Qual foi o seu envolvimento com a Rocinha?



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Encontro21.07.2016
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Qual foi o seu envolvimento com a Rocinha?
Conheci a Rocinha por causa de uma banda de rock para a qual escrevia as letras, como o escritor que, no meu romance, é julgado pela lei da favela. Comecei a freqüentá-la, fiz grandes amigos por lá e fiquei com o desejo de desvendar os mistérios que levavam, por exemplo, uma pacata dona de casa a ir a um baile funk com um bebê no colo, para cantar músicas de apologia ao Comando Vermelho, os chamados proibidões. Fiquei ainda mais impressionado depois que li uma reportagem na revista Veja, cujo titulo era “Rocinha S.A.”, que falava de uma economia aquecida e de empresários do asfalto que estavam abrindo negócios bem sucedidos por lá. A atração se tornou inevitável quando o antropólogo Marcos Alvito e eu demos um passeio durante toda a madrugada pela favela, sem que ninguém nos abordasse. Vi que se tratava de uma comunidade aberta, sem dono e sem o terror da narcoditadura pintada em cores fortes pela mídia. Resolvi então escrever o livro, que, tal qual o do escritor cujo julgamento deflagra o romance, seria uma grande homenagem ao processo de emancipação da Rocinha e as suas grandes conquistas, como a de ter virado bairro.
Quando mais precisamente veio a idéia de escrever um romance que falasse sobre a realidade vivida dentro da comunidade?
Como já disse, entrei na Rocinha para escrever uma reportagem. Saí de lá como romancista porque ninguém passa pelo que passei sem fazer uma reflexão, sem rever a sua vida, sem tentar entender as razões para ter caído num abismo como aquele. Eu até poderia ter aberto mão de publicá-lo, como cogitei em diversas ocasiões, tanto por uma questão de segurança pessoal como porque a introdução desse tipo de discussão iria colocar em xeque uma das coisas em que mais me empenhei nos últimos anos, que era a de construir uma ponte entre os dois lados da chamada cidade partida. Mas eu, no mínimo, tinha que fazer uma catarse da experiência de ser julgado por um crime que, no “tribunal” que me “julgou”, costuma merecer a aplicação da pena de morte.
Qual é o equilíbrio que existe entre ficção e realidade no seu livro?
Meu livro é um romance e como tal usei de toda a liberdade oferecida pela ficção para trabalhar, mesmo quando estava lidando com fatos reais. Na terceira parte, por exemplo, eu mudei o dia da prisão do Sombra e o modo como a favela tomou conhecimento da entrevista em que Marina Maggessi diz que ele fora dedurado pelo próprio Lulu, atual chefe do tráfico na Rocinha. Também me vali de licenças poéticas para construir a cena em que o matador da boca destrói o centro de artes à revelia do Lulu – que no livro chamo de Bigode, como ele é conhecido pelos mais chegados. Na cena da destruição, eu me baseei num menino que jogou bomba no DPO da favela por iniciativa própria, como uma forma de demonstrar uma das sensações que tive desde que entrei na morro, a de que o chefe do tráfico estava perdendo o controle sobre sua comunidade. Porém, houve tanto o julgamento como a publicação do artigo que desencadeia todo o processo em um site produzido por crias da Rocinha para discutir a favela, do mesmo modo que no livro. Há em torno deste julgamento uma série de personagens que foram transpostos diretamente da realidade para o romance, que qualquer pessoa do morro irá reconhecer sem a menor dificuldade.
O que você ganhou, em termos narrativos, por ter estruturado o livro em três blocos, com o diário do escritor ocupando a segunda parte?
Um bom livro é aquele que entretém o leitor, ousa do ponto de vista narrativo e produz conhecimento. Às vezes, penso que o livro seria mais fácil de ler se não tivesse o que chamo de “Livro Dois”, que contém o diário do escritor. Mas ali, naquele diário, há tanta informação sobre a vida na Rocinha, que em determinado momento do trabalho pensei que ele – que chegou a ter mais de 500 páginas e foi muito difícil de ser reduzido a menos da metade do tamanho original – seria o próprio livro. Fiz muitos cortes para facilitar a vida do leitor, mas também não queria perder a oportunidade de mostrar a grande pesquisa que fiz para escrever sobre a Rocinha.
Que contribuição “Sorria, Você Está na Rocinha” traz para a compreensão de como são vistos o homossexualismo e os homossexuais dentro da favela?
Eu lanço luzes sobre essa questão, mas tenho certeza de que os homossexuais e o homossexualismo continuarão a ser vistos com grande preconceito na favela. É verdade que as incontáveis mortes decorrentes da guerra do tráfico estão mudando a clássica frase dos pais da favela, que sempre disseram que preferiam ter um filho bandido a ter um filho viado. Vale lembrar, porém, que a favela tem uma visão equivocada da homossexualidade. Para a favela, não há nada de mais num macho comer uma bicha louca. Como diz Paulete, o homossexual que narra a minha história, ao macho tudo é permitido. Ele só não pode “dar a bunda”, para falar um português mais claro. Há uma outra coisa, que não explorei no meu livro, que é o fato de haver homossexuais nas famílias dos grandes bandidos cariocas. O irmão e herdeiro do trono do Uê, por exemplo, é gay. O irmão do Lulu, chefe do tráfico da Rocinha, também.
Você crê que o seu trabalho seja pioneiro em termos de mapeamento da Rocinha?
Acho que o estudo das favelas em geral e da Rocinha em particular está comprometido por duas visões de mundo diametralmente opostas e igualmente equivocadas. Uma delas trata a favela como o locus do mal e da marginalidade, totalmente contaminado pelo que se convencionou chamar de narcoditadura. A outra é a do politicamente correto, que tem como origem o clássico estudo da antropóloga norte-americana Janice Perlman, O mito da marginalidade. Os seus seguidores, numerosos nas universidades e nos projetos sociais, estão idealizando a favela, dando tanta importância ao fato de que ali há trabalhadores, que se esquecem de que lá também existem bandidos. Acho que quem chegou mais perto da realidade foi o sociólogo Josinaldo Aleixo, que transpôs para as favelas cariocas dois conceitos de Loïc Wacquant, um antropólogo francês que estudou as chamadas políticas de lugar e de espaço. Em sua tese de doutorado, Aleixo mostra os níveis de negociação entre aqueles que fazem política de lugar, os traficantes, e aqueles que fazem política de espaço, as ONGs, as lideranças comunitárias etc. Ele mostra que a favela tem uma vida política plural, na qual diferentes atores negociam interesses contrários, do mesmo modo que o ACM negocia com o Genoíno no Congresso Nacional. Resta saber, tanto na favela como no Congresso, até que ponto a convivência entre setores teoricamente tão díspares contamina um o trabalho do outro.
O que você teria a dizer sobre como o seu livro aborda o poder na favela?
Este é o tema central do meu livro: os poderes da favela. Do conforto de nossas casas, tendemos a imaginar que a favela é um bando de trabalhadores miseráveis que vivem aflitos ou coniventes com o tráfico, seu único e asfixiante poder. Mas a favela tem a sua elite, que, como toda elite brasileira, é escrota, egoísta e se enquista no poder para usá-lo em seu próprio benefício. O slogan da Lit, uma pizzaria na Estrada da Gávea que criou um eficiente serviço de delivery aproveitando a onda dos celulares e das motos, é "porque você é de elite". Uma das coisas que mais me surpreendeu quando cheguei na favela, e que registrei no tal diário, foi a existência de duas Rocinhas – uma que tem e a outra que não tem, como diz um dos personagens da trama. O meu livro é sobre as pessoas que têm, o modo como essa elite se compôs com o asfalto para espoliar os moradores da favela. Há tanto na Rocinha como nas demais favelas do Rio de Janeiro uma aquecida indústria da miséria, que aproveita cada uma das crises vividas pela comunidade, inclusive a atual guerra do tráfico, para vender novos projetos e cuja verdadeira mudança foi criar essa elite e encher os burros de dinheiro. Nós, em nossa infinita distância da favela, achamos que só o fato de irmos até lá, para trabalhar em projetos sociais, nos dá uma aura de santidade. Não percebemos que eles são tão pouco democráticos e distantes quanto os órgãos públicos de Brasília. A elite da Rocinha não presta contas do que faz nas associações de moradores. Isso não tem nada a ver com o tráfico. Tem a ver com a nossa pouca tradição democrática. Para o povão da Rocinha, o cara que assume uma ONG ou uma associação de moradores não o faz em nome do bem público. Vai para se dar bem, como qualquer vereador obtuso da cidade. Ouvi isso do primeiro ao último dia da minha estadia na favela.
Você acha que o tráfico de drogas atrapalha mais do que ajuda os projetos sócio-culturais na Rocinha?
O tráfico nem ajuda nem atrapalha os projetos sócio-culturais que chegam na favela, seja via poder público ou via ONGs. O tráfico tem seus próprios projetos, como todos estamos carecas de saber. O que não sabemos é que, hoje, a maioria deles foi criada, acreditemos ou não, com o mesmo discurso com o qual vamos buscar dinheiro nas grandes instituições financeiras internacionais, ou seja, afastar as crianças do tráfico. Há várias razões para isso, muito mais complexas do que a simples tentativa de sedução de uma comunidade ou de cooptar novos quadros. Para dar um exemplo de como a questão é muito mais ampla, o tráfico não tem empregos para oferecer a todas as pessoas que oferecem seus préstimos para a boca. Outro exemplo no mínimo perturbador é que parte daqueles que se dizem perseguidos pelo tráfico na verdade foram expulsos da favela porque estavam desviando recursos públicos que lá chegam, como por exemplo os remédios do posto de saúde, que são, a propósito, uma importante fonte de corrupção para essa elite sobre a qual escrevi. Um dos grandes traficantes da cidade me explicou a razão para essa preocupação, que vai além da óbvia tentativa de seduzir a comunidade. É que, na falta do remédio, essas lideranças comunitárias vão até o tráfico pedir dinheiro para poder comprá-los. Além disso, o tráfico adora os eventos que são promovidos na favela e atraem grandes estrelas da mídia, e se esmera para recebê-las bem. Os shows do Conexões Urbanas sempre terminam com uma grande festa bancada pelo chefão da favela no qual o show é promovido. No dia da inauguração da Casa de Cultura da Rocinha, chegou a ser constrangedora a mistura promíscua de autoridades, celebridades e de seguranças do Lulu, todos eles fortemente armados. Como sempre, essa questão também envolve muito mais mistérios do que a nossa vã imaginação pode alcançar. Podemos explicar a participação do tráfico nesses eventos pela questão econômica, já que se vende droga a rodo em shows como o da Ivete Sangalo na Rocinha, que atraiu milhares de pessoas do asfalto. Também podemos explicá-la pelo marketing puro, já que a comunidade fica satisfeita e aceita, como nós, a política de pão e circo. Mas não podemos esquecer que os traficantes participam desses eventos porque adoram celebridades, e não perdem a oportunidade de tirar uma foto ao lado delas. Além disso, não tem polícia no morro durante a preparação desses eventos.
Houve alguma espécie de resistência ao seu livro, depois que o pessoal da comunidade soube que você estava escrevendo um romance de fundo tão realista?
Desde que me botaram para correr da Rocinha, tenho mentido para todas as pessoas que tomaram conhecimento da minha experiência na favela, do que fui fazer nela. Mantive total segredo sobre o projeto tanto para os moradores da favela como para as pessoas que trabalham com projetos sociais, com as quais sei que vou me indispor por causa da mentalidade politicamente correta que quer ver os favelados como os bons selvagens de Rousseau, e por causa dos grandes interesses econômicos que elas têm nas favelas.
Que outros problemas você vem tendo por conta dessa problemática?
Depois do “julgamento”, recebi um telefonema no qual fui acusado de ser policial e de ter ido para a favela como um agente infiltrado da Marina Maggessi. Desde esse telefonema, dado por uma das poucas pessoas que me defendeu durante o “julgamento” depois de uma entrevista que a Marina deu para (o jornal) O Dia, só fui uma vez na Rocinha – no período em que eclodiu a guerra, quando ninguém ousaria pegar um jornalista num momento em que a favela estava tentando sensibilizar a opinião pública para o seu drama. Foi no dia em que recebi esse telefonema que me senti totalmente à vontade para publicar o livro, pois, independentemente do que fizesse, minhas portas para adentrar novamente esse universo estariam fechadas. Embora não tenha sofrido nenhuma ameaça desde então, mudei de endereço e troquei o número do celular. Não estou disposto a pagar pra ver.
No capítulo 3 da primeira parte, o personagem que narra a história comenta que “a vida na favela é uma eterna negociação com a realidade e os seus estreitos limites”. Você concorda com isso?
Totalmente. Negocia-se de tudo e com tudo dentro da favela. Há três regras básicas, que não podem ser descumpridas: é proibido estuprar, dedurar e roubar. No resto, a favela é totalmente amoral, aceita tudo que garanta a sobrevivência em um mundo que lhe é inóspito. É por isso que ela não condena nada. Nem o tráfico, nem a prostituição, nem o uso indevido do dinheiro que chega no morro em nome dos projetos sociais.


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