Quem perseverar na sua pesquisa é levado, mais cedo ou mais tarde, a mudar de método



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I0 Colóquio em Epistemologia e Pedagogia das Ciências - 2005


O que é epistemologia?
"Quem perseverar na sua pesquisa é levado, mais cedo ou mais tarde, a mudar de método"

(Goethe).


Marcos A da Silvieira

PUC-Rio


O Dicionário Houaiss apresenta o seguinte verbete:

epistemologia - s.f. (1942 cf. PD3) fil 1 reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, esp. nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento  cf. gnosiologea 2 freq. estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência  etim epistem- + -o- + -logia.

O primeiro sentido é o de uma teoria do conhecimento, onde buscamos a natureza, as etapas e os limites do conhecimento humano, o que leva a estudar, inclusive, os processos cognitivos individuais (psicologia cognitiva) e sociais (a formação e a validade das ciências). Procura responder as perguntas: O que é conhecer?, O que podemos conhecer?, Como podemos conhecer?, O que nos motiva a conhecer?

Ora, estes processos cognitivos, individualmente falando, possuem uma gênese, dependente de questões biológicas, mas totalmente apoiada nas interações sociais e no ambiente cultural em que vive aquele que aprende e descobre. Além disso, o conhecimento é cumulativo, ao menos ao longo da história recente de nossa civilização.

Daí o segundo sentido mencionar que o conhecer depende da sociedade e da história. Como todo produto humano, o conhecimento é social e histórico, isto é, possui uma história e atende a interesses e valores que se alteram com o tempo.



Toda epistemologia é histórica, ou não é epistemologia. Histórica porque se constrói a partir da história do conhecimento humano. Histórica porque se altera com as descobertas científicas e com as mudanças de valores e interesses, isto é, possui uma história1.

Dada a história das ciências desde o finsl do século XIX, à epistemologia atual não interessa discutir a verdade da ciência, conceito que perdeu o sentido, mas a gênese, a formação e a estruturação de cada ciência e os processos históricos de validação que aí aparecem.

Serão agora citadas algumas máximas retiradas dos livros de Gaston Bachelard ilustrando conclusões de uma determinada corrente epistemológica e sua relação com a pedagogia em geral e com a pedagogia das ciências em particular. Lembro que estas máximas são conclusões de uma longa e profunda análise da história da ciência no início do século XX, expostas em seus livros, e não formulações a priori.

"O nosso espírito tem uma tendência irresistível para considerar como mais clara a idéia que lhe serve mais freqüentemente" (M. Bergson).

"A objetividade científica só é possível depois de termos rompido com o objeto imediato, de termos recusado a sedução da primeira escolha, de termos parado e contradito os pensamentos que nascem da primeira observação."

"A própria essência da compreensão é compreender que não se tinha compreendido."

"O imediato deve, em todas as circunstâncias, ceder o passo ao construído."

Conhece-se "contra um conhecimento anterior".

"Conhecer é precisar, retificar, diversificar".

"O espírito científico se constitui como um conjunto de erros retificados".

"Não há verdades primeiras, o que há são erros primeiros".

"...quando se apresenta à cultura o espírito nunca é jovem. Ele é mesmo muito velho, pois tem a idade de seus preconceitos. Aceder à ciência é rejuvenescer espiritualmente, é aceitar uma mutação brusca que deve contradizer um passado".



"Nada é natural. Nada é dado. Tudo é construído."

1 Um especialista perceberá que tomei um partido: neguei uma epistemologia normativa, apresentando regras gerais e absolutas – donde intemporais – para reconhecermos que um dado texto é científico ou não, ou para reconhecermos entre duas teorias aquela "mais científica" ou aquela com maior "conteúdo de verdade" ou "maior conteúdo de falsificabilidade". Mais precisamente, desconsiderei Karl Popper e seus discípulos, seguindo as críticas de Thomas Kuhn. Também não deixei espaço para o anarquismo epistemológico de Paul K. Feyerabend e seus discípulos.

O que é epistemologia – M. A. da Silveira -


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