Real e Instituição – desejo de analista1 Maria Lia Avelar da Fonte



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Real e Instituição – desejo de analista1

Maria Lia Avelar da Fonte2

A tentativa de compreender os efeitos do Real na Instituição Psicanalítica coloca-nos frente a dificuldades, pelo fato de que sobre o Real propriamente dito, nada pode ser dito. Seu caráter inefável, incognoscível e impossível escapa ao intento de representação.

Na prática clínica partimos do simbólico em direção ao real, pela via do imaginário para fazer furos no real. Não no real impossível porque dele podemos apenas nos aproximar e circunscrever seu núcleo, mas na vertente imaginária do real, passível de simbolização.

Nesse trabalho, pretendemos seguir rumo ao real na esperança de entender um pouco mais sobre os seus efeitos e desdobramentos na comunidade psicanalítica.


Retornando a Freud:
Em 1902 Freud funda a famosa Sociedade Psicanalítica das Quartas-Feiras, constituída por médicos vienenses em torno de seu fundador, grupo que mais tarde se transforma na Sociedade Psicanalítica de Viena.

O mestre vienense entendia que essa sociedade era potencialmente capaz de provocar a ressonância da psicanálise que ele tanto desejava. Sua expectativa era obter o reconhecimento da prática psicanalítica, de suas publicações, especialmente de seu livro sobre a Interpretação dos Sonhos lançado naquela época.

No princípio, a Sociedade era bem reduzida, mas, todos estavam motivados e animados com esse movimento. As primeiras sessões do grupo foram inspiradoras: segundo relato de um dos participantes: “havia completa harmonia, nenhuma divergência; éramos como pioneiros numa terra recém - descoberta, e Freud era o líder. Parecia saltar uma faísca de um cérebro para o outro, e todas as noites eram como uma revelação". As divergências e dissensões estavam certamente reservadas ao futuro.
O pequeno círculo logo se ampliou e cada vez mais aumentava o número de pessoas que vinham de outras cidades para conhecer Freud e participar das reuniões.

Entre eles, Carl G. Jung psiquiatra suíço em quem Freud depositou suas esperanças quanto ao futuro da Psicanálise. Para ele, Jung representava a garantia da sobrevivência da Psicanálise após a sua morte. A perspectiva de um respeitável propagandista no exterior e o fato de ser jovem e não-judeu contribuiu para que Freud demorasse a perceber as reservas com as quais o príncipe herdeiro tratava questões fundamentais da teoria psicanalítica.

Desde o início, Jung hesitava em concordar com a eficácia da psicanálise e não atribuía grande importância à sexualidade infantil na etiologia das neuroses. Tempos depois, Freud revela que naquela época não tinha a menor ideia de que, apesar de todas as vantagens que Jung representava, sua escolha fora a mais infeliz possível. Ele chega a afirmar que havia escolhido “uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade de outra ou de exercê-la, ele próprio, com energias voltadas inteiramente para a promoção de seus próprios interesses pessoais.”.

A exaltação inicial no grupo em pouco tempo tornou-se sufocante: as reuniões tornaram-se agressivas, acerbadas, com participantes cada vez mais hostis e irritados. A rivalidade tomo conta da cena, com disputa pelas posições de destaque e ostentação da originalidade de suas descobertas. Poucos anos depois, surgem os efeitos da resistência à psicanálise, a veemência inicial dá lugar à falta de profundidade teórico-clínica repercussões no avanço da psicanálise.

Para contornar a situação, Freud dissolve o grupo inicial para escapar da informalidade que prevalecia no grupo, reconstituindo-o como sociedade. Com isso ele almejava a renúncia dos que haviam perdido o interesse ou, que não partilhavam de suas ideias.

Tendo em vista o fortalecimento da psicanálise, Freud funda a Associação Psicanalítica Internacional com sede estabelecida em Zurique e Jung na presidência. Desse modo, ele retira-se para o segundo plano, fazendo o mesmo com Viena, cidade berço da Psicanálise.

Carl G. Jung foi o psiquiatra suíço, em quem Freud depositou suas esperanças quanto ao futuro da Psicanálise. Para ele, Jung representava a garantia da sobrevivência da Psicanálise após a sua morte. A perspectiva de um respeitável propagandista no exterior e o fato de ser jovem e não-judeu contribuiu para que Freud demorasse a perceber as reservas com as quais o príncipe herdeiro tratava questões fundamentais da teoria psicanalítica.

Desde o início, Jung hesitava em concordar com a eficácia da psicanálise e não atribuía grande importância à sexualidade infantil na etiologia das neuroses. Tempos depois, Freud revela que naquela época não tinha a menor ideia de que, apesar de todas as vantagens que Jung representava, sua escolha fora a mais infeliz possível. Ele chega a afirmar que havia escolhido “uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade de outra ou de exercê-la, ele próprio, com energias voltadas inteiramente para a promoção de seus próprios interesses pessoais.”

A expansão do movimento caracteriza-se por dissidências, querelas pessoais e divergências em relação a questões teóricas e técnicas tais como: a duração do tratamento, a transferência e contratransferência, a sexualidade e a própria definição do conceito de inconsciente.

A preocupação de Freud frente às desavenças, a saída de Adler da sociedade e os problemas com Jung culminam dois anos após, com um novo rompimento. Para enfrentar os obstáculos e ameaças, cria-se um comitê clandestino, denominado Comitê dos Sete Anéis - uma pequena organização em torno do líder, uma espécie de guarda de confiança da psicanálise. Os membros desse comitê deveriam trocar ideias, veicular notícias e discutir na mais estrita privacidade qualquer desvio imposto aos princípios freudianos, principalmente, o recalque, o inconsciente ou a sexualidade infantil.

Longe de evitar dissidências, a iniciativa favorece novas querelas e funciona por alguns anos apenas e os rompimentos em grupos transformam a Psicanálise num movimento de massa.

Mais tarde, isolado em Viena, mas célebre no mundo inteiro, Freud prossegue a construção de sua doutrina, mas sem conseguir controlar a política de seu movimento.

Observamos, portanto, desde os primórdios da Psicanálise, a existência das mais diversas expressões de rivalidade e luta de poder entre analistas. Esses acontecimentos se estendem até os dias atuais e apontam para um movimento destrutivo, expressão da compulsão à repetição relacionada à pulsão de morte.

Os impasses entre analistas produzem efeitos de esterilização na clínica e na teoria, assim como o fechamento da instituição psicanalítica sobre si mesma.

O próprio Freud se pergunta – “por que as instituições que nós mesmos edificamos não nos dispensam proteção e benefícios? Se refletirmos sobre o deplorável fracasso, nesse campo, precisamente das nossas medidas de preservação contra o sofrimento, começamos a suspeitar de que aqui ainda se dissimula alguma lei da natureza invencível, e que desta vez se trata da nossa própria constituição psíquica”.

Freud utiliza o mito simbólico do pai primevo para explicar o advento da cultura nas comunidades primitivas. O pai violento e ciumento guardava para si todas as mulheres, privando e expulsando os filhos da tribo à medida que eles cresciam. Um dia os filhos retornam, assassinam e devoram o pai, colocando fim à horda patriarcal. Mas esse pai, temido e odiado, por representar obstáculo aos seus anseios de poder e desejos sexuais, foi também um pai amado e admirado por cada um deles. Ao devorá-lo, na refeição totêmica, eles pretendiam assimilar seus atributos por meio da identificação incorporativa.

Esse é o primeiro tipo de identificação - identificação ao pai, referida a uma transformação simbólica, fundamentada no gozo da devoração de um pai violento.

Determina-se, através dessa experiência, a culpa e o remorso diante da falta do pai ausente porque assassinado e devorado.

O mito freudiano da horda primeva só adquire seu valor simbólico e estruturante, na medida em que estabelece como consequência, a potencialidade de uma subjetividade que faz referência à lei e a prevalência significante, às quais o sujeito estará a partir de então, submetido.

A proibição da morte do totem e a renúncia à posse das mulheres do clã, instaurada pela culpa promovem o advento da Lei e suas consequências: a metáfora paterna e sua função significante, o Nome-do-Pai.

O funcionamento institucional porta um caráter paradoxal. A instituição se apresenta como lugar relativamente pacificado sob a égide de normas interiorizadas, com pactos e acordos entre os pares para levar adiante um projeto coletivo. A instituição propõe-se a encarnar o bem comum e a favorecer a manifestação das pulsões sob a condição de que sejam metaforizadas em desejos socialmente aceitáveis.

Por outro lado, a instituição não consegue impedir a emergência da sua marca original, a partir do qual foi possível se constituir: a violência fundadora. “Ato memorável e criminoso, ponto de partida das organizações sociais, das restrições morais e da religião”.

O estabelecimento da lei promove a renúncia da satisfação pulsional, mas é também capaz de reacender o combate e o desejo de transgressão. Trata-se de uma ameaça constante que visa romper a barreira instituída pela necessidade de consenso. Esse movimento aponta para a insuficiência do pai para barrar o gozo em sua totalidade.

O sofrimento institucional surge em consequência das restrições, das imposições, das desilusões enfim, dos sacrifícios inerentes ao sujeito no seio da civilização. A renúncia pulsional é a condição essencial para a edificação da comunidade civilizada.

A fundação de uma instituição comporta um contrato narcísico e um pacto denegatório. O contrato narcísico fundamenta-se no que é transmitido de uma geração a outra e participa da manutenção e desenvolvimento das sociedades vigentes. Reflete o investimento narcísico dos pais junto filho, ao qual atribuem todas as perfeições e privilégios que um dia esses foram obrigados a abandonar. O pacto narcísico exige que cada sujeito assuma o lugar lhe é oferecido no grupo e reproduza um discurso, expresso pelo conjunto de vozes que o antecederam, em conformidade com o mito de seu fundador. É aí que reside a articulação da fundação de um grupo com a morte.

O pacto denegatório, por sua vez, conduz ao desconhecimento de tudo aquilo que questiona e ameaça a manutenção dos vínculos institucionais. A busca de concórdia instala a negação da violência, faz calar as diferenças, de forma a impedir que a enunciação do desejo possa emergir.

As instituições fundam-se também no que se encontra aquém do recalque, ou seja, no irrepresentável, no silêncio radical originário dos elos perdidos da cadeia de representações. O silêncio emana da impossibilidade de se esgotar o indizível de nossa história e, sobretudo de nossa origem e é isso o que o mito tenta saturar. Trata-se de uma vertente pulsional denominada e conceitualizada por Freud como pulsão de morte. Uma força invisível, silenciosa, fora da representação e do aparelho psíquico, situada além do princípio do prazer, reconhecida como a pulsão por excelência, implica na pura dispersão, pura potência dispersa. Freud elabora o conceito de pulsão de morte a partir da observação da compulsão à repetição, abrindo espaço no campo analítico ao caos e ao acaso, e suas repercussões na prática da Psicanálise. A repetição inerente à pulsão de morte visa reeditar uma satisfação primeira e é nessa impossibilidade que reside sua dimensão de Real.

Em toda instituição incide também a presença de Eros: Deus do Amor, possuidor de uma força fundamental do mundo. É ele quem assegura a continuidade das espécies e a coesão interna do Cosmo. Eros tende a preservar a formar unidades cada vez maiores e mais indiferenciadas. Eros enuncia o “Há Um”, constitutivo do que no ser falante vem em suplência à impossibilidade da relação sexual.

O entrelaçamento e a ação conjunta dos dois grupos pulsionais: a pulsão de vida/pulsão de morte propicia o aparecimento das manifestações de vida e seus desdobramentos.

Nas instituições ocorrem fenômenos que evidenciam a hierarquia dominante produzida por efeitos imaginários oriundos de relações espelhadas num líder. Em certas análises há o predomínio desse engodo, que serve de fio condutor na direção de um tratamento. Aí reside um dos pontos mais rebatidos por Lacan em seu ensino: a identificação ao eu do analista concebida como indicadora do fim de análise.

Lacan diz que é a partir da primazia do significante que conceberemos um final de análise, confrontado aos limites impostos pelo Real e pela experiência da castração. Ele concebe o fim de análise, em termos de atravessamento do fantasma e do redirecionamento do gozo pulsional. A maneira como cada analista conclui a sua análise repercute no modo como ele faz laço social e contribui para: constituir a comunidade analítica, conduzir uma cura e elaborar as suas produções.

Apesar dos paradoxos e dificuldades inerentes ao campo institucional, é impossível sustentarmo-nos se enquanto analista de uma prática isolada. A instituição se articula como um quarto elemento que se associa ao tríplice aspecto na formação de analistas: análise pessoal, prática clínica supervisionada, estudos teóricos e produções para a transmissão da psicanálise.

O excesso de exigências burocráticas, excesso regras no funcionamento, homenagens e privilégio aos mestres parecem vir interrogar a morte do pai e a sua simbolização. Se o pai está morto, o que retorna enquanto pulsão de morte para afetar a experiência institucional? A relação destrutiva entre os pares poderia ser considerada como um modo de tentar ressuscitar esse pai? Quando o pai não está morto simbolicamente surge a possibilidade de ser transgredido?

O mito da horda mostra que o mesmo ritual festivo, em que os filhos pranteiam e se cultua a morte do totem, expressa também o desejo deles em ocupar seu lugar.

O texto freudiano Totem e Tabu trata da subsistência do pai: para que ele permaneça é preciso que o verdadeiro pai, único e singular, esteja morto, mesmo antes do surgimento da história. Mais do que isso ainda, ele precisa ter sido assassinado. É pela antecipação dessa morte que os filhos interditam a si mesmos.

A essência desse drama reside numa noção estritamente mítica. Representa o impossível e até mesmo o impensável: a eternização de um pai na origem, cuja característica consiste em ter sido morto.

Na Instituição, os efeitos imaginários se superpõem e os fenômenos grupais se ampliam na tentativa de apagamento da Lei. Poderíamos pensar a partir dessa ideia que o apelo excessivo às regras e burocracias poderia ser entendido como uma convocação em suplência ao significante paterno?

Na proposição de nove de outubro de 1967, Lacan fala sobre o psicanalista da Escola, e ressalta a presença de um Real em jogo na formação do analista. Segundo ele, “as sociedades psicanalíticas se fundam nesse Real, provocando o seu próprio desconhecimento e produzindo sua negação sistemática.”

Em vários de seus escritos, Lacan mostra a impossibilidade de se manter uma prática que se reduza ao exercício de um poder. Na Psicanálise, o analisante pela via da transferência coloca o analista no lugar de sujeito suposto saber. O analista, no entanto, só pode lhe responder como semblante do objeto a, objeto causa de desejo. Desse modo, privilegia a ética da psicanálise, a ética do desejo, própria a essa experiência singular. Nesse lugar deve prevalecer o desejo do analista para análise prossiga e o sujeito continue a falar.

Articulando a experiência da análise à prática institucional, observamos que as transferências que a permeiam a instituição podem favorecer, quando não elaboradas, a prevalência de um exercício de poder que fere os princípios psicanalíticos. Isso nos leva a questionar as bases sobre as quais estão assentadas os nossos laços sociais no âmbito institucional.

Na intenção de preservar a fidelidade de suas ideias e assegurar a transmissão de sua teoria e dos princípios de sua prática clínica, Freud assumiu o risco de fundar uma instituição, antes mesmo de elaborar as noções que seriam essenciais para entender o funcionamento grupal, tal como desenvolveu em seu texto sobre a Psicologia das massas e análise do eu.

Neste texto, ele estudou fenômenos grupais de efeitos imaginários que considerou negativos para o funcionamento institucional. Chegou a pensar que se houvesse feito essa elaboração antes da fundação de sua sociedade, estaria mais atento e advertido sobre a natureza dos vínculos de massa que deram origem aos conflitos e impasses tentaram ferir o caráter magnífico e subversivo da descoberta freudiana.

Só depois, Freud pôde reconhecer os desvios operados em sua doutrina como consequência de uma hierarquia dominante, com efeitos imaginários provenientes das relações espelhadas no líder.

Diante nos paradoxos impostos pelo real na instituição, alguns acordos simbólicos e renúncias pulsionais tornam-se essenciais para manter a ética da psicanálise, o desejo e o compromisso de cada analista com a transmissão da psicanálise. Nesse sentido, a produção e o depoimento dos analistas para tentar prestar conta de sua prática aos seus pares, torna-se um fundamento essencial.

É dessa forma que penso situar-se o desejo de analista em relação ao impossível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Gay, P. Uma vida pra o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Freud, S. (1913) Totem e tabu. ESB. Obras Psicológicas Completas, vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1985.

________. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. ESB. Obras Psicológicas Completas, vol. XVIII. Rio de janeiro: Imago, 1985.

________. (1920) Além do Princípio de Prazer. ESB. Obras Psicológicas Completas, vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1985.

Lacan, J. (1958) A direção da cura e os princípios de seu poder. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

________. (1967) A proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Novos Escritos. Rio de janeiro: Zahar, 2003.




1 Trabalho apresentado na V Jornada Freud – lacaniana. Recife, 2000. Publicado nos Anais da V Jornada Freud – lacaniana. Recife, 2001.

2 Médica, psicanalista, membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil/PE. E-Mail: liadafonte@gmail.com



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