Rafael Bordalo Pinheiro morreu há 100 Anos



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Rafael Bordalo Pinheiro morreu há 100 Anos

(Conferência de imprensa, Caldas da Rainha, 23 de Janeiro de 2005)

Rafael Bordalo Pinheiro nasceu a 21 de Março de 1846. Portugal vivia então as últimas convulsões – a Patuleia – de uma revolução liberal cuja implantação se arrastava desde 1820. Cresceu em Lisboa, uma cidade que lentamente se deixava aburguesar, numa família com ligações fortes à actividade artística.

Frequentou a Academia de Belas Artes e tentou a pintura, mas foi no desenho, no desenho de humor e costumes, e na caricatura que se fixou, ao longo de praticamente três décadas da sua vida. Fundou e dirigiu publicações, ilustrou livros e jornais, aliou a escrita à imagem, num jornalismo muito vivo, crítico, por vezes mordaz, que abarcou todos os aspectos da vida política, intelectual e social do Portugal dos finais do século XIX.

A obra de Rafael Bordalo Pinheiro não ficou, porém, apenas com um testemunho qualificado – em quantidade e virtuosismo – de uma época em que de alguma forma os fundamentos da sociedade e do Estado modernos eram estabelecidos. Essa obra foi, em si própria, um factor histórico relevante. A funda repercussão dos desenhos, dos comentários, das caricaturas, da fantasia, do ridículo, do imaginário proposto por Rafael Bordalo Pinheiro, dia após dia, incansavelmente, conferiu ao Portugal de finais do século XIX uma expressão cultural, uma dinâmica, uma abertura únicas. A liberdade, a alegria, a criatividade, o sentido crítico que valorizamos, no tempo que nos constituiu como País moderno, não teriam a expressão que lhes reconhecemos sem a obra de Rafael Bordalo Pinheiro.

É isso que estamos aqui a celebrar, 100 anos passados sobre a sua morte. A geração a que Bordalo Pinheiro pertenceu aplicou-se, como nenhuma outra, a elaborar uma visão de Portugal e dos portugueses que restaurasse a identidade e a sua genealogia e valorizasse a cultura popular nas suas variedades regionais. Ancorada numa estética naturalista, a produção dessa visão revelou-se eficaz e duradoura, e muitos dos seus mitos – como o do Zé Povinho – chegaram aos nossos dias. Neste sentido, revisitar a obra de Bordalo Pinheiro, 100 anos depois da sua morte, é também encontrar alguns dos mais importantes elementos em que assenta a percepção identitária dos portugueses.

Em 1883, Rafael Bordalo Pinheiro decidiu acrescentar às suas actividades de ilustrador e desenhador, a de ceramista. Escolheu as Caldas da Rainha, que nas duas ou três décadas anteriores ganharam reconhecimento nacional e internacional como centro produtor de uma louça decorativa de inspiração naturalista, à maneira do neo-palissy. Surgiu assim a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, um grande projecto empresarial, abrangendo diversos domínios da produção industrial de cerâmica, tecnologicamente avançado e muito exigente do ponto de vista financeiro. Como é sabido, esse projecto não teve vida fácil e não logrou todos os seus objectivos, mas Rafael Bordalo Pinheiro manteve-se, até 1905, à frente de uma oficina que renovou profundamente a cerâmica portuguesa, num constante desafio à inovação dos modelos, à imaginação artística e artesanal, e numa permanente transgressão dos limites do trabalho olárico.

Caldas da Rainha adoptou Rafael Bordalo Pinheiro, viveu os seus momentos de desânimo e exultou com os seus êxitos. O talento e a energia de Bordalo não ficou confinado às instalações da sua oficina, invadiu a vila de então, comentou-a, interpelou-a, provocou-a. Os caldenses decidiram, pouco depois do falecimento do ceramista, dar o seu nome a uma rua antiga da vila. E que rua escolheram? Nem mais nem menos que a primeira rua, a chamada Rua Nova. Por este gesto simbólico, Rafael Bordalo Pinheiro foi associado à fundação da cidade.

Foi por isso que as Caldas, a sua autarquia, as suas escolas, as suas associações e o herdeiro directo da obra de Bordalo, a Fábrica de Faianças que ainda hoje ostenta o nome da família na sua designação empresarial, decidiram propor um programa nacional evocativo da obra e figura de Rafael Bordalo Pinheiro. Tiveram a fundamental colaboração do Instituto Português de Museus, através dos dois museus sedeados nas Caldas, o de Cerâmica e o de José Malhoa, e do Museu Nacional do Azulejo. A Câmara Municipal de Lisboa associou-se também, com um programa próprio, a este ciclo comemorativo.

É este programa que hoje divulgamos. Não é um programa fechado. Outras iniciativas vão certamente surgir e outras instituições vão sentir-se motivadas para estudar e divulgar a obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Ainda bem.

Um conhecido investigador e ensaísta, António Barreto, costumava dizer que se Portugal estivesse condenado a desaparecer e a ele lhe competisse decidir uma das 10 manifestações da cultura portuguesa a salvaguardar, não hesitaria em incluir nessa lista a obra gráfica e cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro.

Gostaríamos que este ano de comemorações contribuísse para cimentar a consciência colectiva do valor e representatividade excepcional dessa obra na cultura portuguesa.

João B. Serra



(Coordenador do Programa de Comemorações do centenário do falecimento de Rafael Bordalo Pinheiro)



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