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PSYCHIATRY ON LINE BRASIL

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Março de 2004 - Vol.9 - Nº 3
História da Psiquiatria
Volume 21 - Janeiro de 2016

Editor: Giovanni Torello




História da Psiquiatria
A Contribuição de Nise da Silveira para a Psicologia Junguiana
Fernando Portela Câmara

“O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leãozinho e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará.” (Isaías 11:6)


Não há dúvida de que o pensamento e a praxis Junguiana foram introduzidos no Brasil pela Dra. Nise da Silveira, no final da década de 1950. Em 1954, impressionada com a recorrência de mandalas nas pinturas de esquizofrênicos, ela escreveu ao eminente psiquiatra de Zurique, Carl Gustav Jung, acerca deste material, sendo prontamente respondida e ensejada a sua colaboração (Câmara, 2002, Silveira, 1981). Isto a estimulou a apresentar no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique (1957), uma exposição com as pinturas e modelagens dos esquizofrênicos que ocupavam as sessões de terapia ocupacional no então Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (atual Hospital Pedro II). Esta exposição ocupou cinco salas e se chamou A Arte e a Esquizofrenia, que teve na presença e entusiasmo de Jung reconhecimento e prestígio (figura 1). Jung documentava a linguagem simbólica do inconsciente coletivo, e nada mais eloqüente que sua manifestação na arte espontânea e desengajada nascida dos esquizofrênicos. Ao mesmo tempo, Nise teve a oportunidade de encontrar uma explicação para aquelas figuras e temas tão recorrentes e, assim, ter acesso à uma metacomunicação que abria para ela segredos da esquizofrenia.
Neste encontro memorável em Zurique, o pensamento de Jung uniu-se definitivamente às teorias de Nise sobre a esquizofrenia e seu tratamento através da terapêutica ocupacional. Foi ainda neste período seminal que ela iniciou análise com Marie Louise von Franz, também em Zurique, seguida de sua colaboradora a psiquiatra Alice Marques dos Santos. Ambas retornariam a Zurique uma vez por ano para dar continuidade a esse trabalho. Ao retornar do congresso, onde obteve reconhecimento pelo seu trabalho, Nise iniciou o Grupo de Estudos C. G. Jung que tinha por objetivo divulgar o pensamento deste psicólogo. A partir daí, o grupo seria muito ativo, promovendo seminários, publicações (a revista Quatérnio) e pesquisas. Posteriormente, foi criado o Museu de Imagens do Inconsciente para preservar o acervo de pinturas e esculturas dos esquizofrênicos que freqüentavam o Setor de Terapêutica Ocupacional do já então Hospital Pedro II.
Cerca de uma década depois, o Grupo de Estudos C. G. Jung foi formalmente oficializado como pessoa jurídica. Este grupo foi registrado no Cartório Castro Menezes, cidade do Rio de Janeiro, em 31 de janeiro de 1969 e seus estatutos assim definiu sua finalidade: “estudos, pesquisas, divulgação, publicações, cursos, palestras e conferências, referentes a Psicologia Junguiana e ciências afins”. Os sócios fundadores deste grupo, relacionados no mesmo documento, foram Miriam Dina Eijenberg, Ewald Soares Mourão, Alice Marques dos Santos, Feodora Theresa McKail, Moacyr Schorr, Efren Maldonado Roland, Arthur Alves de Passos Salles, Pedro Rocha Lima, Szulim Majowka, Edgard Soares dos Anjos, Alfredo Botelho Benjamim e Ricardo Mario Gonçalves. A primeira diretoria estava composta por Nise da Silveira, presidente, Ewald S. Mourão, vice-presidente, Alice M. dos Santos, secretário geral, Feodora T. McKail, 2o secretário, Moacyr Schorr, tesoureiro geral, Efren M, Roland, 2o tesoureiro, e o conselho formado por Arthur A. de Passos Sales, Pedro R. Lima, Szulim Majowka, Edgard S. dos Anjos, Alfredo B. Benjamim e João Baptista Bandeira de Mello.
Precedendo a formação do Grupo de Estudos C. G. Jung e do Museu de Imagens do Inconsciente, Nise criou a Casa das Palmeiras no início da década de 1950. Esta instituição foi criada para servir de ponte entre o Hospital Psiquiátrico e a Sociedade, e foi, sem dúvida, o protótipo dos Hospitais Dia de hoje. Pacientes eram enviados para lá às tardes e então participavam da terapia ocupacional que envolvia várias atividades. Os pacientes em acompanhamento externo continuavam sua medicação na Casa das Palmeiras, e os que não tinham acompanhamento externo eram medicados por psiquiatras voluntários que lá trabalhavam. A Casa das Palmeiras foi um dos símbolos do movimento da psiquiatria social no Brasil, e talvez por isso, Robert Laing e Franco Basaglia tenham ficado tão entusiasmados e impressionados ao visita-la
Nise dividia suas atividades entre o Grupo, o Museu e a Casa das Palmeiras. O Grupo era reservado aos estudos e pesquisas, o Museu guardava o acervo iconográfico dos esquizofrênicos, que servia de material de pesquisa, e a Casa das Palmeiras era o local onde efetivamente lidava-se com o esquizofrênico e onde acontecia a praxis de Nise. É, pois, neste local que convergia a experiência de Nise em terapia ocupacional, psiquiatria e psicologia Junguiana.
Quando iniciei a freqüentar o Grupo (década de 1980, e depois extemporaneamente) conheci Nise e sua colaboradora Alice, ambas ativas e com impressionante vigor, apesar das idades. Meu interesse era em pesquisa, portanto, não estava motivado nas atividades desenvolvidas na Casa das Palmeiras. No Grupo, associei-me ao psiquiatra Adriano Pires de Campos, que era o presidente do Grupo na época, Miriam D. Eijenberg, colaboradora de Nise desde o início do Grupo e uma das fundadoras deste, e ao psiquiatra Paulo Romangüera, já falecido. Formamos uma equipe para pesquisar a pouco conhecida psiquiatria Junguiana, já que a psicologia Junguiana era mais divulgada e procurada. O contato com estes amigos desfez para mim o mito de que Nise não adotava o tratamento medicamentoso, pois na Casa das Palmeiras prescrevia-se também neurolépticos, procedimento que a própria Nise da Silveira considerava necessário para reorganizar os pacientes em surtos agudos (Adriano P. de Campos e Miriam D. Eijenberg, comunicações pessoais). De fato, Jung era um defensor do tratamento farmacológico da esquizofrenia, doença que ele considerava como sendo basicamente uma auto-intoxicação da célula nervosa que necessitava intervenção farmacológica (Fierz, 1997, p. 167).
Nise acreditava ter comprovado a tese de Jung sobre os arquétipos e a mente esquizofrênica, e gostava de chamar a atenção para os símbolos que denotavam a tentativa desta psique em se reorganizar, as mandalas. Entretanto, o interesse de Nise na metalinguagem expressa pelos esquizofrênicos espontaneamente em suas pinturas, cuja vasta iconografia está conservada no Museu de Imagens do Inconsciente, levou-a a ir mais além. Ela se opunha aos psicanalistas que afirmavam não haver transferência na esquizofrenia, o que em psiquiatria relaciona-se ao embotamento e distanciamento afetivo do doente. Nise não concordava com isso e insistia na tentativa do esquizofrênico em formar uma ponte afetiva com o mundo, e mostrava como isto se exprimia nas pinturas e na relação com os animais (Câmara, 2002). Enfim, para ela, o psiquiatra deveria se concentrar na metalinguagem do esquizofrênico, e entender o significado dos seus símbolos. Eu mesmo só vim compreender o que ela dizia quando pude constatar, nas pinturas de pacientes esquizofrênicos de quem cuidei, tudo o que ela havia nos ensinado, e também falado e escrito ao longo de sua vida (os esquizofrênicos freqüentemente respondem ao apelo de se ocuparem com desenhos e pinturas, ao contrário dos deprimidos e, em especial os neuróticos, demasiadamente narcisistas). Em outras palavras, para Nise, o esquizofrênico não é um ser enquistado, mas um frágil gérmen de vida que procura em vão romper a densa casca que o impede de ver a luz do mundo. Considero esta experiência uma das contribuições de Nise da Silveira à Psicologia Junguiana. A experiência de Nise com a esquizofrenia e a psicologia de Jung está admiravelmente relatada no seu livro Imagens do Inconsciente (1981).
Míriam Dina Eijenberg, uma dos fundadores do Grupo de Estudos C. G. Jung, foi uma das poucas pessoas a conhecer intimamente a praxis e o pensamento de Nise, e aproveitei sua experiência pessoal com a mestra para escrever parte deste artigo. Míriam, mitógrafa e professora de cultura judaica, foi um dos poucos profissionais analisados por Nise, foi formada pela própria na sua técnica de terapia ocupacional. Ela criou o Grupo Cultural da Casa das Palmeiras em 1970 e introduziu a prática do Tai Chi Chuan como parte da T. O., no que, aliás, obteve grande sucesso.
Uma característica singular da prática analítica de Nise era a presença de gatos e cães no setting, fosse na sala onde atendia privadamente seus analisandos, fosse na sala onde funcionava o grupo de estudos, no ambiente do Museu, enfim, em tudo onde sua presença se fazia. É curioso assinalar esta convivência pacífica entre cães e gatos, animais que, independentemente do que possa se sentir por eles, dão sempre seu afeto de forma incondicional. Os pacientes e os clientes, inicialmente avessos àqueles animais, com a evolução da terapia, aproximavam-se deles, cuidando, afagando, restabelecendo suas energias afetivas (Míriam D. Eijenberg, comunicação pessoal). O restabelecimento da afetividade era algo notável na técnica de Nise, que gostava de dizer que “o bicho é o co-terapeuta” (Míriam D. Eijenberg e Adriano P. de Campos, comunicações pessoais).
Penso que a presença daqueles animais, mesmo nas sessões privadas, representava a influência da terapêutica ocupacional. A relação entre paciente e animais é essencialmente não verbal, e era por esta via que Nise procurava captar as dificuldades de seus pacientes e mobilizar a partir daí as primeiras manifestações de cura (Míriam D. Eijenberg, comunicação pessoal). Considero também esta uma das mais importantes e singulares contribuições de Nise da Silveira para a Psicologia Analítica de Jung.
Quando nos inteiramos da teoria de Nise da Silveira sobre a Terapia Ocupacional, percebemos que ela a conceituava como uma psicoterapia não verbal. De fato, ela é o cerne de toda psiquiatria de Nise, onde o indivíduo se expressará em uma linguagem mais arcaica, mais universal, mais coletiva. Foi na psicologia Junguiana que ela encontrou não somente a explicação que buscava para a iconografia dos seus pacientes esquizofrênicos, como também a base teórica que dava corpo à sua experiência pioneira com a terapia ocupacional. No livro sobre T. O. (Silveira, s/d), ela escreveu o seguinte: “É sobretudo na psicologia Junguiana que se pode encontrar base sólida para a compreensão da terapêutica ocupacional como psicoterapia de nível não verbal. `A psique é na sua origem, diz Jung, uma função do sistema nervoso difundida em todo o corpo e cujo centro, filogeneticamente, não se achava na cabeça porém no ventre, nas suas massas ganglionares'. O plexo solar, no conceito de Jung, seria a primeira localização psíquica [...] se o plexo solar e o plexo cardíaco são centros psíquicos rudimentares, poder-se-á admitir que no curso da primeira infância traços mnêmicos de forte carga afetiva aí se acumulem. Será difícil, através do instrumento verbal, mobilizar esses afetos tão profundamente depositados e traze-los à consciência. O mais simples e o mais eficaz será o declive que a espécie humana sulcou durante milênios para exprimi-los: a dança, as representações mímicas, a pintura, a escultura, a música. O contato, a comunicação com o psicótico terá um mínimo de probabilidade de efetivar-se se pretendermos iniciá-las no nível verbal das nossas habituais relações entre pessoas. Isso só ocorrerá quando o processo de cura já se achar bastante adiantado. O médico que deseje comunicar-se e compreender o seu doente terá de partir do nível não verbal. É aí que se insere a ocupação terapêutica” (Silveira, s/d, p. 17).
(É interessante notar que o pensamento de Jung tinha uma tendência dialético-materialista, e não idealista como seus atuais seguidores supõe e propagam. Note na citação acima como Jung considerava a psique, em sua origem, como “uma função do sistema nervoso difundida em todo o corpo”, portanto, não há idealismo nesta afirmação, e também sabemos que ele pessoalmente considerava os arquétipos como organizadores de comportamento, portanto, com uma base genética. É possível que este detalhe tenha sido complementar na absorção da psicologia Junguiana na obra de Nise da Silveira. Pessoalmente, jamais percebi em Nise um pensamento ou uma orientação idealista, e mesmo seu profundo interesse por Spinoza (Silveira, 1995) e, conforme me revelou, pelo profeta Isaías, sobre o qual trocamos alguma correspondência.)
O curso de formação de terapeutas ocupacionais da Casa das Palmeiras era coordenado por Nise e tinha um currículo intensivo de psiquiatria seguido da prática. As noções de psiquiatria eram dadas pelos psiquiatras Alice Marques dos Santos e M. Kalile, pois o terapeuta devia conhecer a fundo esta especialidade antes de usar a T. O. em seus pacientes (Míriam D. Eijenberg, comunicação pessoal). A prática era supervisionada por Nise da Silveira, que gostava de chamar o trabalho com a T. O. de “atividades curativas”, e não gostava que chamassem essa atividade de “arteterapia”, como era corrente (Míriam D. Eijenberg, comunicação pessoal). Para a Nise, a T. O. não buscava fazer arte, mas dar ao paciente a liberdade para ele criar algo, sendo o ato de fazer e a espontaneidade criativa as “forças curativas” da T. O.. Por esta razão, a arte dos esquizofrênicos era apenas um efeito, uma decorrência, no entendimento de Nise, e ela era muito afirmativa nisto, a ponto de não permitir que a produção de seus pacientes se tornasse uma atividade econômica, pois, assim ela teria um fim que em si mesmo não é “curativo” (Míriam D. Eijenberg, comunicação pessoal). Neste ponto, Nise discordava frontalmente da T. O. com propósitos econômicos ou mesmo artísticos, pois, o valor curativo desta terapia residia inteiramente na espontaneidade do ato de fazer.
Aqui temos outra importante contribuição de Nise da Silveira para a Psicologia Analítica Junguiana: a demonstração de que sua prática pode se dar também por via não verbal. A reunião da concepção de terapia ocupacional de Nise da Silveira (Câmara, 2002) com a Psicologia Analítica resultou numa ampliação desta para o mundo do esquizofrênico, permitindo, pela primeira vez, através do contato com os animais, da espontaneidade do fazer e da metalinguagem, a possibilidade de acessar o ser recolhido em seu mundo inconsciente e infundir nele forças curativas mediadas por símbolos e afetos.
Referências:
Câmara, F. P. Vida e Obra de Nise da Silveira, Psiquiatria On-Line Brazil (7), setembro, 2002 (http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0902.htm, acessada em 26.02.04).
Fierz, H. K. Psiquiatria Junguiana (Jungian Psychiatry), Ed. Paulus, São Paulo, 1997.
Silveira, N. G. Terapêutica Ocupacional - Teoria e Prática, Casa das Palmeiras, Rio de Janeiro, s/d.
Silveira, N. Imagens do Inconsciente, Ed. Alhambra, Rio de Janeiro, 1981.
Silveira, N. Cartas a Spinoza, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1995.
Álvaro Rubim de Pinho
Figura 1: esta foto, tomada por ocasião do II Congresso Internacional de Psiquiatria (Zurique, 1957) mostra o dedo de Jung explicando uma mandala pintada por um dos esquizofrênicos do Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (atual Hospital Pedro II), então dirigido por Nise da Silveira. Esta impressionante fotografia tornou-se uma espécie de logomarca do Grupo de Estudos C. G. Jung.


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