Quem sabe pode muito



Baixar 498.74 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho498.74 Kb.
QUEM SABE PODE MUITO. QUEM PODE ama MAIS OS DESAFIOS DA CONVIV�NCIA NO CENTRO ESPIRITA Homenagem aos cento e cinq�enta anos do Espiritismo 18/Abril/1857 a 18/Abril/2007 Lan�amento de O Livro dos Esp�ritos WANDERLEY SOARES DE OLIVEIRA espirito JOS� MARIO EDITORA DUFAUX educando cora��es "Quem sabe pode muito. Quem ama pode mais." Chico Xavier (Ora��es de Chico Xavier. Carlos Baccelli. leepp) Sum�rio Pref�cio O Cristo Est� na Terra 10 Introdu��o 18 Capitulo 1 Conversa entre Amigos 22 Cap�tulo 2 Velhas Doen�as Emocionais 38 Cap�tulo 3 Examinando o Orgulho 50 Capitulo 4 Reuni�o de Diretoria 60 Cap�tulo 5 Devassando o Inconsciente 76 Cap�tulo 6 V�nculos Afetivos 92 Cap�tulo 7 Estudando a Ang�stia 100 Cap�tulo 8 Casamentos Duradouros 108 Cap�tulo 9 Chamado Inadi�vel 120 Cap�tulo 10 Joio ou Trigo? 142 Cap�tulo 11 Apelo por Conc�rdia 160 Cap�tulo 12 Tempo de Maioridade 168 Cap�tulo 13 Nos Bastidores das Atitudes 182 Cap�tulo 14 Quem S�o os M�diuns? 202 Cap�tulo 15 O M�dium Antonino 216 Cap�tulo 16 Construindo a Conc�rdia 232 Capitulo 17 Estudando a M�goa 240 Cap�tulo 18 Depress�o de Ana 252 Cap�tulo 19 Riscos de Sitiamento 270 Cap�tulo 20 Clamor por Uni�o 284 Pref�cio O Cristo Est� na Terra E logo o pai do menino, clamando, com l�grimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade. Marcos, 9:24 A fragilidade deste pai diante do filho em impiedosa obsess�o � um retrato fiel da humanidade terrena diante de suas dores. Ningu�m foi criado para a dor. Em nosso est�gio, entretanto, ela se imp�e como bendita art�fice de nossa f�. O sofrimento tem essa propriedade de penetrar as camadas mais profundas da alma. O esfor�o para ameniz�-lo e extingui-lo, dilacera a carapa�a da ilus�o e faz-nos perceber claramente o qu�o fr�geis somos. Esta fragilidade reconhecida, deixa emergir o pedido silencioso da alma na busca de for�a e amparo. Isso � a f�. A busca do Colo Paternal de Deus para descansarmos de nossa loucura milenar. Nesse movimento instintivo de defesa descobrimos facetas ignoradas do nosso Ser Espiritual. Tomamos contato com o mundo desconhecido de nossas imperfei��es e educamo-nos para sermos melhores. "Inspira��o divina, a f� desperta todos os instintos nobres que encaminham o homem para o bem. � a base da regenera��o." O distintivo da regenera��o � a f�, �nica for�a capaz de nos libertar das amarras da prova��o e levar-nos a galgar as li��es. Sem f�, nos manteremos cativos nos regimes da expia��o. A f� � o combust�vel do ato de existir e cooperar na Obra C�smica de Nosso Pai. � a alma do universo. F� � o Sentimento do Criador. Todos t�m depositado em g�rmen essa semente da exist�ncia. Por ela falamos com Deus. "No homem, a f� � o sentimento inato de seus destinos futuros; � a consci�ncia que ele tem das faculdades imensas depositadas em g�rmen no seu �ntimo, a princ�pio em estado latente, e que lhe cumpre fazer que desabrochem e cres�am pela a��o da sua vontade. A Onda Mental do Cristo supre a nossa incredulidade. Jesus est� literalmente na Terra neste instante de transi��o. Seria improf�cua a tentativa de explicar essa presen�a do Cristo sendo que n�o temos palavras no vocabul�rio humano para exprimir o assunto. Medidas singulares foram levadas a efeito pela Equipe Celeste do Senhor que vela pela seguran�a e progresso do planeta. Jesus nunca esteve t�o pr�ximo das sofreguid�es humanas. Enquanto as sociedades terrenas acomodam-se na insanidade da guerra e do poder, Jesus sustenta o planeta com Seu incondicional amor. Inevitavelmente a humanidade avan�a gra�as a esse suporte de amor incomensur�vel. Qual de n�s, por�m, tem essa f� no bem? Como caminhar sem o otimismo de acreditar em dias melhores? Como conviver sem tecer a confian�a, qualidade essencial para que as uni�es sejam fontes abundantes de bens imperec�veis? Quantos s�o capazes de bancar a cren�a na justi�a ante as impiedosas amea�as? Como acreditar no pr�ximo ante tantas decep��es? Quantos de n�s, iluminados pelas claridades do Espiritismo, velam com o Cristo enquanto a embarca��o das provas terrenas � abalada pelas tempestades da ignor�ncia e da maldade? Quem tem buscado a onda mental do Senhor? N�o haver� paz na humanidade se n�o acreditarmos em Deus. N�o haver� fraternidade no mundo se n�o acreditarmos uns nos outros. In�meros de n�s, os adeptos do Cristo, acreditamos que acreditamos! Acreditamos que temos f�! A mente do Cristo � o ponto de equil�brio para a transi��o. Sem ela, a Terra nada mais seria que um turbilh�o de maldade e escravid�o. As legi�es do vale da mentira persuadem coletividades atrav�s da ilus�o, assaltando os valores tenros do cora��o humano, e depositando as sementes da descren�a. A estrat�gia mais ensandecedora dos inimigos do Cristo � levar o homem a desacreditar na for�a do bem. O tr�fico mais perverso no planeta n�o � de drogas alucin�genas, mas da mentira calculada que resulta de estudos psicol�gicos profundos para roubar o ju�zo humano. A droga mais destruidora � a mentira que funciona como isca para nossas ilus�es. Quando deixamos de apostar no valor alheio, fixamo-nos na maldade. Agrilhoados aos aspectos enfermi�os do pr�ximo, nasce a descren�a. A descren�a mata o idealismo superior, cria a indisposi��o para o afeto, motiva a indiferen�a e assegura o descaso. Da� para a avers�o e o �dio � um passo. A fixa��o emocional na sombra gera o descr�dito. O ser humano teme o ser humano. Uma Terra insegura, amea�adora, fr�gil. Diante desse quadro, quem vai governar? Quem vai oferecer algo para consolidar a seguran�a? Quem tem mais poder? O que � o verdadeiro poder? Surge ent�o uma invers�o de valores. A justi�a passa a ser uma pe�a filos�fica estanque, in�cua. Mais vale a vingan�a, o proveito pessoal, o prazer das sensa��es perec�veis. Esse quadro de insanidade avassala at� mesmo as comunidades adesas ao bem. Essa onda de perversidade bafeja igualmente a seara dos aprendizes do Cristo. Sem quaisquer d�vidas, o mal de nossa comunidade doutrin�ria n�o est� fora, mas dentro de n�s. � o sentimento de exclusivismo que � capaz de enlouquecer-nos a ponto de supor que temos o mapa da Verdade em nossas m�os e, aqueles que n�o se guiam por ele, destinam-se a desvios infelizes nas rotas que escolheram. A descren�a brota desse sentimento de personalismo quando nos permitimos matar o encanto e o afeto porque algu�m decidiu ser diferente do que gostar�amos. Ningu�m a pretexto de bondade e indulg�ncia deixar� de enxergar as nossas lutas e descuidos no caminho. Entretanto, a fixa��o prolongada nessa �tica da enfermidade pode contagiar e enfraquecer, causando, em nosso pr�prio preju�zo, o des�nimo e a apatia nos ideais de crescimento, colocando-nos em sintonia nociva com os g�nios do engodo e do devaneio. O Ego�smo polariza a mente no complexo de inferioridade - gera a descren�a em si -, piso emocional para fixa��o nas imperfei��es pessoais e alheias - medo, indiferen�a, inseguran�a, antipatia nas rela��es. Ao contr�rio, quando se reconhece nosso valor real, acreditamos em n�s, temos autonomia de cren�a, portanto, destacamos o bem que est� no outro. A percep��o pessoal que temos do outro � o ponto nuclear para uma conviv�ncia pac�fica ou destruidora. Se temos olhos de compaix�o, nosso cora��o est� rico de esperan�a. Se temos olhos de disputa, a tra�a da inveja tomou conta de nossa alma. A causa deveria estar acima da casa, pois, a casa � feita de homens que carregam sonhos, frustra��es, exageros e tamb�m valores. Nossas desaven�as infelizes s�o miser�veis diante da extens�o do servi�o. Pouco ou nada significam ante os reclames da hora. Por essa raz�o, bem-aventurados aqueles que est�o logrando atrair para perto de si, espontaneamente, a simpatia e a amizade, a cren�a sincera e o reconhecimento educativo. Essas for�as morais s�o pontos essenciais de sustenta��o dos ideais crist�os. Lament�vel somente ser� a atitude daqueles que ainda consomem uma gota de energia para difamar, desdenhar, diminuir e adulterar a grandeza dos esfor�os e conquistas alheias. E quem faz isso matou sua cren�a no bem ou vacila entre a pen�ria de conceitos e a tormenta da d�vida. "Ajuda a minha incredulidade!" Esse pedido relatado na passagem evang�lica � o pedido de todos n�s ao Cristo nesse momento decisivo da transi��o. Qu�o desafiador � sustentar os Ideais nobres! Qu�o �ngreme � o caminho da vit�ria sobre si mesmo! Como � dif�cil tecer o manto da confian�a nos valores Alheios e servir incondicionalmente! Rendamos gra�as por abandonar o mal e estender as m�os ao bem alheio. Entretanto, o Amor � uma lei soberana que estipula, igualmente, o crescimento de quem o espalha. Nesse tempo de maioridade das id�ias esp�ritas no mundo, examinemos com proveito seu verdadeiro conceito. Restringi-lo a obras de benemer�ncia comunit�ria ser� procrastinar o servi�o essencial da �duca��o espiritual da Terra. Confundimos com facilidade o amor com produtividade doutrin�ria e amor com solidariedade social. Em nossos meios doutrin�rios existem campe�es da caridade ao pr�ximo e devotos admir�veis pelo bem da divulga��o de nossos princ�pios. Muitos deles ainda n�o aprenderam o que fazer pelo seu pr�prio bem. Cresceram em responsabilidades para fora sem dilatar seu campo pessoal de alegria e equil�brio absorvidos em pesados compromissos esp�ritas, s�o incapazes de externar simpatia e cordialidade sinceras. Enredaram-se nas teias ilus�rias da import�ncia pessoal. Inten��es leg�timas de aux�lio e caridade nem sempre s�o suficientes para erguer o patrim�nio das rela��es sadias e revitalizadoras do afeto. As atitudes s�o ju�zas implac�veis que determinam a realidade palp�vel da vida. O ego est� em nossa "cabe�a". O self em nosso "cora��o". Quando pensamos Espiritismo acalentamos idealismo nobre. Todavia, somente com sentimento elevado e educado poderemos assumir a condi��o de Servos da Vida, renovando atitudes e empreendendo novos clich�s de conduta e a��o. Sem atitudes renovadas n�o inspiramos confian�a. Sem confian�a n�o h� piso para rela��es educativas, �nicas capazes de acender a chama da motiva��o que ilumina os ideais de solidariedade nas esferas do bem. Nos bastidores do centro esp�rita, ao se abrirem as cortinas dos pap�is sociais, existem cora��es que pulsam em busca de sua reden��o. Sob a impon�ncia dos cargos e a disciplina dos regimentos, existem sentimentos que determinam dores e alegrias, esperan�as e decep��es. Por traz da compet�ncia doutrin�ria, muitas vezes, se escondem amargura e doen�a, fraqueza e revolta. Imperioso examinar com distin��o os dramas ocultos da conviv�ncia onde jazem as causas profundas da ciz�nia, sob a qual se aninham os vorazes inimigos da harmonia. As hist�rias aqui narradas pelo amigo Jos� M�rio s�o retalhos de in�meras oportunidades de trabalho e aprendizado, nas quais participamos junto aos grupos de amparo emergencial aos centros esp�ritas. Constituem valorosos subs�dios de educa��o moral em favor da constru��o do per�odo da atitude nas lides esp�ritas. Compondo essas frentes de socorro ativo e abnegado, o autor tem encontrado larga motiva��o para alinhavar suas id�ias e viv�ncias com objetivos fraternais. Chega o instante de envi�las ao mundo f�sico por solicita��o de Eur�pedes Barsanulfo. Por desconhecermos a verdadeira natureza de nossas for�as afetivas, sucumbimos com freq��ncia nas tramas da disc�rdia e da avers�o, mesmo quando cultivamos as mais elevadas inten��es de amar. Na esfera de nossa ignor�ncia moral, o personalismo pode se chamar dedica��o e dinamismo, a m�goa pode ser confundida Com esfriamento da motiva��o e o amor pode ser uma miragem do nosso modo de pensar. Eur�pedes Barsanulfo o orientador de nossos compromissos, deixou claro, em recente des�gnio, que todos aqueles que abra�aram com aut�ntico comprometimento o ideal da maioridade do espiritismo, necessitar�o de, pelo menos, uma d�cada, somente para entender o conceito desse per�odo da atitude de amor. Essa obra, portanto, � essa contribui��o liter�ria oportuna do amigo Jos� M�rio ao melhor entendimento desse novo tempo. Um preito inadi�vel � nossa consci�ncia que tem como p�lo de atra��o a inesquec�vel proposta do Senhor: "Nisto todos conhecer�o que sois meus disc�pulos, se vos amardes uns aos outros" Sem Tua presen�a entre n�s, Senhor, jamais conseguiremos triunfar! Sob o clar�o de amor que ilumina nossas consci�ncias nesses dias sombrios, queremos dizer a Ti, sem qualquer pretens�o: para n�s nada ser� imposs�vel sob Tua magn�nima �gide. Procuremos, todos n�s, a onda mental do Cristo. Ele est� na Terra. Como o pai do menino adoecido, com os olhos marejados de l�grimas, n�s repetimos de joelhos como faziam os crist�os primitivos: "Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade! Sobretudo, Pastor Divino, dai-nos coragem e for�a para acreditarmos uns nos outros pelo bem de Tua obra entre n�s. Ave Cristo! Os que te amamos assim te sa�dam Senhor. Da amante do bem e servidora do Cristo, Maria Modesto Cravo Agosto/2006 Introdu��o Porque eu sou o menor dos ap�stolos, que n�o sou digno de ser chamado ap�stolo, pois que persegui a igreja de Deus. Mas pela gra�a de Deus sou o que sou. I Cor�ntios 15:9 e 10 Passadas tr�s semanas ap�s a decis�o de nossos irm�os no Grupo X, Dona Modesta chamou-me ao seu gabinete para falar sobre minhas anota��es que haviam sido submetidas � equipe de comunica��o do Hospital Esperan�a. - Jos� M�rio, tenho boas not�cias. - Sobre o livro? - Nossa equipe aprovou o envio de seus registros � esfera f�sica atrav�s da mediunidade. Apenas fizeram uma ressalva que lhe custar� uma revis�o. - Fiz algum apontamento indevido? - Vou ler textualmente uma parte das considera��es de nossos orientadores para seu entendimento. Dizem eles: "As anota��es s�o judiciosas e oportunas. Entretanto, nosso diretor, Eur�pedes Barsanulfo, expediu recente decis�o no sentido de alertar os grupos doutrin�rios sens�veis aos apelos da maioridade, que se ocupem com afinco em estudarem as ra�zes de seus sentimentos em favor do servi�o pessoal de desilus�o. Sendo assim, a obra do irm�o Jos� M�rio, dever� suprimir noventa por cento das revela��es acerca das a��es da maldade organizada e tamb�m em torno dos registros sobre o passado reencarnat�rio de nossos personagens. Cremos que, com essa medida, o livro se reduziu � metade, todavia, atender� �s prioridades que v�m sendo percebidas nas atividades socorristas junto aos grupos esp�ritas na Terra, cujo n�cleo encontra-se, quase sempre, nos desafios educativos da conviv�ncia. Os apontamentos suprimidos poder�o ser destinados em tempo pr�prio por se tratarem de notas reveladoras preciosas, conquanto n�o sejam indispens�veis ao servi�o de ilumina��o espiritual. Devem ser mantidas somente as informa��es que tornem melhor compreens�vel o enredo." Amigos de ideal, Jesus nos aben�oe os caminhos. A anota��o acima � um pequeno trecho suprimido no enredo do livro e que o inserimos a t�tulo de explica��o sobre a natureza das reflex�es aqui contidas. Sob assessoria integral de Maria Modesto Cravo, sinto-me na condi��o de aluno cujo tutor pega na m�o para ensinar as primeiras movimenta��es. N�o � mera figura liter�ria. In�meras vezes n�o fui capaz de distinguir quem escrevia em comunh�o mental e afetiva com o m�dium. Eu ou Dona Modesta? Ap�s longos anos na carne, debru�ando-me sobre livros e ass�duo a tarefas de interc�mbio, n�o posso negar que ingressei na categoria daqueles que se sup�em com c�tedra no assunto. Fui severo defensor da pr�tica medi�nica correta e terminei nos bra�os de alguns preconceitos. Muito Espiritismo na cabe�a e cora��o escasso de viv�ncia afetiva espont�nea. Depois de muita desilus�o, adquirida a custa de l�grimas e suor na escola corretiva do Hospital Esperan�a, retomei o curso da verdade sobre minha condi��o e agora regresso com vis�o um pouco mais ajustada. Minha vida � simplicidade e recome�o. Assim, nenhuma pretens�o liter�ria tomou conta de nossas inten��es. Destinamos p�ginas singelas com o mais terno carinho a todos os servidores da Doutrina Esp�rita e do Evangelho. Longe de mim qualquer pretens�o de generalizar a situa��o dos centros esp�ritas. A maioria vem prestando servi�os de amor incompar�veis. Todos, por�m, sem exce��o, quais semeaduras benfazejas, acolhem joio e trigo em suas leiras. Somos, portanto, convidados a velar com o Cristo incansavelmente, pelo bem da gleba. Estamos cansados ante o peso de nossas necessidades e oprimidos por apelos �ntimos de retifica��o. Que seria de n�s se n�o fosse a extens�o da miseric�rdia celeste? Gra�as ao servi�o incans�vel de amparo, todos recebemos do Mais Alto o est�mulo para caminhar, mesmo com tantas limita��es. Os Orientadores da Verdade no mundo convertem nossas imperfei��es em adubo nutriente capaz de fazer florescer as mais belas express�es do bem. Como avan�ar sem essa for�a de atra��o para crescer? Como continuar a servir na Obra do Cristo sem esse benepl�cito de acolhimento e louvor ao lado sadio que existe em cada um de n�s? Ante essa luz da bondade que tem norteado nossos passos e nos concedido a gra�a de sermos �teis, de mim mesmo s� posso testificar que "(. "sou o menor dos ap�stolos, que n�o sou digno de ser chamado ap�stolo (...). Mas pela gra�a de Deus sou o que sou." Sentiremo-nos recompensados em nosso diminuto esfor�o, se nossas anota��es contribu�rem de alguma forma para a instaura��o de uma campanha pela bondade em nossas atitudes, elevando nossa conviv�ncia ao patamar de sublime oportunidade de edificar bens imperec�veis, provenientes do mais leg�timo sentimento crist�o pelo qual seremos reconhecidos como disc�pulos do Evangelho. Sensibilizado, envio meu abra�o jubiloso a todos os meus afetos e leitores na vida f�sica, Jos� M�rio 24/Julho/2006 Cap�tulo 1 Conversa entre Amigos E chegou a Cafarnaum e, entrando em casa, perguntou-lhes: Que est�veis v�s discutindo pelo caminho? Mas eles calaram-se; porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior. Marcos, 9:33 e 34 Naquele fim de tarde, disp�nhamos de uma pequena pausa nos afazeres. Convidado por Dona Modesta para um ch�, fui at� sua resid�ncia nos arredores do Hospital Esperan�a.4 L� se encontravam tamb�m o Professor C�cero Pereira e Doutor In�cio Ferreira em descontra�da prosa. - Modesta, um dia desses, pe�a ao m�dium para escrever uma p�gina sobre nossos momentos de descontra��o! - Farei isso, In�cio. Ser� muito oportuno contar sobre nossos momentos de divers�o e cultura na vida espiritual. S� n�o sei se acreditar�o que jogamos tanta conversa fora! Acreditar�o, In�cio. Esteja certo que o homem iluminado com os conceitos doutrin�rios est� renovando concep��es rapidamente. J� podemos verificar efeitos positivos dessa tarefa de "descatolizar" o plano espiritual. - Os ataques continuam severos! - Nenhuma tarefa nova pode desconsiderar as rea��es naturais do caminho. Estamos lidando com gente, formas de pensar, conceitos e preconceitos, hist�ria e cultura comunit�ria. - Se estivesse no plano f�sico!... - Se estivesse por l�, In�cio, n�o lhe dariam ouvidos. - Escrever tem essa vantagem. N�o escutam tudo que gostaria de falar, se ainda pudesse! - Ainda bem! - manifestou o Professor C�cero com um largo sorriso. Eu prestava aten��o e me deliciava com o ch�. A conversa corria solta, quando o professor alterou o rumo das id�ias. - Modesta e o Grupo Esp�rita X, quais s�o as novas? - Pronto! Daqui a pouco largamos o ch� para ir salvar algu�m - disse Doutor In�cio em tom de brincadeira provocando novos risos em todos. - As coisas est�o apertando professor. Cada dia que passa temos encontrado menos acesso. As possibilidades de amparo v�o se reduzindo. Se n�o houver um retrocesso, pode caminhar para amargas experi�ncias. - Modesta, o amigo Jos� M�rio sabe do que se trata? - indagou o professor que preocupava em me inserir no di�logo. - N�o sei de nada, professor! - respondi. - Estamos atendendo um pedido de socorro do professor a uma casa esp�rita na capital mineira. O Grupo Esp�rita X vem atravessando momentos delicados. - Sim, conhe�o a casa. O que acontece por l� Dona Modesta? - indaguei. - O de sempre... - respondeu a benfeitora levando a x�cara de ch� � boca. E antes mesmo que pudesse completar sua fala, emendou o Doutor In�cio: - Futrica, invigil�ncia, inveja e hipocrisia. - Velhas lutas morais, Jos� M�rio! Nossos irm�os est�o abrindo guarda na conduta - completou Dona Modesta. - Problemas de disc�rdia? - Sim. Ap�s um gole do delicioso ch�, expus intrigado: - Um grupo com tanto cabedal! - Qual de n�s, amigo querido, est� livre das rusgas e desaven�as? - �! Mas eu ainda me pergunto o que acontece para que a nossa conviv�ncia seja t�o complicada, mesmo com tanto conhecimento espiritual! - � muito simples Jos� M�rio! � o amor que subiu para a cabe�a! - expressou a matrona com naturalidade e atenta � sua x�cara. - De minha parte n�o achei t�o simples assim! - A conviv�ncia humana tem dois fatores que funcionam como modeladores da rela��o: a atitude e o sentimento. No est�gio evolutivo em que nos achamos, o processo da conviv�ncia sofre os efeitos naturais dos condicionamentos adquiridos nas variadas reencarna��es. A vida �ntima � como um novelo de viv�ncias nas quais nos aprisionamos sem ter consci�ncia onde se encontra o fio de meada de nossos Sentimentos. Atitudes despertam sentimentos, e sentimentos determinam atitudes. Nesse emaranhado de reflexos da vida mental, predomina o milenar instinto de posse como mecanismo de seguran�a e compensa��o. A necessidade de dominar ainda � uma caracter�stica sutil nos cora��es humanos. Decorre da caminhada natural no ego�smo. Comumente amamos no outro, a n�s mesmos. E, quando o amor sobe para a cabe�a, produz o mecanismo da idealiza��o, alimentando sentimentos que s�o verdadeiras algemas do relacionamento, quais sejam: a cobran�a, a desconfian�a, a expectativa, o ci�me e a inveja. O verdadeiro amor � aquele que liberta. Est� no cora��o. Portanto, n�o faz c�lculo Ele se expressa � dotado de uma intelig�ncia que submete o racioc�nio a uma nova ordem de crit�rios e refer�ncias. Quando usamos muito a cabe�a para amar, quando pensamos muito nas atitudes que devemos tomar em nome do amor, estamos submissos ao envelhecido processo de escolher o que devemos sentir. Furtamo-nos da espontaneidade do leg�timo ato de amar. � um est�gio complexo e doloroso do qual n�o nos furtamos... - Quer dizer que podemos pensar que amamos e, de fato, n�o amamos? - continuei a indagar. - N�o tenha d�vidas, Jos� M�rio! � o que mais acontece em nossa faixa de evolu��o. J� sentimos necessidade do amor que, em verdade, est� mais no pensamento que na a��o. � idealizado, nem sempre sentido. � estudado, nem sempre vivido. - Por que o ser humano idealiza tanto Dona Modesta? - Para n�o tomar contato com a realidade. Amamos o ideal e n�o o real. Amar o real � dif�cil. Amar o que somos incomoda e � muito doloroso. Prefer�vel pensar que sou quem n�o sou a ter que admitir minha intimidade. � um mecanismo psicol�gico defensivo contra nossa profunda sensa��o de inferioridade. Amar algo que pensamos que somos � a ilus�o da facilidade. Uma forma orgulhosa de nos aceitar. Procedemos assim conosco e, igualmente, com o pr�ximo. - Ocorre tamb�m conosco os esp�ritas? - Como sabemos que ainda n�o conseguimos alcan�ar o ideal que desejamos, projetamos no outro aquilo que gostar�amos de ser. Queremos cobrar do outro a grandeza que gostar�amos de ter em n�s. Infelizmente, como esp�ritas, muitos de n�s, temos repetido a velha caminhada emocional do mundo: muita religi�o na cabe�a, pouco amor no cora��o. Muita informa��o e pouca transforma��o. Muita exig�ncia, pouca atitude no bem leg�timo. - At� onde idealizar � prejudicial? - At� certo ponto � necess�rio. Demonstra que j� ansiamos pelo melhor, algo nobre ocupa nossa mente para se consolidar em atos no futuro. Todavia, se descuidarmos, pode se degenerar em simples intoler�ncia conosco e com os outros. � quando surgem as disc�rdias. Amando no outro o modelo pessoal que gostar�amos que ele fosse. Ao percebermos que n�o h� correspond�ncia, surgem decep��es e imprevistos que sulcam as covas profundas de m�goa na vida mental, nas quais nos enterramos com a n�tida sensa��o de trai��o, abandono, abuso e desconsidera��o. Costumamos exigir muito de n�s e do pr�ximo sem no��es sobre o que somos capazes de realizar nessa �rdua tarefa do auto-enfrentamento, a descoberta de si mesmo. - E se n�o dermos conta de olhar para n�s com honestidade? - Jos� M�rio, cada qual faz o que pode e mesmo motivado pelas melhores inten��es, ainda permaneceremos por longo tempo nessa caminhada da hipocrisia. - Hipocrisia? - Exatamente! - Mas hipocrisia n�o significa mentir, ser falso?! - Por isso mesmo! - Renovemos os conceitos, meu amigo! Hipocrisia n�o significa apenas o ato intencional de enganar ou fingir. � um est�gio evolutivo pr�prio da humanidade terrena, porque n�o conseguimos ainda ser honestos o suficiente com os pr�prios sentimentos. O ato de n�o admiti-los e reconhec�-los � uma das facetas mais sutis da hipocrisia humana. Apresentar-se com fachadas que n�o correspondem � vida �ntima, seja intencional ou n�o, � hipocrisia. Somos falsos sem desejar. Hip�critas sem consci�ncia. - Da� decorre a disc�rdia e o conflito... - falei esperando confirma��o. - Isso mesmo! Nossa incapacidade em reconhecer o que se passa na esfera do cora��o, responde por quase todas as desaven�as e agastamentos. Nos bastidores da casa esp�rita, temos uma teia coletiva de emo��es tecida pelo clima espiritual das rela��es humanas. Nela buscamos o alimento que nutre a nossa alma. Se nos apraz a fofoca, encontraremos o que dizer. Se tomados pela desconfian�a, semearemos a descren�a. Se enganados pela inveja, adotaremos a conduta esp�ria. Somos, em verdade, os �nicos respons�veis pela condi��o dos grupos de nossa conviv�ncia. - Estaria faltando uma an�lise mais honesta do que sentimos para entender melhor os nossos desentendimentos? - Estaria faltando uma auto-an�lise mais honesta. A partir da sinceridade conosco candidatamo-nos � autenticidade. Em verdade, somos fingidos conosco mesmo. - E isso seria bastante para evitar o conflito? - Seria bastante para nos trazer paz ante os conflitos, porque passar�amos a perceber nossa parcela de responsabilidade em cada lance das rela��es. - E os conflitos? Como san�-los? - Sinceramente, estou convencida que n�o viveremos sem eles. - Por qual raz�o Dona Modesta? - Apoio-me na fala do pr�prio Cristo. Vamos ler juntos uma passagem. E tomando de um belo exemplar de O Novo Testamento, Dona Modesta leu o trecho constante em Mateus, cap�tulo dez, vers�culos trinta e quatro a trinta e seis. N�o cuideis que vim trazer a paz � Terra; n�o vim trazer paz, mas a espada. Porque eu vim por em dissens�o o homem contra seu pai, e afilha contra sua m�e, e a nora contra sua sogra. Assim os inimigos do homem ser�o seus familiares." - Como interpretar essa fala, Dona Modesta? Sempre tentei extrair para mim o esp�rito da letra do Evangelho, por�m, quando chegava nessa parte... Tive muitas lutas no lar como a senhora sabe... - Que tal se eu calasse um pouco para saborear meu ch�, e deixar o nosso professor ou In�cio, que est�o mudos, falar um pouco sobre o tema?! - Com prazer, Modesta - disse o Professor C�cero Pereira. A espada mencionada pelo Cristo significa divis�o de etapas, de reinos. A vinda do Cristo a Terra inaugurou o iniciar do altru�smo, do amor, um convite ao exterm�nio do ego�smo. Essa compuls�o evolutiva por dom�nio referida pela Modesta � extremamente presente nos relacionamentos. De fato, ter paz nas rela��es para almas ego�stas, como n�s, ainda significa convencer o outro do que queremos para n�s. � uma atitude de colonizar o pensamento alheio. Quando o outro aceita, existe uma possibilidade de entendimento. E onde isso se processa com mais intensidade que na fam�lia? Os grupos familiares da sociedade terrestre, com rar�ssimas e felizes exce��es, s�o resultados de imposi��o de vontades e interesses pessoais. O "eu" cria a fal�cia da posse. Nos grupos doutrin�rios n�o tem sido diferente. H� sempre algu�m que quer pensar pelo outro. O clima da liberdade t�o difundido � real at� os limites que atendem os projetos de seus condutores. Paz para muitos amigos de ideal significa concord�ncia t�cita, pontos de vista indiscut�veis, preserva��o de programas de trabalho. - Quer dizer que expor o que pensamos � inclina��o para dom�nio? - Depende! H� um abismo conceitual e emocional entre expor e impor. - Ent�o o problema � de imposi��o? - O problema � de orgulho! O orgulho trouxe como uma das piores conseq��ncias para nossa vida psicol�gica o mau h�bito de colecionar certezas, fixar-se em pontos de vista que nos causam a sensa��o de superioridade. Esse apego ao que pensamos � um obst�culo para ir de encontro ao que verdadeiramente sentimos. Muitas vezes, amamos algu�m, mas para fazer prevalecer o que acreditamos, tra�mos nosso pr�prio sentimento. Al�m disso, em nossos meios doutrin�rios, esse sentimento de posse milenar cria espa�os que podem ser denominados feudos psicol�gicos, levando-nos a nos sentir donos de lugares e pessoas, id�ias e iniciativas. Em nome de projetos e miss�es que, quase sempre, s�o ilus�es de grandeza, somos capazes de romper com as mais caras amizades e elos de afeto. - Sinto uma dor no cora��o quando o senhor me fala isso, professor! - Cuidado, M�rio, do cora��o s� se morre uma vez! O gracejo do professor tinha fundamento. Deixei a vida f�sica devido a problemas card�acos e outras complica��es ignoradas pela medicina. Aquela fala, por�m, provocou uma pontada de dissabor devido a lembran�as que ainda trazia da vida f�sica. Ante a fala do amigo, minha mente voejou por um segundo. Enquanto isso, em sua sabedoria, a fim de me conceder um instante, ele tamb�m aproveitou para fruir o saboroso ch�. - Respirou, M�rio? - Sim, professor. Apenas sigo as recomenda��es m�dicas. Deixar o cora��o falar sem cercear. Sou muito raz�o como o senhor sabe e, esse exerc�cio, tem me ajudado a soltar as amarras emocionais. Continue, por caridade, a sua explana��o. - Precisamos muito rever, uns perante os outros, a vis�o sobre nossa real condi��o espiritual. Essas certezas t�m provocado dissens�es lament�veis, qui�� cis�es deplor�veis. S�o o ato expl�cito da imposi��o, da teimosia, do orgulho de se acreditar melhor pelo simples fato de adquirir conhecimento ou erguer obras de caridade. A vida na Terra, na carne ou fora dela, � regida pela imperman�ncia, pela relatividade, pela mudan�a cont�nua. Qualquer tipo de apego � rumo para dor. Jesus, no Evangelho de Jo�o, cap�tulo quinze, vers�culo treze, exarou: "Ningu�m tem maior amor do que este, de dar algu�m a sua vida pelos seus amigos" N�o temos conseguido dar um ponto de vista pela manuten��o de nossas rela��es com os amigos, quanto mais nossa vida! - Ei, professor! N�o sei se o cora��o vai ag�entar essa fala! estava muit�ssimo sensibilizado e, gra�as a Deus e ao meu esfor�o, com l�grimas nos olhos. - Ag�entar� M�rio, esteja certo! A proposta do Cristo � amar na dissens�o e n�o amar na suposta paz da conc�rdia fict�cia, sustentada por sentimentos que n�o correspondem � realidade. Amar com todos pensando de maneira igual ou aceitando de cabe�a baixa as ordens de algu�m � aliena��o, hegemonia disfar�ada ou fanatismo. A dissens�o, evidentemente, entendida como sendo o ato de n�o compartilhar as mesmas id�ias, � o clima ideal para banir a hipocrisia, o fingimento. Rela��es autenticas s� podem ser constru�das com diverg�ncia. Cuidemos, por�m, para n�o confundir diverg�ncia com cis�o, que seria separa��o, atitude de cindir ou inviabilizar a continuidade da conviv�ncia. Quando n�o sabemos administrar nossas discord�ncias caminhamos para a cis�o. - Era nisso que pensava, professor! Por que n�o conseguimos administrar nossas diverg�ncias? - Pelo motivo exposto por Modesta. Por desconhecermos a natureza dos sentimentos nelas envolvidos. - N�o quero ser desmancha prazer. Se estiver perguntando muito... - Nada disso, Jos� M�rio - falou Dona Modesta -, eu adoro quando ocorre isso em meu lar. Quem nos observa ver� que n�o perdemos a virtude dos bons mineiros. Uma prosa regada de doutrina e ch�. Claro! Faltando o p�o-de-queijo - disse Doutor In�cio provocando risos em todos. - Afinal, temos uma quest�o de atitude ou de sentimento nas nossas discord�ncias? - continuei meu interrogat�rio com ansiedade. - Temos uma quest�o de evolu��o, M�rio - respondeu o professor. - N�o ter�amos, portanto, em nosso est�gio, como escapar de semelhantes lutas? - N�o. Nossas atitudes nem sempre traduzem o que sentimos. Pior que isso � n�o ter consci�ncia que agimos em decorr�ncia de sentimentos que desconhecemos. - Com essa an�lise dos relacionamentos, seria coerente afirmar que n�s, especialmente n�s os esp�ritas, n�o estar�amos administrando bem as nossas amizades em fun��o da ignor�ncia sobre o que se passa em nosso cora��o? Isso seria o tal amor que subiu para a cabe�a? - Sem d�vida, amigo! O apego emocional �s nossas cren�as � a raiz do chamado preconceito. Cren�as s�o id�ias que se tornam verdades ao nosso senso moral, uma esp�cie de "b�ia mental" de seguran�a para navegar no desconhecido mar da exist�ncia. O preconceito tem como base o sentimento de orgulho. Nos relacionamentos, o preconceito se manifesta quando fixamo-nos nos julgamentos que fazemos para nos sentir superiores ao outro, uma forma de diminuir o valor alheio, uma atitude de arrog�ncia enfermi�a. Minha mente parecia uma represa prestes a transbordar de tantas li��es. Ensinos que n�o eram novos para mim, mas que agora chegavam ao meu �ntimo, tocando minha sensibilidade. Estava fazendo um curso de resgate da sensibilidade no Hospital Esperan�a e as palavras ali ouvidas n�o eram novas para meu c�rebro, todavia, completamente inovadoras ao meu cora��o. Senti-me preenchido como nunca. Ouviria mil palestras com a cabe�a e n�o me sentiria t�o rico como naquele instante. Apesar disso, a curiosidade natural levou-me a olhar a postura de equil�brio e paci�ncia em Dona Modesta e indagar-lhe nutrido de irrestrita confian�a na alma como h� muito n�o sentia: - Dona Modesta, qual o sentimento mais dif�cil de admitir em n�s? - � vari�vel para cada indiv�duo. Em nossas atividades de amor, por�m, temos constatado que o conjunto dos sentimentos indicadores da fragilidade humana � o mais negado. Admitir nossa falibilidade, perceber as m�s escolhas que nos levaram aos fracassos lament�veis, ser honesto o suficiente para avaliar erros e limita��es que possu�mos, ainda � um desafio que pouqu�ssimos homens t�m enfrentado com galhardia. Nossa rebeldia em reconhecer tais sensa��es � o piso emocional da arrog�ncia humana em querer parecer o que n�o se � verdadeiramente. - Quais seriam os sentimentos pertinentes a esse grupo? - Diversos. Entre eles, todos aqueles que nos impedem de acolher com alegria o brilho alheio. - A inveja seria um deles? - A inveja, o ci�me, o despeito, a desconsidera��o, o medo, a vaidade, a ansiedade, a intoler�ncia, possessividade, o impulso ile disputa. - E que atitudes podem nascer desse grupo de sentimentos? - A inquietude, a pretens�o, a imprud�ncia, o perfeccionismo, o autoritarismo, a pretens�o, e o pr�prio preconceito. - O suficiente para muita confus�o! - De sobra! Confus�o e abuso. - Abuso? Nesse clima existe muito desrespeito a t�tulo de amor. Quando o amor sobe para o c�rebro ganha apoio da prepot�ncia e da presun��o. O orgulho tem feito muitas v�timas nas rela��es. Pessoas sinceras e sens�veis t�m sido muito feridas pela arrog�ncia de quantos se sup�em com qualidades ou deveres em gerenciar vidas... Meu Deus! Fico pensando se n�o foi meu caso! E... - fiquei constrangido em perguntar. Indague � vontade, meu irm�o! A morte, pelo menos isso, nos devolveu, o direito de analisar a vida alheia sem reprimendas e com respeito incondicional. - Qual a raz�o para as disc�rdias no Grupo X? - Disputa! - Quantas vezes ouvi essa palavra quando reencarnado... E sempre recusei acreditar que isso poderia ocorrer entre esp�ritas. .. - O que te fez mudar de id�ia? Se � que mudou! - Mudei sim, Dona Modesta. Os grupos de reencontro aqui no Hospital levaram-me a profundas reflex�es sobre o assunto. Confesso que n�o consigo compreender o tema com a profundidade que gostaria, mas j� aceito pensar sem resist�ncia que eu mesmo participei ativamente dessa atitude, mesmo sem consci�ncia. - Qual de n�s escapa desse velho reflexo mental, Jos� M�rio? - S� n�o consegui ainda apreender a raz�o profunda pela qual disputamos. - O nosso orgulho n�o admite de forma alguma que algu�m esteja a nossa frente nos assuntos espirituais. Eis o motivo. Muito dif�cil para criaturas como n�s abrir m�o do personalismo em favor do brilho alheio. J� disputamos de tudo na caminhada evolutiva e agora, sob efeito enfermi�o desse h�bito no subconsciente, estamos disputando grandeza espiritual, a posse da verdade, intensidade de brilho moral. - Somos muito convencidos sobre a nossa superioridade n�o � Dona Modesta? - Quanto mais avan�amos em conhecimento e experi�ncia doutrin�ria, mais nos julgamos os melhores, donos da verdade. Raros fazem trajet�ria diversa. - Mais uma vez o amor na cabe�a! O amor intelectualiza do... O orgulho dominante. Que situa��o penosa nos encon tramos! - O Espiritismo � uma medica��o eficaz e de efeitos curativos profundos para doentes graves como n�s, portadores de est�gios avan�ados de presun��o. A comunidade esp�rita est� repleta de personalidades acentuadamente convencidas de seus pontos de vista. Com o passar dos anos e enobrecidos pela bagagem do tempo, tomados de lisonja, arrogam-se miss�es e responsabilidades enormes, e saem pisando em cora��es como se os outros fossem apenas pedras, para pavimentar os caminhos por onde devem trafegar em busca de grandes metas e projetos. Aut�nticos l�deres que, embalados pelo idealismo, s�o capazes de enxergar ao longe e incentivar grupos caminharem em dire��o ao futuro. Todavia, se algu�m no caminho entrar em dissens�o com algo, lhes causa sensa��o de trope�o. A partir da�, s�o capazes de esfriar o cora��o para fazer prevalecer suas aspira��es. - � a� que entra a hipocrisia? - Com essa compuls�o de ser o maior, terminamos nos bra�os da ignor�ncia sobre o que se passa na profundidade de nosso ser. Lutamos muito para fora e escasseamos no contato com a intimidade profunda. Aumentamos o ritmo da produtividade exterior, tomados pela ansiedade de atingir sonhos, e esquecemos da produtividade por dentro no campo da renova��o de n�s mesmos, na investiga��o das ra�zes de nossos males. Passamos a ser incoerentes e nos adaptamos a esse modo falso de viver. Queremos saber tudo sobre a verdade para fora, recusando, terminantemente, auscult�-la em nossa vida �ntima. - Agora compreendo melhor a passagem narrada em Marcos, cap�tulo nove, vers�culo trinta e tr�s e trinta e quatro: "E chegou a Cafarnaum e, entrando em casa, perguntou-lhes: Que est�veis v�s discutindo pelo caminho? Mas eles calaram-se; porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior." - A disputa continua, Jos� M�rio. Infelizmente, ainda n�o conseguimos nos livrar dela. - E como nos livraremos, Dona Modesta? - falei um tanto desanimado com minhas pr�prias refregas. - O primeiro passo � a honestidade emocional. Ter consci�ncia que disputamos. Ter consci�ncia desse conjunto de sentimentos, que criam a coura�a da arrog�ncia com a qual defendemo-nos da pr�pria inferioridade. Para isso, alguns pontos s�o elementares: saber o que queremos, ter clareza sobre nossos sentimentos, sentir as nossas necessidades de aperfei�oamento e muita ora��o para recorrer � fonte inesgot�vel de poder e energia da bondade de Deus. - Dessa forma a conviv�ncia ficar� livre desse infort�nio? - Pelo menos, teremos mais leveza nas rela��es, evitaremos expectativas exageradas e poderemos colocar a amizade acima dos interesses pessoais e dos preconceitos. Todavia, n�o creia que sejam passos f�ceis. Exigem a coragem de se olhar e muita perseveran�a para entender as emo��es. - Modesta, mudando um pouco o assunto - externou o Professor C�cero -, quem sabe o nosso M�rio poderia nos ajudar na tarefa junto ao Grupo X? O m�dium Antonino lhe � um cora��o muito afei�oado. - Sim, M�rio, o que acha? - Tenho encontrado muita necessidade de tornar mais produtivos os meus momentos junto � natureza - meu passatempo predileto. Poderia usar esses instantes para escrever algo sobre o epis�dio e, quem sabe, no futuro, enviar aos nossos companheiros. Mais a mais seria uma �tima oportunidade para ampliar meu gosto pela mediunidade. - �timo! Amanh� mesmo estaremos presentes � reuni�o festiva que o grupo far� em suas depend�ncias. S�o previstas algumas situa��es desagrad�veis, teremos muito servi�o. - Estarei com voc�s. - Diga algo, In�cio - instigou Dona Modesta. - Acha mesmo que vou trocar meu ch� por essa conversa?! Daqui a pouco estaremos largando esse instante de relax para ir a Terra. Eu te conhe�o, Modesta! Deixe-me tomar meu ch�! Doutor In�cio n�o perdia oportunidade para ser c�mico. Aquela tarde inesquec�vel me trouxe li��es de vida que jamais podia imaginar um dia alcan�ar. A vida conduz-nos sempre ao encal�o de nossas pr�prias necessidades. Pensava em apenas fazer algumas anota��es sobre os acontecimentos no Grupo X. Os caminhos, por�m, se abririam para mais amplas chances de aprendizado. O di�logo daquele encontro deixou-me um tanto entristecido, n�o posso negar. Aquelas tr�s criaturas, descontra�das em um raro momento de refazimento, falavam fundo ao meu cora��o. Ap�s sair da resid�ncia de Dona Modesta, lembrei-me de Jesus, em Mateus, cap�tulo vinte, vers�culo dezesseis diz: "Assim os derradeiros ser�o primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos s�o chamados, mas poucos escolhidos." Em minhas reflex�es pensava na facilidade com a qual nos iludimos com a compuls�o de ser o melhor, o primeiro. De minha parte, tinha os olhos marejados. Encontrava-me dividido e entristecido pela minha pr�pria realidade espiritual na qual, indubitavelmente, deixei o amor fazer morada no c�rebro em minha �ltima exist�ncia. O amor que subiu para a cabe�a como, sabiamente, expressou Dona Modesta. Ao mesmo tempo, confortava-me saber que iniciava um novo processo de sensibiliza��o e ternura na alma. A esperan�a vencia o clamor de meus conflitos e, como nunca, senti uma extrema necessidade de ser o mais apagado de todos os seres. Cap�tulo 2 Velhas Doen�as Emocionais Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrar� no reino dos c�us, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que est� nos c�us Mateus 7:21 Ao chegarmos ao Grupo X, deparamos logo � entrada com alguns vigias de fisionomia austera. - A casa est� bem vigiada, Dona Modesta! - externei simploriamente. - As casas esp�ritas s�o alvos da mais digna aten��o dos Planos Maiores. A miss�o de espiritualiza��o da humanidade promove os centros doutrin�rios � condi��o de organiza��es redentoras de largos recursos de amparo e prote��o. Sigamos! Acompanhando nossa equipe estavam o Doutor In�cio, Professor C�cero e mais dois auxiliares aprendizes. O Grupo X fazia uma comemora��o beneficente. Em pleno Inverno eram servidos caldos e guloseimas. Uma multid�o se aglomerava no p�tio. Crian�as saltitavam e os adultos aproveitavam para um bom papo. Aproximamos de Calisto, h�bil dirigente das atividades medi�nicas da agremia��o. Dona Modesta corria o olhar pelo ambiente como se estivesse procurando algu�m. E apontando o indicador, disse: - Aquela � Ana, presidenta da casa. Fiquemos atentos - falou Dona Modesta como se j� esperasse algum acontecimento. Calisto deliciava um caldo quente, quando ela aproximou-se - A festa est� �tima Calisto! - � mesmo, Ana! N�o esperava tanta gente. Ser� ben�fico � tarefa. Os compromissos que nos aguardam v�o requerer condi��es materiais. - Calisto, sei que o momento n�o � dos melhores, mas gostaria de expor algo que vem me preocupando. - Diga! - � sobre a nossa tarefa medi�nica. - Sim. - Voc� est� tranq�ilo com o andamento das coisas? - E por que n�o haveria de estar? - Vou lhe ser muito franca! - Seja! - Tenho d�vidas angustiantes sobre as comunica��es recebidas por Antonino nas �ltimas semanas. Algumas pessoas da diretoria est�o me cobrando postura. - Por qual raz�o? - Acha mesmo que estamos em condi��es de receber t�o elevadas entidades no grupo? - E por que n�o? Vejo com bons olhos a experi�ncia. Estamos crescendo. - Olha, Calisto. Creio que teremos problemas se a coisa continuar assim. - Problemas de que ordem? - Tenha bom senso, irm�o! Onde se viu?! Essas entidades que est�o chegando ao grupo... Eur�pedes... Jo�o Evangelista... Antonino n�o tem jeito para mission�rio... E aquele preto-velho com aquela voz rouca... Al�m disso, posturas que atentam contra a pureza doutrin�ria... O dirigente alterou abruptamente sua vibra��o diante da fala e, usando de extremado rigor no tom de voz, indagou: - Voc� desacredita, Ana? - Estou com muita d�vida. Gostaria de propor uma discuss�o no grupo medi�nico com a presen�a do m�dium. - E desestruturar Antonino? De jeito nenhum! - Pois acho que ele deveria saber o que estamos sentindo e discutirmos com mais transpar�ncia, em clima de respeito. Ele j� tem bastante maturidade para ouvir opini�es a seu respeito. Ningu�m desconfia da mediunidade dele. A quest�o � a cautela que devemos ter com a mistifica��o e... - Calisto cortou-lhe a fala. - Sou terminantemente contra essa iniciativa! Os m�diuns devem ser poupados a todo custo dessa ordem de discuss�es. Isso os coloca em risco de desequil�brio. Se quiserem discutir algo, que seja comigo. Eu respondo pela medi�nica. - Discordo de sua abordagem. Voc� trabalha com Antonino h� muitos anos, percebe nele um m�dium exemplar e ele, em contrapartida, lhe tem como modelo de dirigente, mas somos uma equipe e, na minha condi��o de presidente da casa, solicitei uma reuni�o de diretoria para que a situa��o seja analisada claramente. O clima ps�quico alterou sensivelmente entre ambos. Calisto, com arroubo de determina��o, concluiu: - Voc� foi muito invigilante em marcar uma reuni�o dessas sem antes me consultar. N�o carecia de forma alguma! A tarefa est� segura. N�o comecei ontem na condu��o de reuni�es medi�nicas, Ana. Fique atenta e procure orar. As trevas est�o tentando de tudo para exterminar com a iniciativa em curso. - Quer saber? Acho mesmo que as trevas est�o atacando. Sabe quem? A voc� - externou Ana em tom de desabafo e ansiedade. Voc� n�o enxerga suas falhas e fica atribuindo tudo �s trevas. - Lamento que tenhamos que chegar a esse clima, Ana. Sinto-me muito correto na condu��o da tarefa e n�o permitirei intromiss�o alguma. Voc� � presidente da casa, mas quem dirige a tarefa sou eu. - De minha parte, tenho agora mais motivos para crer na utilidade de colocarmos os pingos nos "is". Os amigos da equipe que te procuraram, sentiram sua resist�ncia em aceitar-lhes as observa��es. Eu j� me desgastei por demais com sua habilidade de centralizar opini�es. - Fa�a como lhe convier, Ana. Com essa atitude � o trabalho que vai perder. Ana saiu pisando duro. Pegou um refresco e ansiosamente procurava algu�m em meio aos visitantes, ensaiando um falso sorriso para disfar�ar seu estado. T�o logo encontrou C�ntia, dirigiu-se at� ela. - Menina, voc� n�o sabe a �ltima! Venha r�pido aqui no canto, deixa eu te contar... - Falou com ele? Como foi? O que ele disse - indagou C�ntia. - Calma, calma, n�o me ponha mais nervosa. Estou at� tremula. Pegue minha m�o e veja como est� gelada! O homem � um po�o de insol�ncia! Estou completamente alterada. Veja s� como estou tremendo, mas falei tudo que queria. - Fale, fale - provocava C�ntia a fim de obter as not�cias. - Disse tudo que queria, mas como j� prev�amos, ele n�o aceita nem discutir. Est� sempre com aquela pose de presun��o. - Menina e agora como vai ser? - N�o sei n�o. Quieta � que n�o vou ficar, voc� sabe como eu sou. Ou essa reuni�o resolve ou resolve. N�o h� outra op��o. - Ent�o, me conte com detalhes. Como foi?... Dona Modesta, percebendo que a conversa caminhava para o mexerico, solicitou-nos acompanh�-la para um di�logo. Retiramo-nos do ambiente. - A situa��o pode ficar dram�tica a partir dessa reuni�o, porque v�rios componentes do grupo j� est�o insatisfeitos h� muito tempo. Calisto com sua larga experi�ncia doutrin�ria n�o abre m�o das r�deas do trabalho. Cr�-se suficientemente h�bil e preparado em fun��o de sua folha de servi�os doutrin�rios - disse Dona Modesta. - O m�dium Antonino n�o tem consci�ncia do que se passa? - Nem imagina Jos� M�rio. O m�dium Antonino segue com Confian�a as diretrizes de Calisto. Tem sido poupado desse g�nero de lutas. Esses s�o bastidores sombrios da casa esp�rita. V�rios grupos s�o tomados pela hipocrisia. A pretexto de serem fraternos e n�o melindrar uns aos outros, evitam os assuntos �speros e conflitantes. Ningu�m trata seus verdadeiros sentimentos. Como diz o ditado: "O circo pega fogo e ningu�m avisa nada no picadeiro". - Sempre carreguei essa d�vida. At� quando ser� conveniente poupar os m�diuns desses epis�dios? Na condi��o de dirigente, orientei-me sempre por poupar os m�diuns de dissabores na casa. - Esconder a verdade dos m�diuns � uma estrat�gia das rela��es doutrin�rias que atingiu o status de regra recomend�vel para todos. Uma precau��o que n�o educa. Ningu�m, no intuito de zelar pelo bem das tarefas, pode ter a pretens�o de gerir o que se passa na intimidade alheia. Apesar da nobreza de prop�sitos, chega o momento de revisar tal preven��o. Manter rela��es dessa esp�cie � sempre proceder em zona de risco. Somos a favor de grupos assertivos que nada tenha que esconder e omitir. Que declaram seus sentimentos e aprendam a lidar com suas conseq��ncias. Todo sentimento emite vibra��es que s�o captadas pelos m�diuns. N�o se fala, mas se sente. Um grupo harm�nico � o resultado de vibra��es que se completam. Imperioso trabalhar em projetos e investimentos que possibilitem aos grupamentos, a manuten��o de relacionamentos aut�nticos e duradouros inspirados em honestidade emocional. Fun��es r�gidas costumam desaproximar os cora��es. - Os pap�is de m�dium, dirigente e sustentador seriam desaconselh�veis? - De forma alguma! No aspecto operacional da tarefa, algumas vezes, s�o essenciais. Entretanto, terminada a atividade, os grupos deveriam se desobrigar desta condi��o para assumirem juntos a condi��o de aprendizes pass�veis de d�vidas, questionamentos, descren�as, transformando a ocasi�o em um ambiente de leg�tima fraternidade vertida em humildade e sinceridade. Os m�diuns n�o s�o semideuses e nem pessoas complicadas. S�o gente como todos. Com lutas e aspira��es. - Mesmo com os m�diuns novatos deveria-se proceder com essa abertura? - O fato de serem m�diuns novatos n�o lhes retira a condi��o de seres humanos adultos e candidatos ao aprendizado da espiritualiza��o. Quaisquer grupos erguidos em nome do Espiritismo-crist�o s�o escolas de aprendizado m�tuo, oportunidades de contato com novas realidades individuais com as quais todos podemos aprender algo, independente de tempo e conhecimento de doutrina. Os grupos, que se unem para o servi�o de interc�mbio medi�nico, jamais deveriam iniciar suas atividades sem combinados claros acerca do relacionamento que dever� nortear as tarefas. Para isso, mister investir na amizade, no afeto, na constru��o de rela��es transparentes. Hoje, isso se faz mais priorit�rio que o pr�prio conhecimento de mediunidade. - Priorit�rio em rela��o ao conhecimento?! - Conhecimento de mediunidade nos moldes dos programas de estudo tradicionais n�o educa nenhum m�dium a ser algu�m mais simp�tico, amigo e aberto a cr�ticas. H� m�diuns com profundo conhecimento intelectivo do fen�meno e total mente incapazes para orar com f� nas suas palavras ou receber uma sugest�o de melhora sem se melindrar. - Quais seriam estes combinados, Dona Modesta? - O primeiro deles � que nenhum de n�s � infal�vel, portanto, sujeito a falhas. O segundo � a assertividade. Aprender a falar dos sentimentos e discuti-los em grupo. Mediunidade � feita de sensa��es, emo��es. O terceiro � que �xitos e fracassos sejam dilu�dos no grupo. Ningu�m responde sozinho pelo sucesso ou pelo trope�o. Desenvolver a no��o de equipe. Equipes genuinamente crist�s colocam o amor acima dos pap�is. - Ana tem raz�o de querer colocar tudo em pratos limpos? Inclusive para o m�dium Antonino? - Ningu�m pode negar a conveni�ncia do di�logo franco nesse momento do grupo. Por�m, os motivos de Ana e dos demais merecem uma an�lise mais acurada. N�o se trata apenas de risco de mistifica��o. Quando a trouxermos para fora do corpo f�sico durante o sono, voc� poder� constatar as ra�zes de sua atitude t�o contundente em rela��o ao epis�dio. - Haveria algo mais grave ocorrendo no grupo? - Sim, existe. Nos bastidores dos motivos percept�veis, movimentam-se emo��es de variado teor. As ra�zes dos agastamentos humanos nascem nas profundezas da vida emocional. Doutor In�cio que se mantinha em sil�ncio resolveu pronunciar: - Para os encarnados, tudo come�ou com uma singela mensagem medi�nica. Para n�s, os horizontes mentais de cada trabalhador s�o um mundo de percep��es. Enquanto n�o houver nos grupos uma investiga��o mais aprofundada dos relacionamentos, as chances de harmonia ser�o sempre escassas. - Isso mesmo, In�cio! Bem lembrado! - externou Dona Modesta - Uma simples mensagem causou todo esse reboli�o? - Digamos que detonou um processo, Jos� M�rio. - Foi apenas um catalisador dos sentimentos da equipe. - Exatamente. - E de quem � o texto? - Eur�pedes Barsanulfo. - Foi ele mesmo ou... - Foi ele, mas n�o acreditam - intercedeu Doutor In�cio. O texto est� l�mpido e no entanto, acusam o pobre m�dium. Se fosse comigo... - Nem diga, In�cio! Lembra quantas vezes fui acusada de embusteira em Uberaba? - As pessoas mentem tanto para si que, quando algu�m diz a verdade, elas resistem. - E o texto medi�nico... - � um grave chamado para o futuro do grupo. Oportunamente voc� o conhecer�. - Dona Modesta, qual a situa��o espiritual real dessa casa? - Quem olha esse retalho de comportamentos durante a festa, n�o imagina os riscos que sobrecarregam essa institui��o. O Hospital Esperan�a, estabeleceu h� algumas d�cadas uma for�a-tarefa espec�fica no amparo aos centros esp�ritas sob ataques das falanges da perversidade. Eur�pedes organizou v�rias equipes com essa fun��o. Os pedidos de emerg�ncia como dessa hora aumentam a cada dia. Os riscos de sitiamento do Grupo X s�o eminentes. - Sitiamento? - Infelizmente, Jos� M�rio. H� centros esp�ritas e institui��es diversas que se erguem em nome do Espiritismo, que est�o completamente sitiados. Sob dom�nio total de falanges aniquiladoras do idealismo crist�o. - E o amparo que a senhora citou? Onde fica? - O amparo � um ato de amor incondicional. Que dizer, por�m, do doente que recebe a medica��o e n�o quer ingeri-la? - Meu Deus! O objetivo � o de fechar as casas? - Antes fosse! Os perseguidores da doutrina j� conclu�ram que melhor que exterminar � emperrar. Manter funcionando a duras penas, adoecendo lentamente seus integrantes, fazendo chacota do Espiritismo atrav�s dos vexames e das tricas. Abalar o idealismo matando a alegria e o vi�o da id�ia central do Espiritismo-crist�o que � o amor aplicado. O plano � atacar principalmente as vigas da edifica��o, os condutores. Ruindo as vigas... Quando estava encarnado, chegava a pensar se os centros seriam celeiros de luz ou um pasto de obsess�o. Como n�o elaborava nenhuma conclus�o, bania o assunto da minha cabe�a. Preferia conceb�-lo como um templo de eleva��o e bondade. - Apesar das lutas espirituais, o centro continua sendo um o�sis de paz para a humanidade sofrida. A aten��o sublime do Cristo derrama-se sobre o mais singelo n�cleo erguido em nome do Cristianismo Redivivo. Conv�m, por�m, revelar ao mundo f�sico um dos pontos mais fr�geis, para que os grupamentos esp�ritas se elevem � condi��o de ambientes renovadores das atitudes humanas. Esse ponto converge para conviv�ncia e seus efeitos. Inspirando-nos na figura de uma casa, o alicerce do centro esp�rita s�o os relacionamentos sobre os quais se assentam a parte social da resid�ncia no trabalho em favor da liberta��o de consci�ncias. Entretanto, sem o telhado da Miseric�rdia Celeste n�o seria poss�vel, nesse momento de transi��o, se arregimentar com �xito em torno dos programas de a��o no bem. Longe de n�s a generaliza��o. A maioria dos centros tem prestado servi�os incompar�veis na educa��o espiritual da humanidade e socorrido as v�timas de si mesmos. Os seareiros necessitam se conscientizar sobre o verdadeiro valor de sua participa��o nessa Obra Divina, a fim de cooperar de maneira mais decisiva nessa empreitada. A miss�o � promover as agremia��es doutrin�rias, de pronto socorro emergencial i n�cleos educativos de valores humanos para a paz no mundo. Todavia, como galgar tal condi��o se os pr�prios condutores n�o se entendem e nem servem de exemplos, para os que recorrem aos servi�os de orienta��o e amparo do centro? Os condutores do centro esp�rita s�o como o cora��o que bombeia o sangue do idealismo e oxigena com o entusiasmo cada c�lula desse corpo. - Se existe essa possibilidade de sitiamento no Grupo X, por que n�o vi at� agora nenhuma entidade perturbadora no ambiente? - Devido a a��o dos vigias que se revezam. Foi um pedido direto de Eur�pedes que n�o tem regateado esfor�os para amparar essa casa. - Algum motivo especial? - Uma semente promissora est� depositada aqui. Nossos irm�os est�o plenamente identificados com as propostas renovadoras para a maioridade das id�ias esp�ritas nessa virada de mil�nio. Seus projetos e suas qualidades no servi�o s�o farto manancial de b�n��os para o futuro. S�o almas fervorosas e compromissadas com a causa. Ousados e corajosos. Decididos a enfrentar lutas severas pelo bem dos ideais. Al�m disso, independente dos conflitos entre os seus l�deres, a casa tem prestado consolo e esclarecimento a centenas de pessoas sofridas e desorientadas. Larga leva de trabalhadores bem intencionados e servis se organizam na doa��o espont�nea e na coopera��o edificante, formando uma frente de amor. - Com tanta virtude, por que padecem? - N�o se trata de virtude. S�o habilidades consolidadas nas reencarna��es que recebem agora dire��o nova. Contudo, tais habilidades sem cuidados na aplica��o do Evangelho no cora��o podem ser instrumentos de muita confus�o. Os corajosos e ousados com muita facilidade caem nos bra�os da arrog�ncia, o mais destruidor dos sentimentos humanos. - E a tarefa dessa hora... - Tem por objetivo levar-lhes a enxergar isso. Destru�rem as miragens de grandeza. Largarem os tronos de orgulho. Vis�o de futuro, id�ias novas, tarefas arrojadas e bagagem doutrin�ria s�o valores essenciais, mas n�o qualificam ningu�m, por si s�, � condi��o de maioridade, caso tais valores n�o sejam aplicados, primeiramente, a si mesmos. "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrar� no reino dos c�us, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que est� nos c�us". - O nosso "senhor, senhor!" ainda � sufocado pelos sentimentos de superioridade! - Jos� M�rio, o nosso senhor, senhor ainda est� distante dos verdadeiros sentimentos, convertendo esse chamado ao bem em campo de batalha moral. Arrastamo-nos para subir na ladeira da evolu��o, supondo-nos campe�es de agilidade na arte de escalar. Falta-nos consci�ncia de si mesmo. Cap�tulo 3 Examinando o Orgulho Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar ser� humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar ser� exaltado. Lucas, 14:11 - Dona Modesta como avaliar a rea��o de Calisto ante as pondera��es feitas por Ana durante a festa? Pareceu-me que n�o as recebeu como devia! - Sua an�lise � pertinente, meu amigo. A personalidade de Calisto merece um estudo aprofundado nos meios esp�ritas. Estudar suas particularidades morais significa ampliar nosso raio de compreens�o, acerca de uma das caracter�sticas comportamentais mais destrutivas de nossa causa de amor. - O orgulho? - Um derivado do orgulho. A arrog�ncia. Lembra-se de nossa conversa ontem durante o ch�? Calisto � um trabalhador devotado e esclarecido. Superou lutas �ntimas e externas que poucos se disp�em a vencer. Re�ne qualidades sobre as quais n�s, os esp�ritas, pudemos edificar farta semeadura de b�n��os em favor da doutrina e do pr�ximo. - E mesmo com essas qualidades... - Mesmo com essas qualidades, ainda n�o conseguiu, como a maioria de n�s, suplantar suas express�es morais inferiores. Consideremos a esse respeito que nossa �tica espiritual encontra-se excessivamente viciada, porque, entre n�s, os aprendizes do Espiritismo em ambos os planos de vida, acostumamo-nos avaliar os esfor�os alheios de modo m�ope, distante da verdadeira condi��o em que o Esp�rito se encontra na evolu��o. O fato de atingirmos longos anos de trabalho ou reunir vultosa folha de coopera��o ao ideal esp�rita, n�o � garantia de realiza��o �ntima ou vit�ria definitiva na luta contra as velhas tend�ncias da alma. - A arrog�ncia ent�o deriva do orgulho? - O orgulho � o sentimento de superioridade e a arrog�ncia � uma das manifesta��es mais salientes desse tra�o moral. A personalidade arrogante supervaloriza seu pr�prio eu. Mant�m uma fixa��o enfermi�a nas "vibra��es do ego". O arrogante n�o aceita cr�ticas, quando as aceita procurar maquiar as corre��es que ela indica em sua conduta; despreza o valor alheio e se o reconhece adapta-o aos seus interesses e modo de ver; tiraniza a si mesmo nas malhas da culpa; tem uma convic��o inabal�vel em suas pr�prias cren�as, porque calcadas no perfeccionismo que o martiriza. A arrog�ncia afasta as pessoas. O arrogante comete o disparate de acreditar que pode e at� deve mudar o modo de pensar dos outros. Nesse sentido usa de toda sua ardilosidade. N�o costuma ouvir sen�o as opini�es que vem de encontro ao seu pr�prio ego. Raramente abre-se a pensar nas pondera��es dos outros por nutrir um exagerado sentimento de certeza naquilo que realiza. A personalidade arrogante � auto-suficiente. Alimenta-se de confian�a exacerbada. Quase sempre, tem suas origens nas experi�ncias de sucesso que deve riam insuflar a compet�ncia e arte de promover o ser humano ao crescimento, � habilita��o em novos misteres. Tais ingre dientes morais mascaram a compulsiva sensa��o de grandeza alcan�ando patamares de desrespeito � vida alheia no campo individual ou coletivo, sem que o arrogante o perceba. - Perdoe a indiscri��o, Calisto tem sido muito arrogante junto �s suas atividades? - Para o grupo carnal, nesse momento das viv�ncias do Grupo X, ele se tornou um �nus. - Por que Dona Modesta? � muito f�cil, Jos� M�rio, no nosso est�gio evolutivo, perdermos a condi��o de servidores, oper�rios da causa, e nos autopromovermos a qualifica��es que ainda n�o possu�mos. Julgarmo-nos mais importantes que o ideal. Efeitos do nosso orgulho. Calisto sente-se indispens�vel e n�o acredita na possibilidade de que outros possam fazer o que ele faz com a mesma compet�ncia. � um trabalhador valoroso que corre o risco eminente de atolar-se em severas refregas pelo simples fato de n�o aceitar os alvitres que a pr�pria vida vem lhe apresentando. � um cora��o com grande alcance de vis�o, mas incapaz de submeter sua capacidade de enxergar ao exame alheio. As pessoas que lhe contestam s�o taxadas por obsidiadas. Raramente ouve opini�es diversas. - H� quanto tempo Calisto vem atuando no Grupo X? - Quase duas d�cadas. - Sua conduta seria a causa dos conflitos? - � dif�cil admitir que uma s� pessoa seja a causa isolada dos problemas em qualquer grupo. Os conflitos surgem de um conjunto de situa��es. A personalidade arrogante de Calisto cria um largo tronco de lenha na fogueira que est� preste a ser acesa no Grupo X. Contudo, � preciso franqueza em nossas an�lises para um bom aprendizado Jos� M�rio. Calisto, a despeito de sua coragem e inquestion�vel bagagem espiritual, est� sendo chamado a novas li��es na condu��o de seus potenciais. Manejar o conhecimento e a experi�ncia doutrin�ria como se tem feito com muitas conquistas do homem comum, distante das realidades espirituais, � correr riscos perigosos de se lan�ar no personalismo. Nosso irm�o tem sido infantil em rela��o a sua experi�ncia. Tem agido como cidad�o comum na luta humana que alcan�a seus sonhos e metas e se acomoda na atitude de vangloriar-se de si mesmo, supondo-se mais do que realmente �. Essas caracter�sticas s�o muito salutares para catalisar pessoas, aglutin�-las. � um l�der nato. Aglutinar pessoas, por�m, � muito f�cil. Dif�cil � mant�-las coesas e em harmonia. Com a mesma facilidade que catalisa, Calisto dispersa pessoas. E os que dispersam sempre est�o incorrendo em erro. N�o queira saber, por conta de seu car�ter, quantas pessoas j� passaram pelas tarefas sob sua coordena��o. Entretanto, para ele, todos se afastam por imaturidade e ataques espirituais. A festa continuava bulhenta. Com muitos risos e descontra��o. Como disse Doutor In�cio aos meus ouvidos: - Pronto socorro para desopilar o f�gado. Minha mente estava distante dos ru�dos daquele instante. As li��es de Dona Modesta calaram na minha intimidade profunda. Lembran�as eclodiam em minha tela mental acerca das minhas pr�prias lutas de relacionamento. Apesar de ingressar nas provas de nossos irm�os somente agora, sentia-me sensivelmente respons�vel pelo que lhes ocorria. � como se fizesse parte de tudo o que ali presenciei j� h� muito tempo. O Grupo X era um espelho de minhas pr�prias necessidades e experi�ncias. Ficava clara, a cada instante, a raz�o do convite para cooperar. Meus olhos, novamente, marejaram. Algo soterrado no meu inconsciente viera � tona. Tamanha foi minha emo��o, e seguindo as orienta��es de meus terapeutas, n�o me contive e adotei a espontaneidade. Supliquei a Dona Modesta: - N�o sei como dizer, mas sei que a senhora vai me entender! Por caridade, n�o me afaste dessa tarefa. - Jos� M�rio, aqui ser� sua nova sala de aula!... Logo na manh� seguinte, bem cedo, Calisto telefona para Ana a fim de lhe fazer um pedido. - Ana, bom dia! - Bom dia, Calisto! - Olha, vou direto ao assunto. Estou ligando para lhe pedir, encarecidamente, deixar Antonino fora dessa reuni�o de diretoria. Estive pensando no que falamos ontem na festa. Acredito, realmente, que esteja na hora de conversarmos. A reuni�o � bem-vinda. Entretanto, vamos preservar Antonino. - Vou pensar no assunto, Calisto, e discutir com os companheiros. Talvez possamos fazer dessa forma. Confesso-lhe que a id�ia n�o me agrada. - E voc� est� bem? - Bem?! - � que ficou muito nervosa ontem durante nosso di�logo. - N�o houve di�logo, Calisto. Ali�s, cada dia mais, escasseia em nosso grupo a possibilidade de qualquer conc�rdia. - Mas me responda como est�? - Olha, Calisto! Vou te ser franca mais uma vez! Sequer tenho vontade de falar de meus sentimentos para voc�, considerando que s� se utiliza desse expediente para gerir seus interesses e manipular pessoas. Esteja certo amigo, dessa vez � pra valer. Ou n�s mudamos, ou n�o sei o que vir�. - Voc� tem que abrir seus olhos, Ana. Lembra daquela comunica��o medi�nica alertando sobre o telhado do centro que seria apedrejado? - Lembro sim, Calisto. - Ent�o, fique atenta com essa atitude. - Quer saber?! Estou farta de seus argumentos sobre trevas e alertas medi�nicos. Voc� n�o tem olhar para o que se passa a um palmo de seu cora��o, n�o � mesmo? Voc� n�o existe Calisto. Uma pessoa que n�o sente, n�o existe. Sua mente est� voltada para o exterior. Muito f�cil arrolar problemas com as trevas, mas e n�s como ficamos? - Olha Ana... - ela nem o deixou terminar. - Olha aqui voc�, Calisto. Tenho mais o que fazer! Estou com muitas panelas no fogo! Com licen�a e at� a reuni�o. - Considere meu pedido, Ana. - Se o fizer n�o farei por voc�, esteja certo. Mal se despediram. O clima agoniava. Calisto ao telefone agia com extrema habilidade de c�lculo. Sempre que questionado, era essa sua rea��o. Ao desligar o telefone, estava completamente ensimesmado, como se arquitetasse algo mentalmente. Falava sozinho na sala de sua resid�ncia. Pensava uma maneira de dissuadir a diretoria da reuni�o. Via nisso uma terr�vel armadilha das trevas para levar o grupo ao pior. Mal terminou seus racioc�nios e o telefone tilintou. - Ol�, � Calisto? - Sim, sou eu. - Como vai amig�o? - Antonino? Tudo em paz, amigo? Passou bem de ontem? - Que caldos! Comi at� n�o poder mais! - E ent�o? Ligando t�o cedo assim! - Tive algumas percep��es e queria dividir com voc�. Calisto se apressou em pegar uma agenda para fazer anota��es. Ouvia com aten��o. Por um segundo chegou a relampejar em sua mente a id�ia de que algo novo surgiria para clarear a situa��o. - Pode falar, Antonino. - Tive sonhos horr�veis dos quais n�o me lembro. Havia muita batalha, muita guerra nos sonhos. Agora a pouco, quando acordei, tive uma n�tida sensa��o da presen�a de Dona Modesta. Lembra dela? - Aquela dos livros de In�cio Ferreira? - Sim, � ela mesma. Nunca a havia percebido. - Ela disse algo - manifestou Calisto com certa apreens�o de que algo obtivesse acerca da suas recentes lucubra��es ou mostrou alguma vis�o? - Sim. Ela me disse que os trabalhadores de linha de frente do Grupo X precisam descer dos tronos. - Tronos?! - Tronos do orgulho. Foi assim que ela disse. - Compreendo. E ela citou algum epis�dio? - N�o. Ela n�o me disse mais nada, mas fiquei com um senti mento de que deveria me preparar para uma longa batalha. Est� acontecendo algo na casa, Calisto? - As lutas de sempre Antonino. Tudo contorn�vel. - Ainda bem! E de forma muito humilde e simpl�ria, expressou Antonino. - Fiquei muito comovido com a presen�a dela. Lembrei-me da mensagem de Eur�pedes. Voc� se lembra? Aquela dirigida A diretoria? - Sim, lembro bem! Pena que o grupo esqueceu a mensagem, n�o � Calisto?! Achei-a t�o oportuna a todos n�s! Nos dias seguintes � sua recep��o, tive uma sensa��o que ela teria muitos efeitos no grupo Mas vou me desligar disso, n�o � tarefa minha essa an�lise, n�o �... Ap�s a fala de Antonino, Calisto desconcertou. Ficou l�vido Mudou de assunto e sentiu raiva pelo que vinha ocorrendo. No �ntimo, ele � um homem com nobreza de ideal. Queria preservar exatamente essa pureza que sentia em Antonino. Guardar sua vida mental das tricas e futricas. A vida, por�m, reserva li��es indispens�veis ao crescimento de todos... A pureza de estufa iiAo condiz com o verdadeiro crist�o. Antonino sequer imaginava o que deflagrou a referida mensagem medi�nica. Os aut�nticos disc�pulos do Cristo n�o encontram na imortalidade um adorno cultural com o qual possam tecer digress�es filos�ficas ou louvar os Planos Mais Altos com interc�mbios espor�dicos. Para eles, imortalidade � sentimento que eleva e aperfei�oa, encoraja e liberta. Quem o experimenta, renova-se. Quem sente a imortalidade, dirige-se para o alto em busca da ascen��o moral. Imortalidade � conquista no reino das emo��es nobres. Servi�o de aperfei�oamento atrav�s dos choques da dor. Aquisi��o feita nos entrechoques da realidade. Os m�diuns com Jesus devem conhecer os campos sangrentos das lutas de cada dia, a fim de n�o se tornarem p�tons dos tempos modernos, acomodados em confort�veis tendas de prote��o, enquanto seus irm�os entregam-se ao combate ardoroso. Calisto agia como um profissional competente em diagnosticar a enfermidade, mas totalmente incapaz de aplicar a solu��o mais adequada. Habilidoso no trato com as quest�es do mundo espiritual, e cego para a realidade de seus pr�prios sentimentos. M�ope para sua intimidade. Muito f�cil para almas em nosso est�gio, encontrar as causas dos desentendimentos fora de n�s. Colocar um espelho diante do cora��o, pedir desculpas, propor novos caminhos com base nessas descobertas, assumir o arrependimento pelos nossos atos e decis�es, voltar atr�s nas escolhas mal feitas, propor acordos de paz, tudo isso ainda � muito raro. A percep��o de Antonino dentro da hist�ria foi de uma fidelidade �mpar. Era exatamente a express�o usada por Dona Modesta. Desapegarem-se do trono. Vencerem as posturas psicol�gicas de orgulho que criam as miragens dos personalismos. Sem essa conquista, nossas iniciativas espirituais n�o passam de manifesta��es farisaicas dos l�bios para fora a declamar: senhor, senhor! Cap�tulo 4 Reuni�o de Diretoria Mas n�o sereis v�s assim; antes o maior entre v�s seja como o menor; e quem governa como quem serve. Lucas, 22:26 Odia aprazado da reuni�o chegou. Reuniram-se Ana, Calisto e mais seis componentes da diretoria do Grupo X. Foram tomadas provid�ncias especiais pelas equipes de vigil�ncia no sentido de resguardar a casa de ataques. Comparecemos acompanhando Dona Modesta e Professor C�cero. O clima estava tenso. Calisto chegou a fazer algumas liga��es no intuito de dissuadir alguns membros, o que tornou a situa��o mais melindrosa. Ana tomou conhecimento da iniciativa. Os nervos estavam � flor da pele. Ap�s a ora��o, pontualmente �s vinte horas, fizeram breve leitura evang�lica da obra "Vinha de Luz" e Ana tomou a palavra: - Meus irm�os, vou direta ao assunto. Todos sabem o motivo da reuni�o. O nosso caro Antonino tem recebido algumas comunica��es medi�nicas de Esp�ritos elevados. Queremos discutir o conte�do e a postura da dire��o na pessoa do irm�o Calisto. Tais mensagens, como todos sabem, est�o sendo divulgadas at� para fora do centro, gerando controv�rsias e pol�micas est�reis. Gostar�amos de ler o texto atribu�do a Eur�pedes Barsanulfo e em seguida fazer um pequeno relato sobre a dire��o de Calisto e... - ela estava tr�mula e parou de falar pedindo um copo de �gua. Desculpem, n�o posso negar o quanto essa reuni�o me abalou os nervos. Leiamos o texto: "Amados irm�os, esperan�a em seus dias de aprendizado. O Espiritismo alcan�a a terceira etapa de sua hist�ria na Terra. Adentramos o per�odo da maioridade. O momento da promo��o a novos patamares de a��o. Essa casa aben�oada tem sido convocada aos testemunhos de expans�o desse momento novo. Recai sobre os vossos ombros uma grave responsabilidade. A casa edificada sobre a areia � fr�gil �s intemp�ries. Eis o instante de vos unirdes em esp�rito e verdade, investigando com profundidade a natureza de vossos cora��es. Nisso reside o alicerce seguro para as empreitadas do amor leg�timo. O homem esp�rita admite-se vaidoso e personalista, melindroso e ego�sta. Por�m, somente admitir tais imperfei��es da alma pode ser, t�o somente, movimento cerebral da intelig�ncia iluminada pelo esclarecimento. O momento solicita sentir essas imperfei��es. Dissec�-las perante a consci�ncia atrav�s da no��o l�cida de seus efeitos em nossas vidas. Estar em contato emocional com todas elas, estud�-las, discuti-las em grupos de amor crist�o. Estar informado � a primeira etapa. Ser transformado � a etapa da maioridade. Convertei vossos programas de esclarecimento em ensejos de di�logo honesto sobre as necessidades morais mais profundas da alma. Fortalecei a conviv�ncia atrav�s do autoconhecimento. Olhai para vosso orgulho sem temor. Admita-o, mas tamb�m o sinta. Nosso maior inimigo tem ra�zes emocionais profundas. Mister extirp�-las. O contato educativo com essa doen�a moral vos engrandecer�. Convocamo-nos, pois, a essa consci�ncia das vossas lutas morais no intuito de prepar�-los aos desafios do futuro. Sem bases morais s�lidas, o compromisso que vos aguarda pode sofrer adiamento. Estamos conclamando homens corajosos para a miss�o de asseio da psicosfera terrena. Sem isso n�o teremos clima espiritual para a paz e a regenera��o. Imperioso uma nova ordem de atividades que ensejem orientar, acolher e socorrer as almas perdidas da Casa de Israel atoladas nos p�ntanos da ilus�o e da maldade na erraticidade. Bilh�es de almas comp�em o cintur�o de energia que pesa sobre os ombros da humanidade. Urge estender bra�os fraternais para aplicarmos o unguento do conforto e da liberta��o. Para lidar com os desfiladeiros onde mora a perversidade, imperioso o preparo moral, mas igualmente capacidade de utilizar a for�a mental na ado��o de t�cnitas e m�todos que alarguem nossa inten��o socorrista. Ingenuidade no trato com as esferas inferiores coloca em risco as sementes mais vi�osas de bondade e esperan�a. Enviaremos almas destemidas para vos orientar com li��es indispens�veis ao novo desafio. Na seara, o joio cresce ao lado do trigo. Aprendamos a discernir. Levai essa boa nova, esse chamado, a outros grupos na fileira dos servi�os redentores. Amaivos com mais abundante amor. Eur�pedes Barsanulfo." Ap�s a leitura, Ana retomou sua fala. - Gostaria de dizer que minha preocupa��o n�o � tanto com o texto e sim com os acontecimentos em torno dele. Tem v�rios pontos aqui na mensagem que reputo exclusivamente a problemas de filtragem. N�o acredito que seja Eur�pedes Barsanulfo. Ele n�o falaria assim t�o direto a ningu�m. Quanto mais para lembrar algo que todos j� sabemos. � um texto duvidoso. Como um Esp�rito superior chegaria ao ponto de se intrometer em nossos programas de estudo para fazer sugest�es? Creio que eles t�m muito mais o que fazer. Portanto, para mim � um texto sem sentido. N�o acredito que Eur�pedes em sua grandeza nia se preocupar com nossa humilde casa. O m�dium Antonino, incentivado por Calisto, vem recebendo mensagens de baluartes esp�ritas. Ivone Pereira, Cairbar Schutel, Bezerra e outros tantos. Tenho acompanhado as psicofonias com certa apreens�o. N�o acredito que nossa humilde casa esteja preparada para tanto. E agora tenho a prova escrita neste texto que me d� mais base para discutir. A postura de Calisto para mim tem sido descuidosa. Um preto-velho tem se comunicado constantemente, chegando ao ponto de levantar e andar para abra�ar as pessoas e tocar em seus corpos para fazer tratamentos question�veis. N�o bastasse isso, ainda estala dedos e sugeriu ao grupo a retirada da mesa da reuni�o medi�nica, para deixar os m�diuns mais espont�neos. Atitudes que atentam contra a pureza doutrin�ria. Al�m disso, tenho not�cias que esse texto j� chegou aos irm�os da federativa estadual atrav�s de Calisto. E disso ningu�m sabia. Reservei essa novidade para essa reuni�o para mostrar o quanto � grave. Nosso irm�o Alfredo, presidente da federativa, foi incisivo em manifestar que estamos sendo v�tima de uma obsess�o que tem assolado o movimento esp�rita. M�diuns diversos t�m lan�ado livros com Esp�ritos assinantes de esferas elevadas e propondo mudan�as, um "novo Espiritismo". Eu pergunto: quem Antonino acha que � para receber Esp�ritos superiores? Um homem com fam�lia para cuidar, com pouco estudo, n�o conseguiu deixar a alimenta��o carn�vora e mais a mais, s� vem ao centro duas vezes. Voc�s querem mesmo acreditar que ele possa estar recebendo tais entidades? Esp�rito superior � s� para m�diuns mission�rios. Bom! Esses s�o os meus questionamentos e espero que daqui saiamos com uma medida rigorosa acerca do ocorrido para n�o causar mais tumulto na casa. Havia um sil�ncio tumular na reuni�o. O clima n�o era nada acolhedor. Dona Modesta olhava as pessoas como se penetrasse o �mago de cada um. Havia uma hostilidade vibrat�ria muito inc�moda. Sem pestanejar, Calisto se prontificou a falar. - Jamais supus que o assunto pudesse ser tratado nesse n�vel. Estou surpreso com a atitude de Ana. Ligar para a Federa��o e... - N�o fui eu quem ligou. - Foi sim, porque eu sei que foi e n�o adianta desmentir. - Voc� est�... - Espere a�! Voc� j� falou demais, agora vai me ouvir! Pelo amor de Deus n�o me interrompa! - manifestou Calisto quase aos berros e com determina��o. - Mas... - Sem mas. � a minha vez de falar! - Eu... - e foi cortada abruptamente por Calisto. - Se n�o querem concordar com a mensagem, tudo bem! Agora questionar minha postura... Essa n�o vou admitir! Tenho trinta anos de doutrina gente! N�o comecei ontem. Conhe�o o Livro dos M�diuns com profundidade e vejo em Antonino um m�dium muito ajustado que tamb�m n�o come�ou ontem. Fico surpreso com as coloca��es de Ana. O fato de comer carne n�o impede Esp�rito superior algum de manifestar e... - N�o foi isso que eu disse. Eu queria... Um novo momento de tumulto agravou em muito o ambiente. Ana teve que se levantar para tomar uma �gua e ser acalmada. Tremia, como diz o ditado, como uma vara verde. Quando tudo estava prestes a caminhar, Calisto manifesta: - Olhem aqui, companheiros!... Eu vou ser muito franco com voc�s! Se eu for novamente interrompido e n�o puder concluir minha fala, me levanto e vou embora. N�o acho que esse seja o ambiente de uma casa crist�. Mas Ana, infelizmente, n�o se continha. Estava realmente perturbada emocionalmente. - Pois eu acho que era isso mesmo que voc� deveria fazer, sabe Calisto! - � isso que voc� quer, Ana? Conserte a frase! - Seja transparente, Calisto! N�s sabemos o que voc� quer. - N�o estou entendendo, Ana! - H� quem diga que voc� quer a presid�ncia da casa! - Meu Deus! A reuni�o � para outro assunto, porque isso agora? Eu, presidente? Voc� est� delirando, Ana! - Realmente, Ana - intercedeu um dos companheiros. A reuni�o est� perdendo seu foco. - Por que s� voc� pode expor seu ponto de vista, Ana? - indagou inesperadamente outro diretor. E sem mais nem menos como � t�pico dessas reuni�es, um companheiro de mais idade diz: - Fiz um curso recentemente. Era uma excelente professora. Uma amiga de longa data que nos reencontramos... Ele falou durante dez minutos, pausadamente, sobre a professora deixando a todos mais entediados e, depois, concluiu: - Nesse curso, ela disse que existem as tais rela��es verticais. Talvez seja isso que esteja acontecendo aqui. - N�o creio que seja esse o problema - interfiriu outro diretor, enquanto Calisto mostrava-se muito desanimado -, talvez nossa reuni�o de avalia��o devesse ser mensal, porque ficar reunindo de vez em quando... Outros palpites foram surgindo, provocando maior agastamento. - Quero saber se posso continuar a minha fala senhores? Do contr�rio vou mesmo me retirar. - A palavra � sua, Calisto - respondeu a pr�pria Ana a contragosto e mal-humorada. Calisto falou por quase meia hora expondo argumentos, propondo v�rias mudan�as na casa decorrentes dos "sinais da espiritualidade", truncando falas e, por fim, ap�s mais discuss�es est�reis, o grupo concluiu que deveriam serem analisadas as comunica��es futuras com mais cuidado, arquivando a mensagem do suposto Eur�pedes e suspender quaisquer iniciativas fora dos padr�es de pureza esp�rita. Antonino deveria ser coHnunicado para redobrar a vigil�ncia. Caso surgissem novidades a diretoria se reuniria em car�ter de urg�ncia. Calisto saiu extremamente desgastado da reuni�o. O clima geral era de indisposi��o. Alguns companheiros se cumprimentavam na sa�da procurando outros assuntos para amenizar o lima emocional do recinto. Na sa�da da reuni�o, Ana deu uma carona para C�ntia que tamb�m participou da reuni�o. - Sinceramente, C�ntia, n�o fico mais um dia nesse cargo. Ele � muito arrogante. Viu como truncou minhas falas. � de prop�sito. � um calculista. N�o mostra suas emo��es em nenhum momento. � um pol�tico. Saio muito frustrada, porque acho que ele conseguiu o que queria. Desequilibrar-me perante o grupo e... - Pegar a presid�ncia - atalhou C�ntia. � essa a estrat�gia dele. Mas no final voc� se saiu bem. N�o se preocupe. Ele n�o tem a menor chance. - Voc� acha que n�o? - N�o tenho d�vidas. A decis�o do grupo foi clara. Todos est�o a seu favor, o que voc� pensa fazer agora? - Estou com muita vontade de alertar Antonino para os perigos que vem incorrendo. - Perigos? - Calisto � um vision�rio. Est� colocando coisas na cabe�a de Antonino e o m�dium est� embarcando. - Eu n�o faria isso no seu lugar. Aposto como ele nem desconfia dos acontecimentos. N�o acredito que esteja sendo induzido. Apenas, talvez, mal orientado - amenizou C�ntia. - �! Ele n�o sabe de nada. Pobre coitado! - Deixe como est�. Ele vai ser comunicado. - Ter� um choque. Que pena! Um m�dium excepcional encantado por essas novidades mistificadoras! - Esse � um problema para Calisto administrar! - O que me impressionou � que ele � t�o ardiloso que parecia j� conhecer previamente o que eu levaria � reuni�o. Como podia saber que fui eu que liguei para a Federa��o? Ser� que tem algu�m de l� levando algo para ele, C�ntia? - Ele � muito inteligente. � s� isso - desconsertou C�ntia. - S� sei que estou muito magoada com toda essa hist�ria. N�o tenho sequer dormido. J� n�o chega os problemas da vida, ainda tenho que dar conta desse tipo de coisa. - Vamos mudar de assunto e acalmar um pouco, ok? - Est� bem amiga! Que bom que me faz companhia. E como foram as compras hoje no shopping? A reuni�o de diretoria teve momentos perturbadores que n�o comportariam serem mencionados em uma literatura esp�rita. Adjetivos, crises nervosas e at� palavras vulgares. O ambiente se estra�alhou, dando enorme trabalho �s equipes socorristas que impediram a duras penas a entrada de v�ndalos orientados por advers�rios ferrenhos da agremia��o. O nome do Cristo foi pronunciado somente na ora��o inicial. Pontos de vista, interpreta��es pessoais e interesses. Eis as motiva��es. Impressionado com tudo que vira e ouvira, creio que eu tamb�m me encontrava transtornado. Participei de reu ni�es confusas quando no plano f�sico. J� tinha ouvido falar de reuni�es desrespeitosas. Presenciar tudo aquilo, entretanto, foi como um golpe inesperado. Especialmente vindo de esp�ritos t�o preparados como nossos irm�os. Dona Modesta mantinha-se calada. Introspectiva. Parecia profundamente concentrada. Ficamos somente n�s dois na casa esp�rita. Olhei para ela aguardando alguma considera��o. Mantinha-se quieta. Eu n�o sabia o que dizer. Embaracei-me ao v�-la assim. Pensei em tomar alguma iniciativa, no entanto nada brotava em minha mente. Professor C�cero j� havia deslocado do ambiente fazendo prote��o a Calisto, acompanhado pelos nossos auxiliares. Depois de longos minutos ela expressou: - Os problemas v�o crescer! - A senhora teve alguma percep��o, Dona Modesta? Viu alguma entidade desequilibrada? - Jos� M�rio, vi muitas entidades perturbadoras: nossos pr�prios irm�os encarnados. - E os desencarnados? - Obsess�o controlada, por enquanto... - E como ficar� daqui para diante? - As equipes emergenciais da for�a-tarefa j� se deslocaram nos lares de nossos irm�os. Fazem prote��o especial de hoje em diante em regime de vinte e quatro horas. - A reuni�o foi um fracasso, Dona Modesta? - Foi apenas um efeito do que tem sido as rela��es humanas nesse grupo. O ponto de vista pessoal � uma id�ia que assenhoria o departamento da intelig�ncia determinando cren�as, valores, atitudes e emo��es. Apegados a esse ponto ou pontos de entendimento, raramente permitimos o cora��o fluir com naturalidade. Criamos uma barreira nos sentimentos. Por tr�s de cada argumento aqui expressado escondem-se sentimentos, muitos n�o t�m consci�ncia, outros n�o querem assumi-los. assim, nasce a hipocrisia. Uma infidelidade ao que realmente se passa na alma. A aus�ncia de consci�ncia sobre o piso mental que antecede as atitudes humanas responde por altera��es inesperadas e desagrad�veis nas amizades. Desconhecer nossas necessidades profundas, ignorar as inten��es que nos impelem � exist�ncia, n�o saber o que realmente queremos, essas caracter�sticas �ntimas do ser s�o capazes de criar um campo para decep��o e conflito na conviv�ncia. -Se estivesse encarnado nesse instante, Dona Modesta, s� teria uma frase para exprimir o que sinto: um aut�ntico "n� na garganta"! A hIpocrisia para n�s que buscamos a aplica��o do Evangelho merece uma an�lise especifica. N�o queremos mais, deliberadamente, enganar, falsear. Contudo, colhemos o fruto amargo da sementeira inconseq�ente em s�culos de mentiras e fingimento. Representamos sentimentos com interesses par ticularistas. Hoje, temos desejos e inten��es l�mpidas e contra nossos novos prop�sitos elevados est�o os reflexos afetivos de outrora. Sentimos o que n�o quer�amos. Pensamos o que n�o gostar�amos. Somos enganados pelas pr�prias m�scaras com as quais nos travestimos na caminhada secular. Fingimos sem o querer. Desejamos ser n�s mesmos, mas nos envergonhamos do que se passa na vida interior. Um contraste. - Dona Modesta, passou algo pela minha mente. A hipocrisia significa n�o assumir o que se passa na vida �ntima. Adotar m�scaras para esconder o que somos ou sentimos. Por qual motivo agimos assim? Existe algum sentimento que fundamente a atitude de hipocrisia? - Boa pergunta, Jos� M�rio. A hipocrisia � fundamentada no interesse pessoal. J� pensou o que aconteceria a um ad�ltero que, simplesmente, chegasse aos seus familiares e comunicasse com toda naturalidade o ato de infidelidade? - Ele pagaria pelo erro. - E deixaria de ter seus interesses atendidos. - A hipocrisia existe porque atende aos nossos interesses? Deduzi corretamente? - Quase! - N�o s� por causa de interesses, mas pela vergonha em assumir o que somos e pelo medo em responder pela mudan�a ou pelos resultados do que escondemos. - Mudan�a? - Ao pararmos de fingir para n�s, percebemos que teremos que fazer mudan�as na conduta, nos h�bitos, nos sentimentos. N�o assumir para n�s mesmos a nossa realidade, protege-nos de algo que, certamente, nos exigir� profundas modifica��es. Sendo assim, prefer�vel n�o ver o que precisamos enxergar. - N�o quero fazer julgamentos. Se minha pergunta for impr�pria, por favor, corrija-me. Os irm�os do Grupo X est�o inseridos na hipocrisia? - Mais que pode imaginar. S�o Esp�ritos velhos nas viv�ncias religiosas. L�deres natos e antigos amantes da mensagem do Cristo que, ainda, n�o a conseguiram sentir. S�o pensadores do amor. De fato, sentem �nsia de mudan�a. Suas atitudes, todavia... A duras penas come�am a olharem para si mesmos. Com muita facilidade, iludem-se com seus cabedais. - Cabedais intelectuais? - O amor que sobe para a cabe�a... Os pontos de vista aos quais nos apegamos. Cren�as. - Mais uma vez perdoe-me se vou ser inconveniente. Jamais fiz tais perguntas ou tive preocupa��o em saber mais da vida alheia que da minha. Apenas no intuito de aprender, podemos chamar nossos irm�os de Fariseus? - Fariseus n�o intencionais. - Hip�critas sem desejo de ser. - Hip�critas que acreditam ter motivo para ser o que s�o. Muito bem intencionados e ainda bem iludidos sobre sua realidade �ntima. - Dona Modesta dei um t�pico sorriso de quem se confundiu - tenha piedade da minha ignor�ncia! - Como falei, a hipocrisia � motivada por algum interesse pessoal. Rar�ssimos s�o hip�critas por simples prazer de enganar. - Nesse caso... Que interesses estariam defendendo? - Existem interesses circunstanciais. Entretanto, nossa grande batalha, � contra o reflexo da import�ncia pessoal. Nossa compulsiva necessidade de sermos os mais �teis, os mais... Somos hip�critas por defendermos esse interesse milenar que nos assola a alma com inquietude e uma perturbadora ambi��o. Tomados por esse estado �ntimo adotamos conceitos ilus�rios que nos fazem analisar os esfor�os como contributos essenciais para a Obra do Cristo. N�o fazemos isso por maldade e sim por costume. Nem sempre temos consci�ncia da vol�pia de nosso orgulho, que age como uma sorrateira vertigem no campo dos pensamentos. Nesse caso a motiva��o � a disputa. Disputam, e porque disputam precisam provar algo. � a necessidade de dom�nio, controle, hegemonia da verdade. Nossa evolu��o foi tecida assim; quanto mais no topo, mais nos sentimos melhores. N�o gostamos do anonimato, das tarefas simples e rotineiras. Julgamonos sempre prontos o suficiente para grandes realiza��es, um velho h�bito de Esp�ritos orgulhosos. - Disputam quem � o melhor uns com os outros... - Quando a boa disputa � somente aquela que fazemos conosco. - Entendo. E assim a casa esp�rita se torna um campo de batalha como percebeu Antonino em seus sonhos? - Um campo de batalha e um pasto para a obsess�o. Com a mente tomada pela disputa, a criatividade se esvai, a sintonia � alterada, o ambiente se adensa, o trabalho sofre, os desgastes enfraquecem, a gentileza desaparece, o ideal fenece, a bondade � sufocada, os problemas aumentam e a amizade padece. O brilho alheio fere nossos olhos. - Fere os olhos do cora��o. - A ponto de enceguecer, permitindo que o c�rebro, a intelig�ncia, crie os pontos de vista. - Que luta a minha, Dona Modesta! Estou t�o identificado com tudo isso que, confesso � senhora, me sinto reencarnado nesse grupo. - E est�. - Estou? - S� lhe falta o corpo para que lhe vejam todos os dias. Voc� ver� com que freq��ncia seu nome passar� a ser pronunciado por aqui. - Mesmo que eu n�o diga nada e nem escreva nada, serei... - Ser� sentido. Penetrar�o em seu campo mental tanto quanto voc� penetrou no deles. V�o te rastrear com enorme facilidade. - Rastrear? Interessante! - Voc� n�o havia pensado nisso em seus estudos de mediunidade? - Nunca imaginei! Aprendi que tudo � sintonia e que, sintonia, dependia de vontade e ora��o. - Vai al�m disso, Jos� M�rio. Sintonia � lei universal que independe de fatores conscientes na utiliza��o da vontade. - Santo Deus! A conversa parou por um instante. A benfeitora deixou-me absorver o extenso volume de aprendizado. Parecendo pressentir com clareza minhas necessidades, depois de algum tempo, retomou o tema. - A dificuldade de Ana em assumir o que sente na carne deixa bem claro quanto ainda somos hip�critas, falsos. Infi�is a n�s pr�prios. Protegemo-nos de n�s por saber que n�o daremos conta de olhar o que n�o queremos ver. Ana � voluntariosa, mas n�o reconhece ainda sua intoler�ncia disfar�ada e sua inveja venenosa. Antonino � puro, no entanto, desconhece ainda seus medos e fugas. Calisto � dotado de idealismo superior, todavia n�o tem ainda consci�ncia de suas express�es de arrog�ncia e de sua frieza emocional. Calisto nega a m�goa. Ana a supervaloriza. Para n�s, s�o enfermos em busca de sua recupera��o. Com objetivo de amparar e servir, nossa �nica alternativa � lhes incentivar a assumirem suas qualidades em favor do trabalho, esquecendo os momentos tormentosos. Mensagens de advert�ncias claras em grupos com essas caracter�sticas morais trazem inconvenientes e agravantes. - Por que ent�o Eur�pedes foi t�o claro? - Para que n�s, educadores da alma, n�o sejamos omissos. - Perdoe-me a pergunta, como a senhora agiria se estivesse nessa reuni�o? - Proporia que or�ssemos de joelho e m�os dadas a Jesus, rogando ao Mestre que nos concedesse vis�o ante a cegueira espiritual que nos � peculiar. Vis�o para enxergar a ess�ncia de nossas atitudes. Logo ap�s a prece, encerraria a reuni�o e proporia mais ora��o, sil�ncio e trabalho redobrado. O tempo se encarregaria do restante, caso dispus�ssemos esperar e trabalhar, amar e tolerar. Tive que ser honesto na luta com minha pr�pria hipocrisia: a atividade daquela hora me causou enorme mal-estar. N�o porque a minha sensibilidade seja apurada a tal ponto de ferir-me, mas porque as atitudes de nossos irm�os remexeram meu inconsciente, provocando intensa desordem. Lembran�as, id�ias... � como se uma ferida tivesse sido aberta no cora��o deixando vazar medo, pessimismo e abrindo campo para in�meras for�as inferiores. Tinha a impress�o de estar pesado. Uma sensa��o de n�o querer prosseguir. De ser tudo uma mentira. Encontrava-me na faixa vibrat�ria doentia do des�nimo. O carinho de Dona Modesta n�o me deixou �rf�o. Mesmo tendo tanto a pensar e fazer, deu-me o bra�o e sa�mos juntos do Grupo X, andando como se estiv�ssemos no solo terreno. A medida em que nos afast�vamos do centro esp�rita, recompunha meu estado de �nimo. Em sil�ncio, contemplando a beleza das estrelas, respirando um pouco mais aliviado com o desvelo da benfeitora, caminhamos at� a resid�ncia de Ana, enquanto o Professor C�cero e outros aprendizes se destinaram a amparar Calisto. Em minha mente ecoava a frase inesquec�vel de nossso Mestre que agora tomava outra perspectiva em meus pensamentos: "Mas n�o sereis v�s assim; antes o maior entre v�s seja como o menor; e quem governa como quem serve." Cap�tulo 5 Devassando o Inconsciente Ai de v�s, escribas e fariseus, hip�critas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente est�o cheios de ossos de mortos e de toda a imund�cia. Mateus, 23:27 Ao chegarmos ao lar de Ana, ela fazia os preparativos para o sono. A mente estava completamente absorta nos fatos recentes. Os racioc�nios n�o coadunavam. Vivia momentos de ang�stia ante os conflitos �ntimos. M�dium intuitiva e dirigente questionava suas lutas sem entender as raz�es da dor que, continuadamente, lhe feria o cora��o. Perguntava a si mesma se valia a pena tanta carga emocional na vida. Revia os acontecimentos vivendo intensamente as dores que o fato lhe produziu � sensibilidade. Estava ap�tica, inconformada. Percebia-se em colapso mental eminente. Atendendo ao rogo de almas afins ao seu cora��o, ali presentes em seu lar, Dona Modesta esperava pacientemente que ela se emancipasse naturalmente. T�o logo o rel�gio terreno ultrapassou as vinte e tr�s horas, Ana desvencilhou-se do corpo. Conduzida por seus amigos espirituais, destinamo-nos todos ao Hospital Esperan�a. Em sala apropriada a tal mister, oramos. Ana mantinha-se l�cida em nosso ambiente. Como j� conhecia a interlocutora desencarnada, logo expressou: - Dona Modesta, que alegria estar aqui! - Ana, amiga querida, Deus seja louvado! Como vai o cora��o? - A senhora deve saber. Ando com muitos conflitos sem solu��o que se esticam no tempo. - N�o existem conflitos sem solu��o. - Ah, Dona Modesta! N�o tenho encontrado caminhos e respostas para os meus! - Fale-me. Vamos ao que te amargura - assentadas em poltronas confort�veis, o di�logo se travou com rara lucidez para a encarnada. - Por que tenho medo de viver? Olho algumas pessoas que nem conhecem o Espiritismo e tenho a n�tida sensa��o que adoram viver. S�o felizes a seu modo. Eles, no m�nimo, aparentam prazer de viver! - Isso � uma conquista, minha filha. Viver � uma Lei Natural, muito embora ter alegria de viver, especialmente nesses momentos expiat�rios da Terra, � uma conquista. - Conquista?! Ent�o estou longe dela. No entanto, de minha parte, com todo conhecimento que tenho das quest�es do Esp�rito, encontro-me abatida, sem �nimo, sem vida. Luto, luto, e tenho a impress�o que n�o fa�o reforma �ntima alguma. - Entendo! As pessoas a que se refere travam contato constante com a energia da vida. - Creio que eu ainda n�o consegui esse contato!... Veja a senhora: estou no trabalho ativo da mediunidade. Vigio meus impulsos. Cumpro meu dever no lar e na profiss�o. Tenho esfor�ado para vencer os desgostos com a forma f�sica e a escassez material. Apesar disso, tenho momentos alternados de efusiva alegria e vontade de desistir do trabalho espiritual. Por pouco, recentemente, n�o tombo na cilada afetiva. Creio que estou muito decepcionada com quem sou. Responda-me, Dona Modesta, por que n�o sou feliz? - Fale-me mais sobre seus sentimentos. Continue. - Em determinados momentos sinto-me essencial, quase insubstitu�vel nas tarefas. Alegro-me com as conquistas. Outras vezes tenho a n�tida sensa��o de desagrado que assalta minha Stima, levando-me a sentir uma alma em d�bito perene. Por vezes amo o contexto em que renasci experimentando alegria pelas car�ncias. Outras vezes sou assaltada por severa repugn�ncia, tomando-me de inveja pela vida alheia cheia de prazeres que aos meus olhos parece-me sempre mais rica e preenchedora. Passo ent�o a detestar os irm�os esp�ritas e a destacar-lhes as mazelas como se eu n�o as tivesse. Permane�o semanas nesse Stado para depois... Depois tudo some como por encanto... - Compreendo - externou af�vel a ouvinte. - N�o � o Espiritismo o Consolador? Ent�o por que n�o me consolo em definitivo? Que est� faltando? Estarei deixando de realizar algo essencial? Alterno-me entre lucidez e confus�o mental. Ser� mediunidade? Fiz in�meros tratamentos espirituais. Como a senhora deve saber, cheguei a pensar em recorrer servi�os de magia, j� que n�o tenho coragem de contar sobre linhas ang�stias aos amigos mais pr�ximos na doutrina. Ali�s, nesses momentos, aos meus olhos, eles parecem estar sempre em melhor condi��o que a minha. N�o vejo ningu�m reclamar com sinceridade sobre lutas como as minhas. Que se passa coligo, querida benfeitora?! De que me valeram duas d�cadas de dedica��o aos ensinos da doutrina? At� quando terei que experimentar essas dores interiores t�o desalentadoras?... O di�logo flu�a sem dificuldade quando Dona Modesta prop�s: - Vamos lev�-la �s c�maras de inconsci�ncia. Sua lucidez nos permite tal medida. Colocada em uma maca m�vel, sa�mos juntos com o grupo de experientes servidores em dire��o a enfermaria de almas totalmente inconscientes. Ali estavam in�meros cora��es depois de serem resgatadas em regi�es de dor e loucura na erraticidade. Dona Modesta queria oferecer uma li��o ao cora��o sofrido da trabalhadora esp�rita. - Veja, Ana, o quadro de nossos irm�os! - Vieram do umbral? - indagou assentada na maca. - Vieram de regi�es mais inferiores que o umbral. - Dos abismos e vales? - Exatamente! Foram socorridos em delicadas e perigosas opera��es de salvamento. - Que situa��o penosa, Dona Modesta! Que fazem aqui? - Preparam o regresso ao corpo f�sico. - Todos renascer�o na carne? - Alguns! - Deformados e mutilados como se encontram agora? - Pouco prov�vel! N�o suportariam a prova e optariam pela morte escolhida", ou seja, o suic�dio. Ter�o o m�nimo para suportarem a vida f�sica. - M�nimo?! - Ter�o conhecimento espiritual e muito trabalho na renova��o �ntima face o intenso desejo de melhora que nutrem. - Mas isso lhes bastar� para o �xito? - Que riqueza maior pode existir, minha filha, que ter o mapa para navegar no oceano de incertezas?... - E como se sentir�o por dentro? - Desajustados! - Desajustados?! - Desajuste reencarnat�rio. O corpo e a fam�lia, o trabalho e os relacionamentos ser�o preciosos bisturis nas m�os da vida a lhes rasgar as p�stulas de orgulho e ego�smo. Atrav�s de dolorosos mecanismos da vida emotiva ser�o curados, paulatinamente. - Que mecanismos s�o esses? - S�o movimentos �ntimos da alma quando tem seus interesses pessoais contrariados. O melindre e a revolta, o desgosto e a m�goa, a irrita��o e a contrariedade, entre outras emo��es, Comp�em o quadro de rebeldia das criaturas perante os alvitres da vida, um estado de insatisfa��o cr�nica, uma dolorosa depress�o reeducativa. Inesperadamente, Ana, que se encontrava muito penalizada com a situa��o daquelas almas inconscientes, irrompeu em pranto incontrol�vel. Amparada fraternalmente, foi delicadamente acomodada em um leito. N�o cessavam suas l�grimas guando parou de chorar, come�ou a gritar: - Quero morrer, Dona Modesta! Quero ficar por aqui em definitivo nesse leito! Esses leitos me atraem sobejamente. Se n�o vim de um deles quero estar neles! N�o quero mais voltar ao corpo! Eu detesto minha vida! Detesto-me! Quero morrer! Ajudem-me a largar a mat�ria, pelo amor de Deus! Ai, que dor no meu peito, Dona Modesta, me ajude! Eu vou desfalecer, eu... segurando a m�o da benfeitora com extremado desespero, Ana chorava abundantemente e perdia sua consci�ncia. - Calma, Ana! Vamos ajudar, certamente. Esse o motivo de tua vinda aqui. Ap�s algumas aplica��es terap�uticas calmantes, ela relaxou ! dormiu tamb�m no corpo perispiritual. Uma r�plica de seu orpo espiritual come�ou, lentamente, a exteriorizar-se. Dona Modesta, analisando atentamente o fen�meno, solicitou que ela fosse deslocada para o pavilh�o superior, na sala de interc�mbios. Logo ap�s, se dirigiria para o local, a fim de "incorporar" o corpo mental de Ana. Feito os preparativos, Dona Modesta foi colocada pr�xima ao leito de Ana. Foi convocada junto ao setor dos servi�os noturnos uma especialista acostumada a esses tr�mites. Tratava-se de Isabel de Arag�o. Dona Modesta entrou em transe profundo e vimos claramente o corpo mental de Ana sendo absorvido para o interior da mente da m�dium. O di�logo iniciou-se dos l�bios de Isabel: - Ana! Pode me ouvir? - Eu n�o chamo Ana... - respondeu com certa dificuldade que, lentamente, foi sendo vencida. - Meu nome � Isabel de Arag�o, servidora de Nosso Senhor Jesus Cristo. - Estou aqui para conversarmos. - N�o quero conversa, quero a inconsci�ncia. O quadro era lastim�vel, porque � medida em que a m�dium recebia a jovem em sua organiza��o perispiritica, uma mat�ria gelatinosa de odor indesej�vel era expelida pelo couro cabeludo e escorria lentamente ao longo dos ombros e pesco�o. Os enfermeiros atenciosos limpavam Dona Modesta sem interferir no transe. - Filha, existem muitos Esp�ritos renascendo com uma �nica miss�o: resgatarem em si mesmos a condi��o de Filhos do Criador destinados a felicidade incorrupt�vel. Para esses, a reforma �ntima significa buscar a alegria de viver, �nica e exclusivamente. Isso lhes ser� vitorioso avan�o, ainda que n�o tenham burilado muitas outras tend�ncias nocivas. - Eu queria a inconsci�ncia por algum tempo. N�o ag�ento mais digladiar com minhas tend�ncias. Sou uma mentirosa. Fa�o de conta que melhorei para que os irm�os de ideal me aceitem. - N�o, Ana. Sua reforma � aut�ntica. Voc� n�o faz isso intencionalmente, faz? - N�o. Mas � a mesma coisa. - N�o, querida amiga. N�o � a mesma coisa. Voc� se esfor�a e isso est� te valendo muito. - Por que n�o tenho sossego? - Por n�o ser ainda a hora. Continue e voc� ver�. - Continuar? A vida est� passando e parece que n�o estou na vida. Parece que n�o reencarnei apesar de estar no corpo. - J� era assim antes de voc� partir. Apesar de seus cinq�enta janeiros, j� come�a a sentir o que seja viver, depois de s�culos.na morte ps�quica. N�o sei at� quando resistirei a tanta car�ncia. Preciso da inconsci�ncia ou vou me matar no corpo. - Voc� j� a possuiu. - Quando? - Antes de partir daqui. - Por muito tempo? - Mais de duzentos anos... - Estou me lembrando. Vejo cenas dos vales. � isso? - Sim. Lembre mais - Dona Modesta auxiliou com t�cnicas hipn�ticas. - � bom! N�o sinto nada! Que al�vio! Me livrei de mim mesma... Ah! O sono da inconsci�ncia... Adoro esse estado... - � uma ilus�o, Ana! N�o fomos criados para n�o sentir. - Estou prestes a matar meus ideais. N�o sei at� quando resistirei. Morrer no ideal esp�rita para mim � o mesmo que aniquilar o sentido da vida. O Espiritismo me motiva. Temo pelo que vir� depois... Quero, mas n�o quero... O que voc� deseja, Ana? - Quero meu passado de volta. Sou a Condessa (...) da Fran�a, de Carlos IX. Sou bela e poderosa. Posso controlar o que desejo. Ningu�m pode se opor a mim. Tenho um marido influente e sou c�mplice da Rainha-m�e dos Valois, Catarina de M�dicis. - O novo corpo, minha filha, � a nova identidade que Deus ofereceu para recuperar sua cidadania consciencial. - N�o quero ser Ana, sou a Condessa (...)! - O corpo � a medica��o da natureza para nossos males da alma em busca de transforma��es essenciais, definitivas. - N�o quero mais! Nesse ponto da conversa, a m�dium, acolhendo integralmente o corpo mental de Ana, adotou outra postura t�pica da corte francesa do s�culo XV e passou a expressar-se em franc�s fluente. - Voc� n�o quer paz condessa? - Eu posso comprar a paz. - Engano! S�o passados quatro s�culos da cruenta Noite de S�o Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, e veja teu estado �n timo. Voltar ao corpo � adquirir condi��es para a desilus�o gradativa. Para esquecer aquelas cenas de insanidade � preciso o recome�o. - D�i muito. N�o quero mais. Desisto. Quero descansar dessa luta sem tr�guas. Quero apagar minhas lembran�as... E... Veja esse sangue que sai pela minha cabe�a, � a culpa de minhas faltas... - Ana, agrade�a a Deus por isso. N�o queira saber quanto sangue ainda � derramado em raz�o da insanidade de Carlos IX e Catarina, aqui na vida dos Esp�ritos. Existe um "pal�cio do Louvre astral" para ser dissipado. Temos muito servi�o a fazer para apagar, definitivamente, os ecos daquela noite de atrocidades... - Est�o querendo vingan�a pelos meus atos. Eu os vejo a todo instante. Se n�o os vejo, os sinto aumentando minha ang�stia de viver. Fazem-me sentir enferma, indigna de ser esp�rita, de estar na tarefa. Os meus pr�prios filhos, apesar do amor que os tenho, parecem ser elos de um tempo que cada dia mais me recordo inconscientemente... - N�o s�o inimigos. S�o necessitados. V�timas de outro tempo. - Sou obsidiada, ent�o? � esse meu problema? - Suas obsess�es est�o sob controle da Miseric�rdia Divina para que voc� possa trabalhar e servir. Enquanto sua peregrina��o carnal destinar-se ao campo do trabalho e da devo��o, encontraremos permiss�o para atenuar e mesmo controlar as interfer�ncias dos advers�rios espirituais. Seus obsessores s�o b�ssolas de sinaliza��o para que n�o te esque�as seus compromissos perante a vida. - Eles me tiram a vontade de viver. - Engano, Ana! Nesse passo, voc� � a maior v�tima de si mesma. - Que fazer, bondosa amiga? - Voltar ao corpo com alegria. Viver um dia ap�s o outro em servi�o incans�vel e orar sempre em gratid�o pela ben��o do recome�o. Ser mais tolerante com os amigos de caminhada. S�o benfeitores de sua aprendizagem espiritual. - Mas n�o me sinto bem para fazer isso. - N�o precisa estar bem. Fa�a como tiver condi��es, mas jamais deixe de fazer. - De que vai adiantar? - Dessa forma estar� saindo do remorso improdutivo e atingindo, pouco a pouco, as fibras profundas do cora��o na elabora��o do arrependimento sincero. Agora procure silenciar, pois vamos te preparar para o regresso ao corpo carnal em estado de sono. Leve consigo essa esperan�a de viver dias melhores e com mais paz. Dona Modesta saiu do transe e ainda exsudava sobre sua tez as camadas f�tidas da mat�ria mental de Ana. Os enfermeiros a limpavam com carinho. Isabel entregou Ana adormecida a alguns padioleiros incumbidos de reintegr�-la na mat�ria. Passaram-se aproximadamente duas horas de servi�o. A noite apenas come�ava para aqueles que, fora da mat�ria, aprenderam a viver e a amar a vida. Incans�veis servidores do bem e do amor que abdicam de folgas justas, para implantarem na Terra o maior dos patrim�nios das almas livres: o prazer de viver em paz e feliz. A tarefa estava terminada. Dona Modesta se recompunha na sala de interc�mbios sob assist�ncia especializada. Rapidamente estava de p� e pronta para trabalhar mais. - Vamos, Jos� M�rio, o servi�o nos espera - disse-me com entusiasmo. - A senhora est� bem agora? - E quem disse que fiquei mal? - brincou a servidora. - N�o preciso nem dizer � senhora o quanto a minha cabe�a est� fervilhando de perguntas sobre o atendimento a Ana! Em nenhum momento ela se referiu aos fatos objetivos da reuni�o de diretoria e nem aos acontecimentos no Grupo X. - Esse � o bastidor da vida humana, Jos� M�rio. O lado des conhecido das rela��es humanas. O problema nunca est� do lado de fora, naquilo que parece que �. Ao contr�rio, o lado de fora reflete uma s�rie de dramas ocultos, desconhecidos de seus pr�prios personagens. Essa a raz�o pela qual, quase sempre, sa�mos dos conflitos nas rela��es com a n�tida sensa��o de que excedemos nas exig�ncias e atitudes para com o outro, sendo tomados de arrependimento e vergonha pelas palavras expressadas nos instantes de aspereza e c�lera. A briga, na verdade, � sempre conosco mesmo. Com isso n�o quero dizer que as pessoas de nossa conviv�ncia n�o tenham problemas e mudan�as a fazer. E nem tampouco que n�o existam obst�culos externos a vencer. - Mas qualquer pessoa ao sair do corpo tem esse mesmo procedimento? � como se esquecesse tudo que vivem l� no plano f�sico e se fixassem em si mesmo! - Somente quem est� interessado em se desnudar vive esse processo. Ana est� aflita por respostas �ntimas. J� as busca h� bom tempo. Ao sair do corpo esse processo intensifica. Quem n�o est� procurando se conhecer ao sair do corpo revive os dramas do dia imediato, como se lhes continuasse a sorv�-los fora da mat�ria. - Assim que se explica a hipocrisia? - Isso que voc� presenciou � o exemplo do que seja falsidade n�o intencional em nossa etapa de crescimento espiritual. Ana, em verdade, tem sentimentos ocultos ainda ignorados de si mesma. Ocorre com todos, isto �, deixar de assumir para n�s parcela �ntima de imperfei��es que ainda n�o damos conta de investigar ou ainda n�o sabemos lidar. O desentendimento com Calisto � a periferia de profundos dramas de sua pr�pria alma que nele se projetam. Esse o objetivo divino dos relacionamentos: projetar-nos para fora de n�s pr�prios atrav�s dos dramas, das ocorr�ncias, das viv�ncias de toda esp�cie. Revelamo-nos atrav�s da conviv�ncia. � o resultado da Lei Divina ou Natural, estudada com maestria pelo senhor Allan Kardec na terceira parte do magistral O Livro dos Esp�ritos: Lei de Sociedade. A grande luta humana est� em reconhecer seus verdadeiros sentimentos. Por traz do mal-estar e inc�modos se escondem emo��es que nem imaginamos fazerem parte de nossas exist�ncias. Muitos de n�s, mesmo iluminados pelo conhecimento espirita, temos �dio, impulsos de vingan�a, malqueren�a, m�goas pofundas, inveja compulsiva, raiva contida, desejos lascivos, frustra��es, inten��es perif�ricas inferiores que povoam nossa vida mental e o sistema da afetividade. Ao sairmos do corpo f�sico, o inconsciente se desborda e esse mundo vivo de impress�es da alma, como um vulc�o em erup��o lan�a suas energias para a consci�ncia, requerendo servi�os especializados de nossa parte em favor da sanidade mental. Para aqueles que est�o na tarefa cont�nua de auto-aperfei�oamento conseguimos realizar opera��es amenizadoras que lhes permitam um psiquismo mais leve. Para os que se consomem na ilus�o e no adiamento deliberado de sua renova��o, o resultado inevit�vel dessa erup��o emotiva � o desalinho mental quando de regresso ao corpo. A ang�stia, a depress�o, a tristeza, o cansa�o e a irritabilidade s�o alguns efeitos inevit�veis que surgem, quando a alma envia mensagens emergenciais para as c�lulas f�sicas e s�o bloqueadas em seu curso natural por mecanismos defensivos, vindo a causar tais afli��es. Somente o desejo sincero de se enxergar ante esses imperativos do ser profundo, pode levar a criatura a experimentar asserenamento de seu mundo �ntimo. Evidentemente, para fixar essa serenidade em forma de paz, ser� exigida de todos n�s a mudan�a de atitude a partir daquilo que passamos a examinar na extens�o de nossas necessidades interiores. Que fique claro: hipocrisia � um assunto moral que necessita ser redimensionado. � muito mais uma quest�o de conscientiza��o do que propriamente de escolha intencional, pelo menos entre n�s que, sinceramente, desejamos seguir os ensinos de Jesus. Somos, quase sempre, escravos da mentira que semeamos em covas profundas na vida mental. Sem acesso a esse mundo de emo��es, tend�ncias, impulsos e h�bitos, n�o encontraremos respostas �s nossas frustra��es e tormentas que causam o "vazio" da alma, experimentado por bilh�es de Esp�ritos nos dias de hoje no magnetismo do planeta Terra. - A senhora pode-me explicar por que ela reclamou tanto da vida que leva e nada mencionou sobre as recentes ocorr�ncias no Grupo X? - Esse � o lado de Ana que ningu�m conhece. Uma mulher sofrida. Em luta com severas decep��es. A conviv�ncia por mais intensa e longa n�o nos enseja penetrar nesses meandros da vida mental uns dos outros. Essa estrutura, essencialmente, �ntima, individual, foi tecida em milhares de anos. Ela sofreu dores acerbas depois de uma covarde trai��o conjugal no primeiro casamento da atual exist�ncia. Encontrou conforto na doutrina. Depois passou a nutrir-se com o conhecimento espiritual. Com o tempo, pois j� faz vinte anos decorridos, sob hipnose do orgulho, t�o logo a dor bateu em retirada, ela afastou-se de si mesma, do auto-encontro, e convergiu sua aten��o ao espiritismo por fora em detrimento do Espiritismo na alma, do espiritismo por dentro. Distraiu-se e encantou-se com as seduoras armadilhas do personalismo. Cargos, tempo de doutrina, cultura doutrin�ria e influ�ncia na comunidade passaram a ser mais significativos que sua pr�pria paz. Trope�ou onde a maioria de n�s tem hesitado. Julgou-se mais valorosa que realmente � e veio a agasalhar a ang�stia de viver em raz�o de n�o ouvir mais a voz de seu cora��o, as mensagens profundas de seu pr�prio ser clamando mudan�as inadi�veis na sua caminhada de ispiritualiza��o. - Espiritismo por fora?! - externei com certa d�vida sobre a express�o nova aos meus ouvidos. - � o Espiritismo que vivemos para os outros. As tarefas de amor ao pr�ximo. O Espiritismo de pose, exterior. Deixar le comer carne, n�o freq�entar certos ambientes, utilizar voz mansa, esbanjar conhecimento doutrin�rio e aparentar algo que n�o se �. � o Espiritismo cerebral distante de senti-lo no reino do cora��o. O Espiritismo que movimenta muito para fora nas atividades diversas sem provocar o trabalho aut�ntico na mudan�a interior. "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrar� no reino dos c�us (.. .)." - Mas h� como separar isso, Dona Modesta? - Sinceramente, tenho minhas d�vidas! - Jos� M�rio, com todo respeito que devo � nossa comunidade esp�rita, nela me incluindo, se n�s tiv�ssemos a doutrina no cora��o n�o ter�amos os problemas como do Grupo X. E voc� conhece algum grupo esp�rita que n�o tenha essas lutas e que as tenha superado? Se a doutrina estivesse, legitimamente, em nosso �ntimo, ser�amos pessoas mais felizes e menos acostumadas com a id�ia de sofrer para pagar. Ser�amos mais aut�nticos sem receio de falar de n�s. Nossas casas esp�ritas, al�m de estudos da Doutrina Esp�rita, teriam estudos de si mesmo com grupos abertos e dispostos a se comunicarem com mais transpar�ncia. A hipocrisia seria banida de vez das nossas hostes. Os l�deres esp�ritas seriam mais unidos e o movimento seria forte. - A senhora realmente consegue me inculcar. Demos boas gargalhadas. - O Espiritismo ainda est� para n�s, quase na mesma medida que as velhas religi�es. - Na apar�ncia, meu amigo! Na apar�ncia! J� amamos e queremos mudar. Estamos arrependidos do mal e queremos o bem. O que passa disso � nova ilus�o inspirada em velhas artimanhas morais. - Quer dizer que os desentendimentos dela com Calisto teriam mais haver com suas frustra��es que com a realidade do Grupo X? - Eu diria, Jos� M�rio, que a vida � um reflexo do que somos por dentro. Calisto e o Grupo X t�m suas dificuldades particulares, pertinentes. Mesmo que Ana fosse uma mulher mais bem realizada e resolvida intimamente, haveria de usar de muita habilidade para contornar os naturais lapsos do relacionamento resultantes da soma de individualidades que se encontram ou desencontram, ajustam ou desajustam, conforme seus pendores, valores, necessidades e potenciais. - Terei chances de conhecer um pouco mais da vida di�ria de Ana no intuito de aferir melhor essa verdade que a senhora me trouxe? - Retornaremos ao lar dela logo pela manh�. A conversa esclarecedora foi interrompida por um chamado de Doutor In�cio ao interfone intercedendo pelo Professor C�cero. - Jos� M�rio, retornemos ao ambiente terreno! Temos uma visita urgente. O professor nos espera na resid�ncia de C�ntia. - Mas ele n�o tinha acompanhado Calisto? - Voc� entender� logo. Vamos l�. Cap�tulo 6 V�nculos Afetivos Seja, por�m, o vosso falar: Sim, sim; N�o, n�o; porque o que passa disto � de proced�ncia maligna. Mateus, 5:37 Para mim, uma surpresa daria novas interpreta��es ao conjunto de v�nculos dos irm�os do Grupo X. Rumamos para o lar de C�ntia. Antes de chegarmos, professor C�cero nos colocou a par da situa��o. Encontravam-se Calisto e C�ntia estirados no leito em juras de amor, logo ap�s o con�bio carnal. Apesar do inesperado, olhei para Dona Modesta � porta do quarto de C�ntia e, resBeitosamente, fomos para a sala da resid�ncia. Aguardamos em sil�ncio e ora��o. Ap�s alguns minutos se levantaram, trocaram os trajes e vieram para a sala. Entre carinhos e afagos, manifestou Calisto: - Esse foi meu primeiro instante de sossego nesse dia, sabia? Que dia! - Foi mesmo! Muito complicado! N�o bastasse as lutas materiais, agora tamb�m as temos no centro esp�rita! Olhando para o teto como se algo pensasse para dizer, C�ntia interrogou: - Voc� est� pensando em seguir as recomenda��es da diretoria? - De jeito nenhum! - Ai, ai, ai! Isso vai causar mais aborrecimento Calisto! Que pretende fazer? - Ter uma conversa com Antonino, mas n�o passar na �ntegra as ocorr�ncias. Antonino � muito fr�gil. N�o suportar�. - Entendo! Se for isso que voc� acha melhor, meu amor, siga sua intui��o - expressou C�ntia colocando seu romantismo aci ma do interesse pelo assunto em quest�o. - Se n�o fosse voc�, C�ntia!... Quero lhe agradecer pelas informa��es que tem me passado. - Fa�o isso pelo bem de nossa casa. Creio que Ana n�o tem mais condi��es de dirigir o grupo. Farei tudo para que voc� assuma... - Ana n�o tem vis�o de conjunto. Estamos prestes a integrar um tempo novo no Espiritismo e ela continua com as heran�as retr�gradas dos ex-diretores. - Ela � uma boa pessoa! Bem intencionada. Gosto muito dela. O que me preocupa � se ela souber de nosso romance. Vai entender tudo �s avessas. - Voc� est� tranq�ila com sua consci�ncia? - Claro que estou meu bem! A quest�o �... - Sente-se mal me passando informes? - Apenas gostaria que tudo fosse diferente. - Diferente? - Gostaria que nos entend�ssemos melhor no grupo. - Ana tem sido muito atacada e n�o enxerga. Logo mudaremos isso. - Acredita que ela fique na casa se voc� assumir? - Seria bom para ela, n�o acha? - Sim... Pode ser... Quem sabe?... Tenho muito receio de perder a amizade dela... - expressou C�ntia tomada pela d�vida. - Minha querida, o Evangelho diz em Mateus, cap�tulo dez, vers�culo dezesseis: "sede prudentes como as serpentes e s�mpleces como as pombas." Ana est� debaixo de influ�ncias negativas. H� de se ter muita ast�cia. N�o estamos lidando com entidades inocentes. - Eu sei. Ainda assim... Podia ser tudo t�o diferente, n�o? - Bom! Vou caminhando, pois n�o demora muito e o sol ir� raiar. Depois de despedidas apaixonadas, Calisto saiu para sua casa. N�o me contive e expressei: - Dona Modesta, h� de se ter muito amor no cora��o para presenciar o que vi aqui. Ser� que conseguirei? - V� se acostumando, Jos� M�rio. - Tive vontade de sair, pedir licen�a. Senti-me um penetra. Al�m disso, tive raiva de C�ntia. Muita raiva! Como voc� a interpretou? Como uma traidora. Esse � o jogo da disputa nas rela��es humanas, meu amigo. Cada qual dever� aprender o que quer da conviv�ncia e seguir seu cora��o. Evidentemente, em se tratando de almas ainda n�o educadas no amor, o interesse pessoal sempre prevalecer� embalado pelas autojustificativas. - C�ntia est� enganando a amiga. - Mas n�o sente que est�. - Mas como pode? - Uma quest�o de perspectiva. Individualidade. - N�o d� para aceitar que esteja tranq�ila. Ela est� mentindo para si mesma. N�o creio. Ah! Essa n�o! N�o consigo entender - falei um tanto exaltado. - Acalme-se amigo. Lembre-se de que estamos nos bastidores sutis dos v�nculos humanos. Nesse mundo abstrato e pessoal tudo � poss�vel. Relembre os conceitos de hipocrisia e come�ar� a analisar sob novo enfoque. Pense em seus la�os afetivos e pergunte se, em v�rias ocasi�es, voc� n�o os acolheu mes mo em instantes de atitudes impensadas? N�o temos sempre uma tend�ncia de ser incondicionais com os nossos afetos? N�o existe um protecionismo natural entre nossos familiares? C�ntia apenas quer o bem de todos. Ao manter Calisto informado das id�ias de Ana e outras ocorr�ncias do centro esp�rita, est� imbu�da de nobreza de inten��es. N�o pretende prejudicar ningu�m. - Suas boas inten��es, no entanto, s�o ou n�o positivas para o bem geral? - Essa � outra an�lise. Um grupo � o resultado das caracter�sticas de seus componentes. Tal conjuntura dentro do sistema poder� trazer benef�cios e malef�cios. - Qual seria a postura ideal de C�ntia para fugir da hipocrisia, Dona Modesta? - Ser franca com Ana acerca de sua rela��o com Calisto. - Isso � o que queria saber. Mas se fizesse isso... - Possivelmente perderia a amiga. Certamente os la�os n�o seriam mais os mesmos. Infelizmente nossos sentimentos flutuam ao sabor dos interesses pessoais. - E quanto a Calisto? De alguma forma n�o est� defendendo interesses de nosso Plano? N�o ter� raz�o quando afirma que Ana est� sendo invigilante relativamente aos apelos para esse momento novo do Espiritismo no orbe? - � verdade. Sua postura, por�m, inviabiliza o alcance de sua capacidade de enxergar. Um dos pontos capitais nessa caminhada pela maioridade das id�ias esp�ritas � a mudan�a de postura, a renova��o das atitudes. Calisto tem larga percep��o de conjunto e das necessidades gerais. Sua atitude presun�osa, sua fala estrat�gica e seus sentimentos de hegemonia formam um clima vibrat�rio de desagrega��o. N�o basta influenciar pessoas, ter larga habilidade em ser distributivo e cultivar o constante entusiasmo com as atividades. A lideran�a com Jesus � uma proposta de agrega��o, catalisa��o de valores. Muitos l�deres esp�ritas t�m olhos de �guia para os defeitos alheios. O l�der com Cristo tem olhos de amor para enxergar os potenciais da alma e motiv�-los ao bem maior. Mais que influenciar pessoas, o papel do l�der na Nova Era � agregar pessoas, criar clima fraterno que atraia naturalmente os cora��es para a proposta de trabalho em suas m�os - concluiu Dona Modesta. Ap�s o choque emocional que levei ao ver C�ntia e Calisto enamorados, envolvi-me ainda mais com a hist�ria do Grupo. Tive que disciplinar meus �mpetos para n�o me antipatizar com ambos. Estava cada dia mais afetivamente ligado �s lutas do trio. Em mim, reinava uma tend�ncia a se apiedar de Ana depois do que presenciei. Senti necessidade de avaliar qual era meu pr�prio interesse em toda aquela hist�ria. Por qual raz�o tomamos partido de algu�m? Os resultados infelizes da reuni�o n�o se limitaram aos diretores. Conversas e fuxicos surgiram de todas as partes. Nos dias que seguiram � reuni�o de diretoria, muitos ataques espirituais foram promovidos ao Grupo X. O clima espiritual de todos era delicad�ssimo. Des�nimo de ir ao centro, falta de energia, comturba��es no lar, doen�as... Uma teia vibrat�ria negativa envolvia toda a institui��o. Est�vamos em servi�o ativo h� mais de doze horas. A manh� raiou e regressamos ao lar de Ana. A vibra��o j� n�o era a mesma. Durante a madrugada, conforme informa��es de vigias colocados para amparar sua casa naquela noite, muitos espi�es vassalos de falanges inferiores fizeram rastreamento no local, batendo em retirada e levando informa��es da situa��o geral. Entramos na casa humilde. Ana dava mostras de intenso mau humor logo ao chegar � mesa para o caf�, agredindo o marido. Por que voc� n�o foi tomar o passe ontem? Sabe como � ? N�o! N�o sei como � nada. Voc� n�o toma jeito mesmo! Consegui a consulta m�dica para voc� a duras penas e voc� n�o est� nem a�!. - E o que foi mulher? Levantou obsidiada? - T�, t� bem obsidiada! Cansada de tudo, inclusive de voc� que n�o arreda o p� nem para cuidar de voc�. Calma mulher! Calma! Esp�rita n�o pode perder a calma... - ironizou. - A� � que voc� se engana! Estou farta e cheia de suas fugas. Se voc� n�o se virar vai ver que tipo de esp�rita eu sou. Olha s� que bafo de �lcool o seu! Sua roupa est� fedendo cacha�a. Que coisa triste! - ESSa � minha prova��o, mulher! - Prova��o? Prova��o � a minha ter que ag�entar esse pileque todo santo dia! - Voc� n�o est� pensando em adiar a prova est�? - Vontade n�o me falta! - Que isso, mulher! Logo voc� uma presidente de centro! O que v�o dizer? - Eu estou farta do centro tamb�m, sabia?! � s� problema para todo lado! Aqui em casa os filhos s� pensam neles mesmos. Obriga��es a rodo. N�o posso ter um momento para me cuidar. Olha que jo�a eu t�! Flacidez pra todo lado. Nem ver!... Eu n�o estou ag�entando mais! Estou pedindo para o mundo parar que eu quero descer... Falta tudo nessa casa. � muito carma pra uma pessoa s�. Nem!... Ana deixou o marido na mesa e saiu para arruma��es do lar. Ap�s o desabafo foi tomada por um terr�vel sentimento de culpa. A irrita��o do momento lhe provocou s�bito mal-estar. Nossa equipe presente aprestou-se em ministrar alguns recursos calmantes. Os filhos estavam na escola. O marido saiu sem rumo em busca de trabalho. Ana se desdobrava para fazer o almo�o e organizar o ambiente." � tarde, estava trabalhando em uma escola de profissionaliza��o. Sustentava o lar, j� que o marido desde o desemprego h� dois anos, chafurdava-se na bebida. - Quanta dificuldade, Dona Modesta! - expressei com compaix�o. - Veja que as queixas de Ana durante a noite t�m fundamento. Como j� lhe disse, ela viveu um drama passional tr�gico h� vinte anos atr�s. Consorciou-se pela segunda vez. Com o atual marido cujo nome � Carlos teve seus dois filhos adolescentes, Raul e Sirlene. A segunda uni�o foi recheada de ideais nobres, pois conheceu Carlos no ambiente esp�rita. O tempo, por�m, mudou as perspectivas de ambos. Carlos, ap�s uma decep��o nas atividades medi�nicas no centro em que atuava, desligou-se da doutrina. M�dium com grandes possibilidades caiu na descren�a e est� totalmente abatido ante a f�ria de falanges, que atacam o Grupo X no intuito de enfraquecer a disposi��o de Ana. - Mas ele n�o freq�enta outra casa? - Essa � a estrat�gia preferida dos advers�rios da causa. Atrairem nossos afetos para nos tirar as for�as e o �nimo. Ouvindo a hist�ria de Ana, lembrei-me de minhas pr�prias lutas. Quanto ataque sofria em familiares queridos em fun��o de meus pequenos esfor�os de crescimento espiritual. Pela primeira vez passou-me algo no cora��o e externei a Dona Modesta. - � justo que seja assim? Pela primeira vez Dona Modesta n�o me respondeu uma pergunta. Prop�s que meditasse. Professor C�cero parecia fazer um curso de sil�ncio. Mantinha-se quieto, meditativo. Pensei em perguntar a raz�o de seu sil�ncio. Contive-me. Naquele amanhecer, ap�s algumas medidas salvadoras em favor de todos, regressamos ao Hospital Esperan�a para recompor as for�as. No caminho, meditava na relev�ncia do ensino do cristo: "seja o vosso falar sim, sim; n�o, n�o" narrado em Mateus, cap�tulo cinco, vers�culo trinta e sete. Cap�tulo 7 Estudando a Ang�stia O ladr�o n�o vem sen�o a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abund�ncia. Jo�o, 10:10 Recuperamos nossas energias. Ainda pela manh� dirigime ao gabinete de Doutor In�cio. Ele se preparava para a visita rotineira �s enfermarias do Hospital Esperan�a. Ainda mantinha-se taciturno. Para quem o conhecia, deduzia-se que algo de diferente acontecia. Apesar do �mpeto, cultivei a discri��o e apenas o acompanhei como de costume. Ao chegar perto do posto de enfermagem, fora notificado pela respons�vel: - Doutor, a Cibele est� p�ssima hoje! Ela n�o quer ver ningu�m a n�o ser o senhor. Pode atend�-la? - Olha, minha filha, quem est� precisando de atendimento sou eu - falou irritadi�o o servidor. - Calma, Doutor! O que h�? - Estou tendo p�ssimas recorda��es! - Mas n�o � o senhor mesmo que diz que o trabalho � o melhor rem�dio? - E voc� tinha que me lembrar isso? - O senhor ter� condi��es de ver Cibele nesse estado? - indagou a enfermeira com humildade. - Qual o quadro dela? - Ang�stia progressiva. Fizemos sua transfer�ncia para o servi�o de urg�ncia. H� pren�ncio de crise grave. - � tudo que eu preciso! - ironizou o velho servidor. - N�o entendi, Doutor! - Quando fico nesse estado tenho "del�rios de psiquiatra". Entendeu? - Mais ou menos! - manifestou a colaboradora meio sem jeito. - Em outras palavras, quando estou assim me transformo em m�dico. Isso n�o me agrada nem um pouco. Gosto de ser eu mesmo e pronto! - Mas o senhor nunca deixou de ser m�dico. - Na minha avalia��o nunca fui e nem nunca me senti um m�dico. Estou mais pra enfermo que pra m�dico. Vamos l� antes que minha loucura te contagie tamb�m... Dirigindo-se at� o local: - Cibele! Cibele! Como vai essa mo�a linda? - Nada bem, Doutor! Pra dizer a verdade, acho que morri em todos os sentidos. No corpo, pelo menos, tinha algumas vontades... Aqui nem isso... - Voc�... - quando o m�dico queria iniciar uma fala, foi interrompido pela ansiedade da paciente. - Estou me perguntando, Doutor In�cio: de que me valeu ser amparada e vir para esse Hospital? A caridade que fiz ao pr�ximo trouxe-me como benef�cio o merecimento de ser socorrida, ent�o indago: para que? Estou aqui cercada de boas pessoas, mas me sentindo a pior criatura do universo. N�o seria melhor estar no inferno? - Cibele... - e novamente Doutor In�cio foi cortado pela enferma que n�o o deixava falar. - Tudo aqui parece muito com o mundo f�sico. S� vejo gente falida, doente reclamando. E, mesmo voc�s que conduzem esse lugar, passam a id�ia de serem indiferentes ou talvez acostumados demais com tudo isso. - E como acha que deveria ser? - Imaginava um pouco de sossego �ntimo ap�s a morte. Sofri muito quando encarnada. S� isso. - Qual seu conceito de sossego, Cibele? N�o ter a ang�stia que estou sentindo agora. J� n�o chega a ang�stia de ver os filhos crescerem e das decep��es? A ang�stia de ser m�e, casar, cuidar do lar? A ang�stia de ser esp�rita? E agora... Agora, mais ang�stia! - Minha filha, voc�, porventura, sabe por que sentimos ang�stia? - Nem imagino! Mas deve ser por conta de algo muito ruim. - A ang�stia � o term�metro do ato de existir. - Sem filosofias, Doutor. N�o estou pra isso! Por favor! - N�o � filosofia, Cibele. � fato. Quando n�o estamos em sintonia com a vida, nos angustiamos. Ang�stia � um sentimento da alma que est� clamando. - Clamando pelo que, Doutor In�cio? - Clamando por mudan�a. - Mudan�a?... - Mudan�a de postura �ntima. - Ah n�o! - exclamou em tom de queixa. Como sempre a tal da reforma �ntima! J� n�o ag�ento mais ouvir essa express�o. N�o tem mais nenhum sentido para mim. - Talvez ent�o n�o seja ang�stia o que esteja sentindo... sugeriu o m�dico uberabense. - Como � a ang�stia, Doutor? - Dor no peito, vontade de chorar, afli��o intensa, falta de ar nos pulm�es, sentimentos confusos, uma rigidez ps�quica, ou seja, voc� n�o consegue relaxar. Mal-estar ps�quico. - Ent�o � isso mesmo que tenho! - Eu n�o tenho a menor d�vida - replicou o m�dico. - �s vezes tenho a impress�o que as coisas na Terra eram melhores para mim. Sofria menos que estou sofrendo aqui. S�o passados meses de minha perman�ncia nessa ala e... Nada de melhora! - N�o tenha d�vida disso! Sempre achei horr�vel a id�ia de morrer e largar a vida f�sica. Nunca me encantei com a vis�o espirita de mundo espiritual. Adorava a vida no plano material. - � mesmo, Doutor? - manifestou a paciente com curiosidade. - Deixei muitas coisas na vida f�sica que adorava... Para aplacar minha ang�stia, a Modesta, que me antecedeu no desencarne em mais de vinte anos, arrumou-me um bom emprego nessas plagas... - O senhor deve estar brincando comigo! - N�o foi voc� que agora mesmo disse que parecemos indiferentes nessa casa? - Sim. - N�o � indiferen�a. � dor. Tamb�m carregamos ainda muitas doen�as com as quais nos angustiamos. Nosso rem�dio � lembrar da dor alheia para amenizar a nossa ang�stia de existir. - Doutor, pelo amor de Deus! O senhor me deixa mais pra baixo ainda! Se isso acontece com voc�s, ent�o meu caso n�o tem solu��o! - Todos n�s temos solu��o, minha filha. Todos! - Ent�o por que piorei aqui, Doutor? Seja sincero! - Voc� n�o piorou. Apenas perdeu o capacete de prote��o... O c�rebro, minha filha! O c�rebro! Essa m�quina Divina que o Pai nos confiou. O c�rebro � o aparelho do esquecimento com o qual aplacamos um pouco a miserabilidade da erraticidade. - Miserabilidade! - Sim, minha filha. O homem encarnado, particularmente o esp�rita, reclama da vida no corpo, das guerras, da pobreza, do desemprego, da doen�a... Entretanto, s� faz isso por desconhecer a vastid�o de dor e mis�ria da erraticidade. Aqui sim, se encontra em grau superlativo, tudo aquilo que faz o homem achar sua vida miser�vel e sem sentido na vida corporal. - Doutor! O senhor quer acabar de me matar! Se ocorre isso com rela��o ao lado ruim, as coisas boas tamb�m devem ser, seguindo o mesmo racioc�nio, superlativamente, melhores. - Voc� est� certa. S� tem um por�m. - Por�m? - Quem n�o consegue sentir, enquanto no corpo f�sico, essas coisas boas, n�o as encontram por aqui. H� uma grande ilus�o nesse sentido. Nossos irm�os de ideal esp�rita, com mais gravidade que outros, t�m nutrido uma falsa expectativa nesse sentido. Sofrem, ag�entam a dor, perseveram, todavia, acalentam por dentro uma esperan�a que, nem sempre, se consumar� por m�rito pessoal. - Que esperan�a, Doutor? - De que v�o se livrar de todas as suas dores ao morrerem. Alguns v�o mais longe e padecem de "s�ndrome de al�m-t�mulo". Vivem uma vida miser�vel, sustentada, exclusivamente, pela id�ia de que a morte � sin�nimo de alegria, liberta��o e grandeza espiritual. Sofrem, sofrem, e acham que sofrimento � carta de alforria. Pagar d�bitos, essa a bandeira que muitos adeptos do Espiritismo t�m levantado. - Ou seja - exclamou Cibele -, chegam aqui como eu! � isso que o senhor quer dizer, n�o �? - Voc� se sente nessa condi��o? - Totalmente! - Por qu�? - Acho que sou uma tola, Doutor! - N�o tem cara! - ca�oou o m�dico. - Mas sou. Sou uma tola que passei a vida achando que aquilo que vinha de fora era quita��o. Por dentro, no entanto, estava atormentada. E sorria para parecer bem. - Tem muito esp�rita na vida f�sica desejando, secretamente, morrer para colher seus frutos no al�m. Agem como se a Lei Natural fosse um rel�gio para o futuro. Tudo n�o passa de uma ilus�o da m� educa��o religiosa. Uma vis�o do ju�zo final meio "espiritizada". - Eu desejei morrer, Doutor! Ser� essa a causa da minha ang�stia? - O verdadeiro esp�rita � aquele que aprende a amar a vida, criativamente. E ama a vida, porque aprendeu a atender, perante sua consci�ncia, os clamores da alma. Sabe usar sua criatividade para o bem. Para as coisas boas. A ang�stia � um chamado do esp�rito dizendo que algo n�o vai bem na intimidade. Que ele precisa descobrir algo em rela��o �s experi�ncias que est� vivendo. Nesse clamor encontram-se li��es essenciais para a alma. O descaso ou a incapacidade de entender esses recados da vida profunda geram mal-estar, afli��o ps�quica. Quem aprende pelo cora��o o valor da reencarna��o vai querer frui-la at� o �ltimo hausto. Todos no corpo, especialmente os amigos de doutrina, deveriam cultivar alegria por terem renascido. - Do jeito que o senhor fala, parece que o plano espiritual � um inferno dantesco!... - O plano f�sico, Cibele, apenas retrata, p�lida e imprecisamente, o que existe por aqui. - O senhor me assusta, novamente! - Susto � �timo para ang�stia! � sinal de que a camada espessa da afli��o est� sendo transposta pela seringa da l�gica. Uma inje��o de novos horizontes sobre si e sobre a exist�ncia, eis o melhor rem�dio para a ang�stia. - Ent�o quer dizer que viver aqui est� pior que no mundo f�sico? - Sim. Est� pior para quem j� vivia mal. A mera transposi��o de esferas de vida n�o � uma varinha de cond�o. Chegamos aqui, conforme �ramos na vida f�sica. Se apenas ag�entamos a vida, aportamos aqui com queixas terr�veis. Se nos esfor�armos para viver em busca do melhor, teremos novas oportunidades de continua��o. Todavia, somente o sentimento de gratid�o e o amor fazem dessa transposi��o um al�vio verdadeiro, a alforria desejada pela maioria. Assim livramo-nos da mat�ria e de n�s mesmos... - Ang�stia � estar presa em si? - Sem d�vida. � uma cela psicol�gica. - Como se livrar disso, Doutor? - Parando de se enganar e aprendendo a ouvir a voz do cora��o. Negamos muitos sentimentos na vida f�sica. Inclusive aqueles que constituem diretrizes felizes de vida. Negamos porque n�o sabemos ainda como oferecer um tratamento amoroso a n�s mesmos. Como cuidar de n�s pr�prios. Todavia, o sentimento � um tradutor das Leis Naturais da vida. Por ele, escutamos Deus e quais Planos Ele tem para cada um de n�s. - O senhor tem raz�o! Raramente acreditei naquilo que sentia. Como esp�rita, sempre achei que seria ego�smo seguir meus sentimentos. Cibele parou o olhar no alto do quarto e como se o pensamento divagasse muito longe, buscando o motivo profundo de sua dor, retomou a conversa: - Doutor In�cio, o senhor hoje est� diferente. Formal. Que houve? - Assumi minha personalidade de m�dico. Estou delirando... Cibele expressou n�o ter entendido. - Quando n�o estou bem, fico desse jeito. Viro m�dico. Fico psiquiatra. - Cada um com sua mania! Eu diria: cada louco com sua mania! Mesmo assim o senhor quer continuar a tratar de meus assuntos? - Creio que chegaremos a algum lugar. Vamos tentar, porque, pode ser que assim, eu acabe fazendo algo por mim tamb�m. Na pior das hip�teses, voc� melhora e eu fico com a dor que me pertence, esperando a "Libera��o de Deus". Pode come�ar a falar Cibele - manifestou o m�dico com a sua t�pica disposi��o de enfrentamento. Cap�tulo 8 Casamentos Duradouros Porque do cora��o procedem os maus pensamentos, mortes, adult�rios, prostitui��o, furtos, falsos testemunhos e blasf�mias. Mateus, 15:19 - Considero-me uma vitoriosa, mas n�o me sinto assim... - E Por qu�? - N�o me separei. No casamento fui at� o fim da prova. - Isso n�o � ind�cio de vit�ria. - Por que n�o? - Juntos e feridos, juntos e ressentidos. - Mas tolerei. - Ag�entou. - � diferente? - Muito diferente. - Doutor, se eu seguisse o meu sentimento e largasse o meu marido, eu solucionaria minha ang�stia? - Era esse o seu desejo quando no corpo f�sico? - N�o. Meu desejo era ser feliz com ele. Mas... Ele era um homem dif�cil. -Mais que eu? - Que � isso, Doutor? Se eu tivesse uma pessoa como o senhor n�o teria tantas lutas! - expressou-se com um pouco de humor pela primeira vez no di�logo. - Sua frase � profunda, Cibele. Esse o nosso problema! - Casar com a pessoa errada? - N�o! Idealizar. Idealizar e n�o viver a realidade. Veja o que acabou de dizer: se fosse comigo seria diferente! Voc� s� pode dizer isso em raz�o de imaginar quem sou. Faz um modelo mental do Doutor In�cio e acredita nele. Tivemos alguns poucos contatos e voc� me imagina uma pessoa que n�o lhe daria trabalho. Voc� n�o me conheceu encarnado, minha filha. Poucos dias de conviv�ncia e certamente, desistiria de mim! - Vejo que o senhor voltou a gracejar! - Engano seu, Cibele! Nunca falei t�o s�rio sobre mim. Ali�s, fico assim, somente em momentos de crise como agora. Falar de mim n�o � dos meus gostos prediletos. - Por que idealizamos, Doutor In�cio? - Por n�o aceitarmos a realidade como ela �. Por n�o aceitarmos a n�s mesmos como somos, criamos defesas ps�quicas que nos fazem acreditar ser o que ainda n�o somos. � uma distor��o do pensamento, criando uma realidade mental sobre n�s, na qual acreditamos. Quando idealizamos conosco, fazemos isso com os outros tamb�m. Passamos a construir um castelo de areia com valores fr�geis, superdimensionados, acerca das peculiaridades das pessoas com a quais convivemos. Depois o tempo se encarrega de desfazer a ilus�o e quando a rela��o se mant�m, � alicer�ada em outros falsos valores e ajustes, para manter o compromisso seja no lar, na profiss�o e na vida interpessoal. - O senhor falou a verdade! Somente agora, depois de "morta", come�o a assumir falhas �ntimas que n�o tive a coragem de admiti-las na vida corporal. Contudo, fico pensando que, se eu tomasse as decis�es e seguisse meu cora��o... Ser� que n�o me complicaria ainda mais? - Aceitar n�o significa agir. Aceitar, antes de tudo, � admitir para si algo desagrad�vel, inc�modo, censur�vel. Sem se reprovar, sem desamor, sem julgamento. Aceitar significa se amar, apesar de tudo. Ademais, h� muita gente por aqui que se sente frustrada n�o pelo que fez, mas pelo que deixou de fazer. - Interessante! De minha parte, como esp�rita que sou, acha que algumas id�ias sobre meu casamento seriam obsess�es. Casada, m�e e pensando em largar o lar. - Havia algu�m mais?... - Que � isso, Doutor! N�o sou disso! Entretanto tinha alguns sentimentos... - Fale sobre eles - instigou o m�dico. - N�o os aceitava em hip�tese alguma... Nunca fiz nada conden�vel no casamento e, apesar disso, me sentia infiel, desonesta, quando sentia essas coisas. N�o aceitava! Eu tinha que ser diferente como esp�rita! - Nessa express�o residem os problemas de muitos de n�s. - Qual express�o? - "Eu tinha que..." � a express�o mais caracter�stica da idealiza��o. � o pensamento tentando impor-se ao cora��o, � alma. Express�o t�pica da catequese moralista. O resultado da educa��o religiosa que n�o preparou o homem para ser feliz, consciente, respons�vel. - Mas Doutor! Se eu seguisse meus desejos estaria sendo ego�sta e louca! Como ficaria minha quita��o c�rmica com o marido? N�o � por essa raz�o que somos programados para casar com algu�m? - Nunca ouvi tanta insensatez! Uma salada de fantasias e vertigens doutrin�rias! - Doutor, o senhor n�o est� bem mesmo. Puxa! Como pode dizer isso? Assim piora minha ang�stia e a transforma em raiva. - O que � a ang�stia sen�o uma raiva atrasada? No fundo, � voc� quem est� alterando sua ang�stia, ao tocar naquilo que n�o quis tocar enquanto reencarnada. - N�o querer tocar � uma coisa e achar algu�m para conversar � outra! Tocar com quem, Doutor? As recomenda��es eram s� uma: ag�ente firme, tudo vai passar. A vida passou, eu n�o! - Exatamente! Esse � o ponto! Ficamos inativos esperando algo do lado de fora. A proposta educativa do Espiritismo n�o � passiva. Sofrer e s� sofrer. Resigna��o � a recomenda��o da doutrina. E resigna��o n�o quer dizer: abaixar a cabe�a e su portar. Resigna��o � entender e tomar consci�ncia dos motivos da dor, estabelecendo um clima interior de alegria por estar na prova. Entender seu objetivo em nosso caminho. Somente quem entende as raz�es de sua dor, consegue criatividade bastante para super�-la. - Ai, Doutor! O senhor me deixa cada vez mais com raiva. Tenho a impress�o que era isso que precisava ouvir enquanto no corpo. Por que n�o apareceu algu�m para me dizer isso? - Ser� que voc� ouviria? Acreditaria que precisaria cuidar mais de si e que isso necessariamente n�o significaria largar o lar, o marido? Acreditaria que n�o � ego�smo colocar em pr�tica alguns desejos pessoais? Acreditaria que voc� � a �nica respons�vel por n�o ter estabelecido limites �s dificuldades do consorte? Se algu�m lhe propusesse, por exemplo, a discuss�o de sua rela��o conjugal, o que responderia a essa pessoa? - Que seria imposs�vel. - Por essa raz�o n�o surgiu algu�m para lhe alertar ou, se surgiu, voc� n�o ouviu. - Preferi acreditar que tinha obsessores com meu esposo, ansiosos por nossa queda. Quita��o... - Os obsessores, para lhe dizer a verdade, est�o cansando-se de n�s esp�ritas. Dia desses um deles me disse: n�o vamos mais obsidiar esp�ritas. Vamos perseguir agora outros religiosos. Resolvi lhe perguntar a raz�o e ele afirmou: � que os esp�ritas est�o t�o mal que, quando vamos obsed�-los, n�s ficamos piores... - Doutor, N�o � poss�vel! - expressou a paciente agastada consigo mesma. - Muito f�cil achar as causas por fora. - Tem raz�o. Creio que minha ang�stia venha da�. Nunca olhei suficientemente para dentro. Talvez pudesse colocar alguns limites, tra�ar algumas condutas e viver uma vida melhor, sem abandonar o lar. Fazer uma terapia. Cuidar de mim. - Devemos, por todos os meios, honrar as experi�ncias que enciamos com o melhor de n�s, cultivando sempre o princ�pio de que todos merecemos a felicidade. Pode ser que, mesmo na trajet�ria, ainda tenhamos muita decep��o e tormenta. Entretanto, n�o devemos jamais desistir de assumir conosco mesmo o desafio de cuidar de n�s e sair da passividade, da voluntariedade para sofrer, da permissividade concedida a outrem para nos ferir ou controlar. - Mas e, se agindo assim, viesse a separa��o? - Embora n�o incentive ningu�m a adot�-la, a separa��o pode ser, ocasionalmente, um excelente caminho de crescimento. Separa��o n�o significa adiamento para novos encontros, caso a alma tenha aprendido o que necessitava com as rela��es Bgastantes e intempestivas. Ainda assim poder� solicitar o retorno ao lado daquele de quem tenha se separado por amor e n�o por culpa. Nessa postura transforma o l�tego da dor em caBinho redentor de si mesmo atrav�s do regime de sacrif�cio. - Caso me separasse, como ficaria meu carma? Minha programa��o? Meu aprendizado? O ensino evang�lico n�o diz: n�o separeis o que Deus juntou? - Ficaria dentro da realidade e n�o conforme o idealizado. As Ideias de quitar d�bitos e programa��o reencarnat�ria precisam da luz do bom senso entre os esp�ritas. Ningu�m quita d�bito com o outro e sim com sua consci�ncia. O objetivo da presen�a de alguma tormenta em nossa vida � ensinar e n�o castigar. Aquela criatura dif�cil que surge em nosso caminho � uma li��o essencial para nossa paz e crescimento. Quando assumimos a postura de ficar com algu�m para quitar, distanciamo-nos da finalidade divina da dor. Ningu�m quita nada com ningu�m. A lei � de amar e n�o de pagar. Muitos companheiros inspirados na id�ia do carma permanecem ao lado de algu�m acreditando em resgate de outras vidas, mas mo�do de raiva e m�goa por dentro, cansado, sem respostas e � beira do desequil�brio. Essa lei n�o pertence ao Criador. � pura falta de racioc�nio no c�rebro e aus�ncia de alegria na alma para encontrar as sa�das e viver a vida dentro da realidade. Quanto ao n�o separeis o que Deus juntou, precisamos de muito bom senso e honestidade para discernir qual casamento foi ajuntamento de Deus e qual foi escolha dos homens. Existem casamentos programados e existem casamentos de ocasi�o. Bom chega de palestra! - N�o! - e agarrou o bra�o do m�dico. Por favor, n�o v� agora, Doutor! Ouvindo-o tenho a sensa��o de que algo eterno desperta em meu ser. Estou aliviando minha dor. Fique um pouco mais, eu te suplico! Nunca ouvi o senhor assim... - Assim como? - Parece um fil�sofo de Deus! - Quando deliro fico assim mesmo. - Pois delire sempre pelo amor de Deus! - Doutor... - Cibele teve receios em indagar. - Fale! - instigou Doutor In�cio. - Se eu me separasse, estaria melhor aqui? - Separada ou casada, aqui voc� s� estaria melhor se estivesse em paz com sua consci�ncia. Tem muitos lares com casamentos esfrangalhados, recheados de desrespeito e dor em que o casal acredita estar diante de um resgate c�rmico. Essa cren�a retira da criatura a criatividade para encontrar as solu ��es ou tentativas de extinguir as crises conjugais. Casamento � uma escola de altru�smo e perd�o. As convic��es embasadas em programa��o reencarnat�ria e acerto de contas do passado, em hip�tese alguma, devem inspirar a conduta de passividade e viol�ncia, acomoda��o e abuso. Muitas mulheres esp�ritas est�o apanhando do marido em nome de carma. Com isso sofrem horrores, m�goam-se e em nada auxiliam aos maridos covardes na sua melhora. J� existem homens astutos, vil�es, que usam essa Ideia como amea�a para a esposa n�o larg�-los. Tenho n�useas s� de pensar... - Meu marido nunca me agrediu fisicamente, entretanto, usava realmente as id�ias esp�ritas para me atingir. Como agir quando o casamento chega a est�gios desse porte? - O casamento s� chega a esse ponto porque a maioria dos casais evita duas vacinas essenciais � sa�de da rela��o desde o in�cio da vida a dois: o di�logo e o respeito � individualidade. Deveriam existir essas duas vacinas em c�psulas e uma lei que obrigasse a tom�-las. A cultura do sofrimento estimula a passividade diante da dor. A palavra carma utilizada para explicar essa ocorr�ncia n�o corresponde ao sentido da dor. Temos tam�m o bom carma. A finalidade educativa do sofrimento � levar � introspec��o, a olhar para si e realizar a fascinante descoberta de si pr�pria. - O senhor sai muito dos padr�es esp�ritas, Doutor! - Os padr�es s�o �teis at� o instante que a vida nos convida a assumir nossa singularidade, isto �, a exclusividade daquilo que somos. - Poder� minha ang�stia ter origem na nega��o desse convite? - N�o sou dado a julgamentos, mas � o que percebo! - Meu casamento ter� sido um erro? - Nada � errado ou certo, minha filha, quando nos livramos do perfeccionismo e vivemos a vida como ela �. Tudo � esperan�a e aprendizado quando fazemos o melhor sem desejar ser perfeito. Certo e errado � efeito do orgulho. Quando vivemos na humildade, crescemos sempre sem culpas e sem prepot�ncia. Sucesso e fracasso tomam novas perspectivas. A vida floresce. Vibramos com o Pai na imperman�ncia de tudo e de todos. - O senhor, decididamente, est� delirando - brincou Cibele, esbo�ando um belo sorriso. - Seu casamento foi o que foi. Uma experi�ncia. Cada qual tira de sua viv�ncia o que pode de melhor. Erro s� existe quando nada aprendemos com nossos erros. - N�o somos preparados para casar! - � fato. Mas da� a ficar conjeturando sobre vidas passadas, quita��es de d�bito... Uma rela��o a dois tem por objetivo ensinar a empatia, o altru�smo, a afetividade e a capacidade humana de conviver sempre dentro dos limites que educam e libertam. Todo casamento, para ser espiritualmente coroado de �xito, deve caminhar para a desvincula��o. - Desvincula��o?! - A autonomia ou capacidade de cada um aprender a viver sem o outro, conquanto vivam um para o outro... Desvincular nos relacionamentos significa a independ�ncia da alma. Juntos, por�m sem depend�ncia. Sem apropria��o. Sem posse. O casal que deseja tornar duradoura a sua rela��o aprender� a fazer da vida a dois um ninho acolhedor para ambos sem o ego�smo em fam�lia. Sendo felizes entre si, tomar�o como divisa a felicidade de outrem como alicerce da uni�o. Ser�o t�o ricos de alegria que assumir�o, espontaneamente, o compromisso de dividir com os familiares e os menos felizes seus valorosos momentos de afeto e carinho. Viver�o em regime de gratid�o pelas b�n��os da exist�ncia, buscando multiplicar os tesouros do lar com a sociedade, onde se encontra a extens�o de sua fam�lia. Essa � a uni�o espiritual. O companheirismo, a amizade, regado pelo idealismo do amor. - Ah! Que lindo, Doutor! Como me tocou a sua fala! O senhor se casou? - Sim. - Deve ter sido muito feliz no lar! - Fiquei quitando d�vidas. - Doutor, que tipo de esp�rita � o senhor? - Digamos que sou um esp�rita eu mesmo, ou seja, que amo os princ�pios esp�ritas, acredito neles, mas s� posso conceb�-los como realidade a partir daquilo que sou. Tem muita gente adotando o Espiritismo na cabe�a e se julgando a criatura mais s�bia da Terra. Quando a doutrina estaciona no c�rebro, alimenta a idealiza��o, nasce o perfeccionismo, a doen�a que nos faz acreditar sermos melhores do que realmente somos. O perfeccionismo � uma neurose de desajuste consigo mesmo, e o pior efeito � "rezar ter�o" para os outros, isto �, construir performances sobre como os outros devem viver suas vidas. � a ao��o de um modelo mental falso sobre si. Uma express�o do mecanismo de defesa da idealiza��o. Uma fuga de n�s mesmos. Quando digo que sou um esp�rita eu mesmo, � uma forma de dizer o que sou, nada mais. Algu�m com muito esfor�o para ser melhor. E apesar disso veja, que esp�cie de gente sou. - Meu Deus! O senhor acabou de dar um n� na minha angustia. - �timo! � porque estamos tocando na causa. - Ser� que vivi a vida inteira idealizando, Doutor? Isso � poss�vel? - Perfeitamente poss�vel. - E significa que n�o cresci, n�o evolui? - Em hip�tese alguma o Esp�rito deixa de crescer na vida carnal. Apenas, n�o cresce tanto quanto poderia e, al�m disso, carrega a expia��o volunt�ria da ang�stia, da insatisfa��o cr�nica consigo pr�prio. Deixa de realizar a tarefa mais importante para a qual renascemos na carne: aprender a amar, inclusive a si mesmo. Amar como se �. Aprimorando-se dentro do poss�vel, da realidade. Aprendendo a gostar de si, mesmo n�o sendo o que idealizou ser. - Parece que realmente aumentamos o nosso sofrimento com os conceitos mal interpretados de Espiritismo. - N�o tenha d�vidas! O codificador j� nos chamava a aten��o para isso. "O homem, pois, em grande n�mero de casos, � o causador de seus pr�prios infort�nios; mas, em vez de reconhec�-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a provid�ncia, a m� fortuna, a m� estrela, ao passo que a m� estrela � apenas a sua inc�ria" - Como o senhor acha que posso mudar a minha condi��o? - S� poderemos vencer a idealiza��o banindo de nosso vo cabul�rio as palavras: certo e errado. Por conta desses modelos de viver adquiridos com a educa��o social nascem as frases: "eu tenho que...", "eu preciso de..." "eu devia ter...", "vou ter que...". Reflexos inevit�veis das idealiza��es. Frases constru�das a partir do que pensamos que deve ser a vida. - E quais palavras deveremos usar? - Aquelas que melhor expressem o que sentimos, o que de sejamos, tais como: "eu quero...", "estou sentindo a necessidade de...", "gostaria de...", "eu reconhe�o..." - O senhor acredita que se eu assumisse uma postura mais ativa no casamento poderia, inclusive, ajudar na mudan�a do meu marido? - Esse o grande objetivo das uni�es: educa��o m�tua e n�o sofrimento inalter�vel. - E se ele n�o entendesse a minha postura de colocar limi tes? - Sob a �tica c�rmica voc� estaria se liberando. - Dele inclusive? - Caso fosse essa a decis�o dele, possivelmente sim! - Agora sei a raz�o de minha ang�stia, mas de que me adianta saber? A vida passou, o marido se foi, n�o fiz o que deveria. - Idealizando de novo?! - Idealizando? - Veja o que voc� disse: "n�o fiz o que deveria". Isso � outra idealiza��o. Viva a sua vida de agora. Arrume outro marido, renas�a, recomece, mas antes de fazer isso, aprenda um pouco sobre como viver a exist�ncia de forma plena. Essa semana receberemos a visita do amor�vel instrutor Calderaro que vir� de Planos Maiores ministrar um curso no Hospital Esperan�a, sobre a aquisi��o da sa�de mental. Procure se inscrever, e se desejar, posso apadrinh�-la. - Adoraria! Qual ser� o curso, Doutor? - Escutando Sentimentos, a Atitude de Amar-nos como Meteremos. At� mesmo em nosso plano era not�rio as altera��es de humor, as desaven�as, as intemp�ries das rela��es. O m�dico uberabense parecia ter perdido sua vitalidade naquele dia. Inegavelmente mostrava-se perturbado. Algo, por�m, mais forte que meus �mpetos de curiosidade e desejo de aprender, repreendia me quando pensava em perguntar o que aconteceu. Doutor In�cio exalava uma energia que comunicava autoconsci�ncia, percep��o profunda de suas necessidades. Tinha certeza de que apesar de sua mudan�a de postura, sua alma estava acima da Inclem�ncia das dores �ntimas que o assolavam. Preferi o sil�ncio nessa ocasi�o e aprendi sobejamente. Cap�tulo 9 Chamado Inadi�vel Tendo Jesus partido dali, entrou na sinagoga deles. Achava-se ali um homem que tinha uma das m�os ressequida; e eles, ent�o, com o intuito de acus�-lo, perguntaram a Jesus: � l�cito curar no s�bado? Ao que lhes respondeu: Qual dentre v�s ser� o homem que, tendo uma ovelha, e, num s�bado, esta cair numa cova, n�o far� todo o esfor�o, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha? Logo, � l�cito, nos s�bados, fazer o bem. Ent�o, disse ao homem: Estende a m�o. Estendeu-a, e ela ficou s� como a outra. Mateus, 12:1 a 13 O dia corria repleto de urg�ncias no Hospital Esperan�a. � tarde, Dona Modesta reuniu sua equipe para tra�ar novos planos de socorro aos grupos esp�ritas. Os pedidos eram in�meros. Todos os casos demonstravam a extens�o das necessidades espirituais de dirigentes, trabalhadores e participantes de atividades doutrin�rias. Durante a reuni�o, ficou claro que o Grupo X estava em momentos decisivos. Carecia de uma contribui��o mais ostensiva. Doutor In�cio enviaria uma mensagem atrav�s do m�dium Antonino. Foram discutidos os riscos e �xitos de tal iniciativa. A decis�o final, tomada em clima de harmonia e f�, foi que a omunica��o se daria o mais breve poss�vel. O objetivo era levar revela��es que pudessem ampliar os horizontes. Ser claro acerca das responsabilidades que os aguardava no futuro breve. Como diria os homens, um cheque-mate, na aferi��o com intuito de promov�-los aos caminhos educativos mais vastos. Um chamado inadi�vel. Dois dias passados dessa decis�o, dirigimo-nos � atividade de interc�mbio noturna no Grupo X. Dona Modesta, Doutor In�cio, Professor C�cero Pereira e um grupo de especialistas em mediunidade. Ao chegarmos ao centro esp�rita manifestei: - Dona Modesta, que multid�o � essa? At� Esp�rito armado! Meu Deus! Qual a raz�o? - Olhe para cima, Jos� Mario - quando levantei o olhar vi um forte foco de luz no alto. - Fixe sua mente e procure saber quem est� emitindo-a. Olhei com aten��o e n�o sei se emiti um sentimento de bondade ou se o recebi dessa luz. O certo � que passei a ver um vulto de mulher a certa altura, vestida com trajes portugueses medievais muito bem dispostos e de cores vivas. Ela estava de costas, mas quando a identifiquei visualmente como Isabel de Arag�o, instantaneamente, ela se virou e olhou para mim dizendo: minha ben��o! Senti-me extasiado como nunca. Uma paz invadiu-me de tal forma que me emocionei de pronto. Logo me veio a passagem do Evangelho em epis�dio similar narrada em Mateus, cap�tulo nove, vers�culo vinte e nove: "(.. ) voltou-se para a multid�o, e disse: quem tocou nas minhas vestes?" Inebriado com o ocorrido, fui chamado por Dona Modesta. - Jos� Mario. Jos� Mario! - Sim! Desculpe-me n�o a ouvia. - � natural. A presen�a de Isabel, a Rainha Santa de Portugal, e sua equipe socorrista, foi um pedido de Eur�pedes. Essa noite se reveste de enorme significado para essa casa de amor. Isabel vai nos socorrer para que o interc�mbio espiritual seja uma cascata de luz em favor de todos n�s. Ela � uma das grandes condutoras do processo de regenera��o da Terra junto ao Cristo. Devota extremado amor aos centros esp�ritas nos quais tem encontrado luz para seus tutelados em v�rias nacionalidades de ambas as esferas de vida no planeta. Isabel � a tutora da pobreza humana. Tem sido a ouvinte incondicional dos menos favorecidos pelos recursos materiais. Das favelas brasileiras aos bols�es de pobreza da �sia, a benfeitora tem orientado incont�veis mission�rios do bem. - Pelo visto, n�o tenho mesmo a menor no��o do que vir� a ser essa noite para esse grupo. - O bem merece todo aparato � disposi��o, meu amigo, para se multiplicar em b�n��os. Nossos irm�os no Grupo X adoeceiam. Portanto, carecem ainda mais de desvelo fraternal, medica��o e refazimento. - Surpreendi-me com tamanha assist�ncia! - Nossos irm�os s�o honestos nas suas inten��es, essa qualidade � o ponto de sintonia com a mais transcendente miseric�rdia. Apressemos-nos, pois a reuni�o j� vai come�ar. Feito os preparativos iniciais, t�o logo iniciada a parte pr�tica da atividade, o m�dium Antonino externa a Ana que assessorava a dire��o: - Estou vendo um Esp�rito. Chama-se In�cio Ferreira. Quer se comunicar com voc�, Ana. - In�cio Ferreira? - Sim, � ele mesmo! - Por que ele se reporta a mim, Antonino? O dirigente da reuni�o, nesta noite, � Calisto. - Ele quer conversar com voc�, Ana. Calisto ao ouvir a fala do m�dium, redobrou a aten��o recheando-se de expectativas. Dona Modesta e v�rios servidores Intensificaram medidas de seguran�a que j� se desdobravam durante todo o dia. A dirigente acolheu o comunicante. - Irm�o In�cio, seja bem-vindo ao nosso grupo! - Que haja paz nessa casa! - expressouse Doutor In�cio pelo m�dium, que n�o apresentou dificuldade com a incorpora��o em transe profundo. - � o que mais precisamos irm�o - respondeu Ana. - Eu sei. - Sabe? - Como sei! - Tem acompanhado nossos momentos? - Tenho acompanhado seus conflitos. - Nem tanto meu irm�o. S�o contratempos que v�o passar. Probleminhas do dia-a-dia. - Minha filha, posso ser franco? - Claro, meu irm�o! Sinta-se em casa e seja sincero. - Pois bem! Serei. Um dos mais graves problemas morais da humanidade � a racionaliza��o dos sentimentos. � quando o homem pensa a vida, sem senti-la. Tomados por essa doen�a, muitos aprendizes do Espiritismo est�o vivendo uma vida dupla. N�o discutem suas necessidades no centro. Envergonham-se do que s�o. Fazem pose uns para os outros como se n�o sofressem. No lar ou na vida p�blica, vivem seus dramas. Ao chegarem � casa de Jesus, se dissimulam. Assumem as m�scaras de dirigen te, m�dium, passista, oradores. Esbo�am um sorriso sem carga vibrat�ria. Uma verdadeira ambig�idade de conduta leva-os a adotar duas personalidades, uma no centro, outra na vida de um modo geral. Essa � a hipocrisia t�o combatida por Jesus. Os dramas afetivos s�o escondidos. Dessa forma, o n�cleo esp�rita reflete rela��es superficiais crivada por pap�is e n�o por gente que se relaciona e comunica. Vive-se um prot�tipo de rela��o, um relacionamento formalizado. Se algu�m se situa com seus sentimentos, � mal visto. Logo se fala em vidas passadas e obsess�o. A dificuldade em lidar com nossos sentimentos � algo que, trazido para c�, na vida espiritual, cria efeitos dolorosos. Muitos esp�ritas est�o acentuadamente magoados e infelizes, porque desconsideraram esse mundo inexplorado do cora��o. Chegam por aqui com a mente repleta de teoria e a alma vazia de paz. O comunicante falou por cinco minutos seguidos e parou propositalmente para averiguar a rea��o dos ouvintes. Ana iu continente asseverou: - Sua mensagem � muito oportuna, meu irmaozinho! Ficamos felizes porque temos nossas lutinhas mas vamos aprendendo a super�-las. Afinal quem n�o as tem, n�o � mesmo? - Lutinhas?! - Probleminhas de disc�rdia. Mas v�o passar. - Ana, minha amiga de caminhada, abra seus olhos! Dispa-se das ilus�es! Ponha o p� no ch�o. Pare de racionalizar e tenha coragem de tratar da realidade! Inegavelmente, o Grupo X tem valores consider�veis, todavia, est� � beira de um colapso moral. A fala causou um mal-estar generalizado. Removeu sentimentos soterrados com os quais ningu�m gostaria de mexer, ati�ando as defesas psicol�gicas do grupo em n�vel coletivo. - N�s pedimos ao m�dium que mantenha sua vigil�ncia! A comunica��o est� sofrendo interfer�ncias negativas - orientou Ana. Antonino que se encontrava em transe profundo sofreu um leve abalo que n�o chegou a interromper o fluxo medi�nico. - Por que voc� chama aten��o do m�dium mediante assuntos de tanta urg�ncia acerca das necessidades espirituais desta casa? Se alguma interfer�ncia existe na comunica��o nesse instante, � da vibra��o da equipe ante os raios calorosos da verdade. A prote��o para essa mensagem chegar a voc�s foi cercada por medidas impares. - Meu irm�ozinho... - Irm�ozinho?! Um velho como eu!... Por favor, n�o use subterf�gios. "Meu irm�ozinho?! Ana, pare com essa postura de doutrinadora. Sejamos adultos. Se quer me chamar de irm�o, sejamos fi�is � grandeza dessa palavra. Irm�os se tratam por igual. - Irm�o In�cio, contenha as palavras v�s e vamos buscar a luz da ora��o. -Ana, acorde amiga! Por que minhas palavras te incomodam? Buscar a luz, muitas vezes, implica em trabalhar para enxergar as trevas que carregamos. - Um mentor n�o falaria assim, meu irm�o. - Como um mentor falaria? - A tarefa dos Esp�ritos � nos consolar. - Onde voc� leu isso? - O Livro dos M�diuns. - Diga-me cap�tulo, p�gina e par�grafo. - O irm�o est� passando dos limites! - Voc� foi quem me deu permiss�o para ser sincero. - Mas n�o para ferir. - Ferir? Tratar com clareza as necessidades de que todos possu�mos � ferir? Ser� que voc� percebeu que me incluo em tudo que falo? - Um Esp�rito superior n�o fala dessa forma. - E quem disse a voc� que sou um Esp�rito superior? - O senhor psicografa livros. - Ent�o, para voc�, Esp�rito que psicografa � superior? - Claro que sim. Por que escreveria ent�o? - Eu escrevo, Ana, para acordar. Minhas p�ginas s�o choques de desilus�o. Jamais me considerei um Esp�rito superior. - N�s agradecemos a sua mensagem, meu irm�o, e pedimos que Jesus ilumine seu caminho. E que em uma pr�xima vez... - Ana - interrompeu Doutor In�cio - n�o haver� pr�xima vez! Essa casa est� prestes a ser tomada, sitiada. - Meu irm�o est� muito claro seu embuste. Ainda assim vamos orar em conjunto pedindo a Deus que o aben�oe. N�s, por�m, somos seguidores fi�is de Jesus e n�o vamos cair nessa cilada. Vamos orar meus irm�os - ela conclamou a todo o grupo. Ap�s a prece que Doutor In�cio ouviu em sil�ncio, Ana solicitou que o m�dium fosse retornando ao ambiente, desconcentrando. Para surpresa de todos: - Minha filha, n�o pense que vou arredar p� daqui assim quando voc� mandar. Sou mais persistente que voc� imagina. - Ent�o, meu irm�o, est� assumindo sua personalidade, hcim?! - ironizou Ana. - Jamais omiti minha personalidade, Ana. N�o sou hip�crita a despeito de ser o que sou. - Companheiro n�o me trate como Ana, chame-me de sua irm�. O Espiritismo atinge seu per�odo de maioridade. Os esp�ritas est�o recebendo um chamado nunca antes promovido. � o tempo da atitude. A era da a��o consciente. Bezerra de Menezes, mensageiro direto do Esp�rito Verdade, trouxe a lume um novo ciclo para a comunidade dos esp�ritas. O tempo da Verdade. Muitas mudan�as inevitavelmente ocorrer�o. Essa casa tem valores inestim�veis. O amigo Calisto e outros cora��es nessa casa est�o sens�veis aos novos ideais propostos pelo Mais Alto para esse tempo. Imperioso que haja mudan�a de postura, uma discuss�o sincera e uma ades�o de voc�s aos que j� est�o se sacrificando por esse tempo do Evangelho redivivo. - Agora sim o irm�o trouxe algo �til. - �til, mas n�o menos f�cil - disse o comunicante irritando a dirigente. Calisto ouvindo seu nome pediu um aparte. - Ana, gostaria de me dirigir ao Doutor In�cio. - Creio que n�o ser� conveniente, Calisto, pois nosso tempo est� se extinguindo - sugeriu temerosa. - Se voc�s estiverem dispostos a um novo tempo comecem j�. Desapeguem das velhas regras r�gidas da mediunidade e vamos dialogar por mais quinze minutos - expressou o m�dico com veem�ncia. - N�o, meu irm�ozinho. Aqui temos disciplina. - E autoritarismo tamb�m! - Como? - Se voc� dirige esse grupo em nome do Cristo, esque�a-se da suposta autoridade que julga possuir e pergunte aos demais, se eles me concedem quinze minutos. - Creio que o irm�o n�o entendeu. Sou a presidenta da casa. Essa � minha fun��o. - Sua fun��o � fazer o melhor em favor de todos e n�o decidir o que acha ser certo. - Tenho certeza do que fa�o, meu irm�o. Vai querer questionar tamb�m minha fun��o? - Com toda certeza. Por que n�o pergunta ao seu grupo? Tem medo da resposta deles? - Isso j� passou dos limites! Mas s� para o irm�o ver como somos um grupo coeso, vou lhes dar o direito de decidirem. O que voc�s acham de dar mais quinze minutos a esse irm�o necessitado? - Estou amando a comunica��o, nunca vi nada igual! Sempre achei as comunica��es muito mornas e sem gra�a, por�m essa de agora... - disse uma participante. - Doutor In�cio traz pondera��es que j� venho defendendo nessa casa, gostaria de lhe fazer umas perguntas - atestou Calisto. - Gostaria de ver o que mais o irm�o tem a trazer e se puder quero perguntar - enfatizou outra participante repleta de receios de ser inconveniente. Um a um foram manifestando favoravelmente � continuidade do di�logo. Estavam se sentindo preenchidos com a comunica��o. Ana n�o conseguia esconder sua irrita��o e desconforto. E na tentativa de tomar o controle, indagou na esperan�a de encontrar, em sua concep��o, um voto favor�vel: - E voc�, C�ntia, o que pensa? - Doutor In�cio est� trazendo algo que sinto ser de grande valor, embora n�o tenha como avaliar a import�ncia de estender o hor�rio. - Ent�o voc� � contra? - N�o. Fico com o grupo. - De minha parte como dirigente n�o aceito essa decis�o, se voc�s querem arcar com as conseq��ncias assumam a dire��o, estou fora. N�o quero ouvir mais nada. Pra mim, chega! Ana n�o suportou seu estado �ntimo de desagrado e inconforma��o. Levantou-se da cadeira e, inesperadamente, se retirou em meio � reuni�o. Todos estavam perplexos com o inusitado. O choque vibrat�rio alterou o ambiente. Dona Modesta pessoalmente acolhia Ana com incontido carinho. Aplicava-lhe recursos calmantes e ditava-lhe palavras de lucidez. Em v�o... alterou-se completamente. O trabalho que nos restava era evitar as interfer�ncias mais ostensivas defendendo seu campo mental quanto poss�vel. Ao sair do ambiente do centro esp�rita foi imediatamente protegida pela equipe de Isabel de Arag�o. Uma chusma de entidades se aglomerou em torno dela, tentando saber o que ocorrera dentro da casa. Infelizmente, devido ao estado emocional de descuido e pela l�ngua indisciplinada � que os advers�rios do trabalho esp�rita se inteiram de detalhes que deveriam merecer sil�ncio, a discri��o e a vigil�ncia. O grupo ficou dividido entre a decis�o infeliz da dirigente e o convite l�cido de Doutor In�cio. Calisto trazia um misto de sentimentos. Mesmo assim, com extrema inseguran�a na alma, assumiu a coordena��o. - Amigos, vamos manter a calma. Depois pensamos na atitude de Ana. Doutor In�cio o senhor tem algo a mais a nos dizer? - Quero dizer que, de minha parte, a tarefa est� se cumprindo conforme a programa��o. Preciso ser claro e firme. - Precisamos destas alertivas t�o duras? - Todos precisamos quando estacionamos no devaneio da grandeza espiritual, acomodados no trono ps�quico do orgulho que alimenta a falsidade. Nossa equipe que aqui se encontra foi orientada para tocar trombetas em favor dessa casa. - Quem solicitou essa medida? - Eur�pedes Barsanulfo. - Perdoe-me a pergunta, mas a medida n�o ter� sido forte demais? - Acredito que n�o. E preciso saber se querem que continue. Minhas palavras s�o claras. Meu sentimento, por�m, � de um amigo que voc�s ainda n�o encontraram. - O senhor � muito categ�rico, incisivo. - Fa�o o que me pedem dentro do que posso. - Por que o pr�prio Eur�pedes ou outro enviado dele n�o nos traria a mensagem de forma mais amena? - J� trouxe e n�o foi ouvido. Trouxe e voc�s fizeram umma reuni�o de diretoria para avaliar, discutir e procrastinar. Os benfeitores trouxeram livros inteiros que envelhecem nas prateleiras. Enviaram muito consolo e esclarecimento. Agora � hora de acordar das ilus�es. � aquela hora em que o Cristo nos chamou de ra�a de v�boras. O momento em que Ele entra no templo �ntimo das nossas concep��es e expulsa os vendilh�es da Sua causa. - O senhor chega a nos humilhar. - N�o � esta a minha inten��o. Talvez assim consigam dobrar moralmente o orgulho. A humilha��o � um sintoma de que n�o queremos sair do patamar ilus�rio de grandeza que supomos possuir. - Ser� que estamos t�o mal assim, Doutor In�cio? - Devolvo-lhes a pergunta. - Com toda sinceridade da alma, sentimo-nos no caminho do bem. - E est�o. - Por que ent�o tanta reprimenda? - Por acharem que est�o fazendo mais bem do que realmente /fazem. Del�rio de grandeza. - O senhor estaria falando de orgulho? - indagou Calisto que havia penetrado em plena sintonia de for�as com as necessidades da hora presente. - � a nossa mais grave doen�a. Segundo Bezerra de Menezes: nosso maior inimigo. - J� sabemos que somos orgulhosos. - Mas n�o t�m consci�ncia disso. - Como n�o? - A prova disso est� na atitude; o orgulho � a imperfei��o que menos confessamos a n�s. - Que atitude? - A atitude de julgarem-se bons o suficiente para decidir os destinos da Obra que n�o nos pertence e sim ao Cristo. A atitude de enganarem a si pr�prios como acabou de fazer Ana que chamou de probleminhas e lutinhas as �rduas barreiras que existem em suas rela��es. Barreiras suficientes para que os opositores da Verdade consumem seu objetivo e derrotem os programas de trabalho dessa casa. - Pode nos explicar como isso se processa? - Atrav�s das posturas que adotam no interesse pessoal. N�o onseguiram ainda sobrepor os seus pr�prios desejos e tend�ncias. Acreditam possuir as diretrizes para essa casa e n�o se questionam. Para isso, chegam ao ponto de esconderem a vida pessoal no intuito de exporem os predicados que caracterizam um dirigente esp�rita. Diga-se de passagem, caracterizam por cima e n�o por dentro do cora��o. Uns n�o querem largar as id�ias da presid�ncia. Outros a anseiam supondo ter todas as respostas. Alguns, mais indecisos, alimentam a id�ia de fac��es. Os velhos h�bitos adquiridos nos fracassos milenares ensombrias atitudes humanas, mesmo quando dotados de largo conhecimento espiritual. O processo da conscientiza��o s� ser� poss�vel atrav�s do di�logo honesto sobre os sentimentos que dominam a vida interior. Desnudando as m�scaras da hipocrisia n�o intencional que alimentam as apar�ncias por vergonha de se mostrar como se �. Enquanto n�o arredam p� de suas inten��es de lideran�a, esfacela-se o �nico ponto de liga��o com as for�as de Mais Alto: o gosto de conviver com respeito e afeto. Colocando projetos acima de amizades, a casa est�, conforme conceitua��o evang�lica, alicer�ada na areia, conforme narra tiva de Mateus, cap�tulo sete, vers�culo vinte e seis. - O senhor disse que a casa corre perigo. Existe alguma ar madilha contra n�s. - Muitas! - Podemos saber do que se trata? - N�o s� podem como devem. - Quem s�o nossos advers�rios? O que querem de n�s? Como s�o suas ciladas? - Os �nicos advers�rios dignos de men��o s�o seus pr�prios sentimentos. - Eu quero dizer os advers�rios espirituais. - Esque�am-se deles. Est�o bem cuidados. Ainda estamos no est�gio da obsess�o controlada. Ocupem-se com as armadilhas �ntimas. S�o dessas que estou falando e as �nicas que interessam para um aprendizado seguro. As ciladas do cora��o. - Mas, o pr�prio Allan Kardec, interrogando os Esp�ritos Superiores, foi instru�do na quest�o quatrocentos e cinq�enta e nove de O Livro dos Esp�ritos, que os Esp�ritos nos influenciam a tal ponto que ordinariamente dirigem nossos atos e pensa mentos. - Analisar a codifica��o atrav�s de trechos isolados � redu zir sua magnitude. Allan Kardec s� p�de exarar conclus�es de cunho pessoal depois de receber v�rias confirma��es e complementos que se espalharam no mundo em diversas localidades. Utilizar a codifica��o esp�rita como uma B�blia, usando trechos como se fossem vers�culos citados a exemplo de velhos religiosos, querendo justificar condutas, � um ato de dogmatismo est�ril. - O senhor h� de convir comigo que o trecho � muito claro. - T�o claro quanto a quest�o quatrocentos e sessenta e sete que se comp�em do grupo de quatorze perguntas referentes ao estudo do codificador sobre influ�ncia oculta dos Esp�ritos em nossos pensamentos e atos, no qual se inclui essa indaga��o citada por voc�. - E o que diz a quest�o quatrocentos e sessenta e sete? - Voc� n�o sabe? - N�o me recordo! - Evidentemente... - Por caridade, o senhor poderia explanar? - indagou Calisto em tom de desafio. - Perfeitamente - respondeu Doutor In�cio. A pergunta diz: "pode o homem eximir-se da influ�ncia dos Esp�ritos que procurem arrast�-lo ao mal?" - E a resposta? - ati�ou Calisto. - A resposta � um libelo � responsabilidade. Assim responderam os Tutores da Verdade: "Pode, visto que tais Esp�ritos s� apegam aos que, pelos seus desejos, os chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem." - Uma pergunta n�o nega a outra! - Certamente! - afirmou categ�rica e seguramente o m�dico jerabense. Uma pergunta complementa a outra. - Dessa forma n�o estou errado em afirmar sobre a decisiva influ�ncia sobre a vida de encarnados. Desde que nunca esque�a que tal influ�ncia est� dentro das leis Naturais ou Divinas. O homem, em qualquer est�gio evolutivo, responde por seus atos. Ningu�m sofrer� tal influ�ncia fora da sublime justi�a que estipula a liga��o entre mentes nas esferas da vida atrav�s da equ�nime lei da sintonia e da liberdade de escolher. Isto � s� seremos influenciados a partir da quilo que somos, daquilo que sentimos, daquilo que buscamos. Ningu�m em tempo algum infringir� esse determinismo. Os Esp�ritos s� acessam as mentes reencarnadas atrav�s das senhas dos desejos e pensamentos que s�o as estruturas representativas dos sentimentos humanos. Toda press�o espiritual nasce fora no desejo dos que anseiam nos assediar. Entretanto, o que esta press�o vai desencadear � uma quest�o de responsabilidade pessoal. Toda obsess�o, invariavelmente, come�a a partir da postura �ntima de ades�o aos desatinos que vem de fora. Press�o sofreremos sempre em se tratando da Terra. O que dela vai derivar � conosco. A press�o vem de fora. A obsess�o vem de dentro. - Ent�o se vigiarmos os pensamentos... - Ainda sobram os desejos. Nisso reside o fulcro das rela ��es mentais. Atingimos certo dom�nio sobre os pensamentos e somos ignorantes acerca do que se passa no reino do cora��o. Podemos at� vigiar a forma��o dos pensamentos, entretanto, ainda somos incapazes de investigar as nascentes da emo��o que se encontram em corpos sutis, com intricadas ra�zes no inconsciente. A falta de compreens�o sobre a pot�ncia do sentir responde pelo est�gio da evolu��o espiritual da Terra. � atrav�s desse universo ignorado que se processam as liga��es entre almas. A Terra passa por uma etapa de analfabetismo emocional. Diante disso, sofre um processo milenar de coloniza��o dos sentimentos. Assim como os povos sem instru��o s�o facilmente manipulados, ocorre o mesmo em assuntos da vida sentimental. O piso da energia mental � uma onda neutra que ganha salto qu�ntico e natureza espec�fica a partir do que se processa no sistema afetivo da criatura. Da� a raz�o de afirmar que os Esp�ritos de ordin�rio vos dirigem. O pensamento � o �m� de atra��o que busca na natureza todos os pontos de converg�ncia da qualidade que � impressa nesse im� pelo sentimento. - E como fica a quest�o da a��o das trevas nesse enfoque? - Nas sociedades com as quais estamos lidando, existem aut�nticos laborat�rios de estudo dos sentimentos. Tenho not�cias de que um desses cientistas alquimistas pertencentes ao vale do poder estudou o �tomo f�sico da vaidade. - N�o acredito! Meu Deus! E com que fim? - Criar mol�culas vibracionais que implantadas em chips el�tro-mento-magn�ticos possam alimentar o personalismo e embotar o afeto. Esses chips s�o componentes vitais de microaparelhos de domina��o e explora��o obsessiva que s�o implantados nos corpos astrais. Com essa a��o o sentimento de orgulho encontra um campo ps�quico f�rtil para o que chamamos de fascina��o psicol�gica ou del�rio de grandeza. A mente passa a produzir automaticamente metas grandiosas, vis�es de futuro long�nquo, situando a vida mental no mundo das id�ias em regime de idealiza��o. H� duas formas b�sicas desenvolvidas nesses laborat�rios para provocar o desequil�brio no ecossistema mental: a primeira � reter a criatura nos sentimentos opressivos em rela��o ao passado; a segunda, � criar a fantasia pelo pensamento em rela��o ao futuro. Ningu�m sente o futuro. Sente-se o que passou. O futuro s� pode ser pensado. Entretanto, debaixo da a��o dessas mol�culas vibracionais da vaidade, a criatura faz proje��es afetivas com o futuro, tomando decis�es, muitas vezes, graves e inadequadas, no presente. - Ent�o, mesmo com ora��o e vig�lia sobre o que pensamos, estamos sujeitos � interfer�ncia espiritual? - No est�gio em que nos encontramos o maior desafio � sermos n�s mesmos o maior tempo poss�vel. Tenho refletido e estudado um bocado e chego a pensar que somos ainda uma grande m�nada (unidade org�nica) ligados uns aos outros com diminuta capacidade de desvencilharmo-nos dessa teia mental. Somos o pai, a m�e, a professora, o mito social, o obsessor, a opini�o religiosa... A identidade c�smica, guardada na profundidade de n�s mesmos, ainda adormece como uma crian�a, enquanto as personalidades do ego fazem o desfile de suas loucuras que um dia h�o de entrar em muta��o. Mateus, cap�tulo quinze, vers�culo dezenove, registrou: "Porque do cora��o pro cedem os maus pensamentos, mortes, adult�rios, prostitui��o, furtos, falsos testemunhos e blasf�mias." - Os Esp�ritos tamb�m falaram, na quest�o trezentos e oitenta e oito de O Livro dos Esp�ritos, que "Entre os seres pensantes h� liga��o que ainda n�o conheceis. O magnetismo � o piloto desta ci�ncia, que mais tarde compreendereis melhor" Parece-me que ainda engatinhamos nesses assuntos da for�a mental e magn�tica. - Decerto. Essas palavras dos S�bios Guias abrem perspectivas largas. O que se sabe sobre mediunidade e influ�ncia dos Esp�ritos sobre os atos e pensamentos humanos � muito pouco Mesmo sendo a sintonia uma Lei Soberana, existem situa��es que os pesquisadores e trabalhadores do interc�mbio haver�o de estudar para melhor compreens�o. O cap�tulo da magia e dos recursos tecnol�gicos das organiza��es da maldade inclui um vasto arsenal de casos que, ao serem estudados, quase nos levam a pensar que os desencarnados t�m poder irrestrito de manipula��o. Contudo, tenho feito parte de laborat�rios de investiga��o dessa mat�ria no Hospital Esperan�a e, posso dar meu testemunho, n�o conheci ainda um caso, e nem creio que venha a conhecer, em que a obsess�o ou o v�nculo de almas pela vida mental n�o nas�a primeiramente dos encarnados para os desencarnados. - O senhor pode nos explicar melhor? - N�o. - Por que n�o? - Porque tamb�m obede�o a ordens, diga-se de passagem, a contragosto. Adoraria abrir o verbo. Terei tempo para isso. Obede�o as ordens de quem tem paci�ncia para tolerar minha �ndole. Eur�pedes, a quem me refiro, verdadeiramente, "baixou um decreto", solicitando-nos dirigir aos servidores da mediunidade um apelo inadi�vel. - Podemos saber qual apelo? - � de consenso nos Planos Maiores, que chegou a hora para todos os militantes da seara medi�nica, sejam magos, pitonisas, feiticeiros alquimistas, de hoje e de outras vidas, fazerem um caminho de retorno na sua compulsiva necessidade de investigarem as for�as da vida mental para fora de si mesmos, e iniciarem uma jornada na investiga��o e explora��o das for�as que residem na sua pr�pria intimidade na busca do equil�brio e da lucidez. Os m�diuns e cora��es atra�dos para as for�as ps�quicas de hoje, quase sem exce��es, foram almas que criaram uma fascina��o com as for�as exteriores. A atualidade da evolu��o � uma convoca��o para as descobertas profundas do inconsciente onde residem todas as causas, para os mais complexos mecanismos de go�c�a (trabalhos de magia) e parasitismo, feiti�os e muta��es de energia. Os grupos que desejarem prestar esse tipo de amparo dever�o preparar-se, sobretudo, para saberem identificar as ra�zes dos dramas no campo dos sentimentos de quem venha lhes pedirem socorro e orienta��o. Muito f�cil descobrir e aplicar t�cnicas e produzir fen�menos. O duro mesmo � mudar nossa intimidade. Veja por mim: daria um �timo soldado das trevas com o que aprendi sobre magia eg�pcia aqui na vida espiritual - brincou para relaxar os ouvintes. - Teremos que pensar muito no que o senhor est� falando. - Que pensem! Se desejarem esquecer tudo tamb�m, assumam as conseq��ncias. Embora deteste repeti��es, h� uma n�o consegui abrir m�o. - Qual? - O que importa est� nas palavras de Jesus. Por mais que queiramos na nossa prepot�ncia, passarmos uma imagem de sabedoria e de conhecedores incompar�veis das for�as voltadas para fora, s� seremos poderosos quando tivermos dom�nio sobre esse mundo de for�as ignoradas que est� oculto dentro de n�s mesmos. Essa a maior magia da vida. No Evangelho est�o as t�cnicas mais modernas da magia indefect�vel. - E como fica o chamado de Eur�pedes endere�ado ao nosso grupo atrav�s de Antonino na mensagem psicografada? Ele n�o nos conclama a salvar as almas dos abismos? Para isso n�o ter�amos que tamb�m aprender t�cnicas novas para lidar com a ast�cia? N�o seriam importantes as informa��es sobre o modus operandi das trevas? - Se voc�s cuidarem de voc�s, da educa��o de seus sentimentos, deixe essa parte conosco. - Do que mais precisaremos? - Lucidez e equil�brio para reconhecerem os limites e os excessos. - Por que lucidez e equil�brio? - Vou lhes contar um caso que acompanhamos. Incentivamos recentemente um grupo muito preparado a avan�arem na dire��o de novos procedimentos nesse tipo de atividade, fora das tradi��es das pr�ticas doutrin�rias. Hoje est�o fascinados com o que sabem como se fossem pequenos deuses. Sabem bastante sobre t�cnicas e pouco sobre si mesmos. S�o velhos magos de outrora que reassumiram a compuls�o pela curiosidade, a inquietude pela aquisi��o sistem�tica de t�cnicas da magia que possam aplicar no interc�mbio medi�nico para solu��o de problemas. - Dentro de um centro esp�rita? - Sem tirar, nem por. - N�o � poss�vel! Isso n�o seria perigoso? - Bastante! Que � a magia sen�o aprender a manipular for�as naturais? O mago � um pouco deus. Esse per�odo da maioridade das id�ias esp�ritas tem como cerne a liberta��o de consci�ncias. A t�tulo de abertura para novas metodologias e recursos de educa��o, o referido grupo alimenta mazelas antigas da alma. Mergulham no passado, resgatando a sensa��o de grandeza pela posse de conhecimentos esot�ricos, uma salada m�stica sem o tempero da leg�tima educa��o espiritual, da renova��o e das tend�ncias. - E como est�o hoje? - Tomados pela prepot�ncia a tal ponto que, se pudessem, demitiam Deus por justa causa... S�o magos arrogantes a caminho de muitas lutas. - E como fica o chamado de Eur�pedes nessa circunst�ncia? - Fazemos o que � poss�vel. - Mesmo com tantas t�cnicas o referido grupo auxilia? - Auxiliam por demais. S�o audaciosos. N�o se vergam ao poso dos desafios. Lidam com for�as mal�volas incansavelmente A prepot�ncia � a coragem sem disciplina. Nutrem, acima de tudo, um caloroso desejo de servir ao pr�ximo sem medir esfor�os. - Onde o problema? - Perdem o fruto da paz que merecem em fun��o da arrog�ncia com a qual se comportam. A entrega �ntima banhada na f� n�o pode excluir a qualidade moral. A magia, entendida como capacidade de movimentar for�as naturais, antes de tudo deve constituir-se em prote��o para quem a pratica. Aplicada em regime de orgulho torna-se ponte para a tormenta, uma porta para a agress�o obsessiva. - Qual seria, no caso, a defesa para a situa��o? - A f� acompanhada da serenidade. A entrega seguida do desprendimento em investigar os frutos do trabalho. A coragem de ser �til despida do sutil esp�rito de competi��o. Em outras palavras, a ado��o de um clima permanente do desejo de aprender sem pressa, sem ansiedade de querer dominar o incontrol�vel. Repensar nossas certezas e viver com imperman�ncia, transcendendo a cada dia a experi�ncia de fora em ativa metamorfose por dentro de si pr�prio. - N�o foi colocado peso demais sobre os ombros desse referido grupo, assim como poder� estar ocorrendo no nosso grupo? Confesso minha incapacidade de entender como isso se processa. Quanto mais o senhor fala, mais tenho a sensa��o de desinforma��o. Com tantos anos de doutrina nunca me senti como agora. - � simples. - A maioridade a que estamos sendo convocados se dar�, sobretudo, na intimidade e n�o somente em m�todos ou ca minhos experimentais novos. Precisamos descobrir a raiz �ntima dos desequil�brios, as matrizes da m� inten��o que est�o instaladas nas profundezas do corpo emocional, investigar as for�as desconhecidas da descren�a, do arrependimento e da fragilidade camuflada que ainda nos deprime. Trabalhar pela renova��o interior. Examinar o mal que est� cristalizado em nossa intimidade. Se voltarmos ao passado, ele ter� que ter uma mensagem muito cristalina na educa��o de nossa alma, do contr�rio � adubo m�stico para antigas fantasias religiosas. Obsess�o e passado reencarnat�rio � luz do Evangelho s�o vetores para descobrir como viver melhor o presente e conquistar a liberdade. - O senhor nos indicaria algum livro sobre o assunto? - Vou lhes indicar o melhor livro da humanidade: o Evan gelho. Eis a maior "magia" que nos espera: sermos homens e mulheres mais serenos, mais risonhos, com habilidades para sermos bons companheiros no lar, mais am�veis na conviv�ncia, mais respeitosos com os limites alheios, mais conscientes com as necessidades de crescimento, menos turr�es, menos fofoqueiros, menos brig�es e menos vaidosos. A "melhor feiti�aria" da vida ser� fazermos-nos disc�pulos do Cristo atrav�s do amor uns aos outros. Contra essa atitude de amor ningu�m pode. Conforme escreve Mateus, cap�tulo dez, vers�culo um: "E chamando os seus doze disc�pulos, deu-lhes poder sobre os esp�ritos imundos, para os expulsarem, e para curarem toda a enfermidade e todo o mal." Quando Jesus estabeleceu a Miss�o dos doze chamou-lhes em particular, conferindo-lhes recursos desconhecidos �quele tempo, para se defenderem do mal atrav�s do uso das for�as naturais. Deu-lhes poder. - Se nos entregarmos ao preparo moral... - Vamos orientar seus passos na dire��o de ricas experi�ncias da alma. Dispam-se dos preconceitos e recolham-se ao cammpo da abnega��o, com total despretens�o, da humildade e do comprometimento que lhes custar� sacrif�cio. - Permita-me uma curiosidade, Doutor In�cio, o grupo que o senhor se referiu vai... - Calisto ficou em d�vida sobre qual termo utilizar. - Afundar? Falir? - instigou o velho m�dico uberabense. - N�o queria julgar ningu�m, mas � isso mesmo que queria indagar. - N�o. N�o v�o! Eles n�o receberam um chamado sem previsibilidade. Assim como o Grupo X, agora convocado a esse lempo de maioridade, s�o mensuradas as potencialidades de cada equipe para n�o incorrermos em acidentes morais graves. Em nome do bem n�o podemos ser aleat�rios e ing�nuos. O problema mais s�rio deles � a prepot�ncia com que se conduzem. Trabalhamos para vencerem essa fase. Largarem o trono ps�quico da presun��o, do orgulho. Temos bons motivos para crer que o tempo ser� bom conselheiro e modelador de atitudes dos nossos companheiros, perante esse chamado inadi�vel. Estamos no s�bado da nossa evolu��o. O �ltimo dia da semana. O fechamento de um ciclo na humanidade. Talvez, para n�s, a �ltima chance antes dos libelos expiat�rios. A pergunta de Jesus permanece: "Qual dentre v�s ser� o homem que, tendo uma ovelha, e, num s�bado, esta cair numa cova, n�o far� todo o esfor�o, tirando-a dali?" (Mateus, 12:1 a 3) Cap�tulo 10 Joio ou Trigo? Deixai crescer ambos juntos at� � ceifa; e, por ocasi�o da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro, Mateus, 13:30 Ouvindo a �ltima frase do comunicante, Eduardo, m�dium vibracional, sentiu-se incomodado e externou a queima-roupa: - Doutor In�cio, me desculpe, mas o senhor � muito prepotente tamb�m! - Sou atra�do para onde h� pessoas como eu! - Quer dizer que n�o nega?! - Acha que me traz uma novidade? - N�o pode ser, Calisto! Deve estar havendo algum problema aqui - direcionou a palavra ao dirigente. - Que problema, Eduardo? - indagou Calisto. - Deve estar havendo um problema de filtragem medi�nica de Antonino. - Por que o senhor v� dessa forma? - interveio o pr�prio comunicante. - O senhor tem um nome t�o respeitado no meio esp�rita. Por que falaria dessa forma? Ana deve ter raz�o! � um embusteiro. - No meio esp�rita basta escrever um livro e as pessoas te santificam. Nunca escondi quem sou, meu temperamento nem sempre bem-humorado. S� n�o acreditou quem n�o quis. - E n�o melhorou nada a� no plano espiritual? - questionou Eduardo com um misto de interrogat�rio e curiosidade com a conversa. - Sim, melhorei. - Em qu�? - Troquei a letra "c" pela letra "p. - Como?! - Deixei o cigarro e fiquei com o pigarro. - O senhor fumava? - O suficiente. - E s� melhorou nisso? - Para mim � muito. Achei que nunca fosse deixar esse v�cio. Se � que deixei! Apesar dessa conquista, continuo n�o achando muita gra�a em mim. - E essa sua conduta, seu temperamento, n�o muda? - Nesse assunto a �nica coisa que mudou foi minha compreens�o. Compreendi melhor a necessidade de mudar. Na pr�tica sou quase o mesmo. Talvez reencarne mudo e com um bom enfisema. Quem sabe assim educo minha boca. Talvez renas�a psiquiatra outra vez. Psiquiatra mudo! J� pensou que prova ser� a minha? Analisar os limites alheios e n�o poder dizer tudo que gostaria?! - Por falar em boca, o senhor tem no��o do que comentam sobre seus livros no movimento? - Tenho bons ouvidos. Pelo menos isso me resta. - Ent�o n�o acha que deveria tomar mais cuidado com o que escreve? - Acho. - E por que n�o toma? - Porque n�o disse tudo que estou autorizado a dizer. - Ainda vai escrever outros livros? - Nem comecei! - No mesmo estilo dos que escreveu? - Pior um pouco. - Por que o senhor n�o p�ra de escrever? - Porque voc�s n�o param de ler os meus livros. - Eu n�o leio. - Ent�o por que critica? - Pelo que ouvi dizer. - Acha mesmo que o que disseram tem raz�o? - Certamente. - �timo! Ent�o escreverei mais ainda para terem do que falar. - O senhor prejudica a doutrina. - De que modo? - Enxertando id�ias que a meu ver s�o temer�rias. - Temer�rias para quem? - Ofendem a pureza dos princ�pios. N�o passam na avalia��o do bom senso. - Por que n�o registram uma queixa contra esse crime? Ser� que dizer o que se pensa faz mais mal que viver como tem vivido este grupo? - Nosso grupo vai muito bem. Estranho-me com sua fala descuidada, como se tiv�ssemos graves problemas a resolver. Sua ofensa a Ana durante a reuni�o � desproposital. Uma trabalhadora t�o servil, com tantos atributos morais. Vencendo suas provas com coragem. E sendo tratada pelo senhor como se fosse uma despreparada. Por acaso sabe quanto tempo ela vem se dedicando a esse trabalho? - Quanto voc� conhece da vida interior de Ana? - N�o entramos na vida �ntima uns dos outros Doutor In�cio. Respeitamos os limites individuais e n�o somos como o senhor que chega expondo os defeitos de todos. - Algu�m tem que fazer isso, meu filho, caso n�o queiram fazer parte dos grupos esp�ritas enfermos iludidos por aqui, onde resido. Posso concordar com voc� que ningu�m precisa invadir a intimidade de ningu�m. Nunca me vi como um exemplo de perfei��o. O ideal ser� a constru��o de rela��es francas, sem desrespeito. - Ent�o o senhor admite desrespeito na sua postura? - Minha sinceridade algumas vezes chega a ofender, nunca, por�m, � mentirosa. N�o vos quero mal. Vim para auxiliar. N�o sei fazer de outro modo ainda. De repente, Irene, uma m�dium que se mostrava muito ansiosa com o di�logo, expressou: - Irm�o In�cio, o senhor me parece uma alma que necessita de muita educa��o verbal. - Irm�o In�cio?! Quem lhe disse que necessito deste tratamento? - Meu irm�o... - e foi interrompida pelo m�dico. - Pare com essa formalidade religiosa. Chame-me de In�cio Ferreira, assim me sinto mais perto do que realmente sou. - � um nome transit�rio, meu irm�o! - Para mim, ainda n�o. - Deus tem Suas Leis que ningu�m derroga irm�o! - E eu tenho as minhas posturas que ningu�m pode invadir. - O irm�o est� exagerando! Invade nossa intimidade e n�o podemos invadir a sua?! Quem acha que �? - Um simples m�dico psiquiatra que cuida da locura alheia, tentando tratar da minha pr�pria insanidade. A mulher n�o soube mais o que dizer. A maneira objetiva do m�dico lhe calou. Ent�o Doutor In�cio externou, a queima roupa, ap�s um minuto de sil�ncio: - A senhora tem um filho doente! - Vai querer dar uma de adivinho tamb�m, meu irm�o? - Seu filho queria morrer. - Pare com essas mentiras, meu irm�o, renda-se � luz! - Posso ser franco, mas n�o minto. Por que a senhora n�o investiga? Telefone a seu marido agora e veja se minto. Pe�a a ele para olhar o que est� na terceira gaveta de cima para baixo do arm�rio de seu filho. - Pois muito bem! Agora o senhor me deu um bom motivo para desmascar�-lo. Espere um instante. D�-me licen�a, Calisto, vou ligar � agora! - falou com emp�fia. - Fa�a a liga��o, Irene - concordou Calisto. Todos esfriaram por dentro. O pr�prio Calisto que autorizou a medida ficou tr�mulo, sem saber se seria uma boa id�ia. Eduardo que acabara de questionar o comunicante, pensou "� aqui que vamos desmontar essa farsa". Um clima de tens�o e animosidade se formou. - Raul - falou Irene ao marido pelo celular - voc� me pode fazer um favor? - Pois n�o! Est� ainda na reuni�o? - Sim. Surgiu uma novidade e queria checar a veracidade. D� uma olhada no arm�rio de J�lio na terceira gaveta de cima para baixo e veja se encontra algo diferente. - Ok! - mesmo estranhando o pedido, o marido atendeu prontamente. Foi uma eternidade aguardar a resposta de Raul. Logo ele veio com a not�cia. - Que isso, Irene? Foi voc� quem p�s isso aqui? - O que Raul? O que voc� achou? - Um rev�lver calibre trinta e oito cheio de balas e um bilhete de J�lio. Diz assim: adeus meus pais, eu n�o suporto mais essa vida. - Deus! Meu filho! - exclamou Irene sem controle e perdendo a voz por um momento. Todos estavam est�ticos sem saber o que estava acontecendo. Irene prorrompeu em pranto incontido. O marido chamava-lhe ao telefone celular em v�o. Indagada por Calisto veio a explica��o. - Meu filho passou mal durante o dia. Teve um desmaio s�bito. Est� internado. Raul achou uma arma e um bilhete de despedida onde Doutor In�cio indicou. Pelo visto, ele iria se suicidar. A rea��o do grupo foi de mudez. O marido de Irene atormen tado ao telefone pedia explica��es sem ser ouvido. Pegando o telefone, Calisto o acalmou. Um sentimento novo brotava com rela��o ao m�dico uberabense. Agora tudo convergia para um s� ponto: o que mais diria Doutor In�cio? - Provoquei-lhe o desmaio, Irene - interveio Doutor In� cio. Hoje cedo, recebemos um pedido de urg�ncia no Hospital Esperan�a que chegou �s minhas m�os. Socorri o rapaz acelerando sua press�o arterial atrav�s de t�cnicas de desvitaliza��o. Quando se sentiu mal, procurou esconder a arma e, em seguida, desfaleceu. Fique tranq�ila Irene, temos recursos para salv�-lo. Os ataques a essa casa se estendem aos filhos. � mais um dos resultados impercept�veis sobre como est�o sitiando o centro. E voc�s ainda me dizem que tem probleminhas! Lutinhas! - Doutor In�cio, perdoe-nos pela nossa descren�a e pelas nossas perguntas. Tudo � muito novo para n�s. Confesso: estamos meio perdidos. � muita coisa para uma noite s� - retomou o di�logo, Calisto. O que pode nos dizer sobre esse sitiamento? - Sitiar significa tomar conta atrav�s da for�a persistente de controlar, dominar. - Mas Doutor In�cio, n�o quero mais duvidar depois de tudo que j� nos trouxe nesta noite, por�m, como acreditar nisso? Nosso centro nas m�os das trevas?! - Por que n�o? Voc� que gosta muito de desafios, conhece a quest�o n�mero quinhentos e trinta e quatro de O Livro dos Esp�ritos? - Lembro vagamente. - L� interroga: "Ser� por influ�ncia de algum Espirito que, fatalmente, a realiza��o dos nossos projetos parece encontrar obst�culos?" - E qual foi a resposta? - "Algumas vezes � isso efeito da a��o dos Esp�ritos; muito mais vezes, por�m, � que andais errados na elabora��o e na execu��o dos vossos projetos. Muito influem nesses casos a posi��o e o car�ter do indiv�duo. Se vos obstinais em ir por um caminho que n�o deveis seguir, os Esp�ritos nenhuma culpa t�m dos vossos insucessos. V�s mesmos vos constitu�s em vossos maus g�nios." - � a quest�o da escolha pessoal, da conduta! - E onde os esp�ritas mais t�m se equivocado. - O senhor tem muito trabalho com esp�ritas falidos no Hospital Esperan�a de Eur�pedes Barsanulfo, n�o �? - Aqui e a� - esclareceu o m�dico psiquiatra. - Sem querer mago�-lo, como pode trabalhar ao lado de Eur�pedes com essa �ndole... - Mal educada, voc� quer dizer - complementou o pr�prio Doutor In�cio. - Como Eur�pedes aceita o senhor deste jeito? - Nem eu tenho essa resposta. Certamente ele tem seus motivos. - Pode nos falar porque o esp�rita tem colhido problemas na vida espiritual? - Porque adoram biblioteca. - Acumulam conhecimento na Terra e continuam querendo mais cultura do lado de c�, sem saber o que fazer com ela para o bem. Enquanto isso, o dep�sito de vassouras est� lotado de baldes, rodos e panos que nenhum deles quer usar. - Por que agem assim? - Alegam cansa�o, querem folga, sentem que trabalharam muito na vida f�sica. - E est�o cansados mesmo? - Claro! Carregar o Espiritismo na cabe�a sem deix�-lo chegar ao cora��o exaure qualquer um. - Este o problema?! - Pelo menos at� agora tem sido. Sabem muito, mudam uma nesga. Estudam demais e s�o incapazes de sorrir e brincar. Fazem leituras exaustivas para entenderem o que se passa fora de si e pouco ou nada sabem sobre a vida interior. Devoram obras e brigam todos os dias no centro. In�beis para promover a paz, a uni�o, a agrega��o de pessoas. Adoram hist�ria e filosofia, no entanto desconhecem a arte da gentileza. Recitam a religi�o nos l�bios. - Estamos nos esfor�ando para aplicar o Evangelho. Estamos firmes na tarefa doutrin�ria. Procuramos nos instruir. O que nos falta mais, Doutor In�cio? Estamos muito bem integrados com o Espiritismo. - Essa � a quest�o. Est�o integrados com as tarefas e quase sem v�nculos com a consci�ncia. Olham muito para as movi menta��es de fora e desconhecem a realidade das opera��es do sentimento. S�o pontuais e ass�duos nas pr�ticas e sup�em com isso, estarem em dia espiritualmente. - Mas estamos estudando. - O problema � este. A maioria s� estuda. - Mas isto n�o � suficiente?! - Investigam os fundamentos da doutrina que s�o profundos sem compreender como aplic�-los. Estamos saindo do per�odo da difus�o, do estudo filos�fico para o estudo contextualizado, vencendo a etapa do "que fazer" e penetrando o per�odo do "como fazer". Quantos de voc�s est�o trazendo suas ang�stias e dramas interiores para serem luarizados pelo pensamento esp�rita nas reuni�es dessa casa? Voc�s sabem quais s�o as dores uns dos outros? Algu�m sabe o n�vel de tormenta que enfrenta Ana para chegar a tomar a atitude de agora? Via de regra, o esp�rita est� enchendo a cabe�a de conhecimento, pressupondo com isso que ama e est� em ascens�o espiritual. S� existe instru��o real nos temas da doutrina, quando temos a capacidade de adequ�-los � nossa realidade particular, recriando nossa vida pr�tica. A isso chamamos contextualizar. Ingerir conhecimento sem digerir provoca uma terr�vel constipa��o cerebral. Cultura espiritual que n�o liberta � peso adicional que carregamos na alma. - E quando a cultura espiritual liberta? - Quando encontramos a resposta para as angustiantes quest�es da alma no campo individual. Quando conseguimos penetrar nas ra�zes dos dramas que nos infelicitam, dos problemas que nos atormentam. - Mas estamos tamb�m firmes no trabalho. - Trabalham pensando no bem que ter�o para ap�s a morte. No fundo disputam "lugares no c�u", qui��, a� mesmo, os cargos de destaque. Calisto enrubesceu. Quase perdeu o fio do di�logo. Acostumado a se defender criando id�ias novas, indagou de chofre: - Doutor In�cio! O senhor exagera. Daquilo que fazemos nada presta? � isso que quer dizer? - Tudo presta. Apenas precisa ficar melhor se quiserem paz. Algum de voc�s est� em paz apesar dessa trajet�ria repleta de estudo e trabalho? Voc�s t�m sossego na alma? N�o tem nada do que se arrepender? Est�o isentos de culpa? N�o lutam mais com as preocupa��es da rotina? N�o sentem medo? Algu�m nessa sala j� se livrou do terr�vel vazio interior que chega inesperadamente sem mandar not�cias levando-os � descren�a, ao des�nimo? Ser� que querem chegar aqui na vida espiritual do mesmo modo que milhares de outros? - O senhor nos confunde. - Reorganizo os arm�rios da vida mental acomodada. - Eu j� n�o sei mais o que dizer ou perguntar. - Talvez eu possa come�ar a fazer as perguntas - disse o comunicante. - Bom! Pensando bem, tenho mais uma sim. Que ser� de Ana, Doutor? Essa atitude... - Ela foi sincera, n�o acha? - Mas deixar a reuni�o assim. - Achei-a muito corajosa. Faria o mesmo no lugar dela. Ela j� tem desafios demais para superar na vida e ainda aparece In�cio Ferreira com suas manias! Por um momento, todos se calaram como se ningu�m nada mais tivesse a dizer. Como se o assunto esgotasse. Repentina mente C�ntia, timidamente, indagou: - Doutor In�cio, posso perguntar? - Diga, C�ntia, ou quer que eu responda diretamente? - � apenas uma preocupa��o! O senhor j� sabe o que �! - Temos que trazer nossa vida real para o centro, minha filha. Devemos esconder rela��es para que n�o carreguemos culpa alguma na consci�ncia? C�ntia entendeu o recado e impressionou-se com a autenti cidade medi�nica. Ningu�m na casa sabia absolutamente nada sobre seu romance com Calisto. Dona Modesta tinha os olhos atentos sobre a fala do Doutor In�cio. A certa altura ela lhe endere�ou mentalmente um pedido de mudar o rumo da con versa. "- Preparem-se para um momento novo. Serei responsabiliza do pelas lutas do grupo em fun��o dessa comunica��o. Tenham siso, lucidez. � hora de separar joio e trigo. O �nico objetivo de nossa equipe � alert�-los para os perigos eminentes em fun��o de suas lutas emocionais. Dever�o aprender a tratar seus sen timentos. Nesse grupo, a m�goa, a prepot�ncia e a baixa auto estima s�o doen�as cr�nicas de dif�cil extirpa��o. No entanto cur�veis. Perfeitamente super�veis. Cerremos juntos esfor�os no sentido de venc�-las em pr� do futuro de experi�ncias que vos espera. Fiquem em paz e aceitem o desafio de reconstruir a hist�ria de suas vidas espirituais! Recontar suas hist�rias �ntimas e secretas. Tenho que me retirar agora. - Doutor In�cio, eu... Eu n�o sei o que dizer! - manifestou Calisto emocionado. - Mas eu sei o que dizer: Irene - falou o m�dico dando novo rumo a conversa e chamando a m�e do rapaz com muito carinho. - Sim, Doutor In�cio! - Quer dizer algo? - Quero pedir perd�o por duvidar e ser quem sou. - Quer nos ajudar a consolidar um tempo novo? - Se tiver ao meu alcance! Creio que esteja muito mais � precisando de ajuda, reconhe�o. - Quando estiver com seu filho no hospital, relate-lhe tudo. Traga-o at� mim. - Como farei isso? Aqui no centro? E dirigindo-se a Calisto concluiu: - Estou inaugurando em nome de Eur�pedes Barsanulfo e de Jesus Cristo a primeira reuni�o de tratamento para dirigentes, trabalhadores e seus afins aqui no Grupo X. Sei que falar�o em resist�ncias da diretoria, reuni�es para consultar o grupo e outros impedimentos. O convite, entretanto, � um decreto do Mais Alto. � o caminho de salva��o. A sa�da para essa casa � transformar esse instante de testemunho em um tempo mais promissor. Isso exigir� a ousadia de alguns. O momento do Cristo � esse! Joio e trigo sendo separados. Fa�am sua escolha, o Cristo ou suas limita��es e normas intoc�veis. Agora me d�em licen�a. Fiquem em paz. O m�dium saiu do transe e foi amparado com desvelo. Gra�as � necessidade do momento, a comunica��o foi inconsciente, permanecendo vest�gios sutis do contato. Uma sensa��o desagrad�vel prolongava-se sobre o campo ps�quico do m�dium. Era a vibra��o de Ana. Logo, o m�dium indagou: - Onde est� Ana? - Depois te explico tudo, Antonino. Vamos finalizar a tarefa e descansar. Amanh� te ligo e falamos - disse Calisto, instan taneamente. A reuni�o que se prolongaria por apenas quinze minutos, avan�ou ainda mais uma hora. A equipe n�o sabia em que centrar os pensamentos difusos. A atitude de Ana, o inc�modo com a mensagem da entidade, as revela��es incontest�veis sobre o filho de Irene. Diversos servidores da defesa foram convocados no plano espiritual, para acompanharem todos no regresso aos lares. Novamente, v�rios servidores do mal se postavam do lado de fora. Logo depois da sa�da de Ana, eles pediram refor�os. Percebiam que pairava uma luz intensa sobre o Grupo X. A sa�da inesperada de Ana significava alguma medida de vulto. Deliberaram cercar o m�dium Antonino ap�s a sa�da. O pegariam fora do corpo quando se emancipasse pelo sono e fariam um interrogat�rio at� contar tudo, diziam... Por outro lado, o amparo providencial da equipe de Isabel de Arag�o sobre as instala��es do Grupo X fazia recordar uma �gua viva marinha em movimento. Um manto de energia vi vificante e circular como leve len�ol vibracional a rodopiar in tensamente em ondas multicores. Somente estando em nosso plano para ter uma no��o exata do que v�amos, com a passagem descrita em Mateus, cap�tulo dezessete, vers�culo nove: "E, descendo eles do monte, Jesus lhes ordenou, dizendo: A ningu�m conteis a vis�o, at� que o Filho do homem seja ressuscitado dentre os mortos." A vis�o era magni fica. Seus efeitos se narrados em detalhes, certamente gerariam descren�a em alguns. Os grupos medi�nicos, quase sem exce��o, ainda ter�o que fazer intenso aprendizado acerca da utiliza��o dos frutos da pr�tica medi�nica. Somente atrav�s de interc�mbios cristalinos, que permitam estudar a imensa variedade na forma de atua��o dos Esp�ritos, ser�o poss�veis medidas de cautela e vigil�ncia em favor do melhor uso dos ensinos espirituais nas parcerias medi�nicas. Passaram-se dois dias do ocorrido. O grupo estava incomunic�vel. O clima que se formou facilitou o avan�o desordenado dos planos nefandos de astutos servi�ais das organiza��es da maldade. As iniciativas em favor do grupo visavam, t�o somente, atenuar os efeitos emocionais indesej�veis da reuni�o, mantendo o grupo em sintonia com os objetivos nobres. Todos se sentiam abandonados. Os que mais aceitaram a comunica��o medi�nica, passadas quarenta oito horas, come�am a perguntar se, de fato, Ana n�o teria raz�o. O pr�prio Calisto suspeitava de alguns aspectos. Seu temperamento, no entanto, como � pr�prio da personalidade arrogante, em momentos como esse de inseguran�a, encontrava como defesa pensar pouco e agir mais, tomar medidas r�pidas no intuito de manter hegemonia. N�o sabia mensurar a extens�o, mas percebia algo de raro valor na ocasi�o. Defenderia com fidelidade o novo acontecimento e o futuro da organiza��o staria em suas m�os. Ana pediu substitui��o em duas outras reuni�es que cooperava alegando cansa�o. N�o se encontrava em condi��es de resolver o que faria. O marido atazanou-lhe com terr�veis conversas de separa��o. Debaixo de muita press�o ps�quica e espiritual, a dirigente resolveu tomar uma medida que, quase sempre, nessas situa��es, s� servem para multiplicar as dificuldades: consultar algu�m de fora. Ligou para o presidente da organiza��o federativa estadual para tomar opini�o. - Al�, � irm�o Alfredo? - Sim, quem �? - � Ana do Grupo X. - Ol�, Ana! como vai? - Nada bem, meu confrade! Nada bem. - Que houve? - Estou ligando para falar do nosso grupo. - E como v�o as coisas por l�? - P�ssimas! - Calisto? - falou Alfredo que j� conhecia os problemas da casa. - Se fosse s� o Calisto j� seria demais. Agora tem tamb�m o tal In�cio Ferreira se comunicando por l�, com as id�ias mais perturbadas que se pode imaginar numa tarefa em nome do Cristo. - In�cio Ferreira? Ah! - ripostou ir�nico. - Sabe quem �? - In�cio Ferreira foi um trabalhador honroso, entretanto, existe um embusteiro escrevendo livros com o nome dele que � de dar d�. - Pois � esse a� que esteve na reuni�o. Falou coisas que o senhor nem imagina. - Tais como? - Se o senhor ouvisse, n�o acreditaria. Chamou a aten��o do grupo com uma prepot�ncia, uma falta de caridade, impressionante! O grupo o tratou de Doutor e ele nem disse nada, pelo visto adora o t�tulo. E ainda, por fim, exigiu quinze minutos a mais na reuni�o. Eu n�o suportei. - E o que fez? - Larguei a tarefa na m�o de quem aceitou os quinze minutos. - Saiu da reuni�o? - Sem pensar duas vezes. - Talvez sua atitude n�o tenha sido a melhor, Ana. N�o?! - J� parou para pensar que esse poderia ser o objetivo do mistificador? E agora com quem fica a reuni�o? O grupo inteiro fascinado e voc�, que enxerga as coisas, fora da atividade. - Tem raz�o! N�o havia pensado por esse lado. - Assuma logo a reuni�o e j� chegue com normas prontas de como vai ser. Grupos muito democr�ticos nunca funcionam bem. Dirigir um grupo significa tamb�m determinar para onde ele deve ir. Voc� sabe dos meus longos anos de movimento esp�rita. Aprendi que temos que ter as r�deas na m�o, do contr�rio... - O senhor tem muita raz�o. Tamb�m penso assim. Calisto tem sido um entrave. Abre as portas para essas novidades e o grupo cai na dele. Nossa conversa est� me fazendo bem. Vou voltar com for�a total e na reuni�o da pr�xima semana chegarei determinada a acabar com essa invigil�ncia. - Voc� segue o estatuto modelo de nossa Federa��o para os centros esp�ritas? - Seguimos. - Ent�o � s� pegar o artigo y. L� est� a solu��o. Entendeu? - N�o me recordo do artigo y. - Voc� precisa ter esse estatuto na "ponta da l�ngua", Ana. O artigo diz textualmente: "nenhuma entidade comunicante que utilize nomes respeit�veis dever� ser ouvida sem consulta pr�via a pelo menos tr�s dirigentes experientes no setor da pr�tica medi�nica e tamb�m um m�dium consagrado pela seara." - Adotarei prontamente essa medida de seguran�a. Antonino � um bom m�dium, mas est� em uma p�ssima fase. - Tome muito cuidado com Calisto. Ele vem influenciando Antonino. Temos v�rias not�cias lament�veis de ambos nas tarefas de unifica��o. Algumas id�ias novas sobre um tal movimento em torno do amor. Sabe como �, ao inv�s de somarem conosco na unifica��o ficam criando coisas novas. Para que mais id�ias, sendo que j� temos o bastante? Poderiam aderir ao sistema e cooperar. A conversa estendeu-se um pouco mais; o suficiente para muitas cr�ticas e condena��o antifraternas, ampliando o raio emocional da disc�rdia com o qual advers�rios inteligentes do mal, enfronhavam com mais ardor na vida mental dos integrantes do Grupo X. Naquele mesmo dia, Calisto explicou, superficialmente, para Antonino o que havia acontecido na reuni�o. O m�dium ficou num clima de instabilidade e preocupa��o. Recomendou esperar at� a pr�xima reuni�o, quando todos conversariam sobre o assunto na presen�a de Ana. Fariam exig�ncias. Foi uma semana decisiva. O trabalho em nosso plano tripli cou na prote��o aos membros do grupo e aos seus lares. Ten tativas de assalto e queda foram mobilizadas a rodo pelos an tagonistas do Grupo X naqueles dias. Avan�aram assustadora mente nas iniciativas. Pequenos acidentes, doen�a e desacertos. O nome de Doutor In�cio foi incendiado por tricas e futricas. Era acusado de ser o respons�vel pela desaven�a no conjunto. Sua mensagem medi�nica foi gravada e transcrita, chegando a m�os que jamais deveriam possu�-la. Formava-se um quadro perigoso para a casa esp�rita que j� estava amea�ada. Todavia, em nosso plano, nada do ocorrido nos surpreendia. Era previs�vel. At� ent�o, nada havia sa�do do poss�vel. Trabalh�vamos muito para que nada pior ainda viesse a ocorrer. Como narra o Evangelho de Mateus, cap�tulo vinte e sete, vers�culo cinq�enta e um: " eis que o v�u do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras;" naquela noite rasgaram-se concep��es, tremeram emo��es, fenderam-se id�ias. O Grupo X na condi��o de uma cova f�rtil e preparada para o plantio recebeu do Mais Alto uma semente de raro valor, que poucos est�o tendo a coragem e a disposi��o de lavrar. Uma semente de dif�cil germina��o que exigiria muita ren�ncia, abnega��o e devotamento. At� hoje h� quem veja nesse encontro memor�vel com Doutor In�cio a derrocada, uma cilada espiritual e as manobras das trevas. Para n�s, no entanto, cumpria-se claramente o enunciado de Mateus cap�tulo treze, vers�culo trinta: "Deixai crescer ambos juntos at� � ceifa; e, por ocasi�o da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro." Nossa equipe espiritual podia perceber o quanto a comunica��o medi�nica daquela noite seria um divisor de �guas... Quantos molhos de joio seriam queimados de uma s� vez... Tr�s dias ap�s o ocorrido, no final de semana seguinte era a ocasi�o do servi�o assistencial da casa. Todos compareceram. N�o se olhavam ou cumprimentavam. Calisto, Ana e C�ntia, ningu�m queria correr o risco de tocar no assunto. Na medida in que se desenvolvia a tarefa, o emocional do grupo relaxou. Durante a tarefa de amor, pudemos atuar mais ostensivamente in favor de todos. Com o clima melhorado, Dona Modesta convocou-nos para o servi�o noturno de emancipa��o pelo sono. Trar�amos todos os membros diretivos do Grupo X para ouvirem o nosso diretor Eur�pedes Barsanulfo que, semanalmente, cumpria essa miss�o de falar aos dirigentes e trabalhadores esp�ritas emancipados pelo sono nas equipes de socorro emergencial aos centros esp�ritas. Cap�tulo 11 Apelo por Conc�rdia E, qualquer que entre v�s quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Mateus, 20:27 A noite adentrava pela madrugada. Foram reunidos no sal�o principal do Hospital Esperan�a, entre outros, um expressivo grupo de l�deres de Minas Gerais, unidos ao cora��o de Eur�pedes Barsanulfo. Os integrantes do grupo X, igualmente, vieram todos ouvir o apelo do vener�vel ap�stolo do bem que assim se exprimiu em incompar�vel humildade: - "Irm�os de lide, Jesus seja a nossa inspira��o. Diante das batalhas �ntimas no longo aprendizado da educa��o espiritual, vezes sem conta somos assaltados pelo derrotismo, pela indiferen�a. Necess�rio aferir o entendimento no intuito de melhor orientar nossos passos. Uni�o n�o � tarefa simples de se concretizar. Conc�rdia � o trabalho lento egradativo de vencer a carapa�a de nosso ego�smo em dire��o a novas experi�ncias. Nesse momento atribulado e de aferi��es pelo qual passa a Terra, conc�rdia � trabalhar pelo poss�vel em detrimento do que ssria o ideal. Prefer�vel avan�ar alguns passos que estacionar ou recuar ante as oportunidades de realiza��o em conjunto. Conc�rdia � entendimento. N�o existe uni�o sem entendimento, que � a capacidade humana de superar suas diferen�as sem extingui-las, caminhando juntos em busca de ideais e realiza��es comuns. Conc�rdia requer autenticidade perante a consci�ncia, traba lho digno que motive o entendimento e a ora��o da indulg�ncia - alimentos para pacificar as rela��es. Ningu�m se far� servo de todos conforme a diretriz de Jesus, caso n�o edifique a condi��o de servo de si mesmo. Ser servo de si mesmo � domar a f�ria implac�vel e milenar do ego, colocando-o a servi�o das nobres aspira��es que come�am a povoar nossos cora��es na dire��o da luz. "Assim n�o deve ser entre v�s", orientou nosso Pastor. O c�rculo das rela��es legitimamente crist�s haver� de oferecer nova modalidade de conviv�ncia, que motive mudan�as inadi�veis, em nosso pr�prio favor. O medo e o ci�me, a desconfian�a e a expectativa exacerbada s�o ra�zes de inumer�veis conflitos. Sentimentos que patrocinam a inseguran�a, o mal-entendido e a mal-queren�a. A conc�rdia, portanto, � tecida com os fios afetivos da lucidez e da fraternidade. N�o nos iludamos com o sentimentalismo que � o afeto cego e desorientado, desprovido de consci�ncia fr�gil. Somente quem olha para si e reconhece com honestidade a natureza de suas sensa��es, mesmo as mais indesej�veis, � capaz de entender o que realmente sente por aqueles que diz amar. Por tr�s de muitos impulsos afetivos aparentemente enobre cedores, escondem-se antigas tend�ncias de espezinhar com ver niz. Chega a hora de olharmos para dentro e domestic�-las. Nada � impuro na natureza. "Nisto todos conhecer�o que sois meus disc�pulos, se vos amar des uns aos outros."11 O amor � um desafio. Possu�dos ainda por grilh�es impiedosos 11. Jo�o, 13:35 de arrog�ncia e narcisismo, com enorme facilidade descuidamos da vigil�ncia sobre nossa compuls�o em querer ser o maior. Ao contr�rio, "aquele que quiser tornar-se o maior seja vosso servo" afian�ou nosso Guia e Modelo. O servo de todos ser� aquele que consolidar em si mesmo a permanente conex�o com o self glorioso, de onde brotam os sentimentos de pacifica��o, desprendimento, serenidade e completude. No clima interior de liga��o com as correntes superiores da vida, o servo alegra-se naturalmente com o �xito do pr�ximo, percebe /a utilidade das id�ias alheias, cuida em respeitar os limites, pondera sempre que pode para alcan�ar o melhor, e distancia-se dos arroubos na paix�o por cobran�as que irritam e asfixiam. Nesse cora��o ponderado e justo nasce a psicosfera da paz que abre as portas para o entendimento. O servo de todos mant�m v�nculo com o Mestre. Enquanto o ego patrocina a loucura, o servo de todos mant�m-se atento e em sintonia com as Ordens Maiores que fluem, ininterruptamente, nas correntes da vida em estuante equil�brio. A mudan�a no sistema de rela��es nos ambientes redivivos da mensagem crist� constitui o apelo por conc�rdia, que verte do mais Alto em dire��o � nossa sensibilidade. Disciplinar a compuls�o pela import�ncia pessoal. Olhar sem subterf�gios para nosso intenso desejo em brilhar perante os outros s�o sentimentos inevit�veis! Nada mais natural depois de tempos apegados a n�s pr�prios. Neg�-los, isso sim constitui obst�culo ao crescimento. "Sede un�nimes entre v�s; n�o ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos �s humildes; n�o sejais s�bios em v�s mesmos."12 N�o gostamos de ser criticados. Repudiamos a possibilidade de que algu�m seja mais querido que n�s mesmos. Sentimos in justi�ados quando algu�m nos corrige naquilo de que precisamos. Chegamos a nos alegrar com os trope�os alheios para nos fazermos mais fortes perante outrem. N�o conseguimos conter o impulso maledicente da l�ngua para diminuir o brilho do outro, Raramente nossa alegria com o �xito de algu�m representa consci�ncia do bem pela Obra do Cristo. Fazemo-nos indiferentes ante as habilidades que florescem nos companheiros de tarefa. O melindre azorraga-nos quando uma decis�o � tomada sem nossa participa��o. A inveja assalta-nos, impiedosamente, quando algu�m produz algo mais criativo e valoroso que n�s. Adotamos a teimosia quando n�o queremos seguir as recomenda��es que n�o concordamos. Disputamos cargos e t�tulos como se, � luz da Boa Nova, isso fosse privil�gio e ind�cio de espiritualiza��o. A presun��o entorpece-nos a ponto de acreditarmos ter toda as respostas para a vida alheia. Invadimos o mundo �ntimo das pessoas como se tiv�ssemos um alvar� de quebra dos limites, somente, por acreditar-nos bons o suficiente para entender o que se passa por dentro do cora��o alheio. Elegemos modelos de condutas, estabelecendo r�tulos com os quais expedimos ju�zos da suposta verdade sobre o comportamento de nossos amigos. Olhemos com mais carinho esses sentimentos sem cobrar tributos morais. Essa � a mais cristalina verdade sobre n�s mesmos, da qual n�o devemos nos envergonhar! Se alguma raz�o h� para nos envergonharmos, � a de n�o fazermos nada para transformar a natureza egoc�ntrica, sob a qual ainda nos encontramos escravizados. Nos lances conflituosos da vida interpessoal, os percal�os n�o se encontram fora, mas dentro de n�s pr�prios. Essa gama de reflexos no terreno de nossos sentimentos responde pelas decep��es e perdas amorosas. A quem, ent�o, h� de o homem responsabilizar por todas asli��es, sen�o a si mesmo? O homem, pois, em grande n�mero dos casos, � o causador de seus pr�prios infort�nios; mas, em vez de reconhec�-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Provid�ncia, a m� fortuna, a m� estrela, ao passo que a m� estrela � apenas a sua inc�ria.'13 Jesus nos aceita em Sua Obra como somos. Entre n�s, por�m, grassam disputas enfermi�as e desgastantes para aferir quem � o maior. As rela��es s�o perturbadas pelas sutilezas do orgulho, criando gl�dios intermin�veis que entorpecem os racioc�nios, minam as for�as morais e convidam � obsess�o. Na tarefa crist� existem trabalhos de variadas envergaduras. Isso n�o significa que existam servidores mais ou menos importantes. O servi�o do Evangelho no mundo � urgente. Nem por isso somos essenciais. O aprendiz das letras crist�s deve regozijar-se pelo fato de estar na Vinha do Senhor. Os formadores de opini�o vigiem suas express�es de trabalho. N�o confundamos capacidade realizadora com preparo crist�o. Quanto mais conhecimento e tempo no contato com as verdades esp�ritas, mais riscos de se apegar �s convic��es pessoais. experi�ncia costuma causar a sensa��o de grandeza e acerto. Nesse clima de descuido, surgem as express�es mais destrutivas da arrog�ncia que nos � pertinente. Achamo-nos capazes bastante para esquadrinhar com precis�o o que vai na alma do semelhante. As tarefas n�o nos colocam maiores uns perante os outros. Elas engrandecem-nos perante n�s mesmos. Quaisquer sentimentos derivados da necessidade de realce s�o ind�cios de enfermidade moral. Assim n�o deve ser entre v�s' O clima espiritual de muitas organiza��es crist�s atuais periclita por deixar de estudar as raz�es sist�micas que as tem enfraquecido. Pequenos gestos de desamor, ou mesmo a simples ignor�ncia sobre o que verdadeiramente sentimos uns pelos outros, s�o fagulhas perigosas no sistema das rela��es aptas a incendiar as mais caras afei��es. Sejamos francos! Todavia, vigiemos as express�es da sinceridade m�rbida, aquela em que expressamos a realidade do que sentimos, mas nutrindo expectativas de adaptar o pr�ximo aos nossos sentimentos. A honestidade emocional conosco � potente profilaxia contra a arrog�ncia. Assumamos sem receios nossa falibilidade escolhendo rever nossas convic��es, especialmente as que temos em rela��o �queles com os quais ainda n�o tenhamos harmonizado. Rever convic��es � ter a coragem de analisar os fatos sob outra perspectiva. Isso nos levar� aos novos aprendizados. A conc�rdia n�o existir� apenas com sonhos fantasistas, abra�os de saudade e desculpas passageiras. S�o necess�rias atitudes. Atitudes de amor para conosco tamb�m. A atitude de amar-nos tanto quanto merecemos: um desafio de propor��es graves para almas com pouco discernimento entre ego�smo e auto-amor. A paz seja entre v�s. Regressem aos seus corpos com o senti mento de esperan�a reavivado em suas almas." Na manh� seguinte, nutr�amos o otimismo acerca das esperan�as de harmonia entre os seareiros. Mesmo otimista . guard�vamos o clima do respeito incondicional. Assim como na par�bola do semeador, cada semente cairia em terreno particular. Reconhec�amos a possibilidade de muitas sementes cairem no solo in�spito da descren�a, a vil� mais impiedosa do sentimentos nobres e espont�neos. Velha carcereira, que torna os ouvidos surdos e o cora��o fechado aos alvitrez profundos da alma. Ante o apelo de Eur�pedes, nossa mente deslocou para as p�ginas iluminadas de O Evangelho segundo o Espiritismo, cap�tulo vinte, item cinco, no qual o Esp�rito Verdade lavra a diretriz segura aos nossos of�cios no bem: "Vinde a mim, v�s que sois bons servidores, v�s que soubestes impor sil�ncio aos vossos ci�mes e �s vossas disc�rdias, afim de que da� n�o viesse dano para a obra' Cap�tulo 12 Tempo de Maioridade Na verdade �j� realmente uma falta entre v�s, terdes demandas uns contra os outros. Por que n�o sofreis antes a injusti�a? Por que n�o sofreis antes o dano? I Cor�ntios, 6:7 Competia-nos agora somente aguardar os resultados das medidas tomadas. A equipe carnal somente se encontraria dentro de dois dias para a pr�xima reuni�o medi�nica. Nossas atividades cresciam em volume. Os pedidos para atendimento em casas esp�ritas n�o paravam de chegar. As equipes socorristas eram desafiadas a cada momento com o mais diverso leque de ocorr�ncias. Paix�es destruidoras entre os trabalhadores, melindres que poderiam estourar em problemas coletivos, obsess�es em fun��o de condutas sociais invigilantes des�nimo e descren�a, maledic�ncia e m�goa. O sitiamento do Grupo X por parte de falanges da maldade era eminente. Somente uma reviravolta no clima das rela��es ensejaria medidas salvadoras. O grupo j� havia sido alvo de muitas iniciativas de amparo. Os epis�dios recentes eram considerados pelas equipes socorristas como a culmin�ncia de velhas rusgas, desaven�as e deser��es. As �ltimas ocorr�ncias agravaram os �mpetos do interesse particularista. Calisto julgava-se o servidor pronto para suprir os problemas da hora. Candidatar-se-ia � presid�ncia e, em sua concep��o, tudo se resolveria. Esperava a ren�ncia de Ana. Ela, por sua vez, estava tomada pela raiva e pelo des�nimo em desgastante clima de m�goa. C�ntia, Antonino e muitos trabalhadores contaminados pelo ambiente antifraterno, cada qual vivendo seus momentos de instabilidade. Como diria: "um barril prestes a explodir". Essa era a condi��o do Grupo X naquela semana. Sempre nutri encantamento pela fala do benfeitor Emmanuel que define o centro esp�rita como escola, oficina, hospital e templo. As experi�ncias que presenciei naquela casa levaram-me a destacar sua fei��o de hospital para almas gravemente enfermas. S� mesmo a ilus�o do orgulho que ainda nos domina, pode nos fazer enxergar de forma diversa a nossa condi��o. Agora, mais que nunca, passei a sentir minha recente recncarna��o no seio do Espiritismo como uma interna��o de emerg�ncia em favor de minhas enfermidades morais. Mais uma vez conseguia abrir os olhos da sensibilidade. Isso me deixava sobejamente feliz. Por orienta��o de Dona Modesta, far�amos uma reuni�o com o Professor C�cero, no intuito de obter melhores esclarecimentos acerca do ocorrido naquela noite no Grupo X ante a comunica��o do Doutor In�cio. Seriam reunidos todos os aprendizes que compunham a equipe de socorro emergencial �quele n�cleo de espiritualiza��o humana. Nessa �poca, con tando comigo, eram dez novos alunos nesse g�nero de tarefa. N�o via a hora de poder expor v�rias perguntas. A reuni�o foi realizada em uma bela tarde no Hospital Esperan�a. C�cero Pereira, dotado de uma finura e eleg�ncia moral, prop�s: - Amigos queridos! - falou com delicadeza -, fa�amos uma breve reflex�o para iluminar nosso aproveitamento. O professor abriu O Evangelho segundo o Espiritismo no cap�tulo dezenove, item um, leu e depois comentou: - "Quando ele veio ao encontro do povo, um homem se aproximou e, lan�ando-se de joelhos a seus p�s, disse: Senhor, tem piedade do meu filho, que � lun�tico e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na �gua. Apresentei-o aos seus disc�pulos, mas eles n�o o puderam curar. Jesus respondeu dizendo: � ra�a incr�dula e depravada, at� quando estarei convosco? At� quando vos sofrerei? Trazei-me aqui esse menino. - E tendo Jesus amea�ado o dem�nio, este saiu do menino, que no mesmo instante ficou s�o. Os disc�pulos vieram ent�o ter com Jesus em particular e lhe perguntaram: Porque n�o pudemos n�s outros expulsar esse dem�nio? - Respondeu-lhes Jesus: Por causa da vossa incredulidade. Pois em verdade vos digo, se tiv�sseis a f� do tamanho de um gr�o de mostarda, dir�eis a esta montanha: Transporta-te da� para ali e ela se transportaria, e nada vos seria imposs�vel" Esse conhecido acontecimento do Evangelho � um retrato das dores humanas nesse momento da Terra. Processos grav�ssimos de obsess�o, doen�a e sofrimento que assolam fam�lias e comunidades. Em meio ao epis�dio, est� a turba desorientada clamando por socorro e tamb�m os disc�pulos do Cristo sendo aferidos em r�gidos testemunhos de f� e devo��o na alma. A narrativa deixa clara a impot�ncia dos disc�pulos que, tomados de sinceridade, dispunham da abertura mental para indagar acerca da natureza de suas limita��es. Queriam saber quais foram as raz�es de n�o expulsar o Esp�rito imundo. Surge ent�o dos l�bios do Mestre e Senhor um dos temas mais oportunos �s nossas fileiras de amor crist�o: a f�. O quadro se repete nos dias atuais. Privamos da intimidade de Jesus atrav�s das mensagens profundas que tocam os refolhos da sensibilidade, nos afazeres diversos oferecidos pelo Consolador Prometido. Conquanto tal edifica��o espiritual guardamos os ensinos e viv�ncias espirituais quais fossem informa��es culturais, incapazes de renovar nosso modo de sentir a vida. Intelig�ncia adornada de saber esp�rita e cora��o vazio de paz e vis�o elevada. O que nos faz recordar Jesus diante da figueira infrut�fera, adornada de folhas e sem frutos, conforme a descri��o de Mateus, cap�tulo vinte e um, vers�culo dezenove que diz textualmente: E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ela, e n�o achou nela sen�o folhas. E disse-lhe: Nunca mais nas�a fruto de ti! E a figueira secou imediatamente." Enquanto se repete esse quadro nos centros esp�ritas da atu alidade, conv�m-nos indagar: que fazer para construir novas alternativas de f� nos n�cleos renovadores do Espiritismo crist�o? Como dilatar a f� que nos permita ir al�m dos padr�es doutrin�rios que, em muitas ocasi�es, sufocam os �mpetos ge nerosos e ricos de grandeza moral em rela��o ao bem alheio e ao nosso pr�prio? Que fazer para que a f� dos esp�ritas esteja acima do conhecimento e como fazer para que o conhecimento oriente a nossa f�? Os meninos desta passagem evang�lica continuar�o cada dia mais sendo trazidos �s nossas m�os para serem curados, qui�� aliviados. Quanta l�grima para secar! Quanto trabalho de limpeza e reequil�brio para com aqueles que buscam as casas doutrin�rias famintos de um pingo de esperan�a! Cora��es estra�alhados pela dor, infelizmente, nem sempre est�o encontrando conforto nos centros doutrin�rios, cujos ambientes, quase sempre, est�o tomados por maledic�ncia, dispu tas e antifraternidade. Al�m disso, o excesso de normas e a falta de habilidade para consolar, criam ocasi�es de insensibilidade e descuido. Quantos cora��es ansiosos apenas por um gesto de aten��o, s�o recomendados a maratonas de estudo e preparo intelectual como sendo os �nicos rem�dios para sararem de suas enfermidades emocionais? A gentileza, o carinho, a arte da amizade e do afeto t�m sido substitu�dos por orienta��es religiosas r�gidas e despidas de humanismo. Fala-se em obsess�es, carmas cru�is, dores da transi��o, dramas morais cr�nicos. E o consolo e a f�? Onde est�o? Contra essa casta de Esp�ritos somente a ora��o da atitude e o jejum da prepot�ncia. Imperioso renovar o nosso modo de operar frente aos apelos doridos da humanidade atual. Urge uma discuss�o sobre como atender os filhos atormentados do calv�rio nas agremia��es que se erguem em nome do Cristianismo Redivivo. F� pequenina do tamanho de um gr�o de mostarda. Sentimento pulsante no cora��o em busca de Deus. Intelig�ncia montada para sentir com nobreza. Ap�s seus ricos coment�rios sobre o trecho evang�lico, Professor C�cero tocou no tema que nos unia naquele instante, dizendo: - Os amigos aqui presentes puderam acompanhar de perto as provas do Grupo X. Todos estamos sensibilizados pelos trope�os e limites de nossos irm�os. Sensibilizados porque at� ontem, em tempo n�o t�o long�nquo, n�s pr�prios �ramos os atores dessa trag�dia das intera��es humanas, quando no corpo f�sico. Endere�amos, pois, nossas melhores vibra��es ao grupo em refer�ncia, suplicando a Jesus que nos d� muita lucidez e respeito na alma, para tratar dos assuntos com devida miseric�rdia e bondade da qual ainda somos os mais necessitados. Fiquem � vontade para trazerem seus sentimentos e suas d�vidas. O objetivo � enobrecer nossa vis�o acerca dos fatos, portanto, n�o temam indagar da melhor forma que lhes aprouver. BN�o me contive ante a fala do professor. E com um misto de muita emo��o ao tocar no assunto e uma enorme disposi��o deaprender, interroguei: - Professor, com muita franqueza na alma, se eu estivesse no lugar de Ana, de Calisto ou de qualquer um membro do grupo X, creio que reagiria de igual para pior em rela��o ao comunicado de Doutor In�cio. Queria ter dirigido a ele algumas perguntas, mas em seus �ltimos dias, nem ele, nem Dona Modesta, sequer conseguem um instante para repasto. Qual a perspectiva crist� da mensagem de Doutor In�cio? - In�cio, meu caro Mario, � um tocador de trombetas. Sua fun��o � acordar com zoeira. N�o se diz em nosso meio que uns despertam ao cantar do p�ssaro, outros somente com tiros de canh�o? In�cio � a trombeta do Cristo que ama indistinta mente. - Sua mensagem n�o traduz esse sentimento. O senhor con corda? - Qual de n�s pode mensurar a quantidade de amor exis tente no cora��o de quem quer que seja, somente atrav�s da forma de expressar? Um dos maiores desafios do Esp�rito na sua peregrina��o evolutiva � equilibrar o que diz, com o que faz e o que sente. Costumeiramente, nos confundimos e con fundimos aos outros com atitudes e palavras acerca daquilo que realmente sentimos. Quem ter� amado mais na Terra que Jesus? Ainda assim os homens entenderam Suas atitudes e pa lavras como ofensas descabidas a ponto de crucific�-Lo. Nosso julgamento obedece a padr�es. Fr�geis padr�es inspirados em conceitos e viv�ncias que precisam ser ampliados e reavaliados continuamente ao longo da vida. Havendo estagna��o, surge o preconceito. - O senhor acredita que essa seria a melhor forma de nos comunicarmos com a comunidade esp�rita nesse momento? - N�o creio. Entretanto, para o momento presente, no qual tem havido uma acomoda��o nociva e quase generalizada na co munidade doutrin�ria, relativamente � vis�o que se tem do Espiritismo e seus conceitos, a palavra de In�cio, seu temperamento diverso, ser� uma grande aula de despertamento aos nossos ambientes. Al�m do que, suas abordagens e seus temas prediletos, s�o um convite ao discernimento e a humildade daqueles espi ritas que sup�em saberem tudo sobre vida espiritual. - Tem havido muita recusa a esses ensinos novos? - Andr� Luiz tamb�m foi recusado. - Estaria, porventura, comparando os conte�dos? - De forma alguma. Andr� Luiz � insubstitu�vel com sua obra prima. Comparo as revela��es e o tempo de cada uma. - Chega o momento de falar mais um pouco ao meio esp�rita sobre quanto ainda se tem que revelar, acerca de tudo que nos cerca enquanto encarnados e no plano espiritual. Ampliar no��es, dilatar o entendimento. O que In�cio trouxe ao Grupo foi previamente combinado entre n�s. Ele tamb�m, a cada relato, a cada ocasi�o de falar ao mundo f�sico, aprende um pouco mais e educa seu temperamento com os ensejos de crescimento e toler�ncia m�tua. Ele pr�prio nos solicitou para n�o ser o portador da mensagem em nome de nosso grupo. Por�m, em muitos casos e momentos, In�cio torna-se uma necessidade quase insubstitu�vel. - Posso continuar a perguntar ou algu�m gostaria de falar? indaguei preocupado em n�o centralizar a palavra. - Continue Mario. Percebo que voc� est� catalisando as perguntas do grupo - destacou o professor. - Essa tarefa medi�nica proposta ao Grupo X para tratamento espiritual de dirigentes e l�deres, qual o objetivo? - �tima pergunta! O objetivo dessa tarefa � exatamente o que nos referimos na abertura da reuni�o: trabalhar a f�. Muitos l�deres e condutores esp�ritas, depois de refregas intermin�veis e sofridas, costumam enquadrar-se na fala de Jesus narrada em Mateus, cap�tulo vinte e quatro, vers�culo doze: ", por se multiplicar a iniq�idade, o amor de muitos esfriar�" Tomados de m�goa, cansa�o e at� descren�a n�o assumida, muitos companheiros, por instinto natural de defesa, ap�s muitas les�es afetivas adquiridas na pr�pria tarefa, assumem postura de tutela e conten��o excessiva de suas manifesta��es afetivas, guiando o amor na conviv�ncia e a espontaneidade. Dessa forma, encontram na institucionaliza��o um lugar de seguran�a com o qual podem se proteger de indesej�veis e supostas injusti�as das rela��es humanas. Protegem-se em cargos, folhas de servi�o, tempo de doutrina, estatutos e amigos de confian�a que constituem as conhecidas "panelas da conviv�ncia". Fazem" de tal forma que mantenham as r�deas em suas m�os, decis�o centrada, para que n�o tenham que experimentar os altos e baixos das rela��es. Em tal quadro, realizam muito pela doutrina, pelo centro e sentem-se mais produtivos e ajustados ao papel que lhes compete como dirigentes e l�deres. Entretanto, a par dessa situa��o, experimentam uma solid�o afetiva que tentam superar com mais e mais responsabilidades, ficando sua vida interior totalmente indevass�vel, desconhecida, uma pessoa que esconde sua afetividade. � exteriormente cordato, gentil, e sabe utilizar o verniz social para fazer-se simp�tico, mas por dentro � sempre cauteloso, calculista e r�gido em rela��o ao mundo alheio. Nessa trajet�ria termina sendo o grande provedor das lutas alheias, do centro e das tarefas, deixando seu mundo �ntimo para um segundo plano. Amargando as decep��es da vida sem ter com quem compartilh�-las. Um homem protegido de si mesmo, que se sente justificado em ser assim, face aos golpes emocionais sofridos nos instantes em que se permitiu acreditar na bondade do cora��o alheio, sendo lesado na confian�a e na sua capacidade de tolerar. - Haveria algu�m no Grupo X nessa condi��o? - Calisto � um deles. E Ana, depois desse epis�dio, caminha a passos largos para essa postura. Est� cansada de acreditar nos irm�os de doutrina. - Ela tem raz�o? - Recorda-se quando a tiramos do corpo? - Sim. - Quais foram as queixas dela? Lembra-se de ter reclamado dos irm�os? - N�o. Ela falou de car�ncias afetivas. - Ana tem encontrado muitas decep��es pelo caminho esp�rita. Nenhuma delas, por�m, � suficiente para lhe instaurar o amargor na alma. No fundo, lutamos contra n�s mesmos e nossas dificuldades pessoais. Quando nos protegemos, alegando cansa�o do meio esp�rita, em verdade, estamos cansados de n�s. A pergunta que fiz instigou a curiosidade de outros companheiros no grupo. S�rgio, jovem militante das fileiras esp�ritas no nordeste, questionou: Professor C�cero, trouxe das minhas atividades doutrin�rias uma vis�o muito confiante sobre a tarefa dos dirigentes esp�ritas. Analisando agora, sob o prisma da vida imortal, percebo que s�o portadores de problemas id�nticos ou at� piores a qualquer ser mortal. Responda-me: uma reuni�o de tratamento espiritual como a que prop�s Doutor In�cio ajudar� em que? - Trar� al�vio, colocar� nossos irm�os em processo de desilus�o, enquanto est�o a caminho. Como asseverou voc� mesmo, esp�ritas s�o pessoas comuns. N�o s�o dotados de qualidades ou recursos que os impe�am de viver as dores humanas. Tem problemas como todos. Entretanto, engalfinham-se em ilus�es acerca de seus pap�is e carregam m�scaras nocivas ao seu pr�prio crescimento. Ali�s, um dos pontos mais usuais de explora��o obsessiva, reside nessa tese que h� muito vem sendo cultuada nos ambientes esp�ritas, fazendo de dirigentes, m�diuns, oradores e lideran�as uma personalidade moralizada e extremamente virtuosa. Temos nisso um perigoso ardil para nossas lutas de opera��o espiritual contra a vaidade e o personalismo. - E como v�o se desiludir? - Ao abrirem o cora��o para buscar ajuda lhes mostraremos, pouco a pouco, a sua real situa��o. Sentir�o ent�o sede de paz e descanso interior. Desistir�o muitos deles de suas "ins�gnias imagin�rias". Desejar�o ser gente comum, discutir e aprender ao inv�s de serem armaz�ns de respostas prontas sobre todos os assuntos da vida. - O senhor acredita que uma simples reuni�o desse porte poder� mudar tanto assim as nossas lideran�as? - Evidentemente, ser� impreter�vel que homens e mulheres esp�ritas formem uma rede de afeto e esperan�a com quem possam comungar suas afli��es e dificuldades. N�o bastar� o al�vio. Inevit�vel que, tomados de nova percep��o sobre si pr� prios, iniciem uma constru��o de ambientes favor�veis em que possam aglutinar outros servidores das linhas de frente, e fazer do ambiente do centro esp�rita um local mais am�vel, doce, encantador para se conviver e revitalizar nosso afeto. - Estaria falando de uma reuni�o de dirigentes na casa esp�rita? - Da� pode derivar infinitas formas de criar essa rede de afetividade e amizade leg�tima. - Uma �ltima pergunta professor: isso � o per�odo de maioridade das id�ias esp�ritas? - Isso � apenas o alvorecer do per�odo da maioridade. Um caminho para que o Espiritismo enregelado no c�rebro, derreta sob o calor dos sentimentos nobres e elevados. Nesses cento e cinq�enta anos de Espiritismo estamos pensando a Doutri na Esp�rita. Chega o instante de senti-la. Educar o cora��o � a maioridade. O avan�o em dire��o aos novos momentos regenerativos da humanidade. Quem pensa Espiritismo, disciplina. Quem sente Espiritismo, renova. Como disse Chico Xavier: quem conhece pode muito; quem ama, pode mais". A maioridade consiste na forma��o de rela��es humanit�rias. Aplainar o trajeto do c�rebro at� o cora��o para que a informa��o esp�rita, armazenada como cultura, transforme 14. Ora��es de Chico Xavier - autor Carlos Baccelli em criatividade, bem-estar e alegria pisos emocionais dos relacionamentos sadios. Tais rela��es humanizadoras far�o sentir a necessidade da reinven��o de nossas pr�ticas doutrin�rias, m�todos mais adequados �s necessidades morais dos conjuntos. Assim, vamos pensar o Espiritismo a partir de n�s, contextualizar, distanciando do dogmatismo que � a atitude de adotar cren�as definitivas e indiscut�veis acerca do que seja a doutrina, oriundas de interpreta��o pessoal ou passada por outras pessoas. A doutrina contextualizada ganha vida e fulgor. A maioridade vem junto com a diversidade. Na atualidade observa-se a desgastada repeti��o de comportamentos formais nos quais escondemos atr�s de pap�is como m�diuns, oradores, evangelizadores, presidentes. O institucional sufoca o humano criando padr�es aceit�veis. Um debuxo sobre a pr�pria proposta da doutrina que � a autenticidade, o rompimento com o verniz das conven��es e cerim�nias. Meus disc�pulos ser�o reconhecidos por muito se amarem,15 afirmou Jesus. O amor n�o est� na cabe�a, nem na exterioridade. O sentimento educado que estabelece novas atitudes � o tra�o fundamental da maioridade das id�ias esp�ritas. Dando seq��ncia, um outro colaborador ponderou: - Todos os centros receber�o o chamado para este momento novo? - A comunidade esp�rita de forma generalizada est� recebendo este apelo de Mais Alto em larga escala. Chamados todos s�o, quem se far� escolhido? Mateus, cap�tulo vinte e dois, vers�culo quatorze enfatiza: "Porque muitos s�o chamados, mas poucos escolhidos." Nem todos, como � natural, ser�o convocados da forma como ocorreu no Grupo X, mas no cora��o dos esp�ritas 15. Jo�o, 13:35 mais sens�veis est� claro que vivemos um novo ciclo, um novo instante. Os ambientes da doutrina clamam, em resson�n cia natural, por um momento novo, mais pac�fico, mais harmonioso e produtivo para nossas fileiras de amor-crist�o. - Qual o maior desafio a esse per�odo de maioridade Professor? - Nosso orgulho. - Por qu�? - Porque a proposta b�sica desse novo tempo reside na mudan�a de atitude. A atitude de amor como diz Doutor Bezerra. Se nos sensibilizarmos com as id�ias, t�cnicas e novas iniciativas que venham a somar em favor dessa edifica��o espiritual, sem renovarmos a atitude em rela��o a elas, nada mais estaremos fazendo que colocar remendo de pano novo em pano velho ou vinhos novos em odres antigos, conforme narra Mateus, cap�tulo nove, vers�culo dezesseis e dezessete. Estaremos, portanto, iniciando um processo de institucionaliza��o do novo. - Qual a seguran�a para que isso n�o ocorra? - Prezar as diferen�as. Ter atitude de diversidade. Quem queira em qualquer inst�ncia ter b�ssolas exatas na m�o, estara trilhando o caminho da fascina��o pelo que faz e realiza. � a forma mais ardilosa de a��o do orgulho. Cada um fa�a o melhor de si sem desejar ser modelo para os outros. E cada qual tire do trabalho alheio o melhor para sua pr�pria experi�ncia sem querer se tornar uma c�pia de ningu�m. A palavra originalidade � fundamental nesse processo de edifica��o do novo. Cada grupo ou pessoa, encontrando sua pr�pria caminhada, ouvindo a voz de seu cora��o, descobrindo sua miss�o pessoal e grupal. Prezar as diferen�as significa valorizar o servi�o de outrem, compreender pelas fontes do cora��o que todas as vivencias s�o ricas de aprendizado e eleva��o. Abandonar a disputa insana pelo certo e errado. Qual de n�s nessa seara esp�rita pode com certeza apontar o rumo certo para a vida de quem quer que seja? O pr�prio Pai-criador estabeleceu o livre-arb�trio porque seria uma loucura querer interferir na intimidade conscial de Seus filhos. Os homens esp�ritas est�o sendo convocados a mais amplas verdades. O Espiritismo apenas come�ou seu processo revelador na Terra. Muito pouco foi dito, apesar da import�ncia do que se enviou � humanidade sobre a vida imortal. Determinar limites de pureza aos princ�pios j� revelados � tentar deter uma espiral inviol�vel na qual a Verdade, a cada volta nessa espiral, toma conota��es amplamente vari�veis e mais profundas. Infelizmente, observa-se que nossa velha tend�ncia arrogante fez, em nossa mente de disc�pulos esp�ritas, com que os princ�pios doutrin�rios n�o passassem de bases religiosas que inalte�am nossa cultura, nossa soberba com a qual procuramos import�ncia pessoal. Pouqu�ssimos fizeram da cultura esp�rita um projeto de liberta��o da consci�ncia. Essa certamente a raz�o de Paulo ter afirmado: "Na verdade � j� realmente uma falta entre v�s, terdes demandas uns contra os outros. Por que n�o sofreis antes a injusti�a? Por que n�o sofreis antes o dano?" (I Cor�ntios, 6:7 ) Cap�tulo 13 Nos Bastidores das Atitudes Porque n�o h� coisa oculta que n�o haja de manifestar-se, nem escondida que n�o haja de saber-se e vir � luz. Lucas, 8:17 Verificando que o professor parou por instante, S�rgio novamente retomou a palavra. - O senhor acredita que nossos irm�os do Grupo X v�o aceitar a proposta? Eles t�m liberdade de escolha. Certamente n�o far�o uma ruptura instant�nea com estatutos e regimentos que determinam seguir Kardec e Jesus, mas que, em verdade, muitas vezes, os afastam dessa finalidade superior. - Afastam como, professor? - O que significa seguir Kardec e Jesus? J� parou para pensar? Voc�, S�rgio, assim como eu, e todos aqui nesse pequeno grupo est�o desencarnados, concorda? - Sem d�vida, professor! - Voc�s viram In�cio se comunicando, n�o viram? - Sim, vimos - respondeu S�rgio por todos. - Perceberam a fidelidade do m�dium Antonino, n�o � mesmo? - Claro! Aonde o senhor quer chegar? - Somos os Esp�ritos da doutrina, n�o somos? - N�o entendi, professor! - A doutrina n�o � dos Esp�ritos? - Sim. - Ent�o quem s�o esses Esp�ritos? - N�s? - Sim, � claro. Se n�o formos n�s e todos quantos podem levar sua mensagem ao mundo, quem ser�o esses Esp�ritos? - Ainda continuo meio sem entender! - A �nica seguran�a para que o Espiritismo no mundo alcance suas metas ser� manter um elo com a Imortalidade da alma da Doutrina Esp�rita. Sem isso, o Espiritismo n�o passa de um belo conjunto de ensinos morais e filos�ficos. Espiritismo acontece na rela��o com a base de sua origem divina, isto � os Esp�ritos. Sem eles, como produzir horizontes sobre vida imortal? Espiritismo com Esp�ritos essa � a proposta para o Grupo X e todos os grupos que se erguem em nome da doutrina. - Mas os irm�os encarnados n�o mant�m esse elo atrav�s dos ensinos dos livros medi�nicos? - N�o, S�rgio. N�o mant�m. - E por que n�o? - Porque essa atitude, sem a pr�tica medi�nica mais ampla, � a morte da diversidade, da originalidade, da singularidade, das experi�ncias. Por essa raz�o a comunidade doutrin�ria ra ramente apresenta uma nova percep��o sobre mundo espiritual, repetindo livros, id�ias e pr�ticas j� adotadas h� mais de cem anos. Devemos seguir o exemplo do codificador que, dotado do mais fino e �tico esp�rito investigativo, publicou a obra ma gistral O C�u e o Inferno na qual deixou, espontaneamente, as almas falarem das suas viv�ncias, de suas dores e felicidades. Esse comp�ndio � o resultado do contato natural com o mundo dos Esp�ritos. Um exemplo para nosso momento de maturidade nas viv�ncias doutrin�rias. - O senhor estaria dizendo que os livros medi�nicos ent�o n�o servem para inspirar as atividades? - Para inspirar sim. Para fazer c�pias, por�m... - Com os livros tivemos no��es claras de mundo espiritual e suas leis! Claras mas n�o completas. Nisso reside o problema. O homem esp�rita foi educado para entender que os livros abenulos surgidos, at� hoje, com a mediunidade no seio do movimento esp�rita completam a realidade espiritual, como se quem os lesse estivesse formado nas letras da alma. Os livros, at� hoje, editados no mundo, sobre a vida extra-f�sica s�o uma pequena ponta do v�u que ainda h� de se abrir para os povos, acerca do universo e da vida. A conseq��ncia disso � que tudo que vai al�m ao que est� ensinado nos chamados "livros seguros", vindos de "fontes seguras", s�o reprovados sem restri��es, formando um "per�metro cultural de aceita��o consagrada". Saiu disso � mistifica��o, animismo, problemas de filtragem e outras . conjecturas. Voltando � sua pergunta, observe que daqui para o mundo aconteceram dezenas de precau��es e iniciativas para que a comunica��o de In�cio constitu�sse um chamado seguro aos nossos irm�os. Vejam quantas barreiras ainda teremos a vencer para instaurar esse novo tempo de maioridade. A Verdade brilhou l�mpida e misericordiosa em favor do Grupo X, entretanto, estando dentro da aldeia de suas concep��es, assim como o cego de Betsaida, narrado em Marcos, cap�tulo oito, vers�culo vinte e dois, eles ter�o enorme dificuldade para olhar a luminosa oportunidade de reden��o. Jesus na passagem referida tira o cego pela m�o para fora da aldeia e, somente depois, efetua a cura. Vivemos esse momento nos ambientes da doutrina. A necessidade de um arejamento mental, sair dos limites da aldeia das restri��es e avan�ar em dire��o ao convite do Mestre que pede a m�o do trabalho �rduo de renova��o, para nos livrar dessa ilus�o que nos cega espiritualmente. Sem sombras de d�vida, repetimos com o Espiritismo o que fizemos com a mensagem do Cristo. Oficializamos par�metros. O que � aceit�vel e o que n�o �; atitude pr�pria de seres com no��es pequenas de universalidade e leis c�smicas. Elegemos par�metros r�gidos e imut�veis, enquanto isso o amor � banido da conviv�ncia. Em nossas tarefas socorristas aos centros esp�ritas, temos presenciado libelos difamat�rios e repletos de exclus�o por conta de diferen�as de interpreta��o doutrin�ria. Em valorosa institui��o, tivemos um caso de profunda perturba��o, porque determinado companheiro adotou o abra�o aos pacientes ap�s oferecer o passe. Em outra localidade, uma diretoria de irm�os com larga fatia de viv�ncia doutrin�ria entrou em azeda disc�rdia para determinar de qual a cor deveria ser pintado o centro esp�rita, causando preju�zos lament�veis �s rela��es. Ti vemos um pedido inusitado que nos rendeu meses de trabalho por conta de uma quantia financeira desaparecida do caixa de uma casa esp�rita, cuja acusa��o foi dirigida ao mais novato dos diretores. Uma desconfian�a infundada que teve como efeito m�goa e rancores, para depois descobrirem que, em verdade, nada passou de um erro de contabilidade. Por pouco, a pol� cia n�o foi envolvida. Em uma agremia��o respeit�vel, tivemos um epis�dio de rivalidade sem precedentes. Um m�dium de excelentes qualidades morais e doutrin�rias, rec�m transferido de cidade, procurou recomendada casa suplicando trabalho e oportunidade. Ao lhe ser concedido o ensejo foi alvo das mais cru�is farpas de ci�me e inaceita��o, t�o-somente, por ser ex�mio vidente. Raramente a no��o do verdadeiro trabalho crist�o aparece em nossa alma. Somos ainda dominados por feudos psicol�gicos. Sentimo-nos donos dos espa�os que temos sob a nossa responsabilidade. Alegando a n�s mesmos que compete-nos zelar pelo bem das atividades, mantemos cativos de velhas sombras sentimentais que n�o permitem abertura para os valores alheios. Uma n�tida sensa��o de import�ncia domina os refo lhos da vida mental, a partir dos cargos e deveres colocados em nossas m�os. Um quadro que ocorreu nas fileiras do cristianismo nascente repete-se agora. Temos novos doutores da lei que acham que sabem tudo sobre Espiritismo, e podem ditar normas e rubricar a Verdade. Esquecemos que a liberta��o da consci�ncia n�o est� naquilo que nos � emprestado, mas no que fazemos com o que nos � temporariamente confiado. Dever�amos portanto, todos os dias, na condi��o de deposit�rios dos Tesouros Celestes indagar: estou fazendo o melhor com os talentos que me foram confiados? Calando-se por um momento, S�rgio retomou o assunto. - Professor C�cero, que fazer para mudar esse quadro lament�vel? - Adotar a postura de imperman�ncia. Adotar a sabedoria de Ananias que ao ser chamado por Jesus para curar os olhos de Saulo disse: "Eis-me aqui, Senhor", conforme narrativa dos Atos dos Ap�stolos, cap�tulo nove, vers�culo dez. Estamos ainda muito aprisionados a n�s pr�prios em raz�o de nosso ego�smo milenar. Saindo do raio das concep��es pessoais n�o conseguimos dar um passo adiante. Somente o sentimento de amor quebrar� essa espessa camada de preconceitos, que faz de nossa vida mental um pres�dio intelectual com cadeados maci�os e enferrujados. Allan Kardec, no cap�tulo dezenove de O Evangelho segundo o Espiritismo, no item tr�s nos diz: "A f� sincera e verdadeira � sempre calma; faculta a paci�ncia que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de apoio na intelig�ncia e na compreens�o das coisas, tem a certeza de chegar ao objetivo visado. A f� vacilante sente a sua pr�pria fraqueza; quando a estimula o interesse, torna-se furibunda e julga suprir, com a viol�ncia, a for�a que lhe falece. A calma na luta � sempre um sinal de for�a e de confian�a; a viol�ncia, ao contr�rio, denota fraqueza e d�vida de si mesmo. Temos que cuidar para que, ao inv�s de raciocinada, nossa f� n�o seja racionalizada. - F� racionalizada?! - indagou o jovem nordestino. - � a f� de cabe�a, meu filho. Aquela que � mais raz�o que cora��o. � a f� pensada, ilus�ria. Aquela que � alimentada pelo ponto de vista pessoal, incapaz de ir al�m. - Podemos cham�-la mesmo de f�? - Talvez convic��o e cren�a fiquem at� melhor. No trecho seguinte no cap�tulo dezenove, Allan Kardec discorre: "Cumpre n�o confundir a f� com a presun��o. A verdadeira f� se conjuga � humildade; aquele que a possui deposita mais confian�a em Deus do que em si pr�prio, por saber que, simples instrumento da vontade divina, nada pode sem Deus. Por essa raz�o � que os bons Esp�ritos lhe v�m em aux�lio. A presun��o � menos f� do que orgulho, e o orgulho � sempre castigado, cedo ou tarde, pela decep��o e pelos malogros que lhe s�o infligidos." - Presun��o, agora sim! Para mim esse nome � mais apro priado! - exclamou S�rgio. - Por nossas rea��es saberemos em que n�vel nos encontramos. Quando serenos ante os embates, a f� verdadeira, sempre calma, estar� guiando nossas atitudes a despeito dos aconteci mentos externos. Sempre intrigado e envolvido afetivamente com os embates do Grupo X, voltei a perguntar: - Nossos irm�os ent�o s�o companheiros sem f�? - Est�o com a f� em florescimento. N�o adquiriram ainda compreens�o. - N�o seria imposs�vel terem compreens�o de uma para ou tra hora, professor? - indaguei querendo defender a postura dos nossos companheiros reencarnados. - Sim, Jos� Mario. Voc� tem raz�o. N�o se adquire compreens�o instant�nea, � fruto de um processo. Todos n�s, por�m, temos a nosso dispor, por recomenda��o do pr�prio Evangelho, A proposta do amor acima dos labirintos do aprendizado em que nos encontramos. Se n�o compreendemos, n�o devemos atacar, ter opini�o formada, criticar sem saber. Nisso reside o problema. Uma atitude de orgulho. - Como analisar as rea��es de nossos irm�os do Grupo X ante sua exposi��o, professor? - Ana foi intempestiva, descuidada perante os acontecimentos. Calisto enxergou neles uma oportunidade para sobressair por considerar-se pronto para o chamado. Antonino resvalouc para a inseguran�a criando instabilidade interior. Todas essas rea��es traduzem o esp�rito da f� vacilante, proporcional ao aprendizado adquirido por cada um. Somente a f� guiada pela compreens�o estabelece equil�brio. - Como dever�amos ent�o proceder diante do novo? Qual seria a postura ideal de nossa comunidade esp�rita ante esse prenuncio de maioridade? - O Mestre j� nos ofereceu essa resposta quando enunciou em Jo�o, cap�tulo treze, vers�culo trinta e cinco: "Nisto todos conhecer�o que sois meus disc�pulos, se vos amardes uns aos outros." Sabemos disso h� muito tempo e ainda n�o conseguimos colocar o amor acima dos nossos interesses particularistas. Dizendo servir aos interesses do Mestre, servimos, em muitas ocasi�es, ao personalismo enfermi�o que ainda nos carcome as estruturas sutis da alma. Inegavelmente, podemos afirmar que n�o desejamos conscientemente o mal e estamos procurando o bem. Damos, portanto, os primeiros passos na dire��o da arte de amar. Incipientes ainda nesse aprendizado, nosso amor come�a a brotar nos refolhos do ser. Nosso desafio maior consiste em dinamiz�-lo em a��es concretas pelo bem que j� ansiamos. - N�o seria ent�o mais adequado chamar esse tempo de maioridade de per�odo do sentimento e n�o da atitude, professor? O discurso Atitude de Amor de Doutor Bezerra16 que inaugurou essa etapa n�o deveria ser chamado Sentimento do Amor? - Com todo o saber angariado com a doutrina, renovamos nossa forma de pensar, mas com escassos avan�os no sentir e quase nenhum na a��o. Por essa raz�o sentir amor sem conduta amorosa, ter emo��es nobres sem benevol�ncia ativa, � o mesmo que ter um tesouro do qual n�o se pode valer. Jesus � muito claro em utilizar o verbo indicador da atitude quando em Mateus, cap�tulo cinco, vers�culo quarenta e sete, ele inter roga: ( ) que fazeis de mais?" Ou seja, o que estamos fazendo de especial. Que atitudes diferenciais nos colocam em sintonia, para sermos reconhecidos como seus disc�pulos? O verbo usado � fazer e n�o sentir. - Seria o agir mais importante que o sentir? - A quest�o n�o � de import�ncia e sim de prioridade. Para quem discursa sem fazer h� mil�nios, a atitude � palavra de ordem. Todavia, nesse momento cl�max da humanidade, n�s esp�ritas, somos conclamados, em regime de urg�ncia, a estimular uma campanha na renova��o dos sentimentos. Sem um servi�o de educa��o emocional e moral n�o lograremos mudar muitas de nossas formas de agir. - Onde o orgulho nos prejudica nessa caminhada a ponto de Doutor Bezerra denomin�-lo como sendo nosso maior ini migo? - Mesmo desejosos do amor, temos, contra nossos anseios de luz, uma pesada fortaleza de imperfei��es a sufocar o idealismo nascente. Com a cultura espiritual sedimentada nas depend�ncias do pensamento, fomos assaltados pelo sentimento de orgulho que lesou o departamento da imagina��o no qual se aloja a imagem do "eu". Essa invas�o causou-nos uma agrad�vel sensa��o de valor pessoal, elevando nosso auto-julgamento ao patamar de ilus�o. Assim, muitos de n�s esp�ritas, passamos a ser dominados por uma das mais conhecidas muta��es do orgulho: a presun��o, com a qual embalamos sonhos de infalibilidade, poder e individualismo. A aquisi��o da cultura da alma, aben�oada em suas finalidades, terminou ensandecendo nossa mente com id�ias de suposta maioridade espiritual. Sentimo-nos grandes por deter algumas respostas sobre os enigmas da vida e doarmos alguns pratos de sopa, fundarmos casas de caridade e promovermos algumas iniciativas louv�veis. Ningu�m pode contestar o valor de tais a��es, elas, por�m, n�o nos tornam paladinos do amor crist�o. S�o apenas os primeiros movimentos depois de mil�nios de tresloucada ilus�o e paralisia mental no bem. Nossa hist�ria evolutiva � marcada por desvios clamorosos. Assim como o Filho Pr�digo do Evangelho, abandonamos o roteiro de ilumina��o que nos estava destinado e optamos pelos descaminhos do ego�smo. O efeito desse trajeto desvairado foi o vazio existencial expressado em sutil e cruel sentimento de car�ncia e incompletude, que alicer�a inumer�veis estados psicol�gicos e emocionais da alma nos �ltimos dez mil anos da Terra. Essa car�ncia espiritual responde pelos estados �ntimos de inquietude, inseguran�a, abandono e baixa-estima que, consorciados com a culpa e o medo, atiram o ser nos tormentosos abismos da loucura e da solid�o. Diante desse quadro lastim�vel, por instinto natural de defesa, o orgulho humano criou um complexo processo psicol�gico de prote��o ante a sensa��o e fragilidade e impot�ncia. Nasceu a arrog�ncia, isto �, o ato neur�tico de disputa pela condi��o de ser o melhor. Atrav�s da compara��o, passamos ent�o a viver um mecanismo mental de escolha por disputa, sob indu��o dos impulsos da inveja, completando o ciclo de tirania do ego. Ouv�amos o Professor C�cero como se fosse um curso intensivo de aprofundamento em nossa alma. Meu desejo era gravar tudo que ele falava. N�o perder uma s� palavra. Para minha alegria, essas reuni�es de trabalho s�o todas filmadas no Hospital Esperan�a e mantidas em acervo p�blico na biblioteca central. Evitei fazer outras perguntas com receio de incomodar o grupo. Como ningu�m tomava a palavra, uma senhora, que foi esp�rita atuante na �ltima reencarna��o, nas terras de Alagoinhas, estado da Bahia, prop�s nova reflex�o. - Professor - falava ainda com o t�pico sotaque cantado dos baianos -, minha mente n�o se desprende dos irm�os que ora estamos auxiliando no Grupo X; enquanto o senhor explicava, tentei entender alguns pontos, no entanto, sinto-me confusa, falta um elo. Os conflitos de nossos companheiros s�o frutos de orgulho? Estariam se desentendendo por sentirem-se muito importantes? - Pergunta muito oportuna, Tereza! - Manifestou com alegria o professor. Em um grupo esp�rita no qual n�o se pode revelar um romance l�cito como o de Calisto e C�ntia em raz�o de poss�veis ci�mes, o que est� por tr�s dessas rela��es? Como j� mencionamos, Ana ao ser emancipada fora do corpo n�o fez queixa alguma do Grupo X, resguardando-se em suas ang�stias interiores. Nos bastidores dos relacionamentos somente o peso de nossas imperfei��es pessoais � capaz de determinar rumos e alterca��es consider�veis. Conflitamos, em verdade, conosco pr�prio. Quem guarda serenidade e equil�brio relativamente ao seu mundo subjetivo, apresenta melhores possibilidades de conviver sadiamente. Ana est� mais confusa que vivendo o orgulho em de si, embora tenha sido aprisionada em lances de personalismo com a fun��o de diretoria. Seu estado mental deriva da car�ncia de afeto. Vou lhes fazer uma revela��o que ainda n�o sabem para compreenderem melhor os aspectos subliminares das rela��es humanas. Ana est� apaixonada por Antonino e n�o admite. - Professor! - exclamou Tereza. Verdade?! Como dir�amos no ditado popular: uma paix�o recolhida? A revela��o causou-nos uma mudan�a de humor instant�neo. As d�vidas e os sentimentos alteravam-se como um caleidosc�pio. Uma novidade que fazia-nos prever novas dimens�es dos dramas em quest�o. - Isso mesmo, minha prezada Tereza. Uma paix�o reprimida. H� alguns anos trabalhando com Antonino, tornou-se �ntima e permitiu fantasias afetivas ante as dores de sua car�ncia cr�nica. Da admira��o pela disciplina e ren�ncia de Antonino, passou a sentir carinho e depois um afeto particular regado de sonhos imposs�veis. Ela nunca abriu a boca para dizer uma s� palavra. Nem mesmo o m�dium desconfia de semelhante acontecimento. Vivendo entre culpas e desejos insatisfeitos, o sentimento reprimido de Ana transformou-se em fornalha crepitante a queimar os tecidos sens�veis da sua sensibilidade. - S�o os tais sentimentos n�o resolvidos referidos pelos psic�logos? - Sim. - Que conseq��ncias tudo isto teve na vida de Ana? - Sentimentos reprimidos constroem a sombra, essa parcela da vida mental que tentamos ignorar. O fato de guardar segredo � visto por ela como uma virtude, um ato de ren�ncia. Entretanto, a virtude � gestada no clima da paz interior. Ana � t�o repressora em rela��o a esse assunto que nem mesmo fora do corpo naquela noite se referiu ao m�dium Antonino. O efeito mais nocivo desse ato de mentir para n�s mesmos em rela��o aos sentimentos � a ang�stia que carregamos, o conflito improdutivo, o estado �ntimo de mal-estar que se instala em ciclos alternados de tristeza ou efusiva alegria. Ana est� no grupo de risco das depress�es. Sua condi��o �ntima � uma estufa ps�quica geradora da insanidade progressiva. Como diz Lucas, cap�tulo vers�culo dezessete: "Porque n�o h� coisa oculta que n�o haja de manifestar-se, nem escondida que n�o haja de saber-se e vir � luz." - Como resolver isso, professor, sendo uma mulher casada. Acha que ela... - e preferiu n�o completar a frase por saber que o nosso interlocutor compreenderia a pergunta. - N�o, Tereza! N�o creio que a solu��o seja assumir rela��es extraconjugais, mas assumir para si mesmo o que sente e trabalhar seus sentimentos. A cultura de nossa comunidade esp�rita � gestora de alguns h�bitos prejudiciais ao crescimento espiritual. Tratamo-nos como tarefeiros dentro do centro esp�rita. Nossos la�os s�o estruturados em conceitos que formam alguns modelos de conduta, estere�tipos. Quando h� uma forma diversa de agir causa estranheza e at� mal-estar. Nossos m�todos de trabalho doutrin�rio estimulam a coletiviza��o, a uniformidade. O diferente � recha�ado, qui�� repudiado. Acostumamo-nos a essas rela��es sem conhecermos uns aos outros com a devida e necess�ria profundidade. Assim, quem se dedica ao passe recebe a ins�gnia de passista e como passista ele deve apresentar com aquele predicado. Quem atua na mediunidade � m�dium, portanto, um candidato ao contato santo com o al�m. O orador � o disseminador de cultura, dessa forma passa a ser percebido como o companheiro dotado de saber e eleva��o. Cultuam pap�is nas rela��es e nem sempre respeito e afeto pela pessoa humana. E como cada qual nisso encontra um est�mulo para esquecer o seu "outro lado", sombrio e repleto de dores, passa adotar por conveni�ncia e compensa��o as suas capas esp�ritas, com elas se embevecendo. Por de traz da Ana, presidenta do centro esp�rita, querida e procurada por todos, est� uma mulher culpada. Ningu�m da casa lhe conhece as dores amargas. Ela nunca as compartilhou. Em seu primeiro casamento h� quase duas d�cadas, al�m de fama de esbanjadora, teve uma trai��o conjugal nunca revelada. N�o se sabe at� hoje, se ela sofreu mais com a infidelidade revelada do marido a quem ela dizia amar, ou se com a atitude impensada cometida com o melhor amigo de seu pr�prio -esposo. O tempo calou a voz dos segredos. A consci�ncia de Ana, no entanto, iluminada pelo conhecimento espiritual exarou uma peti��o austera e ininterrupta. Dificilmente passa um dia sem que a sombra da lembran�a a fustigue com o arrependimento. Suas altera��es de humor e a frustra��o �ntima s�o alicerces emocionais para a suscetibilidade. Uma pessoa potencialmente mago�vel. Com uma disposi��o � ofensa. N�o bastasse, na inf�ncia, recebeu maus tratos e abusos corporais. Em outras palavras, quem olha para a presidenta no centro n�o sup�e o farnel de sofrimento carregado por ela. Ao reagir imtempestivamente, abandonando a reuni�o medi�nica ante a comunica��o de In�cio, simplesmente ela est� pedindo socorro. O limite. Enfim, ela mal est� dando conta de si mesma, de seus sentimentos. Por muito menos que essa atitude cl�max, no dia a dia, a nossa irm� Ana tem agido e reagido sob coer��o dos seus estados interiores ignorados por todos. Suas a��es na casa s�o reflexos do seu temperamento. Ningu�m ultrapassa aquilo que realmente �; muitas de nossas a��es, palavras e decis�es causam inc�modos a muitas pessoas. Para Calisto, Ana est� assediada pelas trevas. Para Ana, Calisto � um articulador. Sobram r�tulos e certezas, julgamentos e ofensas. A par disso, o cerne de toda quest�o � deixado, inconsequentemente, de lado: nossos sentimentos. N�o os assuMimos, muitas vezes por desconhec�-los. N�o os discutimos, muitas vezes por vergonha. Essa � a grande batalha de Ana, sua paix�o. Nos bastidores das atitudes escondem-se uma infinita gama de complexos afetivos, traumas e feridas emocionais que geram conflitos, frustra��es e desequil�brio. Por isso, muitas atitudes s� renovam com o trabalho educativo das emo��es. Estamos na era do cora��o. O s�culo XXI inaugurou o tempo do amor aplicado. Renova��o dos sentimentos. - Como professor? Como fazer isso? Sinceramente, o senhor sabe bem a raz�o, tenho muitas d�vidas sobre essa coisa de Renovar sentimentos! - indagou Tereza com certa apreens�o - Conhecendo a si mesmo. - Como se faz isso? - Tereza, sua ang�stia sobre esse tema parece ter sido a mesma do codificador que, intrigado em como se conhecer replicou aos S�bios Guias da Verdade na quest�o novecentos e dezenove: "Conhecemos toda a sabedoria desta m�xima, por�m a dificuldade est� precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?" A resposta l�cida veio de Santo Agostinho cujo cerne consiste em interrogar a consci�ncia. O tempo de maioridade do Espiritismo vir� exatamente desse processo de esquadrinhar nosso ser interior. Saber dar nome aos nossos sentimentos. Aprender a separar sentimentos, atitudes, estados, sensa��es e valores morais. Ana diz-se entristecida com as ocorr�ncias do Grupo X, quando, em verdade est� magoada com a vida que leva. Amargura-se com a melhor decis�o a tomar na pr�xima reuni�o medi�nica, entretanto, h� bom tempo j� perdeu o gosto com a tarefa e n�o admite. Emite sorrisos p�lidos dentro do centro e est� prestes a ter uma crise nervosa. Foge de si mesma o tempo todo. Os centros esp�ritas do s�culo XXI ser�o escolas do Esp�rito nos quais, al�m de princ�pios basilares da doutrina, estaremos estudando sobre a arte de conviver com amor. Al�m de estudos sistematizados do Espiritismo, estaremos fazendo estudos sistematizados de si, buscando um contato mais harmonioso conosco pr�prios. Ent�o nossas tarefas de caridade e instru��o ter�o encanto e fulgor. Nossos ambientes ser�o pra�as de alegria e conv�vio fraternal. Calisto tem uma personalidade acentuadamente arrogante. Com ares de sabedoria e experi�ncia de vida, tem agido com altivez e dissimulada inten��o de conduzir todos os caminhos. Acredita-se sempre portador da vis�o mais ampliada sobre as lutas e necessidades alheias, o que o torna, constantemente, controlador. Ana � insegura e espalha a m� vibra��o atrav�s da l�ngua, criando climas delet�rios e fazendo conchavos indesej�veis para o trabalho na condi��o de presidenta. Chegou a oferecer a C�ntia a vice-presid�ncia na pr�xima elei��o caso apoiasse o plano de reestruturar o servi�o assistencial da casa. Calisto tinha explica��es na ponta da l�ngua sobre todas as ocorr�ncias envolvendo o Grupo X e suas tarefas, Via as trevas agindo em todas as situa��es. Ana supunha que havia encontrado velhos elos do passado em Antonino. Ningu�m, em tempo algum, cogitou em analisar as portas por onde adentram a perturba��o obsessiva, e as recorda��es das vidas sucessivas, isto �, quais os pontos emocionais de liga��o com a obsess�o e o pret�rito. Para n�s, por�m, s�o todos enfermos em busca de recupera��o e soerguimento consciencial. Mesmo conhecendo suas Imperfei��es, procuramos o lado melhor de todos. Calisto com sua t�mpera � um idealista incans�vel e Ana, uma tarefeira disciplinada e persistente. Ambos est�o com a cabe�a repleta de conhecimentos espirituais que n�o sabem como administrar, para criar a homogeneidade de ideais, apaziguarem as diferen�as, catalisarem os interesses e por em pr�tica a instru��o espiritual que angariaram. Rar�ssimos s�o aqueles fora dessa condi��o na comunidade esp�rita. Guardam inten��o nobre em raz�o dos esclarecimentos adquiridos nas orienta��es liter�rias da doutrina, entretanto, sentem-se impotentes para gerenciar seu mundo emotivo na dire��o do equil�brio e da serenidade. S�o portadores das chaves da liberta��o, sem saberem como us�-las para abrir as celas que encarceram os desejos e aspira��es de ascens�o. Muito Espiritismo na cabe�a e cora��o vazio de paz. Um farol intelectual que clareia os caminhos para muitas pessoas e n�o ilumina os dep�sitos sombrios da vida interior de si mesmos. Instru��o que n�o gera amor. - Professor - voltei a falar, interrompendo a fala de Tereza -, ser� uma an�lise descuidada de minha parte ou o senhor n�o incluiu o m�dium Antonino nessa condi��o de conhecimento sem aplica��o? - N�o foi descuido seu, Jos� Mario. Antonino apresenta, de fato, condi��es muito especiais no campo moral que s�o esperan�as alvissareiras em nosso Hospital. - Podemos saber a raz�o? - Claro! Estamos aqui para isso mesmo, informar para melhor auxiliar. Antonino � um dos m�diuns que comp�em a gera��o solid�ria,17 aquele grupo de oitenta Esp�ritos preparados por Doutor Bezerra para arar o terreno em favor desse tempo de maioridade. Eis a raz�o de medidas especiais solicitadas por Eur�pedes Barsanulfo. - Ele � t�o importante assim, professor? - expressou com espontaneidade o jovem S�rgio. - N�o se trata de import�ncia e sim de responsabilidade. Antonino � uma pessoa comum. A mediunidade, por si s�, n�o lhe qualifica em nada comparativamente a qualquer outra crcriatura. Sua miss�o, por�m, delegada pelo venerando ap�stolo do bem, Bezerra de Menezes, � credora das mais amplas aten��es e interesses de nosso plano. - H� algo que o qualifique para essa miss�o? - Devido a algumas habilidades desenvolvidas, ele apresenta condi��es de cumpri-la a contento. No campo moral, no entanto, ele ainda tem pela frente o desafio da transforma��o como qualquer um de n�s. Nova e agrad�vel surpresa colheu a todos indistintamente. As revela��es evocadas pelo professor ampliavam, sobremaneira nossa avalia��o das experi�ncias em curso. Surgiram manifesta��es gerais sobre as novidades. At� mesmo os mais calados expressaram algo. Em meu �ntimo, as abordagens daquela hora faziam-me ainda mais envolvido com a hist�ria do Grupo X e com seus personagens. Antonino revelara-se aos meus olhos como algu�m credor do mais amplo amparo. Ficava mais compreens�vel todo drama vivido por aqueles companheiros queridos. Uma nova disposi��o tomava meu cora��o ao pensar na solid�o afetiva de Ana e nos desafios do m�dium. Tivemos autoriza��o para ler ali mesmo as fichas reencarnat�rias de Calisto, Ana e Antonino. At� ent�o nossas perspectivas de an�lise resumiam-se aos epis�dios recentes. Os dados bibliogr�ficos, por�m, fizeram muitos de n�s chorar diante da dor e da esteira de lutas do trio. Nos bastidores do Grupo X predominavam, em verdade, dramas inspiradores de piedade e caridosa sensibilidade. Ainda debatemos por alguns instantes, mesmo sob forte Impacto emocional, acerca de nosso h�bito positivista de separar a vida que tivemos daquilo que somos na casa esp�rita. Costumamos passar uma borracha e apagar o que ficou para tr�s antes de nossa ades�o �s fileiras doutrin�rias. Com isso n�o aferimos o quanto, imperceptivelmente somos dirigidos pelos efeitos emocionais da inf�ncia e da juventude, que n�o se apagam no terreno da vida mental. � dado um foco excessivo �s vidas passadas e �s interfer�ncias obsessivas, entretanto, logo ali, nos primeiros anos decorridos na vida de cada um de n�s encontram-se marcas emocionais determinantes de nosso presente. A reuni�o nos fez abandonar quaisquer r�tulos. Todos se tor naram impr�prios e injustos. As respostas precisas e crist�s do Professor C�cero Pereira eram um atestado da Verdade. Os esp�ritas que chegavam ao Hospital Esperan�a n�o traziam como principal problema a obsess�o ou os reflexos das reencarna��es. Mesmo cientes da influ�ncia dessas for�as na jornada evolutiva do Esp�rito, a mais �rdua batalha dos que aqui chegam �, sem d�vida, o fato de desconhecerem a si mesmos e terem que se olhar sem o amortecedor do c�rebro f�sico. Enquanto na carne, somos protegidos de n�s mesmos. Cada noite de sono f�sico � uma viagem ao mundo �ntimo de n�s pr�prios. O sono n�o tem por fun��o somente o refazimento celular. Sobretudo, � uma ocasi�o para n�o esquecermos totalmente quem somos. Os primeiros minutos de cada dia, logo ao despertar, deveriam ser os momentos mais utilizados para o auto-conhecimento. � quando ainda estamos em freq��ncia mental e cerebral que nos permite romper "espa �os qu�nticos" e examinar escaninhos da alma. As chamadas tend�ncias inatas e os processos de a��o espiritual obsessiva sob essa �tica s�o excelentes oportunidades de auto-descobrimento. Sob indu��o do passado ou coer��o de advers�rios, continuamos sendo n�s mesmos e os �nicos respons�veis pelas nossas a��es, sentimentos e pensamentos, enquanto guardamos a m�nima lucidez para decidir. Passado reencarnat�rio e obsess�o s�o press�es mentais lapidadoras, cujo prop�sito divino � burilar a canga evolutiva e resgatar o diamante do self em plenitude dentro de cada um de n�s. Tend�ncias do pret�rito e coa��o de inimigos integram a Lei Natural da vida devolvendo-nos o que nos pertence na Grande Obra do Criador. Portanto, sob a �tica do progresso, constituem avisos educativos a nos recordar, continuamente, as nossas reais necessidades de aperfei�oamento. Alguns integrantes da reuni�o ainda consultaram o professor sobre o passado dos nossos amigos. Sabiamente e com a eleg�ncia de sempre, ele respondeu: "deixai aos mortos o enterrar seus mortos", conforme narrativa de Lucas, cap�tulo nove, vers�culo sessenta. De minha parte, fui absorvido por uma preocupa��o com Antonino, que manifestei ao professor. Ele pediu-me calma e que tomasse algumas provid�ncias esclarecedoras no intuito de auxili�-lo mais de perto em futuro pr�ximo. Iniciaria no dia seguinte uma visita��o mais ass�dua aos m�diuns internados no Hospital. Estava inebriado com a �tica, a eleg�ncia moral com a qual os amigos espirituais tratam as necessidades dos homens no corpo carnal. Sem omiss�o e ao mesmo tempo, com caridade. Diante dessa emo��o brotou espontaneamente a poesia de Jesus narrada em Mateus, cap�tulo cinco, vers�culo sete: "Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcan�ar�o miseric�rdia." Cap�tulo 14 Quem S�o os M�diuns? Temos, por�m, este tesouro em vasos de barro, para que a excel�ncia do poder seja de Deus, e n�o de n�s. II Cor�ntios, 4:7 No meu primeiro dia no referido pavilh�o dos m�diuns, as tarefas matutinas seguiam seu curso, quando Marcondes,lidador esp�rita da cidade de Goi�nia, chegou � sala de Dona Maria Modesto Cravo onde encontrava-me. Sua presen�a trouxe-me as primeiras li��es em favor de minhas necessidades de entendimento e asserenamento ante os novos aprendizados. Cumprimentou-me e disse: - Bom dia, Dona Modesta! - Marcondes! Bom dia! Que pontualidade!... - Estou aprendendo! De mais a mais n�o me continha em ansiedade pelo nosso encontro. - Por qual motivo? - Fiz uma visita ao pavilh�o dos m�diuns ainda ontem. Passei uma tarde na escola preparat�ria para aqueles que v�o reencarnar com mediunidade. - E... - Posso ser franco? - Nem vou responder. - Dona Modesta, perdoe-me, mas se j� achava os m�diuns um bando de desequilibrados no plano f�sico, agora tenho motivos de sobra para continuar pensando assim. - Por que Marcondes? - Que lugar aquele meu Deus! Mais parece uma cl�nica de doentes mentais! Conversei com alguns deles e os achei transtornados, insoci�veis e tristes. Alguns me pareceram dopados e Estranhos... Conversam pouco e s�o muito fechados. Deram-me a id�ia de estar em permanente conflito. N�o me senti bem por l�! - Sem d�vida, s�o doentes, Marcondes. - Que acontece com eles para adotarem tais comportamentos? - Est�o em estado de remorso. - Estado de remorso?! - � a condi��o das almas falidas que se enredaram no arrependimento tardio. Carregam culpas inconfess�veis e lembran�as atordoantes do que fizeram na rec�m-finda reencarna��o, Depois de prolongados est�gios de dor na erraticidade, foram resgatados e tratados. Agora come�am uma outra longa jornada de preparo para retomarem seus compromissos espirituais, Contudo, a despeito de estarem matriculados na escola de m�diuns, n�o se desvencilharam desse estado de esp�rito. - V�o reencarnar nesse clima? - Rar�ssimos escapam dessa condi��o. A maioria esmaga dora dos m�diuns renasce com acentuado estado de remorso, Esse clima psicol�gico responde por costumeiras rea��es e ati tudes daqueles que s�o portadores da sensibilidade medi�nica, quais sejam: tristeza, conflito �ntimo, irritabilidade, confus�o nos racioc�nios, inquietude, medos incontrol�veis, e uma s�rio inumer�vel de sintomas que denotam algum transtorno na vida ps�quica, muito similares a uma depress�o cl�ssica. - Que esperar de tais reencarna��es Dona Modesta? Reencarnam para dar trabalho nas sess�es medi�nicas? A senhora sabe de minhas idas e vindas com m�diuns quando no plano f�sico. - Marcondes, os m�diuns mais conhecidos e respeitados da seara doutrin�ria passaram por semelhantes crises afetivas. A princ�pio o exerc�cio medi�nico, constitui uma expia��o, vindo a transformar-se, depois de longo esfor�o reeducativo, em recurso aben�oado de progresso. A mediunidade, por sua vez, � uma ponte entre as sombras interiores e a luz que se derrama da alma. Os m�diuns n�o s� det�m maior sensibilidade para frequ�ncias da vida exterior, mas igualmente para seu mundo �ntimo, mantendo ampla facilidade de conex�o com seu patrim�nio inconsciente. A mediunidade � uma luz de grande pot�ncia permanentemente acesa nos refolhos da mente. Gra�as � sua claridade, seus portadores enxergam com mais nitidez a natureza de suas imperfei��es e conquistas no reino �ntimo da sombra. Os m�diuns n�o s�o int�rpretes apenas do mundo espiritual; sobretudo, encontram nas suas faculdades extra-sensoriais uma sonda meticulosa com a qual s�o capazes de investigar, com mais profundidade, o mundo vivo das manifesta��es subjetivas de seu pr�prio inconsciente. No fundo, a �nsia espiritual dos m�diuns � celebrar sua individualidade, conquistar a si pr�prio e responder a intrigante pergunta: quem sou eu? Almas cativas do pr�prio ego, raras vezes experimentam a ben��o do contato com sua Ess�ncia Espiritual. - A senhora quer dizer que eles est�o em permanente contato com o passado? - Isso mesmo. Sua vida mental tem janelas muito largas para o self e para a sombra. Naturalmente, por lhes faltar aquisi��es no terreno da virtude, sofrem os reflexos da vida inconsciente em mais larga escala, sendo assaltados com freq��ncia pela culpa e por ciclos de humor intermitentes. A maturidade � alcan�ada quando conseguem uniformidade em seus estados de alma. Os m�diuns, quanto menos educados nas li��es do Evangelho, mais oscilam com varia��es torturantes e incomuns no campo mental. - Dona Modesta, quem s�o os m�diuns? E ela tomando um exemplar da obra "Emanuell", cap�tulo onze, psicografia de Francisco C�ndido Xavier, leu: - "Quem s�o os m�diuns na sua generalidade?" "Os m�diuns, em sua generalidade, n�o s�o mission�rios na acep��o comum do termo; s�o almas que fracassaram desastradamente, que contrariaram, sobremaneira, o curso das leis divinas, e que resgatam sob o peso de severos compromissos e ilimitadas responsabilidades o passado obscuro e delituoso. O seu pret�rito, muitas vezes, se encontra enodoado de graves deslizes e de erros clamorosos. Quase sempre, s�o Esp�ritos, que tombaram dos cumes sociais, pelos abusos do poder, da autoridade, da fortuna e da intelig�ncia e que regressam ao orbe terr�queo para se sacrificarem em favor do grande n�mero de almas que desviaram das sendas luminosas da f�, da caridade e da virtude. S�o almas arrependidas que procuram arrebanhar todas as felicidades que perderam, reorganizando, com sacrif�cios, tudo quanto esfacelaram nos seus instantes de criminosas arbitrariedades e de conden�vel ins�nia". Os m�diuns s�o Esp�ritos que deixaram de construir sua identidade psicol�gica. Criaturas que praticaram repetidamente a atitude de dominar e possuir os valores da vida alheia. Tanto exerceram o poder sobre o seu semelhante que abdicaram de adquirir o dom�nio pessoal. Desejaram tanto ser ou ter o que os outros tinham ou eram, que esqueceram de se conhecer, travar contato consigo pr�prio. S�o almas que voejaram para fora de si mesmos, extremamente inabilitados ao autodom�nio. Fizeram conquistas exteriores e desprezaram as vit�rias �ntimas. N�o cul tivaram sua Ess�ncia Divina. Nessa jornada fulminante no reino das ilus�es e das apar�ncias, prejudicaram multid�es. Entretanto, eles pr�prios foram as maiores v�timas. Trazem imprimidos na alma os resultados de seus desatinos. S�o portadores de um sistema afetivo desestruturado e confuso � beira do desequil�brio psicol�gico. Seu consciente � continuamente tomado por complexos inconscientes que determinam seus climas emocionais de baixa auto-estima e insatisfa��o cr�nica com a vida. Por n�o terem identidade psicol�gica segura, tecida na fieira das reencarna��es, s�o facilmente manipul�veis e sem defesas de preserva��o das suas personalidades. S�o amplamente suscet�veis ii meio, indefesos e pusil�nimes. Tiveram cassados os instrumentos de controle sobre os outros, atrav�s dos t�tulos sociais e habilidades da intelig�ncia. Renascem com severos bloqueios e limita��es que somente � custa de muito trabalho e educa��o poder�o reaver, n�o para proveito pessoal, mas para ampliarem o seu raio de produtividade no campo do esp�rito. Em verdade, os m�diuns, com pouqu�ssimas exce��es, s�o almas que adiaram a auto-conquista e vivem sob a tirania de seu pr�prio ego. - Ent�o s�o loucos! - manifestou o ex-dirigente com espontaneidade. - Potencialmente s�o. Paulo, por�m, em sua sabedoria transcendental afirmou em sua segunda carta ao povo de Corinto, cap�tulo quatro, vers�culo sete: "Temos, por�m, este tesouro em vasos de barro, para que a excel�ncia do poder seja de Deus, e n�o de n�s." Os m�diuns s�o como vasos de barro. Fr�geis, espiritualmente franzinos. A mediunidade, entretanto, representa o tesouro emprestado pela Miseric�rdia Celeste em favor de suas recupera��es. A for�a medi�nica � capaz de sanear e equilibrar a vida mental ante as agonias do inconsciente em erup��o, cuspindo sua mat�ria enfermi�a para os dom�nios da consci�ncia. Com a mediunidade, s�o dotados de um espelho sagrado capaz de refletir a grandeza das almas que lhes nutrem e sustentam os anseios de melhora, atrav�s da edifica��o do ativo de b�n��os no exerc�cio da caridade. Os m�diuns s�o Esp�ritos que n�o olham para si mesmos h� mil�nios. A mediunidade � um espelho constantemente dire cionado para a vida inconsciente, a fim de trazer ao consciente as imagens que costumam negligenciar. Os m�diuns, portanto, s�o criaturas que tem as portas do inconsciente abertas cont I nuamente, entrando e saindo desse mundo desconhecido com maior mobilidade. A faculdade medi�nica pode ser comparada a escafandro protetor para penetrar nesta parte da vida mental sem maiores preju�zos, conquanto n�o se libertem das agonias insubstitu�veis que nascem da parcela sombria de suas personalidades. - Seria a mediunidade uma esp�cie de medica��o? - Exatamente! Esse o conceito mais adequado para a faculdade medi�nica. Um tratamento para mentes adoecidas no tempo, que permite uma conex�o mais livre com a sombria realidade das imperfei��es a serem superadas, mas tamb�m com as luzes da ess�ncia espiritual. - N�o seria mais seguro que reencarnassem em outras con di��es provacionais e sem a faculdade medi�nica? - N�o, Marcondes. Sob o aspecto da concess�o � uma expia ��o. Uma santa expia��o! Quem a possui n�o se v� livre dela, por mais que deseje. � uma imposi��o ao livre-arb�trio da alma,que perderam, temporariamente, a condi��o de gerir os seus destinos sem restri��es. Ali�s, o grande objetivo da reencarna��o, para os portadores da sensibilidade medi�nica mais ostensiva � exatamente consolidarem qualidades eternas que lhe ensejem condi��es mentais e afetivas de serem os escultores de seus pr�prios caminhos. Educando-se moralmente, os m�diuns compreendem as finalidades dessa ben��o em suas vidas. - Estaria falando de autonomia? - Autonomia � luz do Evangelho. - Como defini-la na perspectiva da mensagem crist�? - Como a capacidade de gerenciar sua vida �ntima com equil�brio. Autonomia n�o pode ser confundida com personalismo, individualismo. - Pensava exatamente nisso, Dona Modesta. Os m�diuns que conheci queriam a autonomia para fazerem o que desejavam. Queriam dist�ncia das opini�es que lhes contrariavam interesses. - Isso n�o � autonomia. � vaidade. O tra�o principal da autonomia como qualidade psicol�gica da maturidade � a habilidade de gerir os sentimentos para o bem em todas as ocasi�es. - Sinceramente n�o conheci m�diuns com essa capacidade. - De fato, s�o pouqu�ssimos os que atingem esse patamar. Em verdade, sequer � discutida nos ambientes da doutrina esta faceta dos objetivos essenciais da reencarna��o dos m�diuns. - Uma indaga��o me salta na mente. - Fa�a-a, Marcondes! - Seria ent�o por esse motivo subjetivo da alma: o desejo de se afirmarem perante si mesmos na auto-conquista, que os medianeiros teriam tanto anseio de tarefas maiores e comunit�rias? - Essa aspira��o � inata nos m�diuns. O remorso que lhes enfraqueceu as for�as quando por aqui no mundo extraf�sico, � como uma mola propulsora a impulsion�-los incansavelmente para frente na busca de si mesmos. N�o se tratatanto de realiza��es doutrin�rias comunit�rias de vulto, todavia, o aprendizado que far�o quando matriculados nessas fileiras de inicia��o moral educativas. Essa a raz�o de cultivarem o idealismo que os compele a realiza��es sociais de largo porte no bem de todos. A for�a e a coragem que usaram para dilapidar multid�es s�o direcionadas, nesse momento sublime, para a auto-supera��o, a reeduca��o de seus pendores e o contato com seus impulsos mais inferiores. - Acho muito dif�cil um m�dium conseguir isso sozinho. N�o consigo entender autonomia para criaturas t�o individualistas. Sem um dirigente mais rigoroso que lhes ensine a caminhar, n�o vejo horizontes positivos. - Jamais o m�dium conseguir� tais li��es preciosas sem o concurso alheio, Marcondes. Creio que voc� esteja confundindo autonomia com prepot�ncia. - Foi o que vi enquanto encarnado na Terra, Dona Modesta. M�diuns prepotentes, indisciplinados, interesseiros e vaidosos, Adoravam uma vitrine. - Sei que existem muitos assim, meu amigo! Entretanto, isso n�o altera o objetivo divino da mediunidade. Mesmo para esse" que se consomem na inf�ncia das atitudes descuidadas, est� reservada a oportunidade da promo��o espiritual, isto �, do tornarem-se os propriet�rios de sua pr�pria felicidade e condutores de si mesmos. Se apresentarem suficiente maturidade, mesmo depois de muitos lances de superficialismo, lograr�o alcan�ar o fim maior. Alguns requerem mais tempo. - Quanto tempo, Dona Modesta? A prop�sito, existe algum tempo previsto pelos mentores na reencarna��o de um m�dium, para consider�-lo como trabalhador maduro e capaz de lograr a autonomia? - Isso � muito individual, Marcondes. Existem aqueles que renascem maduros. Outros precisar�o de mais de uma vida f�sica para atingir tal patamar. A experi�ncia, todavia, tem nos mostrado, em linhas gerais, que aproximadamente duas d�ca das de servi�o ativo e persistente no corpo f�sico tem possibill tado construir um alicerce de raro valor mental e moral, para realiza��es de amplo porte espiritual, entre aqueles que comprometeram-se a fazer da mediunidade um projeto de vida. O di�logo continuou entre Dona Modesta e Marcondes, Mantive-me quieto e atento. - Quer dizer que podemos considerar um m�dium maduro ap�s vinte anos de tarefa? - Depende. - De qu�? - De seu aproveitamento neste tempo. - Como considerar o bom aproveitamento? - Estar� presente nos tarefeiros que se entregaram �s li��es indispens�veis ao exerc�cio da mediunidade com Jesus. Resumamos assim essas li��es: obedi�ncia, disciplina, estudo perseverante, ren�ncia, desejo de servir e aprender, cultivo da ora��o, umprimento do dever, abnega��o pessoal, dire��o construtiva pura as for�as gen�sicas, edifica��o da harmonia no lar, desenvolvimento de habilidades mentais para superar press�es ps�quicas, educa��o das faculdades sensitivas para fins nobres e servi�o de amor ao pr�ximo. O ponto crucial do bom aproveitamento no exerc�cio da mediunidade � avaliado pela sua consci�ncia acerca do quanto necessita se aplicar nos roteiros do Evangelho. Quanto mais sens�vel a esse mister, mais chances de servi�o edificante. Multid�es de m�diuns est�o informadas a esse respeito. A quest�o, no entanto, � de sentir e n�o apenas de saber. A aprova��o da consci�ncia � o mais seguro laurel dos m�diuns com Jesus. - A senhora acaba de concordar com minha tese acerca dos m�diuns: � simplesmente imposs�vel viver dessa forma. - Eu n�o disse viver dessa forma, Marcondes. Disse: se entregar a essas li��es. Seria uma utopia querer que em duas d�cadas algu�m se tornasse um campe�o da virtude. Considerando o passado espoliador dos m�diuns, se demonstrarem perseveran�a na busca dessas qualidades j� estar�o dando um salto com o qual a Miseric�rdia da Divina Provid�ncia, os brindar� com vastos contingentes de for�as renovadas para a caminhada. - S� perseverar basta? - N�o! Mas � um bom come�o! Quem persevera sem cansar demonstra interesse por aquilo que busca. Para almas que at� a pouco tempo tinham como deleite o ato de destruir, � um bom come�o. - Os m�diuns realmente n�o prestam, Dona Modesta! - Eu n�o seria t�o cruel, meu filho! Fui, quando no corpo f�sico, e continuo sendo m�dium aqui na vida espiritual Compreendo as dificuldades de sair das trevas interiores em dire��o � luz que nos conclama a caminhar. Quando falo de perseveran�a como qualidade superior, sei bem o que significa caminhar avante carregando o peso de dores psicol�gicas que o homem comum desconhece, por n�o portar a sensibilidade ostensiva. Quem persevera alcan�a. - Eu s� conheci m�diuns que pararam no tempo. N�o tinham perseveran�a sequer para chegarem � tarefa semanal! - Realmente e infelizmente essa tem sido a t�nica da maioria. Mais um motivo, meu irm�o, para acolhermos os m�diun com muito amor e carinho. Ajud�-los a caminhar em dire��o ao equil�brio e depois... - E depois v�-los cair por desejarem proemin�ncia e vantagens - interrompeu Marcondes sem esperar a conclus�o de Dona Modesta. - Nenhum m�dium ficar� ou dever� ficar sob tutela e orienta��o alheia por toda a vida. Passado o tempo necess�rio para alicer�ar os quesitos b�sicos, deve experimentar os caminhos da autoger�ncia na conquista da responsabilidade pessoal. Ao contr�rio se frustrar�o diante de seu pr�prio programa reencarnat�rio no reino da consci�ncia. - Com isso a senhora estaria dizendo que a tarefa dos dirigentes cessa depois de um tempo ao lado dos m�diuns? - Com isso quero dizer que os dirigentes s�bios, com o tempo, se tornar�o parceiros e amigos de caminhada e se abdicam da fun��o diretiva ou condutora, sem paternalismo. Caso isto n�o aconte�a, quando os m�diuns alcan�arem a conquista dos valores que lhes promovam � condi��o de administradores de suas pr�prias contas espirituais, certamente surgir�o conflitos e desgastes. M�dium algum � luz do Evangelho caminhar� com �xito optando pela solid�o. No entanto, isso n�o significa que tenha que ser submisso e dependente. Chegada a maturidade, a vida lhe convidar� �s provas do crescimento nos roteiros da autonomia e da liberdade com responsabilidade, aprendendo, simultaneamente, a parceria sem subservi�ncia. - E quanto ao grupo? Tamb�m perde suas fun��es? - Marcondes, nem o dirigente e muito menos a equipe perdem fun��es. Elas s�o alteradas conforme a caminhada. Os m�diuns conscientes n�o abrir�o m�o de cerrarem fileiras de trabalho com grupos amigos e solid�rios. - Estranho! - Que foi? - A impress�o que tenho enquanto conversamos � que damos muita import�ncia aos m�diuns. Como se o grupo e o dirigente tivessem que se amoldar � sua tarefa. - Para voc� ver quem s�o os m�diuns! - S�o muito importantes para meu gosto! - Cultive respeito, amigo! Eu diria: s�o muito necessitados para requisitarem tanto empenho e mudan�a. Contudo, esteja certo, quando h� uma rela��o pac�fica entre m�diuns, dirigentes e grupos, todos crescem. Memorize, por�m, uma quest�o indiscut�vel em seu aprendizado: os m�diuns, mesmo os perturbados, s�o fermento em qualquer grupo crist�o. Possuem tesouros em vasos de barro. - Confesso minha incapacidade de aceitar esse enfoque. Todavia, em respeito ao que tenho aprendido em sua companhia, estarei aberto para rever meu ponto de vista. - Na medida em que consagrar seu tempo nas visita��es aos m�diuns no corpo f�sico, em tarefas de amor desse Hospital, voc� ver� o outro lado da vida dos m�diuns. Perceber� a extens�o do que ocorre em torno de sua freq��ncia vibrat�ria, e assistir� fen�menos que te ampliar�o as no��es estreitas, que trouxe da Terra acerca dos valores e necessidades desses companheiros. - Dona Modesta, qual tratamento ser� dado �quelas pessoas que conheci no pavilh�o dos m�diuns? - Trabalho. - De que tipo? - Medi�nico. - Medi�nico?! - Claro! Mesmo que tenham falido em suas experi�ncias, det�m larga soma de dom�nio sobre as for�as mentais. S�o muito �teis em nossas reuni�es medi�nicas e outros afazeres espirituais. - Em que lugar do Hospital se realizam essas reuni�es? - No subsolo, junto aos corredores de entrada e sa�da. - Perturbados como se encontram, em que podem ser �teis? - No tratamento de si mesmos, em princ�pio. - Como? - Libertam-se de suas fixa��es culposas atrav�s de manifesta��es similares � psicofonia. Quase sempre s�o expurgos do inconsciente com objetivo de al�vio e saneamento da vida mental. - S�o assistidos durante as sess�es? - Uma equipe especializada mant�m-se atenta ao desenrolar dos trabalhos. M�dicos e enfermeiros diligentes organizam uma enfermaria com macas e medica��es sedativas. A possibi lidade de surtos durante tais atividades � eminente. - N�o haveria outra alternativa de tratamento? Para que correr esse risco? - N�o � essa a mesma realidade dos m�diuns no corpo, Marcondes? N�o existe diferen�a, a n�o ser pelo amparo especiali zado. � justo que no plano f�sico haja cuidado com o assunto pelos motivos �bvios. Em nosso caso, entretanto, psic�ticos m�diuns s�o tratados na pr�pria reuni�o de interc�mbio. - Volto a indagar: que utilidade tem para esse Hospital, sen do que s�o enfermos em vias de "surtar"? - Ao se tratarem, pouco a pouco, se candidatam a servir. A cada sess�o apresentam melhoras significativas e come�am a percep��es medi�nicas reais de locais e situa��es que giram, principalmente, em torno das atividades do Hospital Esperan�a nas turmas separadas conforme o grau de recupera��o. - Reuni�es como essas n�o causam medo nos m�diuns? - Alguns n�o querem retornar. Dependendo da gravidade do caso s�o encaminhados para algumas terapias de al�vio e depois regressam mais firmes para o recome�o. - � como eu pensava! A situa��o dos m�diuns � vergonhosa. - Marcondes, voc� deveria renascer como m�dium para experimentar as afli��es da sensibilidade ampliada. - Deus que me livre, Dona Modesta! - A situa��o dos m�diuns � delicada, entretanto Deus lhes cerca de recursos adicionais no intuito de se recuperarem. Com o tempo, tais companheiros em est�gios de transtorno, passam a ser servidores ativos do bem em reuni�es, cuja presen�a de medianeiros que foram bem sucedidos em suas reencarna��es lhes infundem �nimo e coragem para o regresso ao corpo. - Nessas reuni�es ocorre outra natureza de trabalho al�m do tratamento pessoal? - � completamente distinta a finalidade dessas atividades, conforme o grau de estabilidade �ntima. S�o grupos diversos, separados por est�gio de recupera��o individual. Tais reuni�es s�o usadas para localiza��o de desencarnados na erraticidade, sondar localidades vigiadas nos abismos, estudar psicosferas desconhecidas, antecipar medidas preventivas quanto a ataques e assaltos ao Hospital ou alguma institui��o no plano f�sico, manter contato com esferas elevadas, operar tratamentos complexos no campo da sa�de, visitar dimens�es paralelas, capta��o de dados hist�ricos pela clarivid�ncia no tempo, ensejar manifesta��es psicof�nicas do corpo mental, psicografar livros de mission�rios Condutores da Terra, manter contato com Esp�ritos que convivem com Jesus. Cap�tulo 15 O M�dium Antonino V�, pois, que a luz que h� em ti n�o sejam trevas, Lucas, 11:35 Mantive-me em sil�ncio ouvindo o di�logo entre Marcondes e Dona Modesta. Confesso que tive n�tida sensa��o de ter aprendido sobre mediunidade, naqueles quinze minutos, mais que em toda a minha rec�m-finda reencarna��o. O trauma de Marcondes com os m�diuns, contrastado pelas coloca��es s�bias e compassivas da benfeitora, foi um curso intensivo. Marcondes tinha raz�o. O pavilh�o dos m�diuns era um ambiente que irradiava uma estranha psicosfera. O carinho e as atitudes otimistas dos servidores e enfermeiros, no entanto, elevavam o estado mental de todos. Os m�diuns s�o criaturas escolhidas por Deus no carreiro da evolu��o para cumprirem a miss�o de tropeiros do destino. Almas que olharam em demasia para fora e agora, em regime expiat�rio, inalter�vel, t�m cravado no campo mental a for�a medi�nica, que se assemelha a um espelho com o qual s�o obrigados a olharem para dentro de si mesmos, ininterruptamente. Imperioso distinguir que os m�diuns s�o almas aflitas. A mediunidade, todavia, � um tesouro depositado em vasos de barro. Uma concess�o, uma medica��o acentuadamente eficaz para a grave enfermidade do orgulho e do ego�smo. Tal situa��o � uma prova incontest�vel do Amor Paternal que, ao contr�rio da l�gica humana, quanto mais necessidade espiritual apresentam Seus filhos, mais dispensa favores pelo reerguimento e pela recupera��o de suas almas. De fato, a miseric�rdia � o bras�o que distingue as almas nobres. As respostas de Dona Modesta a Marcondes fizeram-me recordar um dos mais belos poemas de amor do Evangelho recitado e vivido por Paulo, quando em sua segunda carta aos cor�ntios, cap�tulo doze, vers�culo quinze, declamou: "Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado." N�o foram poucas as vezes que me envergonhei perante a bondade dos amigos espirituais. Para quem vem da vida no corpo f�sico, acostumado a lei social de levar vantagem em tudo e sobre todos, conviver com a ordem social do Hospital Esperan�a significava, a todo instante, rever julgamentos e conceito acerca das lutas humanas. Instru� muitos m�diuns na Terra. De longe podia supor a extens�o de suas ang�stias e conflitos. Via nos questionamentos de Marcondes uma parcela consider�vel de mim mesmo, S� ent�o percebi que a preocupa��o que nutria em rela��o a Antonino, era mais curiosidade de minha parte, que bondade para com ele. Ansiava saber como reagiria ante as perturba��es do Grupo X. A perman�ncia na ala dos m�diuns come�ava a surtir benef�cios educativos. Mais por necessidade de consolidar valores que por virtude, dispus-me a conhecer em detalhes a vida �ntima de Antonino no seu dia a dia, visando cooperar em seu aprendizado. T�o logo Marcondes se retirou da sala de Dona Modesta, externei minha �nsia em saber qual a real situa��o do m�dium em meio ao momento de tormenta em seu grupo. Tive o grato privil�gio de alguns minutos a s�s com a benfeitora. Consultei-a. - Como ficar� Antonino ante tantas cr�ticas e maledic�ncias em torno de sua mediunidade? Dizem at� que ele forjou a comunica��o do Doutor In�cio para Calisto assumir a presid�ncia do centro! - � um momento de teste. Ser-lhe-� exigida perseveran�a e abnega��o. Ser� convocado a avaliar suas reais inten��es. Uma investiga��o que m�dium algum poder� abdicar caso deseje caminhar com o Cristo. Mas n�o s� isso. Ser� tamb�m chamado a uma nova postura de vida. A forma��o de Antonino obedeceu os tr�mites inerentes aos trabalhadores da mediunidade � luz da Doutrina Esp�rita. Disciplina, obedi�ncia, assiduidade, reforma �ntima. Como de costume, foi educado para a conduta passiva, quase subserviente. Submeteu-se a rigores de ordena��o que poucos m�diuns aceitam, considerando o temperamento quase sempre rebelde e ansioso dos medianeiros. Antonino n�o queimou etapas. Tornou-se male�vel, desembara�ado no uso da for�a mental. Tais disciplinas renderam-lhe habilidade na ger�ncia das for�as medi�nicas. Ser� chamado, portanto, a outro g�nero de experi�ncias para seu crescimento como m�dium e ser humano. Ele carregou durante toda semana as ang�stias do clima destruidor da inseguran�a. Telefonou v�rias vezes para Calisto que lhe pediu vigil�ncia e confian�a na espiritualidade. Recomenda��o muito oportuna, mas que n�o aplacou a instabilidade do m�dium que, da inseguran�a, abria caminhos para a tristeza, d�vida e o medo do que poderia ocorrer na pr�xima reuni�o de interc�mbio medi�nico. Antonino acreditava que tinha feito algo imperdo�vel. Culpava-se, ruminava um estado psicol�gico de remorso como se tivesse permitido a comunica��o de Doutor In�cio, indevidamente. Procurava as raz�es de ter falhado. Convive com epis�dio como se tivesse provocado uma enorme fenda nas rela��es do grupo por descuido com sua mediunidade. - Qual a causa deste clima �ntimo? - Baixa auto-estima. Ele est� se mirando no espelho da mediunidade portanto, sente-se infeliz com sua condi��o espiritual. Desvaloriza-se. Esse o primeiro est�gio psicol�gico de quem aceita a proposta de educa��o na escola bendita da mediunidade. Adotando coragem e determina��o na auto-aferi��o, o m�dium experimenta a insatisfa��o cr�nica. S�o os momentos mais dolorosos do aprendizado. � exatamente nessa etapa que o risco do individualismo � mais acentuado como mecanismo de defesa autom�tico, contra os estados emocionais de vergonha, culpa e remorso. - A viagem ao inconsciente! - Isso mesmo. � o reencontro com suas ra�zes de amargura pessoal. Embora n�o tenha recorda��es claras da origem estabelece uma condi��o afetiva de pen�ria, frustra��o e vazio. Nessa condi��o mental, o m�dium n�o tem limites n�tido acerca da responsabilidade pessoal. Vive o extremo emotivo Hora culpa-se por tudo, hora sente-se um her�i. S� consegue avaliar os fatos com a mente aprisionada em sua perspectiva, cujo cerne � seu pr�prio ego. - Se ele se apassivou para a psicofonia, porque dessa culpa? - A quest�o nada tem haver com a mediunidade, mas com suas caracter�sticas psicol�gicas e morais. - Por isso os m�diuns necessitam tanto de bons dirigentes" para acalm�-los. - Certamente, Jos� Mario. Acalm�-los e auxiliar na educa��o de suas tend�ncias. Do contr�rio, n�o suportariam a extens�o da responsabilidade. Bons dirigentes e bons grupos tamb�m, Contar com o apoio e solidariedade dos demais membros da equipe � de fundamental motiva��o para a caminhada. - Calisto tem sido um bom dirigente para Antonino? - Calisto tem feito o melhor que pode. A quest�o � que o m�dium Antonino est� recebendo uma promo��o de nossa parte' pelos seus m�ritos ineg�veis, ao longo dessas duas d�cadas de labor disciplinado. Promo��o, todavia, � luz do Evangelho do Cristo n�o significa privil�gio ou vantagens pessoais. Espera-se mais trabalho e novos testemunhos. Ser� convocado por essa raz�o a mudan�as indispens�veis no curso de seu aprendizado. Entre elas, ser� convocado a uma nova postura de vida. Ser� chamado a ser mais ativo em todas as suas responsabilidades. Buscar mais autonomia na administra��o de seus dons medi�nicos. Isso lhe custar� dores acerbas face ao h�bito de ser protegido e orientado por dirigentes acolhedores ao longo da sua caminhada. - Esse � o caminho de todos os m�diuns? Chega um instante que deve sair da passividade e ter maior autonomia? - Deveria ser. Nem todos chamados, entretanto, se fazem dignos da escolha. Permita-me uma express�o bem humana: largar o "colo afetivo" e passar a ser dispensador incans�vel do amor, mesmo dele carecendo, � o desafio de autonomia que poucos t�m a coragem de assumir. Isso implica em desconforto e decis�es pessoais. - E para os m�diuns essa decis�o � confundida com personalismo. Guardam extrema dificuldade em discernir autonomia de vaidade. - Assim preferem a acomoda��o... - Quase sempre optam pelo medo. Recusam as novas experi�ncias com as quais haveriam de topar com a frustra��o, o excesso, a cr�tica, a necessidade de uma leg�tima honestidade emocional. - O que Calisto, como dirigente, anseia para Antonino est� em desacordo com esse momento? - Calisto anseia o anonimato, a continuidade do protecionismo. Na condi��o de dirigente n�o vislumbrou o futuro dos m�diuns que constroem, por si mesmos, o valor moral. Mas esse anonimato n�o pode vir de fora para dentro, antes deve constituir uma busca interna com vontade e decis�o do pr�prio m�dium, uma opera��o no reino do cora��o. Do contr�rio pode ser um escudo fr�gil ante os ataques que lhe ser�o dirigidos nas futuras batalhas da mediunidade com alcances coletivos. - Antonino ser� um m�dium conhecido? - Ter� pela frente a expia��o da prova social. Ser� assediado por in�meros testes � humildade e desprendimento nas viv�n cias p�blicas com sua mediunidade. - Essa concess�o refere-se ao compromisso que a senhora mesma nos esclareceu, acerca de ser ele um integrante daquele grupo de Esp�ritos preparados por Doutor Bezerra de Menezes? - Sim, ele integra o grupo da gera��o solid�ria. Sobre seus ombros assenta-se a esperan�a de um novo tempo junto � esfera comunit�ria do Consolador. - O Grupo X entender� isso, Dona Modesta? - Se aceitarem a proposta feita por In�cio em nome de nossa equipe, estar�o dando passos acertados nessa dire��o. - E se n�o aceitarem? - A prova ficar� maior ainda para Antonino. A palavra que melhor ajusta esse momento do Grupo X � parceria. Se souberem se tornar parceiros de caminhada e aceitarem-nos como seus parceiros, poderemos alcan�ar metas gloriosas pelo Cristo. - Nessa condi��o protecionista, Calisto causa algum preju�zo ao crescimento de Antonino? - A entrega irrestrita do m�dium � essencial quando se trata da rela��o tarefeiro-dirigente durante a reuni�o. Com Antonino, em raz�o de seu psiquismo fr�gil, a situa��o � obsessiva. Criou-se uma simbiose. - Uma obsess�o? - Sem d�vida! Que j� se estende no tempo. Calisto � um esp�rito velho na arte de conduzir. A compuls�o para o controle lhe � antiga companheira moral. O h�bito de comandar foi adquirido em in�meras exist�ncias carnais. � um estrategista que sabe o que fazer para alcan�ar suas metas pessoais. Atualmente, procura utilizar sua bagagem para o bem da tarefa, em favor da causa. No entanto, ningu�m consegue se desvencilhar totalmente dos sentimentos pertinentes aos h�bitos estruturados em s�culos de viv�ncias. Sua compulsividade em pensar e sondar detalhes que coloquem em risco os ideais espirituais, leva-o, em muitas ocasi�es, a exagerar suas suspeitas e precau��es. - Por sua vez Antonino � totalmente passivo devido, igualmente, aos h�bitos que lhe s�o pertinentes! - expressei aguardando confirma��o. - Al�m disso, Jos� Mario, Antonino encontrou em Calisto aquilo que a psicologia denomina como identifica��o, um mecanismo defensivo da mente para n�o tomar contato com suas pr�prias limita��es. Inconscientemente, ao longo dos anos, elegeu Calisto como uma refer�ncia que preenche os vazios de seu mundo �ntimo. - Ent�o os chamados mecanismos de defesa existem mesmo? - Foi uma das mais ricas contribui��es do insigne Sigmund Freud, para que a humanidade avance em dire��o ao autoconhecimento. - Quer dizer que Antonino criou uma forte identifica��o com Calisto? - Calisto com sua personalidade marcante tornou-se o ideal daquilo que Antonino adoraria ser e que, no fundo de sua alma, sabe que deve alcan�ar. Nenhuma identifica��o � casual. Mesmos os mecanismos protetores s�o viv�ncias que, certamente, conduzir�o o Ser ao crescimento. O pr�prio nome diz: s�o defesas. Protegem a criatura de suas lutas interiores. O problema � que, quando se prolongam demais, tornam-se fugas lament�veis, adoecendo e gerando transtornos de personalidade. - Que ingrediente das rela��es humanas! - Disse tudo, amigo querido! Disse tudo!... O c�rculo dos amigos de Antonino e Calisto no centro esp�rita j� percebeu extens�o dessa realidade. Para muitos deles, Calisto faz de Antonino uma marionete. Para outros, Antonino � um bajulador de Calisto. - Perdoe-me a indaga��o: estes amigos n�o estar�o com raz�o? - Julgam como se a dupla tivesse escolhido, deliberadamente, essa condi��o. � uma vis�o superficial de quem n�o investiga a presen�a de fatores que extrapolam as simples atitudes do dia-a-dia. - Que fatores? - As rela��es j� preexistentes entre ambos. - Em outras reencarna��es? - J� existe um la�o afetivo consolidado, ocorre apenas uma continuidade. Naturalmente, gra�as aos prop�sitos novos de ambos, pouco a pouco, esse la�o entre eles, vem convergindo para melhores aspira��es. A vida, entretanto, chamar�, breve mente, os dois, a outros caminhos indispens�veis para a leg�tima educa��o espiritual. - Professor C�cero, oportunamente, nos esclareceu que esses la�os do passado s�o apenas ferramentas de lapida��o. - � verdade. O passado n�o justifica, mas explica. N�o podemos ignor�-lo se quisemos compreender a propor��o dos sentimentos que algu�m nutre por outra pessoa. Quando estamos retomando velhos aprendizados apenas damos continuidade a antigos sentimentos. H� casos que v�o da antipatia ao �dio nas rela��es humanas, t�o somente, porque algu�m n�o � como gostar�amos que fosse. Em muitos casos, n�o se explica tais sentimentos desproporcionais aos acontecimentos em curso no presente sen�o � luz da reencarna��o. - Realmente, encontramos aqui um caso t�pico de obsess�o de encarnados! - Exatamente! Uma obsess�o em vias de solu��o, depois de longas e exaustivas peregrina��es expiat�rias... O grupo carnal faz uma perspectiva tipicamente humana dessa conviv�ncia como se eles, simplesmente, tivessem escolhido serem como s�o no agir desta forma. - Mas seria mesmo justo dizer que o passado deles explica o presente? N�o seria um tanto clemente essa an�lise, considerando que j� est�o muito esclarecidos espiritualmente? - De fato, jamais deveremos buscar o passado para justificar as mazelas do presente. Quem toma consci�ncia de suas lutas pregressas deve considerar que foram reveladas com objetivos enobrecedores e educacionais. Se o portador das revela��es do pret�rito n�o consegue enxergar nessas informa��es algo que lhe impulsione para frente, poder� estar sendo vitimado pela fantasia e pela obsess�o. O passado n�o pode desculpar o presente. Estamos no presente para alterar e melhorar o passado. Por�m, o fato de serem esclarecidos somente, n�o os capacita para vencerem seus sentimentos. � no cora��o que se alongam as ra�zes do passado para o presente. Antonino sente-se confort�vel nos ombros de Calisto. Calisto encontra em Antonino um m�dium a "tiracolo" para endossar suas movimenta��es na tarefa. - Antonino com isso n�o corre o risco de ser menos m�dium e refletir as inten��es de Calisto em sua produ��o medi�nica? - Essa � uma ocorr�ncia poss�vel nesse tipo de conviv�ncia. Por�m, Antonino traz como prote��o a sua honestidade. Nem mesmo inconscientemente reflete os ideais de Calisto na mediunidade. Por outro lado, Calisto, igualmente, curva-se ante o espiritual, nutrindo incondicional respeito pela mediunidade de Antonino. Essas for�as morais permitem ambos se verem livres da interfer�ncia determinante de seus temperamentos durante o transe. Ambos apassivam-se para que Deus coloque Seus objetivos sagrados. Nisso reside a virtude dos nossos irm�os. Ao sa�rem dessa condi��o, todavia, colocam as lentes de sua conviv�ncia sobre o fruto da mediunidade. � o problema da interpreta��o. Eles se apassivam durante a produ��o medi�nica e depois se apossam do fruto com interpreta��es que correspondem � simbiose de suas percep��es em regime de fascina��o, na qual o m�dium se encanta com aquilo que interpreta o dirigente. - Como � complexo! - exclamei com total surpresa. - O fen�meno medi�nico n�o ultrapassa os limites do que somos. Ela s� se processa atrav�s de nossos valores e imperfei��es. N�o pode ser diferente. Do contr�rio, seria quebrar as Leis Naturais. - E com essa interpreta��o alteram o sentido das comunica��es? - Nem sempre. O que mais acontece nessa situa��o � desfocarem a profundidade dos conte�dos espirituais. A dupla faz an�lises das comunica��es, julgando-se aptos a serem os melhores int�rpretes. Agora que o grupo se op�e-lhes com v�ria quest�es, sentem-se amea�ados. Calisto enxerga armadilha das trevas em todos os questionamentos. Antonino, por sua vez, se sente ofendido julgando ter filtrado incorretamente os conte�dos, asilando d�vidas e inseguran�a. - A hist�ria de nossos irm�os tem sido comum na seara? - Existem muitas semelhantes. O que diferencia � a condi��o moral. Calisto e Antonino s�o Esp�ritos sinceros. Est�o em busca leg�tima de melhora. Conseguiram varar mais de duas d�cadas nessa condi��o, a despeito dos muitos obst�culos sempre avaliados por ambos, como t�tica dos advers�rios do trabalho. Apesar da semelhan�a, a maioria das hist�rias n�o se prolonga tanto, e resultam em altera��es com menos tempo, porque a grande maioria dos m�diuns t�m sido muito rebeldes aos dirigentes e os dirigentes t�m sido pouco compassivos com rela��o aos m�diuns, interrompendo muitas tarefas que poderiam oferecer frutos maduros. - Ent�o, de alguma forma, a passividade omissiva de Antonino trouxe alguns benef�cios. - Deu-lhe tempo para amadurecer o bastante e n�o tombar na revolta, prova na qual expressiva parcela de m�diuns n�o tem superado. S�o extremamente suscet�veis, melindrosos e mago�veis. Acham defeitos em todos e em tudo, n�o sendo capazes de avaliar sua condi��o. N�o podemos desconsiderar tamb�m um fator essencial por parte de Calisto: ele realmente cultiva um sentimento aut�ntico de ajuda a Antonino como m�dium e pessoa humana. Infelizmente, nesse passo, existem muitos dirigentes carcomidos de inveja que adorariam, infantilmente, estarem no lugar dos m�diuns. Esses tolhem as possibilidades alheias e servem de entraves �s batalhas que os m�diuns j� t�m de sobra. - � o problema do espelho voltado para o subconsciente... - Problema n�o. Solu��o. Com esse espelho se n�o quiserem se enxergar s� h� uma sa�da. - Qual Dona Modesta? - perguntei com certa dose de receio do que ouviria. - Renascerem "mentalmente cegos". - Que riscos para o trabalho apresenta esse tipo de rela��o dirigente-m�dium? - A cria��o de sistemas medi�nicos que podem levar � fascina��o coletiva surge dessa forma. Primeiro uma dupla e depois todo o grupo. Se, ao m�dium, nesse novo instante do Grupo X est� sendo solicitado determina��o e independ�ncia espiritual, ao dirigente, ao contr�rio, ser� solicitado apassivamento e desapego em suas interpreta��es pessoais. H� uma troca de pap�is por assim dizer. O m�dium ser� mais senhor de si, enquanto o dirigente dever� diminuir sua habilidade cr�tica, a fim de melhor entender a extens�o do chamado a que todos se v�em convocados. O per�odo de maioridade das id�ias esp�ritas � uma guinada hist�rica na cultura e na pr�tica de nossa seara, que se prepara para o per�odo da regenera��o social, conforme fala do pr�prio codificador na Revista Esp�rita no m�s de dezembro de 1863, com o t�tulo "Per�odo de Luta". Um arejamento de mentalidades e iniciativas. Quaisquer grupos ou pessoas tocados por esse momento de ver�o enriquecer de entusiasmo. O entusiasmo, por�m, assusta o ego�smo humano. Uma pessoa entusiasmada desperta a inveja, chama a aten��o. Os entusiasmados realizam, avan�am. Isso incomoda muita gente que adoraria que tudo ficasse como esta Muitos adorariam nada mais ter que fazer na Obra do Cristo ter o c�u � sua espera. A Obra apenas inicia. Temos centenas de anos de trabalho para que a regenera��o da Terra seja uma realidade. S� mesmo o ego�smo que nos � t�pico poderia nos iludir com promessas de ventura ap�s a morte, ante os passos que estamos ensaiando no bem. Somos apenas os oper�rios que conseguimos um servi�o sendo que nem assinada foi a nossa "carteira de trabalho". Os grupos ou servidores que se lan�arem a essa nova ordem de id�ias e procedimentos ante o chamado da maioridade, s� ter�o uma vis�o mais n�tida da grandeza do que est�o participando ap�s uma d�cada de servi�o ativo e continuado. Ainda assim, somente se estiverem travando uma parceria com nossa esfera em regime de perman�ncia, pois, na falta dessa parceria, esse tempo pode estender-se indefinidamente. Tomando por base o Grupo X que apenas recebeu uma primeira convoca��o no ano corrente de 2001, e que o terceiro per�odo do ciclo de maioridade iniciou-se somente agora na virada de mil�nio, fa�am o que fizerem, antes de 2010, apenas estar�o assentando as bases para compreens�o da proposta. Apesar disso, Calisto julga saber tudo com sua vis�o futurista inspirada em algumas poucas mensagens medi�nicas de Antonino nos �ltimos meses. Ana, por sua vez, conserva-se imperme�vel aos enunciados de In�cio Ferreira pela psicofonia. Antonino, tomado pelo medo, recolhe-se na inseguran�a sobre a natureza de sua miss�o. Para se evitar a forma��o de sistemas que podem prejudicar esse momento do Espiritismo, o ponto culminante que vitalizar� todo o processo de qualquer grupo ou pessoa comprometida, resume-se em abandonar a velha discuss�o dos pontos de vista de doutrina e substitu�-la pela discuss�o das rela��es. O grupo que desejar inserir-se com mais fidelidade aos Prop�sitos Maiores desse tempo de renova��o, trabalhar� pela forma��o de pequenas c�lulas nas quais possa reunir seus trabalhadores mais atuantes para conversarem acerca de seus sentimentos, de suas m�goas, de suas virtudes. Ou se criam esses ambientes, ou a equipe ficar� a merc� de velhos golpes e assaltos do nosso ego�smo. Haver� quem veja nessa medida uma atitude rom�ntica ou uma perda de tempo. Tais pensamentos, no entanto, s�o mais comuns entre aqueles, cuja tarefa, em nossos grupos de autodescobrimento, aqui no Hospital Esperan�a, lhes causa uma enorme e real sensa��o de perda de tempo por n�o terem tido a coragem de se desnudar enquanto na vida f�sica. S�o as formas costumeiras de rea��o do inconsciente, quando se fala em mexer em suas estruturas mais profundas e acomodadas. Nunca ningu�m conseguiu dizer a Calisto, com �tica crist�, o quanto ele � arrogante. Nunca ningu�m disse a Ana, com respeito e carinho, o quanto ela � vaidosa. Antonino nunca ouviu de ningu�m, de forma educativa e estimulante, o quanto ele necessita assumir com mais responsabilidade os bens que a vida lhe confiou. Calisto atropela. Ana domina. Antonino omite. Calisto � destemido em tudo que faz desde a inf�ncia e hoje � um negociante sagaz. Ana sempre caprichosa prejudicou seu lar e continua extravagante no seu proceder. Antonino sem pre fugiu de pensar por conta pr�pria no seu dever, agravando sua exist�ncia com a morosidade. Calisto tem coragem e for�a Ana tem bondade e responsabilidade. Antonino tem pureza e desprendimento. Esses valores e essas imperfei��es precisam ser discutidos Todos necessitam ajuizarem com mais clareza as rea��es que causam uns nos outros. Na falta disso, os velhos pontos de vista que antes eram s� doutrin�rios, invadem os limites dos costumes e se transformam em ju�zos acerca do que um pensa que o outro �. Falhamos lamentavelmente nesse passo, colocando em risco a tarefa iniciada, e provocando desvios desnecess�rios no caminho do aprendizado individual. Discutir rela��es � falar de n�s mesmos com proveito. Esse desafio talvez seja a alma desse momento novo. Sem confian�a a conc�rdia n�o tem vez. Sem conc�rdia n�o h� maioridade. Cap�tulo 16 Construindo a Conc�rdia E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque n�o sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lan�aram sortes. Lucas, 23:34 Faltava apenas um dia para o encontro esperado na tarefa medi�nica do Grupo X. Por iniciativa de Dona Modesta, fomos convidados para uma reuni�o preparat�ria na noite anterior. Juntos estavam Doutor In�cio, Professor C�cero e os dez auxiliares nos quais me inclu�a. Dona Modesta deu o tom da conversa. - Como todos sabem, amanh� ser� um momento decisivo no Grupo X. Temos informa��es de planos nefandos sendo articulados em ambas as esferas de vida. As perspectivas n�o s�o as melhores. Haveremos de trabalhar intensamente essa madrugada para operarmos medidas salvadoras. Apesar dos horizontes limitados, estou esperan�osa e os reuni aqui para um momento de preparo psicol�gico e emocional. Fiquem a vontade para colocarem seus sentimentos. Aqui, nada mais faremos que um leve bate-papo acerca de seus pr�prios sentimentos. Quem quer come�ar? - Ah! Sou eu mesma, Dona Modesta - respondeu de imediato a baiana Tereza com expressiva espontaneidade. - Fale, Tereza. - Dona Modesta, me perdoe o desabafo! � muito bom poder dizer algo antes de voltar ao contato com os irm�os l� na mat�ria. Estou um tanto decepcionada, sabia? - Com o qu�, minha filha? - Ouvi a vida inteira falar em desuni�o quando nos recintos esp�ritas - expressou em seu t�pico sotaque -, e veja s� o que me acontece aqui em pleno Hospital! Ainda ontem assisti a uma discuss�o acirrada a ponto de ver dedo apontado para o nariz. O que vai ser de n�s, Dona Modesta? Se algu�m me perguntasse o motivo da nossa incapacidade de sermos unidos, eu teria mil respostas na ponta da l�ngua, no entanto, vou fazer uma con fiss�o: tenho uma sensa��o de que nenhuma delas me satisfaz depois da morte. Por que n�o conseguimos a uni�o? Por que est� t�o dif�cil esse entendimento entre n�s, os esp�ritas? - Eu a entendo perfeitamente, Tereza! Tamb�m atrav�ssei esse momento de ang�stia em rela��o ao assunto. Quem me esclareceu foi Eur�pedes com sua sabedoria incompar�vel. Costumamos falar de melindre e personalismo, entre outros motivos para os conflitos. Melindre e personalismo s�o apenas manifesta��es morais doentias que surgem na conviv�ncia, quando ela n�o se apresenta suficientemente fortalecida por a��es imunizadoras e vitalizadoras. O que dizer de um can teiro n�o cuidado sob o calor escaldante do sol? Joio e trigo convivem na nossa intimidade e conseq�entemente nas nossas intera��es humanas. - Aonde a senhora quer chegar? - O motivo das desuni�es n�o est� somente naquilo que fa zemos uns aos outros, nos atos de personalismo e ofensa, mas acima de tudo no que deixamos de fazer para que as rela��es ganhem riqueza moral e alicerces dignos. A escurid�o prolifera porque falta luz suficiente. O rem�dio sagrado que h� de ilu minar nosso projeto de uni�o e amor nas leiras do Espiritismo chama-se afeto crist�o. - A senhora vai me desculpar! Tenho que falar o que penso sobre esse tema! - Seja franca, Tereza. Nosso momento � rica ocasi�o de honestidade emocional e sinceridade crist�. - Fundei grupos e tarefas na capital do estado da Bahia. Salvador � uma c�lula aben�oada do Espiritismo. O povo baiano � naturalmente, efusivo, afetuoso. Nossos grupos eram alegres e generosos. Entretanto, mesmo com tanto afeto tivemos cis�es lament�veis, de doer o cora��o da gente. Quase deixei de acreditar no valor da gentileza e da bondade. - Tereza, querida amiga, a grandeza de sua "alma baiana" � fabulosa e nos auxilia a desafogar sentimentos ocultos ignorados. Que bom que voc� n�o perdeu a inoc�ncia das inten��es, �nico caminho para a pureza espiritual. Nesse momento em que ecoa uma mensagem para o cultivo do afeto nas agremia��es esp�ritas, como caminho salvador para os nossos sonhos de uni�o, urge retificarmos alguns conceitos estereotipados do que seja afetividade. Afeto nas rela��es n�o significa apenas momentos de alegria e gestos de cordialidade espont�nea. O afeto crist�o vai muito al�m, e vem preencher aquela lacuna dos relacionamentos para que eles se tornem s�lidos, duradouros e educativos. De tal forma locupletam a conviv�ncia que os sobressaltos n�o causam preju�zos irrepar�veis. - E a senhora poderia me ajudar a entender a diferen�a entre afeto e afeto crist�o? - O afeto como express�o humana do gostar e querer bem pode realizar prod�gios de amizade e trabalho em conjunto at� o momento em que os interesses humanos s�o contemplados e compensados. Todavia, os projetos de amor e humaniza��o entregues � comunidade esp�rita tem como caracter�stica b�sica a ren�ncia de objetivos pessoais e a educa��o espiritual. Em Mateus, cap�tulo dezesseis, vers�culo vinte e quatro � dado o roteiro: "Ent�o disse Jesus aos seus disc�pulos: Se algu�m quiser vir ap�s mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;" po r�m, nem todos chegam a tal condi��o de uma para outra hora. Dir�amos mesmo que s�o raros os que atingem tal patamar. � nesse passo que a maioria de n�s se confunde. O afeto crist�o � a habilidade da alma de construir a conc�rdia: �nica virtude que faz das uni�es um tesouro de educa��o e cresci mento imperec�vel. Desafio nada f�cil em tempos de transi��o do ego�smo para o amor incondicional. Lembram o inspirado chamado de Eur�pedes naquela noite quando foram trazidos para fora do corpo os integrantes do Grupo X? Ele mostrou que conc�rdia � constru��o paulatina e demorada. Conc�rdia e uni�o n�o s�o poss�veis sem um sentimento ele mentar. Qual ser� esse sentimento? - Dona Modesta dirigiu a pergunta ao grupo presente. - Amizade - respondeu prontamente Tereza. - Paci�ncia - disse com bom humor uma outra participante que apontou o indicador para seu pr�prio peito. Foram falados v�rios sentimentos, mas ningu�m se referiu ao alicerce da boa conviv�ncia. Ent�o Dona Modesta retomou a palavra. - Tudo que disseram est� correto considerando os cuidados para que mantenhamos vivo o contato agrad�vel com nossos afetos. Entretanto, a base de qualquer rela��o, para que ela alcance est�gios mais gratificantes, ven�a a barreira das imper fei��es e nos eduque, chama-se confian�a. Confiar significa "fiar com..." Tecer junto o manto protetor da boa conviv�ncia. A confian�a � o sentimento que sustenta nossa cren�a nos valores uns dos outros. Quem confia se exp�e porque sabe que n�o ser� desacreditado. E quem se exp�e � luz da prop�s ta esp�rita-crist� est� suplicando amparo e orienta��o, apoio e perspectiva. Afeto crist�o � afeto que educa. Confian�a crist� � aquela que nos conduz a fazer das amizades verdadeiros elos de crescimento. Quando ela � rompida, os melhores amigos podem tornar-se inimigos. Sem ela, nossa vis�o � tisnada pelas pr�prias dificuldades interiores que carregamos, ou seja, vemos no outro a nossa sombra pessoal. A confian�a � uma ponte que nos liga uns aos outros. Na sua aus�ncia torna-se imposs�vel essa conc�rdia. O ato de confiarsolicita tamb�m algumas atitudes de amor sem as quais poderemos ficar ref�ns de nossos pontos de vista relativamente ao nosso pr�ximo, e que s�o corrosivos sutis da amizade. Eis algumas: acreditar nas boas inten��es alheias, amabilidade, assertividade, discri��o, empatia, toler�ncia ativa para os limites alheios e gratid�o. A aus�ncia dessas habilidades no relacionamento leva-o, ao longo de algum tempo, ao desgaste. O conjunto dessas atitudes forma o piso inicial para que exer�amos a fraternidade leg�tima, sem a qual n�o conseguiremos os objetivos educativos do esp�rito nas rela��es humanas que s�o: catalisar interesses pessoais para a Obra do Cristo, construir a homogeneidade de ideais e decidir os rumos mais adequados para que o trabalho nos assegure os recursos em favor de nossa reden��o. Sem conviv�ncia com fraternidade n�o h� alter idade, ou seja, n�o conseguimos apaziguar as diferen�as em favor da Obra. Para se saber o que est� no cora��o alheio, suas raz�es, suas dores profundas e seus temores, haveremos de contar com o tempo. Por esse motivo, quaisquer projetos espirituais visando conc�rdia n�o dispensam a paci�ncia e a caridade. - Dona Modesta! - interferiu Tereza. - Fale, minha filha. - Juro que me sinto envergonhada diante de sua sabedoria. - N�o h� motivos que justifiquem este sentimento! - Mas me sinto! Mesmo assim gostaria de fazer mais uma pergunta. - Fa�a-a nutrindo amor por si mesma. A vergonha pode ser um t�xico para nossa caminhada. - Se tudo come�a com a confian�a, como adquiri-la ou, mais propriamente no meu caso, como resgat�-la? Senti-me tra�da por in�meras vezes no meio esp�rita. Minha pureza de inten ��es parece n�o ter sido �til a mim mesma. - A alma cuja nobreza de inten��es norteia seus atos alcan�a como pr�mio da vida, a for�a de atra��o na dire��o do que seja o melhor na sua caminhada. Confian�a nesse caso significa vibra��o. H� uma atra��o natural de pessoas e situa��es que constituam as balizas de nosso processo evolutivo. Sabendo dis so, cada criatura consciente de sua busca pessoal nos roteiros do crescimento espiritual, vai aprender a analisar com crit�rio a natureza de seus sentimentos, ante essa ou aquela pessoa. De posse desse ju�zo fraterno com fins superiores, saberemos, es pont�nea e instintivamente, em qual rela��o vai fluir a confian �a ou em qual deveremos desenvolv�-la. Interrompendo o ciclo de id�ias de Tereza, mas ainda dentro do mesmo assunto, Jo�o, outro integrante da equipe interveio: - Dona Modesta, o processo de desconfian�a no Grupo X teria sido detonado quando Ana resolveu questionar a mediu nidade de Antonino? - Situa��es graves como a do Grupo X s�o tecidas no tempo. S�o agastamentos paulatinos que corroem a amizade pela falta de honestidade emocional - um resultado inevit�vel da pen� ria em que nos encontramos acerca dos mecanismos �ntimos da vida afetiva e moral. Se ela soubesse expor suas d�vidas sem estar contra ou se tivesse adotado a sinceridade am�vel, a assertividade, com fins de conc�rdia, certamente o rumo dos acontecimentos poderiam serem outros. Por�m, seria injusto depositar sobre os ombros de Ana a responsabilidade isolada do momento tormentoso que atravessa o Grupo X. - Da� decorrem as cis�es? - Quase sempre! H� um consenso em nossas equipes de servi�o socorrista aqui no Hospital Esperan�a: as cis�es na comunidade doutrin�ria, na maioria das vezes, decorrem da nossa incapacidade de saber como resolver os conflitos. Muitos gostariam de imprimir rumos diferentes �s cis�es, entretanto n�o conseguem. Raros os que, de fato, deliberadamente, preferem a dist�ncia, a inimizade. Mas o problema n�o s�o os rompimentos! - N�o?! Cap�tulo 17 Estudando a M�goa Ide, por�m, e aprendei o que significa: Miseric�rdia quero, e n�o sacrif�cio. Porque eu n�o vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. Mateus, 9:13 Pior que a separa��o, � o efeito emocional na intimidade. A m�goa. - Nunca consegui admitir como um esp�rita pode se magoar! - Talvez voc� n�o saiba o que � a m�goa, meu filho... - Claro que sei, Dona Modesta, mas jamais me deixei dominar por ela. - Mas magoou-se, n�o � verdade? - Sim. - E como ficou depois das m�goas? - Esforcei-me por esquecer e seguir adiante. Creio que perdoei. - E o relacionamento com as pessoas que lhe magoaram? - Deixaram de existir, passei a ser-lhes indiferente. - Ent�o n�o perdoou, meu amigo! - N�o? Por qu�? - A m�goa � um sentimento perfeitamente aceit�vel em se tratando de almas iluminadas com o conhecimento esp�rita. Todavia, saber administrar os efeitos nocivos da ofensa em nossa vida, isto sim, constitui grave desafio �tico crist�o. � a arte de perdoar. - A senhora quer dizer... - Quero dizer que um dos efeitos mais nocivos da m�goa � a atitude de indiferen�a. A indiferen�a � uma tentativa improdutiva da alma de tentar anular ou negar sentimentos, de isolar o afeto que, em sua concep��o, foi tra�do. Essa iniciativa seja consciente ou n�o, s� tem como resultado o ebulir dos maus pendores. A tentativa de ser indiferente nos leva a fixar nos pontos falhos, nas m�s recorda��es e na constante sensa��o de desconforto perante os ofensores. � um esfor�o para impedir as vozes profundas da alma que solicitam a coragem de perdoar N�o conseguindo, redunda em males a n�s mesmos. - Mas... E se ainda assim preferirmos a indiferen�a? - indagou com vergonha o participante. - Temporariamente, em alguns casos, torna-se at� justific�vel a indiferen�a em rela��o ao ofensor, desde que n�o estejamos indiferentes � muta��o de sentimentos que saltitam em nosso cora��o em rela��o a ele. Indiferen�a tempor�ria ao ofensor para dar tempo de minimizar os efeitos da ofensa. No entanto, se for uma op��o definitiva, uma escolha consciente irrevers�vel, estaremos caindo nas garras do orgulho e lutando contra a tend�ncia natural da alma na busca de sua recupera��o espiritual, cuja inclina��o � para a aproxima��o, a afetividade. - Realmente! Apesar de indiferente, jamais consegui ver meus ofensores por um prisma fraternal. Guardei apenas recorda��es infelizes de todos eles, caindo na descren�a. - A m�goa cristaliza nossa vis�o no lado menos feliz das pessoas que nos ofenderam. Sob efeito da ofensa, somos capazes de esquecer, automaticamente, o afeto e os momentos de alegria que tivemos com nossos ofensores. Esse talvez seja seu pior efeito. - Perd�o � somente esquecer a ofensa? - Perd�o � emo��o e n�o mem�ria. N�o se trata de apagar a mem�ria, mas ressignific�-la. - Como � perdoar com autenticidade? - A prova mais aut�ntica de perd�o no mundo �ntimo � guando conseguimos resguardar o nosso foco mental nos aspectos positivos das pessoas que nos ofenderam. Evidentemente, estou me referindo �s pessoas que tivemos a oportunidade de conhecer e fruir amizade, carinho e momentos gratificantes que, sob o manto negro da ofensa, passam � condi��o de advers�rios. Esquecemos tudo de bom que nos uniu �quela pessoa e lixamos a mente no deslize do ofensor. - Isso n�o seria pedir demais de n�s? Pensar na virtude de quem nos agrediu ou lesou? - Depende. - De que? - Depende de conhecermos com profundidade quais s�o as raz�es que nos prendem � nossa m�goa e ao nosso ofensor. Quais os motivos profundos que nos atrelam � m�goa em rela��o a algu�m. Quase sempre na raiz de nossas m�goas h� interesses pessoais contrariados. - Interesses pessoais?! - Por que nos sentir�amos ofendidos se n�o houvesse algo de pessoal? A m�goa expressa um sentimento de injusti�a. Jamais a sentimos dissociada da sensa��o de perda, les�o. Quando somos agredidos ou recebemos amea�as de agress�o, entra em a��o a emo��o da raiva, para nos proteger. � o escudo contra o que pode nos machucar. � um sinal do cora��o para que o ofendido descubra pela dor algo importante para sua caminhada. E quando descobrir tomar� o ofensor como grande instrutor de sua vida. A m�goa tem como elemento emocional b�sico a raiva que faz parte do sistema defensivo da alma. Caminhamos entre o sincero desejo de ser �til e as velhas ciladas da sombra do interesse pessoal. Na atualidade, ocorre um processo muito doloroso em nossa vida mental. Como buscamos a melhoria espiritual, estamos removendo as bases de um edif�cio de ilus�es que nos serviram de alento e seguran�a nos mil�nios. O ruir desse edif�cio amea�ador. Hoje estamos literalmente magoados com a Verdade, a Verdade sobre n�s. Temos raiva de saber o que estamos desco brindo sobre nossa vida profunda. Estabelecemos um processo de autocobran�a e autopuni��o face a essa realidade, tornando nos facilmente melindr�veis, mago�veis. A sofreguid�o desse auto-encontro faz-nos irrit�veis, fr�geis psiquicamente para qualquer corre��o menos fraterna. E ningu�m, em s�o ju�zo, pode afian�ar que sejamos almas abnegadas. O interesse pr�prio ainda � o motor de nossas a��es mesmo no terreno da espiritualiza��o. Raramente adentramos o campo moral da virtude. Nosso processo de aperfei�oamento ainda rasteja nos dom�nios da desilus�o. � o pre�o que paga mos para vencer a ignor�ncia que teima em manter-nos cegos acerca da nossa realidade moral. Todavia, nesse cen�rio, ningu�m passar� sem experimentar a dureza dos chamados. Muitos desses chamados vir�o de irm�os de caminhada e ser�o tomados como agress�es geradoras do ressentimento. Conquanto n�o devamos incentivar o clima da franqueza m�rbida que deveria ser substitu�da pela amabili dade, queiramos ou n�o, o ambiente da doutrina � um convite para as descobertas interiores e, muitas delas, ser�o realizadas sob chancela da ofensa. - Meu Deus! Nunca pensei por esse �ngulo! Creio que terei que fazer uma lista de meus ofensores e descobrir os meus pontos de aprendizado. - O ofensor, seja ele intencional ou n�o, vai passar pela nossa vida e se vai; a m�goa, por sua vez, ser� transportada conosco at� o instante que descobrirmos seu significado divino, o que ela tem para nos ensinar. No entanto, se n�o percebermos o quanto ela nos faz mal, poderemos n�o s� perder o fruto do que ela pode nos ensinar e, al�m disso, ao cultiv�-la em redoma na vida emocional, adular um projeto de carcinoma fulminante. - N�o sei se vou filosofar, Dona Modesta - instigou o tarefeiro -, mas parece que realmente at� a m�goa faz parte de Deus! - E o que n�o faz parte de Deus, meu filho? Analisando esse tema, concebemos com mais clareza o quanto nossa comunidade esp�rita ter� que aprofundar conceitos acerca da educa��o moral de seus adeptos. Com melhores no��es sobre velhos temas da moral e da atitude, O Evangelho do Cristo ganhar� uma nova roupagem com termos modernos, por�m, n�s, continuaremos como velhos religiosos apegados ao saber can�nico dos livros esp�ritas, sem mudan�as leg�timas na conduta de cada dia por desconhecermos a elasticidade dos pr�prios ensinos de Jesus. N�o existem sentimentos na vida �ntima que n�o tenham significado educativo para nossa caminhada. Determinar o que se pode ou n�o sentir � uma seq�ela do religiosismo est�ril, deseducativo. Eis o motivo pelo qual as casas esp�ritas deveriam se lan�ar com urg�ncia aos projetos de alfabetiza��o emocional, no intuito de melhor organizar as id�ias acerca do mundo �ntimo. A car�ncia de no��es sobre a realidade interior, especialmente sobre os sentimentos, responde por in�meras atitudes desconectadas da verdadeira inten��o de melhorar. A reforma �ntima ser� a resultante da habilidade em lidar com o desconhecido universo da realidade profunda do inconsciente, no qual jazem mecanismos perfeitos de evolu��o que necessitamos esquadrinhar. A educa��o religiosa que recebemos consolidou cren�as nefastas a esse respeito. A proposta esp�rita de melhoria das atitudes � um desafio �tico de criar rela��es mais enobrecedoras. Sem entender nossa vida afetiva, rodaremos em c�rculos de dor com rea��es aprendidas tais como a culpa, a rivalidade silenciosa, a vergonha, o remorso e a pr�pria raiva reprimida que se converte em estado melindroso, depois em m�goa e rancor, e, mais adiante, no �dio. Perdoar � compreender. Quem perdoa entendeu as raz�es da m�goa. Para perdoar n�o teremos que entender necessariamente a conduta do ofensor, mas a raz�o de nos sentirmos ofendidos. Claro que estamos falando de m�goas e perdas de rela��es e n�o dos casos graves de maldade e trai��o nos quais existem agress�es severas, envolvendo inclusive bens materiais e a vida corporal. Nesse est�gio penetramos os dom�nios de viol�ncia e as seq�elas v�o al�m da m�goa. A m�goa � um desgosto cujo objetivo � nos ensinar algo que n�o estamos querendo ver de outro modo. Assim como a raiva que tem finalidades importantes no crescimento, a m�goa tem li��es profundas quando desejamos olhar para n�s. Ali�s, a m�goa, quase sempre, � a raiva congelada, isto �, sentimos raiva em algum momento e n�o utilizamos esse sentimento com equil�brio. Posteriormente, essa raiva cria uma muta��o e transforma em ressentimento. Todo interesse pessoal contrariado na vida cria uma revolta interior proporcional ao grau de evolu��o individual. Para uns o desemprego significa chance de novas experi�ncias, para outros ser� uma expia��o sem fim. Em verdade, uma das caracter�sticas que mais definem a Terra como planeta de prova e expia��es � exatamente a priva��o da liberdade. A vida a todo instante nos contraria em favor de nosso crescimento. Somos cassados a todo instante de alguma forma. A transi��o na humanidade pode ser reconhecida, basicamente, por uma constante oposi��o aos nossos interesses ego�sticos. Filosofando, a vida nos magoa a todo instante! Talvez por essa raz�o os irm�os de doutrina asseveram que a doen�a mais grave do meio esp�rita � o melindre, isto �, a m�goa autom�tica. N�o querendo ver sua Verdade pessoal e tamb�m por faltar habilidade para tratar feridas alheias, termi namos por abrir chagas al�m daquelas j� conhecidas. A cultura religiosa dos s�culos nos educou para entendermos o perd�o para com o ofensor, como uma forma de limpar a no doa da m�goa para com ele, levando-nos a pensar da seguinte forma: j� n�o chega a ofensa ainda terei que gostar de quem me ofendeu! O perd�o, no entanto, antes de tudo, significa reconhecer conosco mesmo o que estamos perdendo, em que estamos sendo contrariados e porque nos sentimos lesados. Essa auto-aferi��o � fundamental para nossa paz. No fundo, perdoar significa cuidar de n�s mesmos e reconhecer a natureza da contrariedade que experimentamos. Sem isso, continuaremos ignorantes sobre nossas perdas e quais s�o os interesses pessoais que a vida nos solicita que fa�amos uma revis�o. - A senhora me perdoe tantas perguntas, mas ainda tenho mais duas - falou Jo�o com franqueza e demonstrando enorme ansiedade com o tema. Quanto mais sou esclarecido pela senhora, mais parece que surgem id�ias sobre o tema em minha mente. - Fique a vontade, meu filho! Esse � o objetivo do nosso encontro. - Como a senhora sabe, nossa equipe aqui presente est� matriculada nos cursos oferecidos pelo Hospital sobre a vida no submundo astral, visando nosso preparo nas tarefas socorristas junto � Terra. Estamos iniciando o estudo sobre os processos de magia e a��o tecnol�gica das organiza��es trevosas. J� ouvi falar em aparelhos desenhados para instalar a m�goa. Pode nos dizer algo a respeito? - Por agora n�o! Prefiro que no tempo oportuno e nos cursos apropriados tenham melhor entendimento. Voc�s conhecer�o os aparelhos, estudar�o sua funcionalidade junto � fisiologia dos corpos espirituais e do corpo f�sico, e ainda far�o cursos t�cnicos como desmont�-los. Por agora quero que saibam que n�o existe aparelho mais poderoso do que a mente l�cida. � a magia que vem de dentro da alma quando aprendemos a manipular nossa vida pessoal em favor do bem e da liberta��o consciencial. A m�goa pode ser instigada. Nenhum implante, no entanto, � capaz de impedir uma decis�o da alma nos refolhos da vida profunda. H� for�a de oposi��o e n�o anula��o da liberdade. Contra o perd�o nenhum aparelho foi ou ser� criado, pois, excetuando os casos de fascina��o cristalizada a caminho da subjuga��o, ningu�m est� impedido de decidir pelo bem. Voc�s conhecem bem a hist�ria do grupo referido por In�cio durante a comunica��o dada ao Grupo X. Sabem como se apaixonaram pelos aspectos externos da manipula��o de energias Embora n�o deixe de ser um avan�o em dire��o aos experimentos da mediunidade terap�utica e da rela��o espont�nea de parceria, necessitamos esclarecer aos nossos companheiros sobre o alicerce de nossa proposta: al�vio e educa��o. Eles, por amor ao desafio de servir, est�o realizando prod�gios e consolidando experi�ncias importantes na arte de socorrer. Carecem agora, desenvolverem uma proposta de automedica��o para seus as sistidos, a fim de n�o incorrerem no velho sistema assist�ncia lista que anestesia a dor, mas n�o orienta o antibi�tico �ntimo para debelar as infec��es morais. Al�m do que, carecem de se automedicarem na ameniza��o das pr�prias dores �s quais, muitas vezes, s�o analisadas como efeitos da tarefa, algo que nem sempre � verdadeiro. S� poder�o lograr essa meta se come�arerha investir na mudan�a de si mesmos, a alquimia interior. Descohrindo os antibi�ticos pessoais na sua pr�pria luta �ntima, ter�o indicativas de valor para o semelhante. A maior "magia" da vida � a liberta��o de nossa pr�pria consci�ncia. Como alcan��-la? Que recursos usar contra nossos �mpetos destrutivos? Que for�as mentais acionar contra os impulsos da vaidade e da inveja? Como articular energias interiores contra a compuls�o da maldade envernizada? Como conter os movimentos mentais que fazem da l�ngua um chicote? Como alcan�ar o corpo mental pessoal para transmutar as energias enfermi�as sem serenidade mental? Quantos pulsos energ�ticos direcionar para afrouxar nossa capacidade de afeto pelos diferentes? Que freq��ncia mental usar para aplacar nossa compuls�o para ser o maior? Enfim como usar a for�a das Leis Naturais ou Divinas para renovar a n�s mesmos? Os advers�rios t�m modos inteligentes de multiplicar a m�goa. Nenhum deles � capaz de arranhar a for�a do perd�o leg�timo. Uma mente l�cida acerca de si mesmo, consciente de seus pr�prios sentimentos, � o aparelho mais perfeito criado por Deus para implanta��o do bem na Sua obra. A quest�o �: como desenvolver a lucidez em mentes adoecidas como n�s? Acredito de cora��o: melhor que investigar a tecnologia da maldade ser� incentivar nos meios doutrin�rios cursos permanentes sobre a m�goa e o perd�o, que s�o mat�rias morais nucleares no programa de reeduca��o � luz do Evangelho do Cristo, nesse tempo de maioridade. A m�goa � larga porta mental aberta para a inquietude e a tristeza, que pode se degenerar em ansiedade e depress�o. Na primeira o doente ofende-se com a fantasia que faz de supostos rivais. Na segunda agasta-se com os fatos passados sem conseguir se livrar das lembran�as enfermi�as. O perd�o � deixar ir. Soltar. Compreender. - Estou satisfeito! Sua vis�o me conforta, Dona Modesta falou o tarefeiro sem mais rodeios. Farei, portanto, minha �ltima pergunta. Perdoar � voltar a estar junto do mesmo modo? - Quem compreende a li��o da m�goa j� tem o que lhe basta. Liberta-se do peso. Voltar a viver junto ou n�o ser� uma decis�o para depois do perd�o. Muitos tentam perdoar reatando la�os e negando o ressentimento. O ideal ser� livrar-se do ressentimento e depois decidir essa quest�o, desde que haja em n�s o compromisso de jamais desistir de amar. Voltar a estar junto, quando a m�goa nos separa de algu�m, � o ideal na proposta do amor. Esteja certo, por�m, meu filho, que jamais do mesmo modo. At� porque ofensor e ofendido tem algo entre eles tamb�m para reparar em favor do bem de ambos. Assim como existe o ofensor n�o intencional, indiscutivelmente existe o magoado n�o intencional, aquele que se sentindo ferido por alguma raz�o, seja justa ou n�o, est� ofendido, agredido. A m�goa � sempre uma li��o para quem busca a sabedoria; dela o ofendido descobrir� mais sobre si; dela o ofensor aprender� mais sobre as impress�es que pode estar criando no �ntimo dos que o cercam. Ambos, muito aprender�o sobre o amor. Conquanto seu car�ter doloroso, a m�goa pode se tornar uma excelente li��o de vida. E o perd�o, conquanto dif�cil de aplicar, � a atitude de sabedoria que mais evidencia o desejo intenso de amar. A reuni�o terminou em clima de reflex�o e ora��o. Dona Modesta despediu-se �s pressas por causa dos seus volumosos compromissos. N�s fomos entregues �s nossas pr�prias medita��es. Cada qual retornou aos seus afazeres. Est�vamos extasiados com os conceitos claros e ricos de simplicidade da benfeitora. Refiz todas as minhas cren�as sobre o perd�o e somente ent�o vim a entender com mais clareza a fala do Mestre narrada em Lucas, cap�tulo vinte e tr�s, vers�culo trinta e quatro: "E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque n�o sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lan�aram sortes." Jesus, Dotado de incompar�vel compreens�o e lucidez acerca das atitudes humanas, n�o Se sentiu ofendido. Perd�o � compreens�o. Essa frase dita por Dona Modesta n�o abandonava minha cabe�a. Aquele encontro foi de raro valor � minha condi��o espiritual. Descobri m�goas profundas na minha intimidade que supunha ter esquecido. Na verdade, foram negadas. Trans formaram-se em feridas ocultas. Fiz-me de forte a vida inteira para dar conta das dores que a vida me entregou. Supunha-me forte e capaz diante dos desafios. De fato, os encarei com certa coragem e zelo. Agora, desencarnado, tomando contato mais realista comigo mesmo, senti-me fr�gil, desorientado acerca de minhas emo��es e, inegavelmente, entristecido comigo. Jesus n�o negou Sua dor na cruz. Ele era pura consci�ncia e lucidez. Chorou. Eu, por minha vez, passei sempre adiante trabalhando e procurando ser �til, entretanto, tomei o caminho da indiferen�a, soterrei minha raiva. � muito desgastante pensar na m�goa. Algumas delas n�o entendemos t�o rapidamente quanto gostar�amos. Cansamos r�pido de examinar suas raz�es, quando n�o entendemos sua exist�ncia em nosso �ntimo. Na maioria das vezes, esse foi o meu caso, nem mesmo ocupamo-nos de pensar. Ela nos conv�m em muitas situa��es. Agora, por�m, imbu�do de inten��es mais nobres, consumia-me em entender minhas ofensas ocultas e soterradas. Tive que fazer tratamentos especializados para radiografar suas nuances e descobrir suas mensagens sutis para minha educa��o. A conversa n�o terminou naquele momento. Depois das respostas sobre a m�goa e o perd�o, Dona Modesta, em outras ocasi�es, fez enfoques substanciais para nosso entendimento transferindo o tema para o Grupo X, preparando-nos o melhor estado mental para aux�lio aos nossos irm�os. Calisto negava suas m�goas e usava a arrog�ncia para se defender, instalando a frieza afetiva como efeito. Ana era portadora de suscetibilidade extremada por ter renit�ncia em reconhecer suas ilus�es, produzindo assim uma base para o desequil�brio ps�quico. Antonino asilava muito interesse pessoal que ainda n�o havia descoberto em rela��o � sua faculdade medi�nica, sua inseguran�a decorria da ofensa que sentia em ser questionado em suas inten��es. Uma �nica medica��o se fazia oportuna para todos: muita miseric�rdia e compaix�o, paci�ncia e ora��o. Ficava cada vez mais claro o significado da fala oportuna de Nosso Mestre narrada em Mateus, cap�tulo nove, vers�culo treze: "Ide, por�m, e aprendei o que significa: Miseric�rdia quero, e n�o sacrif�cio. Porque eu n�o vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento" Cap�tulo 18 Depress�o de Ana E ela disse: Ningu�m, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu tamb�m te condeno; vai-te, e n�o peques mais. Jo�o, 8:11 Passada uma semana da lament�vel ocorr�ncia na reuni�o medi�nica do Grupo X, chegara o dia do novo encontro na tarefa da mediunidade. A expectativa era geral, inclusive em nosso plano. Na manh� daquele dia, fomos convocados �s pressas bem cedo, ao lar de Ana. Ela acordou indisposta com dores pelo corpo. Atribu�a tudo a interfer�ncias espirituais. Lembrou-se de Calisto com um sentimento de antipatia. Deduziu que os advers�rios queriam mant�-la calada para que ela n�o tomasse as r�deas da reuni�o. Recordou a comunica��o do suposto Doutor In�cio, conforme ela mesma costuma afirmar. Tentamos auxili�-la, mas em v�o. Mantinha-se impenetr�vel mentalmente. Mais tarde, o marido chegou complicando ainda mais o clima. Apesar dos pensamentos correntes, Ana experimentava uma dor moral. V�rias vezes recolheu-se ao quarto em choro convulsivo. As dores no peito aumentavam com o passar das horas. Julgava-se sobrecarregada com as decis�es que haveria de tomar. N�o conseguia desligar-se do assunto. Chegou a pensar em ligar para algu�m. Logo era tomada pela id�ia: "conversar para qu�?" "sou uma dirigente esp�rita; tenho que dar conta da minha miss�o". Intrigado, indaguei: - Que acontece com Ana, Dona Modesta? N�o h� interfer�ncias espirituais! - Ela est� debaixo de uma ardilosa indu��o hipn�tica. Essa rela��o exploradora, no entanto, � administrada por intelig�ncias "brilhantes". O que eles desejam � que ela acredite exatamente no que pensou, isto �, que os Esp�ritos querem cal�-la. Com isso, conhecendo-lhe sua t�mpera, reagiria com mais �n fase e aumentaria sua determina��o durante a reuni�o � noite, causando mais perturba��o. Esse epis�dio mental, entretanto, � um efeito decorrente da sua condi��o psicol�gica. - Efeito? - Ana oferece um campo ps�quico com o qual acolhe essa hipnose. - Que campo? - Depress�o. - Depress�o? - � um quadro ps�quico que necessita ser examinado com mais aten��o pelos trabalhadores da doutrina. Ana est� atormentada por si mesma. N�o fosse a ben��o do servi�o esp�rita n�o ter�amos como agir no controle das a��es espirituais em torno de seus passos, todavia, incursionar pelo seu mundo �n timo torna-se algo quase imposs�vel. - Ent�o � poss�vel a depress�o sem interfer�ncias espiritu ais? - Sim. Em alguns casos. Depress�o � doen�a da alma, Jos� Mario. - N�o � uma doen�a mental? - � a resultante de uma trajet�ria de vida eivada de conduta em desacerto com as Leis da Vida. � o lado sombrio das frustra��es que n�o soubemos ou quisemos superar. Frustra��o � a priva��o de uma necessidade ou desejo. Mormente nas faixas de evolu��o em que nos encontramos, � imposs�vel viver sem elas. Muitas almas, todavia, n�o as aceitam. S�o rebeldes por terem feridos os seus objetivos e interesses. O rebelde � algu�m que deseja controlar a vida ao inv�s de viv�-la. Quer mold�-la para que seus objetivos individuais sejam atendidos. � um controlador que n�o se adequou aos estatutos da realidade e quer alter�-los, a que pre�o for. A depress�o � exatamente a doen�a que vai lhe imputar a san��o corretiva, retirando de suas m�os a capacidade de gerir os talentos da exist�ncia, conforme seus caprichos ou vis�es pessoais. N�o se trata de castigo que venha de fora, mas de um efeito constru�do na vida mental ao longo de uma caminhada milenar. � um cansa�o espiritual, um limite estatu�do pelas Leis Naturais na reeduca��o dos filhos pr�digos, que optaram pela obstinada atitude de esbanjar a heran�a confiada pela Paternidade Divina. A rebeldia � o estado mental doentio que detona um colapso na vida emocional atrav�s de muta��es destrutivas em que se expressa, tais como: a intransig�ncia, a irritabilidade, a teimosia, o perfeccionismo, a rigidez, a revolta, quando em temperamentos austeros. Ou ainda a indol�ncia, a queixa, o melindre, a m�goa, a indiferen�a e a solid�o, quando em temperamentos ap�ticos. Instala-se sob seus reflexos um clima de irracionalidade capaz de patrocinar rea��es intempestivas e desequilibradas, raiando para a arrog�ncia ou a indiferen�a. Em tese, rebeldia � a forma que a alma encontra para fugir de sua pr�pria realidade. - A senhora classificaria a situa��o de Ana como rebeldia? - Ana � um cora��o bem intencionado como a maioria dos trabalhadores esp�ritas. Disposta � melhora e ao crescimento. Isso n�o lhe retira, assim como a nenhum de n�s, o peso das velhas mazelas morais que estamos longe de vencer. Na depress�o a criatura que colhe o resultado de mil�nios de personalismo exacerbado atrav�s do qual exerceu, egoisticamente, o poder de fazer da vida o que lhe convinha. Uma criatura acostumada a ter seus caprichos atendidos, sem con sidera��o aos limites da conviv�ncia honesta e sadia. O centro mental de gravidade do "esp�rito rebelde" � a culpa que ele aprendeu a manejar e sufocar pelo desenvolvimento da ilus�o e da trai��o consciencial. A depress�o � exatamente o desbordar dessas culpas que n�o cabem mais nos dep�sitos da subconsci�ncia. Necessita ser expurgada num processo de limpeza. Surge ent�o o remorso que, nada mais, � a press�o do subconsciente para expelir esse pus energ�tico. Essa mat�ria mental da insanidade � constitu�da por vibra��es de fortes teores, sendo capaz de adoecer ambientes e coletividades. A constitui��o molecular de seu campo ps�quico tem enorme disponibilidade de criar mecanismos catalisadores, junto aos neurotransmissores cerebrais, como a noradrenalina e serotonina, sendo tamb�m um fulcro parasita de endorfina criando muta��es que anulam sua a��o ben�fica no organis mo. Ana age como o ser humano que ainda tem dificuldade em se adaptar aos estatutos da Lei Divina que prop�em maleabi lidade na aceita��o dos fatos da vida. Sem julgamentos, mas fazendo uma an�lise com fins de amparo, ela, a despeito de sua laboriosa atua��o nos campos espirituais, � uma revoltada com a exist�ncia. - O caso de Ana sugere a utiliza��o de um tratamento especializado com rem�dios? - Somente uma "radiografia" da vida afetiva profunda da criatura lhe ensejar�, ou a quem estiver disposto a cooperar com o deprimido, uma an�lise das ra�zes de sua enfermidade. As medica��es psiqui�tricas devem ser tomadas � conta de recursos de apoio valoroso na ameniza��o de crises e manuten��o do humor em n�veis razoavelmente satisfat�rios para uma vida social. Todavia, somente uma incurs�o nas matrizes da rebeldia e suas m�scaras, seguida de a��es renovadas, constituir�o medica��o curativa e libertadora. A pessoa que est� com remorso apresenta, quase sempre, forte tend�ncia ao desculpismo, tornase muito questionadora e sempre prefere sua vis�o pessoal, do que a ajuda oferecida por quem lhe deseje auxiliar. Ana n�o gosta do corpo, rejeita o marido, sente-se culpada por muitos deslizes no primeiro casamento, deixou morrer os seus sonhos e agora, al�m de tudo, tem pela frente, no Grupo X, as provas na conviv�ncia desgastante. Vive uma vida �ntima entrecortada por muitos conflitos, in�meras frustra��es e escassos momentos de alegria real. A atitude rebelde � uma forma defensiva do ego contra a "inferioridade inata", isto �, aquela que a alma j� traz ao renascer, depois de mil�nios no ego�smo. Uma forma de negar o self que conclama o ser a viver na humildade e na responsabilidade. Responder pelas a��es criminosas do Esp�rito habituado a esconderijos ps�quicos, significa ter que contrariar seus interesses, mudar concep��es, ser honesto para aceitar sua vulnerabilidade, assumir para si sua falibilidade, elaborar suas culpas e, sobretudo, admitir seu sentimento de frustra��o perante a exist�ncia. - � poss�vel que a reuni�o de hoje � noite no Grupo X esteja piorando seu quadro? - Para certos Esp�ritos enfermos reencarnados, o ato de acordar do sono f�sico j� � por demais trabalhoso e opressivo. As Leis Naturais devolvem-nos, individualmente, os frutos de nossas semeaduras. � da Lei: teremos sempre muita dificuldade para aceitar aquilo que constitui o campo de nossos compromissos �ntimos e intransfer�veis, adquiridos pelo abuso. Depress�o � a resposta enfermi�a da mente face os abusos do cora��o, subtraindo do enfermo o seu el� afetivo com o mundo, a fim de que aprenda a olhar para si mesmo e por si mesmo. Depois de longa peregrina��o na a��o irrefletida e negligente para com os apelos da consci�ncia, a alma � aprisionada na sua pr�pria intimidade com a san��o de encontrar-se com sua realidade profunda, e promover sua melhora. Para o intelectual astuto do pret�rito, o fato de n�o ter estu dado no presente ser� obst�culo suficiente para tornar a vida infeliz. Para a abortista criminosa n�o punida pela justi�a, o fato de n�o engravidar � uma pena dura o bastante para desistir de viver. Para o pol�tico dominador, agora em posi��o de subordina ��o, ser apenas mais um membro no contexto social � desafio severo e fonte de inconforma��o. Para o sovina e o esbanjador de outrora, ser� muito dolorosa a perda ou escassez de qualquer monta. Para o desonesto e o traidor do pret�rito, ser� muito �nc� modo presenciar ou sofrer em si os atos de infidelidade ou des confian�a. Para o ad�ltero e o sex�latra das vidas sucessivas, ser� uma expia��o o ci�me e a incompletude no uso das for�as gen�si cas. Cada um reagir� aos fatos e relacionamentos, conforme a natureza de suas faltas. Para alguns, o fato de ser desclassifica do em um concurso p�blico, indica que dever� estudar mais, enquanto, para outros, ser� fator de tristeza e desist�ncia. A depress�o surgir�, dessa forma, para uns em pequena desaven�a no lar e para outros atrav�s de fal�ncias de grandes grupos industriais. N�o � o tamanho externo da prova que determina o surgimento da enfermidade, mas o compromisso consciencial da alma nela inserida. Para alguns � t�o sublimi nar a motiva��o causal que dar� a impress�o de ter surgido do nada. Entretanto, � preciso asseverar que toda depress�o tem um gatilho emocional. Este gatilho de natureza moral da depress�o � a inconforma��o. Um simples objeto da casa deslocado sem consentimento, cria um campo de revolta qual fosse uma leve fagulha descarregada sobre enorme barril de p�lvora. - E qual a solu��o para a depress�o, Dona Modesta? - Ainda que imbu�dos das mais nobres inten��es, somos levados a aceitar que os fatos da vida ser�o como devem ser. Fazer o melhor ao nosso alcance para que o bem se instale � a medida da vida, criando os limites em favor de nossas necessidades de crescimento. A aceita��o consiste em entender os recados ocultos nas ocorr�ncias de cada instante, e resignar-se frente �quilo que n�o podemos mudar por agora. Isso n�o deve nos impedir de tentar novos caminhos, entretanto, sempre resignados, sem rebeldia. A mensagem de amor de Jesus � o receitu�rio mais completo para as lutas da depress�o. O processo da culpa que transborda na mente enferma solicita o concurso do autoperd�o, da f�, do trabalho, da autenticidade, da ora��o, da honestidade emocional e da caridade. Todavia, tal receitu�rio bendito prev� que essas indicativas para aquisi��o da sa�de, s� ter�o efetivo valor quando aplicadas conscientemente no exerc�cio das atitudes. E Allan Kardec, lan�ando o olhar sobre as lutas provacionais, indagou aos Luminares da Vida Maior na quest�o n�mero mil de O Livro dos Esp�ritos: "J� desde esta vida poderemos ir resgatando as nossas faltas?" Na resposta, os S�bios Instrutores, confirmam a possibilidade do resgate das faltas e ressaltam a import�ncia da atitude corretiva no seguinte enfoque: "S� por meio do bem se repara o mal e a repara��o nenhum m�rito apresenta, se n�o atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais." - Perdoe-me e oriente-me se estiver sendo desrespeitoso; Ana estaria em processo de repara��o na condi��o de presidente de centro esp�rita? - Perguntar para aprender n�o nos faz desrespeitosos em rela��o � vida alheia, Jos� Mario. Sua pergunta � oportuna e s�bia. A resposta do Esp�rito Verdade � Kardec fala de repara��o. Os meios esp�ritas deveriam colocar esse aspecto em regime de prioridade para ser estudado nas agremia��es doutrin�rias. A pergunta b�sica seria: ser� que estou reparando minha condi��o espiritual? A palavra reparar, entre v�rios conceitos, significa dar melhor funcionamento ao que estragou. Recuperar, aprimorar. O objetivo da repara��o � atingir o orgulho e os interesses materiais. Ana, assim como muitos dirigentes esp�ritas, esqueceu seu valor real. Como j� lhe contamos ocasionalmente, ela veio para o centro doutrin�rio sob o guante da dor. Com o tempo melhorou e se imaginou maior do que realmente �. O orgulho tem essa propriedade. Engana-nos a respeito de nossos valores e imperfei��es. Ana se iludiu e se sup�e com uma miss�o. Acredita que o fato de ter sido tra�da e sofrido tanto com as decep��es amorosas do primeiro casamento, tornou-se um exemplo de vida. At� mesmo as lutas de agora com o segundo marido s�o analisadas como teste de resist�ncia e grandeza. Acredita que os inimigos da tarefa a querem fazer desistir impedindo o marido de arrumar um emprego ou mesmo levando-o a deleitar infantilmente com o Espiritismo. Seu orgulho tolda-lhe a vis�o para sua parcela de responsabilidade em tudo que vem acontecendo. - Tolda-lhe a vis�o de que modo? - Impede-lhe de perceber que quando os amigos do centro esp�rita reprimiram o marido, agiram de forma acertada. Ela apoiou o esposo e ele nunca mais se interessou pelos ideais nobres. Ela foi co-respons�vel pela acomoda��o do marido ao ficar do lado dele. No primeiro casamento teve um companheiro de raras qualidades, entretanto, ela trazia todas as manhas e posturas vividas no lar paterno, que tornou-se um �nus ao casamento. Repugnava o sexo e ainda adorava gastar sem conten��o financeira. Tinha cuidados corporais exagerados e exigia f�rias duas vezes por ano. N�o queria filhos e teve os primeiros sintomas de depress�o j� neste tempo. O marido n�o resistiu... Para agravar, como voc� j� est� informado, ela sucumbiu, antes mesmo do marido, em lament�vel tenta��o. Na atualidade, enxerga nos filhos uma prova de contrariedades. Ama-os, entretanto, esmaece um pouco seu afeto por n�o terem seguido os passos da m�e no Espiritismo. Durante a inf�ncia dos meninos, no entanto, refestelou-se em passeios e divers�o. N�o havia tempo para a educa��o espiritual. Sequer um encontro de ora��es e estudo no lar foi realizado. O �ltimo sonho que Ana cultivou j� faz alguns anos: ser esteticista. Todavia, o atual marido, bonach�o, cortou-lhe o ideal e ela permitiu. Assim ocorre com grande maioria de n�s. Queremos tudo da vida oferecendo paup�rrimas moedas de responsabilidade e lucidez, para depois reclamar de tudo e de todos, sem reconhecer nossa parcela de escolhas para que tudo chegasse aonde chegou. Isso tudo, amigo querido, � efeito do orgulho que nos consome em ilus�es a respeito de n�s pr�prios. A depress�o � a doen�a que nos faz voltar para dentro de n�s mesmos e come�ar a trajet�ria de perceber na intimidade pessoal as causas de nossas afli��es e desajustes. - Dona Modesta, quais as manifesta��es mais comuns da depress�o naqueles que comungam os ideais de melhoria espiritual? - A forma mais expressiva � o estado �ntimo de insatisfa��o cr�nica que assume diversas m�scaras, tais como, irritabilidade, perfeccionismo, confus�o nos pensamentos, ang�stia com dores no peito, pris�o intestinal, acelera��o dos batimentos card�acos. Esse conjunto de sintomas, por si s�, motivam quadros psicol�gicos variados da tristeza profunda � euforia destruti va. O efeito mais cruel, por�m, � no campo emocional, porque se instala uma apatia que leva a criatura a n�o querer viver Um quadro sofr�vel de total indiferen�a afetiva que provoca a "morte interior", alimentando a descren�a, o des�nimo e a inconsequ�ncia. - Ent�o, trabalhar no nascedouro � evitar mais dor? - Trabalhar pelo controle �ntimo � a tarefa reeducativa a que est� intimado o deprimido. Para isso, haver� de aprender a ceder, ser apenas mais um, n�o querer impor, aprender a deixar a vida fluir como ela �, perdoando-se quando n�o alcan�ar seus desejos, orando para asserenar a mente, e permitir a entrada dos raios de luz do Eu Divino sobre o maremoto da sombra agitada e rebelde. - A depress�o ent�o � um convite � educa��o espiritual? - Sem d�vida. Os deprimidos n�o podem se acomodar nos tratamentos medicamentosos e psicol�gicos, se anseiam se libertar. A cura definitiva est� na atitude, na renova��o dos sentimentos atrav�s da cria��o de novos h�bitos, na conduta de viver sentindo a vida como ela �, n�o a idealizando atrav�s da produ��o sistem�tica de formas pessoais de pensar e desejar. Por fim, o deprimido � uma alma convocada ao perd�o, perdoar a si, a Deus e ao pr�ximo. Limpar as m�goas resultantes das neur�ticas exig�ncias e procurar plenitude no ato de viver o presente, esquecendo o que passou e sem �nsia pelo que vir�. - E como ficar� Ana com um desafio desses que a espera hoje? - Ana ser� socorrida. Espere e ver�. - A senhora est� providenciando alguma medida? Nossa equipe descobriu um caminho promissor. Aguarde. Passaram cinco minutos da fala de Dona Modesta e o telefone tilintou. Embora Ana desistisse de procurar por algu�m, parece que algu�m, espontaneamente, viria ao encontro dela. Uma vizinha de bairro queria matar as saudades. - Al�! - respondeu Ana. - Ana, aqui � Rebeca. Tudo bem? - Rebeca, que bom que ligou! H� quanto tempo! - Amiga, acredita que hoje acordei com voc� em minha cabe�a? A insist�ncia do pensamento foi tanta que n�o ag�entei. Est� mesmo tudo bem?! - N�o, Rebeca, n�o est�! Ali�s, foi muito bom ter ligado. Preciso mesmo falar com algu�m. As duas conversaram longamente trazendo al�vio a Ana. Ao fim do di�logo, Rebeca, inspiradamente, fez um convite. - Na minha opini�o voc� precisa de um bom descarrego, minha filha! - Acha mesmo! - As t�cnicas de voc�s "esp�ritas de mesa branca" n�o limpam algumas mandingas (feiti�o) bravas. H� quanto tempo venho te convidando para ir l� na nossa casa de umbanda. Se voc� quiser, hoje � tarde tem atendimento e posso te arrumar uma ficha. Vamos falar com Vov� Conga. Que tal? - Voc� acha mesmo que pode me ajudar a sair dessa situa��o? - O que tem a perder, Ana? - Voc� mant�m segredo? N�o conta para ningu�m l� no centro? - Conte comigo. Duas da tarde passo para te pegar. Assim foi feito. Pontualmente, as quatorze e trinta horas, Ana entrava na Tenda Umbandista Vov� Conga. Meia hora depois, estava a falar com a preta velha incorporada na m�dium Celina, uma senhora de meia idade. Ao entrar, acompanhada por Rebeca, foi saldada pela entidade espiritual. - Que lorva�o seja nossu sinh� Jesu Cristo minha fia! - Responda assim Ana: para sempre seja louvado - solicitou Rebeca. - Para sempre seja louvado! - Afia t� mau n�? - N�o estou bem n�o, Vov� Conga! - Nega veia sabe. Vosmec� tem fio em casa com mandinga. Vov� tem mironga pra conta oc� minha fia. - Mironga quer dizer segredo Ana - traduziu Rebeca. - Que segredo, Vov�? - Tem quiumba (Esp�ritos atrasados) que prendi seu marido. - Macumba, Vov�? - Das brava fia. T� tendo demanda de entidades do lado de c� e o fio t� ficando zureta. - Quem fez isso? - O patr�o. - Patr�o? - O marido de vosmec� num tocou demanda na justi�a con tra o patr�o? - Foi verdade. Ele foi despedido e a empresa n�o pagou mui tos direitos. - Pois o patr�o � macumbeiro. Homem depemba (que usa o gizpara riscar pontos no ch�o). Ofeiti�u �profio num arrumar trabaio. - E ele n�o arruma mesmo. Aonde chega d� tudo errado. J� est� desistindo de procurar - respondeu Ana completamente envolvida e surpresa. O patr�o devia ele e ainda faz maldade? - Fia, ningu�m quer perder nada na Terra. T� tudo apega do. - Acho que o meu marido � muito mole tamb�m. N�o quer trabalhar. - Num � moli n�o fia. O cura�ao humanio � ingual uma fossa sabia fia? Vosmec� sabe o que � fossa? - Sei, Vov� Conga. - No tempo de nega escrava, jogavam os preto na fossa. Fazia mardade com nois. Feria o lombo e jogava nas fossa pra modi morrer, n�. Dava fec��o e morria. Que vosmec� acha que tem quefaz� com o fio que t� na fossa? Como ajuda o fio sa� de l�? - Tirando ele de l� de algum jeito. - Como fia? - Jogando uma corda talvez... - � isso mermo que o fio precisa. Uma ajudazinha de fora pra modi da conta do que t� dentro dele. - O Evangelho faz isso. - N�o fia. O evangeio faz mais que isso. O evangeio fecha a fossa efaz canteiro abonitado pra prant� semente boa. Pro fio d� conta de us� o evangeio e tampa a fossa, precisa sai de l� primeiro. No buraco o fio n�o da conta defaze nada. - A senhora pode ajudar? - Nega tem trab aio pra fazer. S� que tem uma coisa fia... - O que � Vov�? - Se vosmec� n�o arruma a casa esp�rita, as quiumba mandada junta com os eguns (Esp�ritos desencarnados) de l� de seu centro efaz muita mardade. - A senhora fala os inimigos do Grupo X? - Isso fia. Esses s� com evangeio na conduta. - A senhora sabe o que acontece l�? - Tem aqui uma alma boa de l� e que ama muito vosmec� contando tudo pra nega. - Eu estou muito triste com tudo minha velha - Ana n�o conteve o choro. A preta velha manteve-se em sil�ncio absoluto por algum tempo. - Vosmec� t� com corpo aberto (sem defesas). Tem mandiga assentada. - Mandinga assentada? - S�o aparelhos, Ana, que os Esp�ritos colocam para nos prejudicar - informou Rebeca. - Aparelhos? Ent�o existem mesmo? Por que nossos m� diuns n�o v�em essas coisas? - Fia - intercedeu a entidade espiritual - cada cavalo (m�dium) faz seu trabaio. - E o que esse aparelho faz? - Tristeza fia. Doen�a de tristeza. - Depress�o? - Isso fia. Mas a alma t� dizendo uma coisa para vosmec�. - Que �? - Que vosmec� t� com queijo efaca na m�o. Pode quere ou n�o quere aceita o convite das boas alma. Se aceita vai longe. Se n�o aceita a situa��o piora. - Aceita o que, Vov�? Pergunta para ele. - Ele diz que � aceita o convite pra trabaio novo fia. Essa alma � trabaiad� de Barsanulfo. S� Euripes. Ele fez convite mas afia saiu da reuni�o efoi embora. - A senhora sabe o nome dele? - Dotori In�cio. - Meu Deus! At� aqui o senhor veio atr�s de mim! - exclamou Ana surpresa e convencida da presen�a citada. - Ele t� rindo fia. - Por qu�? - O dotori diz que pode ajudar o marido da fia. � s� afia abri o cora��o l� no centro e deixa as alma trabai�. Que afia precisa aprende coisa nova e que tem doutrina na camatu� (cabe�a) c precisa traz� pro cora��o. - Vou pensar no assunto! - exclamou Ana com voz entrecortada de emo��o. - Fia, Vov� conga vai diz� uma coisa pra vosmec� ir em paz. Nega veia que fala sozinha com a Fia - ent�o a pedido da pretavelha, Rebeca se retirou. - Diga minha velha - falou Ana com carinho estendendo suas m�os � preta-velha. - Esse dotori � dos h�o. Ele pode tira apareio da fia e ainda curar seu marido. Ele diz que sabe tudo de vosmec�. Diz que sabi segredo da fia. - Segredo? - Segredo do cora��o. Afia nun tem segredo? - N�o estou entendendo - disfar�ou Ana. - O dotori vai fala mais claro que � pra nun fica d�vida. Ele diz que afia ama quem n�o pode e que ele pode ajuda afia nisso se quiz�. Ana enrubesceu de pronto. Pensava consigo mesmo: n�o ser� uma farsa, meu Deus? De qualquer forma, a proposta de Doutor In�cio lhe interessou e ela n�o conseguiu conter. Um fio de esperan�a nasceu ao ouvir que poderia ser ajudada no assunto. Tomada de espanto, indagou: - Ser� que o Doutor pode me dizer como vai ajudar? - O dotori diz que vai limpa o cora��o da fia e dar sossego. Pra isso afia tem que deixa ele trabaia no centro e ajuda as pessoa. Se afia abri a camantu� (cabe�a) e deixa as almas trabaia para curar a dor do homem dirigente e a dor do povo que sofre, ent�o afia vaifaz� religi�o de amor, de bem. Quem vai ganha mais � a pr�pria fia, diz o dotori. - Posso fazer uma perguntinha a ele? - Podi sim fia. - Como o senhor v� essa minha situa��o? - O dotori fala que vosmec� � muito sofrida na vida. Num pudia ter outro caminho. Isso num que diz� que afia deve trupicar empedra que pode ser retirada do caminho. E que louvado sejii nosso sinh� Jesu risto muzamfia. - Louvado seja! Ana saiu pensativa. Agradeceu a Rebeca que ficaria na Tenda para continuar sua tarefa e retornou sozinha ao lar. Foi pensando em tudo. Na presen�a de Doutor In�cio. No que significaria este momento. O passe dado por Vov� Conga aliviou seu cora��o, mas sua cabe�a estava confusa com tanta informa��o. Ainda em l�grimas, confabulava consigo mesmo a caminho do lar: - Ser� que estou sendo chamada a novos aprendizados? Contudo, como ficaria a doutrina? De que convite falava Doutor i In�cio? Ter� sido algo dito ao grupo ap�s minha sa�da da reuni�o? Por que n�o me informaram nada? E essa tal mandinga? Ser� que acredito nisso? Que nada! Acho meu marido um mo lenga mesmo... Ser� que Rebeca n�o contou nada pra m�diun? N�o, n�o pode ser! Ela n�o tem como saber o que acontece. Ai que vontade de parar com tudo isso, meu Deus! Ser uma pessoa comum, n�o ter que ficar pensando em coisa do al�m e pensar nas daqui mesmo. Que vontade de sumir! Ser� que estou obsi diada? Doente? Ou os dois? Ser� que n�o devo acreditar nesse tal Doutor In�cio sobre a situa��o do Grupo X? Ser� que esse tal Doutor In�cio � um Esp�rito da umbanda? T� muito cansada de tudo Deus! Muito cansada... Mas como duvidar diante do segredo que ningu�m sabia: meu amor por Antonino. Meu Deus, que dor na alma! Alivia-me Senhor! Por muito pouco, o preconceito, esse apego emocional �s nossas cren�as, n�o subtraiu a melhora da presidenta. Ana caminhava e chorava. Vivia os dramas �ntimos da d�vi da, um doloroso convite ao amadurecimento do discernimento Apesar da confus�o mental, sentia muito al�vio da ang�stia Isso lhe dava melhor estado de �nimo quanto � tarefa. De regresso ao lar, buscou descansar e refazer suas energias. Com o tempo, nas minhas atividades, vim saber mais sobre a Tenda Umbandista. Era um n�cleo avan�ado de caridade e doa��o vinculado ao Hospital Esperan�a. Vov� Conga, uma disc�pula fiel de Isabel de Arag�o, a rainha santa de Portugal, era o pseud�nimo de Maria da Cruz Xavier,19 servidora devotada de nosso diretor Eur�pedes Barsanulfo. 19. Maria da Cruz Xavier nasceu em 1892 e foi dedicada colaboradora de Eur�pedes Barsanulfo. Cap�tulo 19 Riscos de Sitiamento E, por se multiplicar a iniq�idade, o amor de muitos esfriar�. Mateus, 24:12 Durante toda tarde e o iniciar da noite, as aten��es foram voltadas em regime integral para o Grupo X. At� �s �ltimas horas antes da reuni�o, nossa equipe n�o regateou esfor�os para socorrer os irm�os em luta no campo espiritual. Mesmo participando das equipes emergenciais, surpreendia-me com a capacidade din�mica dos nossos orientadores em encontrar op��es para favorecer os amigos reencarnados. A passagem de Ana pela Tenda Umbandista fez brotar um clima de esperan�a entre todos n�s. Doutor In�cio fez quest�o de acompanh�-la at� sua resid�ncia com incompar�vel desvelo. Uma pequena sala na psicosfera do Grupo X nos abrigava para as medidas em curso. - Dona Modesta - puxei a conversa -, o ambiente n�o est� quieto demais, tomando por base os ataques permanentes dos �ltimos dias? - Est� aparentemente quieto. � uma estrat�gia. Os antagonistas do Grupo X sabem que aqui nos encontramos a esper�los. Est�o sendo monitorados tamb�m. Os c�rebros da perversidade criaram meios inteligentes de sondar as a��es do bem, mas n�o conseguiram superar o poder do pr�prio bem que conta com o apoio da justi�a e miseric�rdia divinas. Eles s� alcan�am-no at� certo limite. Essa a vantagem de quem busca ascender-se na evolu��o. Qualquer de n�s est� sujeito ao mal at� o ponto em que o trazemos na pr�pria intimidade. Nem mais, nem menos. A justi�a da Lei Natural tem seus estatutos imut�veis na qual assegura, conforme o livro Apocalipse, cap�tulo dois, vers�culo vinte e tr�s: E darei a cada um de v�s segundo as vossas obras" - A senhora teve not�cias de Calisto e Antonino? - Os membros da equipe que os amparam nos disseram que Calisto est� irredut�vel e Antonino apreensivo, com reflexos f�sicos de enxaqueca e espasmos intestinais. - Qual opini�o que a senhora tem sobre o que ocorrer� na reuni�o? - Tudo � poss�vel, Jos� Mario. Em situa��es como esta de clima tenso, nada � previs�vel. Os companheiros est�o tomados por intensa perturba��o emocional. O melhor �xito dos �ltimos dias foi obtido com Ana, agora � tarde como voc� presenciou. Calisto est� pronto para declarar uma afronta a qualquer atitu de de Ana. Vai exigir desculpas por ter abandonado a reuni�o, propondo medidas para a futura presid�ncia. Antonino sente se amargurado com tudo e t�o inseguro de si que imagina, em suas fantasias de baixa auto-estima, at� mesmo ser afastado da reuni�o medi�nica por mistifica��o e obsess�o. Eu diria que as cabe�as n�o est�o onde deveriam... - Haver� uma divis�o no grupo? - � poss�vel, Jos� Mario. � poss�vel! - E, se houver, como ficar� a continuidade do projeto pro posto ao grupo? - Jos� Mario, voc� aprender� com o tempo, nas equipes so corristas, que existem dois tipos de companheiros na casa esp� rita. Aqueles que discutem pontos de vista exclusivamente por interesse pessoal, do qual n�o pretendem se afastar t�o cedo, e aqueles que discutem pontos de vista pressionados a ampliarem Mta percep��o e experi�ncia espiritual, atrav�s da for�a educativa das circunst�ncias. No primeiro caso, os projetos s�o exterminados sem qualquer possibilidade de continuidade, resultam de lastim�vel personalismo e flutuam ao sabor de m�goas e de op��es. No segundo, ainda que haja a presen�a das rupturas, o trabalho ter� sempre prioridade nos ideais de nossos irm�os. As rela��es, nesse caso, podem falir, mas os ideais v�o permanecer. N�o desistir�o porque amam o ideal. Restar� a ele aprender a li��o �urea: amar uns aos outros. - O que � mais importante: os ideais ou as rela��es? - As rela��es, nesse per�odo de maioridade, t�m preval�ncia em nossos desafios de trabalho e projetos de a��o. Como assevera o Evangelho de Jo�o, cap�tulo treze, vers�culo trinta e cinco: "Nisto todos conhecer�o que sois meus disc�pulos, se vos amardes uns aos outros". - Qual seria a postura ideal para Ana e Calisto nessa noite? - Desprendimento pelo bem da Obra. Seria ideal que Ana se desculpasse, Calisto enxergasse seus excessos e Antonino fosse mais maduro. A convic��o irredut�vel de Calisto e o severo senso de responsabilidade de Ana s�o exageros prejudiciais ao relacionamento. Amam os ideais e n�o percebem como agridem a sensibilidade alheia. O ideal solicita tenacidade, mas as rela��es devem ser regadas de miseric�rdia e flexibilidade. O mundo �ntimo do ser humano est� repugnando esses excessos, e a forma de defesa autom�tica a essa agress�o � muito sutil e desastrosa. � o esfriamento. O sentimento de iniq�idade � dano para a conviv�ncia. Como assevera o evangelista Mateus, cap�tulo vinte e quatro, vers�culo doze: "E, por se multiplicar a iniq�idade, o amor de muitos esfriar�." O sentimento de justi�a � um dos pilares da evolu��o humana. O Cristo veio nos convidar para o amor, entretanto, a caminhada para amar requer a solidifica��o da justi�a no cora��o. Esse sentimento � o fiel escudeiro da consci�ncia e se expressa como esmerada responsabilidade nas a��es, entretanto, em muitos lances, caminha para a rigidez e a descaridade. - Eles t�m chances de se entenderem? - Pelo que j� presenciei em outras situa��es, as chances s�o m�nimas. Nenhum deles, por�m, est� com a escolha comprometida por qualquer tipo de impedimento intranspon�vel. Podem optar pelo bem. Nenhuma obsess�o complexa. Nenhuma doen�a mental. Nada lhes impede, caso assim o desejem, de resolverem pac�fica e harmoniosamente suas pend�ncias. - Eles querem essa op��o? - � o que mais desejam. - Por que ent�o as chances s�o m�nimas? - Porque o amor � uma arte, Jos� Mario. Quando se alcan�a o n�vel de viv�ncias do Grupo X fica muito clara nossa incipi�ncia em mat�ria de amor. Nossos irm�os s�o gigantes da coragem e da perseveran�a. Lutam honestamente contra suas sombras interiores. Guardam as melhores inten��es, mas, assim como n�s outros, s�o crian�as no amar. Mesmo com tanta percep��o, recolhem-se � concha fria do ego�smo. Para n�s que apenas come�amos a caminhada de reden��o espiritual, por mais devo��o que entreguemos � luta educativa, nada mais faremos durante uma reencarna��o do que dilatar nossa compreens�o sobre a extens�o de nossas necessidades espirituais. � o despir de ilus�es. Somente ent�o, de posse da inquestion�vel inten��o de vencer a n�s mesmos, pediremos o retorno com mais dilatada lucidez, para iniciar um longo ca minho na conquista das virtudes e na solidifica��o de h�bitos elevados. Primeiro a liberta��o da consci�ncia. Depois o servi�o de edifica��o paulatina de valores. Nesse trajeto, as atitudes essenciais para se libertar do devaneio sobre nossa import�ncia pessoal s�o o cumprimento do dever e o comprometimento com as tarefas de espiritualiza��o. Cumprir o dever � acima de tudo n�o fugir de nossas provas pessoais, e comprometimento � expressar o j�bilo de trabalhar, aprender e servir. Hoje o amor que supomos viver � uma tenra semente que nos inclina o cora��o para experi�ncias prim�rias. Se n�o somos capazes de pedir desculpas, de nos diminuirmos perante uma Obra que n�o nos pertence, que amor esperar nas atitudes? Pensamos que amamos. Nosso amor est� mais na cabe�a, no discernimento, do que nos sentimentos. Sem amor leg�timo n�o h� espa�o para entendimento e uni�o. Por esta raz�o, nossa postura diante da luta de nossos companheiros � a do respeito incondicional. No lugar deles far�amos da mesma forma, inspirados em ilus�ria nobreza moral e no zelo com as atividades doutrin�rias. Se houver uma cis�o, nossos amigos v�o experimentar a dor da separa��o e da saudade. E aqueles mais corajosos v�o permitir-se o arrependimento e a vergonha. Tudo isso ser� crescimento e maturidade no futuro, quando forem honestos o bastante com suas pr�prias consci�ncias e puderem olhar para tr�s, sem nenhuma m�goa e impulso de revide, e dizer: perdoe-me, eu n�o sabia o que fazia! Somos almas falidas no amor, Jos� Mario. Jesus nos Tutelou na condi��o de doentes, porque n�o conseguimos e n�o sabemos, por enquanto, o que seja amor sem interesse pessoal. Isso levou o Esp�rito Verdade a afirmar na quest�o 893 de O Livro dos Esp�ritos: "Toda virtude tem seu m�rito pr�prio, porque todas indicam progresso na senda do bem. H� virtudes sempre que h� resist�ncia volunt�ria ao arrastamento dos maus pendores. A sublimidade da virtude, por�m, est� no sacrif�cio do interesse pessoal, pelo bem do pr�ximo, sem pensamento oculto. A maw merit�ria � a que assenta na mais desinteressada caridade." A fala inspirada da benfeitora deixou-me calado. Em sil�ncio interior. N�o havia o que dizer e tinha muito a meditar. Eram dezenove horas e mais trinta minutos quando chegou irm�o Ferreira dizendo: - A patroinha viu como est�o as coisa a� de fora? Num t� f�cil n�o. Vigia num vai faltar! - pronunciou em bom sotaque nordestino. - Estamos cientes, Ferreira. Fa�a sua parte. Pode voltar ao seu posto. Qualquer novidade nos comunique. Mantenha um raio de dois quarteir�es ao redor do centro em permanente aten��o. Tem alguma percep��o de vibri�es? - Ainda n�o patroinha. Mas tem bin�culo pra todo lado. - Mesmo a casa vazia necessita toda essa vigil�ncia, Dona Modesta? - interpelei curioso enquanto aguard�vamos a chegada dos irm�os encarnados. - Aqui ser� tomada a decis�o final de nossos companheiros. J� que est�o com o lar e a vida pessoal sob cust�dia, temos, igualmente, que preservar o ambiente do centro. - Que s�o bin�culos? - Descobrimos a inten��o dos advers�rios em implantar um vibri�o no centro. Est�o vigiando a casa a dist�ncia j� que n�o conseguem furar o bloqueio. Os bin�culos s�o aparelhos �u diovisuais que monitoram o movimento em torno do ambiente espiritual do centro. - Parece coisa de guerra! - N�o h� palavra melhor para definir, Jos� Mario. De fato, estamos em uma guerra que boa parcela dos irm�os de ideal na carne sequer imagina acontecer nos bastidores da psicosfera dos centros esp�ritas, quando as portas da vigil�ncia s�o escancaradas pelas atitudes menos felizes. Se o ataque � cont�nuo em fun��o das tarefas do bem, imagine quando desguarnecem a conduta... - Os vibri�es... - puxei o assunto. - S�o Esp�ritos a caminho da ovoidiza��o que ainda n�o perderam de todo a consci�ncia. Assim como ocorre com os ov�ides que s�o usados como implantes da maldade, temos o mesmo sistema social nas regi�es inferiores com os vibri�es. Ca�adores h�beis os descobrem em situa��es lament�veis em habitats enfermi�os e os aprisionam para futuras explora��es. - Com que objetivo querem implant�-lo no Grupo X? - Os vibri�es, por respirarem em um clima ps�quico mono�deista de ang�stia e tristeza, exalam uma aura vibrat�ria de pot�ncia destrutiva em raio de trezentos metros aproximadamente. Nos locais que os abrigam, interferem em todo o ecossistema ps�quico dos ambientes pr�ximos com contamina��es de diversos teores. Os principais efeitos s�o no campo afetivo dos encarnados. - E quais s�o os efeitos? - As irradia��es enfermi�as dos vibri�es estimulam o des�nimo, a culpa, o desalento e a inquietude que constituem piso emocional para erup��o de depress�es intermitentes e do falecimento da motiva��o. O clima espiritual cai em deplor�vel marasmo. Os racioc�nios embara�am sob sua a��o. Forma-se uma aura doentia de apatia e descren�a nos ideais superiores. Sob indu��o de suas emana��es mentais, instala-se um ambiente de desconfian�a e fixa��o nas imperfei��es uns dos outros. Eles s�o colocados em gaiolas eletr�nicas que controlam temperatura e luz para que os vibri�es n�o caminhem para a ovoidiza��o. O alojamento dos vibri�es dentro desses recept�culos inviabiliza de nossa parte a��es de remo��o sem participa��o dos encarnados no processo. S�o alocados na parte et�rica da casa esp�rita quase ao n�vel da mat�ria em fun��o da freq��ncia de longo alcance com baix�ssimo teor de for�as, decorrente da conjun��o das energias dos encarnados e de opera��es similares a materializa��o com acentuada capacidade de condensa��o energ�tica. A aura de frieza emotiva sob indu��o hipn�tica dos vibri�es arrefece o afeto e tem a propriedade de alterar a freq��ncia dos pensamentos, criando fixa��es monoide�stas. Atrav�s da insist�ncia em encontrar o momento ideal, os advers�rios do trabalho encontram um instante em que conseguem transpor a cortina vibrat�ria que separa os mundos, instalando o vibri�o em estado semimaterializado na parte f�sica da agremia��o doutrin�ria, porque assim criam limites � nossa a��o. � uma defesa contra o desalojamento do pr�prio vibri�o. Somente m�diuns trabalhando em regime de vampi rismo assistido poderiam eliminar essa ocorr�ncia. Al�m disso, qualquer iniciativa de desalojamento com aparelhos detonaria o automatismo da ovoidiza��o no vibri�o, ou seja, estar�amos cooperando com a queda definitiva dessa alma nos desfiladeiros da maldade. Frequentemente s�o instalados dentro das salas medi�nicas com monitoramento por c�meras e vig�lia cont�nua. Alojados em gaiolas especiais com temperatura elevada e sem luz de esp�cie alguma. Tais recursos impedem ou limitam o rastreamento por parte dos m�diuns. A vibra��o pestilencial dos vibri�es prejudica a absor��o de recursos ass�pticos e esterilizadoreB e, depois de um longo per�odo, come�a a formar camadas vis cosas similares ao lodo na parede do centro, organizando um habitat para flora e fauna de pequeno porte. Quanto mais esse habitat sedimenta, mais dom�nio os advers�rios alcan�am, . tal ponto de poderem mudar as gaiolas com f�cil mobilidade, adicionando novas ciladas. - Meu Deus! E... - N�o vai fazer a tradicional pergunta, vai? - Ia fazer mesmo, Dona Modesta! Por um momento raciocinei como se estivesse no corpo e desejei saber como fica o amparo dos desencarnados nessa situa��o. - � um impulso natural at� para n�s que aqui nos achamos! Entretanto, voc�, melhor que ningu�m sabe das medidas que vem sendo tomadas em favor de todos. � necess�rio retificar conceitos a respeito do amparo dispensado aos centros esp�ritas. Mesmo constituindo um campo do bem expressivo, n�o est� imune da maldade calculada. � uma das institui��es humanas mais visadas pelos planos organizados das falanges da maldade, considerando os princ�pios reveladores que apregoa ao mundo, especialmente a mediunidade que anseiam calar. - Interessante que, sendo sincero e falando por mim, quando encarnado julgava que o ataque existia em decorr�ncia da import�ncia de nossas iniciativas como esp�ritas, e n�o em fun��o dos princ�pios da doutrina. Realmente a doutrina � mais importante do que n�s. - Mais importante do que n�s, � a causa! Se advogarmos em favor dos princ�pios sem aplic�-los a n�s pr�prios, perfazemos a mesma caminhada religiosista de outros tempos. Amamos a religi�o e desprezamos seu alvo que � a nossa mudan�a pessoal atrav�s do amor exemplificado. Em alguns casos, Jos� Mario, h� uma intercess�o entre doutrina e a��es humanas, quando conseguimos materializar na pr�tica os princ�pios que nos norteiam. Os princ�pios reveladores da doutrina, sem viv�ncias morais que comprovem sua efic�cia, se transformam em nova roupagem para as id�ias filos�ficas j� conhecidas. - No caso do Grupo X, que temos aqui? O ataque decorre da discord�ncia com a proposta de Eur�pedes que est� encontrando abrigo entre nossos irm�os na carne? - A casa vem sofrendo press�es porque tem representado um posto avan�ado de servi�o h� muitos anos. A luz naturalmente atraiu a treva. A perseveran�a de nossos irm�os, aliada ao desejo sincero de melhora, consolidou um aval de muita confian�a em nosso plano. Isso incomodou organiza��es avessas � comunidade esp�rita, especialmente nos �ltimos meses, quando foram convocados a se promoverem � maioridade, o chamado para o per�odo da atitude na mensagem de Eur�pedes psicografada por Antonino. Isso n�o deve nos levar a equ�vocos de interpreta��o. A luz atraiu a treva, por�m, a perman�ncia da treva no intuito de extinguir sua luminosidade, � efeito da sintonia entre as ilus�es dos encarnados e as inten��es maliciosas dos que lhes querem na ru�na moral. � da ordem universal que quem realiza no bem coopere na elimina��o da maldade. - Nesse contexto, qual nosso papel na condi��o de cooperadores do bem na prote��o aos nossos irm�os no plano f�sico? - Podemos interferir no pensamento humano, sugerir id�ias, inspirar iniciativas de defesa e educa��o, mas a capacidade de decidir � algo pessoal, individual, e se opera no reino do cora ��o no qual nosso acesso � limitado. Tratam-se de opera��es mentais por enquanto inabord�veis, mesmo para n�s que nos achamos fora da mat�ria. Assim como as organiza��es da mal dade n�o podem agir livremente onde haja esfor�o de cresci mento, os oper�rios do bem n�o podem substituir o sagrado direito da prefer�ncia pessoal mesmo entre aqueles que mais amamos. Judas, Pedro, Saulo e muitos crist�os dos primeiros tempos foram alertados. Jesus conhecia as inten��es deles, entretanto, deixou-os entregues �s experi�ncias. Judas traiu, Pedro negou, Saulo perseguiu. Todos, a seu tempo, iluminaram-se nos roteiros do Cristo. Quem trabalha pela luz est� sempre em contato inevit�vel com a treva. Quanto mais claridade nos passos da espiritualiza��o, mais somos convocados a servir �queles que ainda n�o despertaram suas consci�ncias ao clar�o da bondade e da esperan�a. O Grupo X assim como qualquer casa erguida em nome do Cristo na Terra, � um celeiro de trabalho e educa��o no qual se re�nem almas que descobriram a extens�o de suas necessidades espirituais. Ainda assim, paira uma negra nuvem de ilus�o que incendeia o orgulho de muitos cora��es distra�dos, fazendo-os acreditar nas cantilenas da mentira. Calisto � um servidor incans�vel, Ana uma campe� da perseveran�a, Antonino um paciente construtor de valores. Nem eles, nem os demais servidores do Grupo X livraram-se ainda dessa hipnose da arrog�ncia envernizada e de dif�cil diagn�stico. Nada f�cil � a tarefa da autodescoberta. Por essa raz�o, nosso dever como cooperadores do bem em favor do amparo aos nossos companheiros resume-se a relembrar-lhes sempre, em quaisquer circunst�ncias, dois pontos essenciais na arte da edifica��o espiritual. O primeiro ponto � sempre falar de amor. Enquanto pronunciamos o mantra amor, despertamos a atra��o natural de nossa alma para o destino de todos n�s e implementamos sua necessidade em nossa viv�ncia. E o segundo ponto ser� relembrar-lhes continuamente os seus valores, a parte nobre de suas conquistas. Sem isso, sob o peso maci�o das suas dores, n�o encontraram for�as para caminhar, pois na condi��o de almas doentes est�o cansados e oprimidos por largos complexos conscienciais. Um educador de almas ser� sempre um carteiro da esperan�a e do consolo, entregando incansavelmente as missivas de paz pelo bem de todos, incondicionalmente. - A casa ent�o corre risco de ser sitiada mesmo com nossas a��es de socorro? - Os grupos esp�ritas, quando em momentos de equil�brio e trabalho, s�o alvos das mais s�rias interfer�ncias em sua marcha de crescimento. Que se dir� quando em instantes como do Grupo X, que abriram a guarda em suas rela��es, abolindo a fraternidade e permitindo incendiar-se pela gan�ncia dos pontos de vistas? N�o confundamos grupos que discordam pelo bem da obra com grupos que discordam porque se cristalizaram em interesses particulares. - Quando na Terra achava bem mais f�cil definir interesse pessoal de interesse pelo bem da obra. Agora, diante das lutas que acompanho passo a passo, ouvindo os mais rec�nditos sen timentos e id�ias de nossos irm�os, sinto-me impotente para definir essa quest�o. Parece muito fina a linha que divide um e outro! - Tem raz�o, Jos� Mario. � uma quest�o muito profunda e pessoal. No caso que acompanhamos, nossos tr�s personagens cristalizaram conceitos que acreditam ser o melhor pelo bem da casa, entretanto, veja aonde chegamos! - Seria a falta de di�logo, Dona Modesta? - Nossos irm�os dialogam, mas em mon�logo. N�o querem ouvir um ao outro. S�o t�o convictos que a convic��o se trans formou em... - Arrog�ncia! - cortei a fala de Dona Modesta. - A arrog�ncia em acreditar em demasia em si mesmo. Ca listo n�o tem nenhuma d�vida sobre o que necessita a casa. Ana sente-se amea�ada em suas id�ias e Antonino ap�ia-se em interpreta��es pessoais sobre a a��o dos Esp�ritos. Todos com farto material para orientar-se e conduzir-se com �xito nas atividades, no entanto, sem capacidade para ajustarem suas contribui��es pessoais pelo bem coletivo. N�o renunciam um mil�metro no que acreditam. Esp�ritos sagazes j� descobriram suas opini�es e as incen tivam ardemente. S�o muito inteligentes os advers�rios e tra balham sempre com as fixa��es mentais dos encarnados, ou seja, com aqueles conceitos mais enraizados sobre os quais seus autores depositam enorme quota de cren�a e sentimento. - Hoje estamos aqui, ainda controlando as imedia��es do centro, amanh�... - Amanh� - foi a vez de Dona Modesta me cortar - podemos estar com acesso mais limitado dependendo das decis�es que aqui ser�o tomadas essa noite. N�o ser� demais afirmar que na reuni�o de nossos irm�os encarnados teremos uma elei��o, que definir� novas posi��es para o bem e tamb�m para o mal. Cap�tulo 20 Clamor por Uni�o Depois deitou �gua numa bacia, e come�ou a lavar os p�s aos disc�pulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Jo�o, 13:5 Nossos irm�os foram chegando um ap�s o outro. Havia um sil�ncio inc�modo no ambiente. Em nosso plano nada se alterou. A vigil�ncia era cont�nua por parte dos servidores do Hospital Esperan�a sob comando de irm�o Ferreira. Os olhares trocados entre eles eram dignos de piedade. Olhares de receio e avers�o. Lamentei o que vi e senti, conquanto n�o permitisse o desrespeito e a falta da compaix�o de minha parte para com nossos companheiros. Alguns deles, inclusive, meus conhecidos quando na vida f�sica. �s oito horas fizeram a ora��o e Ana inspirada pela assist�ncia de Doutor In�cio que n�o mais a desamparou desde a tarde, falou inesperadamente alterando o modo de conduzir a reuni�o medi�nica que se tornaria um campo de debates naquela noite: - Antes de come�armos nossa tarefa - falou sensibilizada - gostaria de pedir a Antonino que se tiver alguma percep��o dos amigos espirituais para contribuir com a tarefa da noite, que os deixe falar agora, pois quero propor que posteriormente � palavra deles, conversemos essa noite com toda sinceridade sobre nossos conflitos na busca de solu��es. - Sim, Ana! Tem uma alma querida querendo nos trazer a palavra! - falou instantaneamente o m�dium. As luzes foram reduzidas e com rara facilidade Dona Modesta assenhoreou o campo mental de Antonino e disse: - Meus filhos, que haja paz e esperan�a entre n�s. Eu, Maria Modesto Cravo, servidora do Cristo e amante do bem, os aben�oo. N�o lhes quero tomar tempo. Pe�o-lhes um voto de confian�a para romper com nossas a��es tradicionais pelo menos por hoje. Algu�m pode me trazer um jarro de �gua e uma toalha? Ana levantou-se incontinente e tomou a provid�ncia colocando-os � disposi��o de Dona Modesta. Quando ia retornar � sua cadeira, a benfeitora, atrav�s do m�dium, levantou-se do lugar � mesa e manifestou: - Venha c�, minha filha, abrace-me! Sinta a espontaneidade de meu cora��o no seu. Esque�a a forma f�sica do m�dium e procure sentir a mim que dele me utilizo para te sentir. - Dona Modesta! - Ana entregou-se em pranto incontido ao abra�o maternal. E sussurrando disse: - Socorra-nos, Dona Modesta! Ampare-nos em nossa fragilidade! - n�o contendo as emo��es de desespero e impot�ncia, passou a falar em nome de todos - Sabemos muito e n�o estamos conseguindo sentir. Eu te rogo por n�s querida benfeitora: apoia nossa incredulidade! Onde erramos Dona Modesta? Perdoe nossos descuidos! Como penetrar no reino de nossos cora��es? Somos iluminados com o saber esp�rita que n�o apazigua nossa alma. Conhecemos, todavia n�o nos libertamos. O c�rebro est� repleto de cultura espiritual e o cora��o mendiga sossego e alegria. Uma disputa silenciosa se opera entre n�s sem que tenhamos inten��o deliberada de competir. Amamos a Jesus, por�m, encontramo-nos descrentes uns dos outros. Uma rivalidade n�o desejada toma conta de n�s. Devemos responsabilizar os inimigos desencarnados? Sinceramente n�o me conforta essa explica��o! Mesmo ansiando o melhor, nossos sentimentos superiores parecem se esvair como se fossem atirados a uma impiedosa fornalha que os consome vorazmente. Que acontece conosco amiga de nossas almas? Descrentes como estamos n�o conseguimos paz para conviver. Ser� poss�vel um caminho de solu��o ou teremos sempre que experimentar o desconforto das desaven�as? Estou cansada, Dona Modesta, estou cansada. Cansada de viver... Perdoe-me! - Pegue uma cadeira, Ana, e sente-se aqui na minha frente. - Perdoe-me o choro e a queixa quando o momento � de trabalho e aferi��o. - O choro sincero � apelo da alma nobre, minha filha. Sente-se. - Meus filhos - falou a benfeitora com o jarro e a toalha na m�o - "Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas m�os todas as coisas, e que havia sa�do de Deus e ia para Deus, levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou �gua numa bacia, e come�ou a lavar os p�s aos disc�pulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido", conforme narra a passagem do Lava P�s, contida no Evangelho de Jo�o, cap�tulo treze, vers�culos um a treze. Para surpresa de todos, inclusive a minha, Dona Modesta ajoelhou-se � frente de Ana, retirou-lhe as sand�lias e come�ou a lavar-lhe os p�s, enxugando-os em seguida. A sensibilidade explodiu no ambiente. Eu mesmo fiquei sem palavras, paralisado por fora e por dentro. Ana chorava como crian�a e, mesmo Calisto, deixava escorrer um filete de l�grimas. Assim, foi chamando um a um do grupo para assentar � sua frente, e lavando-lhes os p�s, recitava com amor a passagem evang�lica. Quando terminou, levantou-se, ficou de p� e disse: - Pe�o-lhes alguns minutos antes de lan�arem ao debate dessa noite. Mais algumas palavras e vou me retirar para que decidam seus caminhos. Vivemos um momento crucial na Terra. Um embate decisivo de for�as. A for�a do Cristo que nos puxa para os cimos e a resist�ncia das trevas que nos atraem para baixo. Um aut�ntico duelo de tit�s se trava nos bastidores da humanidade terrena. N�o fosse a extens�o da Miseric�rdia Celeste, e o planeta estaria totalmente dominado pelo mal. A uni�o de for�as fraternais nesse momento implica na forma��o de trincheiras ativas do bem. O d�stico que inspirou o codificador nunca foi t�o apropriado como roteiro moral de seguran�a, equil�brio e liberta��o: trabalho, solidariedade e toler�ncia. Eis a ordem de Mais Alto que expressa a atitude da miseric�rdia aplicada. Na contram�o da a��o benevolente de dar as m�os e nosfraternizar, est� o imp�rio da maldade insuflando a descren�a. Sem f� e confian�a, o homem se estiola. Sem ideal e sem amor, a humanidade perece � m�ngua. Descren�a � a for�a para baixo que exaure e consome a disposi��o de marchar e elevar-se. A aus�ncia de f� leg�tima no bem produz a escassez e a pen�ria em assuntos da alma, mantendo-nos cativos nas celas da pregui�a, da tristeza e do vazio existencial. Um de seus efeitos mais perniciosos � fixar-nos no lado sombrio da vida e do pr�ximo. Na conviv�ncia, a descren�a patrocina o esfriamento afetivo e favorece a indisposi��o para a proximidade e a cordialidade. � o sentimento que esfacela a confian�a, bombardeia os pensamentos com a cobran�a e incendeia a cr�tica maledicente. Quando focamos nossa mente nas mazelas alheias, despertamos em n�s pr�prios os monstros da inveja, da disputa e da indiferen�a que alicer�am o piso emocional da rivalidade silenciosa. A melhor palavra que define a a��o misericordiosa de uns para com os outros � a indulg�ncia. O indulgente v� o mal de outrem e se resguarda na a��o complacente de destacar-lhe seus valores e conquistas. Esse impulso de generosidade e altru�smo � a ap�lice de prote��o mais inspiradora para rela��es sadias e educativas regadas por afeto crist�o. A uni�o depende desse ato promissor de perceber sem denegrir. � a arte de nos perdoarmos uns aos outros pelo que ainda somos no carreiro da evolu��o. Os grupos doutrin�rios que n�o aplicam indulg�ncia matam a esperan�a do pacifismo nas rela��es e constroem ninhos acolhedores para a disc�rdia. Uni�o n�o significa caminharmos sempre juntos, mas poder contar sempre uns com os outros; n�o significa que tenhamos que aceitar as id�ias alheias, por�m, respeitar o direito que outrem tem de cultiv�-las, sem asilar perturba��o ou antipatia; e o mais importante: uni�o n�o significa viver sentimentos que ainda n�o somos capazes, todavia, n�o permitirmos qualquer obst�culo para que o arrependimento ou a saudade n�o destruam ou reprimam o amor que, inegavelmente, nutrimos por algu�m. Estamos procurando cora��es dispostos a enaltecer a boa parte de quem quer que seja. A tarefa genu�na do educador de almas � tirar de dentro dela a beleza reluzente, os l�rios de esperan�a adormecidos em cada um de n�s. O clamor das esferas superiores � estender as m�os uns aos outros incondicionalmente. Sem amizade, ser� a derrocada do di�logo. Sem di�logo, resta-nos a solid�o dos pensamentos nos quais emaranhamos em fantasias que alimentam a loucura da disc�rdia e da separa��o com motivos aparentemente justos a nosso favor. S� quem se distancia do amor aplicado, reserva-se o insano direito de diagnosticar culpados pela perturba��o e dissolu��o nos ambientes da doutrina. O somat�rio de nossas lutas morais � a �nica explica��o aceit�vel para a borrasca que atinge a con viv�ncia. Se n�o nos toleramos, n�o floresce a fraternidade, e sem ela, somos inevitavelmente atra�dos para baixo, ao encontro das sombras que agasalhamos. Sem fraternidade, n�o haver� espa�o para a atitude de alteridade em nosso intimo. Miseric�rdia � a diretriz que traduz amor incondicional. Se o Cristo nos aceita, estendendo benesses a todo instante em nossa caminhada, por que haveremos n�s, oper�rios imperfeitos de Sua Obra, de depreciar o valor de outrem que coopera fazendo o melhor que pode? A destrui��o dos grupos esp�ritas caminha nesse passo: julgamento/ rotula��o/ cr�tica/ maledic�ncia/ m�goa/ inimizade/ indiferen�a/ conflitos imagin�rios/ obsess�o/ cis�o perturbadora. Tudo come�a no pensamento quando nos concedemos observar o argueiro no pr�ximo sem enxergar a trave em n�s pr�prios. Desoprimamos o cora��o do peso da m�goa que prov�m, quase sempre, de julgamentos intolerantes que fazemos da a��o alheia. Conquanto caiba-nos o direito de discernir a conduta de outrem e dela discordar, compete-nos o dever de zelar pela manuten��o dos melhores sentimentos crist�os para a pessoa em si. Que discordemos da conduta, mas continuemos a am�-lo. Diverg�ncia de opini�o sem desist�ncia do amor. Na ordem crist� impera: julgamento/ compaix�o/ assertividade/ ora��o/ acolhimento fraterno/ amabilidade/ amizade/ conc�rdia. Agindo assim espalharemos o clima do otimismo e da cren�a uns nos outros criando ambientes revigorantes para nossa fragilidade e inconst�ncia afetiva. Lembre-se: quem quiser sentir Jesus mais perto de si nesses dias tormentosos da Terra, tenha sempre uma palavra de est�mulo nos l�bios e um gesto de amabilidade na atitude. Saiba retirar o diamante escondido no lodo. Desapegue das certezas acerca dos julgamentos e renove o campo mental para estar sempre a dizer mesmo sem palavras: estou aqui meu amigo, conte comigo! Em um belo poema de luz, Paulo em sua segunda carta ao povo de Corinto, cap�tulo doze, vers�culo quinze, recitou: 'Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado.' Amemos sem cansar. Incondicionalmente. Da servidora do Cristo e amante do bem, Maria Modesto Cravo


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal