Reciclando as adversidades



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RECICLANDO AS ADVERSIDADES

A possibilidade de reciclar os olhares da realidade de adolescentes, catadores de material reciclável, através de suas imagens arquetípicas



Prece do Carrinheiro


Senhor Jesus,

Ao acordar nas manhãs chuvosas ou ensolaradas, que eu jamais me esqueça da infinita bondade de nosso pai criador do universo.

Ao sair do meu pobre lar, que eu possa cantar a alegria de viver, pronunciando um ‘pai nosso’, a doce melodia que você trouxe do céu.

Nas ruas, arrastando meu carrinho, que a revolta não tome conta do meu coração, lembrando daqueles que não possuem carrinho, nem saúde, para a conquista digna do pão de cada dia.

Diante da incompreensão dos outros, que o suor do meu rosto seja a mensagem do exemplo silencioso, ao invés da revolta que leva o suicídio pelos vícios, confiante na justiça divina, não cairei nas tentações do mal, por guardar no coração a certeza de que o reino dos céus pertence aos bons, aos humildes, aos que servem honestamente na busca de um mundo melhor.

Sei que os meus esforços e sofrimentos pagam os meus erros e pecados do passado e serei recompensado por continuar até o fim dessa vida, na prática do bem. Por isso, Jesus, você nos falou das ‘muitas moradas da casa do pai’, onde os justos viverão felizes.

Em suas mãos amorosas, entrego confiante meu destino. Em sua luz, andarei pelos vales de sombra e tristeza desse mundo, sem medo, porque você é meu pastor e me conduzirá pelos caminhos da salvação.”


Autoria: irmão carrinheiro

Quem quiser sondar a alma, não pode confundi-la com o seu consciente, senão acabará ocultando o objeto da pesquisa a seus próprios olhos...No domínio psíquico, como na experiência geral, realidade são fatores eficazes. Não importa quais os nomes que o homem lhes dê. O importante é entender essas realidades como tais, dentro da medida do possível.”

(Jung, 2004)
ÍNDICE

LISTA DE FIGURAS I

RESUMO II

ABSTRACT III
1 O PRINCÍPIO E O FIM DE TUDO 1
2 ADOLESCÊNCIA E VULNERABILIDADES 13
3 UMA LEITURA POSSÍVEL DAS PRÁTICAS 6

3.1 O ARQUÉTIPO DO BODE EXPIATÓRIO 7

3.2 O ARQUÉTIPO DO HERÓI 7

3.3 A VIVÊNCIA DO ARQUÉTIPO NO CORPO 10

3.4 O ARQUÉTIPO DO RENASCIMENTO 10



4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 6

REFERÊNCIAS 6


LISTA DE FIGURAS

Figura-1 Semear os sonhos 1

Figura-2 Identificação com a sombra 1

RESUMO

Este trabalho parte de uma dissertação de mestrado, realizado no Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, sob a orientação da Dr.ª Mara Lucia Cordeiro. Aborda aspectos da realidade de uma amostra de adolescentes catadores de materiais recicláveis do município de Curitiba e região. Tem como objetivo conhecer algumas das dimensões arquetípicas vividas por essa população. Entre elas estão: o processo de construção da consciência, o lugar que o lixo ocupa na vida desses indivíduos e o papel que os mesmos exercem em nossa sociedade. E, por fim, o mito do renascimento, como possibilidade de reciclar internamente suas adversidades, fazendo um paralelo com a resiliência.


Palavras- chave: adolescência, reciclagem e imagens arquetípicas




  1. O PRINCÍPIO E O FIM DE TUDO – NOSSO INCONSCIENTE

Jung (1999) em 1928, já colocava que nossa humanidade havia chegado ao mais alto grau de consciência possível de ser atingido. E esse processo trazia consequências: a consciência, desenvolvendo-se de forma unilateral, deixou para trás um “resto” de material psíquico. Esse corresponde a uma massa confusa de conteúdos arcaicos e indiferenciados, os quais não se manifestam unicamente nas psicoses e neuroses, mas constituem, também, o “esqueleto no armário” de inúmeras pessoas que não sofrem de patologia propriamente dita. A parte desse material dá-se o nome de inconsciente. Jung (1999) acrescenta:


Já estamos de tal forma habituados a que todo mundo tenha suas dificuldades e problemas, que os aceitamos como uma coisa banal, sem nos preocuparmos em saber no fundo o que significam estas dificuldades. Porque nunca estamos satisfeitos? Por que não agimos com bom senso? Por que não fazemos só o bem e temos de deixar sempre um canto para o mal? Porque ora falamos demais, ora de menos? Por que fazemos bobagens que poderiam ser evitadas se parássemos um pouco para pensar? (Jung, 1999, p.503)
O inconsciente nos pertence, ele está e age em nós, independente de nossa vontade. Em contrapartida, ao negar sua existência, muitas das atividades vitais ficam paralisadas, seja por deveres negligenciados ou por tarefas eternamente proteladas. Assim, uma determinada quantidade de energia, que não tem mais utilização no consciente, reflui para o inconsciente onde vai ativar conteúdos compensatórios, e isso com tal intensidade que começa a exercer uma ação coercitiva sobre o consciente.

Indo além desse inconsciente pessoal, Jung (2007) propõe a força, a complexidade e profundidade do inconsciente, dizendo que “o inconsciente é a natureza, e a natureza nunca mente. Lá está o ouro, a coisa preciosa, o grande valor” (Jung, 2007, p.375). Para Boechat (2008), isso significa que as questões fundamentais e básicas da existência humana não encontram respostas no campo racional, no qual se é regido por um pensamento dirigido ou adaptativo e linear, onde o ego se mostra com seu “pensamento apolíneo” de adaptação à realidade externa (Boechat, 2006, p.3). Trata-se de uma vivência simbólica, através de imagens, que são a linguagem da alma e dos símbolos, que são a chave para compreensão dessas imagens. É um pensamento circular, onírico ou mitológico, operando pelo mecanismo associativo de imagens mitológicas.

Por isso, os mitos representam “estórias simbólicas que se desdobram em imagens significativas, que tratam das verdades dos homens de todos os tempos” (Boechat, 2008, p.21). Logo, os mitos estão presentes na subjetividade, num “interior povoado, como personagens vivos, internos e deuses” (Boechat, 2006, p.6). Esse autor acrescenta a importância de cada pessoa descobrir seu mito pessoal para compreender seu papel no mundo e seu destino.

Portanto, segundo Boechat (2006) essa “força” do inconsciente é a presença do mito, que comprova a existência do inconsciente coletivo, já que fornece uma perspectiva simbólica a partir da qual pode compreender uma realidade (ou um sintoma) com um sentido maior. Nota-se que esse entendimento vai a favor do proposto por Jung (2007), onde este propõe que o inconsciente contém os grandes fatos coletivos dos tempos.


No inconsciente coletivo do indivíduo a própria história se prepara, e quando alguns arquétipos são ativados num certo número de indivíduos, chegando à superfície, encontramo-nos no meio da corrente histórica, como acontece agora com o mundo. A imagem arquetípica que o momento necessita ganha vida e todo o mundo é tomado por ela. É o que vemos hoje. Eu já pressentira esse fato em 1918, quando disse que a ‘besta loura está mexendo em seu sono’ e alguma coisa iria acontecer na Alemanha. Naquela época nenhum psicólogo entendeu o que eu queria dizer, pois não entendiam que nossa psicologia individual não passa de uma pele bem fina, uma pequena onda sobre o oceano de psicologia coletiva. O fator poderoso, aquele que muda nossa vida por completo, que muda a superfície do mundo conhecido, que faz a história, é a psicologia coletiva que se move de acordo com as leis totalmente diferentes daquelas que regem nossa consciência. Os arquétipos são a grande força decisiva e produzem os fatos e não os nossos raciocínios pessoais e a nossa inteligência prática. Antes da Grande Guerra todas as pessoas inteligentes diziam: ‘Não podemos ter mais guerras, o raciocínio humano desenvolveu-se demais para que coisas assim ainda possam acontecer, e nosso comércio e finanças estão tão entrelaçados internacionalmente que uma guerra está completamente fora de cogitação’.E aí fizemos a mais sanguinolenta guerra que já se viu (Jung, 2007, p.371).
Para Jung (2007), é evidente: são “as imagens arquetípicas que decidem o destino do homem” (Jung, 2007, p.372), não tratados teóricos e racionais. Então, ao nos remetermos a este estudo, o qual busca refletir as dimensões arquetípicas de uma amostra de adolescentes catadores de material reciclável, indagam-se quais são essas forças motrizes? Que motivos regem esses jovens? Ou por que motivos eles são movidos? Parecem ser forças maiores do que eles, já que essas agem sobre eles, sem os mesmos terem consciência disso. Jung (2007) refere-se à ação dessa força, onde os acontecimentos escapam a todas as medidas e fogem à capacidade de raciocinar. É uma força de dentro para fora. É a expressão do inconsciente coletivo que está sendo ativado, um arquétipo comum a todos os que vêm à vida.

Associo alguns aspectos da realidade desses adolescentes com a ativação do arquétipo da sombra. Para Whitmont (1998), sombra refere-se à parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. Não há como eliminar ou negar a sombra, pois todo ego tem uma sombra. Ao adaptar-se para enfrentar o mundo, o ego, inconscientemente, emprega a sombra a fim de executar operações desagradáveis que ele não poderia realizar sem um conflito moral (Stein, 1998). Porém, de acordo com Stein (1998), o conteúdo específico da sombra pode mudar, dependendo das atitudes e do grau de defensividade do ego.

Como tudo o que é inconsciente é projetado, a sombra é encontrada na projeção. Por isso, para Stein (1998), o ego não possui consciência de que, geralmente, projeta a sombra. Para esse autor, quando ocorre uma projeção da sombra, não se é capaz de distinguir fatos de fantasia. Não se consegue ver onde um sujeito começa e onde outro termina. Não se pode vê-la, nem tão pouco ver-se a si.

A ativação da sombra se dá por uma combinação de fatores subjetivos dos complexos (inconsciente pessoal) com experiências arquetípicas (inconsciente coletivo). Na prática, é comum aparecer como uma “personalidade inferior” (Whitmont, 1998, p.144). Mas, sempre pode haver uma “sombra positiva” (Whitmont, 1998, p.144), que surge quando se apresenta uma tendência de identificação com o lado negativo, reprimindo os aspectos positivos.

Whitmont (1998) considera, por fim, que o problema da sombra traz implicações sociais e coletivas. Elas são fortes e raízes do viés da discriminação social, racial e nacional. Toda a minoria carrega a projeção da sombra da maioria. Além disso, a sombra pode ser vivida como o “arquétipo do inimigo” (Whitmont, 1998, p.151). Esse representa fatores arquetípicos das projeções internas de divisão. Jung (2000) acrescenta:
Simplesmente culpamos nosso adversário de todas as nossas próprias faltas que não temos coragem de confessar. Enxergamos todos os defeitos nos outros, criticamos sempre o nosso semelhante...mas não é preciso dizer que o que acontece em grande escala, pode acontecer também em ponto reduzido com cada um de nós (Jung, 2000, p.516).
Dentro desse princípio, Jung (1999) propõe que essa necessidade do ser humano, de não se ver como agente do processo, agindo de forma indiferenciada, passivo de suas escolhas, não vem apenas de fora, já que é uma força imanente, que surge igualmente de dentro, do inconsciente coletivo. É como se fosse um processo de massificação. Todavia, todo o homem apresenta o impulso de se desenvolver e crescer, é da sua natureza. Mas, se ele não reconhece seu compromisso com o crescimento e põe fora de si essa responsabilidade, essa força retorna ao inconsciente, aparecendo projetada via sombra na vida. Tal mecanismo pode ser visto, por exemplo, na Europa. A necessidade do ser humano de ter proteção era suprida externamente, através dos direitos humanos ou de outras entidades que ofereciam tal suprimento, como as igrejas. Contudo, a proteção e garantia só são válidas se não abafarem demais o indivíduo e a sua responsabilidade diante da vida. Isto é, para se conquistar a tão desejada proteção, é necessário que o ser humano também se comprometa em conquistá-la, não esperando só de fora (Jung, 1999, p. 539). Pode-se pensar paralelo a esse entendimento, aqui no Brasil, que enquanto eu não me apropriar do lixo que é meu, dando um lugar em meu universo a ele, precisarei acreditar que quem vai ter que dar conta do lixo que eu produzo são os outros.

Cabe colocar que não se trata de uma apologia de exaltação ao lixo, mas a questão é de nos incluirmos nesse processo que nos pertence. De cultivarmos a responsabilidade que nos é dada para lidar com os nossos lixos, tanto externos, quanto internos, não delegando somente aos outros tal função. Jung (1999) acrescenta:

O homem massificado não tem valor, é uma simples partícula que perdeu sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade. O que falta ao nosso mundo é a conexão anímica. Não há associação profissional ou comunidade de interesses econômicos, não há partido político ou Estado que possa jamais substituí-la. (Jung, 1999, p. 539)

Pode-se pensar no quanto essa “conexão anímica” representa este movimento de nos incluirmos no processo, colocarmos nosso lado sujo, sombrio, nosso lixo como um todo.

Para Jung (2007), foi a mentalidade científica que fez perder essa “conexão”. Por causa disso, “nosso mundo se desumanizou” (Jung, 2007, p.585). O homem está isolado no cosmos. Já não está mais envolvido na natureza e perdeu sua participação emocional nos acontecimentos naturais que até então tinham sentido simbólico para ele. “Nossa comunicação direta com a natureza desapareceu no inconsciente, junto com a energia fantástica emocional ligada a ela” (Jung, 2007, p. 585). Então, para essa conexão se re-estabelecer, é necessário transcender a esfera pessoal, ir além, buscar o significado: a conexão do micro no macrocosmo.

É o microcosmo dentro do homem correspondendo ao ‘firmamento’, aquilo que no ser humano é tão vasto e geral como no mundo e nele se encontra de modo natural e não de forma adquirida. Psicologicamente, corresponde ao inconsciente coletivo ... o homem também é o cosmo, mas não em todos os aspectos, pois é homem. Logo, o homem é um microcosmo. (Jung, 1999, p.535)

Entendo que se mostra uma falta de conexão em nossos dias. Nesses jovens, catadores de materiais recicláveis, está o microcosmo, e eles acabam por carregar um peso, muito maior do que o do lixo. Já que eles sustentam uma responsabilidade de lidar com aquilo que a sociedade (que pode ser entendida como o macrocosmo) não quer, não gosta e é sujo. Ao mesmo tempo, pode-se pensar na analogia de o microcosmo representar o mundo interior e o macrocosmo o exterior. Logo, todos os indivíduos acabam carregando dentro de si essas realidades, mesmo que não a reconheçam. Mas, no caso dos jovens catadores, o perigo de eles estarem representando o microcosmo reside no fato de que muitos deles passam a se identificar com essa imagem sombria do lixo.
A existência real de um inimigo sobre o qual se podem descarregar todas as maldades, constitui um inegável alívio para a consciência. Pelo menos, pode-se dizer quem é o demônio causador das perturbações. Pode-se ter a plena certeza de que o causador do desastre se localiza no exterior e não, por exemplo, na própria atitude. (Jung, 2000,p.518)
Para Jung (1999), uma identificação só pode produzir-se quando for baseada em uma semelhança inconsciente, não realizada. Quando o indivíduo fica identificado, atua inconscientemente, não vive o consciente. E assim, ele fica possuído pelo papel intérprete inconsciente de seu complexo. Dessa forma, pode-se pensar o quanto esta amostra, de jovens catadores de materiais recicláveis, está identificada com o lugar sombrio que o lixo ocupa. Essa compreensão se dá, na medida em que eles ocupam um lugar de exclusão, “de sujo”, despertando um desejo da sociedade de querer ficar longe, de querer se livrar. Assim, esses jovens acabam se identificando com esses papeis, de forma inconsciente. Isso pode ser visto quando a maioria deles se posiciona de forma passiva na vida, sem sonhos, perspectivas, desejos, entre outras necessidades vitais do ser humano. Ou quando atuam na sombra, seja nas drogas, nos comportamentos agressivos e destrutivos para si. A impressão que esta amostra transmite para quem convive com eles é a postura de estarem à margem da vida, do momento que estão vivendo e do mundo que os cerca. Jung (2000) coloca como consequência desse funcionamento um represamento da libido, que torna conscientes as projeções desfavoráveis. O sujeito acaba assumindo as perversidades que colocam nele, vivendo-as de acordo com elas.

Todavia, é no inconsciente que estão guardadas outras imagens e possibilidades – outro lado da natureza. Mesmo que pareça estar diluído no lixo ou em uma realidade coletiva, o “ouro está lá” (Jung, 2007, p.375). E somente através do contato com essas imagens guardadas é que se poderá resgatar o tesouro perdido. Para Stein (1998), isso representa a possibilidade de tornar conscientes e integrados aspectos da sombra, de elementos negligenciados, o que faz o ser humano tornar-se uma pessoa muito diferente do indivíduo comum. Trata-se, de acordo com Edinger (1995), de estabelecer outra relação do eixo ego-Self.

No começo, quando esses jovens estão identificados com a sombra que lhes é projetada, eles encontram-se indiferenciados, no estágio urubórico, no qual o ego não existe. O ego e o Si-mesmo são um só. Na medida em que ocorre o processo de conscientização, isto é, o contato com outras imagens e possibilidades, acontece a diferenciação, a discriminação de elementos. Assim, é possível estabelecer um diálogo entre estas instâncias: ego- Si-mesmo favorecendo o desenvolvimento do indivíduo. Portanto, lidar com a tensão ego-inconsciente/sombra, buscando outros símbolos que gerem um sentido maior para viver dignamente, é uma realidade que aponta um caminho.

Assim foi que surgiu este trabalho: calcado nessas premissas, movido por essas emoções, desejos e esperanças. Com o propósito de buscar alternativas de entendimento, contemplando um campo além daquilo que se vê, percebeu-se a necessidade de aprofundar o tema, chegando a algumas imagens arquetípicas que cercam esses indivíduos, podendo ser útil para o encontro com o Si-mesmo.

Portanto, através da abordagem junguiana, este estudo procura levantar uma possível compreensão de algumas imagens arquetípicas vivenciadas por esta amostra: associando a formação da construção do “eu” com a amostra de adolescentes catadores de material reciclável de Curitiba e região, conhecendo o lugar do lixo na vida desses indivíduos, a relação com a sociedade e, por fim, explorando o mito do renascimento, através da expressão da resiliência nas vidas desses indivíduos.


  1. ADOLESCÊNCIA E VULNERABILIDADES – NA PERSPECTIVA JUNGUIANA

Estamos em fevereiro de 2008,começamos outro ano e, depois de confetes e serpentinas dos nossos carnavais, nos despedimos do período de sonhos e fantasias, de norte a sul do nosso país. E é assim, neste período, que se inicia este estudo...


São diversos barracões visitados, enormes galpões onde muitas pessoas dormem, se alimentam, tomam banho e, por fim, trabalham, armazenando o lixo reciclável, separando, prensando para vendê-lo em breve. Há bebês de colo, crianças, jovens, mulheres, homens e pessoas com mais idade. Todos trabalhando em equipe, com um enorme senso de cooperação, a ponto de causarem inveja a grandes empresas.

Essa é a realidade daqueles que são chamados de catadores de lixo. Acredito que é um universo que tem muito a nos ensinar, com vários fenômenos e pontos para se investigar. Entretanto, para este estudo me voltei ao olhar do adolescente catador de material reciclável. Essa escolha se deu por me identificar com esse público e por me confrontar com o grande número de jovens que atuam nesse mercado de trabalho.

De acordo com os Fundos das Nações Unidas (UNICEF,2004), no Brasil há 5,2 milhões de trabalhadores que têm entre dez a dezessete anos. Outro fato é que o trabalho de catador de material reciclável é um dos mais prevalentes na região urbana.

Mesmo com diversos programas sociais, como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI, 2001), a redução desses números é relativa. Desde a implementação desse programa, diminuiu em 18% o índice de trabalho para faixa de dez a quinze anos, e 8% para adolescentes de dezesseis a dezessete anos.

Aliado a isso, nesse estudo foi constatado que o maior dano de se trabalhar com pessoas nessa faixa etária é a evasão escolar, determinada por necessidades de trabalho. Cerca de 22,7% desses indivíduos estão fora da escola, concentrando-se o maior percentual naqueles com idade entre dezesseis a dezessete anos. Associando-se a tais dados, esta pesquisa mostra que crianças e adolescentes trabalhadores registram um nível de escolarização inferior e estão com idade mais avançada para a série cursada, em comparação às crianças e adolescentes que não trabalham. O Ministério da Assistência Social (2003) acrescenta o quanto a evasão escolar, somada à repetência, gera nas crianças e adolescentes trabalhadores um sentimento de fracasso, potencializando a vulnerabilidade e a exclusão vivida por eles.

No outro continente, Giegerich (2003) faz uma referência aos jovens que vivem em clima de guerra nos países islâmicos. Para o autor, aquele povo não tem perspectivas para o futuro, nem individuais, nem coletivas e, muito menos, intelectuais. “Suas mentes estão asfixiadas”, diz Giegerich (2003). Entre os jovens inteligentes, não diretamente absorvidos na luta diária, há um sentimento de desesperança e de falta de sentido da existência como tal. Nietzche afirma (apud, Giegerich, 2003): “o que se necessita é um objetivo. O que se quer é uma resposta ao ‘para quê? ’”. Desse modo, esses jovens ficam presos a um anseio na busca por essa finalidade. Já que seus países de origem não proporcionam nem ao menos a possibilidade da visão de um futuro satisfatório. A libido [energia vital] fica indiferenciada na psique coletiva. É como se o jovem islâmico se identificasse com a guerra, não vendo possibilidade de se diferenciar dela muitas vezes.

No outro lado do continente, por sua vez, pode-se pensar que aqui, no Brasil, mesmo sem guerras, os sentimentos parecem ter semelhanças. Isto é, o jovem catador jovem islâmico se identificasse com a guerra, não vendo possibilidade de se diferenciar dela muitas vezes. de material reciclável, vivendo dentro de um barracão, junto a seus familiares, conhecendo só essa realidade, identificando-se com essa função, esse habitat, passa a acreditar que essa é a vida deles, não havendo possibilidade de não ser.

Certa vez, ouvi de uma menina de 13 anos: “nunca poderemos namorar gente de fora da vila. Aqui, “ninguém entra e ninguém sai”. Pode-se pensar que tal entendimento surja de uma identificação com a sombra projetada na periferia, no lixo, o que os impede de viver a realidade com dignidade, como foi colocado anteriormente. O lixo não está a serviço deles, trata-se do contrário: eles estão a serviço da sombra do lixo, não havendo escolhas para ser diferente. É como se o lixo atuasse como um complexo em suas vidas.

Percebe-se esse movimento quando muitos, ao serem questionados em seus sonhos e desejos, a resposta que surgia é “eu não tenho”. A voz era baixa, um sussurro que surgia desconfiado, depois de um silêncio enorme, onde o que se podia ouvir era o barulho das mãos incansáveis na lida com o lixo. Ao pedir opiniões sobre a imagem dos jovens de hoje, mais silêncio. Parece que aquilo não podia pertencer a eles, não cabia a eles responder, pois não tinham o direito a isso. . Dava a impressão de se sentirem resignados, desesperançosos e, principalmente, desacreditados do que a vida podia lhes oferecer. A cada pergunta, em uma conversa informal comigo, eles me devolviam: mas porque você quer saber o que a gente pensa? O que importa? Nesse ponto foi que mais me surpreendi: eles realmente acreditam que o que eles pensam, sonham e querem não tem valor.

São experiências que podem sugerir o quanto estes jovem vivem a exclusão, o quanto se põem à margem de tudo que os cerca. A partir de tudo isso me questionava: “onde está a libido desses sujeitos”? Indiferenciada? Onde está o “eu” desses indivíduos?

Jung (1981) diz que o “eu” é um dado complexo, formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória. Aliado a isto, Jung (1981) acrescenta que a relação do “eu” com fatos psíquicos forma a consciência. Logo, nada pode se tornar consciente sem ter um ponto de referência – o “eu”. Sendo assim, a consciência que surge da inconsciência, exige durante o desenvolvimento da criança espaços para ela emergir a fim de que se constitua. Ou seja, é na infância que ocorre, pela primeira vez, a experiência das crianças se experimentarem, vivenciando sua temporalidade com seu passado e seu futuro, criando um espaço para que as imagens arquetípicas possam emergir. Mesmo que ainda elas não tenham consciência de si próprias, elas se experienciam com idéias como “eu sou”.

Enfim, percebe-se que, para Jung (1981) todo esse processo de aquisição de consciência e formação do “eu” se constitui como produto da percepção e orientação no mundo externo. Então, baseando-se nestas premissas: Como ficarão esses jovens neste processo? Se o “eu” é constituído pela percepção geral do corpo, da existência e da memória, como poderão formar um “eu” diferente das imagens identificadas com a sombra do lixo? Que corpo eles formam? Que cheiros eles têm? Que existência eles constroem? E que memórias cultivam?

Jung (1981) propõe, referindo-se a prática psicoterapêutica: “é bom nunca esquecer que, em psicologia, o meio pelo qual se julga e observa psique é a própria psique”. Pode-se pensar que essa proposição se amplie para um todo em geral: o meio pela qual se julga, se observa e, talvez, se viva, é a própria psique. Assim, é natural que os adolescentes vivam o lixo e se identifiquem com ele.

Depois de alguns dias acompanhando a mesma rotina de catar o lixo, separar o papel do plástico, da comida, etc.; percebia o quanto esses jovens incorporaram aquilo. Parecem que nem pensavam mesmo, iam sendo levados. Assim, ficava cada vez mais nítida a impressão da alma e dos sonhos estarem diluídos e perdidos naquela realidade. Além de um “eu” perdido, sem a percepção de um corpo, desprovidos de vontades e memórias. O lixo ocupa todos os lugares, não havendo espaço para emergir um “eu” e a consciência. Há um comprometimento com a sombra, como se essa constelar fosse tão natural, que quase se impõe naquela realidade. Também, parece não haver espaço para o Si-mesmo encarnar. A impressão que fica é de que não há disponibilidade de um continente, não há vaso para a alquimia se dar.



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