Recife em Defesa da Vida



Baixar 18.65 Kb.
Encontro05.08.2016
Tamanho18.65 Kb.


Modelo de Atenção e Gestão “Recife em Defesa da Vida”: uma aposta na co-gestão

Aristides Vitorino de Oliveira Neto

Médico de Família e Comunidade Coordenação de Atenção Básica da Secretaria de Saúde do Recife Apoio Institucional do DS III do Recife



Introdução:

A racionalidade gerencial hegemônica, ainda muito presente nos serviços e nas secretarias de saúde espalhados por todo o país, naturalmente abriga e legitima, sintomaticamente, várias posturas e práticas que podem ser observadas no cotidiano do homem “moderno”.

O pragmatismo é a nova religião. Mais forte que o pragmatismo somente o tecnicismo. Os gestores e trabalhadores parecem não acreditar, ou têm dificuldade para acreditar, que mudanças são possíveis. Quando pensamos na gestão dos serviços e de políticas, o pragmatismo, compondo a racionalidade gerencial hegemônica, aponta para a ineficiência de práticas que sejam colegiadas e tenha a participação como preceito ético condutor. Prontamente, aparece o medo da mudança, por vezes paralisante, traduzido em posicionamentos do tipo “esse negócio de co-gestão vai gerar muita bagunça... no discurso é muito bonito, mas, mas na prática, a teoria é outra”, e assim por diante.

Para quem não acredita na “morte do homem” (Campos, 2006), o que vale é que “na teoria, a prática é outra”. Deixaremos mais claro a seguir.



As apostas na Veneza Brasileira

Em Recife, temos experimentado novas formas de agir em saúde (gestão e atenção) que nos apontam o fato de que o homem não morreu! Desde fevereiro estamos discutindo com nossa rede e internamente, nos espaços de gestão, um novo modelo de atenção e gestão para o Recife. O batizamos de Modelo de Atenção e Gestão “Recife em Defesa da Vida”. Seus principais princípios são a co-gestão, a clínica e saúde coletiva ampliadas e o acolhimento.

Na rede de serviços e nos distritos sanitários, estamos, através do apoio institucional (Campos, 2007), ofertando alguns dispositivos como o acolhimento, PTS (projeto terapêutico singular), colegiados de co-gestão, equipes matriciais e a própria lógica do apoio institucional, além de outras ações que fazem os princípios colocados, e os princípios do SUS também, tornarem-se realidade para a população. Destaca-se que tais dispositivos e ações só são possíveis de disparar numa rede que opera segundo a lógica da co-gestão. Antes, iniciativas até interessantes tiveram pouco impacto por terem caráter verticalizado e por não terem considerado o outro em sua formulação e operacionalização.

O esboço de modelo de atenção e gestão, com suas diretrizes, foi pensado a partir da Diretoria Geral de Atenção à Saúde (DGAS) e da Gerência de Atenção Básica (GAB), contida na primeira de acordo com o organograma da SMS. No entanto, está sendo lapidado no dia-a-dia nos diversos espaços de atenção e gestão de nossa rede. Uma vez aprovado no Núcleo Gestor da SMS, os Apoiadores Institucionais (AI), principalmente, partiram para a discussão com a rede, com ênfase nas Unidades de Saúde da Família.

Cada distrito sanitário (DS) tem, dependendo do tamanho e da conjuntura, de um a três AI’s. Estes, apesar da ênfase na atenção básica, devem apoiar todo o DS no sentido da discussão das diretrizes e dos dispositivos, em todos os níveis de atenção e espaço de gestão.

Temos tido, neste processo, alguns desafios. Dentre eles, destaca-se o modelo de atenção, ainda hegemônico na cidade. Deparamo-nos com um misto dois modelos: médico hegemônico liberal e o modelo Cidade Saudável/Vigilância da Saúde. Neste contexto, a grande aposta no sentido de reorientar o modelo de atenção foi, desde 2001, a Estratégia Saúde da Família (ESF). Este investimento, somado a outras iniciativas, conseguiu impactar positivamente em diversos indicadores de saúde, mas não foi potente para mudar a forma como vem se operando, no cotidiano dos serviços, a clínica e a saúde coletiva. Conseqüentemente, o modelo médico hegemônico liberal continuava forte e sem alternativas potentes para contrapô-lo.

Por outro lado, convivemos com o descrédito dos trabalhadores e usuário em relação ao SUS. Parte deste descrédito está relacionada à burocratização da “máquina pública” e a escassez de recursos; outra parte, ao modelo de gestão arraigado na forma em que a SMS se relaciona com os trabalhadores e usuários, influenciado fortemente, como já pontuamos, pela racionalidade gerencial hegemônica.

Entender como os modelos de atenção e gestão hegemônicos, em contato com o desejo e os interesses dos trabalhadores e usuários, interferem na forma como se dá o vínculo, a responsabilização e o acolhimento no cotidiano do SUS-Recife é central para entender os desafios que temos em mãos. Assim, reconhecer que as formas de fazer gestão e clínica no dia-a-dia dos serviços e da SMS são co-produzidas por forças imanentes e transcendentes ao sujeito (Cunha, 2006) é fundamental para podermos criar alternativas ao modelo médico hegemônico-liberal, bem como “inventar” outras formas de estar no mundo.

Para combater o pragmatismo, citado acima, que diminui e paralisa o sujeito, temos que apostar em formas de produzir saúde que inclua o outro, reconhecendo sua singularidade, desejos e interesses. Esta é a nossa aposta.

Seis meses dialeticamente vividos...

Desafios colocados anteriormente têm sido enfrentados cotidianamente pelo grupo da DGAS/GAB, tanto nos serviços como dentro da própria SMS. Isso porque, mesmo sendo uma proposta técnica e política desta gestão, será co-produzida à medida que conseguimos “capilarizá-la”. Tanto a diretoria da DGAS e como a coordenadoria da GAB tem tido papel importante na discussão do Modelo de Atenção e Gestão “Recife em Defesa da Vida” na rede de serviços, na SMS e com outras secretarias da prefeitura, na perspectiva da intersetorialidade. No entanto, é o apoio institucional o principal dispositivo na discussão deste modelo junto aos trabalhadores (nos serviços e nos distritos sanitários) e aos usuários.

Os apoiadores institucionais (AI’s) têm se reunido sistematicamente com as equipes de saúde da família no sentido de realizar uma escuta qualificada destes trabalhadores e problematizar seu processo de trabalho. Como oferta, temos os dispositivos que visam ampliar a clínica e contribuir no aumento da capacidade de análise das equipes (coletivos organizados para produção) (Campos, 2007). No entanto, os dispositivos não são a única oferta junto às equipes. Cada equipe é singular em seus problemas e potencialidades. Nesse sentido, os contratos realizados entre AI e ESF devem respeitar a singularidade desse encontro, não sendo a experimentação dos dispositivos o único critério de avaliação positiva na discussão do modelo de atenção e gestão. Isso não é feito sem conflitos e contradições, pois, na perspectiva da co-gestão, os AI’s não chegam de “mãos vazias” e dialogam com diretrizes da política e isso é explícito em roda. Da mesma forma, as equipes detêm conhecimentos e têm formas de fazer que devem ser respeitadas. Nenhum dos sujeitos sai igual desse encontro, que é singular.

Além do encontro com as equipes em seu espaço de trabalho, os AI’s também têm disparado ações em nível distrital, no sentido da co-gestão e da construção de redes. Os colegiados que já existem são fortalecidos e outros espaços coletivos são estimulados: fórum de saúde mental, reuniões mensais entre equipes de PSF por microrregião, discussão de casos para construção de PTS, entre outros. A coordenação da GAB junto aos AI’s, na lógica co-gestão, vem disparando outros processos junto aos distritos sanitários (DS). A principal delas é a discussão de como vem se dando a integração dos DS com o território e com o nível central da SMS. Nesta perspectiva, foi proposta uma agenda de discussões com o objetivo de refletir a forma como vem se dando a gestão do processo de trabalho nos DS. Este esforço, objetiva ajudar os distritos sanitários a operarem na lógica do apoio institucional junto ao território, diminuindo o caráter burocratizado de seu trabalho e potencializando sua capacidade propositiva, visando à construção de linhas de cuidado, potencializando os fóruns colegiados e apoiando as equipes em seu processo de trabalho.



Conclusão

Todo esse processo, que não se resume no que foi exposto, não se está se dando sem conflito. A descrença dos trabalhadores em relação à gestão pública (ligada também ao pragmatismo que pontuamos), a escassez de recursos e o modelo de clínica e gestão que ainda é hegemônico nos colocam desafios que não são só recifenses, mas de todos que militam na saúde e buscam uma sociedade justa e equânime.

No entanto, temos constatado que os trabalhadores, apesar do contexto adverso, produzem bastante vida no cotidiano dos serviços. De forma criativa, ao mesmo tempo em que são afetados pela realidade, operam sobre ela, modificando-a e experimentando um mundo que faz sentido para si. Muitas iniciativas interessantes, no sentido da ampliação da clínica, estão pulsando em nossa rede. Muitas equipes só precisavam de apoio para conseguir operar mudanças há muito desejadas. Outras precisarão de mais apoio do que algumas e poucas não estão dispostas a mudar.

Resgatando o começo deste artigo, podemos afirmar que o homem não morreu. Mudanças são possíveis e não dependem só da macroestrutura. Por fim, para os que diziam que “na prática a teoria é outra”, devolvemos o que temos experimentado, apesar das contradições e dificuldades, até agora: “na teoria, a prática é outra”.



Bibliografia:

CAMPOS, Gastão Wagner de Souza. Considerações sobre a arte e a ciência da mudança: revolução das coisas e reforma das pessoas. O caso da Saúde. In. Emerson Elias Merhy; Gastão Wagner de Souza Campos; Luiz Carlos de Oliveira Cecílio (Org.). Inventando a Mudança na Saúde. 3° ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2006.



CAMPOS, Gastão Wagner de Souza. Um método para análise e co-gestão dos coletivos. 3° Ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2007.

CUNHA, Gustavo Tenório. A Construção da Clínica Ampliada na Atenção Básica. X° Ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2006.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal