Raquel Paz dos Santos



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Encontro29.07.2016
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MOVIMENTO OPERÁRIO:

DO CIMENTO BROTANDO A FLOR LATINA


Raquel Paz dos Santos*

A presente comunicação foi elaborada com base em um estudo no qual nos empreendemos a análise da “mulher” à partir de sua inserção no mercado de trabalho industrial e, por conseguinte, no movimento operário. A discussão desta temática, ainda hoje, encontra pouco espaço em nossa historiografia, sendo assim pretendemos ampliar os horizontes que possibilitem uma maior compreensão da participação feminina, em suas especificidades, nas manifestações trabalhistas na Argentina e no Brasil, dois países de extrema relevância dentro do contexto político, econômico e social da América Latina.

Norteamos nossa discussão partindo do pressuposto que a mulher, “flor latina”, que “brota do cimento”, ou seja, que surge da industrialização, da mudança da vida social, que luta pelo espaço no âmbito público,`a partir de sua penetração na fábrica e de sua militância nas mobilizações operárias passa a colocar em questão os valores patriarcais que permeiam as relações sociais da época e implicam em sua subordinação.

Visando uma maior compreensão do tema nos voltamos, inicialmente, a discussão das principais teorias acerca do trabalho feminino, buscando encontrar elementos explicativos para a reprodução da subordinação da mulher no campo produtivo, onde geralmente recebe menores salários, ocupam postos de menor prestígio e com reduzidas possibilidades de mobilidade, apresentam baixo nível profissional e constituem uma força política de pouca expressão.

De acordo com a concepção funcionalista, a inserção feminina na esfera produtiva é visto como algo conflituoso com seu papel social restrito ao desempenho das tarefas domésticas. Recomenda-se então que afaste-se do trabalho extra-domiciliar, concebido como um espaço privativamente masculino.

Dentre às concepções dos economistas, merecem destaque a teoria do capital humano que postula que a força de trabalho feminina tem uma “acumulação menor de capital humano” sendo assim possui menos “treinamento” acarretando numa baixa remuneração no mercado, enquanto que a teoria do Mercado Dual de Trabalho atribui a divisão do campo produtivo em primário (masculino) e secundário (feminino) a uma estratégia para dividir a classe operária.

Para Marx,1 a introdução da mulher na produção social estimulou a competição entre os trabalhadores, favorecendo a exploração capitalista, contudo, isto possibilitou ao sexo feminino pleitear uma igualdade nas relações sociais. Ainda de acordo com as postulações marxistas, o seu emprego proporcionou uma forma de obtenção de mais-valia, pelos menores salários pagos as operárias e também se constituía como parte do exército industrial de reserva.

Partindo para a análise do alvorecer da “questão feminina” nos movimentos operários brasileiro e argentino desde os fins dos século XIX até meados dos anos 40, constatamos a sujeição das mulheres a toda sorte de discriminação e preconceitos por parte


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* Aluna de graduação em História -UERJ


dos empregados e trabalhadores ao se constituírem como mão-de-obra nos primeiros momentos da industrialização e nos anos posteriores. Sua militância nas manifestações trabalhistas foi impulsionada, primeiramente, pelas péssimas condições de vida, no entanto, não deixou de expressar seus anseios por direitos que lhe permitem o estabelecimento de uma igualdade no campo educacional e na sociedade.

Em seu estudo sobre as operárias brasileiras, Maria V. P. Junho destaca que mesmo premidas pelo capital e pela sua condição de sexo, as mulheres deixaram na história das lutas operárias da Primeira República, exemplo de coragem e combatividade. Tenazmente, “elas revoltaram-se contra mestres, enfrentaram a política, fundaram grêmios, levaram para as ruas as reivindicações originárias de sua ambígua situação de classe explorada e sexo subordinado2.

Assim, muitas foram as vozes femininas que em assembléias, comícios ou jornais que incitaram as trabalhadoras se unirem contra a exploração de seus patrões, mesmo com as fortes barreiras impostas pelas lideranças sindicais. Como exemplo podemos citar um dos manifestos escritos pelas costureiras:

“Devemos demonstrar enfim, que somos capazes de exigir o que nos pertence; se todas forem solidárias, se todas nos acompanharem nesta luta, se nos derem ouvidos, nós começaremos a desmascarar a estupidez dos patrões sanguessugas trabalho de 8 horas desde de 1856; e nós que somos do sexo fraco, temos que trabalhar até 16 horas! O dobro das trabalhadas deles, que são do sexo forte !”( A Terra Livre, 19 de julho de 1906).

Singularmente na Argentina, nas primeiras décadas da industrialização, as mulheres são personagens assíduas e atuantes nas manifestações trabalhistas. Juan B. Massé, faz uma avaliação do que denomina “fenômeno feminino”, ao se referir militância das trabalhadoras em greves, muitas com notável poder de liderança:



“El fenômeno es muy notable en las costureiras de Tucumán (..) En mi visita he oído más de cien la frase: ‘con rosários no se engorda, y ya no podemos más ! En Santa Fé, las mujeres que entran por ese camino son francamente anarquistas, y ananquistas exaltadas, algumas de ellas se hacen notar por sus faculdades oratorias. Hay en el Rosário un joven puntava de palabra enérgica y dominante , que arrasta á las multitudes ..’3

A década de 20, marca um divisor de águas na participação feminina nas mobilizações trabalhistas, pois é expressivo o seu decréscimo em ambos os países. Muitas são as causas apontadas para este reflexo. No caso brasileiro, a grande redução da mão-de-obra feminina industrial, foi um fator extremamente significativo. No entanto, entre outros aspectos explicativos, a institucionalização do movimento foi fundamentalmente no sentido de limitar, em grande medida, as possibilidades das mulheres fazerem parte do corpo da liderança sindical. Contudo, em menor ou maior grau nos anos posteriores, elas continuaram a reivindicar juntamente com as demais demandas da classe operária, questões específicas de sua “condição feminina”, chocando-se inevitavelmente com os valores de uma sociedade patriarcal que lhe atribui um status subordinado.

Analisando a mulher operária no período de governo de Juan Perón, entre os anos de 1946 a 1955, verificamos que a formação do Estado Peronista, associado a projeção da figura da primeira dama, Eva Perón, promoveu a incorporação dos trabalhadores, especialmente as femininas, no projeto de construção da “nova Argentina”.

Montando todo um aparato jurídico-ideológico. Perón conquista o apoio do operariado, através de uma troca de interesses, pois se por um lado o Estado lhe confere benefícios sociais e econômicos, este por outro lado, o legitima politicamente, viabilizando o seu projeto. Contudo, a elite dirigente e a burguesia industrial são os grandes beneficiários do regime instituído.

Essas características do regime são imprescindíveis para entendermos as particularidades do rol político feminino (concessão de vários direitos, entre eles o de voto) aberto pelo peronismo às mulheres, segmento de grande expressividade na época, sobretudo, enquanto força de trabalho4. Neste contexto, a figura de Evita funcionará como um importante marketing político-ideológico do regime devido a sua forte identificação com o operariado, como também porque estimulava as mulheres à participação nos postos de trabalho e na política. Assim, a primeira dama, usará de todo o seu carisma para mostrar-se solidária a causa das operárias: “Puedes tener confianza las mujeres del país, que en Evita tienen una hermana, a uma compañera que no dormirá y no vivirá hasta verlas felices a todas ustedes5.”

Todavia, a extensão da cidadania feminina impôs limites a sua atuação política, pois o objetivo do peronismo não residia em promover uma emancipação da mulher argentina ( na verdade, buscava-se valorizar o seu papel doméstico tradicional via sistema educacional6 ) e sim canalizar suas aspirações em prol dos interesses do Estado. Sua participação no Partido Peronista Feminino, por exemplo, era totalmente manipulada7.

Entretanto, a mobilização real e efetiva das operárias dentro dos sindicatos, muitas chegaram a ser delegadas ou a ocuparem cargos menores, contribuiu para que várias ativistas sindicais manifestassem sua oposição a este ordenamento, passando a pleitear uma real participação e igualdade da mulher no trabalho e na sociedade.

Parafraseando Hobsbawm , concluímos que a atuação, no movimento operário permitiu as mulheres desenvolverem toda a sua humanidade, como líderes e pessoas públicas. Mesmo que elas não tenham logrado em seu empreendimento em prol da afirmação de uma igualdade, foi com sua participação em greves, sindicatos, jornais ... que as operárias encontram subsídios para a sustentação de um “movimento apaixonadamente compromissado com a emancipação do sexo feminino”8.


NOTAS


1 MARX, Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. 9a ed.



2 JUNHO, Maria V. P. A Participação Feminina no Movimento Operário da I República. São Paulo: Fundação Carlos Chagas e F. Ford, 1983, p.12


3 MASSE, Juan B. Informe Sobre o Estado da Clase Obrera (II). Madrid: Hyspamérica, 1985.


4 Segundo dados da CEPAL, as mulheres correspondiam em 1950, a 23,1% dos 56% que representavam o percentual da população empregada em algum ramo de atividade.

5


 Pronunciamento de Eva Perón as mulheres argentinas em 30/11/1946.



6 Pela proposta educacional peronista, as cidadãs argentinas deveriam aprender a integrar-se ativamente nas atividades políticas, mas sem deixar de lado suas atribuições domésticas.


7 As diversas seções femininas do partido, ficavam submetidas a um rigoroso controle de Eva Perón que decidia absolutamente tudo e selecionava os delegados e subdelegados que organizavam núcleos de difusão da doutrina peronista. Assim, o caráter autoritário desta instituição impedia um posicionamento autônomo por parte das militantes.



8 HOBSBAWM, Eric J. Mundos do Trabalho: Novos Estudos Sobre a História Operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. P.138-139.

BIBLIOGRAFIA
BESSONE, Rieffold. Los Derechos Sociales de la Mujer. Sufragismo y Femenismo: Perón y Evita. Buenos Aires: Al Ateneo, 1950.
CORBIÈRE, Emilio G. Las Luchas Femeninas el Discurso Socialista y Anarquista – 1910-1930. En Desmemoria: Revista de História, Buenos Aires, 1-3, n°9, 1995.
FAUSTO, Boris. Trabalho Urbano e Conflito Social. São Paulo: DIFEL, 1976.
GUIVANT, Julia S. La Visible Eva Perón y el Invisible Rol Político Femenino em El Peronismo: 1946-1952. Working Paper, 1986.
HOBSBAWN, Eric J. Mundo do Trabalho. 2a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
JUNHO, Maria V. P. Mulheres e Trabalhadoras: A Presença feminina na Constituição do Sistema Fabril. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
MERCADO, Matilde A . La Primera Ley de Trabajo Femenino: La Mujer Obrera.
RAGO, Margareth. Adeus ao Feminismo ? Feminismo (Pós) Modernista no Brasil, In: Mulher, História e Feminismo. Cadernos AEL ¾. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1995/1996.
RODRIGUES, Edgar. Alvorada Operário, Mundo Livre. Rio de Janeiro: DIFEL, 1979.




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