Rastros de sangue



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DIÁLOGO ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA NO ROMANCE “RASTROS DE SANGUE”, DE DAVID CARNEIRO
Daiane Vaz Machado (ICV–UNICENTRO), Raphael Nunes Nicoletti Sebrian (Orientador – Dep. de História/UNICENTRO), e-mail: daiane_vm@yahoo.com.br
Palavras-chave: História e Literatura, romance histórico, historiografia paranaense.
Resumo:

O tema deste estudo é a relação entre a história e a literatura configurada no romance histórico Rastros de Sangue, de David Antonio da Silva Carneiro (1904-1990). A fonte, portanto, é o próprio livro, escrito pelo historiador paranaense entre os anos de 1955 e 1967. O objetivo principal deste trabalho é compreender o processo de composição do referido texto ficcional, verificando as possibilidades históricas e documentais dos temas apresentados pela produção ficcional.


Introdução:

Este estudo se propõe a discutir a relação entre a história e a literatura configurada no romance Rastros de Sangue, do historiador paranaense David Antonio da Silva Carneiro (1904-1990), cuja feitura se deu entre os anos de 1955 a 1967. Rastros de Sangue é um romance ambientado na cidade de Curitiba durante os acontecimentos da Revolução Federalista no Paraná, e é pensando neste contexto que o autor dá vida aos seus dois personagens principais, Júlia de Castro e seu noivo Carlos Antonio Balster, combatente na região da Lapa junto ao "Exército Libertador" de Gumercindo Saraiva.


Materiais e Métodos:

A aproximação da história com a literatura influenciou o surgimento de novos territórios a serem explorados pela pesquisa histórica e esse alargamento de possibilidades proporcionou a utilização, como fonte, do romance histórico, “um gênero narrativo híbrido, surgido de um processo de combinação entre história e ficção” (ESTEVES, 2006, p. 26). História e ficção podem ser vistas como âmbitos que se cruzam dialogicamente mas que necessariamente não se misturam, pois o romance histórico não é história, o discurso que o rege é o da poética, por mais que se fundamente em fatos, contingências ou personagens históricos reais.1 Pensando na especificidade do objeto desta pesquisa, um subgênero da literatura denominado romance histórico, dialogo com o crítico literário Anatol Rosenfeld,2 pois as reflexões que promove são muito fecundas e servem para pensar a especificidade do romance, que, como todas as manifestações culturais e científicas, passou por profundos questionamentos críticos. O que podemos observar é que conforme mudam as concepções do romance, como assinalado por Rosenfeld, também se modifica o romance histórico, que desde seu surgimento com a publicação de Ivanhoe, em 1819, pelo escritor inglês Sir Walter Scott (1771-1832) sofreu profundas alterações desde o Romantismo, momento em que surgiu, seja na forma de valer-se do discurso histórico ao tratar com suas crises de identidade, seja no papel dos personagens, na concepção de tempo, valores e ideologias, no fazer poético e sua relação com o social, entre outras, que somente um exame de cada período poderia melhor assinalar.3 “Segundo mudam as concepções do romance e suas relações com a sociedade, também muda o romance histórico, da mesma maneira que ele se vê afetado pelas mudanças epistemológicas que se verificam na narrativa histórica” (ESTEVES, 2007, p.16). Inserido nesse diálogo interdisciplinar, o presente estudo tem como fonte o romance histórico Rastros de Sangue, escrito pelo historiador paranaense David Antonio da Silva Carneiro (1904-1990), cuja feitura se deu entre os anos de 1955 a 1967, segundo consta na introdução do próprio livro. Trata-se de um historiador de relevância para a historiografia paranaense, em muitos de seus escritos é recorrente o tema da Revolução Federalista; publicou, em 1934, O Cerco da Lapa e seus Heróis, posteriormente Os fuzilamentos de 1894 no Paraná, e a Revolução Federalista, em 1944, retomando o tema em estilo literário onze anos depois com Rastros de Sangue. O romance é ambientado na cidade de Curitiba durante os acontecimentos da Revolução Federalista no Paraná, com a atuação de figuras históricas importantes da época e uma trama romântica problemática entre os personagens Júlia de Castro e seu noivo Carlos Antonio Balster, combatente na região da Lapa junto ao “Exército Libertador” do líder revolucionário Gumercindo Saraiva.


Resultados e Discussão:

Muitos estudiosos se dedicaram ao debate interdisciplinar entre a História e a Literatura, debate que se intensificou a partir da crise do marxismo e do estruturalismo na segunda metade do século XX, quando se questionam as certezas inabaláveis do ofício do historiador, possibilitando uma aproximação multidisciplinar da história com diversos campos do conhecimento. O discurso literário constitui-se em uma mediação social, pois é um sistema simbólico de comunicação; no entanto, como discurso ficcional, não possui nenhum comprometimento com o real vivido, não exige a rigor o trabalho com a pesquisa documental, ofício que compete ao historiador. Um trabalho historiográfico que se propõe a fazer um diálogo com a literatura, rompendo com o ponto de vista usual, que pretende entender a obra ora como condicionada pela sociedade ora como expressão de uma época, precisa desvencilhar-se da concepção de que o elemento social, externo, é o determinante causal da obra, pois para compreender a obra é preciso pensar organicamente, diluir os elementos externos, fatores sociais e psíquicos em agentes da estrutura, inseridos no enredo da obra, capazes de proporcionar sustentação para uma análise coerente. Essa é uma das concepções das quais me aproprio para a construção do presente trabalho, entender o contexto social (Revolução Federalista, com os acontecimentos voltados para o Paraná) como agente da estrutura e não como elemento exterior, condicionante ou determinante. Pretende-se também contribuir paralelamente para a historiografia regional, pois se trata de uma obra produzida por um historiador de grande relevância para a historiografia paranaense.


Conclusões:

Como se trata de uma pesquisa em andamento, ainda não é possível apresentar conclusões ou considerações finais sobre este estudo, pois é um Trabalho de Conclusão de Curso de História a ser defendido no ano de 2008. Contudo, na data da apresentação do presente trabalho, tais conclusões certamente serão apresentadas.


Referências:

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1 ESTEVES, Antonio R. O novo romance histórico brasileiro. In: ANTUNES, Letícia Zini (org.). Estudos de literatura e lingüística. São Paulo:
Arte & Ciência, UNESP/Assis, 1998.

2 Ver o capítulo “Reflexões sobre o romance moderno”, do livro de ensaios Texto/Contexto.

3 Sobre a trajetória do romance histórico, consultar: ESTEVES, Antônio, R. Literatura, história, memória (um tríptico em construção). Tese (Livre-Docência), FCL-UNESP/Assis, Assis, 2006.


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