Quem conta um conto aumenta, diminui, modifica. O processo de escrita do conto lobatiano



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2.4. Fases do Processo de Escrita
O envolvimento de Lobato com periódicos literários — seja no papel de escritor, articulista, diretor ou dono — teve importância fundamental em sua produção literária. É através do periódico que seus escritos saem do domínio privado, restrito a poucos leitores (o próprio escritor, Rangel, Purezinha e algum outro leitor eventual), e se tornam públicos (ainda que a publicação em periódico tivesse alcance menor que o livro, ainda que fosse circunscrita a determinada região ou grupo social), ampliam seu horizonte. Mas o texto publicado no jornal ou na revista nunca é definitivo. A letra de forma do periódico vai dar margem às intervenções do autor-leitor, que usaria o texto da revista como uma prova de edição, como um manuscrito de trabalho.

Cada texto teria, dessa maneira, diferentes versões no decorrer de seu processo de escrita, dentre as quais poderíamos supor:



  • manuscrito do autor, contendo o primeiro jato da escrita e fases posteriores de rasuras;

  • manuscrito passado a limpo, enviado para Rangel;

  • mesmo manuscrito rasurado (alterado) por Rangel;

  • outra versão do manuscrito do autor, acatando ou não alterações do amigo e eventualmente efetuando outras, motivadas pela leitura depois de um intervalo de tempo;

  • a versão do texto impressa em revista (ou versões em revistas);

  • a versão em livro, 1ª edição;

  • a versão das Obras Completas.

Há ainda versões intermediárias entre a 1ª edição e a “definitiva”. Enquanto não temos conhecimento da existência de manuscritos do autor, trabalhamos com a suposição da existência das diversas fases apresentadas, e utilizamos, para fins de análise, das fases que podemos documentar: o texto em revista e as versões editadas.

A ausência dos manuscritos dos contos que compõem o corpus do nosso trabalho abre uma lacuna no dossiê da gênese, mas a lacuna também é própria de dossiês compostos exclusivamente por manuscritos:
“A crítica genética está submetida, na verdade, aos limites materiais, empíricos e históricos impostos por seu objeto. (...) o pesquisador jamais estará seguro de reter a exaustividade dos traços escritos de uma gênese. (...) contra todo desejo de totalidade, contra toda busca da origem, subsiste o fato de que a mais completa transmissão não é senão a parte visível de um processo cognitivo mil vezes mais complexo, e de que a origem como tal, o nascimento do projeto mental, é inatingível.”89
Além da lacuna material, há ainda a possibilidade da lacuna analítica, da qual trata Bosi ao se referir à existência de “um resíduo indecifrável que às vezes sobra nas mãos do intérprete”90 durante o estudo do processo de criação literária. Considerando que nosso interesse é analisar uma fase específica do processo de escrita de alguns contos lobatianos, não vemos essa ausência como barreira intransponível.

Se é verdade que o escritor usou a revista não só como veículo de publicação de seus textos, mas também como prova de edição — ou seja, lugar de publicação de um texto não definitivo, texto a ser revisto, alterado —, então poderemos chamar tal versão — a em revista — de uma espécie de primeiro manuscrito impresso do conto lobatiano91.

A atitude de fazer do texto em revista um texto em processo permanece mesmo às vésperas da edição: é o caso dos contos que comporiam a obra O Macaco que se fez Homem, editada no final de 1923, composta por 10 contos, 7 deles lançados na Revista do Brasil nos meses de dezembro de 1922 a setembro de 1923. Mesmo num curto espaço de tempo (a revisão seria feita ainda em outubro de 1923), o escritor introduziria muitas e importantes modificações nos contos recém-escritos.

É devido a essa característica de textos em processo que consideramos o texto em revista semelhante ao manuscrito.

Utilizando como guia os Élements de Critique Génétique, de Almuth Grésillon92, verificamos não ser absurdo nem impensável usar das ferramentas descritivas e analíticas da Crítica Genética para o estudo a que nos propusemos — estudo de versões publicadas de contos de Monteiro Lobato. Se é verdade que a Crítica Genética tem por objeto o “manuscrito moderno”, não é menos verdade que ela estuda fases do processo de escrita literária.

Cecília A. Salles trata da ampliação dos limites da palavra manuscrito nos estudos genéticos:


“Nos estudos de crítica genética de literatura o termo manuscrito já não era usado limitando-se a seu significado de “o escrito à mão”. Dependendo do escrito, podíamos nos deparar com documentos escritos à máquina, à mão, digitados no computador ou provas de impressão que receberam alterações por parte do autor.

Lidando com a diversidade de manifestações artísticas, as dificuldades de se adotar o termo manuscrito aumentaram. (...) como estamos em busca de instrumentos gerais de análise optamos por denominar o objeto de estudo do crítico genético como documentos de processo. (...) Os documentos de processo são, portanto, registros materiais do processo criador. (...) São vestígios vistos como testemunho material de uma criação em processo.”93


Como documentam as cartas do autor, era seu costume usar do texto em revista para reescrevê-lo e, só então, editá-lo94. Desta maneira, a letra impressa torna-se uma fase da escrita, à qual se seguem outras até a edição. Quer o autor escrevesse diretamente sobre as páginas da revista, quer tivesse sua cópia manuscrita ou datilografada do texto a ser editado, o fato é que o texto publicado no periódico era o suporte sobre o qual incidiria a mão do escritor, alterando, rasurando, produzindo um outro texto.

Não se pode ver, através da colação de versões publicadas, a maneira pela qual o escritor interferiu no texto, nem com que intensidade seu lápis agiu sobre o papel. Mas é possível saber o que ele fez — que palavras substituiu, que parágrafos eliminou, que construções sintáticas alterou, que conseqüências tais alterações provocaram na construção de personagens, cenário, enredo, desfecho... — e, a partir desses dados, levantar hipóteses a respeito das operações e motivações da escrita.

Que diferenças há, enfim, entre o texto impresso e o manuscrito? Segundo Grésillon,
“Enquanto a forma do texto manifesta uma estrutura concluída e uma única versão, consagrada por uma edição canônica, o avant-texte, pela densidade das reescrituras, revela-se radicalmente incompatível com uma representação textual em duas dimensões. Enquanto o texto impresso permite uma leitura linear (sem excluir, entretanto, as outras, não lineares, às quais toda interpretação forçosamente recorre), a leitura do manuscrito é necessariamente interrompida por intervenções interlineares e marginais, pelos retrospectos e todo tipo de outros sinais gráficos que obrigam o leitor a navegar a olhos. Enquanto o texto tira sua função social da existência do leitor real para o qual ele foi escrito e publicado, o manuscrito é, antes de tudo, um documento escrito para si, não destinado, em princípio, ao olhar exterior. Enquanto, enfim, o texto se torna coisa pública no momento mesmo em que o autor o abandona e escreve na prova “ bom para impressão ”, o avant-texte guarda os traços que fazem entrever um enunciador em perpétua mutação.”95
Sem negar a existência de diferenças entre texto impresso (editado em periódico ou em livro) e manuscrito, pode-se, no entanto, verificar que o limite não é assim tão claro se considerarmos algumas peculiaridades dos escritos em questão. São três os pontos que destacamos:

1) Mesmo quando editado, o conto lobatiano sofre alterações de uma versão para outra. Não há, portanto, a unidade proposta como distinção entre o texto e o manuscrito. O texto editado também é múltiplo aos olhos do pesquisador que encontra, em cada edição, uma nova versão. O texto tido como definitivo — o das Obras Completas — só o é por imposição editorial e, se assim não o fosse, seria a morte do escritor que lhe daria este estatuto.

2) Mesmo que o texto manuscrito não chegue, de fato, ao conjunto de leitores esperados, ele é (e não só no caso de Lobato) destinado a algum público-leitor. Este, então, age sobre o processo criador, do manuscrito e das versões publicadas, ainda que com intensidades diferentes. É possível que a imagem feita de Rangel enquanto leitor-crítico do manuscrito tenha ajudado a delinear uma imagem mais ampla de leitor.

3) O enunciador em perpétua mutação também existe na figura de Lobato — o que talvez tenha sido facilitado por sua condição de editor no período de 1918 a 1925. Trabalhando com duas versões publicadas (em livro, jornal ou revista) do conto lobatiano já podemos ver fases dessa “mutação”.

Grésillon apresenta algumas contradições nos estudos da Crítica Genética, dentre as quais duas que particularmente se aliam aos itens acima discutidos. Uma delas é a existência do leitor interferindo no processo criador, mesmo na etapa dos manuscritos, supostamente não destinados a nenhum leitor:
“Apesar desse estatuto do rascunho, considerado como um “escrito-para-si”, não destinado a leitor nenhum, escritores como Leiris, Bataille, Stendhal, e até mesmo o Valéry dos Cahiers insistiram no fato de que lhes seria impossível escrever se não tivessem, como uma espécie de “horizonte de expectativas” para a escrita, uma certa imagem do leitor.”96
Outra é a própria instabilidade da oposição público versus privado, que caracterizariam, respectivamente, o texto impresso e o manuscrito. Grésillon cita o caso de manuscritos que foram publicados, em fac-símile, por interesse do próprio autor97, o que lhes atribui um outro estatuto:
“os manuscritos estão prestes a ganhar um público real de leitores; graças a um novo tipo de edição, eles serão legíveis, ao menos para um público de especialistas. O que quer dizer também que eles têm a chance de progressivamente fazer parte da literatura, entendida como comunicação literária que supõe a existência de leitores.”98

“Conclusão: de um ponto de vista teórico, pelo menos para a época contemporânea, a alteridade postulada entre o texto e o avant-texte está a ser revista.”99


Tal “diluição de limites” do termo manuscrito ou, mais ainda, a consideração de que a Crítica Genética trabalha com documentos do processo da escrita autoriza-nos a utilizar dos seus procedimentos descritivos e analíticos sem que tenhamos em mãos os manuscritos do autor, valendo-nos, enfim, de versões publicadas dos contos lobatianos, cuja comparação nos permite estudar uma fase do processo de escrita destes contos. É o que faremos nas páginas seguintes.

Não trabalharemos com todas as versões em revistas, apenas com a versão da Revista do Brasil. Essa escolha deveu-se ao fato de o escritor ter-se dedicado a este periódico durante um grande e importante período de sua vida literária, fundamentalmente aquele em que esteve prestes a editar seus contos ou envolvido, já, com a edição deles.


3a Parte:

Como eu posso saber o que está na imaginação do artista?”100


3.1. Duas hipóteses
Ao constatarmos a existência de diferenças entre o conto impresso na Revista do Brasil e o editado em livro, imaginamos que a principal motivação para a produção das alterações tivesse sido a diferença entre os veículos — a revista e o livro — e, conseqüentemente, entre o tipo de leitura que cada um propicia: à efemeridade da revista, associar-se-ia uma leitura mais ágil; por outro lado, ao livro poderia estar associada uma leitura menos rápida, mais detida, devido à maior durabilidade que a ele se atribui. Nas palavras de Adorno, o livro teria “aquela dignidade do contido em si, duradouro, hermético, que capta o leitor dentro de si, fechando sobre ele a tampa”101.

Outras características da Revista do Brasil fazem-nos supor uma diferenciação do público-leitor: tratava-se de uma revista cultural (tratamos deste assunto na 1a parte do trabalho), de alto nível, o que nos leva a presumir um certo requinte de seus leitores, conjectura que seria menos sustentável se nos referíssemos ao livro. Foi grande e diversificado o número de leitores atingidos pelos livros de contos do autor. Enquanto o alcance da revista estava circunscrito a São Paulo, o livro, por sua vez, foi espalhado pelo Brasil através das “campanhas pró-leitura” da editora mantida por Lobato.

Podemos pensar a questão da diferença entre a leitura do texto literário na Revista ou no livro a partir das seguintes palavras de Chartier:
“deve-se lembrar de que não há texto fora do suporte que o dá a ler (ou a ouvir), e sublinhar o fato de que não existe a compreensão de um texto, qualquer que ele seja, que não dependa das formas através das quais ele atinge o seu leitor.”102
Provavelmente, a leitura de um conto impresso na Revista do Brasil era influenciada pela leitura de outros textos, de outros assuntos. Além disso, deve-se considerar que os compradores da revista (assinantes ou não) teriam uma determinada expectativa, dentro da qual estaria a da leitura de textos culturais. Já o leitor do livro, cujo contato seria não com outros tipos de textos e outros autores, mas com o mesmo autor, gênero e estilo literário, teria outra expectativa de leitura. Seu interesse é exclusivamente literário, o que não se pode dizer do leitor da Revista.

Também a escrita do texto pode ter sido direcionada pela imagem feita por Lobato a respeito do suporte material em que o conto seria impresso. O escritor conhece uma parcela do universo cultural com o qual seu leitor potencial teria contato — o universo dos textos, autores e assuntos apresentados pela Revista. A partir disso, pode supor que tipo de leitura será feita de seu texto; pode, em outras palavras, construir uma imagem bastante concreta de seu público-alvo.

Embora não seja descartada a hipótese de que a diferença dos textos corresponderia à diferença do seu suporte material, um primeiro porém impôs-se à nossa análise: considerando que as alterações mais significativas produzidas nos textos não foram realizadas no momento da passagem da revista para o livro (de A para B), mas de uma edição para outra (de B para C)103, então deveria haver algo mais, além desta diferença entre a revista e o livro, motivando as alterações dos textos.

Mesmo que desconsiderássemos essa diferença, teríamos que considerar a seguinte questão: se o autor introduz alterações tão pouco significativas de A para B (na maioria dos contos), isso nos faz supor que a sua relação com as versões dos textos publicados na Revista do Brasil era uma relação peculiar, seu olhar sobre estes textos era muito semelhante àquele com que veria a 1a edição em livro.

Essa relação não é, entretanto, homogênea. A análise dos contos de Urupês ao lado daqueles de O Macaco que se Fez Homem, quase todos publicados na Revista do Brasil, faz-nos perceber mudanças na relação do escritor com seus textos. Talvez a primeira diferença resida no fato de que os contos de Urupês já haviam sido publicados em diversos periódicos, enquanto os de O Macaco que se Fez Homem não, tendo tido sua primeira publicação na Revista do Brasil. Neste caso, a passagem da revista para o livro suscitou uma série de alterações, que não podem ser atribuídas unicamente à mudança do suporte.

Nossa primeira hipótese, não descartada mas relativizada, fez-nos atribuir uma importância significativa à 1a edição em livro (versão B). Como, depois da 1a edição, as edições se sucederam em números extraordinários para a época104, e como a cada edição corresponderiam algumas (ou muitas) alterações, tivemos ainda que escolher com qual delas cotejaríamos as duas versões já selecionadas. Optamos, então, pela versão das Obras Completas, versão definitiva, que pôs um ponto final nas alterações promovidas pelo escritor.

Ao lado da primeira hipótese (e sem descartá-la), uma segunda nos pareceu possível: dada a ampliação crescente do número de leitores, seria possível que o autor estivesse adequando seu texto a uma gama mais diversificada de leitores, a um universo cada vez mais amplo de receptores da sua obra. Sabendo, também, pela experiência editorial provada a partir de 1918, que suas obras editadas tinham alcançado um público amplo e diversificado, era natural que o escritor redefinisse suas expectativas quanto a esse público. Como sua preocupação com o leitor sempre fora grande, tal hipótese nos pareceu válida e, de alguma forma, vinculava-se à primeira, afinal a ampliação do número de leitores estava associada necessariamente à mudança do suporte: o livro ampliou consideravelmente o alcance da obra lobatiana. Essa redefinição do público-leitor também motivou a reescrita e as reedições de suas obras. Sua atitude guarda semelhanças com a dos editores da bibliothèque bleue:
“a passagem de uma forma de edição para outra direciona, ao mesmo tempo, transformações no texto e a constituição de um novo público. É o caso evidente do corpus de títulos que constitui o catálogo da bibliothèque bleue. (...) A bibliothèque bleue é uma fórmula editorial que vai beber no repertório de textos já publicados, aqueles que mais parecem convir às expectativas do grande público que ela quer atingir. (...) Com efeito, a especificidade fundamental da bibliothèque bleue remete às intervenções editoriais operadas sobre os textos a fim de torná-los legíveis para as largas clientelas a que são destinados. Todo esse trabalho de adaptação — que diminui, simplifica, recorta e ilustra textos — é comandado pela maneira através da qual os livreiros e impressores especializados nesse mercado representam as competências e expectativas de seus compradores.”105
As alterações produzidas por Lobato de uma versão para outra, sobretudo de A para C, ilustram seu trabalho de recomposição do público ao qual se destinariam os livros. Linguagem mais simples, menos retórica, explicitações das referências — são alguns dos recursos por ele utilizados na constituição de um novo público.

Não é só isso o que move a reescrita dos contos, mas certamente a influencia.


3.2. Preparando a edição
Através dos jornais e revistas em que publicava contos, crônicas e artigos, Lobato ia fazendo seu nome, atingindo e conquistando um público que cada vez mais se ampliaria. Apesar do caráter de “efemeridade” atribuído a essas publicações periódicas, foram estas que lhe garantiram o prestígio e o reconhecimento literário inicial. Da publicação em revistas e jornais das cidades mortas, de Santos e de São Paulo, Lobato chegaria ao livro. Entre um veículo e outro, porém, haveria ainda uma etapa intermediária — a da Revista do Brasil.

Conforme vimos na 1a parte deste trabalho, a Revista do Brasil se constituiu num periódico diferente daqueles que circulavam pela paulicéia nas primeiras décadas do século. Essa diferença também se apresenta na produção literária de Lobato. É como se o escritor visse na Revista do Brasil um espaço intermediário entre o periódico e o livro, e essa característica é perceptível através da comparação das diferentes versões que aqui estudamos.

Um mesmo conto poderia ser publicado em diferentes jornais, depois de escrito e reescrito diversas vezes pelo autor. O número de versões que teria o conto era variável. Algumas podem ser documentadas ainda hoje — as impressas. Outras não. Dentre aquelas versões que podemos documentar, a da Revista do Brasil apresenta uma característica própria: estava bastante próxima da versão em livro, sendo, de certa forma, uma preparação para a edição.

Nem todos os contos de Lobato foram publicados na Revista do Brasil, mas muitos o foram, e com grande regularidade, durante um período de intensas atividades produtivas — editoriais e literárias — de Lobato. Basta lembrarmo-nos de que a edição de Urupês, Cidades Mortas, Negrinha e O Macaco que se fez Homem (obras que reúnem quase a totalidade dos contos do escritor) deu-se entre os anos de 1918 e 1923, período áureo de seu envolvimento com a Revista do Brasil e com a editora nascida da revista.

Não seria de se estranhar, portanto, a afirmação de que os textos publicados na Revista do Brasil estavam sendo preparados para a edição. Mais um indício disto está na ordem em que aparecem os contos na Revista e, depois, em livro. Os nove primeiros contos de Lobato publicados na Revista (entre março de 1916 e abril de 1918) são editados em Urupês ao lado de outros três contos e um artigo (que dá nome à obra). Os contos de número 10 a 18106 (publicados na Revista do Brasil entre setembro de 1918 e novembro de 1919) participam da composição de Cidades Mortas, ao lado de vários outros.

Até aí, o escritor-editor fora de uma regularidade exemplar. Daí em diante, porém, Lobato voltaria a experimentar, rompendo, portanto, a ordem. Publicaria, em 1920, um filhote de livro, Negrinha, no qual apareceria apenas um conto publicado na Revista do Brasil (o 20o). Três outros contos (19o, 21o e 24o) não constam da 1a edição das obras Urupês, Cidades Mortas, Negrinha e O Macaco que se fez Homem. Os demais (22o, 23o, 25o ao 29o), publicados entre novembro de 1922 e setembro de 1923, foram escritos para serem publicados na Revista do Brasil, e, segundo o que o escritor nos deixa ver em suas cartas, não devem ter tido outra publicação em revista além desta. Foram daí para a edição, depois, é claro, da reescrita. Aliás, no caso destes 7 contos, o projeto editorial surgiu antes da publicação em revistas. Lobato gestava uma nova obra, conforme nos conta:


“Lá pelo fim do ano darei livro para o público. Inda hoje escrevi um. O Rapto. (...) Um conto formou-se em minha cabeça, e de volta despejei-o no papel, como quem despeja a bexiga.

Ando cheio de contos lá por dentro. Contos são bernes. A gente pega os germes aqui e ali, e eles ficam germinando, gestando-se em nossos misteriosos úteros subconscientes.”107


Parecer-nos-ia lícito, então, dividir estes 29 contos em dois grandes conjuntos: um contendo os contos de poucas versões (os 7 de O Macaco que se fez Homem) e outro contendo os demais. Essa divisão, no entanto, desconsideraria um aspecto interessante da escrita lobatiana: trata-se do trabalho do escritor sobre os contos neste momento da passagem do texto da Revista para o livro. Se considerarmos este trabalho de revisão e reescrita anterior à edição, então dividiremos os contos em 3 conjuntos. No 1o deles estão os contos de Urupês (1o ao 9o); no 2o, os de Cidades Mortas (10o a 18o), Negrinha (20o) e os três de 1a edição desconhecida (19o, 21o e 24o); e no 3o os de O Macaco que se fez Homem. Essa divisão não é puramente cronológica, nem foi feita unicamente com base nas obras editadas. O que pudemos perceber é que os contos de Urupês e de O Macaco que se fez Homem foram os mais alterados pelo escritor nas três versões estudadas. Os demais, poucas alterações tiveram neste momento da escrita — o número de alterações e a importância delas diminuem consideravelmente no que se refere aos contos do segundo conjunto.
3.3. Reformulações
Antes, porém, de nos determos na análise dos contos que compõem cada um dos blocos, teçamos algumas considerações gerais a respeito das alterações efetuadas pelo escritor na maioria dos contos. Poderíamos referir-nos a estas alterações mais gerais tomando emprestado de Grésillon et alii108 o termo reformulação, ou seja, aquilo que faz parte de um processo mais estritamente lingüístico.

O autor, na releitura do texto, afetando com freqüência o tom da narrativa, promove reformulações lingüísticas de tipos variados. Lobato não age com regularidade nessas reformulações. Optando ora por uma ora por outra forma de expressão, mesmo sem privilegiar qualquer uma delas, indica nessa irregularidade certas insatisfações (por exemplo, quanto à gramática normativa) que o acompanhariam por muito tempo. A colocação pronominal, as vírgulas, a estruturação de parágrafos, a oscilação entre o uso de orações reduzidas ou desenvolvidas são algumas das questões que se impuseram a ele e que não tiveram uma solução única no processo de escrita. Com isso queremos dizer que o autor não tomou sempre a mesma atitude, que não assumiu uma posição definitiva na realização das obras no que diz respeito a essas questões. A cada versão, muitas novas reformulações são efetuadas.

Duas delas, no entanto, são efetuadas com regularidade: a simplificação vocabular e a substituição de formas de tratamento formais por outras menos formais. Ambas têm efeitos interessantes sobre a narrativa, conduzindo o texto para um tom menos cerimonioso, da versão A para a C, de leitura mais apreensível.

Estamos chamando de simplificação vocabular a atitude de substituir um vocábulo ou uma expressão por outra de sentido próximo, que provoque uma leitura mais imediata do texto. Também neste termo enquadram-se certas expressões de uso regional que são substituídas por outras de sentido mais usual.

Mesmo num conto de poucas alterações como “Pedro Pichorra”, temos alguns exemplos dessa simplificação. No primeiro deles, há também a substituição do pronome de 2a pessoa, mais formal, pela 3a pessoa, mais usual:



Versão A

Versão C

Menino, d’ora avante és homem.”

Menino, d’ora em diante você é homem.”

o medo engrifou-o.”

o medo agarrou-o.”

O pai deu-lhe água no cuité.”

O pai deu-lhe água na cuia.”

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