Quero Seu Amor! (Take This Love) Mary Carroll



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Quero Seu Amor!

(Take This Love)



Mary Carroll

Fascinação Nº 96







Num esplêndido solar perdido nas encostas de um vale sinuoso, os homens poderosos da comunidade escocesa dos MacPherson haviam preparado uma festa exclusivamente masculina para receber o mais novo membro do clã: Jamie MacPherson. Só que Jamie era uma mulher! Seria uma impostora? Logo uma batalha feroz iria se travar entre ela e o chefe do clã, o arrogante, obstinado, atraente Ian. Jamie lutou muito para conquistar a amizade dele, até que percebeu que não se contentaria com tão pouco: queria sentir o calor de seus abraços, queria experimentar o sabor de seus beijos, queria seu amor a qualquer preço!





Digitalização: Ale M.

Revisão: Edna Fiquer


Copyright: © 1981 by Annette Sanford

Título original: "Take This Love"

Essa edição é publicada por entendimento com Silhouettc Books, a Simon & Schuster Division of Gulf & Western Corporation. New York. N.Y.. USA Silhouette, Silhouetle Romance e colofão são marcas registradas de Simon & Schuster

Tradução: Sílvia Maria Pomanti

Copyright para a língua portuguesa: 1984 Abril S.A. Cultural — São Paulo

Composto na Tipolino Artes Gráficas Ltda. e impresso nas oficinas do Círculo do Livro S.A.

Capa: Ilustração Silhouette


CAPÍTULO I

Jamie MacPherson segurou com força o volante de seu carro, um Austin de segunda-mão, e semicerrou os olhos, num esforço para melhor enxergar a rodovia que se estendia diante do pára-brisa respingado de neve. A estrada estava escorregadia e semi-encoberta pela neblina; espessas nuvens se aglomeravam no céu, formando um manto cinzento que se projetava até o horizonte.

"Que Deus me ajude a chegar a Applecross o mais rápido possível, sã e salva!", murmurou consigo mesma preocupada.

Boa parte de seus vinte e quatro anos ela passara sonhando em conhecer aquela região da Escócia, chamada Highlands. Mas agora o mau tempo a deixava apreensiva demais e Jamie nem tinha vontade de admirar os pequenos vales, que se formavam à ribanceira da estrada.

Era fim de abril e aquele dia — 25 — estava marcado com um círculo vermelho no calendário que ela havia deixado em Londres, junto com os outros pertences de que se desfizera. Afinal, sua vida tinha mudado da noite para o dia desde que recebera uma carta de Ian MacPher­son, chefe do clã MacPherson, avisando-a da morte de seu tio-avô.

Jamie não chegara a conhecer o velho Angus MacPherson pessoalmente, mas, no dia do nonagésimo aniversá­rio dele, havia lhe enviado um cartão de congratulações e uma carta muito gentil, na qual fazia várias perguntas sobre a história do clã. O velhinho não respondeu à men­sagem, mas deixou bem claro o quanto se emocionara com ela: pouco antes de morrer, pediu a Ian que avisasse a todos de que Jamie MacPherson, da Rua Beakbottom número 40, em Londres, herdaria tudo o que lhe per­tencesse.

A carta de Ian MacPherson dizia que a herança era pequena: umas poucas peças de mobília, alguns livros anti­gos e o direito de morar num dos chalés que formavam a propriedade do clã, mediante um pagamento simbólico. Esses chalés se espalhavam por uma vasta área das Highlands escocesas; a comunidade chamava-se Applecross e era administrada por Ian, um primo distante de Jamie, que habitava um casarão conhecido como Solar Talbert.

Ela era uma jovem esguia, de fartos cabelos negros e luminosos olhos azuis. Trabalhava como balconista numa loja perto de Trafalgar Square e estudava pintura num curso noturno. Apesar de ter uma vida bastante atribulada, ainda lhe sobrava tempo para sonhar em visitar a terra de seus ancestrais; essa era a grande motivação de sua existência.

Tudo o que mais desejava era pintar o povo e a paisa­gem da Escócia; por isso, a carta de Ian não foi motivo para maiores hesitações. Em menos de um mês Jamie preparou-se para a viagem: juntou os trocados que havia economizado, comprou o Austin, empacotou o que possuía de mais valioso e escolheu o dia 25 de abril como a grande data da partida.

Agora, se aquele carro velho subisse a encosta íngreme que estava à sua frente, chegaria ao Solar Talbert dentro de uns cinco minutos. E então seu sonho finalmente se tornaria realidade!

Mas o Austin não parecia muito disposto a desempe­nhar sua parte naquela empreitada. O veículo tinha subido menos de dez metros, quando começou a dar sinais de cansaço: tossiu, engasgou, falhou, derrapou e acabou paran­do por completo. Jamie tentou dar a partida novamente. Nada.

— Oh, não... — exclamou ela. E pensar que só faltavam cinco quilômetros!

Desesperada, abriu a porta do carro, pensando em descer e dar uma olhadinha no motor. Mas uma forte rajada de vento obrigou-a a fechá-la mais do que depressa. Estava muito frio lá fora. Jamie encolheu-se em seu casaco de lã, evitando pensar no pior. Mas como manter a calma, sabendo que estava sozinha, completamente isolada naque­las paragens castigadas pelo vento cortante? Na estrada não passava viva alma, não havia uma casa sequer à vista e...

Fortes pancadas no capô do Austin fizeram Jamie dar um pulo. Virando-se para trás, ela viu que alguém cami­nhava em direção à porta do veículo. Ao se dar conta de que aquele homem barbudo podia ser a sua salvação, abaixou o vidro do carro rapidamente. E voltou a se assustar quando um par de olhos verdes examinou-a com exagerada atenção.

O homenzarrão tinha cabelos escuros, que estavam salpicados de neve; sob sua barba se escondiam feições rudes e austeras. Ele usava um casaco de pele de carneiro, que fazia seus ombros parecerem ainda mais largos.

— Seu carro enguiçou?

— Acho... acho que sim. Você poderia me ajudar a sair daqui?

— Não espera que esta geringonça velha vá levá-la a A'Chomraich, não é?

— Geringonça ou não, este carro é o único meio que tenho para chegar a meu destino. Ele precisa funcionar!

Dizendo isso, Jamie desceu do Austin. O barbudo tinha dado uma volta ao redor do veículo e olhava para ele com uma expressão de desdém e zombaria. Ela ergueu o queixo com altivez e falou:

— Além do mais, não vou para... para esse lugar que você citou. Estou seguindo rumo a Applecross.

— "A'Chomraich" é como os gauleses chamam Applecross.

— E como eu podia saber? Bem, isso não vem ao caso... O que acha que devo fazer?

— Deixar este carro aqui e mandar alguém vir con­sertá-lo amanhã de manhã.

— Mas como chegarei a Applecross?

— Eu lhe darei uma carona.

Foi então que Jamie se apercebeu de que havia um jipe estacionado do outro lado da estrada. Na pequena carroceria do veículo estavam dois cães perdigueiros, agitando a cauda num gesto amigável. Curiosa, ela perguntou:

— Você é pastor?

— Mais ou menos.

— E o que vai fazer em Applecross?

— Você não quer uma carona?

— Está sendo muito gentil em sair do seu caminho só para me levar até lá.

— Não posso deixá-la morrendo de frio aqui, não é? Vamos, se apresse, pois ainda tenho que procurar uma ovelha perdida.

— Nesta tempestade?

— Por que não?

— Não pensei que houvesse ovelhas passeando por aí com este tempo.

— Já disse que ela está perdida. Além do mais, esta­mos na primavera.

— Sei disso, só que não parece!

Visivelmente irritado, ele não respondeu; apenas fez sinal para que Jamie o acompanhasse, abrindo a porta do jipe para ela entrar. Os cães começaram a latir, mas o homenzarrão calou-os com uma ordem curta e áspera. Jamie olhou para o Austin, suspirando:

— E as minhas malas?

— Quais você quer?

— Todas, por favor. Olhe, posso ajudar...

— Fique no jipe.

Três viagens foram suficientes para que ele resgatasse todos os pertences de Jamie que estavam no Austin. Depois de colocar o cavalete e uma caixa de tintas no banco traseiro, o barbudo olhou para sua acompanhante com uma expressão reprovadora.

— Desculpe-me por fazê-lo carregar tantas coisas — falou Jamie, como a se defender.

— Você devia ter comprado um caminhão, não um carro.

Instantes depois o jipe deslizava silenciosamente pela estrada. Tudo corria bem até que, numa curva mais fecha­da, a caixa de tintas caiu no chão do veículo, esparra­mando tubos, vidros e pincéis por todos os cantos. O barulho assustou os cães, que se puseram a latir nova­mente; o motorista pisou no freio com toda a força, esbravejando:

— Diabos! Mas o que é isso?

— Meu material de trabalho. Acho que você estragou boa parte dele.

— Não me culpe pelas suas bobagens.

— Que bobagens?

— Foi você quem estragou tudo, quando resolveu vir para Applecross numa lata enferrujada que não conse­gue subir um simples morro. Por que não consultou um mapa rodoviário antes de iniciar sua viagem?

— E você? Por que não vai procurar sua ovelha?

— Só estou esperando que arrume essa bagunça.

Espremida entre o painel do jipe e o banco, Jamie fez um esforço descomunal para juntar o material de pintura e guardá-lo na caixa. Quando terminou, virou-se para o barbudo e disse:

— Já fiz a minha parte, senhor.

— Pode me chamar por Ian. Ian MacPherson.

— Estas colinas devem estar repletas de MacPherson, não? Parece haver uma porção de Ian MacPherson por aqui.

— Sim, esse sobrenome é bastante comum nesta região. Mas eu sou o único Ian.

— Ian MacPherson é o senhor do Solar Talbert. E você não passa de um pastor de ovelhas.

— Acho que posso me considerar um pastor, sim. Pastor de um vasto rebanho, para falar a verdade.

— Então não se esqueça de que uma de suas ovelhas está perdida. Não vai procurá-la?

Antes que ele respondesse, Jamie virou-se para a janela e pôs-se a admirar a paisagem. Recusava-se a dizer àquele homem insolente que tinha algum grau de paren­tesco com ele.

Encontraram a ovelha em meio a alguns arbustos. Mas antes disso Jamie já havia espirrado duas vezes e Ian lhe dera um cobertor que estava no porta-malas do jipe.

Ela se sentia ridícula, embrulhada naquele pedaço de lã cheirando a mofo; mas, com medo de pegar uma pneumo­nia, deixou os pudores de lado e tratou de desfrutar do calor que aquele cobertor gasto lhe proporcionava.

A bem da verdade, foi Jamie quem descobriu a ovelha desgarrada. Um suave balido lhe chegara ao ouvidos e, olhando na direção de um pequeno matagal, ela distinguiu o animalzinho entre as folhagens cobertas de neve. Ian parou o jipe no acostamento e foi buscá-lo. Ia colocá-lo na carroceria, junto com os cães, mas Jamie fez questão de levar o bichinho no colo, aquecendo-o com o velho cobertor de lã.

Ajeitando a ovelha nos braços, ela perguntou:

— Onde está a mãe dela?

— É provável que esteja por aí, também. Mas agora não tenho tempo para cuidar disso. Levarei a ovelha para casa e voltarei amanhã para procurar os outros animais desgarrados.

— Sempre achei que um pastor deveria cuidar muito bem de seu rebanho, sob quaisquer circunstâncias.

— Não se preocupe, sei o que estou fazendo.

O tom severo de Ian deixou bem claro que ele não estava disposto a continuar com aquela conversa. Então Jamie calou-se, preferindo entreter-se com o simpático animalzinho que tinha no colo.

Mais alguns minutos de viagem e os chalés de Applecross começaram a aparecer no horizonte. A nevasca havia cessado e a luminosidade do céu desanuviado se refletia pelas colinas.

— Que lugar lindo! — exclamou Jamie.

A comunidade dos MacPherson, formando uma espé­cie de aldeia espremida entre as encostas de um vale sinuoso, era maior do que ela havia imaginado; vista do alto, mais parecia um presépio. Os chalés, todos pintados de branco, alinhavam-se ao longo de um riacho de águas cristalinas. Embora o solo estivesse coberto pela neve, a vegetação devia ser luxuriante, a julgar pelas árvores fron­dosas que se espalhavam por todos os cantos.

Indiferente às exclamações de Jamie, Ian perguntou:

— Onde quer ficar?

— Não sei... No hotel, na delegacia... em qualquer lugar onde possam me informar como chegar ao Solar Talbert.

Ian pisou com toda a força no freio e o jipe estancou com um solavanco.

— Diabos! Se queria ir até o Solar Talbert, por que me fez vir até Applecross?

— Porque o Solar Talbert fica em Applecross, oras!

— Pois está enganada! O casarão fica nos limites da comunidade, a sete quilômetros daqui em direção oeste... perto de onde estávamos! Eu não lhe falei que era Ian MacPherson? Por que não disse o que queria assim que me apresentei, para evitar toda esta confusão?

— Você me falou o seu nome, mas não disse que era o administrador do Solar Talbert. E, mesmo que tivesse dito, eu não acreditaria.

— E por que não?

— Porque o administrador é um homem gentil e educado, um verdadeiro cavalheiro. Tenho cartas dele na minha bolsa... cartas que uma pessoa como você jamais teria escrito!

— Mas...

— E ele ficará furioso quando souber que um dos membros do clã quis tomar seu lugar.

— Esse é o maior absurdo que já ouvi em toda a minha vida!

— Além disso, o Ian MacPherson do Solar Talbert é muito mais velho do que você.

— É mesmo? E como você sabe? Ele lhe mandou alguma fotografia autografada?

— Ora, seu... seu malcriado!

— Você é que é a impostora nessa história toda, senhorita! Se tem cartas de Ian MacPherson, é porque as falsificou ou roubou. E saiba que vou processá-la por isso!

— Não ouse me ameaçar.

— Estou falando sério, menina. Posso colocá-la na cadeia a hora que quiser. E agora me dê as cartas!

Fazendo o possível para disfarçar o medo, Jamie abriu a bolsa e apanhou a correspondência que havia recebido de Ian MacPherson. Ele pegou as cartas, correu os olhos pelos envelopes e disse, com um sorriso triunfante:

— Exatamente como eu havia imaginado! Você tirou isto do homem, não tirou?

— Que homem?

— Jamie MacPherson, é claro! Vai se ver em maus lençóis, menina, quando Jamie tomar conhecimento deste engodo.

— Mas... mas...

— E então, o que tem a dizer agora que foi des­mascarada?

— Eu sou Jamie MacPherson!

— Você? Ora, como pode ser tão cínica? Então uma garota com um carro caindo aos pedaços chega a Applecross e tem o desplante de dizer que faz parte do meu clã? E ainda por cima quer se fazer passar por um homem? Isto já é demais! Desça do meu jipe; vou levá-la para a delegacia agora mesmo!

— Quer me escutar, por favor? Sou Jamie MacPherson e posso provar o que digo.

— Escute aqui você...

— Olhe, eu lhe escrevi duas cartas. A última delas começava assim: "Caro Sr. MacPherson, no dia 25 do próximo mês pretendo fixar residência no chalé que perten­cia ao falecido Angus..."

Jamie calou-se, ao ver que Ian estava prestes a ter um ataque nervoso. Vermelho de raiva, ele rugiu entre os dentes:

— Sua... sua feiticeira!

— Não entendo por que ficou tão bravo.

— Porque você é mulher!

— E não há mulheres entre os MacPherson? Ou as crianças daqui nascem de chocadeira?

— O seu nome... Pensei que fosse diminutivo de James ou qualquer coisa assim! Sempre acreditei que esti­vesse me correspondendo com um homem!

— Pois se enganou.

— E o que está fazendo aqui? O que quer nesta comunidade?

— Já lhe disse, em minha carta: quero morar em Applecross.

— Mas uma mulher sozinha não pode cuidar de um chalé.

— Por que não?

— Não vou admitir isso.

— O chalé me pertence, por herança. Já me infor­mei a esse respeito e sei que tenho o usufruto vitalício dele mediante um pagamento simbólico.

— Pagarei o dobro desse valor, então. Ou o triplo. Ou mil vezes, se for preciso!

— A Comissão de Arrendatários não permitiria isso. Nem o Departamento de Agricultura, e muito menos o Banco de Investimentos Agrários.

Ele vociferou um palavrão em gaulês e recolocou o jipe em movimento; manobrou o veículo, tomou o outro lado da pista e partiu em disparada pela estrada deserta. Jamie segurava a ovelha com uma das mãos e apoiava a outra no assento, para não perder o equilíbrio. Ian dirigia como um maluco e ela tinha a impressão de que sairia pela janela na primeira curva.

— Ian, não estou entendendo por que você ficou tão nervoso.

— E nem tente entender. Apenas aceite o fato de que amanhã cedo você estará partindo de volta para Londres.

— Não pode me obrigar a ir embora daqui.

— Posso... e vou.

Jamie tentava manter uma postura altiva e segura, mas, por dentro, remoía-se em dúvidas. Talvez Ian real­mente pudesse tomar-lhe o usufruto do chalé. Afinal, era o chefe do clã e teria todo o apoio dos outros membros da comunidade. E como ela iria lutar contra esse ato desumano e arbitrário?

Meia hora mais tarde Ian parava o jipe diante de um enorme casarão colonial, cujos alicerces estavam fincados no alto de uma colina. A paisagem ao redor não contribuía em nada para amenizar a austeridade da construção; não havia uma árvore ou um simples arbusto no pátio que dava acesso à varanda de linhas severas e aristocráticas. As janelas do imenso sobrado eram altas e estreitas e os pináculos, em forma de torres, apontavam acusadoramente para o céu cinzento.

Jamie perguntou, num fio de voz:

— Este é o Solar Talbert?

— Sim. Você passará a noite aqui e amanhã cedo, quando seu carro estiver consertado, voltará para sua cidade.

— Prefiro dormir no meu chalé.

— Você vai fazer o que eu decidir.

Deixando bem claro que não admitia ser contrariado, Ian apanhou a ovelha que estava no colo de Jamie e desceu do jipe. Os cachorros saltaram da carroceria do veículo e seguiram seu dono, que se dirigia para a varanda sem ao menos olhar para trás.

Ela não hesitou. Saiu rapidamente do carro, correu para junto de Ian e postou-se à frente dele, impedindo-o de continuar sua caminhada.

— Leve-me para meu chalé, sim?

— O chalé que você diz ser seu fica a dois quilôme­tros daqui. Ele está sem água, sem luz, sem aquecimento central. Faz três meses que ninguém põe os pés lá e...

— Mas eu não ligo...

— Acha que uma mulher sozinha pode passar a noite num lugar assim?

Desta vez Jamie vacilou. Eram quase sete horas e não havia indícios de que o tempo fosse melhorar. Ian estava certo: não poderia dormir numa casa que não oferecia as mínimas condições de habitação.

Depois de pensar por alguns instantes, ela falou:

— Está bem. Irei para o chalé amanhã cedo.

— Amanhã cedo você irá embora de Applecross.

O quarto para onde Jamie foi levada era bastante aconchegante. Suaves labaredas crepitavam numa pequena lareira e o chão rústico estava coberto por um grosso tapete de lã. O interior do Solar Talbert ou, aliás, o pouco que ela vira enquanto subia as escadas para seu aposento, contrastava com a fachada do sombrio casarão. A decora­ção era feita em tons fortes, vibrantes; a mobília, embora não fosse moderna, tinha um estilo leve e muito acolhedor; havia quadros, enfeites e vasos de flores por todos os cantos.

Parada no centro do quarto, Jamie olhava à sua volta com uma expressão de surpresa. Era difícil acreditar que aquele sobrado de aparência desoladora pudesse agasalhar um ambiente tão jovial e cheio de energia.

Suaves batidas à porta despertaram-na de suas divaga­ções. Era Ângela, a criada que se encarregara de levar Jamie aos seus aposentos. A jovem havia retornado com uma valise na mão e foi logo explicando:

— Senhorita, tomei a liberdade de trazer esta mala. Espero que ela contenha tudo que necessita para passar a noite aqui.

— Obrigada, Ângela. Você acertou em cheio: essa valise realmente tem tudo de que precisarei.

— Então trarei o jantar dentro de meia hora, está bem?

— Oh, eu... eu terei que jantar no quarto?

— Sim, senhorita. Não podemos ocupar a sala de refeições, pois o andar inferior está todo preparado para uma festa de boas-vindas ao sr. MacPherson. Sinto muito.

— Qual dos MacPherson será homenageado?

— A senhorita... Quer dizer, nós esperávamos que se tratasse de um homem. Bem, vou providenciar o seu jantar.

— Ângela, então o sr. Ian preparou essa festa espe­cialmente para Jamie MacPherson?

— Sim.

— E agora que todos sabem que Jamie é uma mulher, a festa será cancelada?



— Oh, não. Os convidados não tardarão a chegar. Acho que será uma bonita celebração, pois todos usarão as roupas tradicionais de nossa região e é bem provável que alguém traga uma gaita de foles escocesa.

— Mas já que vai realmente haver essa recepção, por que não fui convidada? Isso não faz sentido! Diga ao seu patrão que descerei dentro de alguns minutos.

— Oh, não, senhorita! Essa festa é só para homens! Depois de comer e beber, eles contarão anedotas e histórias picantes.

Jamie finalmente entendeu o que estava se passando. Para homenagear o mais novo membro do clã, Ian havia programado uma reunião exclusivamente masculina.

"Ora, que atitude mais machista e ultrapassada!", pensou.

Assim que a criada saiu do quarto, ela correu até a janela, na esperança de ver alguns dos convidados chegarem. Mas, além do jardim estar mergulhado na mais completa escuridão, o dormitório que ela ocupava não dava vista para a entrada do solar.

Droga! exclamou, sentindo-se isolada do restante do mundo como se estivesse presa numa masmorra!

Seu jantar não demorou a ser servido. Jamie estava com tanta fome que acabou se esquecendo das críticas que havia lido com respeito à comida escocesa. De que impor­tam artigos de jornais e revistas, quando se está com o estômago vazio desde as primeiras horas da manhã?

Satisfeita com o jantar, ela mergulhou na banheira de água quente que Ângela havia preparado. Ensaboou-se vagarosamente, enquanto admirava o delicado tom azulado dos ladrilhos, que se refletiam numa parede coberta por um imenso espelho.

Depois de se enxugar com uma toalha felpuda, Jamie abriu um dos frascos que estavam sobre a pia e derramou algumas gotas do suave perfume pelo corpo. Em poucos segundos, o luxuoso banheiro foi invadido por uma adoci­cada fragrância de jasmim. Sorrindo com ironia, Jamie teve de admitir que, pelo menos em relação a perfumes, ela e o arrogante Ian MacPherson tinham, a mesma pre­ferência.

Ao sair do banheiro, ouviu o som abafado de risadas e os acordes desafinados de uma gaita de foles que vinham do andar inferior do casarão. Foi então que se lembrou da festa. Mais do que depressa, vestiu um robe e, na ponta dos pés, foi para o corredor.

Protegendo-se nas sombras que ocultavam o topo da escadaria, ela olhou para baixo. O salão nobre do solar parecia estar repleto. Vários homens, usando coloridas saias escocesas, circulavam de um lado para outro; todos tinham um ar bonachão e seguravam um copo de bebida entre as mãos, enquanto conversavam animadamente. O som da gaita contribuía para aumentar ainda mais a atmos­fera de descontração e algazarra. Pelo visto, todos estavam se divertindo a valer.

Jamie debruçou-se sobre o corrimão, tentando não perder um detalhe sequer daquela movimentação tão pe­culiar. Pena que ela não pudesse participar da festa! Tinha certeza de que, entre todos aqueles MacPherson ali reuni­dos, encontraria alguém que lhe falaria sobre a história de sua família. Afinal, além de possuírem o mesmo sobre­nome, descendiam dos mesmos ancestrais. Por que diabos aquele estúpido senhor do Solar Talbert havia lhe privado desse prazer?

Então, de repente, um homem parou bem no meio do salão. Era Ian. Vestido em trajes típicos, ele irradiava uma aura de força e magnetismo que fez o coração de Jamie disparar. Guiado por um impulso instintivo, ele levantou a cabeça e fixou o olhar penetrante nas sombras sob as quais ela se escondia.

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