Quem conta um conto aumenta, diminui, modifica. O processo de escrita do conto lobatiano



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3.6. O Macaco que se fez Homem — terceiro conjunto
Ao pensar a publicação do último livro de contos, desta vez com novas produções, mesmo tendo a facilidade de editar ancorada no sucesso de vendagem de suas obras anteriores e no fato de ser seu próprio editor, Lobato não hesita em publicá-los antes na Revista do Brasil:
“Está me voltando a mania e creio que dou mais dois livros126 este ano. Como sempre, parto gêmeo. Um, de idéias e impressões extraídas daquele meu velho Diário de solteiro, como leve apuros da forma e da filosofia. Outro de contos — contos novos. Não dispenso teu juízo preliminar à moda de sempre. Ponho-os na Revista e depois dou-os em livro — o bom sistema.”127
A exposição do seu sistema fora feita em carta no mesmo ano em que se daria a edição. Os contos em questão já estavam sendo publicados na Revista do Brasil desde dezembro do ano anterior, escritos também neste espaço de tempo. É de fevereiro de 1923 a carta em que o escritor diz estar escrevendo “O Rapto”, que apareceria na Revista em agosto do mesmo ano:

“Lá pelo fim do ano darei livro para o público. Inda hoje escrevi um. O Rapto. Fui a Campos do Jordão com o Macedo Soares e na estação de Pinda vi um aleijado num carrinho, enérgico, a ralhar com os filhos que o puxam. Senti uma coisa: aquele homem, apesar de aleijado, era o importante e rico da família, o que ganhava a subsistência de todos com as esmolas recebidas. (...) Um conto formou-se em minha cabeça, e de volta despejei-o no papel, como quem despeja a bexiga.

Ando cheio de contos lá por dentro. Contos são bernes. A gente pega os germes aqui e ali, e eles ficam germinando, gestando-se em nossos misteriosos úteros subconscientes.”128
Datar o momento da escrita de um conto, no entanto, é sempre um problema sério, se considerarmos que essa gestação pode ter sido muito longa. Entre a idéia original e os primeiros rabiscos, então, o tempo pode ser ainda maior. Se Lobato diz que os contos de O Macaco que se Fez Homem eram novos (em 1923), e encontramos referência a alguns deles na década anterior, podemos concluir ou que Lobato se enganou com relação às datas ou então que generalizou quando chamou a todos de novos. Haveria ainda mais uma possibilidade: ao projeto do conto nem sempre se segue a sua escrita. Um conto idealizado em 1912 pode ter tido sua primeira versão escrita dez anos depois.

O ano de 1912 não foi escolhido aleatoriamente. É de 19/09 deste ano a primeira referência em carta ao “Tragédia dum capão de pintos”, publicado em 1923, considerado novo (como os demais) pelo escritor. Leiamos um trecho da carta:


“Ando às furtadelas, escondido de mim mesmo, a reler Kipling, e meu próximo conto será feito sob sua égide. Um conto de animais, aves. Fiz um grande lago perto da casa e enchi-o de marrecos de Pekin, patos indígenas, gansos, mergulhões. E estou estudando o palmípede para escrever a história do tanque.”129
A verdade é que da idéia inicial à realização muita coisa mudou. Mas este conto não é uma exceção. Com “O Rapto”, por exemplo, deu-se o mesmo:
“O curioso é que quando produzo um conto, de forma nenhuma o tenho completo na cabeça; tenho lá dentro uma só coisa: a idéia central do conto. Tudo mais se forma no ato de escrever. A primeira frase que lanço determina todas as mais. N’O Rapto não havia rapto nem nada; só havia esta idéia central: um cego que justamente por ser cego era o único da família que ganhava dinheiro e tinha importância.”130
A “Tragédia dum Capão de Pintos” também não é, absolutamente, a história de um tanque. No entanto, vêem-se na carta transcrita anteriormente indícios de que o conto já começara a ser formulado. Na carta anterior, de 19/08/1912, também. Lobato anexa a ela uma fotografia, que envia a Rangel —“Mando uma fotografia dos meus pintos empencados no pai-capão.”131 Impossível não ver aí uma das cenas apresentadas no conto.132

Outras cenas esparsas, referentes a um ou outro conto, estariam naquele seu diário que daria ensejo ao Mundo da Lua. Afirmar categoricamente que um texto foi escrito em uma ou outra data, afirmar que alguns são novos e outros antigos, coisas velhas e por isso não potáveis, é desprezar alguma parte do processo de composição, valorizando um momento preciso — o da primeira publicação em periódicos, por exemplo. Ora, se verificamos que cada conto passa por diversas etapas antes de chegar à edição e, mais ainda, antes de chegar à versão definitiva, então todos eles poderiam ser chamados de coisas velhas restauradas, se quisermos continuar usando essa terminologia, sem que isso corresponda a algum julgamento de valor.

Detenhamo-nos, neste momento, naqueles contos chamados novos, os de O Macaco que se Fez Homem.

Uma primeira diferença observa-se no processo de edição desses contos: a maior quantidade e importância das alterações produzidas já na versão B — a da 1a edição. É a versão C que passa a ser quase extensão da anterior, o contrário do que ocorreu com os demais contos estudados.


3.6.1. O Bom Marido
Permanecem, nestes contos de O Macaco que se fez Homem, algumas das tendências observadas no trabalho do escritor sobre os contos de Urupês e Cidades Mortas. Uma delas, presente em vários contos, é a tentativa de tornar o texto mais inteligível, através de recursos como as notas de rodapé ou a explicação de certas referências no próprio corpo do texto. Em “O Bom Marido”, conto em que as personagens políticas da época têm grande importância, era natural que essa tendência se manifestasse. Teofrasto, personagem título, tem por hobby discutir política na farmácia. A seu respeito, diz o narrador:


Versões A e B

Versão C

Era hermista. Adorava o marechal, o Pinheiro, o Pulchério e tutti quanti.”

Era hermista. Adorava o marechal Hermes, o Pinheiro Machado, o Surucucu e tutti quanti.”

Enquanto os dois primeiros nomes são apresentados de maneira mais completa na versão C, o terceiro deles é eliminado — ou substituído. A dificuldade de interpretação de C pode ser minimizada através do cotejo das versões, o que permitiria a identificação de um possível nome para a incógnita do termo Surucucu. Não é regra, no entanto, a dificuldade de interpretação em C.

Em outro trecho, a frase “O Wenceslau é um bicho!...” (em A) é substituída por “O presidente Wenceslau Braz é um bicho!...” (em C). Essa tendência de tornar mais completas as referências a personagens históricos parece ser devida não só à imediatização da leitura, mas também ao distanciamento temporal. Em C, as figuras referidas podem já não ser mais tão familiares, tão presentes no cotidiano dos leitores — e do próprio escritor —, o que exige uma maior formalidade.

Esse distanciamento temporal também explica a necessidade de contextualizar os fatos. É o caso de outra das intermináveis conversas na farmácia:


A: “— Aposto o que vocês quiserem como antes do fim do mês os russos estão em Berlim. Assumiu o governo o Kerensky, e o Kerensky é um bicho!

Onde você descobriu isso?

Li. Como também aposto que o Cadorna vai envolver os austríacos por cima, e fazia gestos, indicando no ar as operações.”
Se em A e B não há necessidade de se fazer qualquer referência ao momento histórico, tão presente na memória dos leitores e do próprio escritor, em C o trecho vem acompanhado da explicação:
O diálogo se passava durante a Grande Guerra.”
Além desta alteração mais pontual e comum a vários contos, há outras que interferem na narrativa de maneira mais geral. A caracterização de Teofrasto, personagem título, é uma delas. Percebe-se com mais clareza em B e C que suas atitudes eram teatrais, falsas, objetivando causar na esposa a impressão de bom marido — uma das únicas tarefas em que ele obteve sucesso. Desde o período pré-nupcial, Teofrasto cultivava a imagem de perseguido pelo destino, imagem que ele tratou de adubar bem durante o casamento, fingindo procurar emprego enquanto a esposa sustentava a casa e os oito filhos, tentando evitar dificuldades financeiras.

A imagem de coitado, associada à sua pobreza material, é verbalizada por ele num dos primeiros parágrafos da versão A:


“— Que vale haver dentro de mim um coração de ouro, nicho que habitarás a vida inteira? Que vale este meu amor puríssimo, forte como a morte, feito de todas as abnegações, renúncias, delicadezas, se sou pobre? Que crime horroroso, ser “pobrezinho...”
O trecho acima, nas versões B e C, é complementado por uma atitude teatral:


Versão B

Versão C

(...) e ele armava cara dolorida de perseguido pelo destino.”

(...) e ele armava a cara dolorida das presas da Fatalidade.”

Sua cara dolorida é armada, antecipa o narrador, que não espera, portanto, que o leitor acredite no sofrimento aparente.

Quando a esposa, constantemente iludida, decide trabalhar enquanto o destino não deixa de perseguir Teofrasto, ele se revolta. Em A, essa revolta é verbal:
“— Nunca! Não consinto, não admito que minha adorada esposa trabalhe! Antes rebentar os miolos a bala!

Não digas isso, Téo...

Digo porque sinto! És um anjo e eu não me conformo com a situação. Em que signo maldito nasci eu? Que te fiz, meu Deus, para me castigares desta maneira?”
Em B e C, às palavras segue-se uma leve encenação, que intensifica a revolta do bom marido. Desta vez, depois de dizer que não se conforma com a situação (que não mudaria por seu intermédio), Téo se dirige a Deus “arrepelando a grenha [e] de olhos cravados no teto.A essa altura, o leitor já está convencido de que Teofrasto não é um perseguido do destino, nem é um coitado; aproveita-se da esposa como o chupim.

Para não restarem dúvidas, o autor interfere ainda em outro trecho, desta vez não apresentando uma atitude de Teofrasto, mas eliminando dela um qualificativo que poderia ser nocivo à interpretação desejada. O trecho é extraído do episódio em que o bom marido deixa a esposa apavorada por ameaçar matar alguém para conseguir um emprego. O que ele faz, de fato, apesar da nova resolução, é o que sempre fizera: segue diretamente para a farmácia, seu lugar predileto para discutir política.

A atitude é a mesma nas três versões. No entanto, enquanto em A ela é instintiva,
Fora, o ar livre acalmou-o e Téo, instintivamente, seguiu para a farmácia”,
e poderia até ser entendida como inocente, não pensada, não proposital; em B e C a palavra instintivamente é eliminada. O leitor pode, então, entender esta atitude como deliberada, e qualificar da mesma maneira — não como instintivas mas deliberadas também — as atitudes anteriores de Teofrasto.

A interferência neste texto não se dá apenas sobre esta personagem, mas também sobre o drama da morte de Isabel, que até o último suspiro defenderia o marido. Percebemos, por alguns exemplos anteriores, que os dramas e mortes são elementos bastante trabalhados de uma versão para outra nestes contos que analisamos. Embora as alterações não sejam tão intensas neste conto, no que diz respeito à morte, elas existem e, mesmo pontuais, são importantes.

No momento da morte, Isabel ainda encontra forças para conversar com Teofrasto. A mesma conversa existe em B e C, mas entrecortada por reticências que vão marcando a dificuldade de expressão e a aproximação da morte:


Versão A

Versão C

Suas últimas palavras foram:

O que mais me dói, Téo, é deixar-te sozinho no mundo, ao desamparo. Mas já pedi e mamãe olhará para...



Não teve forças para o ti. Enunciou-o com os olhos e fechou-os.”

Suas últimas palavras foram:

O que mais me dói, Téo, é deixar-te sozinho no mundo, ao desamparo. Mas já pedi... e mamãe... olhará... por...



Não teve forças para o ti.”

As pausas inseridas através das reticências intensificam a carga emotiva desta fala na ante-câmara da morte, da mesma forma que tornam ainda mais aguda a oposição entre o sofrimento da esposa e a recuperação rápida do marido, que um mês (ou poucas linhas) depois encontraria outra Isabel numa mulata doceira.

Se o narrador apresenta a situação de maneira a que a culpa recaia sobre Teofrasto, ele não o julga explicitamente. Pelo contrário: a esposa morre feliz, no que se pode perceber algo de bom, de fato, no marido. Não há moral da história, e então é do leitor a conclusão final, inevitavelmente guiado pelo narrador.
3.6.2. Duas virtudes: “Um homem honesto” e “Fatia de vida”
Se o título do conto anterior era irônico, o de “Um homem honesto” é o mais literal possível. Enquanto a Teofrasto faltavam princípios morais, no caso de João Pereira, o homem honesto, eles eram excedentes: João tinha honestidade pra dar e vender — entendamos esta expressão apenas como um uso corrente para dizer que ele a tinha de sobra, já que João não colocaria preço sobre sua honestidade, embora tivesse que pagar caro por ela.

Sua honestidade é antes um problema que uma virtude aos olhos da família e dos colegas de trabalho. Isso porque João encontra um pacote de dinheiro, num vagão de trem, e não se apodera dele, entregando-o aos responsáveis pela estação. Essa devolução, motivada por princípios morais, e não pela falta de necessidade, torna sua vida um inferno.

Sua esposa também era honesta — por princípio. É dela, no texto, a frase “Um nome limpo vale mais do que um saco de dinheiro.” No entanto, dependendo da quantia, os princípios não seriam tão sólidos quanto os do marido. O discurso da esposa acerca da honestidade existe nas três versões. A contradição entre os princípios e as atitudes também, mas ela é acentuada em B (e C) pela extensão do discurso que a ela se atribui. Comparemos duas versões:


Versão A

Versão B

“— Fez muito bem, aprovou a esposa. Pobres, mas honrados. Um nome limpo vale mais do que um saco de dinheiro. Mas quanto havia no pacote?

Trezentos e sessenta contos.



A mulher piscou seis vezes, como se lhe jogaram areia nos olhos.

Quan... quan... quanto?

Tre-zen-tos e ses-sen-ta!

Dona Maricota continuou a piscar, ofuscada.”


“— Fez muito bem, aprovou a esposa. Pobres, mas honrados. Um nome limpo vale mais do que um saco de dinheiro. Eu sempre digo isto às meninas, e puxo o exemplo deste nosso vizinho da esquerda, que está rico mas sujo como um porco.

João abraçou-a comovido, e tudo teria ficado por aí se o demônio não viesse espicaçar a curiosidade da honrada mulher. D. Maricota, depois do abraço, interpelou-o:

Mas quanto havia no pacote?

Trezentos e sessenta contos.

A mulher piscou seis vezes, como se jogada de areia nos olhos.

Quan... quan... quanto?

Tre-zen-tos e ses-sen-ta!

Dona Maricota continuou a piscar por vários segundo, ofuscada.”133

O pasmo da mulher é mais engraçado em B, não só por ser contraditório se comparado ao seu discurso, mas também quando posto ao lado da comoção do marido, que ingenuamente lhe estimula a fúria repetindo sílaba por sílaba, quase nota por nota, o valor desperdiçado. A contradição já existia em A, mas é mais trabalhada em C pelo desenvolvimento da fala de Maricota.

Não só ela, mas também as filhas e os colegas reagem a tanta honestidade de maneira negativa. Em A, o narrador apresenta a atitude das filhas assim:
As meninas riram-se, escarninhas, e deram de suspirar com o pensamento posto na vida de regalos que teriam se o pai...”
Em B e C, a frase não termina nessas reticências. Insere-se o ponto de vista das meninas no espaço deixado, em A, ao leitor:
As meninas riram-se, escarninhas, e deram de suspirar com o pensamento posto na vida de regalos que teriam se o pai tivesse melhor cabeça...
As reticências de A abririam espaço para que o leitor completasse a frase como lhe aprouvesse — com uma atitude concreta do pai, por exemplo. O narrador elimina essa possibilidade completando, ele mesmo, a frase, de maneira a ampliar o problema: não é só a atitude do pai que está em questão, pelo que se lê do trecho complementar, mas algo mais profundo, que nortearia também outras atitudes. O espaço do leitor é preenchido pelo ponto de vista das filhas.

Além da reação delas, João Pereira também enfrentaria a dos colegas de trabalho. Como estes não são diretamente afetados pela perda do dinheiro, não reagem com raiva nem desrespeito, mas riem-se por trás de João, como já riam, antes, da honestidade latente:


A: “— Quero subir por merecimento, legalmente, ho-nes-ta-men-te! costumava dizer [João], provocando risinhos piedosos aos que “sabem o que é a vida”.

Hás de colher bom proveito, redargüiam os finórios, pensando lá consigo: que imbecil!”


Em B e C, a fala dos finórios não existe. A ironia é eliminada, restando apenas o riso. A atitude dos colegas é, portanto, mais clara em A que em B e C.

Pequenas alterações, mas todas elas com um mesmo fim aparente: alterar a reação das pessoas que convivem com João em função de sua honestidade. Novamente, não há uma conclusão do narrador (que se pretende neutro), ele não opta pela honestidade ou pela falta dela, nem pela “honestidade relativa” da esposa. Mas não deixa de fazer o elogio da virtude, transformando João num mártir.

Outra virtude, outro mártir. No conto “Fatia de Vida”, a questão é a caridade. Dr. Bonifácio quer provar que ela não é exatamente uma virtude sublime e, para isso, usa do exemplo de Isaura, sua lavadeira, que fora penalizada pela caridade. Esta é a tese específica. O objetivo mais geral, apresentado nos primeiros parágrafos do texto desta vez pelo narrador, é desfazer da opinião e da atitude de Toda-a-gente. Segundo a teoria do narrador, aqueles que não aderem à opinião geral são os esquisitões, os que fazem progredir a humanidade. Toda-a-gente teria, tradicionalmente, duas atitudes:
A: “A princípio o monstro encarcera, esquarteja, empala, sufoca. Depois, repeso, medita e murmura: ele tinha razão! E adere, cinicamente.”
Assim agirão os ouvintes do caso contado pelo Dr. Bonifácio: primeiro são descrentes, depois aderem. No entanto, a caracterização de Toda-a-gente pelo cinismo talvez fosse muito agressiva. Daí que em C o cinismo é substituído pela inocência:
C: “(...) E adere com a maior inocência.”
Afinal, assim como os ouvintes que se acumulam em torno dele, também os leitores devem ser convencidos através do conto, também podem fazer parte, como a maioria das pessoas, do conjunto de Toda-a-gente. Cabe ao cônego Eusébio, defensor da caridade e representante do pensamento coletivo, fazer a intermediação, sempre procurando maneiras de negar as palavras do esquisitão Dr. Bonifácio. O caso contado por este é, então, pontuado pelas reclamações daquele:
A: “— Viúva com quatro filhos, a heróica Izaura matava-se no trabalho incessante. Aquelas mãos vermelhas, curtidas... Aqueles braços requeimados... Que máquinas! Era do movimento deles que vinha o sustento da casa. Parassem, repousassem — e a Fome, esquálida megera que ronda os bairros pobres, meter-se-ia portas a dentro.

Deixemos isso, deixemos isso...”


Dr. Bonifácio tem a intenção de convencer os ouvintes com um caso trágico. Usa, então, de alguns artifícios para isso — envolve o ouvinte através do sentimento que vai criando pela heróica Isaura, das palavras com que constrói esse envolvimento. Ao padre, cabe solicitar a objetividade, para que o ouvinte (e o leitor) não se deixe(m) levar apenas pela emoção do tema. É essa a intenção do deixemos disso, que ele repete como querendo mudar o tom da conversa. Da mesma forma se dá sua interferência em C, mas mais explicitamente rejeitando o artifício do contador, pedindo objetividade:


Versão A

Versão C

(...) e a Fome, esquálida megera que ronda os bairros pobres, meter-se-ia portas a dentro.

Deixemos isso, deixemos isso...”



(...) e a Fome, esquálida megera que ronda os bairros pobres, meter-se-ia porta a dentro.

Romantismo... “Esquálida megera”...”


Apesar disso, torna-se inevitável o envolvimento afetivo com a história, trabalhada de modo a acentuar o sofrimento de Isaura diante da internação de seus filhos — feita à sua revelia, por caridade. Descobre, então, que sua filha estava com tifo.

Enquanto em A lê-se apenas: “—‘Tifo?!”, em C trabalha-se a emoção da personagem, que se contrapõe à informação objetiva da gravidade da doença: “—‘Tifo?! exclamou, alanceada, a pobre mãe.

E, depois,




Versão A

Versão C

“—‘Quero vê-la.”

“— ‘Quero vê-la, quero ver minha filha!...”

A repetição, ao lado daquela emoção anteriormente apresentada, tende a prender, pela intensificação do drama, a atenção dos ouvintes, que seguem a história até as últimas palavras, pedindo mais: “Os ouvintes, comovidos, ansiavam pelo final. / — E depois?” (versão A) O interesse do Dr. Bonifácio fora plenamente satisfeito. Provara sua tese. Para se certificar disso, porém, altera a apresentação final do texto. Vejamos duas versões:





Versão A

Versão C

Da última vez que a vi, disse-me entre dois acessos de tosse:

Tudo porque me levaram os filhos de casa. Se ficassem, nada teria acontecido. Os da vizinha não foram e sararam todos...”



Da última vez que vi a pobre Isaura, disse-me ela, entre dois acessos de tosse:

Tudo porque me levaram de casa os filhos. Se ficassem nada lhes teria acontecido. A nossa vizinha, tão boa, coitada, quis fazer o bem e fez a nossa desgraça. É um perigo ser muito bom...134


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