Quine e a filosofia



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QUINE E A FILOSOFIA


Waldomiro José da Silva Filho

Universidade Federal da Bahia


“Aqui a tarefa é tornar explícito o que se deixou tácito e em tornar preciso o que se deixou vago; é expor e resolver os paradoxos, aplainar as asperezas, fazer desaparecer os vestígios de períodos transitórios de crença, saneando os bairros ontológicos.”

W. V. O. Quine


“Quine criou um novo modo de ver as [...] eternas questões da filosofia e suas interconexões. Ele deixou um terreno filosófico transformado para as novas gerações de filósofos explorar.”

Dagfinn Føllesdal



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O ideal da filosofia como um trabalho de elucidação e clarificação de conceitos e pensamentos atravessa e constitui a História da Filosofia, de Platão a Kant. E o método de uma crítica do significado e da linguagem, como sugere Donald Davidson, não pode ser considerado estritamente uma doutrina filosófica, mas uma atitude adotada por filósofos em diferentes épocas e situações; ela é praticada sempre que se solicita o argumento em meio a mentes abertas ao diálogo e ao entendimento mútuo e reflete a tentativa de encontrar razões para as teses em disputa sobre uma dúvida fulcral ou desacordo moral e epistemológico fundante (como ensinara Sócrates)1.

A Filosofia Analítica e o Pragmatismo, porém, no horizonte do século XX, outorgaram um novo sentido para esta busca de clareza e lucidez: com Frege, Peirce, Wittgenstein e Carnap, à luz dos progressos das Ciências Naturais e da Lógica, gestou-se a confiança de que se poderia finalmente eliminar as confusões, ambiguidades e afirmações sem sentido que tomaram de assalto as filosofias tradicionais; sem recorrer a qualquer princípio transcendental, poder-se-ia explicar filosoficamente o que é o pensamento, a estrutura do agir e em que consiste os significados das proposições (e dos seus termos constituintes) e o conhecimento (ou crenças verdadeiras justificadas).

Willard Van Ornam Quine, num sentido muito preciso, teve um papel crucial nesse movimento e, consequentemente, na definição da agenda dos temas e dos métodos da filosofia contemporânea, propiciando um encontro original entre o pensamento norte-americano (pragmatismo) e europeu (neopositivismo e filosofia analítica). Sua teses mais conhecidas – refutação da distinção analítico-sintético; a indeterminação da tradução; relatividade ontológica; behaviorismo; holismo; naturalização da epistemologica – envolvem os campos da ontologia, epistemologia, filosofia da linguagem e filosofia da mente e serviram para esboroar as fronteiras que historicamente se impunham entre filosofia e ciência natural e, nesse passo, desbravaram novos territórios para o inquérito filosófico2.

Ele, que é considerado o mais influente filósofo norte-americano do século XX – tendo sido responsável, em larga medida, pelo delineamento dos contornos idiossincráticos da filosofia praticada nos Estados Unidos – é também o mais europeu e cosmopolita filósofo americano: foi influenciado por Peirce e Poincaré, por Dewey e Duhem, travou um dos mais profícuos diálogos na história recente da filosofia com Carnap; trabalhou e conviveu com personagens dos quatro cantos do globo (inclusive do Brasil) e esteve atento à geografia e às línguas do mundo (o que lhe possibilitou um dos mais profícuos conceitos filosóficos – a tradução radical). Nasceu em Akron (Ohio, Estados Unidos) no dia 25 de julho de 1908 e faleceu às vésperas do novo século, no dia 25 de dezembro de 2000. Teve uma sólica formação científica e lógica (sua tese doutoral foi preparada sob orientação de Alfred Whitehead). Foi professor em Harvard University desde 1935 e ensinou em Oxford, no Collège de France, em Tóquio e em São Paulo3.

Quine compreendeu a tarefa filosófica de um modo singularmente auspicioso: na sua obra, o filósofo não se confunde com a imagem do sábio enclausurado com seus pergaminhos, decompondo sinais e palavras arcaicas, perseguindo a revelação originária e mística do ser; a sua tarefa é, outrossim, trabalhar para a elegância e simplificação do quadro conceitual comum às ciências. Num dos seus mais importantes textos, “Ontological Relativity” publicado em 1969, ele sustenta que aqueles que são os temas recorrentes da filosofia – conhecimento, mente e significado – fazem parte de um mesmo mundo e têm de ser estudados com o mesmo espírito empírico que anima a ciência natural . Por isso, antes de mais nada, não há lugar para uma filosofia primeira anterior às ciências, como fundamento e justificação dos seus saberes. Primeiro, porque a filosofia não possui um objeto próprio singular nem um método de investigação autônomo – ela, na verdade, constitui uma parte integrante da ciência, tanto pelos seus métodos quanto pelos seus interesses e conteúdo. Segundos porque o filósofico não é portador de uma perspectiva privilegiada (ou, como diria Putnam, de ponto de vista do olho de Deus): “There is no such cosmic exile”; ele pode estudar, prescrutar e revisar o esquema conceitual da ciência e do sentido comum a partir de dentro – a partir do esquema conceitual no qual está inscrito e que não está, ele mesmo, liberto da possibilidade do escrutínio filosófico.

2

Num texto intitulado “Five Milestones of Empiricism” Quine oferece sua interpretação dos desenvolvimentos do empirismo e da filosofia desde a modernidade e, ao fazer isso, deixa claro o que ele imagina ter sido sua contribuição pessoal à filosofia:

“Nos últimos dois séculos houve cinco pontos face aos quais o empirismo mudou para melhor. O primeiro é a mudança de atenção das idéias para as palavras. O segundo é a deslocação do centro de interesse, em semântica, dos termos para as frases. O terceiro é a mudança do centro de interesse das frases para os sistemas de frases. O quarto é [...] o monismo metodológico: o abandono do dualismo analítico-sintético. O quinto é o naturalismo: o abandono do objetivo de uma filosofia primeira anterior à ciência natural.”4

Os pontos de três a cinco estão no centro do pensamento de Quine – o holismo e o naturalismo. O holismo resulta do abandono da distinção entre as proposições que são verdadeiras em virtude exclusivamente do seu significado e as proposições cuja verdade depende do modo como o mundo é: a rigor, não se pode esperar que uma proposição tenha um sentido empírico próprio separado do significado e independente da teoria. O naturalismo epistemológico é a expressão mais severa do abandono do objetivo de uma filosofia primeira. O filósofo naturalista justifica seus raciocínios no interior de uma teoria do mundo já plenamente madura (mesmo que seja falível e corrigível): ele acredita nesta teoria, mas, do mesmo modo, acredita que há pontos (e implicações) obscuros e imprecisos e procurará melhorar, clarificar e compreender a teoria a partir de dentro (como o marinheiro de Neurath)5: “... eu filosofo a partir de um ponto vantajoso somente por nosso próprio esquema conceitual provincial [provincial conceptual sheme]e nossa época científica, é verdade; mas não conheço nenhum melhor”6.

Em certa medida, a obra de Quine expressa o apogeu da afecção da Filosofia por temas ligados à linguagem e à crítica do significado. A linguagem passou a interessar à filosofia por causa daquilo em que o conhecimento se tornou: até Frege e Peirce, grosso modo, o conhecimento fora entendido como um fenômeno interno que nasce (mediado pela linguagem) do encontro entre objetos e o Sujeito que conhece, representa ou apreende..; com a emergência do gosto pelo “significado da palavra” e pela “sentença”, o conhecimento se tornou — como a palavra, a sentença, a linguagem — em arte pública e social. E é precisamente por isso que a linguagem interessa à filosofia: porque, numa certa altura, a epistemologia passou a se dar conta do sentido público do conhecimento7.

Pascal Engel chama de montée semantique esse deslocamento do problema do “discurso sobre as coisas” para o “discurso sobre a significação, os signos e o sentido”8. Donde, em vez de se prestar contas ao estado das coisas mesmas, na sua ordem íntima, temos de prestar contas à aparelhagem de que dispomos para nos referirmos ao mundo e, consequentemente, para o fato de que dispomos, por exemplo, antes de medir, de um sistema métrico e, antes de indicar a coloração de um objeto, de uma segmentação de cores, ou seja, dispomos e dependemos de uma teoria para tratar significativamente das afecções e excitações do sentidos.

O filósofo naturalista, ocupado com o conhecimento e com as operações da mente, estará frequentemente tratando de linguagem e significados: “Significados são, em primeiro lugar e antes de tudo, significados da linguagem. A linguagem é uma arte social que nós todos adquirimos, tendo como única evidência o comportamente aberto de outras pessoas em circunstâncias publicamente reconhecíveis.”9 No “pragmatismo histórico”, o significado, como pensa Dewey e assente Quine, é a conseqüência das interações sociais, no convívio, na assistência mútua, na direção para a ação em que a linguagem é uma função natural da associação humana. Dewey afirmou que o decisivo na linguagem não é a “expressão” de alguma coisa (por exemplo, de um pensamento); o que é fundamental e substantivo na linguagem é a comunicação, a cooperação em uma atividade na qual há parceiros e a ação que modifica e regula as relações mútuas: “O significado, de fato, não é uma existência psíquica; é primordialmente uma propriedade do comportamento, e secundariamente uma propriedade dos objetos.”10 Por essa razão, o solilóquio, a introspeção intuitiva, a linguagem interior, o pensamento anterior à linguagem pública, são necessariamente rejeitados.

...Quine reinventou a epistemologia, a lógica, a ontologia, ... a filosofia. Seu nome figurará ao lado de Descartes, Hume e Kant. Mesmo que não concordemos com ele (assim como também temos motivos para questionar Descartes e Kant), vivemos, sempre que falamos de significado, verdade e conhecimento, sob a constelação quineana.



3

A obra de Quine é rica e extensa e foi traduzida para dezenas de idiomas. Destaco aqui alguns dos seus principais trabalhos:

1934 A System of Logistic (Cambridge: Harvard).

1940 Mathematical Logic (New York: Norton).

1941 Elementary Logic (Boston: Ginn).

1944 O Sentido da Nova Lógica (São Paulo: Martins) [escrito em português].

1950 Methods of Logic (New York: Holt).

1953 From a Logical Point of View (9 Logico-Philosophical Essays) (Cambridge: Harvard) [parcialmente traduzido em português na coleção Os Pensadores].

1960 Word and Object (New York: John Wiley and Sons, Cambridge: MIT).

1963 Set Theory and Its Logic (Cambridge: Harvard).

1966 The Ways of Paradox and Other Essays (New York: Random House).

1966 Selected Logic Papers (New York: Random House).

1969 Ontological Relativity and Other Essays (New York: Columbia) [parcialmente traduzido em português na coleção Os Pensadores].

1970 The Web of Belief, com J.S. Ullian (New York: Random House).

1970 Philosophy of Logic (Englewood: Prentice Hall) [traduzido no Brasil].

1974 The Roots of Reference. La Salle, Ill: Open Court.

1981 Theories and Things (Cambridge: Harvard).

1985 The Time of My Life: An Autobiography (Cambridge: MIT Press).

1987 Quiddities: An Intermittently Philosophical Dictionary (Cambridge: Harvard).

1990 Pursuit of Truth (Cambridge: Harvard).

1991 Dear Carnap, Dear Van: The Quine Carnap Correspondence and Related Work, com Rudolf Carnap e Richard Creath (editor) (Berkeley: University of California Press).

1995 From Stimulus to Science (Cambridge: Harvard).



1 D. Davidson, “Foreword”. In: Bo Mou, ed., Two Roads to Wisdom? Chinese and Analytic Philosophical Traditions (Chicago and La Salle : Open Court, 2001), p. v.

2 Recentemente foram publicados, sob coordenação de Dagflinn Føllesdal, cinco volumes que procuram reunir a fortuna crítica de Quine, com textos de discípulos, críticos e colegas, desvelando os vários caminhos do seu pensamento: volume 1, “General, Reviews, and Analytic/Synthetic”; volume 2, “Naturalism and Ethics”; volume 3, “Indeterminancy of Translation”; volume 4, “Ontology” e volume 5, “Logic, Modality, and Philosophy of Mathematics” (New York/London : Garland Publishing, 2000). Dois pontos devem ser destacados nesta publicação: a variedade e alcance dos interesses de Quine e o vigor do debate que eles suscitou.

3 Sua permanência em São Paulo, além de propiciar um momento singular na formação da filosofia universitária no Brasil (quando se realizou o primeiro curso de lógica matemática numa universidade brasileira) resultou o livro O Sentido da Nova Lógica, escrito diretamente em português e publicado em 1944.

“Ontological Relativity”. In: Ontological Relativity and other essays (New York : Columbia University Press, 1969), p. 26.

4 “Five Milestones of Empiricism”. In: Theories and Things (Cambridge/London : Harvard University Press, 1981), p. 67.

5 Ibid, pp. 71-2.

6 “Speaking of Objects”. In: Ontological Relativity, op. cit., p. 25.

7 I. Hacking, Why does Language Matter to Philosophy? (Cambridge : Cambridge University Press, 1975), p. 182.

8 P. Engel, Identité et Référence (Paris : Presses de l’École Normale Supérieure, 1985), p. 11.

9 “Ontological Relativity”, op. cit., p. 26.

10 J. Dewey, “Natureza, Comunicação e Significado”. In: Experiência e Natureza e outros textos (São Paulo : Abril Cultural, 1980), p. 37.





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