Quantas teologias existem? Qual a verdadeira? Bibliografia: ratzinger, J., Introdução ao cristianismo. Prelecções sobre o «Símbolo Apostólico»



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Anatomia da Fé Católica

Curso de Teologia para Universitários


semestre

Introdução à Teologia
4ª Sessão, 10 de Maio de 2008

Quantas teologias existem? Qual a verdadeira?
Bibliografia:

RATZINGER, J., Introdução ao cristianismo. Prelecções sobre o «Símbolo Apostólico», Principia, Lisboa, 2005, pp. 57-70

BLANCO, A., ¿Qué es la teologia? Libros MC, Palabra, Madrid, 1990, pp. 187-208

HERTLING, L., Historia de la Iglesia, Herder, Barcelona, 81984, pp. 42ss


1. A questão
Sendo a teologia um discurso sobre Deus coloca-se o problema da unidade: quantas teologias existem? Qualquer pessoa é capaz de formular um discurso sobre Deus a partir das fontes que antes estudámos e seguindo o método que anteriormente apontámos. Devemos concluir que existem tantas teologias quantos os teólogos.

No entanto, a diversidade de discursos acarreta o descrédito de uma ciência. É esse, provavelmente, um dos problemas mais difíceis da filosofia, nos nossos dias. Quando cada autor ignora tudo o que os outros disseram ele dá pé para pensar que é um mau autor. Além disso, se o teólogo se restringe às fontes ele é obrigado a estar de acordo em muitas coisas com o que outros disseram, porque a fonte é comum: a Escritura lida de acordo com a Tradição, interpretada autenticamente pelo Magistério.

Sabemos, porém, que as épocas e as circunstâncias podem determinar o discurso intelectual. É sabido, por exemplo, que o mundo oriental se diferencia do Ocidente também na abordagem teológica dos problemas1. Ou que a época medieval se distancia da forma como os Santos Padres trataram os assuntos2.

É natural que o Magistério reflicta também esses circunstancialismos histórico-geográficos, e a questão surge: não será que a unidade da teologia é impossível, como é impossível que os homens falem uma só língua? Mais ainda: não será que a condenação de certos autores como hereges corresponde a uma inexactidão, a uma falta de compreensão, de estreiteza do campo de visão?


2. Um problema antigo
É frequente ouvir expressões do seguinte teor: a «grande Igreja», a Igreja constituída também por aqueles que viriam a ser classificados como hereges, uma espécie de Igreja mais abrangente, mais compreensiva e tolerante, por oposição à Igreja emergente de Niceia, a Igreja que teria reprimido a dissensão com o auxílio do poder temporal do Imperador. Por trás deste tipo de afirmações esconde-se a tese de que a Igreja que saiu da Palestina era plural, no entendimento da figura de Cristo e da sua mensagem. A repressão teria sido o fruto amargo da aliança com o poder. Então a religião teria adquirido um estatuto instrumental para fins políticos.

Ora isso não corresponde à realidade. Desde o início foi necessário apontar claramente os desvios doutrinais e combatê-los. Tal combate é testemunhado pela própria Escritura3 e a Tradição, anterior à liberdade da Igreja, é também muito clara neste ponto. A gnose, que foi combatida incessantemente por Santo Ireneu de Lyon e Santo Hipólito de Roma, era uma verdadeira ameaça à ortodoxia e poderia vir a absorver o cristianismo numa religião aguada e sem força4. Mas não só a gnose: desde muito cedo que se elaboraram listas de textos proibidos de ler nas reuniões litúrgicas, mesmo que não gnósticos5.

Porque é que a teologia é tão vulnerável a estes desvios?

Pelo seu carácter eminentemente prático.

Este conhecimento é só especulativo em aparência. Nenhum conhecimento envolve tanto o homem na sua totalidade pessoal como o teológico. A maravilha que é Deus e o homem divinizado não se limita a extasiar: ela apela ao sacrifício de tudo o que lhe é inferior. A tentação é vender o mesmo produto a um preço mais baixo e arrebatar toda a clientela. Nessa clientela o homem tem caído vezes sem conta. A teologia é ciência mas implica uma atitude moral, uma escolha. É impossível fazer teologia sem uma disposição de santidade. Mesmo que teoricamente se pudesse contradizer esta afirmação ela acaba por ser irredutível.
3. A solução do problema
É necessário não confundir heresia com pluralidade. Sempre na heresia tem que existir a negação de alguma verdade revelada. Na pluralidade o que se dá é uma afirmação maior de algumas verdades.

Quando falamos de uma negação não pretendemos que todos os hereges tenham negado um artigo de fé pertinazmente. Nem sempre foi essa a sua atitude. Mesmo sabendo que essa é a definição canónica para o delito6 muitos hereges não tiveram ocasião de o fazer porque, ou não se submeteram ao tribunal competente ou simplesmente ele ainda não existia. Muitos hereges podem não negar explicitamente mas aquilo que afirmam é incompatível com a manutenção da verdade que a Igreja professa7.

A pluralidade distingue-se nitidamente porque ela é sempre compatível com tudo o que se afirma. Qualquer teólogo que investiga um campo pouco trilhado ou pouco esclarecido deve estar disposto a confessar tudo o que a Igreja crê.

Esta pluralidade, sendo saudável, deve estar acompanhada do desejo da unidade, da concórdia, da harmonia. Chegamos, de novo, a um ponto de confluência entre a ciência e as disposições morais do sujeito. Infelizmente a história foi testemunha de casos de fanatismo em questões opináveis, onde os autores de cada bando acusaram os da bancada oposta de heresia. Casos tão lamentáveis só se podem verificar pela cegueira dos homens.

A doutrina da Igreja é una, como a sua fé. Mas o caminho para abarcar a Ciência sobre Deus admite muitos percursos, pontos de partida diferentes, preferências e sensibilidades diversas. O ponto de chegada, porém, há-de ser necessariamente comum.
4. Uma questão marginal
A unidade da teologia exprime-se como acabamos de resumir. No entanto, poder-se-ia perguntar se a teologia não admite divisões. Estritamente falando, enquanto ciência de Deus, ciência que participa da Ciência que Deus tem de Si mesmo, a teologia não admite divisões. Mas enquanto ciência humana, i.e., ciência elaborada por homens, se bem que a partir da fé, ela admite uma divisão fundamental e uma outra acidental.

A divisão fundamental estabelece-se entre aquilo que é, diríamos a parte fundante, e aquilo que deveria ser. Uma vez que a teologia supõe uma ajuda, não a Deus mas ao homem que está chamado a unir-se com Ele, ela estuda também aquilo que contribui para essa união. Esta divisão tem como resultado a partição em dois grandes blocos de estudos: a teologia dogmática (aquilo que é) e a teologia moral (aquilo que deve ser). A moral, de qualquer modo, depende daquilo que se conhece sobre Deus e o sobre enquanto capaz de Deus.

A divisão acidental estabelece-se entre aquela parte que é estritamente teológica e aquilo que é propedêutico ou preparatório. A divisão dá-se entre a preparação do dado teológico e a elaboração do discurso. O dado é preparado pela teologia positiva, que se dedica a estudar as fontes (Sagrada Escritura, Tradição e Magistério), de onde se derivam as disciplinas de Exegese, Patrologia e História da Igreja. O discurso propriamente teológico é elaborado pela teologia sistemática, a qual, como já foi visto, pode ser dogmática ou moral.

5-V-08


1 Para dar dois exemplos que ilustrem o que se acaba de afirmar, referimos o caso da Santíssima Trindade e o da Encarnação, que são precisamente os dois mistérios centrais da doutrina católica. No caso da Santíssima Trindade os teólogos do Oriente partem da distinção de Pessoas em Deus para depois atingir a sua unidade; no Ocidente, pelo contrário, o ponto de partida é a unidade e só depois é que o discurso se detém na distinção de Pessoas e processões em Deus. Quanto à Encarnação, no Oriente o facto foi visto como a elevação da natureza humana ao ser assumida pelo Verbo; no Ocidente, ele foi visto como a humilhação de Deus, necessária para obter a redenção.

2 A escolástica procurou estudar cada questão, isolando-a e partindo-a nos seus vários artigos; a sua preocupação consistia no acerto da análise, mesmo que o discurso fosse muito cortado. Assim vemos que aconteceu nas várias Summa theologiae. Os Santos Padres costumavam comentar os temas com um discurso que não estava tão estruturado. A sua visão era mais intuitiva, mais baseada na Escritura.

3 As Cartas de São Paulo estão cheias de advertências aos desvios doutrinais, sobretudo as chamadas pastorais (1-2 Tm e Tt), mas também as outras; mesmo a condenação da divisão da Igreja de Corinto (cf. 1 Co 1,10-4,21) corresponde a um problema que não se deve situar meramente no campo moral ou disciplinar; essa divisão tem implicações doutrinais e São Paulo sabe-o bem. A sua autoridade está em causa, e disso se aproveitarão os seus inimigos; é o que preenche a segunda Carta à mesma Igreja. Também 2 Pe combate os falsos mestres (cf. 2 Pe 2,1-22) e detém-se a condenar aqueles que interpretam mal São Paulo (cf. 2 Pe 3,15-16). O Apocalipse abunda em referências a seitas das quais é necessário fugir ou expulsar das comunidades cristãs (cf. Ap 2,2.9.14-15.20; 3,8-10.

4 Cf. HERTLING, L., Historia de la Iglesia, Herder, Barcelona, 81984, pp. 30-31.

5 Cf. ORÍGENES Hom. in Lc. 1 (PG 13,1801s): «A Igreja tem quatro Evangelhos, os herejes muitos, dos quais alguém escreveu segundo os Egípcios, outro segundo os Doze Apóstolos. Basílides atreveu-se a escrever um evangelho e a dar-lhe por título o seu nome (...) Conheço certo evangelho que se chama segundo Tomé e segundo Matias, e lemos muitos outros»; EUSÉBIO (cf. H.E. 3,25; PG 20,268ss) classifica estes escritos em dois grupos: ortodoxos, quando citados por autores eclesiásticos, e heréticos, quando pretendem substituir os canónicos. Cf. SANTOS OTERO, A. (dir.), Los evangelios apócrifos, BAC 148, Madrid, 1956, pp. 1ss.

6 A heresia, define o Catecismo da Igreja Católica no encalço de Código de Direito Canónico, é «a negação pertinaz, depois de recebido o Baptismo, de alguma verdade que se deve crer com fé divina e católica» (ECC 2089; cf. CIC 751).

7 Como exemplo do que estamos a dizer sugerimos o que se verificou num caso recente: em Outubro de 2001 é tomada a decisão de um estudo mais aprofundado das obras de um autor, e, tendo em conta a sua ampla difusão sobretudo em Seminários da América Latina, aplicar-lhe o procedimento urgente; o procedimento urgente tem como consequência a nomeação de uma comissão de especialistas e o encurtamento do prazo de resposta para o autor, de três para dois meses, uma vez formulada a notificação e esta aprovada pelo Papa; em Julho 2004 procedeu-se ao envio ao autor, através do seu Superior, de uma lista de proposições erróneas encontradas; a resposta do autor só foi enviada em Março de 2005, i.e., quase um ano depois, e nessa resposta apenas mitigava algumas das suas posições; finalmente, a 25 de Novembro de 2005, depois de examinada a resposta e de se ter chegado à conclusão de que não satisfaz a concordância com a fé nalguns pontos redige-se uma notificação, sem julgar as intenções subjectivas do autor (cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Notificação, Roma, 26-XI-2006; aprovada por Bento XVI em 13-X-2006; também a Nota explicativa). Em todo o processo, aprecia-se a extrema delicadeza com que procede; a autor em questão pode nunca negar uma verdade com pertinácia, mas vê-se que aquilo que afirma não é compatível com essa verdade.





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