda a pensar um aspecto importante dos processos de escrita: o caráter de inscrição pública, relacionado diretamente ao reconhecimento de si, pelo Outro, e vinculado ao processo de valorização, estabelecimento de valores. Observe que estou ‘falando’ o tempo todo de produção de marcas. E isso ajuda a pensar que a escrita, como processo, está na origem – ou na base – do surgimento do que conhecemos contemporaneamente como “marca”.

Conceitualmente, a marca é uma simbolização diferencial do produto, que o coloca no mercado conforme um posicionamento que o distingue, que o exibe como algo que tem atributos a serem valorizados (PINHO, 1996; JACQUES, 1998). Quer dizer, a escrita surge como um sistema de controle da produção do humano, produção da qual era devida uma parte ao “Deus” da cidade. Na sua essência, a escrita e seu processo relacionam-se à marca, estando sujeitos às regras de valorização/depreciação, reconhecimento público ou não.
Marca é um nome, termo, sinal, símbolo ou desenho, ou uma combinação dos mesmos, que pretende identificar os bens e serviços de um vendedor ou grupo de vendedores e diferenciá-los daqueles dos concorrentes. […] Uma marca passa a significar não apenas um produto ou serviço, mas incorpora um conjunto de valores e atributos tangíveis e intangíveis relevantes para o consumidor e que contribuem para diferenciá-la daquelas que lhe são familiares. (PINHO, 1996, p.p. 14 e 46).
O sujeito que escreve também produz suas marcas e essa é uma das grandes questões do processo, já que o grande “Deus” ligado à produção contemporânea é o mercado. Trata-se de um “Deus” frio e calculista, de práticas maniqueístas – para o qual o sujeito é ótimo ou horrível – que infantiliza o ser, na medida em que propõe a continuidade de percepções fatalistas do mundo infantil.
A barganha que fundou o estilo de comportamento dessa nossa cultura, e que veio se consolidando desde a substituição do poder feudal pelos regimes monárquicos absolutistas, foi a da troca da expressão livre e imediata das paixões pelas vantagens de uma convivência mais amena, por um lado, e pelas vantagens do prestígio de se viver à maneira da corte, mais perto do soberano. (…) Hoje, a corte é o mercado: esta entidade abstrata que não está em lugar nenhum mas nos aborda a partir de todos os lugares, como “centro” fictício de uma sociedade que não tem lugar central. (KEHL in CARDOSO et alii, 1987, p. 487).
Fartos exemplos, nesse sentido, são oferecidos pelo referencial “teórico” dos Programas de Qualidade, tão em voga atualmente. Há frases que se constituíram numa espécie de lema, bordão repetido cotidianamente por “gerentes e diretores” do processo de ‘qualificação das empresas’. Uma das afirmações dramáticas, nesse sentido, é “Errar não é humano”. A outra é: “Se você não for qualificado, o mercado engole você”. Ou seja, temos uma espécie de resgate do “bicho-papão”, em versão para ‘adultos’.

Interessante observar aqui também que, na origem, está clara a relação escrita-imagem, como dispositivo de Comunicação. Ambas nascem ligadas ao mesmo princípio de inscrição. Há muito mais em comum: as relações que se estabelecem, as trocas e o ato de compartilhar. São também os acordos de troca… enfim, as ‘re-present-ações’. A escrita pictográfica ajuda a demonstrar que temos que pensar, na verdade, em dispositivo de inscrição e não necessariamente em verbalização, quando falamos em processo de escrita. A escrita verbal decorre de um processo de amadurecimento do simbólico. No que tange à inscrição, no entanto, escrita e imagem surgem juntas. Não é à-toa, por exemplo, que Debray (1994, p. 206), ao apresentar a sua classificação das três cesuras midiológicas da humanidade, relaciona à cesura da escrita a denominação logosfera.


À logosfera, corresponderia a era dos ídolos no sentido lato (do grego eídolon, imagem). Este período estende-se da invenção da escrita à da imprensa. À grafosfera, a era da arte. Sua época estende-se da imprensa à TV a cores. […] À videosfera, a era do visual (conforme termo proposto por Serge Daney).
Outro aspecto importante dos processos de inscrição pode ser percebido através do estudo do surgimento da escrita no Egito, a escrita hieroglífica. Estima-se, que entre 3.500 e 3.000 a.C., o Egito vivia uma monarquia, portanto, um poder altamente centralizado. A escrita registrava a vida e obra do rei, o que reforçava o seu poder. Além disso, este registro era feito, sob uma espécie de crença num suposto poder da própria escrita. Os textos acompanhavam o rei até mesmo depois de morto, o que criava a idéia de que, assim, o soberano ‘sobre-viveria’. A relação da escrita egípcia com os ritos fúnebres e as obras monumentais são elementos que ressaltam algo importante, ou seja, o aspecto escrita versus permanência – o registro que fica, o tempo que fica, a obra que fica, o sujeito que fica; trata-se de uma espécie de ilusão de vencer a morte e a passagem do tempo.
Abreviação do ideal temporal: o ídolo é a imagem de um tempo imóvel, síncope de eternidade, corte vertical no infinito imobilizado do divino. A arte é lenta, mas mostra já figuras em movimento. Nosso visual está em rotação constante, puro ritmo, obcecado pela rapidez. (DEBRAY, 1994, p. 207).
Das marcas que a escrita foi produzindo na humanidade, pode-se resgatar também, como significativa, a do surgimento do alfabeto. Considera-se como a origem de todos alfabetos o sistema desenvolvido pelos fenícios, embora haja também registro de uma outra escrita alfabética, a dos ugaríticos, composta a partir de 30 letras. No final do II milênio a.C., existiam dois tipos de alfabetos: o Cuneiforme de Ugarit e o Linear fenício.

Giovannini (In GIOVANNINI et alii, 1987, p. 42) afirma: “O alfabeto nasce onde o homem sente a sua necessidade e onde circunstâncias favoráveis contribuem para transformar esta necessidade numa realidade”. No caso fenício, por exemplo, as circunstâncias envolviam amplo desenvolvimento do comércio, o que exigia documentações escritas. Surge, deste comércio, uma classe média economicamente autônoma, que precisava da escrita e, portanto, que precisava aprendê-la.

O que se observou até agora, então, é uma forte relação do surgimento do alfabeto com as circunstâncias econômicas. Há um outro aspecto interessante. Algo que me parece a possibilidade de uma ampliação do acesso ao saber, aos processos de registro do saber, de transmissão do saber de geração a geração. A redução dos sinais para 20 ou 30 tornou possível que mais pessoas tivessem acesso ao processo de escrita. Esta possibilidade é desencadeada, então, pelo surgimento do alfabeto, embora a mudança não tenha acontecido do dia para a noite. Os escribas fenícios ainda ocupavam lugar de extremo destaque na sociedade e os livros, em grande parte, também ficavam fechados em bibliotecas, como era o caso da de Cartago – colônia fenícia.

O alfabeto fenício foi difundido no mundo antigo devido à força do seu comércio e das suas relações com outros povos. Foi, no entanto, a adoção deste alfabeto pelos gregos que o transformou na origem de todos os alfabetos ocidentais. Os primeiros jogos olímpicos, que ocorreram em 775 a.C., ficaram registrados como marco da incorporação do alfabeto fenício pelos gregos, já que foram encontrados os anais gregos, produzidos com tal alfabeto.

A história da escrita grega pode ser pensada a partir dos achados envolvendo Creta e Micenas. De Creta, registre-se o Disco de Festo, um disco de terracota, de 17 centímetros de diâmetro, inscrito com sinais pictóricos, onde se percebe o uso de caracteres-modelo, o que pode ser considerado como uma antecipação da invenção da imprensa. Foram encontrados em Creta três tipos de escrita: os hieróglifos, a Linear A e a Linear B. Quanto à escrita micênica, acredito que o principal aspecto é quanto ao uso administrativo do dispositivo. Temos aqui ainda a escrita versus poder centralizado nos palácios, com acesso reduzido à população; escrita como controle do poder; escrita que poucos conseguiam decifrar. Neste caso, o alfabeto servia mais como enigma, do que como instrumento de democratização. Não havia interesse no sentido de que muitas pessoas tivessem acesso aos dados administrativos da sociedade. Registre-se aqui, também, a total ausência dos textos literários. (GIOVANNINI, In GIOVANNINI et alii, 1987, p. 46).

Já os gregos passaram da oralidade, com alto grau de desenvolvimento e amadurecimento intelectual, para o processo de escrita e, claro, disto decorreram marcas profundas, bem como significativas transformações. Transformações estas que embasaram a construção do conhecimento e do reconhecimento do mundo ocidental.

Há que se salientar que, além de aproveitar a escrita fenícia, os gregos a aprimoraram, incorporando as vogais, às consoantes previstas até então. Isto representa uma transformação significativa. Um primeiro aspecto é que a existência das vogais permite contemplar mais fielmente os tipos de sons emitidos pelos humanos. Há, no entanto, conseqüências mais marcantes. É o caso das apontadas por Kerckhove (1997, p. 61): “[...] a estrutura da linguagem fez pressão para que o cérebro desse ênfase às capacidades de processamento seqüencial e ‘ordenadas pelo tempo’”.

Kerckhove parte da informação de que os gregos mudaram a direção da escrita do modelo fenício – que era da direita para a esquerda – para da esquerda para a direita, quando criaram o seu alfabeto, com vogais, por volta do século VIII a.C.. Para as suas considerações sobre a relação entre as estruturas internas da ortografia e sua orientação na superfície escrita, esse autor fez um estudo de todos os sistemas escritos do mundo. Suas conclusões são interessantes:


Todos os sistemas escritos que representam sons são escritos horizontalmente, mas todos os que representam imagens, como os ideogramas chineses ou os hieróglifos egípcios, são escritos verticalmente. As colunas verticais dos sistemas baseados em imagens são geralmente lidas da direita para a esquerda. (KERCKHOVE, 1997, p. 60).
O pesquisador explica que a mudança da direção aconteceu depois da inserção das vogais e complementa: “A presença das vogais tornou contínua a seqüência das letras. O sistema inicial era uma linha descontínua de símbolos que só precisavam ser lidos no contexto, não seqüencialmente”. (KERCKHOVE, 1997, p. 61). Desta forma, acredito ser possível apresentar a principal hipótese de Kerckhove, a de que o alfabeto teria sido determinante num processo de dependência do ser humano à racionalidade, já que acentuou tempo e seqüência, duas funções do hemisfério esquerdo do cérebro. Quer dizer, a representação do mundo em seqüências lineares, refletindo os sons desse mundo, criou um vínculo do homem à representação, na medida em que o som é a expressão da própria respiração-vida desse homem. Exigiu, para tanto, processos conscientes de montagem das estruturas representativas, de modo a ‘re-produzir’ o real. Nesse sentido, enfatizando a consciência, houve o estímulo ao uso da racionalidade na constituição da inscrição. Quanto mais racional, mais a inscrição se tornava fidedigna de quem a produzia. “A longo prazo, isto conduziu à dependência tipicamente ocidental da racionalidade e da racionalização de toda a experiência, incluindo a da percepção do espaço”. (KERCKHOVE, 1997, p. 59).

No mesmo sentido, estão as considerações de Havelock (1996, p. 81):


A introdução das letras gregas na escrita, em algum momento por volta de 700 a.C., deveria alterar a natureza da cultura humana, criando um abismo entre todas as sociedades alfabéticas e suas precursoras. Os gregos não inventaram um alfabeto: eles inventaram a cultura letrada e a base letrada do pensamento moderno.
Lévy também nos ensina sobre a tendência à internalização da lógica linear a partir da escrita, parecendo referir-se aos gregos, quando do uso do termo ‘letrados’:

As tecnologias intelectuais misturaram-se à inteligência dos homens por duas vias. A escrita, por exemplo, serviu por um lado para sistematizar, para gradear ou enquadrar a palavra efêmera. Por outro lado, ela inclinou os letrados a ler o mundo como se fosse uma página, incitou-os a decodificar os signos como fenômenos, das tábuas de profecias dos magos da Caldéia à decifração do código genético, como se a vida, muito antes dos Fenícios, tivesse inventado o alfabeto. (LÉVY, 1993, p. 71).
Havelock discorre longamente sobre as conseqüências do surgimento do alfabeto, enfatizando uma dupla significação. Primeiro, o fato de que todo discurso passou a ser passível de codificação escrita e, em segundo lugar, o de que o alfabeto aboliu a necessidade de memorização. O autor destaca também o potencial de democratização do conhecimento, a partir do surgimento do dispositivo, mas lembra que este potencial dependia também da organização e manutenção de ensino escolar de leitura, num nível elementar. Trata-se, na verdade, do desencadeamento de um processo que demorou bastante para se implantar, efetivamente, em todo o seu potencial. Independente disso, as conseqüências já estavam ali, enunciadas/anunciadas, diante da evidência das transformações que se avizinhavam.

O que a nova escrita pode ter feito, a longo prazo, foi mudar, em alguma medida, o conteúdo da mente humana. […] A eficiência acústica da escrita teve um resultado que foi psicológico: uma vez aprendida, não se tem que pensar nela. Embora ela seja uma coisa visível, uma série de marcas, ela cessa de interpor-se, como um objeto do pensamento, entre o leitor e sua recordação da língua falada. Desse modo, a escrita veio a assemelhar-se a uma corrente elétrica, ligando uma recordação de sons da palavra falada diretamente ao cérebro, de modo que o sentido parece ressoar na consciência sem referir-se às propriedades das letras usadas. (HAVELOCK, 1996, p.p. 82-83) (grifo meu).
O fato de que os gregos utilizavam materiais diversos para a produção da escrita também contribuiu para o aumento de possibilidades e para a constituição de um outro tipo de relação com os processos de inscrição. Para os textos curtos e de caráter público, eram usados a pedra, o bronze, madeira – como as tábulas com o Código de Leis de Sólon, em Atenas. No caso dos textos mais longos, os materiais adequavam-se. Eram o couro e o papiro.
Entre os mais antigos exemplos de escrita encontramos versos ocasionais e anotações pessoais, inscritos em cerâmica ou gravados na rocha, que demonstram como esse novo alfabeto não era patrimônio limitado a uma casta de escribas, mas por sua simplicidade estava ao alcance de qualquer pessoa que dispusesse de meios para aprendê-lo: pintores de vasos, cinzeladores, gravadores de bronze, cidadãos privados. (GIOVANNINI, In GIOVANNINI et alii, 1987, p. 49).
É preciso fazer aqui a ressalva para o fato de que também na Grécia temos um processo lento a ser considerado. Os gregos levaram um tempo entre a invenção da escrita alfabética, com suas aplicações práticas – dedicatórias tumulares e votivas e fixação de regras sociais e jurídicas – até a difusão ampla do processo de produção e consumo da escrita. Esta difusão provavelmente tem uma relação com o interesse dos governantes na difusão de informações. Elaboravam leis relativas às obrigações das famílias, à educação da juventude, que, segundo eles, precisavam ser apreendidas. De novo, a forte relação escrita e poder.

A relação entre interesse do Estado e disseminação da escrita também pode ser notada, quando estudamos a sociedade romana. A escrita permaneceu durante muito tempo como um privilégio dos sacerdotes e justamente o fato de ser algo de tão poucos, associado a suas características mesmas, fez com que tivesse, para o povo romano, uma espécie de aura mágica.


Tanto para os etruscos como para os romanos a palavra escrita aparece inicialmente, aos olhos da multidão, como que dotada de um poder obscuro e fascinante, seja pela sua duração que desafia o tempo, seja pelo saber que pressupõe. (GIOVANNINI, In GIOVANNINI et alii, 1987, p. 55).
Este caráter fez com que a escrita fosse usada desde o início para fins religiosos e práticas ‘mágicas’. Era o clero que dava forma à escrita e a usava, como convinha. Foram também os sacerdotes que ensinaram aos professores a prática da escrita, transmitindo com isso, é claro, uma determinada lógica da escrita: “[...] ao que tudo indica, a escrita foi objeto de ensino sistemático desde seus primórdios, embora, inicialmente, fosse apenas usada para ocasiões especiais”. (Ibidem)

Um aspecto interessante da relação dos romanos com a escrita é a existência de censura às informações, que se tornavam públicas pela inscrição. Os prefeitos diretores das bibliotecas públicas controlavam a circulação de informações, decidindo, muitas vezes, o desaparecimento de livros considerados ‘suspeitos’ ou ‘perigosos’. Observe-se, então, que imprimir opiniões era, claro, um risco para os autores dos textos. Expunha o sujeito ao julgamento público e, pior que isso, muitas vezes a uma condenação que colocava sua própria vida em risco. O medo de se mostrar, percebe-se, está presente já na Antigüidade.

Os romanos são também responsáveis por um momento de democratização da escrita. A receptividade dos imperadores a tantos quantos sabiam escrever tornava a atividade interessante. Aos poucos, mais e mais pessoas começam a dominar as técnicas de leitura e de escrita, promovendo um verdadeiro mercado de livros.
[...] tinha se modificado [...] a relação entre a enorme massa de usuários e aqueles poucos em condições de escrever, que havia caracterizado toda a antiguidade e que tornaria a diferenciar a atividade cultural da Idade Média até, praticamente, o século XIX. (Idem, p. 60).
No caso do Império Romano, um dificultador da difusão foi a presença concomitante – durante longo período – da escrita grega e da etrusca. Registra-se o aparecimento da escrita alfabética no final dos anos 800 a.C. e, por volta de 700 a.C., o aparecimento de uma tábula de marfim, na Toscana, com o alfabeto etrusco.
No século VII a.C., a Itália recebia dos gregos as primeiras influências de ordem cultural, principalmente seu alfabeto. O alfabeto utilizado pelos romanos era composto de 22 letras, adaptadas das maiúsculas gregas com ligeiras variações [...] Sua escrita era nervosa, extravagante, com letras esguias e angulosas. As palavras não eram separadas e não usavam pontuação. Era repleta de abreviações e siglas, o que dificultava sua leitura e interpretação. (RIBEIRO, 1997, p. 39).
Apesar de todas as dificuldades com o aprendizado e a difusão da escrita, uma das primeiras formas de divulgação de informações através deste dispositivo, que se tem notícia, é atribuída aos romanos, as Atas. Surgidas como decorrência dos antigos álbuns – tábuas brancas fixadas na casa do Pontífice Máximo – as Atas ficaram conhecidas por Acta Diurna, Acta Populi ou Acta Diurna Populi Urbana. Passaram a ser diárias, depois de 69 a.C., por decisão de Júlio César, tornando-se uma espécie de ‘embrião do jornal impresso’. (LIMA, 1989, p.p. 14-15).

Na Idade Média, houve uma retração da escrita, com seu devido enclausuramento nos mosteiros. O efeito das invasões germânicas, com a devastação do Império Romano, provocou isolamento e dificuldade de fluxo de informações.


O isolamento e a dificuldade de circulação marcaram os primeiros tempos de Idade Média, refletindo-se nas formas de Comunicação. O conhecimento da escrita retraiu-se, restringindo-se praticamente aos eclesiásticos. A Igreja tornou-se a guardiã da cultura clássica e a monopolizadora da erudição. (Idem, p. 16).
O conhecimento deste recuo aos mosteiros reforça a percepção sobre o caráter cerimonial e meio sagrado da escrita, restringindo o acesso. No final do período feudal, século XII, a emergência dos mercadores gerou uma outra ambiência, desta vez propícia à difusão da escrita. A circulação dos mercadores fez com que houvesse também um maior fluxo de informações, uma outra relação entre as distâncias e o tempo. Há que se destacar ainda, neste período, o surgimento das universidades: “A de Salerno, já no século XI, é, provavelmente, a mais antiga, mas foi o século XIII a época de maior florescimento: Paris, Bologna, Oxford”. (Idem, p. 19).

A situação de retração da escrita alterou-se mesmo, depois de 1450, com a invenção da imprensa. A escrita começou, aos poucos, a produzir um movimento de aproximação do cidadão comum. Destaque aqui para o papel de Martinho Lutero2 que, com o objetivo de difundir suas teses, questionando algumas práticas da Igreja Católica, valeu-se grandemente do invento de Gutenberg, contribuindo desta maneira também para a difusão, não só da tecnologia criada, mas da própria escrita, como dispositivo importante para a Comunicação Social.

Depois disso, a escrita seguiu tendo grande importância nos diversos veículos de comunicação. Sobreviveu e, ao mesmo tempo, serviu aos Estados Nacionais absolutistas, surgidos nos séculos XVI e XVII. Estes, interessados em difundir suas idéias, submetiam as publicações à aprovação prévia. A escrita também foi, no entanto, usada como instrumento de resistência ao cerceamento de liberdade, como foi o caso do surgimento dos manuscritos, das Gazzetas.

A escrita, a partir do século XVI e XVII, continuou contribuindo para o direcionamento da humanidade para a racionalidade, para a lógica linear. Através da escrita ocorreu a grande difusão das idéias oriundas da Revolução Científica. Idéias que passaram a colocar o homem no centro do universo, propondo estratégias de controle dos fenômenos, visando a um progresso, a uma ‘evolução’ no desenvolvimento supostamente linear dos processos humanos. A história escrita, então, é a história sob a ótica da racionalidade, da fragmentação, gerando ‘uma’ versão dos ‘fatos’, só que revestida de uma aura, como se fosse ‘A Verdade’.

A armadilha, no entanto, está no fato que, da mesma maneira que os pressupostos da revolução científica constituíram-se, com o tempo, à medida que se enrijeceram, em espécies de ‘camisas de força’ para o ser humano em todas as áreas, a escrita os acompanhou. A ênfase exagerada ao racional, à consciência, à estrutura, desconsiderou outras dimensões humanas, essenciais à ‘sobre-vivência’, principalmente no que tange ao plano das intensidades, dos ‘afectos’.

As psicotecnologias da comunicação do século XX, com seu grau de complexidade, também ajudaram o surgimento de uma nova ambiência para a escrita. À medida que surgiam novos e eram transformados os antigos suportes – dispositivos maquínicos – de escrita, o processo de inscrição também ficou mais complexo. A reinvenção do dispositivo, neste sentido, é o nosso desafio, no século XXI.


Considerações Finais
O assunto é fértil, o que demonstra a relevância do que a escrita semeou, como psicotenologia, ao longo da história da humanidade. Os aspectos a serem abordados são muitos. Limito-me aqui, para efeitos de resgate sintético, à retomada de características das inscrições, em relação às mudanças de suportes. Observando que elas passam da irracionalidade para a racionalidade, tendendo, neste momento, para uma espécie de desmanche da racionalidade, como é próprio dos tempos pós-modernos de alta sofisticação tecnológica.

Inscrições incorporais a-significantes – o sujeito se expressava através da gestualidade, grunhidos, não havendo ainda a dimensão do simbólico, ou seja, não havia ainda a convenção de significações. Portanto, não havia código e, em conseqüência, não havia linguagem. Inscrições não significavam… não ‘grudavam’ em suporte algum.

Inscrições incorporais significantes – aos poucos, o vínculo físico, o vínculo à terra, foi criando a necessidade de repetição de gestos, de sons, buscando significação, buscando viabilizar a convivência. Surgiram, então, inscrições que se caracterizavam por não se associarem a um suporte material, mas já com um grau de significância. Sujeitos se expressavam através da fala.

Inscrições corporais significantes – à medida que o homem se fixou no espaço, se vinculou fortemente à terra para produzir o seu sustento – desenvolveu a agricultura – foram necessárias regras de convivência e distribuição da produção. A igreja – ‘os deuses’ – quis a sua parte. Foi preciso controlar a produção. A escrita, naquele momento, grudou-se em suportes e ganhou caracteres que só podiam ser produzidos por uma casta ‘eleita’ de escribas. A escrita vinculou-se ao Poder, à Igreja e ao Estado. A escrita precisou ser aprendida. Quem aprendia ligava-se ao poder. Criaram-se mecanismos de controle da escrita, dos seus suportes e, em conseqüência, do saber escrever. Os suportes estáticos comportavam símbolos fixos, combinados linearmente, segundo regras fixas – estabelecidas por quem ia inventando esse tipo de inscrição. Estas regras, muitas vezes, serviam mais para esconder a informação do que para compartilhar com todos. Regras que informavam, que disponibilizavam a informação para os que sabiam, para os que tinham aprendido a escrever…

Inscrições corporais significantes 2 – os suportes foram se transformando, se tornando mais leves e apresentando possibilidades de reinscrições, de revisões, bem como de combinação de dispositivos de inscrição. Do ponto de vista dos suportes, por exemplo, a invenção da fotografia combinou inscrição à tecnologia, abrindo caminho para a escrita audiovisual – cinematográfica e a televisual. Aqui, nestes dois últimos dispositivos, temos linguagens nem tanto lineares e estáticas, mas intrinsecamente bidimensionais e animadas.

Inscrições incorporais significantes e a-significantes – temos, aqui, a escrita a partir do suporte informático. Ela suporta, ao mesmo tempo, a imagem animada, a interação e a abstração.


[…] a informática contemporânea autoriza a concepção de uma escrita dinâmica, cujos símbolos são portadores de memória e capacidade de reação autônomas. Os caracteres dessa escrita não significarão apenas por sua forma ou disposição, mas também por seus movimentos e metamorfoses. (LÉVY, 1998, p. 17).
Resta, então, apenas enfatizar o aspecto desafiador, relacionado à compreensão da escrita na contemporaneidade. Escrita maquínica, maquinizada. Dispositivo que, a meu ver, pode e deve ser resgatado como recurso de construção, organização e sobrevivência do sujeito da comunicação. Em tempos de caos informacional, quem escreve produz marcas. Marca em si mesmo e propõe marcas para o mundo. Do mesmo modo, considero essencial a associação da escrita a sua dimensão-vida, aos seus aspectos e possibilidades de poética da existência. Como potencial dispositivo, a escrita nos põe em condições de ampliar as relações. Isto só vai ser possível, no entanto, se ela for produzida com a vibração de quem se prepara para a entrega ao outro, de forma cuidadosa, com o objetivo de compartilhar existência, comunicar. Por fim, é preciso compreender a escrita como campo de complexidade, que resulta dos traços intrínsecos ao dispositivo e, entre eles, do seu entrelaçamento com outras formas de expressão. O Recuo no Tempo, neste sentido, é farto de ensinamentos e exemplos acerca dessa complexidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

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RIBEIRO, Milton. Planejamento Visual Gráfico. 4. ed. Brasília: Linha Gráfica, 1997.




1 Este autor é uma das minhas grandes referências para compreender a subjetividade contemporânea. Neste caso específico, refiro-me à transposição do conceito de subjetividade maquínica, para a escrita, resultando, portanto, a expressão ‘escrita maquínica’.

2 Tive oportunidade de conhecer melhor o uso da escrita por Lutero e seus seguidores, com a supervisão e trabalho desenvolvido no projeto da Editora Concórdia, de Porto Alegre, que resultou em publicação voltada para o público infantil, sob o seguinte título: Martinho Lutero. Uma Vida ao Encontro do Deus Amigo.


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