Real e virtual



Baixar 14.19 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho14.19 Kb.

Real e virtual


A relação entre “virtual” e “real” pode eventualmente prestar-se a equívocos. Em razão do apelo espontâneo que exercem o vocábulo “real” e seus cognatos, corre-se o risco de uma oposição indevida, fincada em terreno impróprio. É assim que, por vezes, a contraposição entre ambos é assinalada como se fora da ordem do objeto, e não, como deveria ser, a partir da idéia de movimento. Pois não se trata de dois objetos, o “virtual” e o “real”, como se se tratasse de um, que seria não-existente, e de outro, o único a existir. Nesse sentido, e por mais inovador tenha sido o surgimento da informática, a oposição entre esses modos de ser do mesmo objeto, o “virtual” e o “real”, ela é bem conhecida, remontando, com efeito, à distinção aristotélica entre potência e ato, muita vez repisada ao longo da história da filosofia.

As relações de toda espécie que têm lugar via Internet ou tudo a que se tem acesso via rede está também à disposição na realidade, por assim dizer, “concreta”. Pessoas, livros e bibliotecas, informações de toda ordem, produtos, lojas, instituições. O que inicialmente distingue o virtual do real não é, portanto, a alteridade daquilo a que se tem acesso, mas a qualidade da abordagem que se pode fazer do mesmo objeto nas duas instâncias. Conseqüentemente, a alteridade no processo de abordagem não compromete a identidade do objeto.

Será essa, talvez, uma razão “teórica” para explicar a familiaridade que sentimos em relação ao mundo virtual. Tudo o que fazíamos (além de outras tantas coisas já antes mais ou menos desejadas) continuamos ainda a fazer ou passamos agora a executar, em ambos os casos com uma facilidade de acesso cada vez maior. Dessa proximidade, resulta o fato de a Internet, considerada em função de sua eficácia, ser “medida” pelo que já é conhecido. Sua identidade resulta à primeira vista de uma simples comparação, pois o real que ela supera mantém-se ainda presente, seja como padrão de referência, seja como “substância” do que, afinal, é apreendido. É assim que dizemos da maior rapidez, maior eficácia, confiabilidade e resguardo, tendo sempre memória do que, de menor rapidez, menor eficácia, confiabilidade e resguardo, é ainda, contudo, a razão da simpatia que nos une à rede.

Continuamos então a nos corresponder uns com os outros, a comprar e a vender, consultar, visitar etc. Acesso real e acesso virtual resumem-se a modalidades diferentes pelas quais permanecemos em contato com o mundo de sempre.

Se compro um carro através da rede ou se o escolho na concessionária, num caso como noutro tenho sempre o mesmo produto. Se vou a uma agência de turismo ou se compro o bilhete aéreo conectando-me ao portal da empresa, o resultado é idêntico, por mais que, in loco, eu multiplique as formas de acesso ao objeto de meu interesse. Já não se pode, no entanto, equiparar uma visita virtual a um museu com aquela pela qual de fato estaríamos lá. Nesse caso, ela só pode ser comparada ao contato que faríamos por fotografias, slides, catálogos. Da mesma forma, namoro ou sexo via rede não são diretamente comparáveis aos seus correspondentes reais. No caso do sexo, pode-se equiparar a fonte do desfrute virtual àquela obtida de imagens publicadas em jornais ou revistas, projetadas em filmes ou slides. No caso do namoro (como em geral ocorre), quando não se trata de uma simples etapa (mais confiável e reservada) de verificação das possibilidades em jogo, torna-se uma dentre as tantas modalidades epistolares, eletrônicas ou impressas.

Trata-se aí, porém, nos exemplos citados (ao menos no caso do carro e no do bilhete aéreo), de “objetos” cuja relação com o sujeito que os apreende é efetivamente consumada, se e somente se ele os possuir no modo real. Já no caso do namoro ou do sexo, o sujeito ou os sujeitos da relação podem dar-se por saciados, ou por momentaneamente satisfeitos, sem o apelo à realidade “concreta”, ou justo pelo fato de ela não se fazer presente.

Mas o que será então o virtual? Somente uma espécie de duplo fraco do real ou terá ele uma identidade objetual própria? Ao que parece, ele pode apresentar-se de três diferentes maneiras: produtos ou serviços inteiramente acabados e à disposição no formato eletrônico; produtos ou serviços que são iniciados via rede, necessitando da modalidade real para serem completamente usufruídos; produtos ou serviços meramente indicados (numa espécie de out door eletrônico), cujo acesso permanece circunscrito à forma tradicional. No segundo e no terceiro casos, a expressão “realidade virtual” designa não propriamente o modo de ser real da virtualidade, mas o modo de ser virtual da realidade concreta. Já quando se trata de produtos ou serviços inteiramente acabados e à disposição no formato eletrônico, a mesma expressão se refere agora a um outro tipo de realidade. Nesse caso, o virtual será um “real” à parte, cuja identidade não se restringirá inteira à do propriamente real, nem, por outro lado, aos sentidos aristotélicos tradicionais de potência e ato. Conseqüentemente, assim como a realidade do real não se esgota em sua simples materialidade (pois ela se desdobra num feixe de significações e sentidos), a realidade do virtual não se limita à posse de uma materialidade alusiva (prescindindo dessa matéria derradeira, sua objetualidade é apreendida em si mesma).

Mas o mundo da virtualidade, virtual em si, é sempre realizado pela ação do homem. Toda vez em que alguém o acessa, ele se torna instantaneamente real. Essa realidade “fraca”, limitada por ação externa que a realiza, obriga o homem, em contrapartida, a uma dependência que lhe ilude e lhe dá um falso poder: o poder de fazer o virtual tornar-se real. Sempre que for acionado um computador e por ele acessar-se o mundo virtual, o operador desse cosmos de artifício será então especialmente poderoso, pois é autônomo para fazer com que o universo à sua frente seja ou deixe de ser. Mas para novamente suspendê-lo (pois nunca é aniquilado), precisará antes fazê-lo outra vez existir. Menos do que interferir no virtual, portanto, o homem simplesmente modulará seu próprio estado, alternando-se em ora mais ora menos próximo de cada uma daquelas instâncias de realidade.

A identidade do virtual, conceitualmente insuficiente em sua materialidade secundária, resulta real, influente, determinante nos efeitos – reais – que acarreta. Tomando de empréstimo (ou de assalto) a realidade real e forte, o virtual em pouco tempo a ultrapassa, mantendo-a, no entanto, atrelada a si. Levado inteiro e simultaneamente aos quatro cantos (ou movimentando-se e permanecendo imóvel), o mundo real enfim se consuma como o que é sempre inteiro em toda parte. A onipresença da mais simplória home page é razão suficiente do poder do virtual. E o homem, que levando é levado junto, se enclausura num “claustro” fascinante e arredio, espetacular e provisório, sem que dele resulte necessariamente crítica ou reflexão. Na verdade, sem responder por si (pois não é responsável por coisa alguma, virtual que permanece), a rede permite verificar (e também desenvolver) a ultramercantilização generalizada existente – e, em primeiro lugar, a do próprio homem, tanto maior em razão do aparente domínio que ele exerce sobre um mundo reduzido a imagens. Se tudo o que é visto pode em geral ser também apreendido por ao menos um dos demais sentidos, com o advento da informática, menos do que anulados pela pretensa superioridade funcional da visão, o olfato, a audição, o tato e o paladar são preteridos pela “objetualidade” do virtual. Em verdade, só momentaneamente preteridos, mas nunca excluídos, pois que os quatro outros sentidos vão aos poucos sendo incorporados a essa sorte de “sensibilidade virtual”, como se à “nova economia” devesse corresponder uma “nova sensibilidade”.

Decerto que não se está a propor – pois inócua e ridícula seria a bravata – um retorno aos sinais de fumaça, como ao tílburi ou ao estado de natureza descrito por Rousseau. Mas, assim como é sadio e prazeroso caminhar, deleitando-se às vezes com o movimento das próprias idéias – suposto que se as tenha –, será preciso ir em frente sem esquecer da reflexão, a espiadinha decisiva que amortece a ilusão do impacto – afinal, qual o valor dos gigabytes diante dos múltiplos sentidos do ser?...



A rede é sedutora, ou seja, desvia e oculta. Como certas criaturas, é plena de garbo, mas tem pouca façanha – ao menos para os que nos ocupamos com os meandros do conceito.




©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal