Pugile” danilo augusto de solferini e souza – Nº 198



Baixar 85.47 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho85.47 Kb.




PUGILE” - DANILO AUGUSTO DE SOLFERINI E SOUZA – Nº 198
FADE IN:

INT. GINÁSIO DE LUTA LIVRE – RINGUE - NOITE

Giro em torno do ringue. Apenas as pernas dos dois lutadores que combatem estão visíveis. A torcida grita.

Os lutadores caem na lona. Suas cabeças entram em quadro, revelando feições de esforço e de dor. Um dos lutadores é KID NENO.

Os lutadores se levantam. Novamente apenas suas pernas ficam visíveis.

Os lutadores caem novamente.

O lutador que esta imobilizado por Kid Neno lança um olhar de socorro diretamente para a câmera.

LUTADOR IMOBILIZADO

(grita mas o som é abafado pela ruído da torcida)

Perninha!

Um braço entra em quadro, aproximando-se do rosto de Kid Neno. Em sua mão o braço traz metade de um limão, que é impiedosamente espremido dentro dos olhos de Kid Neno.

O público se revolta.

Entre o público que está de pé figura DOUGLAS, rapaz de 23 anos, portador de síndrome de Down, que senta-se e balança a cabeça negativamente.

EDINHO, 30 anos, baixinho, gordinho, de bigode e um pouco calvo, com seu uniforme de assistente de lutador onde lemos “Perninha” e seu rosto pintado ao modo Kiss, lambe o limão em pose de rebelde metaleiro e aponta o dedo para Douglas, na platéia.

Douglas leva as duas mãos aos olhos.

CORTA PARA TELA ESCURA. TÍTULO DO FILME.

CORTA PARA EXT. RUA DE LADRILHOS – NOITE

Edinho (sem uniforme nem pintura de Perninha) e Douglas caminham pelo meio da rua sob as luzes frias dos postes. Douglas cabisbaixo.

EDINHO

Bom nome. Bom nome. Pugile. Pugile.



Edinho executa de maneira esdrúxula alguns golpes de boxe no vazio.

Douglas continua cabisbaixo.

EDINHO

Melhor que Perninha, né?



Continuam andando. Douglas indiferente.

EDINHO


Acho que eu vou mudar meu nome. (Pausa) Que é que você acha?

Douglas sequer vira o rosto para Edinho. Tem a cara emburrada.

EDINHO

Porra, você não vai falar comigo mesmo, né? Tudo bem.



Edinho e Douglas prosseguem seu caminho. Uma lâmpada em mal contato chia e pisca num poste.

CORTA PARA EXT. RUA DA CANTINA NARDI – NOITE

Edinho e Douglas entram numa casa comercial bem pequena, localizada em meio a residências simples, numa rua pouco movimentada. Num toldo a inscrição “Cantina Nardi”.

CORTA PARA INT. CANTINA NARDI – NOITE

Uma cantina pequena com fotos dos times de futebol do bairro, poucas mesas com toalhas típicas, garrafas de vinho e salames pendurados.

DONA EDNA NARDI, 68 anos, baixinha, gordinha, italiana simpática, fecha a porta de aço da cantina e começa a recolher pratos sujos e talheres sobre as mesas.

Edinho está sentado numa das mesas, raspando o prato com garfo e produzindo um ruído irritante.

Douglas, de pé na frente do balcão, usa uma flanela para limpar um quadrinho com um retrato.

Dona Edna, com a pilha de pratos nas mãos, se aproxima da mesa de Edinho.

DONA EDNA

Terminou?

Edinho coloca o garfo atravessado no prato. Encosta na cadeira, leva as mãos à barriga e infla as bochechas num arroto contido. Dona Edna pega o prato de Edinho e o deposita sobre a pilha. Caminha até o balcão, levando os pratos. Douglas limpa o quadro com muita força, nervoso.

DONA EDNA

Que foi meu filho? Tá brigado com teu irmão outra vez? Pô, a única coisa que vocês fazem juntos é ir na luta e quando voltam ainda ficam brigados.

Douglas faz um gesto brusco, de raiva, erguendo o braço direito na direção de Edinho.

Dona Edna coloca os pratos sobre o balcão. Pega um dos pratos e com um garfo joga as sobras de comida numa lixeira.

DONA EDNA

Não fica assim não. Teu irmão não é mal não, é tudo faz de conta. Não é não meu filho?

EDINHO

Não mãe, não é faz de conta não. Eu sou mal mãe, eu sou mal.



Edinho mostra a língua para Douglas, ao modo “Kiss”, como fizera na luta. Leva um palito de dentes à boca. Faz pose de mal.

Douglas passa por Edinho carregando o quadrinho.

EDINHO

(fazendo um gesto com a cabeça em direção a Douglas)



De herói barato na família já basta o pilantra do pai.

Dona Edna joga o prato que esvaziava na lixeira sobre a pilha de pratos no balcão. Dona Edna faz um gesto brusco, de raiva, erguendo o braço direito na direção de Edinho. Sai.

Edinho lentamente troca o palito de lado em sua boca. Desvia seu olhar da mãe para Douglas, que pendura o quadrinho na parede.

No quadrinho o retrato de um homem muito alto, forte, com roupas e luvas de goleiro sob uma trave. O homem está com os braços estendidos, joelhos levemente friccionados em posição de goleiro que aguarda um chute. Aproximamos do retrato e lemos, na moldura, o nome “Stephano Nardi”.

Entramos na foto. Lentamente o goleiro desaparece.

FUSÃO PARA EXT. CAMPO DE VÁRZEA – DIA

O mesmo espaço que figurava na foto, campinho de várzea, a trave com a paisagem da cidade ao fundo. Agora sem o goleiro.

Edinho entra carregando uma bola de futebol. Aproxima-se da trave.

Solta a bola diretamente em seu pé esquerdo e dá um chute violento, tentando isolar a pelota. No entanto a bola bate na trave superior e volta na direção de Edinho. Edinho se esquiva, irritado.

A bola sai, quicando.

Edinho passa a mão na cabeça.

Edinho coloca as mãos nos joelhos e olha a cidade emoldurada pelas traves do campinho. Dona Edna chega pelo lado que saiu a bola. Na mão direita dona Edna puxa um carrinho de feira lotado de compras. Na mão esquerda traz a bola. Dona Edna observa Edinho por alguns instantes.

Dona Edna joga a bola sem força contra a cabeça de Edinho. Acerta em cheio. Edinho volta-se assustado, vê a mãe e abre os braços como quem diz “o que é isso mãe?”

Edinho pega a bola. Caminha em direção a dona Edna. Dona Edna toma a bola das mãos de Edinho e aponta o carrinho de feira, cheio de compras.

Edinho e dona Edna deixam o campinho. Edinho puxa o carrinho de feira.

NARRADOR (v.o.)

Último combate da noite, senhoras e senhores, em que o terrível Montanha desafia o campeão mundial dos Reis do Ringue, o prodígio da luta livre Silva Boy.

CORTA PARA INT. GINÁSIO DE LUTA LIVRE – RINGUE - NOITE

Sentados a uma mesa de transmissão estão NARRADOR, de fone nos ouvidos e microfone na mão. Ao lado do narrador estão ADILSON DO BELENZINHO e NETÃO DA FIEL, comentaristas da luta. Ruídos da torcida.

NARRADOR


Juiz: o imparcial Moreira.

Moreira limpa na camisa listrada seus óculos fundo de garrafa.

NARRADOR (o.s.)

Assistentes: Taylor no córner de Silva Boy.

Do córner Taylor acena para a torcida. A torcida nem se manifesta.

NARRADOR (o.s.)

E Perninha no córner de Montanha.

Perninha, no córner de Montanha, tapa o rosto com uma capa. Baixa a capa e com o rosto pintado mostra a língua pra torcida. A torcida vaia. Perninha se aproxima do narrador, retira um lado do fone e fala em seu ouvido.

NARRADOR

Olha gente, o Perninha aqui tá pedindo pra mandar um abraço pro seu irmão, o Douglas que está presente aqui.

A torcida vaia muito. Douglas tapa os ouvidos com as mãos.

NARRADOR


Para comentar este imprevisível combate, Adilson do Belenzinho e Netão da Fiel. Você apontaria algum favorito pra essa luta Adilson?

Adilson do Belenzinho de olhos esbugalhados soa o nariz. O narrador leva o microfone na direção de Adilson. É brusca e violentamente interceptado por Netão da Fiel, que toma o microfone e a palavra.

NETAO DA FIEL

É isso aí, queria agradecer a oportunidade e denunciar a presença da galera aí da fiel e acho que o favorito é o Montanha. É ou não é?

Uma galera da Fiel presente no ginásio grita e bate tambores, concordando.

Soa o gongo.

Os dois lutadores se estudam. Montanha é um gordo imenso, usa bermuda e meias de lycra. Silva Boy é baixinho e magrinho, tem uma enorme trança nos cabelos. Montanha e Silva Boy chocam-se.

Ao som dos lutadores pisando e se chocando contra a lona reações de pessoas da platéia: revolta, euforia, indignação, graça.

Silva Boy dá uma chave de perna em Montanha. Silva Boy está no canto do tablado, próximo as cordas. Montanha expressa sofrimento.

Edinho dá a volta no ringue e se aproxima, por trás, da cabeça de Silva Boy.

O publico grita e faz gestos, tentando avisar a Silva Boy que Edinho vai armar contra ele.

Douglas também faz gestos para avisar Silva Boy do perigo.

Edinho pega sorrateiramente a longa trança de Silva Boy, dá uma volta com a trança em torno da corda e prende a trança com um nó.

A torcida grita revoltada.

Silva Boy tenta livrar-se. Montanha inverte a chave de perna e passa a levar vantagem. Montanha imobiliza Silva Boy deitando-se sobre ele. O juiz conta até dez e finaliza a luta.

Montanha corre em torno do ringue comemorando a vitória. Edinho toma o cinturão de campeão das mãos de Taylor. Edinho ostenta o cinturão apontando para Montanha. A torcida vaia. Silva Boy sai arrasado.

Edinho se aproxima do ringue. Ergue o cinturão para que Montanha possa alcançá-lo. Montanha pega o cinturão e estende a mão convidando Edinho para subir ao ringue. Edinho sorri surpreso e agraciado. Aceita o convite e dá a mão a Montanha. Montanha puxa Edinho. Em pleno movimento de subida Montanha solta a mão de Edinho. Edinho cai de costas no chão.

O público delira em gargalhadas. Todos riem, inclusive Montanha e a mesa de comentaristas. Edinho levanta sem graça, olha em torno meio tonto, confuso. O público debocha. Edinho procura Douglas na platéia. A cadeira que seu irmão ocupava está vazia.

EDINHO

(dirigindo-se a Netão da Fiel)



Porra Netão, viu meu irmão?

NETÃO


Porra Perninha, se fudeu, hein?

Edinho vai em direção à porta do ginásio. Passa pelo meio do público que dá tapas em sua cabeça, gargalha e grita.

Edinho chega à porta do ginásio. Aproxima-se de seu GERMANO, vigia que está sentado olhando pra rua, ouvindo um radinho de pilha colado ao ouvido.

EDINHO


Ô seu Germano, você não viu meu irmão por aí?

SEU GERMANO

O Douglinha? O Douglinha saiu faz uns dez minutos.

EDINHO


Porra seu Germano, já não falei que é pro Douglinha não sair sozinho porra?

Edinho sai do ginásio.

CORTA PARA EXT. ARREDORES DE LINHA FÉRREA – NOITE

Edinho caminha rapidamente próximo a uma linha do trem.

EDINHO

(gritando)



Douglas! Douglas!

Um trem passa e abafa o som da voz de Edinho.

CORTA PARA EXT. RUA DA CANTINA NARDI – NOITE

Edinho caminha em direção a cantina e vê uma ambulância estacionada na porta. A sirene ligada. Algumas pessoas da vizinhança em torno da ambulância.

EDINHO

Que foi? Que foi? Que que aconteceu com meu irmão?



Uma doce senhora com olhos lacrimejantes se aproxima de Edinho.

DOCE SENHORA

(passando a mão no rosto de Edinho)

Não foi nada com o Douglinha não, foi com a sua mãe.

Edinho encosta na ambulância. Ergue a cabeça e em perspectiva vê seu irmão, ainda distante da confusão, vindo sozinho pela rua.

Douglas, ao avistar a ambulância, pára no meio da rua. Edinho caminha em direção a Douglas. Os dois ficam frente a frente. Edinho leva as mãos ao rosto.

CORTA PARA EXT. PRACA DA ZONA LESTE – DIA

Edinho e Douglas sentados, sérios, num banco de praça. Edinho tira pedacinhos de pão de um pacote de papel e joga para algumas pombas que estão em volta do banco. Douglas apóia os cotovelos no joelho e segura a cabeça com as mãos.

Edinho prossegue no repetitivo movimento de tirar pedacinhos do pão e atirar aos pombos.

Douglas levanta-se e com os pés espanta os pombos. Senta-se novamente no banco.

CORTA PARA INT. CANTINA NARDI – NOITE

Edinho apoiado no balcão observa Douglas.

Douglas está sentado assistindo a tv sem som. A tv está sobre a mesa, a tela bem próxima ao rosto de Douglas.

Os dois permanecem em silencio por algum tempo.

Edinho espicha o olho para ver o que Douglas está assistindo.

Na tv a transmissão da luta livre.

EDINHO

Vamo lá pro ginásio Douglinha? Agora? Não tá com saudade? Faz um tempo que a gente não vai lá, vamo?



Douglas faz que não com a cabeça.

EDINHO


(falando pra si mesmo)

É, eles devem tá sentindo minha falta lá. Hein Douglinha vamo lá porra.

Douglas diz que não com a cabeça.

EDINHO


Que que é hein, tá assim por causa da mãe?

Douglas se move incomodado na cadeira.

EDINHO

Ô meu, não fica assim não, vou te explicar ó.



Edinho caminha em direção a mesa de Douglas.

Douglas aumenta o volume da tv ao máximo.

Edinho puxa uma cadeira. Desiste de sentar. Olha pra Douglas, fazendo sinal de negativa com a cabeça. Edinho vira de costas para Douglas e caminha de volta para o balcão.

EDINHO


Então pelo menos muda pra novela.

Edinho volta para sua posição inicial, apoiado no balcão.

EDINHO

(falando para si mesmo)



Vê luta pela tv é foda.

CORTA PARA EXT. FRENTE DO HOSPITAL – DIA

Um carrinho de sorvete. O hospital ao fundo.

Douglas, de pé, come o fim de uma casquinha de sorvete. Edinho, também de pe, segura outra casquinha, ainda inteira e com meio sorvete em cima.

EDINHO

Quer o meu? Não tô mais a fim não.



Douglas leva o último pedaço de sua casquinha a boca. Pega o sorvete de Edinho. Douglas não come, mas aproxima o sorvete do rosto e olha com desconfiança para o doce.

EDINHO


Você viu que ela não tá tão mal?

Douglas fica concentrado no sorvete.

EDINHO

A mãe vai sair logo daí meu. Você vai ver. E enquanto a mãe não sai nós tamo aqui junto ó, eu cuido de você e você cuida de mim.



Douglas faz uma expressão irônica e joga o sorvete numa lata de lixo.

CORTA PARA INT. CANTINA NARDI – NOITE

Douglas sentado a uma das mesas da cantina, rosto próximo da tela da tv.

Edinho está de pé na porta da cantina, olhando pro céu. Edinho caminha pro interior da cantina, olha pro relógio, pára, volta a caminhar na direção contrária, chega novamente a porta da cantina, olha pra rua, olha pro céu e caminha pra dentro novamente.

Ruído de fogos de artifício vindo de fora.

EDINHO


Que barulho é esse hein? Será que é tiro?

Edinho vai até a porta. Olha pro céu.

EDINHO

Ih, olha lá Douglinha, vem ver!



Douglas continua imóvel diante da tv.

EDINHO


Porra que bonito! Douglinha acho que é um balão de festa junina meu, bonito pra caralho! Vem ver, vem ver.

Edinho alterna sua mirada entre o céu e Douglas.

EDINHO

Puta balão grande meu, cheio de rojão Douglinha, tá clareando o céu todo, acho que é de festa junina.



Douglas continua olhando a tv.

Na tv estouram fogos de artifício coloridos. O time do Palmeiras comemora um título, carregando a taça de campeão. Os jogadores do Corinthians saem de campo desolados.

EDINHO

Porra o balão tá caindo Douglinha! Vem ver Douglinha, vai cair na nossa rua, vai cair bem na frente da cantina meu! Porra Douglinha tá caindo, tá caindo Douglinha!



Um balão cai bem na frente da porta da cantina. Fogos estouram. Edinho entra correndo, estabanado, derrubando mesas e cadeiras a sua frente.

Douglas enfim desvia o olhar da tv e vê assustado o balão que queima na frente da cantina.

O ruído dos fogos de artifício cessa.

Na porta da cantina, com um salto desajeitado e fake como se aterrissasse, aparece Kid Neno, vestindo sua fantasia de lutador e trazendo nos ombros varinhas típicas de bolo de aniversario, produzindo faísca.

EDINHO

Ih, olha lá Douglinha, é o Kid, teu ídolo!



Kid sopra as varinhas que produzem faísca, tentando apaga-las. Desiste.

KID NENO


E ai herói, hoje eu vou ter a luta mais importante da minha vida cara, a luta mais difícil de todos os tempos. Conto contigo ok?

Kid Neno dobra o joelho em arco e ergue um dos braços em posição de Karateca, pedindo um cumprimento de Douglas. Douglas permanece observando.

EDINHO

Olha ai Douglinha, nao vai cumprimentar o Kid, seu ídolo? O cara veio aqui te convidar pra ir na luta, meu.



Douglas se vira novamente para a tela da tv sem nenhuma empolgação.

Sem graça Kid Neno desfaz a pose de herói. Olha para Edinho em interrogação.

EDINHO

Ó, não tem nada não Aldair, desculpa aí fazer você perder seu tempo.



Edinho senta numa cadeira e deita a cabeça sobre a mesa. Douglas olha para Edinho.

Douglas cutuca as costas de Kid Neno. Douglas oferece a mão direita para cumprimentar Kid Neno. Kid Neno aceita o cumprimento. Dão-se as mãos.

EDINHO

É isso aí Douglinha!



CORTA PARA INT. GINÁSIO DE LUTA LIVRE - RINGUE – NOITE

Edinho chega com Douglas. Os dois usam jaqueta de nylon com o escudo do Palmeiras e óculos escuros. O público vai ocupando seu lugar. Edinho leva Douglas ao lugar cativo, ao lado da mesa do narrador e comentaristas. Edinho olha pro narrador e baixa seus óculos discretamente tentando manter-se incógnito. Gestualmente Edinho mostra ao narrador que vai assistir a luta dali, da área nobre, com seu irmão.

O narrador reconhece Edinho e se exalta.

NARRADOR


Vejam só que surpresa, quanto tempo hein, temos uma presença ilustre hoje aqui no ginásio.

Edinho sinaliza desesperado para que o narrador não revele sua identidade secreta.

Enquanto a platéia chega kid Neno se aquece num canto do ginásio, próximo a porta dos camarins.

EDINHO


Olha quem tá ali, o Kid, vou falar com ele.

Edinho vai até Kid Neno. Os dois trocam poucas palavras e entram nos camarins.

Um ruído de instrumentos cresce no ginásio. Netão da Fiel se levanta da mesa de transmissão, vira-se para o publico e faz sinal de “vem cá” com as mãos.

Douglas olha na direção apontada por Netão da fiel. A torcida Fiel chega ao ginásio, cantando e tocando sua percussão. O grupo de torcedores se aproxima da mesa de transmissão e posta-se exatamente atrás de Douglas. O ruído cresce muito. Douglas tapa os ouvidos. Olha pra porta dos camarins. Nem sinal de Edinho.

NARRADOR

Senhoras e senhores, atrás daquela porta há uma besta, um monstro, a mais abominável criatura andante sobre todas terras. O pior ser vivente entre os vivos e os mortos, ela, a imortal, aaaaaaaa Mumia!

Musica tétrica, tema dos bandidos. A Múmia irrompe da porta, um ser enrolado em ataduras brancas e usando uma tanga preta. A torcida reage com vaias.

Netão da Fiel tira o microfone da mão do narrador.

NETÃO DA FIEL

Ai, vamo cala a boca aí! Respeitar esse momento triste. Nosso time perdeu hoje. Acontece. Futebol é uma caixinha de surpresas. Mas aqui não, aqui a coisa vai ser diferente, a Múmia tá de preto e branco, vocês querem saber? (olha pra torcida) A Múmia é da Fiel!

A torcida responde com delírio, gritando e tocando seus instrumentos.

O narrador retoma o microfone.

NARRADOR

No lado oposto, ele, o último herói sobre a terra, o último sobrevivente de Atlântida, o homem que expulsou o faraó do Egito, ele, Kiiiiiid Neeeeno!

Musica de mocinho. Da porta do lado oposto ao da Múmia sai Edinho vestido de Kid Neno. As roupas apertadas, a barriga aparecendo. O narrador ri. Todos riem mas aplaudem. Douglas coça a cabeça.

NARRADOR


Ô gente, essa roupa do Kid encolheu hein?

Edinho (vestido de Kid Neno) sobe no ringue e faz um sinal de positivo para Douglas.

Douglas responde.

Soa a gongo.

Edinho pára diante da Múmia em posição de luta karateca.

Alta, de braços abertos, com os joelhos levemente friccionados, as pernas afastadas e os braços estendidos, a Múmia toma a postura clássica das Múmias de filmes de terror.

Num movimento circular da câmera em torno da Múmia (numa paródia à cena do filme “cidade de deus” )

FUSAO PARA EXT. CAMPO DE VÁRZEA – TARDE

Stephano Nardi, pai de Edinho e Douglas, está em posição de goleiro, como na foto que Douglas limpava na cantina. Stephano está na mesma posição que a de Múmia.

STEPHANO NARDI

Chuta essa bola direito porra, será que só tem retardado nessa família?!?!

Stephano Nardi faz gestos com a mão pedindo que chutem a bola.

STEPHANO NARDI

Chuta retardado, chuta!

FUSAO PARA INT. GINASIO DE LUTA LIVRE - RINGUE – NOITE

Múmia está na mesma posição de Stephano Nardi, usando os mesmos gestos com as mãos, chamando Edinho pra briga. Edinho se transfigura. Suas mãos se fecham com muita raiva. Ele corre alucinado em direção a Múmia, que se assusta. Antes que a Múmia possa se defender Edinho acerta um chute em cheio, diretamente nas bolas de Múmia. A Múmia cai de joelhos.

O público assiste atônito.

Edinho, completamente descontrolado, pega um banco de madeira que está no córner. Desfere covardemente vários golpes de banco contra a cabeça de Múmia. O juiz tenta segurar Edinho mas não consegue. Edinho ainda golpeia Múmia que está na lona, fora de combate.

Edinho pára. O publico está em completo siléncio. Os comentaristas não dizem uma palavra. Todos olham estarrecidos. Edinho procura Douglas.

Em meio ao silencio da platéia, Douglas bate palmas.

Edinho sai do ringue. Algumas crianças choram.

No ringue o juiz abaixa-se para ajudar Múmia. Retira as ataduras do rosto de Múmia. O examina. Levanta-se.

JUIZ

(gritando)



Gente, acho que a Múmia tá em coma!

CORTA PARA

INT. GINASIO DE LUTA LIVRE - VESTIÁRIO – NOITE

Edinho chega ao vestiário mascarado de Kid Neno. Fecha a porta. No alto da parede uma caixa de som ligada ao microfone do narrador. Da caixa de som começa um ruído de confusão e bate boca. Edinho encosta na porta e tira a máscara. Respira ofegante.

Da caixa de som algumas vozes sobressaem em meio ao burburinho da multidão.

VOZ 1 (v.o.)

Aí, o cara tá mal aqui, ó. Tem que chamar uma ambulância aí ó.

VOZ 2 (v.o.)

Aí, aquele cara era o Perninha aí, cadê ele, cadê ele, vamo pegá!

VOZ 3 (v.o.)

Aí, esse aqui é o irmão dele ó.

Edinho desencosta da porta e se aproxima da caixa de som.

VOZ 3 (v.o.)

Ê mano, cadê teu irmão? cadê o teu irmão, meu? Cadê o Perninha?

Edinho abre rapidamente a porta do vestiário. Sai.

Aproximamos da caixa de som no alto da parede que continua transmitindo a confusão.

VOZ 3 (v.o.)

Edinho, aí meu, se você não aparecer é o teu irmão que vai apanhar meu, tá ouvindo?

EDINHO (v.o.)

Ô gente, desculpa aí, é que eu tô passando por um momento difícil.

Da caixa de som saem ruídos de pancadaria generalizada: golpes certeiros, gritos, cadeiras quebrando.

Um lento TRAVELLING pela mesma parede do vestiário que sustenta a caixa de som revela uma seqüência de fotos emolduradas, mostrando a história da carreira e da amizade dos lutadores Reis do Ringue.

Prossegue o som da pancadaria vindo da caixa de som.

A última foto que surge na parede mostra Edinho (fantasiado de Perninha) mordendo a perna de um lutador no ringue.

O som da pancadaria desaparece.

CORTA PARA INT. GINASIO DE LUTA LIVRE – RINGUE - NOITE

Edinho está sozinho, encostado no ringue, respirando com dificuldade, o rosto castigado, com pinta de quem quebrou algumas costelas.

Douglas caminha em direção a Edinho carregando uma toalha. Encosta-se no ringue ao lado de Edinho.

Douglas coloca a toalha em torno do pescoço de Edinho.

Edinho usa uma das pontas da toalha para limpar o rosto.

O ginásio está completamente vazio. Apenas Edinho e Douglas encostados no ringue.

Ruído de rodas de carrinho de feira.

CORTA PARA EXT. RUA DA ZONA LESTE – DIA

Dona Edna e Edinho caminham por uma rua de comercio simples, pouco movimentada. Edinho puxa o carrinho de feira. Dona Edna carrega a bola de futebol.

EDINHO

Porra mãe, eu sei que o pai foi embora por que não aguentou a barra de ter um filho deficiente mental. Logo ele que era o homem perfeição.



DONA EDNA

Isso não é verdade meu filho, seu pai amava muito o Douglinhas. Se ele foi embora é porque ele tinha os motivos dele.

Dona Edna olha pra frente. Inspira como quem toma fôlego.

CORTA PARA INT. BARBEARIA DA ZONA LESTE – DIA

Douglas está sentado numa cadeira de barbeiro, de frente pro espelho, a franja cobrindo os olhos.

DONA EDNA (v.o.)

Quando o Douglinhas nasceu.

A franja de Douglas é cortada pelo barbeiro. Seus olhos aparecem. Durante toda a narração em voice over de Dona Edna veremos Douglas nos momentos finais de seu corte de cabelo.

DONA EDNA (v.o.)

Eu não sabia o que era isso. É claro que eu já tinha visto crianças daquele jeito, mas a gente esconde dentro da gente o que não parece bonito, o que não parece bom. Até que um dia a vida vem e coloca aquilo bem na sua frente. Eu lembro que nem um filme passando, quando o médico me mostrou o teu irmão pela primeira vez, a primeira coisa que me veio na cabeça, a primeira que eu disse foi leva ele embora, leva ele daqui, essa coisa aí não saiu de dentro de mim. Eu não queria acreditar Edinho. Passou o dia inteiro e eu não consegui amamentar teu irmão. Não conseguia pegar em meus braços, não conseguia amar aquele bebezinho estranho. Então teu pai entrou no quarto com o Douglinhas no colo. Aí ele sentou do meu lado, secou as minhas lagrimas e me disse uma coisa que eu nunca mais esqueci: Edna, o amor é o sentimento dos imperfeitos, porque a função do amor é justamente levar a gente a perfeição. Aí eu olhei pros dois, peguei o Douglinhas no colo e dei um abraço naquele menino, mas um abraço com todo amor que nem eu sabia que eu podia ter. Aquele era o meu filho. Aquele era o Douglas.

O barbeiro joga um talquinho no pescoço de Douglas. Passa uma escovinha em seu rosto para tirar o excesso de cabelos. O barbeiro vira a cadeira de Douglas para a porta da barbearia.

Na porta da barbearia estão Dona Edna, segurando a bola de futebol, e Edinho, com o carrinho de feira.

Edinho sorri, levanta o braço e com a mão faz um sinal de positivo para Douglas, erguendo o polegar.

Douglas responde o sinal, fazendo o mesmo gesto com a mão e abrindo um sorriso.

CORTA PARA EXT. RUA DA ZONA LESTE – DIA

Dona Edna, Edinho e Douglas caminham lado a lado pela rua.

Agora Douglas puxa o carrinho de feira. Entre os dois filhos caminha dona Edna. Edinho joga a bola pro alto, dá uma cabeçada e pega a bola no ar.

Os três descem uma ladeira até saírem de quadro.



FADE OUT.

FIM


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal