Re inventando contos de fadas. Um estudo sobre o fenômeno da exclusãO



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(RE) INVENTANDO CONTOS DE FADAS. UM ESTUDO SOBRE O FENÔMENO DA EXCLUSÃO
Aracy Ernst-Pereira (UCPEL)

... eu sou isso ou aquilo. Não, eu sou isto e aquilo; e sou antes isto que aquilo, de acordo com as situações e as urgências. Derrida (2004: 35)



Quem sou eu? Quem eu quero ser? Quem eu devo ser? São questões ligadas à noção de identidade, respondidas através de práticas discursivas em que os sentidos produzidos constroem aquilo que o sujeito é ou aquilo que se tornará. Essas práticas discursivas fixam lugares a partir dos quais o sujeito se posiciona e estruturam sua experiência. Conseqüentemente, afirmar a identidade – “eu sou homem”, “eu sou branco”, “eu sou heterossexual”, etc. – é tomar uma posição, uma posição definida em geral por padrões, ditos “normais”, historicamente forjados. Todavia, isso implica também (e necessariamente) marcar a diferença: eu sou aquilo que outro não é. Assim, da mesma forma em que há a inclusão num determinado grupo social através da identidade, há a exclusão do outro, num processo de classificação, ou melhor, de hierarquização que atribui valores desiguais ao diferente. É, pois, através do discurso que se marca o idêntico e se exclui o diferente.
Os contos de fadas tradicionais participam desse processo, auxiliando a construção de identidades de gênero através da fixação do que é considerado natural e desejável. Na realidade, participam de um movimento parafrástico, que tende à estabilização dos sentidos institucionalizados; no caso, aqueles referentes à constituição de identidades. Mas ao lado desse movimento, existe um outro, o polissêmico, que busca subvertê-las, inserindo o diferente e rompendo com o processo de produção dominante de sentidos (cf. Orlandi, 1987). O interessante é verificar se e como podemos surpreendê-los em produções infantis.
Este trabalho tem, como objeto de reflexão, produções escritas formuladas por alunos do terceiro ano do ensino fundamental em ambiente escolar e fazem parte do corpus da pesquisa1 em desenvolvimento (Re)invenção de histórias sem fim. O discurso da exclusão nos contos de fadas. O propósito é estudar o discurso infantil sobre os contos de fadas, investigando como crianças, em fase escolar, compreendem tais histórias e como expressam, em seus discursos, os significados da feminidade e masculinidade. Trata-se de responder aos seguintes questionamentos: que significados estão sendo construídos sobre a identidade de gênero nesse contexto institucional específico? O que está sendo formulado corresponde ao padrão e participa do processo de exclusão do diferente? Ou há indicadores de mudança no discurso infantil que poderiam apontar para a produção de novas identidades?
O processo de exclusão está presente em todos os grupos sociais, pois no momento em que se formam traços de identidade entre seus membros, são criados simultaneamente conceitos de exclusão com relação a outros, edificando-se barreiras que impedem a inclusão do diferente, daqueles que não se enquadram no paradigma instituído. Constitui-se num construto da própria sociedade que torna natural o que é cultural, categorizando os indivíduos em função de atributos considerados comuns e “normais” e rejeitando os que aí não se enquadram. Forjam-se, assim, os preconceitos que estigmatizam as pessoas e, dentre eles, os referentes ao dualismo masculino-feminino.
A adoção de formas tradicionais de feminidade e masculinidade deve-se menos a pressão dos pais sobre seus filhos ou da escola sobre seus alunos - isso é mero sintoma - do que a um fenômeno maior que a determina: o inalterável dualismo e sua construção como elemento central da identidade humana. Pergunta-se Butler: “Haverá humanos que não tenham um gênero desde sempre? A marca do gênero parece “qualificar”os corpos como corpos humanos; o bebê se humaniza no momento em que a pergunta “menino ou menina?” é respondida.(2003: 162). O gênero está sempre presente, definindo antecipadamente aquilo que se qualifica como humano e que constitui sua identidade.
Um dos aspectos mais importantes da construção de nossas identidades sociais é exatamente a forma como nos posicionamos, ou melhor, como somos posicionados frente ao gênero, e os discursos construídos no espaço escolar são fundamentais para se compreenderem os processos que determinam a assunção de determinados papéis, uma vez que a escola busca definir não somente o que se deve e o que não se deve fazer, mas também o que se deve ser e o que não se deve ser.
A visão essencialista e polarizante da sexualidade e do gênero advém de práticas discursivas opressivas, a maioria das vezes paradoxalmente sutis, nas quais aprendemos a nos representar discursivamente dentro dos limites impostos pelos padrões sociais vigentes. Portanto, é a partir do olhar do outro que nos constituímos subjetivamente como homens e mulheres, e a escola parece ser um lugar importante dessa construção. Mas até que ponto a escola que aí está tem propiciado outras formas de pensar e exercer a masculinidade e a feminilidade? Seus currículos e práticas normalmente reiteram a norma, não permitindo que o diferente se manifeste, pois, caso isso ocorresse, adquiriria visibilidade, seria legitimizado, enfim se naturalizaria.
Parte da incapacidade da escola em se constituir num espaço de práticas discursivas libertadoras reside justamente no olhar oblíquo, derivado da perspectiva androcêntrica que marginaliza o negro, o portador de deficiência física, o homossexual, a mulher, etc. Conseqüentemente, as práticas escolares reiteram as relações de poder e de dominação nas quais estão inseridas, participando dos processos de hierarquização de classe, de raça, de etnia, de gênero e de sexualidade.
No entanto, a diversidade de sujeitos e a multiplicidade de práticas discursivas contemporâneas não podem ser ignoradas ou excluídas, mas devem ser entendidas como elementos constitutivos da nossa sociedade. Concebê-las a partir de uma bipolarização simplista que reduz as complexidades, apresentando um “mundo semanticamente normal”2, é reduzir a heterogeneidade que constitui a sociedade. É importante que também se diga que a visão binária da identidade e da diferença – branco/negro, masculino/feminino, heterossexual/homossexual -, segundo Derrida (1991), não apresenta simetria entre seus termos. Um é sempre favorecido, recebendo um valor positivo, enquanto o outro é desqualificado, recebendo um valor negativo. Esses binarismos precisam ser problematizados.
O estado e as instituições, de maneira geral, e dentre elas a escola, funcionam, no entanto, para atender a demanda de homogeneização do sujeito pragmático, disciplinando condutas e silenciando diferenças. Em face desse quadro, o que esperar dos alunos? Será que conseguem se desvencilhar desse saber escolar considerado eficaz, administrável e sedutor por responder ao desejo e necessidade do sujeito de controlar os sentidos?
Observando o material da pesquisa coletado até o momento: fichas, questionários e redações que constituem parte do corpus empírico da pesquisa3, nota-se que esse saber se materializa discursivamente nas produções escritas das crianças4. Por exemplo, na caracterização das personagens da história a ser criada – RPG – as personagens femininas foram definidas pelas crianças através das seguintes adjetivações, centradas em atributos físicos: elegante, charmosa, bonita, morena, olhos azuis e cabelos pretos, loira, olhos verdes, cabelos lisos; as personagens masculinas: bonito, brabo, barbudo, cabeludo, alto, magro, valente. Apesar de a descrição das personagens masculinas também apresentar atributos físicos, coexistem características psicológicas esperadas para um homem, o que se encontra ausente nas respostas referentes às personagens femininas. É interessante se perguntar por que há a ausência de características psicológicas “naturalmente” atribuídas às personagens femininas: dócil, meiga, obediente, etc.
Indagadas sobre o que as personagens gostam de fazer, as respostas foram com relação às femininas: de fazer tricô, rir e gritar, de jogar dama e ler, jogar carta, de ir passear entre as flores e de andar a cavalo na floresta ; com relação às masculinas, foram: não gritar, de trabalhar, andar a cavalo, de correr mundo, de caçar dragão e pescar, etc. Embora ocorram alguns índices de mudança nas prerrogativas femininas e masculinas, predomina a manutenção do instituído, possivelmente pela ameaça de exclusão no espaço a que pertencem. Construções do tipo fazer tricô para um menino, assim como caçar dragões para uma menina poderiam ser consideradas impróprias, marginalizando-os.
Frente à pergunta: o que ela não gosta de fazer, com relação às personagens femininas as respostas foram: de não machucar gentes, de não brigar, não gosta de mentir, não gosta de pesadelos e bruxas; com relação às masculinas: não gritar, de futebol, que não maltrate e nem grite com ele, ele não suporta pessoas que o número do pé é cinqüenta e cinco porque é o número de azar. Em relação a esse ponto, observa-se que as personagens femininas não rompem com o padrão; no entanto, as masculinas surpreendem, na medida em que, em alguns casos, tomam uma outra direção que não a esperada. Afinal, não gritar e não gostar de futebol, por exemplo, são consideradas, em geral, atitudes tipicamente femininas.
A última questão: qual é o seu sonho? As respostas para as personagens femininas foram: de casar, de me casar com o príncipe, ser a rainha mais bonita do mundo, ser modelo e cantora; para as masculinas foram: ter um castelo grande, ter carro, achar o amor de sua vida, ser o maior caçador de dragões. Aqui, o padrão hegemônico permanece, mas é interessante notar que o sonho romântico, prerrogativa feminina, também acontece numa das respostas referentes à personagem masculina: “achar o amor de sua vida” que, numa certa medida, é um tanto imprevisível, ainda mais sendo escrita por um menino.
Tal prerrogativa assume, nas respostas dadas à questão “Se você fosse a princesa Linda Flor, que atitude tomaria?”, realizada após o relato da história “Procurando Firme” de Ruth Rocha, um papel central, conforme se pode constatar através dos exemplos seguintes: Eu não fazia o que ela fez esperava um príncipe e me casava. Eu saía para procurar um príncipe. Eu ia sair do castelo e ia procurar um príncipe legal, bonito e etc. Eu ficaria com o príncipe e não sairia sozinha. Eu ficaria no castelo. Eu ia sair do castelo e procurar um príncipe para mim e cazar com ele, etc. É interessante notar que independentemente do sexo, meninos e meninas, via de regra, enquadram-se no padrão esperado e das vinte e seis respostas analisadas, apenas quatro parecem fugir à regra: Eu tomaria uma desizão de deixar a minha família. Fugiria com mel irmão. Fugia com meu irmão. Ficaria com os prinsipes. Todas elas formuladas por meninas.
Também nas respostas dadas às questões: “O que você faria se fosse Rapunzel e o que você faria se fosse o príncipe?” mantém-se o padrão. Eis alguns exemplos relativos a Rapunzel: Se eu fosse ela eu pegava as tranças amarrava num trinque e e dessia e caia no colo do príncipe. Eu pegava o cabelo e amarrava no trinque e me atirava, e o príncipe cortava com a espada. Eu ia asseitar perfeitamente o pedido do príncipe e ia direto descer. E com relação ao príncipe: Se eu fosse o príncipe eu pegaria uma escada e eu traseria para a Rapunzel descer. Insperar a bruxa subir até lá e lutar bravamente. Se eu fosse ele eu pegava e achava uma entrada e pegava e salvava ela. Apenas duas alunas responderam diferentemente: Eu fugiria da cidade inteira e Eu fugiria da cidade de medo da Bruxa.
Os exemplos acima parecem apresentar o óbvio: a obediência das crianças ao discurso hegemônico que faz com que aprendam a se constituir ou como identidade masculina ou feminina. Mas certamente há construções que merecem um olhar mais aprofundado do analista. Optou-se aqui pela análise de duas redações formuladas por meninas, buscando ir além daquilo que se diz, da evidência dos sentidos. Trata-se, no entanto, de um exercício preliminar de análise.
Conta Virgínia Woolf, no ensaio literário Um teto todo seu5, sua surpresa frente à leitura de um livro, tomado ao acaso das prateleiras do Museu Britânico, cujo título era A aventura da vida de Mary Carmichael, surpresa derivada da forma de escrita peculiar utilizada pela escritora que a fez pressentir a ocorrência de que algo estranho aconteceria na narrativa. Da mesma maneira, os textos abaixo transcritos, redigidos por meninas de 8 e 9 anos, apesar de não apresentarem rupturas de caráter estético na sua estrutura linear, provocam indiscutivelmente também um estranhamento da mesma ordem. Vejamos:

Linda Flor e Rapunzel




Uma vez a Linda Flor estava passeando, e viu a torre da outra princesa a Rapunzel.


A Linda Flor ficou com pena da Rapunzel, e aí arrumou um jeito de Rapunzel fugir com ela.

E elas foram caminhando bem escondidas, dava se quer 1 passo e ia atras da árvore.

Elas chegaram na casa da Linda Flor.

Rapunzel morou com Linda Flor. e

E foram felizes para sempre. (Aluna de terceira série do ensino fundamental de escola particular)

A volta de Linda Flor
Depois de muito tempo Linda Flor viajou pisando firme até que um dia quando Linda Flor andava na floresta um leão apareceu era um leão feroz e então ela deu um berro: - Sai leão!!!

E o leão saiu cheio de medo e depois no outro dia a Linda Flor começou a andar perto de um lago e uma cobra apareceu e ela gritou de novo “Sai cobra!” e a cobra saiu até que um dia Linda Flor percebeu que não precisava correr mundo e então ela voltou até o castelo e olhou pela janela seus pais não eram os mesmos de antes agora so olhavam coisas diferentes sua mãe agora não desmaiava por causa de aranhas até tinha uma de estimação

Os pais dela estavam diferentes e então Linda Flor pensou muito e voltou a correr mundo mas teve uma dúvida:

- Sera que vale a pena?

Eu acho que vale (Aluna de terceira série do ensino fundamental de escola pública)

Apesar da simplicidade de linguagem dessas narrativas infantis, há nelas algo de singular, talvez ex-cêntrico, pelo menos para o leitor que conhece os contos de fadas tradicionais. Obedecidas as devidas proporções, pode-se dizer que ocorre algo similar ao que Virgínia Woolf sentiu ao ler A aventura da vida, de Mary Carmichael. Desconsiderando os aspectos formais que primeiramente chamaram a atenção de Virgínia Woolf, nessa obra, especificamente as interrupções que desordenavam “o deslizar suave” das frases e depois das seqüências, o que interessa aqui é o fato a elas ligado, talvez o primeiro na literatura, de acordo com a autora, de que: “Chloe gostava de Olívia”. Diz ela, em seu ensaio: “Chloe gostava de Olívia ... Não se espantem. Não enrubesçam. Vamos admitir, na privacidade de nossa própria sociedade, que essas coisas às vezes acontecem. Às vezes, as mulheres realmente gostam de mulheres.”


Tal fato, para a autora, constituiu-se numa imensa mudança, porque, via de regra, as mulheres são mostradas na literatura em suas relações com os homens. “Todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas apenas em relação ao outro sexo” (ibid., p.109). Talvez daí derive a visão do homem que, obliterada pelo sexo, produziu personagens ficcionais de extremos surpreendentes: beleza e horror, bondade angelical e depravação demoníaca. No auge do amor e da prosperidade, beleza e bondade angelical; na sua decadência e infelicidade, horror e depravação demoníaca. Essa perspectiva polarizada, descrita por Virginia Woolf, concretiza-se, nos contos infantis, através das figuras antinômicas da fada e da bruxa.
Historicamente, as relações que têm marcado as mulheres são de rivalidade e antagonismo e isso se presentifica na literatura. Virgínia Woolf cita o caso de Cleópatra, cujas preocupações com relação a Otávia eram motivadas pelo ciúme: será que ela era mais alta do que eu? Como penteia seu cabelo? Analogamente, nos contos infantis, tem-se, por exemplo, a madrasta malvada de Branca de Neve que a persegue com fúria assassina, porque o espelho lhe diz ser Branca de Neve mais bonita do que ela. Segundo Warner:
As figuras malignas femininas desfilam pelos contos de fadas mais clássicos e estimados; neste mundo, são madrastas malvadas e irmãs feias; no reino encantado são fadas más, feiticeiras, ogras. Nas histórias mais famosas, monstros em forma de mulher suplantam em número os gigantes e demônios de “Pequeno Polegar”, “Gato de Botas” ou “Rumpelstiltskin”, e certamente os superam em vividez e domínio prolongado da imaginação: as crianças ficam mais impressionadas do que repugnadas com o lobo que engole Chapeuzinho Vermelho, ao passo que sentem aversão pela bruxa que engorda Joãozinho para comê-lo. Ele exercita a sedução da fera, ela cai sobre as chamas do forno provocando suspiros de alívio, ou até mesmo gritos de alegria. (1999:234)

A malignidade feminina6 está implantada no imaginário infantil através dessas figuras e tem provavelmente repercussões na vida adulta. É dela o poder autêntico, pois, normalmente, as demais personagens são sem expressão: as femininas, sentimentalmente açucaradas e as masculinas, banais. Mas, o interessante e paradoxal é que essas histórias são geralmente contadas às crianças por mulheres – mães, avós, babás, professoras – o que, de alguma forma, a legitima. Diz Warner:



(...) atribuir a mulheres testemunhos sobre erros e enganos femininos aumenta o valor desses testemunhos: pode ser previsível que os homens achem as mulheres frívolas, vorazes, egoístas, cruéis e libidinosas, mas se as mulheres dizem tais coisas sobre elas mesmas, então não restam dúvidas. O que algumas mulheres dizem contra outras pode ser proveitosamente voltado contra todas elas. (ibid., 242)
Assim como Mary Carmichael, as duas pequenas autoras quebram a ordem esperada e o efeito é um tanto desconcertante. As coisas não figuram mais nos lugares habituais. A primeira, no seu texto, Linda Flor e Rapunzel, subverte as narrativas infantis tradicionais, na medida em que expõe a possibilidade de o amor encontrar-se representado na ligação entre duas personagens femininas, e não entre uma personagem feminina e outra masculina. A mulher é vista em relação a outra mulher e não apenas em relação ao outro sexo. Note-se que a posição do homem como salvador e provedor, presentes em grande parte das histórias infantis, não é sequer referida, na realidade é ela transferida para a personagem feminina: Linda Flor é que salva a princesa e não um príncipe. É a solidariedade que aí está presente e não a rivalidade e a disputa em prol das benesses de algum príncipe.
No contexto dos contos de fadas, a seqüência discursiva “A Linda Flor ficou com pena da Rapunzel e aí ela arrumou um jeito de Rapunzel fugir com ela” coloca em jogo dois saberes: um advindo da memória discursiva que remete às qualidades femininas de compaixão e piedade e que pertence a uma FD mantenedora dos pressupostos hegemônicos e outro que com ela rompe, instalando um elemento estranho: a fuga de Rapunzel com Linda Flor. A expressão “arrumar um jeito”, isto é, encontrar uma solução ou uma saída para um problema pressupõe iniciativa, qualidade de quem sabe agir, ousar, prerrogativa masculina, materializada, nos contos de fadas, nas ações dos personagens masculinos, ou então, das bruxas.
Uma paráfrase possível para essa seqüência seria: A Linda Flor ficou com pena da Rapunzel e aí arrumou um jeito de salvá-la. Nessa outra forma de dizer, produz-se um outro efeito de sentido que, no entanto, pareceria muito próximo da ação dos príncipes dos contos tradicionais que normalmente salvam as princesas, ostentando seu poder e valentia. Mas não é esse o caso de fugir com ela. Fugir com ela significa uma ação conjunta e solidária que aponta para uma posição-sujeito dissidente da FD dominante, na medida em que não mantém os estereótipos de mulher; por outro lado, não assume também integralmente características tipicamente masculinas. Não se trata, pois, de uma simples inversão de papéis, em que a personagem passaria a usar prerrogativas masculinas a partir de sua internalização; trata-se, de fato, de uma transformação de práticas que se configuram dialeticamente como novas. É uma forma de subjetivação que não se reconhece mais a partir do olhar masculino, mas que (re) inventa para si práticas discursivas libertadoras. Talvez aqui pudéssemos falar do “terceiro espaço” (Bhabha,1996), lugar que introduz uma diferença que constitui a possibilidade de questionamento da identidade hegemônica.
É interessante observar que a mesma estrutura lingüística (verbo + preposição “com”) se repete no final da narrativa: “Rapunzel morou com Linda Flor”, reiterando a idéia de combinação ou união que vai desembocar na formulação final, chave de todos os contos de fadas tradicionais: “E foram felizes para sempre”. No entanto, embora o fecho da história seja essa sentença - e aqui o uso do termo sentença é proposital para sublinhar o caráter jurisdicional implicado na formulação - há um diferencial que aí se opera em função da hibridização da personagem Linda Flor, apontando para uma outra possibilidade de o feminino (se) significar nesse contexto. Assim, ao contrário das demais narrativas infantis observadas, não há uma repetição de sentidos construídos socialmente, mas novos sentidos que promovem a descontinuidade, pois o que era margem – as relações femininas - passa a ser centro. A misoginia dos contos de fadas é assim posta em xeque.
Na realidade, Linda Flor em nada lembra as personagens femininas das versões cristalizadas de Perrault e dos Irmãos Grimm, como a Cinderela, a Bela Adormecida, a Rapunzel, o Chapeuzinho Vermelho, etc. que são lindas, amáveis, dóceis, frágeis, ingênuas e dependentes. Observe-se que esses elementos constituintes do estereótipo feminino, quando ausentes em determinadas personagens femininas – as que tentam se impor pela inteligência, pela maldade, pela indelicadeza, etc. - acarretam-lhes conseqüências danosas, geralmente a morte. Com efeito, a linguagem dos contos de fadas, repetida ao longo do tempo, num processo sem fim, e que produz efeitos na vida e no cotidiano das pessoas, trabalhando para a naturalização de certas práticas ligadas ao masculino e feminino, é desconfigurada através de um ato performativo7 não institucionalizado, constituindo-se num acontecimento discursivo. Isso desestabiliza os finais previsíveis, desejáveis e “corretos” dos contos tradicionais.
Um processo similar ocorre no texto A volta de Linda Flor. Além de a personagem feminina ter atributos normalmente concedidos à figura masculina – ela é audaciosa, corajosa e livre, até enfrenta o leão, rei da floresta, símbolo do poder e da força, e a cobra, animal enigmático e imprevisível que simbolicamente representa o mal – a ela são atribuídas palavras que adquirem magia e conseguem fazer e desfazer a realidade – Sai leão! E o leão saiu cheio de medo. – Sai cobra! e a cobra saiu. Embora tal fato ocorra com freqüência nos contos infantis - é característico das personagens femininas usar artifícios mágicos, tendo na palavra a sua força: encantamentos, feitiçarias, enigmas, etc., ao contrário das personagens masculinas que lutam, atacam feras, empunham armas, etc. - no caso, remete a uma outra posição-sujeito que trabalha numa direção contrária a das coerções sociais que tolhem a conduta e os movimentos femininos.
Entretanto, talvez o mais importante nessa história seja dar visibilidade à divisão entre diferentes posições-sujeito, materializada nas seqüências discursivas: ... até que um dia Linda Flor percebeu que não precisava correr mundo ...; ... e então Linda Flor pensou muito e voltou a correr mundo mas teve uma dúvida: - Será que vale a pena?Eu acho que vale! No primeiro caso, aparentemente a negação gramatical suporta duas posições sujeito: de um lado, a que a impele ao espaço público, apontando para a rebelião; de outro, a que a mantém no espaço privado, historicamente destinado às mulheres, apontando para a submissão.
O processo, no entanto, parece ser mais dinâmico e não se esgota na dualidade: ficar no espaço privado ou deslocar-se para o espaço público. Há uma outra possibilidade de interpretação: “não precisar correr mundo” não implicaria necessariamente colocar-se numa posição de assujeitamento ao discurso hegemônico que apregoa que “lugar de mulher é em casa”. Não seria o “locus” físico que determinaria a sujeição, mas as relações e as práticas discursivas que o instituem enquanto tal. Poderia, então, tratar-se de uma forma de subjetivação respaldada na possibilidade de mudança das condições que provocaram a rebeldia; assim sendo, desaparecendo essas condições que consistiam em práticas coercitivas, causa da resistência do sujeito, desapareceria a necessidade de procura da liberdade fora do espaço doméstico.
Essa perspectiva de mudança das práticas discursivas coercitivas parece fundar as formulações seguintes: ... seus pais não eram os mesmos de antes agora so olhavam coisas diferentes sua mãe agora não dismaiava por causa de aranhas até tinha uma de estimação Os pais dela estavam diferentes ... Tal fato, entretanto, não a impediu de voltar a correr mundo, mas a tensionou, originando a dúvida apresentada na questão: – Será que vale a pena? Na realidade, cria-se um embate entre duas posições-sujeito: vale ou não a pena correr mundo, que é resolvido com a formulação final: Eu acho que vale!.
O posicionamento do sujeito entre uma ou outra possibilidade de subjetivar-se num tipo de atitude auto-reflexiva através dessa última formulação faz-se através do uso do pronome eu, única ocorrência na história – ela é toda narrada em terceira pessoa. Isso pode ser interpretado como um processo de identificação da autora com a personagem Linda Flor. A autora cede ao desejo e é por ele impelida a se apresentar no texto, nomeando-se eu. Ela não é algo, então, exterior ao texto, pois mostra-se no seu próprio interior, colocando-se exatamente no ponto de conflito entre duas posições-sujeito inscritas na dúvida da personagem – a de correr mundo (ou não). O pronome eu não é aqui uma simples categoria gramatical, mas um indicador evidente de uma posição-sujeito fortemente marcada. O eu estaria retratando a ousadia e rebeldia do sujeito, sua inconformidade com a forma-sujeito-mulher, imaginária e historicamente constituída, posicionando-se, então, quanto ao seu próprio dizer, e produzindo um movimento de descontinuidade no discurso hegemônico dos contos de fadas tradicionais. Essa narrativização do eu, mesmo forjada dentro de um processo ficcional, imaginário ou fantasmático, não diminui sua eficácia discursiva. A sensação de pertencimento a essa posição, mostra a historicização do sujeito que se pega, no próprio discurso, em pleno processo de mudança e transformação.
Para finalizar, retomam-se as questões colocadas inicialmente: que significados estão sendo construídos sobre a identidade de gênero nesse contexto institucional específico? O que está sendo formulado corresponde ao padrão e participa do processo de exclusão do diferente? Ou há indicadores de mudança no discurso infantil que poderiam apontar para a produção de novas identidades?
Pode-se dizer que as análises aqui apresentadas parecem indicar a formação de uma identidade ambígua, indefinida que desestabiliza a fixidez dos sentidos dados à feminidade e à masculinidade, expondo assim o artificialismo de sua criação. Na verdade, constituem-se em práticas discursivas que podem provocar o questionamento dos sentidos estabelecidos, mostrando que há outras possibilidades de o sujeito se significar. A escola deveria ser capaz de explorar esse movimento de transformação, reconhecendo aí o andamento de um processo de significação que evidencia o fato de a identidade não ser fixa, coerente e homogênea, mas instável, contraditória e heterogênea, mesmo porque, nesse espaço, os alunos convivem com a diferença de classe, raça, credo, etnia, idade, sexualidade e gênero.
Uma postura importante seria, a partir da discussão e da crítica sobre práticas discursivas diferenciadas, como as aqui apresentadas, refletir sobre a causa de preconceitos que excluem determinados grupos sociais, mostrando que, apesar de a natureza humana ter inúmeras formas (e legítimas) de se expressar, há processos ideológicos muito fortes, atuando em sentido contrário, isto é, na fixação e na segregação de identidades. Que processos são esses, como atuam e a que visam são questões que podem e devem se constituir em objeto de reflexão da prática escolar.

Referências Bibliográficas



BHABHA, Homi. O terceiro espaço. Revista do patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 24, 1996: 35-41.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
DERRIDA, Jacques. Limited Inc. Campinas: Papirus, 1991.
DERRIDA, Jacques & ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã ... Diálogo. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
ORLANDI, Eni. A linguagem e seu funcionamento. Campinas: Pontes, 1987.
PÊCHEUX, Michel. Discurso. Estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 1990.
SILVEIRA, Verli. O discurso sobre o gaúcho. Tese de doutorado. UFRGS, 2004.
WARNER, Marina. Da fera à loira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


1 O corpus empírico está sendo coletado pelos bolsistas de iniciação científica (PIBIC-UCPEL): Cristina Zanella e Gregory W. Costa. Os procedimentos adotados na coleta são os seguintes: aplicação de um questionário sobre o tipo de leitura que as crianças fazem e suas preferências; relato da história Rapunzel dos Irmãos Grimm e respostas escritas a duas questões: o que você faria se fosse Rapunzel e o que faria se fosse o príncipe?; relato da história Procurando Firme de Ruth Rocha e respostas escritas à questão: se fosse a princesa que atitude você tomaria?; e, por último, a gravação das atividades do RPG – Role-Playing Game -, envolvendo quatro jogadores sorteados.. O RPG é uma forma diferente de contar histórias, pois os participantes (os jogadores) criam e controlam as personagens da história e decidem suas ações. Existe um jogador especial que é escolhido para ser o “Mestre do Jogo” ou “Narrador”. Sua atribuição é contar a história e controlar todos os ouros personagens que não pertencem aos jogadores, geralmente personagens secundários. Participam dessas atividades alunos, na faixa etária de 7 a 9 anos, de duas escolas (uma pública e outra particular) da cidade de Pelotas/RS.

2 Pêcheux diz que esse “mundo semanticamente normal”, isto é normatizado, começa com a relação de cada um com seu próprio corpo e seus arredores imediatos (e antes de tudo com a distribuição de bons e maus objetos, arcaicamente figurados pela disjunção entre alimento e excremento) (1990: 34).

3 A pretensão primeira deste trabalho era centralizar mais o estudo nas produções orais das crianças, colhidas a partir do RPG. No entanto, ocorreram problemas técnicos na gravação do RPG que inviabilizaram a proposta inicial. Por ora, a reflexão focalizará as demais produções escritas das crianças.

4 As produções escritas das crianças assim como os textos que lhes serviram de mote situam-se no domínio ficcional. Trata-se, então, de analisar as posições-sujeito a partir de personagens e não de seres reais em situações reais. Na realidade, as personagens em jogo – masculinas e femininas – posicionam-se de alguma forma, ou pelo menos, representam posições ideológicas relacionadas a determinadas FD. Concordo com Silveira (2004), quando diz, referindo-se ao fato de o sujeito ser representado, no discurso literário, como alguém que se posiciona e, como tal, inscrito numa FD que isso é um efeito produzido pelo autor, cuja desconstrução, no entanto, poderá nos levar a compreender as relações que existem entre as diferentes representações de subjetividade. No caso deste trabalho, a desconstrução poderá auxiliar a entender as representações do feminino e masculino que se constituem imaginária e historicamente.

5 Este ensaio foi publicado em 1929 e originou-se de anotações feitas pela autora, quando organizava duas conferências para mulheres em estabelecimentos de ensino em Cambridge.

6 Essa malignidade da mulher não faz parte de sua natureza e pode ser explicada historicamente. Na realidade, o que os contos relatam não são invenções fantásticas criadas pela psique humana, mas experiências fundadas na história social, legal e econômica do casamento e da família. São tensões e inseguranças derivadas do contexto histórico das relações familiares e dizem respeito à situação de dependência econômica da mulher. Assim, por exemplo, a representação da sogra ou madrasta tirana poderia estar escondendo sua vulnerabilidade, pois tinha ela de lutar pela sua subsistência no ambiente doméstico. Suas ações dissociadas das circunstâncias que lhe deram origem criam arquétipos perigosos, cujo efeito é extremamente danoso, perpetuando e disseminando, no caso, a concepção de que o mal e a perversidade, base da dissensão e rivalidade femininas, são intrínsecos à sua natureza. (cf. Warner, ibid.)

7 O termo “performativo” aqui está sendo usado como “construção dramática e contingente do sentido”. (cf. Butler, 2003: 199)


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