Quando a oraçÃo brota do húmus



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Encontro29.07.2016
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QUANDO A ORAÇÃO BROTA DO HÚMUS...
Sabemos que Deus nos fala não só através da Bíblia, da Igreja, dos acontecimentos, mas também através de nós mesmos, daquilo que nós pensamos e existimos, através de nosso corpo, de nossos sonhos, e ainda através de nossas feridas e de nossas fraquezas... e até mesmo através de nossos pecados.

Ao longo da história, homens e mulheres experimentaram a limitação e o fracasso na vivência espiritual, mas sempre de novo se levantaram de suas próprias cinzas e retomaram o impulso para uma vida melhor.

“Não são as virtudes que nos abrem o acesso a Deus, mas a fraqueza humana e até mesmo o pecado”.

Tal afirmação pode causar estranheza, mas é a pura verdade.

Se queremos fazer a experiência do encontro com Deus, no cotidiano da vida, temos de tomar consciên-cia de nossa limitação, conviver com nossas próprias paixões e aceitar com humildade a nós mesmos.

O “subir” até Deus passa pelo “descer” até às profundezas da própria realidade pessoal.

Nesse sentido, o caminho para Deus não é visto como uma estrada de mão única que nos leva sempre para o alto, em direção a Deus. Pelo contrário, o caminho para Deus passa pela limitação e fragilidade, pelos erros e desvios enganosos, pelo fracasso e pela decepção consigo mesmo.

A verdadeira oração, dizem os antigos monges, surge do mais profundo de nossa miséria, e não das nossas virtudes. Para eles, a oração vinda das profundezas da existência é a oração que caracteriza a vida cristã, e precisamos viver a experiência do “fracasso” para chegar à verdadeira oração.


A palavra latina “humilitas” está relacionada com “húmus”, com terra.

Ser “humano” é reconhecer-se terroso, argiloso; é por essa razão que somos todos irmãos já que somos todos feitos de argila. Somos “argila” e devemos cuidá-la, cultivá-la e fornecer-lhe as condições para mantê-la aberta ao Transcendente. A “humildade” é a própria essência do ser humano; ela é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser “humano”. Essa é a verdade de nossa humanidade.

A humildade, portanto, é o reconciliar-nos com a nossa condição terrena, com o mundo de nossos instintos e paixões, com o nosso lado sombrio.

Nós temos necessidade de bastante contato com o chão de nossa existência para que o salto para Deus possa acontecer. Tudo quanto existe em nós em termos de sentimentos, necessidades, paixões e fantasi- as tem que ser apresentado a Deus, para que Ele o transforme. Em outras palavras, a transformação in- terior só pode acontecer quando tudo quanto está em nós é referido a Deus, ao Deus que nos ama e nos conduz à verdade de nossa existência (Ez. 43,1-7: “Deus plantou seus pés na terra”).

Tudo quanto pensamos e sentimos acontece na presença de Deus, do Deus que nos olha com bondade e compaixão e que vê até o fundo de nossos pensamentos e sentimentos.
A humildade é o coração mesmo da mensagem bíblica; ela é a transparente verdade que enobrece e engrandece, porque dá a exata medida de nossa fraqueza e limitação. Ela é o segredo da paz interior.

Sabemos que uma das fontes de angústia e ansiedade é contatar a diferença entre o que pretendemos ser, o que gostaríamos de ser e o que realmente somos.

A humildade é a verdade” (S. Tereza d’Ávila); ser o que se é, nada acrescentar, nada tirar, aceitar seu húmus, sua condição terrosa, suas grandezas e seus limites; maravilhar-se de que esta argila infinitamente frágil seja capaz de inteligência e de amor.

A humildade é a coragem de aceitar a verdade sobre si mesmo; ela é o lugar onde nós podemos ir ao encontro do Deus verdadeiro.

A humildade é acolher os próprios limites e aceitar o Infinito que está presente nesses limites.

A humildade é, justamente, aceitar ser argila no qual se manifesta a Luz.

Só ali, no mais profundo de nossa condição argilosa, é que a verdadeira oração pode se fazer ouvir.

Descer” à nossa realidade, significa considerar a experiência da impotência e do fracasso como o lugar da verdadeira oração e como chance de chegarmos a uma nova relação pessoal com Deus.


Na perspectiva cristã nada se perde; na oração aprendemos a acolher e a conviver com os cacos e frag-mentos de nossa vida, e a partir daí, com a graça de Deus podemos construir algo novo e surpreendente.

Quando não conseguimos mais nada, quando tudo nos foi retirado das mãos, quando somos forçados a constatar que fracassamos, aí é também o lugar onde já não nos resta outra coisa senão entregar-nos nas mãos de Deus, abrir nossas mãos e apresentá-las vazias a Deus.



FONTE: CEI-JESUÍTAS - Centro de Espiritualidade Inaciana

Rua Bambina, 115 - Botafogo – RJ – 22251-050



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