Puxando a sanfona e rasgando o nordeste: relaçÕes de gênero na música popular nordestina (1950-1990)i



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PUXANDO A SANFONA E RASGANDO O NORDESTE: RELAÇÕES DE GÊNERO NA MÚSICA POPULAR NORDESTINA (1950-1990)i


CLEIDE NOGUEIRA DE FARIA



RESUMO
Este trabalho versa sobre as construções das relações de gênero na música popular nordestina, particularmente o forró, estilo musical típico dessa região. Nesse sentido, escolheu-se os compositores e intérpretes Luiz Gonzaga – década de 50 - , e a Banda Mastruz com Leite – década de 90 – por serem estes expoentes da nossa história musical. Tentar-se-á mostrar, através das práticas discursivas (composição musical) como se produziram as imagens do ser masculino e do ser feminino, nos dois períodos históricos referentes a estes compositores e como esses discursos musicalizados construíram uma dada visibilidade e uma certa dizibilidade ao ser homem e ao ser mulher, e suas relações de gênero. Busca-se entender também como se cruzam as imagens do masculino e do feminino nos dois contextos históricos em que se inserem os compositores. Trata-se portanto, de uma análise dos discursos gestados em cada realidade histórico-social e que participam da construção/desconstrução dos papéis masculinos e femininos e suas relações de gênero.
PALAVRAS-CHAVES: GÊNERO – NORDESTE - FORRÓ

INTRODUÇÃO

Entende-se que a história de gênero é uma construçãoii social pautada nos discursosiii e práticas dos indivíduos masculinos e/ou femininos presentes em uma determinada sociedade, sendo a música uma dessas práticas discursivas em que a história das relações de gênero se faz presente.


Na verdade, sempre houve por parte desta pesquisadora um envolvimento e um forte interesse pessoal pelo objeto pesquisado - discussão de gênero - haja vista, uma pequena participação dentro do movimento de mulheres, em Caicó, especificamente no grupo "Mulher Sertão", nos anos 87/89 que basicamente trabalhava essa discussão (gênero) com um programa radiofônico, levado ao ar semanalmente pela emissora Rural de Caicó-AM. Essa experiência fez aguçar o desejo de estudar e compreender os universos de elaboração que constituem os papéis masculino e feminino e suas relações de gênero. A concretização e realização desse desejo só foi possível com a abertura da pós-graduação em especialização em História do Nordeste, realizada pelo Campus de Caicó, para a qual este trabalho foi elaborado.
Escolheu-se a música como objeto de investigação, por constituir esta um dos aspectos culturais mais fortes na sociedade e, em particular o forró, gênero musical típico do Nordeste, e que por assim sê-lo, traz arraigadas imagens, representações múltiplas sobre os papéis masculinos e femininos, tanto na esfera da família quanto na sociedade. Nesse sentido, elegeu-se os compositores Luiz Gonzaga, década de 50, e mais recentemente a Banda Mastruz com Leite, década de 90, por serem estes expoentes da música nordestina que marcaram dois momentos diferentes, mas significativos para nossa história.
Trabalhar-se-á historicamente a produção musical - tanto suas letras (produção discursiva) como qualidade sonora, representadas por esses dois intérpretes. O período histórico delimitado - 1950-1990 - utilizando os dois já citados intérpretes, justifica-se por entender-se esse momento como perpassado por mudanças na esfera cultural, no tocante aos valores sociais e morais presentes na sociedade. São imagens, signosiv, multiplicidade de sensibilidade e subjetividade, de percepções sobre os papéis masculinos e femininos referentes ao momento histórico que cada intérprete representa.
Tomar-se-á, para a constituição deste trabalho, as composições musicais, ou seja, seus versos, enquanto uma produção discursiva que envolve relações de poder/saber, instituindo imagens, valores, formando subjetividade e representações sociais em cada momento histórico estudado. Todo discurso (texto musical) é analisado neste trabalho enquanto uma prática possuidora de um sentido histórico.
Por estar este trabalho direcionado à história sócio-cultural, em que se está diretamente lidando com a construção e desconstruçãov dos papéis masculino e feminino na música - expressão cultural de uma determinada região: Nordeste – incorporar-se-á neste, a noção de subjetividade e identidade, investigando como homens e mulheres participam da sua construção enquanto sujeitos masculinos e/ou femininos em sua época histórica.
Utilizar-se-á também, ao longo do texto, a abordagem sobre a dominação masculina, compreendendo-a a partir do processo de socialização dos corpos que respondem não apenas ao modo de estar e de ser, mas todo um "programa de percepção", determinando as relações homem/mulher ou masculino/feminino num sistema de oposições homólogas que se reforçam mutuamente.
Para desenvolver a idéia central, dividiu-se este trabalho em três capítulos. No primeiro - HISTORIADORES DE GÊNERO, CARTÓGRAFOS DE SUBJETIVIDADES, GEÓGRAFOS DE ESPAÇOS DE PODER: Teorizando Gênero na Cartografia Nordestina - partilha-se as transformações no campo teórico, as quais ocorreram na história do movimento de mulheres no Nordeste e no Brasil. Destaca-se o surgimento do conceito de gênero, que possibilitou uma redefinição de papéis masculinos e femininos e suas relações entre os pares opostos homem/mulher.
No segundo capítulo - TOQUES, SONS, COMPOSIÇÕES: a música popular nordestina e a construção e desconstrução do espaço Nordeste - aborda-se a invenção do espaço Nordeste, dentro de uma perspectiva de construção e desconstrução das imagens criadas a partir do discurso portador de saber/poder que permeia a sociedade. Ao discutir essa construção/desconstrução do recorte espacial, Nordeste, se está também analisando a invenção dos habitantes desse espaço. Nesse sentido, procura-se pontilhar a contribuição da música popular, particularmente o forró nordestino, como um discurso - feixe de múltiplas imagens formadoras dos papéis masculino e feminino, identificados enquanto nordestinos.
O terceiro capítulo - SINFONIAS, MELODIAS, DISRITMIAS: a música popular nordestina e a construção e desconstrução da imagem do feminino - particulariza sua análise, na produção musical de Luiz Gonzaga, décado de 50 e a Banda Mastruz com Leite, década de 90, identificando as relações de gênero, suas múltiplas imagens e representações que se cruzam através dos discursos musicalizados dos intérpretes acima citados.
É esse universo percorrido que se pretende oferecer ao leitor. São imagens construídas e desconstruídas que se fotografaram, sendo apenas mais um “ângulo” observado na arte de pensar e escrever.
1. HISTORIADORES DE GÊNERO, CARTÓGRAFOS DE SUBJETIVIDADES, GEÓGRAFOS DE ESPAÇOS DE PODER: Teorizando Gênero na Cartografia Nordestina

(...) Enquanto sexo se refere à identidade biológica de uma pessoa, gênero está ligado à sua construção social como sujeito masculino ou feminino.”

Guacira Lopes Louro

Olhar para a história, na perspectiva de visualizar, compreender e atribuir significados a presença da mulher no cenário dos acontecimentos dos mais diversos setores do cotidiano, faz necessário adentrar no universo das concepções teóricas que veste as mais variadas cores do tecido que dão sustentação político-ideológica aos conceitos sobre a mulher e sobre o seu papel na sociedade em diferentes momentos históricos.


A conceituação ou abordagem da história de gênero é uma categoria recente de análise na historiografia brasileira, datada do início dos anos 80. Até então, as referências teóricas no que se refere à história das mulheres, dividia-se entre dois campos de atuação: as feministas e as não-feministas. As primeiras, militantes do movimento específico de mulheres, diziam-se romper com a história positivista, rasgando as cortinas do espaço político-administrativo - privilégio masculino – para afirmar sua capacidade e força revolucionária. Nesse momento, o movimento de mulheres denuncia a discriminação sexual, aliando-se à luta contra a ditadura militar e ao debate sobre as profundas diferenças sócio-econômicas do espaço brasileiro.

O jornal “Brasil Mulher”, em seu editorial do número 07, de junho de 1977, explicita esse propósito, afirmando:

a luta pela emancipação da mulher não está em momento nenhum desvinculada da luta pelas soluções dos problemas gerais da sociedade. Por isso, nos unimos a manifestações coletivas por melhores condições de vida, de trabalho, por uma anistia ampla e irrestrita, por liberdades democráticas”. (MANINI, 1990, p.51 ).

Percebe-se, no entanto, que essa igualdade buscada pelas feministas, atribui ao universo feminino os mesmos direitos e deveres, próprios e instituídos do universo masculino, homogeneizando e empobrecendo a pluralidade própria do humano. Essa corrente de pensamento fundamentava-se no marxismo, que considerava secundária a problemática homem/mulher, sendo esta resolvida com o fim da contradição principal, isto é, “a instauração da sociedade sem classes com a mudança do modo de produção”. (SOHIET, 1997, p. 276) As segundas (não-feministas), encontram-se no campo das ciências sociais, bancos universitários e manifestações informais que expressam diferentes formas de intervenção e atuação feminina.


A emergência da história das mulheres teve seu surgimento nos Estados Unidos nos anos 60. Firmando-se como um campo de estudo, suas contribuições fizeram avançar as campanhas feministas, como também implicaram na exposição dos limites da história. Assim, tanto o movimento feminista quanto a história das mulheres trilhavam caminhos na tentativa de responder a questão inerente ao ser mulher.
Percorrendo ainda esses territórios, constata-se a dicotomia entre a mulher vitimizada e a mulher rebelde, papéis assumidos pelas mulheres e discutidos na historiografia brasileira, o que ainda torna-se mais agravante, quando são analisadas nas conjunturas regionais, no caso específico do Nordeste, por considerá-lo uma região culturalmente singular, do ponto de vista de potencialidade, enquanto recorte geográfico e espacial para o presente trabalho.
Na concepção de Joan Scott, vários teóricos da história das mulheresvi, ou dos estudos da mulher, pensam o feminino separado do masculino. Para eles, existe uma essência feminina e uma essência masculina, ou seja, todas as mulheres são iguais em essência e todos os homens também são iguais em essência, e por assim ser estão representados em dois pólos de identidades universais e antagônicas. O central dessa concepção, para seus seguidores – que dão sustentação ao movimento de mulheres, nesse período – é um constante conflito entre os sexos: homem versus mulher. Para Joan Scott,

Os historiadores sociais, por exemplo, supuseram as mulheres como uma categoria homogênea; eram pessoas biologicamente femininas que se moviam em contextos e papeis diferentes, mas cuja essência, enquanto mulher, não se alterava”. (SCOTT, apud SOHIET, 1997, p. 277)

Ainda nessa lógica de pensamento, outro par de opostos que dá sustentação a essa visão, é a idéia do dominador e da vítima, ou seja, homem e mulher em posição constante de combate entre um ser contra o outro ser, tendo o homem naturalmente e historicamente se mantido numa posição de dominação.
As mulheres vitimizadas, as oprimidas, submissas são aquelas cujas imagens são observadas pelos historiadores que abordam a questão da marginalização da mulher nos estudos históricos. Até a década de 70, muito se discutia a respeito da passividade da mulher, frente à sua opressão, ou reação limitada diante de uma sociedade patriarcal. A historiadora norte-americana Mary Beard, “atribui as escassas referências à mulher ao fato de a grande maioria dos historiadores, sendo homens, ignorarem-na sistematicamente”. (BEARD, apud SOHIET, 1997, p. 278).
Já Simone de Beauvoir, em sua pioneira obra O Segundo Sexo, afirma em um de seus argumentos que “a mulher ao viver em função do outro, não tem projeto de vida própria; atuando a serviço do patriarca, sujeitando-se ao protagonista e agente da história: O homem”. (BEAUVOIR, apud SOHIET, 1997, p. 278).
Outro aspecto abordado pelos estudos das mulheres ou história das mulheres é a identificação de comportamentos tidos como rebeldes por parte de algumas mulheres na historiografia; passa-se do estudo das mulheres como vítimas para o outro extremo, que é a procura na história de mulheres rebeldes, aquelas que romperam a dominação masculina; que assumiram comportamentos não comuns para a época. São exemplos da historiografia os casos de Chiquinha Gonzaga; Patrícia Galvão (Pagu); Leila Diniz e tantas outras. É a história construída a partir de figuras femininas que foram consideradas excepcionais por transgredirem a dominação masculina. Nesse particular, Raquel Sohiet cita PERROT, explicitando: “(...) que em seu trabalho, tem buscado desmistificar concepções veiculadas sobre a mulher como submissa, dócil, mostrando as atitudes e resistências por estas desenvolvidas em seu duro cotidiano”. (PERROT, apud SOHIET, 1997, p. 283)
Ambas as concepções enveredam na história positivista, o que vem reforçar as posturas dominantes, apenas invertendo as posições, rompendo com a dominação masculina, para construir uma dominação feminina.
No final da década 70, as tensões se estabeleceram no interior dos segmentos – as feministas e as não-feministas. Segundo SOHIET,

A fragmentação de uma idéia universal de “mulheres” por classe, raça, etnia e sexualidade associava-se ás diferenças políticas sérias no seio do movimento feminista. Assim de uma postura inicial em que se acreditava na possível identidade única entre mulheres, passou-se a uma outra em que se firmou a certeza na existência de múltiplas identidades”. (1997, p. 277)


Decorre daí a necessidade de enfoques que possibilitem superar a já citada dicotomia, tentando compreender e explicitar a complexidade de sua atuação. Igualmente, torna-se fundamental discutir e ampliar um leque de conceitos e concepções, entre elas, a concepção do podervii, que possibilitem uma leitura mais abrangente e clarificada do universo, envolvendo homens e mulheres; masculino e feminino. Para isso, tem-se a concepção de Michel Foucault, o qual afirma que “o poder funciona como rede de dispositivosviii ou mecanismos a que nada ou ninguém escapa, a que não existe exterior possível, limites ou fronteiras” (FOUCAULT, 1998, p. 14). Essa concepção de poder sugere a desconstrução da idéia de que o poder é propriedade de um grupo, classe ou pessoa em detrimento ou submissão do outro, mostrando que o mesmo pode estar disseminado e presente nas relações e por toda estrutura social. Portanto, não há um lugar fixo, permanente para o poder e seu exercício, pois ele está presente em vários pontos móveis e passageiros que também se encontram presentes na estrutura social.

Nesse sentido, a influência da nova história em curso na Europa, nos fins da década de 70, proporcionava o desafio de pensar conceitos e temas até então ignorados pela historiografia vigente como sexualidade, criminalidade, etc. A esses temas, além das concepções de poder, cabe lembrar aqui, o mérito das contribuições de Michel Foucault, com novas concepções a respeito do referidos temas, chegando a incentivar, por sua vez, o que na academia convencionou-se denominar de “historiografia da transgressão”.


O movimento de mulheres referente a esse período histórico começa a apontar na perspectiva de romper com os estereótipos - entre eles, as feministas eram identificadas como “não-femininas”; como não-mulheres; ou ainda “mulher feia e mal amada” - criados pelas próprias feministas, quando assumiram posturas e comportamentos masculinos. Há uma resposta das feministas, criando o “feminismo da diferença”, buscando então a valorização da cultura feminina. A mulher se volta para a beleza, a moda; para descobrir seu corpo; sua sexualidade. É a valorização do feminino como diferente do masculino, mas não inferior. Nesse sentido, o movimento de mulheres começa a se aproximar dos novos conceitos sobre sexualidade; poder; sobre as imagens construídas dos sujeitos masculino e feminino, sugeridos a partir da discussão de gênero.
Hoje faz-se necessário, e é consensual para os historiadores do gênero, a orientação de uma revisão dos recursos metodológicos, com uma valorização em áreas de investigação histórica, que tratam as esferas em que há mais evidência da participação feminina, compreendendo as diversas dimensões da sua experiência histórica. Sendo assim, as referidas orientações convergem para a necessidade de se estudar as relações entre os sexos e a categoria de gênero.
É nesse panorama de discussões e elaborações teóricas sobre os rumos do movimento de mulheres que o conceito de gênero aparece como referência nos estudos e pesquisas acadêmicas, nos discursos dos mais variados setores dos movimentos sociais, chegando até mesmo à mídia. Essa nova abordagem teórica, traduzida pelo conceito de gênero, chega ao Brasil no início dos anos 80, através da influência do movimento feminista americano, disputando espaço com os “estudos da mulher”.
O surgimento do conceito de gênero gerou uma desestabilidade no palco das organizações e pensamento vigente da historiografia brasileira. Nesse sentido, o termo gênero sugere uma primeira afirmação: gênero é uma atribuição da linguagem para definir masculino e feminino, essa definição é diferente da definição macho/fêmea. Portanto, o conceito de gênero pode não estar ligado ao significado de sexo, pois enquanto “sexo refere-se à identidade biológica de cada um, gênero está ligado a sua construção social como sujeitos masculinos e femininos” (LOURO, 1997, p. 25). As discussões de gênero trazem o feminino junto ao masculino e nunca separado, o foco central deixa de ser a mulher como objeto de estudo, mas sim como sujeito da história, e por assim ser, o conceito modifica o olhar do historiador frente ao problema homem/mulher.
Estabelece-se a compreensão dos processos de formação da feminilidade e masculinidade, como processo de codificação das práticas sociais do masculino e do feminino; da construção de sua subjetividade. Conforme entende LOPES:

agora não se trata mais de focalizar apenas as mulheres como objeto de estudo, mas sim os processos de formação da feminilidade e da masculinidade, ou os sujeitos femininos e masculinos. O conceito parece acenar também imediatamente para a idéia de relação: os sujeitos se produzem em relação e na relaçãoix.


Entendendo gênero fundamentalmente como uma construção social, e portanto histórica, amplia-se o alcance de sua definição com a pluralidade de significado que o próprio conceito sugere, reconhecendo uma diversidade do masculino e do feminino em diferentes momentos histórico-sociais. Essa pluralidade pressupõe aceitar não apenas que sociedades diferentes tenham diferentes concepções de homem e de mulher, como que cada sociedade tenha diversas concepções, dependendo da classe, religião, raça, região, idade, etc. Mais do que isso, para LOPES
“(...) implicaria admitir que os conceitos de masculino e feminino se transformam ao longo do tempo. Assim, o conceito de gênero buscava se contrapor a todos/as que apoiavam suas análises em argumentos essencialistas, ou seja, apontava não para uma essência feminina ou masculina (natural, universal ou imutável), mas para processos de construção ou formação, histórica, linguística e socialmente determinados (e, então, múltiplos)”x.
Nessa perspectiva de raciocínio, a discussão de gênero traz à tona outras questões, que são inerentes ao processo de construção dos códigos e práticas sociais. E esse processo passa pela construção da subjetividade expressa nos corpos, determinando posturas, gestos, comportamentos masculinos e/ou femininos, ou ainda posições de dominação e/ou submissão. BORDIEU, em seu artigo intitulado “A Dominação Masculina”, afirma: “ que o mundo social exerce uma espécie de “golpe de força” sobre os sujeitos e imprime em seus corpos não apenas um modo de estar, mas todo um programa de percepção” (1995, p. 104). Pensado assim, tem-se construído uma lógica de dominação, onde a divisão de papéis masculinos e femininos estão originados dos esquemas de percepção do mundo que, por sua vez, estão de acordo com a ordem objetiva na natureza das coisas. Essa lógica leva a que se absorva o mundo como dado, portanto inquestionável.
A discussão de gênero vista na cartografiaxi Nordeste remete à compreensão de que apesar das singularidades dessa região, enquanto processo histórico específico, em termos de conceituação e desenvolvimento das concepções do movimento de mulheres, não se diferenciou de outras regiões, pois as mesmas categorias de análises oferecidas pela história das mulheres e posteriormente pela história de gênero, servem como referência para leitura e análise na historiografia de qualquer região do Brasil.
Sendo assim, na região Nordeste, recorte deste estudo histórico e também específico no que se refere à conceituação e desenvolvimento de concepções de gênero, são utilizadas as mesmas categorias de análises oferecidas pela história das mulheres e posteriormente pela história de gênero, construídas historicamente e que certamente diferenciam-se de outras regiões do Brasil. A região Nordeste também torna-se específica enquanto cartografia, pelas suas referências culturais que contribuíram historicamente na construção das imagens e das diversas concepções do masculino e do feminino. Por outro lado, percorrendo esse universo do viés teórico até aqui costurado, percebe-se que a região em foco representa um feixe imagético-discursivo, como resultado da construção das relações de poder que perpassa toda a historiografia brasileira.
No entanto, faz-se necessário que dentro da presente proposta de trabalho, a cartografia Nordeste seja olhada e fotografada sob a ótica do estudo de gênero. É assim que SCOTT enfatiza a
" ...necessidade da rejeição do carácter fixo e permanente da oposição binária “masculino versus feminino” e a importância de sua historicização e desconstrução nos termos de Jacques Derrida, revertendo-se e deslocando-se a construção hierárquica, em lugar de aceitá-la como óbvia ou como estando na natureza das coisas.” (apud SOHIET, 1997, p. 64)
A proposta de desconstrução passa pela idéia de desarticular as operações binárias, homem e mulher, desconstruindo assim, a lógica dos sistemas tradicionais de pensamento. Ainda segundo SCOTT, “o processo implicaria em deslocar os termos, para demonstrar que cada um está presente no outro, bem como evidenciar que as oposições são históricas e lingüisticamente construídasxii.

Optar pelas categorias de análise sobre a ótica da discussão do gênero, conduz a trilhar caminhos de conceitualização que ofereçam uma visão ampla de questões envolvidas com complexas articulações que constituem os sujeitos – como homens e mulheres que habitam o recorte geográfico e espacial chamado Nordeste. Entre elas, a conceituação de poder, que deve ser compreendido como uma rede também complexa, constituída de micro-poderes, móveis e portanto mutáveis, dentro das preposições de FOUCAULT. Segundo SCOTT,

“... precisamos pensá-lo (o poder), muito mais como uma ação que é exercida constantemente entre os sujeitos e que supõem, intrinsecamente, formas de resistência e contestação, do que como algo que é possuído apenas por um polo e que está ausente no outro”.xiii
Nessa perspectiva de pensamento, tem-se como desafio desvendar, desconstruir a Lógica de pensamento historicamente articulada nas relações binárias homem/mulher; masculino/feminino, que constitui a cartografia geográfica e espacial chamada Nordeste. Para isso escolheu-se, a música popular nordestina - discurso-feixe de múltiplas imagens formadoras dos papéis masculino/feminino, identificados enquanto nordestinos – como objeto de observação e discussão que será abordado no segundo momento de elaboração deste trabalho.
2. TOQUES, SONS, COMPOSIÇÕES:

A Música Popular Nordestina e a Construção e Desconstrução do Espaço Nordeste


“Um dia/vivi a ilusão/

de que ser homem bastaria/

que o mundo masculino/

tudo me daria...”


Superhomem – a canção- Gilberto Gil
Ao abordar o termo Nordeste enquanto região, com seus significados, com seus preconceitos e suas simbologias, é necessário, inicialmente, entender que as regiões não são realidades dadas, existentes a priori, mas são recortes político-administrativos, inventados pelo homem para responder a alguns interesses: são territórios de domínio político–sociais resultantes da contenda das elites brasileiras e assim se constituem como territórios de poder/saber, demarcados, dessas elites. Seu planejamento predispõe e indica uma abordagem que não reduz a noção de região apenas à visão geográfica–natural, pois segundo afirma ALBUQUERQUE JÚNIOR, a região “se liga diretamente às relações de poder e sua espacialização; ela remete a uma visão estratégica do espaço, ao seu esquadrinhamento, ao seu recorte e à sua análise, que produz saber”(ALBUQUERQUE JUNIOR, 1999, p. 25).
Dessa forma, pensar a região Nordeste a partir de vários enunciados e imagens que se repetem em diversos momentos históricos e em diferentes discursos, significa não pensá-la enquanto uma homogeneidade, uma identidade presente na natureza. Nessa lógica, o Nordeste é apreendido como invenção pela repetição ordenada de determinados enunciados, presentes nos diversos discursos, como sendo definidores na formação do temperamento do seu povo. “Uma espacialidade, pois, que está sujeita ao movimento pendular de destruição/construção, contrariando a imagem de eternidade que sempre se associa ao espaço”. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 24)
A noção de Nordeste, como a de nordestino, é um dado novo na historiografia regional, tendo sido construído/inventado no começo do século XX, entre o final dos anos dez e começo dos anos vinte. Junto com a região de quem é filho, habitante e sujeito, o nordestino é uma figura que também resulta de vários enunciados, feixe imagético–discursivo. Suas imagens construídas historicamente, expressam, dão visibilidade e dizibilidade ao ser nordestino, no sentido de se construir uma “cara”, uma identidade, uma estereotipia. Essa é uma realidade que ultrapassa a territorialidade, é a tentativa da elite regionalista de atingir uma unidade, de construir uma homogeneidade cultural e histórica, com a finalidade de legitimar esse espaço e de afirmá-lo perante o outro, representado pelo Sudeste (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2000).
O nordestino, assim como o recorte regional Nordeste, nasceram a partir de um conjunto de práticas regionalistas e de um discurso regional que se propaga entre as elites do Norte do país , a partir do final do século XIX, quando essa região vive uma crise econômica e política, sofrendo uma subordinação em relação ao Sul do país, principalmente São Paulo. As divergências econômicas e político-sociais, e os conflitos interregionais se intensificam; as questões sociais do Nordeste, como a seca, as dificuldades climáticas, a miséria tornam-se elementos primordiais para a elaboração imagético-discursiva da Região, como sendo um lugar da periferia, da discriminação nas relações econômicas e políticas do país. É o momento de disputa política para garantir a barganha maior do capital que viesse beneficiar um dos espaços, Nordeste versus Sul do país, mais especificamente São Paulo, sendo este último privilegiado, por “possuir as condições favoráveis” para o desenvolvimento industrial do país. É nesse momento também, fruto desse impasse econômico e político–social, dos conflitos regionais, que surge uma literatura regionalista com objetivo de refletir o futuro e repensar o passado, defender a região que estava ameaçada diante dos novos hábitos sociais trazidos pela modernização. Para BURITI, essa formação discursiva regionalista - tradicional faz uma leitura dos valores regionais, tornando-os um bloco coeso, uno e sobretudo harmônico, capaz de resistir à supremacia do centro - sul e as suas influências sobre os valores morais do Nordeste” (1997, p. 84).
Essa lógica discursiva nada mais é que a necessidade de criar uma defesa por parte das províncias do Norte, das ameaças da decadência total e por isso seu texto precisou assumir um caracter político e também cultural que se firmasse e se legitimasse nas mentes e corações dos habitantes de outras áreas do país e, por que não dizer, dos homens e mulheres identificados como nordestinos, a lógica de pertencimento do ser nordestino.
O termo Nordeste passou assim a ser significado, a partir da criação da Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca (IFOCS), em 1919, sendo identificada por esse nome a região que sofria a seca na parte Norte do país. Tem-se aí uma primeira imagemxiv nomeada ao Termo Nordeste: a imagem de seca, da calamidade, do chão tórrido: "O Nordeste é em grande medida, filho das secas; produto imagético-discursivo de toda uma série de imagens e texto, produzidos a respeito desse fenômeno, desde que a grande seca de 1877 veio colocá-la como o problema mais importante desta área" (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 68).
A seca vai inicialmente servir como grande argumento do discurso que a elite nordestina usará para angariar os recursos e as atenções dos políticos, e é a partir dessa base que a edificação Nordeste vai se instituir. A imagem da seca ganha força e expressa-se em todos os setores da esfera cultural na literatura, e principalmente na música, como produto discursivo em "defesa" desse recorte chamado Nordeste. Luiz Gonzagaxv é o maior expoente artístico, enquanto compositor e cantor em defesa do Nordeste, como se vê em uma de suas composições, nos versos Vozes da Seca de sua parceria com Zé Dantas (1953).
"Seo doutor, os nordestinos | têm muita gratidão | Pelo auxílio dos sulistas | Nessa seca do sertão | mas dotô uma esmola | A um home que é são | ou lhe mata de vergonha | ou vicia o cidadão | É por isso que pedimos | proteção a vosmicê | Home por nós escoído | Para as rédeas do poder | Pois doutô, dos vinte estados | Temos oito sem chover, | Seja bem, quase a metade | do Brasil tá sem comer | Dê serviço a nosso povo | Emena os rios de barragem | Dê comida a preço bão | Não esqueça a açudagem | Livre assim nós da esmola | Que no fim dessa estiagem | lhe pegamos inté os juros | Sem gostar nossa coragem | Sé o doutor fizer assim | Sava o povo do Sertão | Quando um dia a chuva vim | Que riqueza pra nação | nunca mais nós pensa em seca | vai dar tudo nesse chão | Como vê nosso destino | mecê tem na vossa mão..."
A seca surge no discurso de Gonzaga como um vício, grande problema do espaço nordestino, e o próprio intérprete assume a identidade de "voz do Nordeste", tornando-se intermediária entre o "povo do Nordeste" e o Estado, fazendo os problemas da região visíveis através dos seus textos musicais. "A música de Gonzaga vai ser pensada como representante desta identidade regional que já havia se firmado anteriormente por meio da produção freyreana e do romance regional". (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 155).
Essa construção imagética presente no campo cultural é mais um discurso - feixe de múltiplas imagens, que imprimem visibilidade e dizibilidade ao texto Nordeste. As vozes que se intercruzam na rede de poder/saber, vindo dos mais variados campos, seja na literatura, na arte, no setor econômico, político, dentro de um processo de codificações, criam assim, os estereótipos que produzem, estabelecem uma verdade que chega a regrar e suprimir a multiplicidade das imagens, falas e tipos regionais. O que é dizível nem sempre é o reflexo do que se vê na e como região. Há um fogo de oposições entre o que se vê na região e o que se diz sobre ela. "O que emerge como visibilidade regional não é representado, mas constituído com a ajuda do dizível ou contra ele ." (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 46)
No campo discursivo musical, Luiz Gonzaga surge na décadas de 50, e é quem melhor nomeia as imagens e falas do espaço e do ser nordestino. Ele cria o baião, como um ritmo, um estilo musical, superando o baião que era conhecido como um simples dedilhado da viola ou a marcação rítmica, feita pelos violeiros - repentistas, entre um verso e outro de inspiração entre eles. Gonzaga descobre a "riqueza desse trechinho musical, de sentir que ele carregava em si a alma nordestina". (DREYFUS, 1997, p. 112). De acordo com ALBUQUERQUE JÚNIOR (op. cit. p. 155), "o baião será a música do Nordeste, por ser a primeira que fala e canta em nome desta região".
Além dos ritmos, as composições musicais de Gonzaga, sua forma de cantar, de se vestir, seu jeito de conceder entrevistas, as representações e elementos culturais que promove são representações, agenciamentos que instituem, dão significados ao texto "Nordeste". A cada composição um recorte regionalista é reafirmado e propagado.
Basta colocar-se diante de uma de suas composições para conferir essa análise:
"Quando a lama virou pedra | e mandacaru secou | Quando ribaçã de sede | bateu asas e voou | Foi aé que vim m'embora | Carregando a minha dor | Hoje eu mando um abraço pra ti | Pequenina | Paraíba, masculina, muié macho sim senhor | Paraíba, masculina... Eita, pau - pereira | Que em Princesa já rancou | Eita, Paraíba | Muié macho sim senhor| Eita, pau - pereira | meu bodoque não quebrou | Hoje eu mando um abraço pra ti | Pequenina | Paraíba, masculina muié macho sim senhor | Paraíba, masculina... Paraíba, baião (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira, 1950).
Perseguindo o caminho proposto para este trabalho, vai-se encontrar um universo de proposições analisadas com o regionalismo nordestino, e especificamente a partir da presença e atuação de Luiz Gonzaga no campo da música, que dão forma, cor, corpo, cheiro, som e sentido ao processo de construção/desconstrução do espaço e de seu habitante.
A música de Gonzaga não é apenas uma reprodução do mundo tradicional, referente ao passado, é também uma imagem do presente, de um grupo social e regional marginalizado, que se contrapunha à destruição plena de seus territórios tradicionais, que mesmo necessitando construir novos territórios, no seu imaginário sobrevivem os anteriores (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999, p. 159).
Nesse sentido, o objeto da presente investigação - a discussão de Gênero - está intrinsecamente ligado ao Nordeste, chegando a constituir um único elemento, a ser a mesma coisa e ainda, pela natureza de sua interpelação, ou seja, nesse contexto, discutir gênero é discutir região. Na leitura de ALBUQUERQUE JÚNIOR, encontra-se: "O Nordeste precisava de um novo homem capaz de resgatar essa virilidade, um homem capaz de reagir a esta feminização que o mundo moderno, a cidade, a industrialização a republica haviam trazido". (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2000, p. 90).
A construção da figura do nordestino está extremamente imbuída do sentimento de preservação da região, tendo essa referência sido mais clarificada a partir dos anos 1924 ao de 1930, quando se intensifica a militância regionalista e tradicionalista. Suas características antropológicas, etnográficas, culturais são definidas como um tipo tradicional, em defesa de um passado também tradicional, patriarcal, versus o moderno, na sociedade efeminada. "O Nordestino é definido como um homem que se situa na contramão do mundo moderno que rejeita suas superficialidades... um homem de costumes conservadores, rústico, áspero, masculino. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2000, p. 90)
Ao mergulhar-se historicamente para resgatar os vários tipos de nordestino que dão forma, representam e habitam a cartografia Nordeste, é possível que se se depare com a construção de signos os quais representam a formação discursivaxvi de uma homogeneidade identitária para o ser que povoa essa Região. Esses tipos regionais como o sertanejo, o praieiro, o brejeiro que antecederam à construção do ser nordestino, possuem elementos na sua composição, que naturalmente se agrupam a essa nova figura regional. O que existe de comum entre eles, no foco do estudo de gênero e suas relações, são os códigos de virilidade e masculinidade que agenciam, dando visibilidade ao discurso regional. "O Nordestino vai ser definido como macho por excelência capaz de revirilizar uma região que precisava reagir, região estuprada e penetrada por interesses e valores estranhos". (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2000, p. 91).
Em todo processo de construção do Nordeste e do indivíduo que habita esse espaço, identificamos no imaginário discursivo a presença de um espaço e tempo passados que se contrapõem ao futuro, ao moderno. São imagens, códigos de valores que caracterizam um universo sempre rural, tradicional-masculino, opondo-se à imposição do urbano, moderno industrial e feminino. Essa elaboração discursiva sugere forma e dá contorno ao Nordeste tradicional, que "(...) na verdade não era mais do que saudosismo de uma época passada, construção claramente oposta ao modernismo do sul, (...) como sendo destruidor da relação equilibrada que havia entre homem e natureza naquela sociedade(...). (LINDOSO, 2000, p. 11).
Outro aspecto a ser observado na construção da figura do nordestino e sua identificação masculina com o recorte Nordeste, é a posição ocupada pela natureza como centro difusor e instituidor de uma segunda natureza, ou seja, a importância e o realce dados às características naturais da Região nessa construção. Só o homem de verdade, forte, viril para sobreviver numa natureza ressequida, árida, agressiva, elementos que se identificariam com a própria masculinidade. Essa leitura de base naturalista-determinista agencia enunciados que contribuem para a formação de um sistema de referência culturalmente constituído, e que tem no bojo de seu processo as referências e constituição de sua própria identidade.

2.1. PUXANDO A SANFONA E RASGANDO O NORDESTE: A DESCONSTRUÇÃO DO “NORDESTE-TRADIÇÃO” EM MASTRUZ COM LEITE
Com uma composição inovadora, a banda Mastruz com Leite alia novos instrumentos à sanfona, ao zabumba e ao triângulo, modificando os padrões do forró, tornando-o estilizado. Era o "New forró" que nascia com o Mastruz com Leite. Esse novo ritmo que agradou alguns e contrariou outros, foi responsável pela renovação do estilo da música Popular Nordestina.
É importante observar que o Nordeste passa a desenhar-se como um novo espaço político-administrativo, rompendo com a lógica de uma região oligárquico-conservadora, ou seja, deixa de se afirmar enquanto região, passando a ser observada e identificada na construção discursiva de uma nova lógica, a lógica da instabilidade; da incerteza; do funcionamento de uma sociedade pautada pelos valores da pós-modernidade. A sociedade dos "pós", como afirma Jair Ferreira dos Santos, "contém um des - um princípio esvaziador, diluidor. O pós modernismo desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades". (SANTOS, 1994, p.18).
Verifica-se que as imagens, os códigos e valores construídos a partir da música de Mastruz com Leite, trazem à tona um verso cultural produzido ou recriado no imaginário político-social da região a partir de uma outra conjuntura político-econômico-social do país. Na década de 90, o Brasil já se encontra completamente adequado às políticas internacionais, à globalização. No campo da política, vive-se o exercício e consolidação da democracia, implantação do primeiro governo eleito pelo povo, o governo de Fernando Collor de Melo. Portanto, é um período de abertura e discussão aos temas considerados tabus para a sociedade, como liberação sexual, aborto, homossexualidade e outros.
A produção discursiva em Mastruz com Leite sobre a região, remete à discussão das imagens, da visibilidade e dizibilidade, anteriormente analisadas neste trabalho, agora internalizadas e construídas a partir de um novo contexto histórico. Vejamos a música “Mastruz com Leite é Brasil”, ( Jorge Nobre - CD Mulher):

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