Quintana de Bolso Cartaz para uma Feira de Livro



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Quintana de Bolso
Cartaz para uma Feira de Livro:

Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.


I - O Autor e a Obra

  • Genial humorista, poeta lírico, irônico, reflexivo

“Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco...Não há que substitua o sabor da comunicação direta.”

  • Diferentes temas e modalidades:

  • vida exterior, infância, amor, tempo, morte, livros, poesia, de si mesmo...

  • verso, poemas em prosa, prosa, críticas, ensaios, anedotas, aforismos, epigramas, anotações líricas, pequenas narrativas, citações,etc.

  • Mistura: reflexões sobre cultura.

  • Seleção de textos de diversas obras: A Rua dos Cataventos, Canções, O Aprendiz de Feiticeiro, Espelho Mágico, Apontamentos de História Sobrenatural, Baú de Espantos, Esconderijos do Tempo, Preparativos de Viagem e A Cor do Invisível.


II – Características

  • coloquialismo, despojamento da linguagem

Pequena crônica policial

Jazia no chão, sem vida, // estava toda pintada!

Nem a morte lhe emprestara // sua grave beleza...

Com fria curiosidade, // Vinha gente a espiar-lhe a cara,

As fundas marcas da idade, das canseiras, da bebida...

Triste da mulher perdida

Que um marinheiro esfaqueara!

Vieram uns homens de branco,

Foi levada ao necrotério.

E quando abriam, na mesa,

O seu corpo sem mistério,

Que linda e alegre menina

Entrou correndo no Céu?!

Lá continuou como era

Antes que o mundo lhe desse

A sua maldita sina:

Sem nada saber da vida,

De vícios ou de perigos,

Sem nada saber de nada...

Com a sua trança comprida,

Os seus sonhos de menina,

Os seus sapatos antigos!



  • gosto surrealista pelo sonho, pelo absurdo, pelas imagens surpreendentes.




      • Simbolismo

        • gosto pelo crepúsculo, versos avulsos, gosto pelos nevoeiros e anjos.

        • poder encantatório da palavra e sinestesias

        • gosto surrealista pelo sonho, pelo absurdo, pelas imagens surpreendente

XV

Sobre a coberta o lívido marfim

Dos meus dedos compridos, amarelos...

Fora, um realejo toca para mim

Valsas antigas, velhos ritornelos. //

E esquecido que vou morrer enfim,

Eu me distraio a construir castelos...

Tão altos sempre... cada vez mais belos!..

Nem D. Quixote teve morte assim... //

Mas que ouço? Quem será que está chorando?

Se soubésseis o quanto isto me enfada!

E eu fico a olhar o céu pela janela...//

Minh´alma louca há de sair cantando

Naquela nuvem que lá está parada

E mais parece um lindo barco a vela!.. “


          • Romantismo

            • a poesia está em toda a parte

            • imaginação e associações de imagens

“(...)preocupa-se em sua poesia revelar sua individualidade como criador.” (Sérgio Peixoto)

“ A poesia não é a verdade, mas a invenção da verdade.”



  • Fragmentos de Caderno H

  • poesia não é teorema, mas algo instintivo, como um grito carregado de emoção.

  • o poeta é que traz, humildemente, a sua própria verdade.

  • quanto mais individual, mais universal é o poeta.

  • a poesia pode vir de uma frase, de uma imagem, nas mais inusitadas ocasiões.

  • a poesia exige um trabalho de corte, de depuração, mas sem exageros, pois poema não é um esquema.

  • a poesia exige luta, como no episódio bíblico, em que Jacó luta com um anjo.

  • só pode fazer poema em versos livres quem aprendeu, antes, a fazer sonetos clássicos.

  • não existem influências, mas confluências: o poeta deve ler quem se parece com ele.


Presença (Para Lara de Lemos)

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos..

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

a folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu te sentir

como sinto — em mim — a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces como teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim... // Suas palavras //

seriam as mais simples do mundo, // porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir...

Sim! Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel. Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas

do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia...

como // uma pobre lanterna que incendiou.


Carta desesperada

Como é difícil, como é difícil, Beatriz, escrever uma carta...

Antes escrever os Lusíadas!

Com uma carta pode acontecer

Que qualquer mentira venha a ser verdade...

Olha! O melhor é te descrever, simplesmente, // A paisagem,

Descrever sem nenhuma imagem, nenhuma..

Cada coisa é ela própria a sua maravilhosa imagem!

Agora mesmo parou de chover.

Não passa ninguém. Apenas // Um gato // Atravessa a rua

Como nos tempos quase imemoriais // Do cinema silencioso..

Sabes, Beatriz? Eu vou morrer!



O Umbigo

O teu querido umbiguinho, // Doce ninho do meu beijo

Capital do meu Desejo, // Em suas dobras misteriosas,

Ouço a voz da natureza // Num eco doce e profundo,

Não só o centro de um corpo, // Também o centro do mundo!


    • Surrealismo

      • constantes nos versos e aforismos

      • imagens surpreendentes, humor negro, non-sense e comparações humorísticas e uso de personificações

      • relação do Surrealismo com o tempo é marcante(Dali)

Olho as minhas mãos

Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas

Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las

Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...

Fechá-las, de repente, Os dedos como pétalas carnívoras!

Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,

Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento

Como tecem as e as aranhas.

A que mundo // Pertenço?

No mundo há pedras, baobás, panteras,

Águas cantarolantes, o vento ventando

E no alto as nuvens improvisando sem cessar.

Mas nada, disso tudo, diz: “existo”

Porque apenas existem...

Enquanto isto,

O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses

E, cheios de esperança e medo,

Oficiamos rituais, inventamos // Palavras mágicas.

Fazemos // Poemas! pobres poemas

Mistura, confunde e dispersa no ar..

Nem na estrela do céu nem na estrela do mar

Foi este o fim da Criação! // Mas, então,

Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?

Quem faz em mim — esta interrogação?




  • Metalinguagem

    • preocupação com poética, discurso, literatura e artes em geral

    • reflexão sobre a leitura, leitor e irônica abordagem crítica

    • atitude antiintelectualista – objetivo de desmistificação


A Rua dos Cataventos

Escrevo diante da janela aberta.

Minha caneta é cor das venezianas:

Verde!... E que leves, lindas filigranas

Desenha o sol na página deserta! //

Não sei que paisagista doidivanas

Mistura os tons.., acerta... desacerta..

Sempre em busca de nova descoberta,

Vai colorindo as horas quotidianas... //

Jogos da luz dançando na folhagem!

Do que eu ia escrever até me esqueço...

Pra que pensar? Também sou da paisagem... //

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...

E me transmuto... iriso-me. estremeço...

Nos leves dedos que me vão pintando!

O Poema

Um poema como um gole dágua bebido no escuro.

Como um pobre animal palpitando ferido.

Como pequenina moeda de prata perdida para sempre // [na floresta noturna.

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa // [ condição de poema.

Triste. // Solitário. // Único. // Ferido de mortal beleza.



Elegia

Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...

Uma velhinha sozinha numa gare.

Um sapato preto perdido do seu par: símbolo

Da mais absoluta viuvez.

As recordações das solteironas.

Essas gravatas

De um mau gosto tocante

Que nos dão as velhas tias.

As velhas tias.

Um novo parente que se descobre.

A palavra “quincúncio”.

Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões mais impróprias.

Um cachorro anônimo que resolve ir seguindo a gente

[ madrugada na cidade deserta.

Este poema, este pobre poema

Sem fim...


      • Lirismo crítico da vida moderna

    • crítica à vida cotidiana, massificação da vida moderna, aspectos de coisificação ou despersonalização do ser humano

    • abordagem sutil

IV

Eu nada entendo da questão social.

Eu faço parte dela, simplesmente..

E sei apenas do meu próprio mal,

Que é bem o mal de toda a gente, //

Nem é deste Planeta... Por sinal

Que o mundo se lhe mostra indiferente!

E o meu anjo da Guarda, ele somente,

É quem lê os meus versos afinal..

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,

Vivo regendo estranhas contradanças

No meu vago País de Trebizonda... //

Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças,

É lá que eu canto, numa eterna ronda,

Nossos comuns desejos e esperanças!

XIII

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sortir que eu tinha..

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha... //

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada...

Arde um toco de vela, amarelada...

Como o único bem que me ficou! //

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!

Ah! Desta mão, avaramente adunca,

Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada! //

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!

Que a luz, trêmula e triste como um ai,

A luz do morto não se apaga nunca!

Invitation au voyage

Se cada um de vós, á vós outros da televisão

— vós que viajais inertes como defuntos num caixão —

Se cada um de vós abrisse um livro de poemas...

faria uma verdadeira viagem...

Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!

— Inclusive o amor e outras novidades.

Dedicatória

Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?

Quem foi que disse que eu escrevo para o bas-fond?

Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.

Eu escrevo para o João Cara de Pão.

Para você, que está com este jornal na mão...

E de súbito descobre que a única novidade é a poesia,

O resto não passa de crônica policial — social — política.

E os jornais sempre proclamam que “a situação é crítica”!

Mas eu escrevo é para o João e a Maria,

Que quase sempre estão em situação crítica!

E por isso as minhas palavras são quotidianas como o pão nosso de cada dia

E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão.


    • figura divina – ceticismo irônico

DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...

Nem mudar água pura em vinho tinto...

Milagre é acreditarem nisso tudo!

O Olhar

O último olhar do condenado não é nublado sentimentalmente por lágrimas

nem iludido por visões quiméricas.

O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:

vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude do verdugo,

vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...

Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus

— um porque é eterno,

o outro porque vai morrer.

O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...

como o olhar de Deus...


  • Intertextualidade

    • Museu-biblioteca, cheio de vida, em que quadros, esculturas e livros revivem diante de nós.

IF...

E até hoje não me esqueci // Do Anjo da Anunciação no quadro de Botticelli:

Como pode alguém

Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?

Oh! tão soberanamente inclinado... // Se pudéssemos ser como ele!

Os Anjos dão tudo de si // Sem jamais se despirem de nada.



Inscrição para um portão de cemitério

Na mesma pedra se encontram,

Conforme o povo traduz,

Quando se nasce — uma estrela,

Quando se morre — uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam

Hão de emendar-nos assim:

“Ponham-me a cruz no princípio...

E a luz da estrela no fim!”

O Silêncio

O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo

Como um filme que houvesse perdido de repente o som.

Vejo homens, mulheres; peixes abrindo e fechando a boca num aquário

Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios...

Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais

Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir

Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,

Obrigado a ficar olhando

Intermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso...

Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!

Nem do outro...


III – Seleção de Textos
Canção de Outono (Para Salim Daou)

O outono toca realejo // No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma, // Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo? // Como possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dorido // de carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes? // Colher as horas, em suma...

Mas os caminhos do Outono // Vão dar em parte nenhuma!

O Auto-retrato

No retrato que me faço

— traço a traço às vezes me pinto nuvem,

às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas de que nem há mais lembrança...

ou coisas que não existem mas que um dia existirão...

e, desta Iida em que busco // — pouco a pouco — minha eterna semelhança,

no final, que restará? // Um desenho de criança... // Corrigido por um louco!



Ao longo das janelas mortas

Ao longo das janelas mortas

Meu passo bate as calçadas.

Que estranho bate!... Será

Que a minha perna é de pau?

Ah, que esta vida é automática!

Estou exausto da gravitação dos astros! // Vou dar um tiro neste poema horrível!

Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso Senhor [ prostitutas, os mortos!

Venham ver a minha degradação, // A minha sede insaciável de não sei o quê,

As minhas rugas. // Tombai, estrelas de conta,

Lua falsa de papelão, // Manto bordado do céu!

Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa

Esta carcaça miserável de sonho...


Espelho Mágico

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...

Estuda, a frio, o coração alheio.

Farás, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil recreio...

DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece.. Nada

Convém que se repita...

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa cem mil vezes dita.

DO CUIDADO DA FORMA

Teu verso, barro vil,

No teu casto retiro, amolga, enrija, pule...

Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,

Arredondado e liso como um bule!

DOS MUNDOS

Deus criou este mundo, O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo...

Decerto não gostou lá muito do que via...

E foi logo inventando o outro mundo.

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis.., ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!

DO SABOR DAS COISAS

Por mais raro que seja, ou mais antigo,

Só um vinho é deveras excelente:

Aquele que tu bebes calmamente

Como teu mais velho e silencioso amigo...

DOS SISTEMAS

Já trazes, ao nascer, tua filosofia.

As razões? Essas vêm posteriormente,

Tal como escolhes, na chapelaria,

A fôrma que mais te assente..

DO EXERCÍCIO DA FILOSOFIA

Como o burrico mourejando à nora,

A mente humana sempre as mesmas voltas dá.,

Tolice alguma nos ocorrerá

Que não a tenha dito um sábio grego outrora...

DAS IDÉIAS

Qualquer idéia que te agrade,

Por isso mesmo.., é tua.

O autor nada mais fez que vestir a verdade

Que dentro em ti se achava inteiramente nua...

DA AMIZADE ENTRE MULHERES

Dizem-se amigas... Beijam-se...

Mas qual! Haverá quem nisso creia?

Salvo se uma das duas, por sinal,

For muito velha, ou muito feia...

DA FELICIDADE

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

Procede tal e qual o avozinho infeliz:

Em vão, por toda parte, os óculos procura,

Tendo-os na ponta do nariz!

DA REALIDADE

O sumo bem só no ideal perdura...

Ah! Quanta vez a vida nos revela

Que “a saudade da amada criatura”

É bem melhor do que a presença dela...

DA MODERAÇÃO

Cuidado! Muito cuidado...

Mesmo no bom caminho urge medida e jeito.

Pois ninguém se parece tanto a um celerado

Como um santo perfeito...

DA CALÚNIA

Sorri com tranqüilidade

Quando alguém te calunia.

Quem sabe o que não seria

Se ele dissesse a verdade...

DA EXPERIÊNCIA

A experiência de nada serve à gente.

É um médico tardio, distraído:

Põe-se a forjar receitas quando o doente

Já está perdido...

DE COMO PERDOAR AOS INIMIGOS

Perdoas.., és cristão. Bem o compreendo...

E é mais cômodo, em suma.

Não desculpes, porém, coisa nenhuma,

Que eles bem sabem o que estão fazendo...

DA CONDIÇÃO HUMANA

Se variam na casca, idêntico é o miolo,

Julguem-se embora de diversa trama:

Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo

Que o mais sutil dos sábios quando ama.
Os Parceiros

Sonhar é acordar-se para dentro:

de súbito me vejo em pleno sonho

e no jogo em que todo me concentro

mais uma carta sobre a mesa ponho. //

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!

E quase que escurece a chama triste...

E, a cada parada uma pancada,

o coração, exausto, ainda insiste. //

Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?

O meu parceiro... eu vejo que ele tem

um riso silencioso a desenhar-se //

numa velha caveira carcomida.

Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...

Como também disfarce é a minha vida!

Quinta coluna

Te lembras dos tempos em que se falava na Quinta Coluna?

Felizes tempos aqueles — porque eram tempos de guerra

E a gente pensava que tudo ia melhorar depois..

— Mas quando?!

Apenas restou, entre nós, a Quinta Coluna dos Poetas.

Sim! Nós é que somos os verdadeiros visitantes do Futuro

— não esses que os ingênuos autores de FC andaram espalhando por aí...

E temos agora tantas, tantas coisas que denunciar neste mundo louco..

—Mas a quem?!


Mar

Que linda estavas no dia // Da Primeira Comunhão,

Toda de branco, Maria, // Com rosas brancas na mão.

Nossa Senhora esquecida // Ao ver-te, a sua aflição,

E eu, contrito — que heresia! — // Te rezava uma oração

Pois quando te vi, de joelhos, // Pousar os lábios vermelhos

Nos pés do Cristo, supus // Que eras Santa Teresinha,

A mais linda e mais novinha // Das esposas de Jesus! (1923)


A Missa dos Inocentes

Se não fora abusar da paciência divina

Eu mandaria rezar missa pelos meus poemas que não

[conseguiram ir além da terceira ou quarta linha,

Vítimas dessa mortalidade infantil que, por ignorância dos pais,

Dizima as mais inocentes criaturinhas, as pobres...

Que tinham tanto azul nos olhos, // Tanto que dar ao mundo!

Eu mandaria rezar o réquiem mais profundo // Não só pelos meus

Mas por todos os poemas inválidos que se arrastam pelo mundo

E cuja comovedora beleza ultrapassa a dos outros

Porque está, antes e depois de tudo,

No seu inatingível anseio de beleza!



Jardim interior

Todos os jardins deviam ser fechados,

com altos muro de um cinza muito pálido,

onde uma fonte // pudesse cantar // sozinha

entre o vermelho dos cravos.

O que mata um jardim não é mesmo // alguma ausência

nem o abandono... // O que mata um jardim é esse olhar vazio

de quem por eles passa indiferente.



A Casa Grande

...mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água

com o telhado descendo logo após as fachadas

só de porta e janela

e que tinham, no século, o carinhoso apelido de cachorros sentados.

Porém nasci em um solar de leões.

(... escadarias corredores, sótãos, porões, tudo isso...)

Não pude ser um menino da rua...

Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora.

A casa era maior do que o mundo! // E até hoje

— mesmo depois que destruíram a casa grande —

até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...


As mãos de meu pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis

sobre um fundo de manchas já da cor da terra

— como são belas as tuas mãos

pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos..

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza

que se chama simplesmente vida.

E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da cadeira predileta,

uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,

[ vieste alimentando na terrível solidão do mundo,

como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?

Ah! Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!

E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...

essa chama de vida — que transcende a própria vida ..,

e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


Do Ideal

Como são belas

indizivelmente belas

essas estátuas mutiladas...

Porque nós mesmos lhes esculpimos

— com a matéria invisível do ar —



o gesto de um braço...uma cabeça anelada.., um seio...

tudo o que lhes falta!


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