QualificaçÃo e empregabilidade: políticas públicas sobre educaçÃo profissionalizante no brasil alicia Felisbino Ramos Universidade Federal de Uberlândia Robson Luiz de França Universidade Federal de Uberlândia



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QUALIFICAÇÃO E EMPREGABILIDADE: POLÍTICAS PÚBLICAS SOBRE EDUCAÇÃO PROFISSIONALIZANTE NO BRASIL
Alicia Felisbino Ramos

Universidade Federal de Uberlândia
Robson Luiz de França

Universidade Federal de Uberlândia

INTRODUÇÃO

Este trabalho está inserido na linha de pesquisa História e Historiografia da Educação e se articula com o Grupo de Estudos e Pesquisas História, Trabalho e Educação. Descreve o percurso histórico dos cursos técnicos de nível médio no Brasil e analisa as propostas do governo que incidem sobre esses cursos à partir do PLANFOR e o PNQ, nos aspectos concernentes à suas concepções sobre Educação Profissionalizante e busca também conhecer a estrutura de funcionamento das instituições federais e estaduais do município de Uberlândia, que oferecem cursos técnicos. Para o desenvolvimento desta pesquisa utilizamos o enfoque do materialismo histórico dialético e consideramos os aspectos que compõe a história das políticas públicas educacionais, suas leis e decretos, que foram paulatinamente configurando o cenário atual da educação profissional brasileira. Constamos neste trabalho que as modificações educacionais e tecnológicas que se instalaram no Brasil, e especificamente no município de Uberlândia – MG veio absorvendo essas políticas educacionais e ofertando, durante a década de 90 os cursos técnicos de nível médio. Quando pensamos nesta modalidade de ensino, faz-se necessário conhecer o que ela representa para uma sociedade, onde poucos conseguem concluir os estudos e uma parcela menor ainda ingressam no Ensino Superior. Levando em consideração tal fato, é inegável que os Cursos Técnicos de nível médio surgem como uma saída de baixo custo para a formação rápida de mão-de-obra qualificada e especializada para o mercado de trabalho em uma sociedade globalizada e capitalista que ora se apresenta.


A Educação Profissional, anunciada pelo Ministério da Educação (MEC), visa reconstruir esse espaço de formação e,

corrigir distorções de conceitos e de práticas decorrentes de medidas adotadas pelo governo anterior, que de maneira explicita dissociaram a educação profissional da educação básica, aligeiraram a formação técnica em módulos dissociados e estanques, dando um cunho de treinamento superficial à formação profissional e tecnológica de jovens e adultos trabalhadores (BRASIL, 2005, p.2).


Não obstante, as modificações educacionais e tecnológicas que se instalaram no Brasil, o município de Uberlândia – MG veio absorvendo essas políticas educacionais e ofertando, durante a década de 90 os cursos técnicos de nível médio. Como exemplo, podemos citar a Escola Agrotécnica da Universidade Federal de Uberlândia que, concomitante ao Ensino Médio, oferece os cursos técnicos de: agropecuária e informática, e após cursar o Ensino Médio os alunos tem nos cursos de agroindústria, agropecuária, informática e meio ambiente, a opção de se qualificarem no pós-médio.

Nesta conjuntura política e educacional nos interessa, dentre outros aspectos, analisar historicamente as políticas governamentais direcionadas ao mundo do trabalho e à educação.

A análise da formação profissional no Brasil corrobora com as preocupações citadas anteriormente. A formação obtida no contexto educacional brasileiro é contraditória, uma vez que tanto manifesta processos de resistência com relação à afirmações dos interesses da reprodução do capital, bem como materializa concepções que, baseadas na noção de individualidade, responsabilizam os trabalhadores pela sua formação e manutenção no mercado de trabalho.

Essa é uma contradição que atravessa o capitalismo e seus processos de formação humana. O mercado de trabalho ocasiona desigualdades e discriminações devido à concentração de renda nas mãos de poucos que conseguem melhores condições de trabalho, enquanto que parcela considerável fica desemprega e submissa a empregos precários, sem nenhuma perspectiva de ascensão social e de permanência no mercado de trabalho. Segundo Pochmann (2004), a dinâmica do mercado de trabalho é extremamente excludente e danifica as contribuições que a educação oferece, aumentando, conseqüentemente, as desigualdades sociais existentes no país. As taxas de desemprego vêm aumentando para a população mais escolarizada, o que acaba por exceder mão-de-obra para o mercado neste seguimento social. Desta maneira a elevação dos níveis de escolaridade - num quadro de estagnação econômica e baixo investimento em tecnologia e precarização do mercado de trabalho - acaba se mostrando insuficiente para potencializar a geração do trabalho (Pochmann, 2004).

Pode-se perceber que os melhores empregos acabam com os mais ricos, sendo que os menos favorecidos e com alta escolaridade ficam desempregados além de sofrer preconceitos raciais e de classe. É necessário que ocorra uma expansão da escolaridade, não apenas do ponto de vista produtivo, como também da cidadania.

Segundo Alves e Vieira (1995), a tendência mundial aponta para um fenômeno irreversível e com intensidade crescente, que é a globalização dos mercados, decorrentes da internacionalização da economia. Nesse ambiente, o Brasil, para aumentar e consolidar sua presença no comercio internacional, busca adequar sua produção aos padrões de qualidade e produtividade vigentes na economia mundial. A modernização se evidencia pelas inovações tecnológicas e também pelos novos processos organizativos e gerenciais. Atraindo um número maior de empresas para a adoção de processos modernos de produção, aspecto que passa a determinar a qualificação profissional do trabalhador.

Historicamente, percebemos que grandes transformações do mercado de trabalho estão associadas e/ou determinam mudanças no perfil da mão-de-obra, o que, consequentemente, interfere na educação e na formação profissional e suas relações com o desenvolvimento do país. A discussão que permeia a Educação Profissional é a de possibilitar que uma pessoa empregada consiga manter-se no trabalho e caso desempregada tenha condições de pleitear um novo emprego. A qualificação profissional aumenta as chances do trabalhador, pois o torna mais competente e amplia as oportunidades de geração de renda.

De um lado, a ideologia da globalização e, de outro, a perspectiva mistificadora da reestruturação produtiva embasam, no campo educativo, a nova vulgata da pedagogia das competências e a promessa da empregabilidade. Ao individualismo do credo neoliberal somam-se os argumentos fundados no credo do pós-modernismo que realçam as diferenças (individuais) e a alteridade. Neste particular a diferença e a diversidade, dimensões importantes da vida humana, mascaram a violência social da desigualdade e afirmam o mais canibal individualismo (FRIGOTTO, 2004, p. 71).


Uma das influências do neoliberalismo nas políticas sociais consiste na propagação da qualificação profissional como único e exclusivo fator de promoção da inserção dos trabalhadores no mundo do trabalho. A este respeito, Castel alerta para a possível “não-empregabilidade dos qualificados” e que “é ilusório deduzir daí que os não-empregados possam encontrar um emprego simplesmente pelo fato de uma elevação do nível de escolaridade” (1998, p. 521).

A política neoliberal incrementada pelos governantes nas últimas décadas favoreceu a alta concentração e a uma desigual distribuição de renda, agravando a crise econômica no Brasil, promovendo o desemprego em massa, a imobilidade na produção industrial e agrícola e o falecimento do investimento estatal.

O Estado mínimo1, que vem sendo delineado pelo poder político neste país, introduziu uma política social de enfraquecimento das conquistas sociais da classe trabalhadora, com a não introdução dos investimentos financeiros que se fazem necessários para atender as demandas da população. Ao contrário, o Estado investe maciçamente em propagandas que propagam os benefícios de uma sociedade privatizada.

Com a proteção do Estado à economia de mercado, acentua-se mais as desigualdades sociais fazendo com que o dono do capital tenha sempre mais e seja o dono da bola, acirrando os conflitos sociais e desarticulando as instituições que representam a classe trabalhadora. As palavras de ordem são: "mercado", "escolha" e "direitos do consumidor", que reduzem o cidadão apenas à condição de consumidor2.

O discurso neoliberal atribui à intervenção do Estado todos os males sociais e econômicos da nossa atual situação e à iniciativa privada todas as virtudes e saídas; utiliza os meios de comunicação de massa para conquista da consciência social hegemônica; e, a educação, como veículo estratégico de preparação para o mercado de trabalho e como via ideológica de proclamação das excelências do livre mercado e da livre iniciativa.

Para conseguir apoio da população, o projeto neoliberal transforma questões políticas e sociais em questões técnicas. Percebe-se isso, numa análise realizada pelo Ministério do Trabalho3, quanto ao aumento do desemprego, quando, o Estado, transfere a questão do desemprego do espaço social e político e coloca-o, apenas, como resultado da introdução de inovações no setor produtivo. A análise realizada ver no vigoroso crescimento da produtividade do trabalho a causa principal do desemprego4.

Segundo o Ministério do trabalho, "... essas mudanças valorizam os trabalhadores mais qualificados, em detrimento dos menos qualificados"(BRASIL, Tendências do Mercado de Trabalho Brasileiro, www.mtb.gov.br).

Diante do exposto, muitas questões relativas à conquista da cidadania se fazem presentes: pode a conquista da escolaridade garantir a cidadania, num país que não garante ao indivíduo o direito ao trabalho? pode essa qualificação do trabalhador garantir-lhe emprego, sendo este um dos parâmetros fundamentais para tornar-se cidadão? em que se percebe a importância do aprendizado da escola, competências desenvolvidas pela escola, para que o trabalhador desenvolva bem o seu trabalho? a realidade social brasileira não compromete o projeto de cidadania?

Sabe-se que no Brasil, a partir de informações do próprio Ministério do Trabalho5, que embora a taxa de crescimento da população brasileira venha caindo sistematicamente, existe um contigente expressivo de oferta de mão de obra reprimida, a espera de oportunidade para ingresso no mercado de trabalho. O mesmo documento informa uma mudança no perfil etário dos trabalhadores inseridos no mercado de trabalho, que, segundo este órgão, se deu em decorrência do nível de nível de qualificação da mão de obra exigida por este. Sendo que, só os trabalhadores na faixa etária entre 25 a 39 anos têm conseguido atender a exigência das empresas por serem mais experientes e qualificados. O que se indaga é se estes trabalhadores estão tendo acesso ao mercado de trabalho por serem mais bem qualificados e experientes em relação aos com menor idade, entre 15 a 24 anos; ou o que ocorre é que o acesso destes, com menor idade, está sendo prejudicado por haver uma grande demanda, melhor qualificada, que diante da falta de empregos melhores, coloca-se a disposição do mercado, aceitando qualquer coisa e, as empresas, no momento de fazer a seleção estão optando por estes, mesmo que o cargo a ser ocupado não exija, necessariamente, pessoas melhor qualificadas e experientes.

Não parece ser necessário empreender muito esforço analítico para se identificar, na vida político-social das sociedades contemporâneas, uma série de chavões que, fazendo aqui um paralelo com a formulação dos especialistas especialmente especializados do Professor José Alberto Correia, poderia dizer que se apresentam como unanimidades.

O "consenso" está em toda à parte. Ele se chama "Estado Mínimo", "Estado Regulador", “globalização”, bem como "eficiência", "flexibilidade", "qualidade" - que tem que ser "total" - ou ainda "inclusão" que, paradoxalmente, quer incluir não desiguais, posto que desigualdade não reconhece.

Neste universo de unanimidades, curiosamente, muitas vezes, o dito é repetido sem que compreendido seja, visto não se explicitar o que se encontra por detrás dos chavões. Mas já que toda a gente diz... O reflexo dessa realidade no mundo educativo é direto. Nele também os "consensos" emergem. É assim, por exemplo, que nos últimos tempos se tem verificado uma convergência de discursos no sentido de se estreitar as relações entre o Sistema Produtivo e o Sistema Educativo, tendo ainda uma interferência crescente de setores exteriores a este último nas decisões tomadas em seu interior (Correia et. al, 1993). Dessa forma, a educação é definida conforme os horizontes do Sistema Produtivo. Num tempo de lógicas conexionistas, conecta-se a Escola ao mercado de trabalho, tendo ela uma única função: preparar mão de obra, em nome do desenvolvimento e da modernização. Esta parece ser uma orientação estruturante das políticas educativas na dita semiperiferia do sistema mundial, onde parece que o Brasil deve ser considerado, já tendo este sido definido como o norte do sul. Trata-se, ilusoriamente, de uma espécie de "grande corrida" ao centro, como se no centro existissem lugares para todos.



Mas não se poderá acusar os ideólogos do desenvolvimentismo e da modernização, como árbitros da "grande corrida" ao centro, de não se preocuparem com a cidadania, tendo em vista que ela está sempre presente em suas intervenções. É também uma expressão-consenso. Não é difícil encontrar na produção sobre política educativa a articulação trabalho, educação e cidadania. Aliás, esta é uma recomendação de muitas agências internacionais. Uma cidadania para a competitividade. A face problemática da articulação trabalho, educação e cidadania, porém, começa a se revelar, ao que nos parece, quando se faz aquilo que Tomaz Tadeu da Silva e Gaudêncio Frigotto fizeram, isto é, interrogar a mesma não com as palavras do vocabulário da ortodoxia do laissez-faire, laissez-passer, de inspiração neoliberal. Talvez assim a própria categoria trabalho seja mais bem compreendida, superando-se a sua perspectiva instrumental, lembrando aqui Habermas. O trabalho, há muito já foi dito, não é um fenômeno uno, mas sim duplo: é atividade de autocriação humana, através da produção de bens materiais como valores de uso, relação de intercâmbio entre o homem e a natureza, sendo ele também parte da natureza; mas, nas sociedades da supremacia do livre mercado, o trabalho assume a forma abstrata de mercadoria, como valor de troca, tornando-se uma força abstrata, sem conteúdo. Os seres humanos transformam-se em nômades do dispêndio de força de trabalho abstrata; como agregados diferenciados, cooperam de forma social, no entanto, em um grau de indiferença e alienação recíprocas; podem satisfazer as suas necessidades apenas indireta e posteriormente, por via do processo abstrato do automovimento do dinheiro. Poder-se-ia então indagar: destas duas dimensões, qual é a que está a compor a articulação trabalho, educação e cidadania?
Da mesma forma, não menos pertinente parece ser um refocar analítico sobre a noção de cidadania. Que cidadania? Eis, de longe, diferente das propagações sofistas de hoje, um tema nada consensual. O Iluminismo atribuiu à cidadania alguns princípios que, mesmo progressistas para a altura (ante o obscurantismo religioso), não deixaram de receber qualificações negativas. Cidadania liberal, abstrata, pois baseada apenas em direitos abstratos: direito de livre expressão, igualdade jurídica... Além disso, revelando o caráter contraditório desta noção de cidadania, o iluminado Voltaire costumava dizer que as massas não eram dignas de instrução, como também teses de Locke (a necessidade de se superar o estado de natureza...) apoiaram às dúvidas européias, por ocasião da expansão ultramar, no que se referia à capacidade dos povos ameríndios administrarem as suas terras. Que cidadania? A de inspiração neoliberal que, concebendo a cidade construída, associa as estruturações de sociabilidade à lógica do mercado e coloca na mão invisível deste a definição dos destinos de homens e mulheres? Talvez seja esta cidadania que, na busca das parcerias, confunde sociedade civil com mundo empresarial e prefere ver excluídos e não desiguais, pois o que pretende é adequação ao tipo de cidade já construída: inclusão. Falar em desigualdade pode significar que a cidade precisa ser construída. Mais ainda, num movimento de tensão dialética, precisa ser construída e reconstruída.

A ciência e a tecnologia têm sido concebidas como garantes da modernização, eficácia e produtividade, e a escola, ensinando-as, tem a função de viabilizar o sucesso do processo. E assim a ciência e a tecnologia deixam de ser um patrimônio da humanidade e passam a ser uma moeda desenvolvimentista, rubricada pela instituição escolar. Lembranças de Theodoro Schultz, saudades da Teoria do Capital Humano, quando se imaginava que ela, por caduquice, estava superada.


Discutindo o papel do computador na educação, e indagando-se se é ele parte da solução ou parte do problema, Michael Apple realça que a retórica da eficiência, da produção, dos padrões de qualidade, da eficácia de custo, da qualificação para o trabalho, da disciplina de trabalho, definida pelos grupos hegemônicos, tem excluído preocupações com o currículo democrático, com a autonomia do professor e com a desigualdade de classe, de raça e de gênero (Apple, 1986). Por detrás disso parece se encontrar o pragmatismo que oculta a natureza das opções societais subjacentes à retórica da modernização, sendo reflexo desse fato, por exemplo, a ênfase que se atribui à necessidade de se estreitar às relações entre a escola e a vida ativa sem que se explicite o que se entende por vida ativa ou a natureza das relações decorrentes (Correia et al, 1993). Ao que parece, o consenso social em torno do binômio escola/vida ativa não representa mais do que a subordinação das práticas educativas às chamadas "exigências"/"realidades" do mundo do trabalho, que não só desconsidera as dimensões do trabalho como tende a não entender o mundo do trabalho como mundo do trabalhador. Talvez um dos preceitos analíticos das iniciativas investigativas seja o de não se deixarem encantar pelas unanimidades.

Portanto, no caso da temática trabalho, educação e cidadania, não parecem ser despropositado tocar uma gaita desorganizadora dos consensos, principalmente quando os consensos estão cobertos de mistificação. Mistificação, por exemplo, que, desconsiderando a dupla dimensão do trabalho, compreende o mesmo apenas em sua forma alienada, onde, acompanhando Gorz (1988), pode-se dizer que predominam as expressões técnicas de uma cultura que é incultura em tudo aquilo que não é técnico e onde o aprender a trabalhar é o desaprender a encontrar, e mesmo a procurar, um sentido para as relações não instrumentais com o meio ambiente e com os outros.

Outro ponto importante a ser discutido, é a transferência do problema do desemprego do espaço público, social e político para o âmbito da iniciativa individual, quando o Ministério do Trabalho coloca que, uma das explicações para a menor presença verificada de jovens entre 15 e 24 anos no mercado de trabalho decorre de uma opção individual, segundo verificamos nas palavras do ministro.

Essa situação ocorre, provavelmente, porque esses mais jovens preferem ficar mais tempo na escola, seja formal, seja em cursos de qualificação profissional, antes de ir ao mercado. E por que? Porque as empresas demandam maior qualificação e os jovens valorizam a educação. (BRASIL, Tendências do Mercado de Trabalho Brasileiro, www.mtb.gov.br)

Diante da realidade social em que vive o nosso país, onde as carências econômicas e sociais da população desafiam-nos e onde cada vez mais os jovens são chamados a participar, mais cedo, da renda familiar, é contraditório a afirmativa de que os jovens estão deixando de ingressar no mercado de trabalho por preferir ficar mais tempo na escola.

Sabemos que o desenvolvimento acelerado da economia brasileira a partir dos anos 30 até meados de 1980 favoreceu o ingresso da população jovem pobre no mercado de trabalho, mesmo para aqueles que não possuíam o ensino fundamental completo, e eles estavam lá em busca deste espaço.

Hoje, quando se observa um aumento no nível de pobreza em nosso país é um tanto contraditório colocar que, o retardo no ingresso do jovem no mercado de trabalho se dar em decorrência de um adiamento voluntário em busca de melhor qualificação. Outra questão que se coloca é quanto a exigência real de maior qualificação ou se esta melhor qualificação dos trabalhadores admitidos no mercado de trabalho ocorre em razão de haver uma oferta de mão de obra mais bem qualificada disponível.

Percebe-se, portanto, uma necessidade de desenvolver determinadas habilidades básicas para a formação da mão-de-obra qualificada.

O desenvolvimento de habilidades básicas refere-se a Competências e conhecimentos gerais, essenciais para o mercado de trabalho e para a construção da cidadania, como comunicação verbal e escrita, leitura e compreensão de textos, raciocínio, saúde e segurança no trabalho, preservação ambiental, direitos humanos, informação e orientação profissional e outros eventuais requisitos para as demais habilidades. (BRASIL, 1999, p.8)

No entanto algumas questões pairam sobre esse cenário, como por exemplo: Para que servem as competências: para o mundo do trabalho ou para a vida? Na verdade entendemos que preparar para o mercado de trabalho é diferente de preparar para o mundo do trabalho.

Outra questão não menos importante se refere à baixa empregabilidade como realidade nacional, porém, ensinar por competências vai reduzir o desemprego?



1.6. AS TENDÊNCIAS ATUAIS DA EDUCAÇÃO

Nos últimos anos a educação ganhou importância nas discussões mundiais, sendo tema para diversos eventos através dos quais os países desenvolvidos e as organizações internacionais como a UNESCO, paralelamente às teorias dos novos paradigmas do conhecimento, como as tendências para a formação prática, habilidades e competências para o mundo do trabalho, reelaboraram e redefiniram modelos para a educação. Esse modelo foi direcionado especificamente enquanto exigências do mundo do trabalho. Entre eles destacam-se: a autonomia, a flexibilidade, a criatividade e a adaptabilidade. O termo competência é definido por Perrenoud (1999) como a capacidade de agir eficazmente numa determinada situação, apoiada em conhecimentos, mas sem se limitar a eles.

Analisa-se essa conceitualização na importância pedagógica do trabalho educativo para o desenvolvimento de uma dimensão exclusivamente profissionalizante do mundo do trabalho.

Os conhecimentos científicos devem ser utilizados para a construção das competências, não se estabelecendo apenas a reflexão, mas as habilidades construídas enquanto ação prática. Perrenoud propõe exemplos de blocos de competências para garantir a cada indivíduo o que ele denomina de capital mínimo. Nestes blocos distinguem-se competências transversais e competências disciplinares, pois constituem não só os processos fundamentais dos pensamentos transversais de uma matéria para outra e a construção de novos conceitos e teorias, como também englobam todas as interações sociais e cognitivas, afetivas, culturais e psicomotoras entre o aluno e a realidade no seu ambiente.

Por isso, no campo profissional as pessoas devem passar por esse novo tipo de formação básica para se adaptar às exigências. Uma das principais exigências às novas gerações, que se desenvolvem para a formação profissional, é a flexibilidade para múltiplas funções e não a formação pela qualificação padrão anteriormente denominada como preparação para o trabalho industrial.

Dessa maneira, a formação dos professores modifica-se nas relações com o ensinar. Destacam-se as seguintes transformações (Perrenoud, 1999):



  • Considerar os conhecimentos como recursos a serem mobilizados;

  • Trabalhar regularmente por problemas;

  • Criar ou utilizar outros meios de ensino;

  • Negociar outros meios de ensino;

  • Negociar e conduzir projetos com os alunos;

  • Adotar um planejamento flexível, indicativo e improvisar;

  • Implementar e explicar um novo contrato didático;

  • Praticar uma avaliação formadora em situação de trabalho;

  • Dirigir-se para uma menor compartimentação disciplinar.

A formação de competências exige uma pequena revolução cultural para passar de uma lógica do ensino para uma lógica da prática, baseada num postulado relativamente simples: constroem-se as competências exercitando-se situações complexas (Perrenoud, 1999).

Para se realizar uma análise crítica entende-se que as novas perspectivas de formação para o professor e as novas visões do conhecimento se referem, segundo Duarte (2000), ao conhecimento individual que, por sua vez, é reduzido à percepção imediata e a saberes tácitos.

O conhecimento teve sempre como princípio à apropriação, explicação, análise e reflexão dos fatos e fenômenos da realidade natural. Isso proporciona a objetivação das idéias e reflexões que se transformam em fontes teóricas e é por essas mesmas objetivações, que o conhecimento progride e se transforma pela própria evolução do Homem. Hoje, as discussões denominadas pós-modernas dos novos paradigmas do conhecimento permeiam a realidade enquanto simbólica e constituída por diversos discursos. A subjetividade e o relativismo cultural, trouxeram a negação da possibilidade do conhecimento objetivo, pois, de acordo com Silva (1996), todos os discursos constroem a realidade, instauram a verdade, institui regimes de verdade que instituem efeitos de verdade.

Nessa perspectiva, o conhecimento deve ser moldado de acordo com a realidade, adaptando-o a uma estrutura conceptual previamente definida para que não provoque contradições. Essa estrutura

conceptual definida é influenciada pelas delimitações e novas exigências do projeto neoliberal, cujas metas destaca-se no mercado livre, internacionalização da produção e do progresso tecnológico.

Segundo Frederick Hayek, nos seus textos, considerados os fundamentos teóricos do projeto neoliberal, ressalta-se, a respeito do conhecimento, uma visão muito ampla do significado da palavra conhecimento. Este significado não se restringe apenas aos fatos conhecidos, o conhecimento do como fazer as coisas é igualmente importante. As habilidades consistem em um conhecimento importante, mas são de um tipo que não pode ser escrito nos livros (Butler, 1983).

Essa visão do conhecimento, enquanto utilidade prática, trouxe às novas perspectivas de competências a visão dos valores do mundo do trabalho. As competências e a sua junção com os conhecimentos, só têm objetivos se forem traduzidas por uma competência utilitária. Encontra-se na citação de Perrenoud (1999) que “só há competências estabilizadas quando há mobilização dos conhecimentos supera o tatear reflexivo ao alcance de cada um em acionar esquemas construtivos".

Quando se enfatiza as novas competências, surge a possibilidade de não as dimensionar na formação científica, mas meramente numa ação comportamentalista para que as pessoas melhorem a produção do trabalho em relação à eficácia e eficiência, perfeitamente consideráveis quando se traduzem as novas competências por autonomia, flexibilidade e capacidade de trabalho em grupo.

Analisando essa perspectiva, observa-se um processo denominado alienação, no qual existe o sentido subjetivo de separação e distanciamento da riqueza do ser humano e a pobreza e limitação da vida dos indivíduos.

A alienação é o fato do ser humano não ser o sujeito daquilo que ele mesmo cria. Segundo Heller (1989), é essa alienação que é construída pela observação dos fatos como coisas causais, numa perspectiva de progresso natural, sem análises ou reflexões.

Ainda de acordo com Heller (1989), só há superação da vida quotidiana alienada quando há passagem da heterogeneidade (atividades individuais realizadas sem uma reflexão) para a homogeneidade (superação da alienação) e com a ação reflexiva fazendo parte do processo. A superação da alienação caracteriza-se pela concentração em determinada tarefa, modificação da personalidade e generalização, através do que se deve superar em determinada atividade, dos traços específicos da particularidade de determinado sujeito.

As problematizações explicitadas têm como um dos seus princípios os interesses e as novas formas da lógica capitalista de ação. Nas discussões e análises de Frederico (1997), essa nova etapa do capitalismo que marca a transição do fordismo-keynesiano para o pós-fordismo e o neoliberalismo, exigiu uma reestruturação da produção e a conseqüente precarização das relações de trabalho. Para satisfazer as necessidades imediatas do progresso, a prática, enquanto conhecimento utilitário, passou a ganhar espaços no trabalho educativo. Assim questiona-se, se as novas competências estão dirigidas de maneira pragmática e utilitarista, quais as conseqüências no trabalho educativo?

O mundo do trabalho resultante da mundialização, segundo Chesnais (in Duarte, 2000), permite introduzir a idéia de que se a economia se mundializou, seria importante construir instituições políticas mundiais capazes de dominar o seu movimento. Nesta lógica a instituição educação reforça esse processo refletindo e impondo novas perspectivas para a formação e qualificação da mão-de-obra.

Para se entender a relação trabalho, prática e educação, ressalta-se que quanto mais alienado for o trabalho, quanto mais estiver inserida em relações de produção baseada na propriedade privada dos meios de produção, mais a apropriação necessária à execução do trabalho será parcial, fragmentada e externa à personalidade do trabalhador, tornando a sua reprodução como trabalhador num processo antagônico à sua reprodução como ser humano. Mas mesmo assim não deixa de existir esse processo de reprodução e, com ele, alguma forma de apropriação de meios materiais e imateriais necessários à execução do trabalho (Duarte, 1996).

A reprodução como ser humano dinamiza-se no trabalho educativo, mas, tratando-se de Portugal, o que se observa nas tendências atuais, como a discussão de Philippe Perrenoud, é o esvaziamento do ato educativo dos conhecimentos, tendencialmente traduzido pelas novas políticas educativas analisadas nas próximas considerações.

Uma das tendências, a chamada nova prática, é a política educativa voltada para a formação básica via novas tecnologias, dirigida para a valorização dos interesses da indústria. Essa nova modalidade de trabalho educativo serve-se das ferramentas tecnológicas como o computador. A ênfase nas tecnologias e na sua utilização em Cursos Tecnológicos e Profissionais deve-se às vantagens de preparação em curto espaço de tempo, com o menor custo e abrangendo o maior número de pessoas possível. Para a produção industrial, o trabalho educativo nesta perspectiva aponta para a melhoria profissional das pessoas já no mercado industrial, com sérias perdas na aprendizagem e das necessidades gerais de qualificação.

Esse padrão de requalificação proposto para diminuir as diferenças de conhecimentos ressalta que para os analfabetos adultos ou com um nível de escolarização muito baixo, a esperança de serem instruídos para uma nova função do sector da elite do conhecimento está fora do seu alcance. E mesmo que a reeducação fosse implementada numa escala maciça, não haveria disponibilidade suficiente de empregos de alta tecnologia na economia automatizada do século XXI para absorver o grande número de trabalhadores demitidos (Rifkin, 1995).

O processo de desemprego, na lógica excludente do projeto neoliberal, faz a sua retórica culpando a própria mão-de-obra pela não-qualificação profissional e por conseqüência culpando os trabalhadores pelo desemprego. Por isso dão prioridade às opções de educação com a tecnologia para universalizar o acesso ao ensino e às novas competências do trabalho.

Após as análises realizadas, chega-se a questões e impasses que permeiam a grande necessidade, mas talvez pouca possibilidade de uma relação mais consciente do ser humano e o quotidiano, do superar dos limites da caracterização do conhecimento enquanto produção intelectual e da simples experiência real. Em relação às novas tecnologias, às exigências do mundo do trabalho e às novas competências, questiona-se o significado do progresso material e do progresso do ser humano, o esvaziar do conhecimento e a padronização de ações com características comportamentais e não de conhecimentos realmente científicos, onde segundo Evangelista (1992) se instaura o império da falta de conhecimento.

Enfim, são essas algumas das perspectivas adotadas pelas tendências educativas da atualidade. Mas voltando à questão inicial: Vai-se à escola para adquirir conhecimentos ou para desenvolver competências?

Ressalta-se que o papel atual da epistemologia educacional, numa visão do mercado de trabalho, sai do mundo das idéias e cai na utilidade prática empobrecendo o valor da existência do Homem na dimensão dos conhecimentos e saberes tendo em vista que crise econômica no Brasil vem sendo delegada, pelo discurso oficial, à incapacidade de desenvolvimento do país em consonância com as exigências do capitalismo central, avançado, marcado pelo acelerado desenvolvimento e sofisticação das forças produtivas. A esta questão geralmente se associa uma outra, referente à baixa qualificação da mão-de-obra, compreendida como um fator de atraso ou de impedimento do “avanço”. No bojo de tal leitura encontra-se a pseudocentralidade da educação nas relações sociais, argumento traduzido na atualidade como condição inadiável para a participação dos países num mundo globalizado, marcado pela competitividade, qualidade e produtividade.

Segundo o Departamento Intersindical de Estudos Sócio-econômicos e Políticos (DIEESE, 1998), “nunca trabalhadores, empresários, políticos, pesquisadores, profissionais liberais e demais formadores de opinião falaram tanto sobre a preparação para o trabalho e suas relações com o desenvolvimento do país”. E provavelmente nem tenham feito tanto, também. Entretanto, a verificável desintegração e descompasso dentro e entre tais políticas seriam mesmo o resultado de uma problemática envolvendo a eficácia e eficiência das ações do Ministério do Trabalho e Emprego ou seria expressão da incapacidade estrutural da realização da utopia liberal de “separação cirúrgica entre os mercados e o poder político” (FIORI, 1995 : 200)? Como outra dimensão de um mesmo processo, tais aparências não seriam uma evidência prática da incapacidade de confluência entre políticas públicas de emprego e Educação e políticas econômicas ancoradas na recessão?

O discurso da empregabilidade reconhece que, na competição acirrada pelos poucos empregos que o mercado oferece, existe também a possibilidade de pessoas que investiram no desenvolvimento de suas capacidades empregatícias, não terem acesso ao emprego e permanecendo na situação de desempregados, ou empregados em condições precárias. Além disso, devemos considerar os fatores estruturais geradores do desemprego, tais como insuficiência do crescimento econômico, o aumento da população em busca de emprego e o desenvolvimento tecnológico, que substitui trabalho humano, fatores este que ocasionam uma redução efetiva do numero de vagas disponíveis no mercado de trabalho.

A esse aspecto, Oliveira argumenta que


como requisito essencial à formação para o trabalho, a educação básica propicia aos indivíduos desenvolverem-se com maior adaptabilidade às mudanças no processo de trabalho, colocando-os em condições de continuar a aprender. Mas ela também contempla a necessidade de oferecer um mínimo de conteúdos à grande parte da população que se vê excluída do emprego formal e regulamentado, possibilitando às pessoas procurarem ocupações alternativas na esfera informal ou no trabalho autônomo (OLIVEIRA, 2001, p. 112).
A formação profissional tradicional, vista sob a ótica de habilidades específicas para o desempenho de determinada ocupação vem sendo desenvolvida no país por diversas instituições, entre as quais se destacam as escolas técnicas federais, os colégios agrícolas, os centros de formação tecnológica, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial-SENAI, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC e o Serviço Nacional de Aprendizagem Agrícola - SENAR, cada qual mantendo características e peculiaridades próprias. Além delas, a formação profissional conta ainda com institutos, fundações e outras agencias que também atuam no segmento de qualificação de mão de obra.

A formação profissional oferecida pelos programas de qualificação, segundo Alves e Vieira (1995), devem conter forte conteúdo educativo-profissional que garanta ao trabalhador acesso à moderna tecnologia produtiva e a modelos de gestão que possibilitem, de um lado, um leque de ocupações semelhantes para atender as solicitações do mercado, e de outro, a permanência num mercado cada vez mais concorrido.

Temas como, desemprego, geração de trabalho e renda ganham destaque nas políticas públicas compensatórias com intuito de desenvolverem ações que possam diminuir as conseqüências das transformações decorrentes do projeto neoliberal. Diante de tais problemas o Governo Federal criou o Sistema Público de Emprego, o qual propôs responder as demandas de um mercado de trabalho em transformação, bem como atender uma população de baixa renda e desempregada, sob a alegação de que deve existir uma ação por parte do estado que favoreça a inclusão social por meio da geração de trabalho e renda, que promova a redução do desemprego e o trabalho informal.

Para atender a tais demandas o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) vêm planejando e implementando políticas de trabalho e geração de renda que se fundamentam no incentivo ao associativismo e ao cooperativismo com foco no empreendedorismo, ou no fortalecimento da economia solidária, na qualificação e requalificação profissional do trabalhador para ingressar no mercado de trabalho como empregado ou como gestor de seu próprio negocio, na oferta de linhas de crédito para financiamentos dos empreendimentos e em outras parcerias.

Com a necessidade de gerar mais emprego e melhores oportunidades de trabalho e obtenção de renda, é inegável que o Governo Federal, através do MTE, tem buscado articular políticas públicas, que tenham impactos efetivos sobre a qualidade e a quantidade de emprego disponível ao trabalhador no Brasil. Podemos citar, dentre as implementações do Governo Federal referentes à relação Educação e Trabalho, o Plano Nacional de Educação Profissional – PLANFOR, que em 1996, visava contribuir para uma política pública de trabalho e renda no país, que pudesse atender às demandas postas pela situação de reorganização produtiva. No ano de 2003, sob a nomenclatura de Plano Nacional de Qualificação - PNQ, o governo sinalizava perspectivas de qualificação para o mercado que, além da competência técnica, dotasse o trabalhador de conhecimentos teóricos, políticos e sociais, promovendo inclusão social e democratização do trabalho.

Por todos estes programas políticos perpassam modificações no processo educacional ao longo dos anos. A história do Ensino Profissional no Brasil, segundo Kuenzer (1991), iniciou se, no âmbito federal em 1909, quando o então Presidente da Republica Nilo Peçanha assinou um decreto criando dezenove escolas de aprendizes artífices em todo o território nacional, as quais eram subordinadas ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, marcando oficialmente a implantação do ensino técnico. Estes cursos eram oferecidos com o intuito de ofertar aos jovens de classe social baixa a possibilidade de inserção no mercado de trabalho. Na verdade, era um sistema de ensino paralelo ao sistema regular. Desta forma, percebe-se a distinção entre formação para o trabalho intelectual, para as classes mais favorecidas, e formação para o trabalho manual, para as classes menos favorecidas. Na atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação, (Lei n° 9.394/96, Cap. III, art. 39): “a educação profissional integrada às diferentes formas de educação, ao trabalho, à ciência e à tecnologia, conduz ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva”. O objetivo desta formação também se vê contemplada nas palavras de Tuppy ao afirmar que

o que se torna significativo na atual LDB não é portanto, a profunda relação que estabelece entre educação e trabalho, mas sim os mecanismos dos quais se vale: de um lado, para ampliar as possibilidades de certificação profissional e, de outro, para descompromissar o Estado do principio mais amplo, equivalente à formação para o exercício da cidadania (TUPPY, 2002, p.113.).
De acordo com Franco (1998), várias são as expressões que tentam, através da história, imprimir significado à Educação Profissional: formação profissional ou técnico-profissional, educação industrial ou técnico-industrial, qualificação, requalificação e capacitação. Os referidos termos ganham complexidade e novos sentidos, levando-se em conta a nova realidade produtiva e a nova reorganização dos processos de trabalho. A falta de clareza sobre o alcance da formação técnica, também se faz sentir no desconhecimento dos limites e benefícios atingidos na realidade do trabalho, possibilitando uma reformulação da formação desses trabalhadores.

Não obstante, a lei previa que “a educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por diferentes estratégias de educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho” (LDB, n° 9.394/96, art. 40). Os cursos oferecidos, salvo poucos programas, estavam desvinculados da elevação da escolaridade, ademais outro exemplo, fruto dessa mesma política, é confirmado pelo desmonte dos CEFETs (Centro Federal de Educação Tecnológica) e escolas técnicas federais com relação ao sistema de ensino integrado - formação geral e formação profissional, que se consolidara através dos tempos. Foi uma política imposta, autoritária sem que as instituições tivessem tempo para amadurecer os novos rumos possíveis, recursos e técnicas em suas instituições.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

É oportuno recuperar o papel do Ensino Médio, qual seja estabelecer a relação entre o conhecimento e a prática de trabalho. Neste sentido, Kuenzer (2000) observa que a história do Ensino Médio no Brasil revela dificuldades típicas de um nível de ensino tido por intermediário, necessita responder à ambigüidade gerada pela necessidade de ser concomitantemente, terminal e propedêutico. Embora tendo na dualidade estrutural a sua categoria de base, as diversas concepções que sucedem com o passar do tempo, refletem a correlação de funções dominantes em cada época, a partir da etapa de desenvolvimento das forças produtivas.

Esta mesma autora, em sua obra de 1991, afirma que a reforma para o Ensino Médio, foi realizada através da Lei 5692/71, e pretendeu romper com a dualidade, substituindo os antigos ramos propedêuticos e profissionalizantes por um sistema único, por onde todos passam independentemente de sua origem de classe, cuja finalidade é a qualificação para o trabalho através da habilitação profissional conferida pela escola.

O Estado Militar, segundo Germano (2005) procurou adotar uma política educacional para o Ensino Médio que relacionasse educação e trabalho, que para o autor é uma visão utilitarista, imediatamente interessada na educação escolar sob forte inspiração da teoria do capital humano. Trata se de uma tentativa de estabelecer uma relação direta entre o sistema educacional e o sistema ocupacional, de subordinar a educação à produção.


Esta terminalidade faria com que um grande contingente de alunos pudesse sair do sistema escolar mais cedo e ingressar no mercado de trabalho. Com isso diminuiria a demanda para o ensino superior. A reforma do 2º grau, portanto está diretamente relacionada com a contenção do fluxo de alunos para as universidades. Desse ponto de vista, ela assumia uma função discriminatória, apesar do discurso igualitarista e da generalização da “profissionalização para todos” (Germano, 2005, p 176).
A reforma do Ensino Médio e Profissional do Governo Fernando Henrique Cardoso, anunciou como objetivo principal a melhoria da oferta educacional e sua adequação às novas demandas econômicas e sociais da sociedade globalizada portadora de novos padrões de produtividade e competitividade (BRASIL, 2004).

Propôs-se assim, modernizar o Ensino Médio e o Ensino Profissional no país, de maneira que acompanhasse o avanço tecnológico e atendesse as demandas do mercado de trabalho, que exige flexibilidade, qualidade e produtividade. Sendo assim, o Ensino Médio teria uma única trajetória: articular conhecimentos e competências para a cidadania e para o trabalho sem ser profissionalizante, ou seja, preparar “para a vida”. A Educação Profissional, de caráter complementar, conduziria ao permanente desenvolvimento das aptidões para a vida produtiva e destinar-se-ia a alunos egressos do ensino fundamental, médio e superior, bem como ao trabalhador em geral, jovem e adulto, independente da escolaridade alcançada.

Com a nova legislação, através do decreto n° 5.154, de 23 de Junho de 2004, a Educação Profissional técnica de nível médio pode ser desenvolvida de forma integrada, articulada, concomitante ou subseqüente ao Ensino Médio. Segundo o então secretário da Educação Profissional e Tecnológica, Eliezer Moreira Pacheco do MEC, indica que investir em ensino técnico e tecnológico é fundamental em países que, como o Brasil, passa por um grande processo de desenvolvimento econômico e social. Nesses casos é imprescindível que haja mão-de-obra qualificada. Com a revolução técnica e científica não há desenvolvimento sem que uma ampla e eficiente rede de educação seja formada. Mesmo que, para as dimensões nacionais, a rede pública ainda seja pequena, os cursos nesses níveis ainda são muito procurados, seja em escolas públicas ou particulares. Há grande demanda devido a excelência do ensino e pela alta taxa de empregabilidade imediata, o que nem sempre acontece na maioria dos cursos superiores (BRASIL, 2004).

É oportuno salientar e considerar que, no centro das preocupações daqueles que pensaram o ensino técnico, sempre esteve presente o fazer, o trabalho manipulativo, a indústria, a preparação e qualificação para o mercado. Toda essa trajetória mostra-nos que a despeito das inúmeras reformas pelas quais o sistema educacional do país passou a questão da formação seletiva e excludente ainda está longe de ser resolvida.

Podemos observar que, de acordo com a legislação vigente, a educação profissional e o ensino médio de nível técnico, são áreas que objetivam o desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva do indivíduo, dando acesso a alunos do ensino fundamental até o trabalhador adulto. Logo, todos têm a possibilidade de usufruir da educação profissional e se integrar ao mercado de trabalho.

A destinação desta educação profissional e do ensino técnico para tal público se faz mediante o foco de que eles têm que se qualificar, reprofissionalizar e atualizar jovens e adultos trabalhadores, com qualquer nível de escolaridade, visando a sua inserção e melhor desempenho no exercício do trabalho.

A pesquisa e resultados parciais por ora apresentados serão ainda aprofundados e outras análises e considerações ainda podem ser extraídas e exploradas em estudos posteriores.
NOTAS
Isso não significa, necessariamente, "um Estado pequeno, mas um Estado articulador e financiador da reestruturação produtiva na lógica do ajustamento controlado pelo mercado"( FRIGOTTO, 1997, p.36).

2 Segundo SCHUGURENSKY, "atualmente, sob os influxos hegemônicos do neoliberalismo e do neoconservadorismo, o conceito de cidadão compete com o conceito de consumidor ou cliente, o discurso centrado em direito inalienáveis tem sido progressivamente substituído por um discurso centrado em obrigações e tarifas oficiais, e as políticas de subsídios que equilibravam iniqüidades sociais e regionais (com o objetivo de que nenhum cidadão de uma nação esteja abaixo de um padrão mínimo) foram substituídas por políticas de privatização e descentralização" (1999, p.189).

3 Documento resultado de uma exposição realizada na Câmara dos Deputados, em 14/05/98, pelo então Ministro do Trabalho, Sr. Edward Amadeo: Mercado de Trabalho Brasileiro: rumos, desafios e o papel do Ministério do Trabalho. Homepage do Ministério do Trabalho: www.mtb.gov.br

4 A produtividade do trabalho refere-se ao modo de funcionamento do mercado de trabalho, sendo intensificada em especial com a introdução de novas tecnologias.

5 Dados obtidos no documento "Tendências do Mercado de Trabalho Brasileiro" , na Homepage do Ministério do Trabalho: www.mtb.gov.br .

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