Quadrinhos e cartuns na memória afro-brasileira: o negro pelo negro



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Quadrinhos e cartuns na memória afro-brasileira:


o negro pelo negro

Eliane de Souza Almeida Oliveira da Silva * - eliane_almeida@hotmail.com

Bacharel em Jornalismo pelo Centro Universitário Monte Serrat (UNIMONTE), Mestranda em Comunicação Social na Universidade Metodista (UMESP) e Pesquisadora de Estudos Afro-Brasileiros.

Resumo:
Com uma população de mais de 170 milhões de habitantes sendo mais da metade de origem africana, pode-se contar nos dedos os desenhistas e cartunistas negros. Se de um lado a retratação do negro nos meios de comunicação nem sempre é feita por ele mesmo, são poucos os afro-brasileiros, enquanto desenhistas, que se envolvem com a questão racial. E, além disso, ser um cartunista negro, é preciso ser genial para ser aceito como um igual entre seus pares.

Este trabalho tem como objetivo mostrar através de exemplos como o cartunista negro Maurício Pestana, se desenvolve um trabalho sobre consciência racial. É através de seu trabalho enquanto memória que é possível ter a mais completa radiografia das formas sutis e, às vezes nem tão sutis, do racismo em nosso país.

Neste trabalho queremos ressaltar através da arte das Histórias em Quadrinhos e Cartuns os temas abordados nesta trajetória da memória como mercado de trabalho, violência policial e repressão, a história da mulher, os meios de comunicação e cidadania do ponto de vista do negro. O perfil do cartunista Maurício Pestana enquanto comunicador será abordado enquanto produtor de mensagens nas HQs, cartuns, cartazes e posters.
Palavras-chave: racismo, preconceito, consciência negra, luta.


Questão racial no Brasil



Desde a chegada dos africanos no Brasil, vistos como seres inferiores, foram marginalizados. Fizeram-nos deixar de ser pessoa para ser “coisa”. É um engano acreditar que a escravidão se deu de modo pacífico e, como muitos pensam, que o negro foi passivo.

Passividade não é característica do povo negro. A escravidão era um ato praticado com naturalidade nas civilizações africanas. Os escravos eram oriundos de guerras. Os prisioneiros de guerra serviam como escravos dos ganhadores. Como explica Jaime Rodrigues: “Os reinos africanos possuíam uma organização social complexa, que incluía a escravidão. Porém, a escravidão que existia no próprio continente não era igual à escravidão ocidental. O escravo não era uma propriedade; sua condição envolvia relações militares, econômicas e políticas que o tornavam mais próximo de um servo medieval do que de uma simples mercadoria. Nas sociedades africanas anteriores ao tráfico europeu, os escravos eram oriundos de povos vencidos em guerras, que deviam obediência ao vencedor. Um indivíduo ou seus parentes também podiam ser escravizados como forma de pagamento de uma dívida. [...] O senhor tinha o dever de proteger seus escravos, e em algumas sociedades eles eram incorporados à própria família do senhor, recebendo tratamento igual ao dos filhos legítimos. Além disso, a escravidão não era necessariamente hereditária.”1

Para justificar a escravidão foram inventados inúmeros argumentos. Foram realizadas pesquisas científicas para saber qual a “anomalia” dava à pele a cor negra. Uma outra justificativa da cor do negro foi buscada na natureza do solo e na alimentação, no ar e na água africanos. [...] Outros aceitaram a explicação de ordem religiosa do mito camístico entre os hebraicos. Segundo ele, os negros são descendentes de Cam, filho de Noé, amaldiçoado pelo pai por lhe ter desrespeitado quando o encontrou embriagado, numa postura indecente. Na simbologia de cores da civilização européia, a cor preta representa uma mancha moral e física, a morte e a corrupção, enquanto a branca remete à vida e à pureza. Nesta ordem de idéias, a Igreja Católica fez do preto a representação do pecado e da maldição divina. Por isso, nas colônias ocidentais da África, mostrou-se sempre Deus como um branco velho de barba e o Diabo um moleque preto com chifrinhos e rabinho.2

Disseminadas essas “verdades” o próprio negro passa a se questionar. Até que ponto o branco tem razão? [...] Por pressão psicológica, acaba reconhecendo-se num arremedo detestado, porém convertido em sinal familiar. A acusação perturba-o, tanto mais porque admira e teme seu poderoso acusador. Perguntar-se-á afinal se o colonizador não tem um pouco de razão. Será que não somos mesmo ociosos e medrosos, deixando-nos dominar e oprimir por uma minoria estrangeira? A tecnologia superdesenvolvida pelo branco ajudaria a instaurar uma situação de crise na consciência do negro. Neste sentido, em algumas culturas, o branco foi comparado a Deus e aos ancestrais.3

Mas, todo ser vivente nasceu para a liberdade. Então, onde havia escravidão, existia um quilombo. A quilombagem foi a primeira manifestação contra a escravidão. Foi o primeiro grande movimento negro contra a opressão do colonizador. De acordo com definição do rei de Portugal, em resposta à consulta do Conselho Ultramarino, datada de 2 de dezembro de 1740, quilombo é “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”.4

Para Joaquim Ribeiro, historiador, “o quilombo [...] é uma reação contra a cultura dos brancos, contra os seus usos e costumes; é a restauração da velha tribo afro-negra nas plagas americanas; é a ressurreição do organismo tribal; é o retorno, sobretudo, ao seu fetichismo bárbaro[sic]”.5

Diversos foram os quilombos brasileiros. O mais famoso deles foi sem dúvida o Quilombo dos Palmares, que tem como grande símbolo e herói da resistência, o guerreiro Zumbi dos Palmares. O aniversário de sua morte, 20 de novembro, é a data mais importante do Movimento Negro brasileiro: é o Dia Nacional da Consciência Negra. Já o 13 de maio é chamado de O Dia da Mentira e se transformou no Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo.

Nos dias de hoje encontramos muitos Zumbis que lutam, com força e fé, por melhores condições de trabalho, por justiça social, melhores condições de moradia, por cidadania. Essa luta é árdua porque no Brasil, após a abolição, criou-se e “acreditou-se” na mentira de que no Brasil não havia racismo. Que somos todos iguais perante a lei e que por isso não há discriminação.

Desde “pequenininhos” fomos acostumados e acostumamos com a idéia de que no Brasil “não há racismo”, “não há preconceito de cor”, e que vivemos numa harmonia de raças” – a oferecer iguais oportunidades a negros e brancos, na “democracia racial”. [...] Quem defende a existência da “democracia racial”, aponta como “provas de falta de preconceitos” os poetas, escritores e vultos históricos negros. Hoje, indicam como “provas nossos atletas, cantores, compositores, pintores, escultores, atores e atrizes negros, além é claro, das mulatas exuberantes”, que seriam aceitos e integrados na sociedade.6

Para contestar todas as falsidades de um sistema mentiroso e hipócrita esses Zumbis se organizaram e deram origem a um movimento que luta por ideais de igualdade. São muitas as organizações (quilombos) que fazem parte do Movimento Negro e que atuam em prol dos milhões de negros brasileiros. Dentre elas podemos destacar: MNU (Movimento Negro Unificado), Geledés, Fala Preta!, Casa de Cultura da Mulher Negra, UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), entre tantas outras.

Diante de tantos quilombos, existe um Zumbi que grita sozinho e em nome de todos esses quilombolas: o cartunista Maurício Pestana.


Maurício Pestana e a consciência do ser negro




Filho de uma típica família negra, matriarcal, sofrendo das privações que uma família com sete filhos em uma sociedade brasileira normalmente sofre, nasce, em 1963, Maurício Pestana. Menino brilhante, da periferia de Santo André e que não tinha a idéia da importância que teria um dia na luta contra o racismo.

Consciente de sua negritude, Pestana sempre observou com olhos ávidos tudo o que acontecia ao seu redor. Iniciou seus estudos artísticos na Escola Poliarte de São Paulo, no final dos anos 70. Em 1980, começa a publicar seus primeiros desenhos.

Maurício Pestana, aos 39 anos, vê hoje a questão racial com entusiasmo, como militante, como quem esteve durante 20 anos acompanhando toda a movimentação e assistindo a grandes progressos nas discussões sobre a questão racial. Mas, também com preocupação. “A questão racial faz parte da pauta de todos os órgãos do governo. Mas, a questão da inserção do negro no mercado de trabalho, nos meios de comunicação, na sociedade continua quase da mesma forma. O aspecto político está bem melhor disseminado. Só que continuamos com 2% de negros cursando uma faculdade, continuamos morando mal, os índices de violência crescem e o número de adolescentes negros mortos é enorme”, diz Pestana. Tudo o que se conseguiu até hoje ainda é muito pouco diante da luta e do tempo que se tem ela tem.
A escolha do caminho

Queria ser publicitário. Fez Publicidade Na Escola Poliarte de São Paulo. Sua veia artística foi mais forte. No final dos anos 70 trabalhava na Isto É, no Jornal da República, como arte finalista. Neste período, ainda adolescente, encontrou com alguns cartunistas importantes que haviam feito verdadeira revolução no jornalismo brasileiro. Esses cartunistas criaram o Pasquim. Tiveram uma atuação muito forte denunciando o que a ditadura militar fazia no Brasil. Esses cartunistas eram Henfil, irmãos Caruzzo, Jaime Leão, Luis carneiro, Alci, enfim, muitos cartunistas de alto nível, militantes da esquerda da época.

Sua grande influência foi Henfil que o adotou como pupilo e lhe dava conselhos que mudariam definitivamente sua vida. Tinham o hábito de conversar, de trocar idéias. Foi Henfil que o acordou e lhe disse o quanto brilhante era seu trabalho e que ele poderia dar um foco maior sobre as questões raciais, pois não havia, como ainda não há, muitos cartunistas negros no Brasil. “Na época eu era adolescente e já tinha consciência da questão racial. Acho que a consciência racial você constrói desde o nascimento. Tem gente que leva uma vida inteira para se descobrir negro, mas um dia se descobre. Na época eu já tinha consciência por trabalhar num local que era recheado por pessoas de muito talento, via as dificuldades dos poucos negros, mais dois colegas também arte-finalistas. Então já se percebia que era um espaço difícil, um espaço disputado”, conta Pestana.

Sua carreira se iniciou de maneira glamourosa. Seus primeiros cartuns foram publicados em O Pasquim. Seu trabalho foi muito elogiado. “No Pasquim foi publicada uma página dizendo que nunca haviam visto algo de tão criativo, de tanto talento e jovem, e que nunca havia publicado. Até guardei a página. Isso pra mim foi muito importante porque serviu como incentivo. Depois Henfil me disse que aquilo só vinha para confirmar o que ele já havia previsto: eu tinha jeito pra coisa”, diz o cartunista.

Para ele foi muito importante esse período na Isto É porque todo cartunista precisa de muita informação. A revista o deixava a par de tudo o que acontecia no Brasil e no mundo, o senso crítico aguçado, engajamento e consciência política. Foi a partir daí que passou a se dedicar aos assuntos relacionados a questão racial. Estava no olho do furacão. Vivia no turbilhão de notícias. Estava no seio da comunicação.

“Eu fiz o caminho inverso. Normalmente, começamos de veículos pequenos e partimos para os grandes. Eu nasci no veículo da grande imprensa para fazer o trabalho sobre a questão racial”, conta Pestana. Ele diz ainda que o mercado ainda está pobre de cartunistas negros. E que esses poucos cartunistas não se dedicam aos problemas do negro.

Maurício Pestana sabe de sua importância enquanto comunicador e negro. Sua carreira e sua escolha temática vem para somar à luta de tantos Zumbis.


“A atmosfera da abertura política e o exacerbamento da situação econômica do país foram fenômenos que iriam repercutir muito no meu trabalho no futuro. Pesquisando as inovações, avesso às amarras das militâncias ortodoxas, busquei logo processar meu projeto criativo, a partir de um profundo mergulho nos mistérios pagãos da cultura negra, mas compreendendo o universo multicultural em que esta cultura está inserida. Daí a busca de uma visão artística, de um projeto estético que imprime à minha arte um corte epidermiológico, interligando o passado, o presente e o futuro através do olhar e do ser negro.

A opção por uma linha polêmica, provocando riso em situações em que não se deve rir, concebeu ao meu trabalho uma careta indignada e singular da sociedade brasileira. Defini um indiscutível traço de uma contraposição estética e política, ao radiografar a intolerância, a ação perversa da introjeção da miséria, a violência policial acasalada, a impunidade, o preconceito institucionalizado, a cidadania incompleta, o peso do desemprego e a ausência dos iguais direitos de opções. Neste contexto, meus cartuns, cartilhas, pôsteres, cartazes ou tiras às vezes palanques e até púlpitos profanos. Nessa contramão – o processo evolutivo de meu trabalho – não poderia ser diferente na medida em que a condição político-existencial torna inseparáveis forma e conteúdo, criatura e criador, arte e a vida”.

Maurício Pestana7


A questão racial no trabalho de Pestana


“Maurício Pestana, brasileiro, trinta e poucos anos, incansável produtor de originalíssimos cartuns e sem prolífico, é um dos mais conhecidos e atuantes artistas gráficos de nossa época. Mas não foi somente em termos de pena, pincel e tinta que ele apareceu para dar o seu recado. De uma forma clara, determinada e concisa, Maurício Pestana abriu espaços a tempos, conquistando a mídia através da reflexão inteligente de seu engajamento sócio-cultural, expressadas em traços fortes e inconfundíveis de seu temperamento artístico.

Sempre um sagaz crítico dos nossos infindáveis problemas econômicos, sociais e culturais, Pestana também se destaca na luta em defesa das minorias – ou maiorias – étnicas, publicando seus cartuns realistas recheados de bom humor em inúmeras revistas, folhetos, jornais e livros, numa imensa fila de editoras e instituições de todo o Brasil, fazendo repercutir suas mensagens em todos os cantos do país.

Embora não se filie a nenhum movimento político-partidário (o que se pressupõe devido às suas posições sociais), Pestana, por suas raízes culturais nascidas no próprio ambiente em que se criou, tem se revelado um ágil combatente dentro de uma área importante, mas limitada, da mídia, o que valoriza mais a sua obra se confrontarmos, ainda com as críticas internas, censuras oficiais e omissões de toda ordem que surgem desses órgãos.

Mas nem só de fortes e magníficos traços o artista vem alcançando enorme êxito. Os seus textos, diálogos e roteiros precisos, cheios de calor e compaixão pelo ser humano (que, no seu entender, é o princípio e o fim de tudo) revelam um cartunista contemporâneo, moderno e humanista, que, fazendo uso da palavra, cria imagens expressivas, tornando-as uníssonas com a realidade de nosso tempo.”

Paulo Hamasaki8


“O Cartum é uma forma de expressão sintética em que uma imagem acompanhada ou não de poucas palavras, é capaz de expressar dimensões da realidade social, cultural, política e econômica de uma sociedade. Na maioria das vezes, com humor ou ironia, apreende a dinâmica social com a eficácia de teses acadêmicas.

Mas um grande cartunista não se produz facilmente. O talento é inegavelmente um pressuposto essencial. No entanto, para que esse talento se realize plenamente, certas condições são necessárias, pois resulta de estudos, treino, pesquisa e informação, o que, em geral, não se encontra disponível para a gente negra desse país.

E isso é o que torna mais surpreendente a performance de Maurício Pestana. Mais um exemplo heróico de resistência e afirmação dos negros brasileiros, ante as impossibilidades que o racismo e a discriminação nos impõe.

Numa arte exercitada por poucos, e na maioria absoluta brancos, Pestana emerge solitário para questionar, desmentir a incapacidade negra alardeada pelo racismo. Num universo em que o negro se encontra excluído, talentos perdidos em favelas, palafitas, prisões; prisioneiros da pobreza e da ignorância poderiam estar aportando ao país criatividade, originalidade e óticas diferenciadas de percepção da realidade e de enfrentamento das contradições sociais. No entanto, sendo negro é preciso, como no caso de Pestana, ser genial para ser aceito como um igual entre seus pares.

Na arte do Cartum, que reúne comunicação, informação, educação e política, todas as áreas restritas aos mais afortunados desta complexa e excludente sociedade brasileira, surge um negro que consegue se manter evoluindo, amadurecendo, e sempre nos surpreendendo com sua arte.

Com sarcasmo, ironia, humor e a dor própria dos grandes cartunistas, Pestana consegue nos fazer rir e chorar e refletir sobre nossa condição humana.

Pestana é genial porque ao contrário dos que o antecederam, não se limitou apenas a trabalhar o Cartum com um fim em si mesmo, mas como um meio de tocar a todos nós. Hoje, sua arte exprime preocupações com a questão da mulher, da criança, do idoso, da cidadania, do consumidor, da auto-estima, enfim, dos Direitos Humanos.

São cartuns, cartazes, pôsteres, livros, cartilhas, etc, que compõem uma obra única em nosso tempo. O triste disso é que após 112 anos de abolição, o negro ainda tem que ser genial para ser respeitado em nosso país.”

Sueli Carneiro9

Esses dois depoimentos deixam claro o posicionamento de pestana com a questão racial. Profissional multifacetado, aborda todo tipo de assunto com embasamento teórico pois sabe da sua responsabilidade enquanto comunicador. Sua preocupação com o conteúdo e o contexto histórico, está presente em todos os seus trabalhos.

Maurício Pestana procura de todas as formas se manter bem informado sobre todas as questões que envolvem a questão racial. Como ele mesmo diz: “A informação é primordial para um bom trabalho”. Para isso utiliza todos os meios de comunicação que hoje temos disponíveis. Mas de uma coisa ele faz questão: manter-se fora da estrutura humana dessas organizações. Ele acredita que se fizer parte integrante de alguma entidade, poderá ter sua visão impregnada de partidarismo e seu trabalho perderia o caráter abrangente que tem hoje.


Experiências Internacionais


Pestana prepara cartilhas para diversas organizações e entidades. Suas cartilhas contendo assuntos como mercado de trabalho, cidadania, saúde, educação, etc, fazem grande sucesso. Em um desses trabalho, aliás sua segunda cartilha, junto ao Conselho da Comunidade Negra realizado em 1986, abordou o assunto Mercado de trabalho. A cartilha entitulava-se: O negro no mercado de trabalho. Texto de Clóvis Moura e charges de Pestana. A cartilha foi um sucesso.

A primeira tiragem foi de 3 mil exemplares. A segunda mais de 30 mil. A cartilha espalhou-se por todo o Brasil e chegou no exterior. Pestana recebeu convite para participar de exposições nos Estados Unidos. Seu trabalho é altamente reconhecido nos Estados Unidos pelo pioneirismo no Brasil e pela falta de cartunistas que dediquem seu trabalho a essa questão. Pestana acreditava que voltaria dos Estados Unidos cheio de conhecimentos novos. Ficou surpreso. Também nos EUA são poucos os negros que atuam, apenas quatro. Seu trabalho também é reconhecido na Europa.



Principais temas abordados


Com trabalhos para prefeituras, Ongs, associações, entidades de classe, Pestana tem um trabalho multifacetado. Sua prioridade é sempre levantar a lebre para as questões raciais, mostrar o quanto nossa sociedade é hipócrita ao afirmar que não há racismo no Brasil. Pestana tem como objeto tudo que de alguma forma oprime a população.

De acordo com Pestana os temas preferidos por ele são mercado de trabalho, violência e repressão policial, história da mulher, meios de comunicação, cidadania.

Seus livros mais polêmicos são: O negro no mercado de trabalho, publicado em 1986 , que traz informações históricas sobre o mercado de trabalho e a discriminação do negro desde o final do século XIX10; Manual de Sobrevivência do Negro Brasileiro, publicado em 1993, em português e inglês, traz inúmeras situações preconceituosas e alguns conselhos; e Racista, Eu? De jeito Nenhum..., publicado em 2001, que tem como foco os 20 anos de trabalho do cartunista. Os cartuns dessa publicação foram publicados de 1982 a 2001 em diversos jornais e revistas:

1982 – Jornal O Pasquim

1983 – Jornal do País, O São Paulo, revista Crítica da Informação

1984 – Diário do Grande ABC

1985 – A Transição da Transação, Editora Press (livro)

1986 – O negro no mercado de trabalho – Conselho da Comunidade Negra do Estado de São Paulo (cartilha)

1987 – Conselho da Comunidade Negra de São Paulo (livro e jornal)

1988 – Diário Popular

1989 – Educação Diferenciada (livro)

1990 – Gazeta Esportiva

1992 – Palavras de um trabalhador negro, CEERT – Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades (livro)

1993 – Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil – GELEDES – Instituto da Mulher Negra/ Editora Nova Sampa (livro)

1996 – Abaixo o racismo, o preconceito e a discriminação, UNEGRO, União dos Trabalhadores pela Igualdade (livro)

1998 – Cidadania não tem cor, Prefeitura Municipal de Vitória, ES (cartilha)

1999 – O nego e a cidadania 500 anos depois, SENAC, METRO (exposição)

1999 – Mulher Negra: sua situação na sociedade, Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (cartilha)

2000 – Mapa da população Negra no Estado de São Paulo, INSPIR, Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, CEERT, Centro de Estudos das Relações do Tarbalho e Desigualdade (cartilha)

2001 – O negro em conferência, Secretaria de Estado da Justiça do estado de São Paulo (exposição)


Conclusão



A importância do trabalho de Maurício Pestana é algo inegável. Sua luta para denunciar o racismo incrustrado na sociedade brasileira nos faz repensar diversos valores. Sua arte também é uma arma de conscientização, que nos leva à reflexão de nossos atos.

Militante pela causa e não por uma instituição é chamado por amigos de ING – Indivíduo Não Governamental. Sua trajetória profissional, recheada de bons conselhos e ótimas influências, fez de Pestana um homem maduro apesar da pouca idade.

Traz em si, a humildade de quem está sempre procurando aprender e apreender mais e melhores informações para poder exercitar o seu trabalho. Homem da comunicação tem em suas mãos a arte e em seu coração um desejo: igualdade.

No mês de junho de 2003 lhe será concedido o título de Cidadão Paulistano por trabalho realizado na conscientização do voto junto à comunidade negra.



Bibliografia

MOURA, Clóvis. História do Negro Brasileiro. São Paulo, Ed. Ática, 1992, p.84.


______________. Quilombos: Resistência ao escravismo. Ed. Ática, 1993, p. 94.
Movimento Nego Unificado. 1978 – 1988 – 10 anos de luta contra o racismo. São Paulo,

Confraria dos Livros, 1988, p. 79.


MUNANGA, Kabengele. Negritude Usos e Sentidos. Ed. Ática, 1988, p.88.
PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo, Ed. Contexto, 1992, p. 78.
RODRIGUES, Jaime. O tráfico de escravos para o Brasil. São Paulo, 1997, p. 64.
SANTOS, Pe. Anízio Ferreira dos (org). Eu, negro. Discriminação racial no Brasil existe? São Paulo, Ed. Loyola, 1988, p. 75.
SCHWARCZ, Lilia Moritz e REIS, Letícia Vidor de Sousa (orgs). Negras imagens. Ensaios sobre a cultura e escravidão no Brasil. São Paulo, EDUSP, 1995, p. 236.
SILVA, Marcos Rodrigues da. O negro no Brasil História e desafios. São Paulo, Editora FTD, 1987, p. 96.

Publicações de Maurício Pestana

PESTANA, Maurício. Racista, Eu? De jeito nenhum...São Paulo, ed. Escala, 2001.


PESTANA, Maurício e XAVIER, Arnaldo. Manual de sobrevivência do negro no Brasil. GELEDES, Instituto da Mulher Negra/ Editora Nova Sampa, 1993.
PESTANA, Maurício e MOURA, Clóvis. O negro no mercado de trabalho. São Paulo, Conselho da Comunidade Negra, 1986.
PESTANA, Maurício. Documentação: Sinônimo de Cidadania. Brasília, Fórum de Mulheres do MDA/ INCRA, 2003.
PESTANA, Maurício. Negro Cidadão levante e lute pelos seus direitos. São Paulo, UNEGRO, 1998.
PESTANA, Maurício. O negro e a cidadania 500 anos depois. São Paulo, Sesc Itaquera, 2000. (Exposição)

1 Jaime Rodrigues. O tráfico de escravos para o Brasil. São Paulo, Ática, 1997. p. 7.

2 Kabengele Munanga. Negritude: usos e sentidos.São Paulo, Ática, 1988. p.15.

3 idem, p.26

4 Clóvis Moura, Quilombos. São Paulo, Ática, 1993, p.11.

5 Idem, p. 58 Op. Cit. Joaquim Ribeiro.

6 Movimento Negro Unificado. 1978 – 1988 – 10 Anos de Luta contra o racismo. São Paulo, Confraria do Livro, 1988. p.20.

7 Maurício Pestana. O negro e a cidadania 500 anos depois. São Paulo, Cartilha de apresentação de exposição realizada no Sesc Itaquera, 2000.

8 Editor, quadrinista, ilustrador e roteirista. Foi um dos fundadores dos Estúdios Maurício de Sousa.

9 Filósofa pós-graduada em Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo) – Coordenadora Executiva do GELEDES – Instituto da Mulher Negra.

10 Este livro, publicado com a parceria do Conselho da Comunidade Negra de São Paulo, foi a primeira publicação feita no Brasil em que se admitia o racismo em território nacional, segundo Pestana.





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