Qual a dimensão do nosso espaço? Reflexão sobre os organismos de protecção no contexto social



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Qual a dimensão do nosso espaço?

Reflexão sobre os organismos de protecção no contexto social

LUÍS CARLOS FERNANDES RIBEIRO

Estudo para obtenção do grau de Mestre em

Práticas Artísticas Contemporânea




Orientadora: Professora Doutora

Gabriela Pinheiro




Porto, 2008

Qual a dimensão do nosso espaço?

Reflexão sobre os organismos de protecção no contexto social

LUÍS CARLOS FERNANDES RIBEIRO


Aos meus pais.


À minha orientadora, professora Gabriela Vaz Pinheiro, que em todos os momentos me apoiou e incentivou neste projecto;

Ao Director de Curso Fernando José Pereira que sempre demonstrou total disponibilidade para o que fosse necessário;

Ao Nuno Centeno pela sua disponibilidade e da sua galeria;

Ao Laboratório das Artes pelas longas conversas e por me ajudar a crescer como pessoa e como artista;

Ao Marco Morgan pela tradução;

À Raquel Guerra pelas palavras de incentivo e pelo texto produzido sobre a exposição;

A todos os meus amigos que de uma maneira ou de outra me incentivaram e ajudaram;

Por fim, mas não por último à minha querida Joana, companheira dedicada de todos os momentos.

A

todos a minha eterna gratidão.



Abstract

This reflection is the result of a confrontation between the theory and practice recorded in my own exhibition Accidents are an exception. The exhibition brought together several pieces that reflect on the attempt to control events, to prevent the invasion, the accident. One of the characteristics of the exhibition was the reference to what is imminent, to what can happen at any moment, without previous warning.


The perception that the human being has about his own space – Proxemia, was another conceptual concern. At the same time, I sought to reflect on the various bodies of protection created by humans to guarantee their safety.
Also the way we write History and how it affects the definition of space and territory is present on the reflection of this exhibition.
Finally, I consider all these issues with my physical space, in my hometown - Guimarães - which directly influences the production of the theory and practice of this project.
Keywords: Prexemia; Space; Invasion; Accident; Protection and Social Behaviour.


Resumo

Esta reflexão é resultado de um confronto entre a teoria e a prática registada na minha exposição Accidents are an exception. A exposição reuniu diversas obras  que exploram a tentativa de controlar os acontecimentos, de impedir a invasão, o acidente. Uma das características da exposição foi a referência ao acontecimento iminente, que ameaça suceder sem aviso prévio.

A percepção que o ser humano tem em relação ao seu próprio espaço – Proxémia, foi outra preocupação conceptual. Simultaneamente, levantou-se a questão sobre a existência dos vários organismos de protecção criados pelo ser humano, de modo a preservar a sua segurança.

Também a forma como escrevemos a História e como isso influencia a definição espacial e territorial está presente na reflexão desta exposição.

Por fim, relaciono todas estas questões com o meu espaço físico habitacional – Guimarães – que influenciou directamente na produção prática e teórica deste projecto.
Conceitos chave: Proxémia; Espaço; Invasão; Acidente; Protecção e Comportamentos Sociais.

Índice

Agradecimentos
Índice
Resumo
Abstract
Introdução




Objectivos

07

Metodologia




08


1. O Espaço

A visão antropológica de Hall e sua relação com o mundo pós-moderno






10


2. A Invasão

A necessidade dos organismos de protecção





14

O acontecimento iminente
3. O passado

O papel da História para a definição espacial e territorial


Conclusões
Bibliografia

19

26
29
30



Introdução

Os objectivos deste estudo centram-se na percepção do espaço pelo ser humano, e nos diferentes organismos de protecção que este cria.

Qual a verdadeira dimensão do nosso espaço? Que mecanismos de protecção são criados e com que fundamentos? De que forma a História influencia a definição espacial e territorial e porque se torna tão importante criar registos dos acontecimentos?

Reflectir sobre o processo operativo e encontrar um sentido nas obras produzidas foram os principais objectivos. Através de elementos como a fotografia, vídeo, escultura e instalação, desenvolvi um projecto que culmina em diferentes obras que são, elas próprias, matrizes possíveis de desenvolvimento de outras reflexões.

A cidade de Guimarães tornou-se objecto de reflexão e exploração prática através das imagens que me forneceu ao longo do processo de trabalho. As fotografias e o vídeo são pontos específicos que visualizo através da minha casa, funcionando como um observatório. Os postes de alta tensão, as antenas de alta-frequência, a montanha, os edifícios e o próprio clima geraram eles próprios uma paisagem.

A investigação teórica revelou-se fundamental para a compreensão dos objectivos a que me propus – tentar explorar a Dimensão Oculta de Hall, através da exploração sensorial que nos faça questionar sobre o verdadeiro valor do nosso espaço.



Metodologia

O método presente no meu trabalho prático baseou-se essencialmente na investigação bibliográfica e navegação na Internet sobre questões relacionadas com o uso que o Homem, enquanto produto de uma sociedade, faz do seu espaço.

Há alguns anos que tenho trabalhado artisticamente sobre estas questões, mas tornou-se importante para mim alargar esse conhecimento e interligá-lo com outras problemáticas.

Na fase inicial do projecto, o livro A Dimensão Oculta1 revelou-se fundamental para compreender o fenómeno espacial de uma perspectiva antropológica, onde aparece pela primeira vez o neologismo Proxémia – uso que o homem faz do espaço enquanto produto cultural específico. No entanto, como iremos ver no desenvolvimento desta reflexão, procurarei inserir a teoria de Hall nos dias de hoje e confrontá-la com a actual realidade.

O livro A Sociedade Transparente2 tornou-se numa peça chave para a construção do vídeo Different ways to distract you. O autor refere uma afirmação de Walter Benjamin sobre a importância da história para a representação espacial e territorial (Vattimo, 1992, pp. 8 e 9), questionando o que nós conhecemos do passado e sobre a forma como essa informação nos chega aos dias de hoje. No momento das filmagens do vídeo encontrei, no mesmo livro, o texto “A Arte da Oscilação” (pp. 51), um confronto ideológico interessante entre Heidegger e Benjamin – efeito Stoss vs efeito Shock – que me ajudou a compreender melhor o efeito visual e conceptual que eu pretendia com as imagens. O mesmo aconteceu no momento de seleccionar as fotografias para impressão, relacionando-as, visual e conceptualmente, com as filmagens do vídeo.

Num plano mais geral, o texto de Luis Castro Nogueira3 e o livro “Cibermundos”4 também desempenharam um papel importante para a

compreensão do manuseamento do espaço e sobre a necessidade do uso de organismos de protecção.

No livro “The accident of Art”5 (descobri alguns pontos essenciais para compreender a relação entre Arte e Acidente, apoiando-me na forma como iria inserir esta relação nos meus trabalhos.

A articulação entre a teoria e a prática foi feita mediante a evolução da investigação. O trabalho teórico não pretende explicar a parte prática nem a parte prática pretende ilustrar a teoria, mas trata-se da mesma matéria intelectual simplesmente comunicada de duas formas diferentes.

1. O Espaço


A visão antropológica de Hall e sua relação com o mundo pós-moderno

«A territorialidade é um conceito de base no estudo do comportamento animal: a territorialidade é geralmente definida como o comportamento característico adoptado por um organismo para tomar posse de um território, defendendo-o contra os membros da sua própria espécie.»

Edward T. Hall, 1966, pp. 19


Qual a dimensão do nosso espaço? Como fazemos a distinção entre as diferentes distâncias? De que forma o manuseamento do espaço influencia o nosso comportamento?

Uma possível explicação é a que o antropólogo americano Edward T. Hall nos dá, a noção de comunicação verbal – o tom de voz modifica-se consoante a distância; o sussurrar é por nós utilizado quando nos situamos próximos de outrem, e o grito quando estamos longe. Assim, Hall distingue quatro distâncias existentes no ser humano: íntima, pessoal, social e pública, cada uma comportando dois modos, o modo próximo e o modo afastado. Na distância íntima, a presença do outro impõe-se e pode tornar-se invasora pelo seu impacto sobre o sistema perceptivo (o cheiro e o calor do corpo do outro, o ritmo da respiração, o cheiro e o sopro do hálito, etc.). O mesmo antropólogo atribui medidas canónicas para cada uma das distâncias, sendo para a distância íntima 15 a 40 centímetros e para a distância pessoal 45 a 75 cm no modo próximo, e 75 a 125 cm no modo afastado. Poderemos imaginar-nos, no íntimo e no pessoal, dentro de uma pequena bolha protectora, um sistema criado por nós para nos isolar dos outros.

Na distância social (modo próximo de 1,20 a 2,10 m, e modo afastado de 2,10 a 3,60 m), demarca-se «o limite de poder sobre o outro», onde os pormenores do rosto já não são percepcionados e ninguém toca ou
espera que seja tocado.




1. As Distâncias do Ser Humano, 2006, Luís Ribeiro, tinta plástica sobre parede, inserido na exposição individual “Parasitic Humanoid”, Galeria Gomes Alves, Guimarães.


Por último, na distância pública (modo próximo de 3,60 a 7,50 m, e modo afastado de 7,50 m ou maior), segundo estudos de Hall, «diversas transformações sensoriais importantes se verificam quando passamos das distâncias pessoal e social
para a distância pública, situada fora do círculo imediato de referência do indivíduo» (Hall, 1986, pp. 144).

A 3,60 m, um indivíduo no pleno uso das suas capacidades motoras pode adoptar um comportamento de fuga ou de defesa caso se sinta ameaçado. A distância de 9 m é a que impõe automaticamente as personalidades oficiais importantes. No seu livro “The Making of The President” de 1960, Theodore H. White descreve, no momento em que a nomeação de John F. Kennedy se tornou certa, o encontro deste último com o grupo de personalidades que viera felicitá-lo a casa:


«As outras pessoas que se achavam na sala fizeram um movimento para avançar na sua [Kennedy] direcção. Depois pararam. Talvez uns dez metros as separavam dele, mas tratava-se de uma distância intransponível. Aqueles homens mais velhos, cujo poder se encontrava consolidado de havia muito, mantinham-se à parte e observavam-no».

Hall, 1986, pp. 145


Torna-se interessante verificar que Hall consegue definir com exactidão medidas padrão para aquilo que ele considera ser o «nosso manuseamento do espaço natural do ser humano». Obviamente que teremos de considerar o contexto sócio-cultural da época em que o antropólogo iniciou as suas preocupações em torno desta problemática (década de 60), mas não podemos deixar de questionar o que escreveria Hall, nos dias de hoje. Um título possível para o seu livro seria As distâncias do ser humano na era pós-moderna.

Já muito se escreveu sobre pós-modernidade, mas centremo-nos na ideia inicial de Lyotard da condição pós-moderna.

Lyotard escreve que as meta-narrativas modernas foram desacreditadas, que a ciência não mais poderia ser considerada como a fonte definitiva da verdade – uma era em que o saber estaria novamente aberto e em permanente construção. Temos assistido desde a década de 80 a um processo de construção de uma cultura ao nível global. Não apenas a cultura de massa, já desenvolvida e consolidada desde meados do século XX, mas um verdadeiro sistema-mundo cultural que acompanha o sistema-mundo político-económico resultante da Globalização.

Os próprios critérios-chave da estética moderna, do novo, da ruptura e da vanguarda são desconsiderados pelo Pós-Moderno. Já não é necessário inovar nem ser original, e a repetição de formas passadas não é apenas tolerada como encorajada. Os meios audiovisuais, utilizando a sua capacidade de atingir mais sentidos humanos, têm um potencial mais rico e imediato para transmitir a sua mensagem e a sua visão de realidade.

Assim, podemos questionar como reagiria Hall ao mundo cibernético, onde o telemóvel ou a Internet desempenham um papel cada vez mais fundamental na comunicação, não só visual mas também verbal e auditiva. Tomemos como exemplo a Internet.

Em Dezembro de 2007 o número de pessoas que utilizava a Internet era de 1,319,872,109 milhões (fonte: Internet world stats). Que medidas atribuiria Hall às distâncias não físicas? O facto de não existir relacionamento interpessoal inibiria Hall de atribuir uma distância a esta realidade? Ciber-Proxémia poderia ser o título do novo livro de Hall, caso este ainda fosse vivo, deixando de ser importante nesta realidade os centímetros e os metros de distância, mas sim o tipo de relacionamento que geramos neste mundo multi-comunicativo.

Para ajudar a compreender este fenómeno, debrucemo-nos sobre o termo Cibercultura, que apareceu na segunda metade do Século XX, fruto do desenvolvimento informático. O que define a cibercultura é o estabelecimento de uma relação íntima entre as novas formas sociais surgidas na década de 60 (a sociedade pós-moderna) e as novas tecnologias digitais. Ou seja, a Cibercultura é a cultura contemporânea fortemente marcada pelas tecnologias digitais, e não é mais do que a aceitação generalizada da existência de uma dimensão espacial virtual.

Não querendo aprofundar demasiado esta temática no domínio da antropologia e da sociologia, o que se pretende é apenas transportar para a realidade artística esta constante evolução dos critérios espaciais com os quais nos relacionamos diariamente. Tornou-se necessário, no âmbito deste estudo, alertar para esta canonização espacial de Hall, não podendo ser aplicada na realidade actual por ser demasiado precária, por falhar em aspectos essenciais da comunicação generalizada numa altura em que vivemos na era da revolução digital.



2. A Invasão
A necessidade de organismos de protecção

«Os paranóicos são seres movidos pelo medo. Projectam-no para o exterior e tudo se transforma em hostilidade: o mundo é perigoso, é preciso proteger-se; proteger-se dos perigos que rondam na noite escura, proteger-se dos malvados micróbios e também de todas essas pessoas que nos querem mal; o mundo é perigoso, é preciso estar de atalaia, vigiar tudo o que nos rodeia».

Vahé Zartarian e Emile Noël, 2002, pp. 49

Actualmente podemos constatar uma crescente utilização global dos meios informáticos na comunicação entre os seres humanos. No entanto, e numa altura em que cada vez mais nos preocupamos com a segurança, podemos questionar-nos sobre que medidas são hoje tomadas a pensar na nossa protecção.

Que organismos de protecção criamos na actual perspectiva espacial?

Numa recente publicação na Internet de um texto do Mário Lobato de Paiva6 (Assessor da Organização Mundial de Direito e Informática) pode ler-se que:


«Não podemos entender que qualquer tipo de acto pode ser feito na Internet com a argumentação de que o mundo virtual é diferente ou alheio ao mundo real e que, portanto, não está submetido às leis e costumes de um povo».

Este posicionamento leva-nos a questionar o tipo de mecanismos que devemos criar de modo a assegurar a nossa protecção contra invasores alheios. No mundo virtual as organizações internacionais Privacy International e GreenNet Educacional Trust resolveram produzir um relatório intitulado originalmente Silenced - an international report on censorship and control of the internet. Este documento aborda a questão da censura e controlo na Internet, contando com a participação de cinquenta países dos quatro continentes dando uma noção mundial sobre o tema e colocando-a à disposição de todos na rede. Como a Internet é, possivelmente, o organismo social mais recente no que respeita à criação de leis e mecanismos de protecção, torna-se importante referir que em todos os países do mundo existe legislação urbana e organismos encarregues da sua elaboração permanente. O problema é que estes organismos vêem-se constantemente ultrapassados pela realidade nas suas tarefas.

Seguindo este posicionamento, é importante realçar outro tipo de mecanismos de protecção. Na realidade, em quase tudo o que o homem cria nota-se uma necessidade de controlo absoluto, senão vejamos: Ao longo de toda a história civilizacional um dos instrumentos de protecção mais explorados pelo ser humano foram os artifícios arquitectónicos. Os objectivos eram possibilitar o aumento do espaço demográfico sem a necessidade imediata de expansão territorial mas, acima de tudo, proteger as sociedades dos agentes exteriores tais como das invasões de outros povos, do clima, dos outros animais, da criminalidade, funcionando como abrigo e elemento que preserva a privacidade. Que importância têm hoje os organismos de protecção que consideramos fundamentais para a sobrevivência (imagem 2)? Hall compara os seres humanos a uma população de ratos para nos falar da relação do homem com a arquitectura. O antropólogo descreve que se quisermos aumentar a densidade de uma população de ratos, conservando, ao mesmo tempo, os animais em boas condições físicas, basta que os coloquemos em caixas separadas, de modo a que eles não se possam ver ou tocar, e lhes demos alimento suficiente. Podemos, depois, empilhar as caixas indefenidamente podendo verificar que, por desgraça, os animais assim encaixotados tornam-se estúpidos, com comportamentos anormais na relação entre animais da mesma espécie que não estiveram sujeitos à mesma experiência. O que podemos depreender desta visão metafórica de Hall é que à medida em que





2. Invisible Invaders, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 97x70cm

nos vamos sentindo mais protegidos artificialmente, os nossos instintos fisiológicos que nos protegem – de forma natural – ficam adormecidos. Será devido a esse comportamento stand by que os acidentes acontecem?

No âmbito deste estudo torna-se muito dificil chegar a uma resposta. No entanto podemos reflectir sobre o assunto sugerindo alguns exemplos, nomeadamente:

O automóvel – um objecto técnico que modificou completamente o nosso estilo de vida . O automóvel é o maior consumidor do espaço pessoal e público que o homem jamais inventou. Os próprios construtores de automóveis trabalham arduamente no sentido de tornarem este veículo cada vez mais confortável e seguro, numa tentativa de tornar este objecto ainda mais imprescindivel, transmitindo a ideia de que se nos quisermos fazer transportar numa distância média/ longa, então deveremos fazê-lo da forma mais rápida, confortável e segura possivel, transparecendo a ilusão de que o carro é a melhor forma de o fazer.

No entanto assistimos aos números trágicos dos vários acidentes que acontecem diariamente, não sendo mais que a chave da ignição para a verdadeira invasão do nosso espaço.

No vídeo apresentado na exposição Proxemia – Dimensão [i]real (imagem 3), em 2005, a intenção foi chamar a atenção do observador para essa ideia de protecção/ não protecção, com a imagem de projecção dividida em dois: um crash test que em cima mostra o momento de impacto sem e em baixo com protecção do air bag. Mas então, porque é tão importante prevenir a invasão? Porque estamos constantemente a construir organismos de protecção? Hall coloca como resposta possível a ilusão de segurança.




3. Crash Test, Luís Ribeiro, 2005, DVD, cor, 0’14’’ loop.

Inserido na exposição “Proxémia – Dimensão [ireal”, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães.





Vahé Zartarian e Emile Noël nomeiam o medo como o principal motivo. Facilmente chegamos à conclusão que as duas se completam.

Basta-nos percorrer a Europa para verificar a que ponto as paisagens estão marcadas por inúmeras ruínas de muralhas, castelos ou fortalezas. Os homens do velho continente despenderam energias incríveis a transportar pedras para se protegerem. Protecções frequentemente ilusórias, quando sabemos hoje que essas fortalezas foram conquistadas, destruídas, reconquistadas, reconstruídas…

Todos os mecanismos de protecção criados por nós têm por base prevenir a invasão da nossa área de acomodação, a área que Hall nos fala quando descreve as várias dimensões espaciais do ser humano. São criados instrumentos que nos protegem intimamente – no acto sexual, por exemplo, o uso do preservativo – ou social e publicamente, como a polícia ou o exército para que possam impedir um assalto ou uma invasão territorial.

No entanto, existe um momento invasivo que elimina a possibilidade de protecção: o acidente. Um acidente é, sinteticamente, um acontecimento indesejável e inesperado que causa danos pessoais, materiais ou financeiros e que ocorre de modo não intencional.
«It is a real industrialization of forgetting that is orchestrated on a huge scale in the present, and it makes it all the more necessary to pay attention to the accident. Accidents used to be considered an exception; something that shouldn’t have happened and would take everyone by surprise».

(Lotringer, Sylvère e Paul Virilio, 2005, pp. 98)


Um acidente pode passar, de um momento para o outro, de uma dimensão espacial pública para uma dimensão espacial íntima quando, nesta medida, nos afecta directamente. Como não podemos prever um acto não intencional, os acidentes tornam-se em acontecimentos inevitáveis por estarem exteriores ao nosso círculo de controlo (imagem 4). Podemos prever, por exemplo na construção dos automóveis, a forte probabilidade de este vir a sofrer um acidente e, nesse sentido, os engenheiros e os construtores desenham e fabricam mecanismos que vão tentar assegurar a sobrevivência de quem conduz. É interessante verificar que existe no ser humano, ao longo do seu percurso histórico, uma tentativa quase obsessiva de tentar prever os acontecimentos. Podemos então considerar que um dos objectivos principais (a par do medo de Vahé Zartarian e Emile Noël e da ilusão de segurança de Hall) da criação de organismos de protecção passa pela necessidade de prever os acontecimentos indesejáveis.




4. Project for a new landscape, Luís Ribeiro, 2008, madeira, cortiça, e maquetas, 46x30,5x38,5cm



O acontecimento iminente

Accidents are bound to happen and the only question is when and where. But whenever we become aware of something, it’s already too late. Accidents are not in the accidents, they always precede it.”

Lotringer, Sylvère e Paul Virilio, 2005, pp. 99

A


5. An accident looking for a place to happen, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 70x97cm


exposição Accidents are an exception, que resultou numa composição de diversas obras realizadas no âmbito desta reflexão pretende, numa primeira abordagem, ser uma alusão ao que está iminente, que ameaça suceder de um momento para o outro, que ameaça cair sobre alguém ou alguma coisa (imagem 5). Nas fotografias e no vídeo apresentados o




5. An accident looking for a place to happen, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 70x97cm



objectivo era tentar transportar para as obras uma dimensão subliminar. Para compreendermos o alcance deste conceito, impõe-se a referência a dois autores que o consagraram – Edmund Burke e Emmanuel Kant. Para Burke a experiência do Sublime incide no prazer que se retira ao ver algo horrível (imagem 6). Mas para que esse prazer, que advém de um acontecimento terrível, possa ser experienciado, o sujeito tem de ser um mero espectador, ou seja, a sensação de perigo que um objecto pode provocar tem que ser afastada. O Sublime surge-nos, assim, como um sentimento dual: de dor e prazer, de perigo e alívio. Uma das questões que se coloca quando se fala de Sublime é saber onde ele


reside, se no sujeito (observador) se no objecto (obra).
Enquanto que para Burke o sentimento do Sublime está relacionado com os sentidos, com a parte física, ou seja, é desencadeado por uma reacção física simultaneamente de dor e de prazer, portanto, empírica, em Kant a experiência do Sublime é uma faculdade mental, algo que se experiencia, porque o sujeito tem a capacidade de ver, julgar e avaliar a desproporção entre o sujeito e a realidade que é objecto da experiência.

Não sendo o pensamento filosófico destes autores o propósito desta reflexão, não se torna necessário alargar muito mais a definição deste conceito. O que importa referir é que o vídeo Different ways to distract









6. Accidents are an exception, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 60x97cm



you (imagens 7 e 8) possui elementos que nos poderá permitir perspectivá-lo à luz do conceito de Sublime, ligado a um sentimento de ameaça da eminência do acontecer, uma ameaça levada ao extremo atribuído quer pelo poder das imagens quer pelo som estridente. O fim anunciado é sugerido pela dualidade de imagens, pelo pedido de atenção ao observador “Look Carefully” e pela quase ausência da presença humana – apenas aparece numa imagem de forma a transportar o observador para o local. O final do vídeo deixa-nos a dúvida no pensamento sem termos a certeza de que algo aconteceu, se bem que algo dramático parecia acontecer.

O vídeo é feito de projécteis, de projecções: logo que uma imagem é formada, já é substituída por outra, à qual o olho e a mente do espectador se devem readaptar. Para compreendermos melhor o efeito pretendido com o vídeo “Different ways to distract you” vamos olhar sobre a perspectiva de Vattimo.

O autor propõe-nos o efeito shock de Benjamin em oposição ao efeito stoss de Heidegger. Se em Heidegger a obra é uma “realização da verdade” que exerce sobre o observador um efeito de stoss de choque







7 e 8. Different ways to distract you, Luís Ribeiro, 2008, Mini DV transferido para DVD, cor, som, 2’:08’’

– em Benjamin acontece o isolamento da obra ao meio tecnológico precisamente pelo facto dos símbolos se consumirem mais rapidamente. No ensaio de Benjamin sobre a reprodutibilidade técnica, o efeito de shock é característico do cinema. Numa nota, Benjamin compara de forma explícita as prestações perceptivas exigidas ao espectador do filme com aquelas que são necessárias a um peão ou a um automobilista que se move no meio do tráfego de uma cidade moderna. Ou seja, dá-nos a noção de que o cinema é a forma de arte que corresponde ao perigo cada vez maior de perder a vida, perigos que os contemporâneos são obrigados a tomar em atenção. Em “Different Ways to Distract You” pretende-se transportar para o observador o efeito de Choque mas sem a “realização da verdade”, apenas imagens carregadas hipoteticamente de acontecimentos. Paul Virilio ao escrever no livro “The Art of the Moto”r7 sobre os motores da história, mostra-nos como as inovações técnicas transformam as relações entre os indivíduos com a natureza em todas as escalas. Escreve que as inovações tecnológicas transformam o espaço geográfico em todas as escalas (local, nacional e global).

Mas é no livro The accident of Art8 que Virilio vem colocar uma questão importante que nos pode ajudar a compreender o efeito Choque que reside na sombra do Sublime.

O que é, à luz do ser humano, algo negativo? Porque é que as pessoas censuram a negatividade? (Lotringer, Sylvère e Paul Virilio, 2005, pp. 88)

Virilio acredita que não podemos criar o bem sem criar o mal. Que não podemos criar o positivo sem criar o negativo. O Sublime tem sempre presente na sua sombra um lado negativo que nos faz sentir ameaçados mas que, no entanto, nos atrai de uma forma à qual não conseguimos escapar. Quando circulamos na auto-estrada e nos deparamos com um acidente rodoviário a nossa tendência é abrandar para ver o que se passa. Nesse acontecimento horrível há algo que nos atrai, como se um lado mais profundo da nossa consciência fosse chamado à realidade – Choque. Na exposição “Accidents are an exception” pretende-se que o observador procure este efeito. Para ajudar a que se sinta o Choque nas fotografias (pois aparentemente são imagens limpas de negatividade) é importante o título atribuído:

An accident looking for a place to happen” (imagem 5), “Accidents are an exception” (imagem 6), “Industrialization of forgetting” (imagem 9), “Invisible Invaders” (imagem 10) e “Did you see what happened?” (imagem 11).

O título funciona como um mapa que obrigará a seguir uma leitura da imagem, contrariando a visão de Heidegger quando refere:
«Nunca perguntamos a partir da obra, mas sim a partir de nós […], que nesse perguntar não deixamos a obra ser uma obra, mas antes a representamos como um objecto que deve suscitar determinados “estados de alma”» 9.
As fotografias resultam de uma selecção de vários registos fotográficos de pontos estratégicos a partir de casa – Home – realizados ao longo de um ano na cidade de Guimarães. Os títulos em inglês funcionam como uma popularização do objecto artístico, servindo como um dado histórico importante. O objectivo é possibilitar às gerações futuras que compreendam melhor as sociedades dominantes de determinadas gerações mas, no entanto, levanta uma outra questão: o que se pode conhecer do passado?

Já não basta tentarmos antecipar os acontecimentos como fazemos questão de registar tudo o que acontece como se fossemos um enorme armazém mental colectivo.






9. Industrialization of forgetting, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 97x70cm


10. Invisible Invaders, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 97x70cm






11. Did you see what happened?, Luís Ribeiro, 2008, fotografia digital impressa a jacto de tinta, 97x70cm


3. O passado

O papel da História para a definição espacial e territorial

No livro “A Sociedade Transparente” encontramos a referência a um breve escrito de 1938 de Walter Benjamin Tetsi sulla filosofia della storia, onde este afirmou que a História como curso unitário é uma representação do passado construída pelos grupos e pelas classes sociais dominantes. De facto, o que se transmite do passado? Nem tudo o que aconteceu, mas apenas aquilo que parece relevante. Por exemplo:


«Na escola estudamos muitas datas de batalhas, tratados de paz, revoluções, mas nunca nos narraram as transformações do modo de nutrição, do modo de viver a sexualidade, ou coisas semelhantes».

Vattimo, 1992, pp. 9


Seguindo esta perspectiva, o que nós conhecemos da História foi-nos transmitido pelos nobres, pelos soberanos, ou pela burguesia quando se torna classe de poder. Mas outros aspectos de vida como os pobres, os considerados baixos, não fazem História. Assim, chega-se facilmente à dissolução da ideia de história como curso unitário; não há uma história única, «há imagens do passado propostas por pontos de vista supremo, global, capaz de unificar todos os outros» (Vattimo, 1992, pp. 9).

Nesta medida, o vídeo “Different ways to distract you” pretende funcionar, como o próprio título indica, como manobra de distracção: no momento em que estamos a visualizar o vídeo, à espera que algo aconteça, está a suceder, em milhões de outros locais, fenómenos tão ou mais importantes. Essa impossibilidade de transcrever toda a realidade é uma utopia presente ao longo da história: somos constantemente obrigados a seleccionar momentos que queremos eternizar. Actualmente, devido aos novos meios tecnológicos, a um mais amplo acesso à educação, aos mass media, etc., a maneira como se escreve a história é, de alguma forma, mais democrática. A velocidade real é muito




12. My idea of home, Luís Ribeiro, 2008, Poliestireno e pvc, 170x67x15cm


mais rápida do que é verdadeiramente. Ou seja, é com esta democratização que o nosso espaço individual aumenta, que passa a ter uma escala global; por exemplo, no momento em que estamos almoçar estamos a assistir a diversos directos transmitidos pelo noticiário, imagens de arquivo, imagens de várias cidades e de vários países, assaltos, guerras, desporto, cultura, tudo em cinquenta minutos.

Qualquer cidadão pode criar um blog ou um site na Internet e escrever sobre as suas preocupações, a sua História. As máquinas fotográficas e de vídeo digitais possibilitam uma massificação da imagem, do registo, aumentando em larga escala o arquivo histórico da realidade actual.

A peça HOME (imagem 12) surge como uma reflexão sobre a dimensão histórica do conceito de lar (HOME): Lar enquanto casa e cidade onde habitamos. HOME é um olhar classificativo, semelhante ao dos hotéis, da cidade onde as peças foram criadas – Guimarães. Sendo uma cidade com fortes raízes históricas implantadas no Centro Histórico da cidade, delimitado por muralhas e um castelo – elementos de protecção – tem como característica fundamental, segundo dados históricos, o facto de ser a primeira cidade do Portugal.

A ocultação de determinados factos históricos é um dos maiores mecanismos de protecção que o Homem já criou. Cada um de nós, na nossa intimidade, oculta pormenores que, na razão da nossa existência, podem ser tão ou mais importantes como vários dos registos que tornamos públicos. O importante é que consigamos manter o nosso espaço intacto. Qual será a dimensão real do nosso espaço? Talvez do tamanho da nossa consciência.

Conclusões

A investigação teórica revelou-se fundamental para apoiar a investigação de determinados conceitos presentes na parte prática.

Na investigação feita e na referência a autores contemporâneos, o conceito de espaço pode ser referenciado de diversos modos, o que resulta em práticas também elas diferentes e únicas.

As questões mais importantes deste projecto residem:

Na expansão do território da memória e no arquivo histórico que o Homem tem vindo a criar ao longo dos séculos, funcionando como uma expansão demográfica da memória;

Na tentativa de prever os acontecimentos, funcionando como uma expansão temporal do espaço.

Nas quatro dimensões espaciais de Hall – íntima, pessoal, social e pública, não se adaptando à realidade actual.

Na necessidade dos organismos de protecção servirem para nos atribuírem uma ilusão de segurança, sobrevalorizando os instrumentos artificiais criados pelo ser humano, em detrimento da informação que nos é transmitida através dos sentidos.

Que os acidentes são acontecimentos inevitáveis, importando no âmbito desta prática artística apenas o momento que os antecede.

O resultado prático funcionou essencialmente como forma de exploração de diferentes materiais.

Muito do que ficou por abordar precisaria de outro quadro cronológico.

Refira-se a importância deste estudo para o desenvolvimento prático e teórico para que, futuramente, passa desenvolver obras que possam corresponder a este grau de investigação.



Bibliografia

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Benjamin, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política – O Autor enquanto Produtor, Relógio D’Água, 1992.
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11 Hall, Edward T., A Dimensão Oculta, Relógio D’Água, 1986.

22 Vattimo, Gianni, A Sociedade Transparente, Relógio D’Água, 1992.

33Nogueira, Luis Castro, ¿En qué espacio habitamos realmente los hombres?, Revista de Estudios Sociales no. 22, Facultad de Ciencias Sociales, Dezembro de 2005, p. 89-98.

4Noël, Emile e Vahé Zartarian, Cibermundos – Para onde no levas Big Brother?, Âmbar, 2002.

5Lotringer, Sylvère e Paul Virilio, The accident of Art, Semiotext(e), 2005.

Qual a dimensão do nosso espaço?



Reflexão sobre os organismos de protecção no contexto social

4


6 http://www.privacyinternational.org/survey/censorship/.

7 Virilio, Paul, The Art of the Motor, Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995

8 Lotringer, Sylvère e Virilio, Paul, The accident of Art, Semiotext(e), 2005

9 Heidegger, Martin, «A Origem da Obra de Arte», edições 70, 2007, pág. 55




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