Quem conta um conto aumenta, diminui, modifica. O processo de escrita do conto lobatiano



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1.2. A Revista do Brasil
Em janeiro de 1916, foi publicado o primeiro número da Revista do Brasil, periódico paulista, mensal, cuja primeira fase durou até maio de 1925. Vinculada ao jornal O Estado de São Paulo, a Sociedade Anônima Revista do Brasil era então dirigida por Luiz Pereira Barreto, Júlio de Mesquita e Alfredo Pujol; seu redator-chefe era Plínio Barreto, e o secretário-gerente J. M. Pinheiro Júnior, segundo se lê nas páginas iniciais do primeiro volume.27

A idéia da publicação de uma nova revista, pelos diretores acima citados, é documentada por Lobato em cartas a Rangel. O nome inicial do periódico — Cultura — já dava indícios das características que ele assumiria:


“O Pinheiro conta com o teu romance para a Cultura e, apesar do que me escreveste, também conta ver-te empoleirado no ‘grande órgão’ [O Estado de S. Paulo].”28
No primeiro número, como era praxe, o artigo de abertura apresentava a nova publicação e definia seus interesses e objetivos:
“O que há por trás do título desta Revista e dos nomes que a patrocinam é uma coisa simples e imensa: o desejo, a deliberação, a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalista. (...) O seu nacionalismo não é um grito de guerra contra o estrangeiro: é um toque de reunir em torno da mesma bandeira, conclamando, para um pacto de amor e glória, os filhos da mesma terra nascidos sob a claridade do mesmo céu.”29
As passagens acima transcritas resumem os objetivos da Revista, estampados no editorial que ocupa suas cinco páginas inaugurais. Em meio a comparações entre inteligência e natureza brasileiras, que recendem a determinismos naturalistas finisseculares, são listadas as mazelas do povo e da nação — a não-disseminação da cultura intelectual, a frouxidão dos laços morais, o tumulto de idéias desencontradas, a hesitação, a ilusão da glória fácil e passageira, a subserviência (moral, política, intelectual, indumentária, culinária e lingüística) ao estrangeiro, a modéstia, o apagamento, a humildade, enfim, o seu estado de morbidez.

Ao lado desse quadro calamitoso, duas outras constatações: uma delas é a do aspecto “incolor, monótono e fastidioso” da história do país, que mal conhece suas raízes; a outra é a do “milagre histórico da persistência da nossa integridade territorial”30.

Diante de tal diagnóstico, a Revista do Brasil traz propostas — ainda que vagas, mas propostas — de ação. Crente na existência de um alto valor, na grandiosidade e dignidade do país a serem descobertos através da introspecção e da auto-análise, propõe-se como um centro de convergência de estudos sobre o passado, “de observação e criação científica e literária, que nos patenteie a todos a profundez e a riqueza dos nossos tesouros intelectuais.”31

Se a atitude pregada pela revista — aprender ou recordar a força que há no sangue e na tradição do povo brasileiro — é a da conscientização, a justificativa está no próprio caráter cultural da revista. Promover a cultura e o auto-conhecimento, parece-nos, seria um passo em direção às atitudes concretas de mudança social, de acordo com a tradição iluminista. Sobre o culto iluminista da instrução, escreve Antônio Cândido:


“Homens tais acreditavam, com efeito, na virtude quase mágica do saber, confiando na educação como alavanca principal de transformação do homem.”32
Por isso, não concordamos completamente com a argumentação de Maria Célia de Moraes Leonel, segundo a qual “o manifesto [editorial de 01/1916, n.° 1] perde-se no vazio da retórica, não apresentando soluções concretas para a independência cultural do país.”33 Nesse sentido, o conservadorismo da revista — assim classificado por alguns críticos — não existe no projeto de uma busca das tradições nacionais.

Conforme definido de antemão no editorial citado, a Revista do Brasil congregaria diferentes tipos de colaborações:


“Não será, nem quis ser, uma revista exclusivamente de literatura ou exclusivamente de ciência. Se-lo-á de tudo isso.”34
Na verdade, o primeiro volume já deixa ver uma maior abrangência do periódico, que trataria ainda de assuntos de atualidade (economia e política), artes, educação, linguagem etc. Traduzindo a opinião dos signatários, os artigos que compõem cada número da revista costumam ser densos e apresentar argumentação consistente — seriedade que caracterizaria a Revista.

Ainda que a literatura seja apenas uma das faces da revista, é de se notar que o espaço a ela reservado era grande. Além da produção literária propriamente dita — prosa e poesia —, havia ainda artigos de crítica, teoria e história literária, além de resenhas que apareceriam na seção Resenha do Mês, junto de pequenos artigos ou notas acerca de fatos recém-ocorridos e da seção Recebemos, ou ainda na seção Bibliografia.

Nota-se, desde o seu primeiro número, a preferência por textos (longos, normalmente) em detrimento de imagens; estas, quando existiam, eram ilustrativas do texto a que se colavam. A partir de janeiro de 1919, n.° 37, começam a ser publicadas reproduções de quadros ou gravuras, em papel especial, normalmente separando um artigo de outro. Em geral, havia alguma unidade entre as figuras ou entre elas e os textos do número em que apareciam. A Revista costumava ser textual desde a capa. Se compararmos as capas de uma Revista do Brasil às de outras revistas da época, notaremos que o caráter informativo da primeira, desde a capa, não costuma aparecer em outras, que costumam ilustrá-la.

As caricaturas, seção permanente por toda a 1ª fase da Revista, utilizavam geralmente motivos políticos anteriormente referidos no corpo da Revista. Não eram feitas por colaboradores para a Revista do Brasil, mas para outros periódicos e nela reproduzidos. As propagandas, que aparecem desde os primeiros números, quase sempre nas páginas iniciais ou finais do periódico, muitas vezes são também textuais, sobretudo aquelas que, a partir de 1918, divulgam as edições da Revista do Brasil.

É na capa (ou na contracapa) da revista que aparecem informações como o subtítulo, os preços e endereços da redação e administração, dados importantes para a reconstrução da história do periódico35. O subtítulo da revista — “Periódico Mensal de Ciências, Letras e Artes” — é modificado em 1919 para “Publicação Mensal de Ciências, Letras, Artes, História e Atualidades”. A direção da Revista muda em 1918, ano em que ela é comprada por Monteiro Lobato, que assume a direção. De junho a dezembro de 1919, a Revista é dirigida por Lobato e Lourenço Filho. A partir de janeiro de 1921, n.° 61, os diretores são Afrânio Peixoto e Amadeu Amaral. Em julho do mesmo ano, n.° 67, Afrânio Peixoto e Monteiro Lobato. Em janeiro de 1922, Monteiro Lobato e Brenno Ferraz. Em abril de 1922, n.° 76, Ronald de Carvalho também ingressa na direção. Em janeiro de 1923, n.° 85, Monteiro Lobato e Paulo Prado são os diretores. E, a partir de fevereiro de 1924, Sérgio Milliet é Secretário.

Em janeiro de 1919, sob a direção de Monteiro Lobato, e tendo Alarico F. Caiuby como secretário, são os seguintes os preços da Revista do Brasil:




Assinaturas

Ano ........................................... 15$000

Seis meses ................................... 8$000

Edição de luxo, ano ................... 22$000

Seis meses ................................ 12$000

N.° avulso ................................... 1$500


Esses preços subiriam em maio de 1920:




Assinaturas

Ano ............................................ 20$000

Semestre..................................... 12$000

Exterior, ano ...............................25$000

N.° avulso ................................... 1$800

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