Reconsiderando o Combate o pensamento pós-moderno, seus críticos e uma tentativa de conciliação no campo da historiografia



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Reconsiderando o Combate

O pensamento pós-moderno, seus críticos e uma tentativa de conciliação no campo da historiografia

Doutoranda Carolina Coelho Fortes

2º. Semestre 2007
INTRODUÇÃO

Desde que se procure o “sentidos histórico” de uma ideologia ou de um acontecimento, encontram-se não apenas métodos, idéias ou uma maneira de compreender, mas a sociedade a qual se refere a definição daquilo que tem “sentido”.

Michel de Certeau1


Ainda no primeiro semestre da graduação em História, na UFRJ, no “longínquo” ano de 1996, éramos brindados com uma disciplina fundamental, embora absolutamente árida para a maioria de nós, recém egressos do então segundo grau. A disciplina era Metodologia da História I, e a professora Maria Manuela Ramos de Sousa Silva. Um dos textos lidos por nós era da autoria de Boaventura Sousa Santos,2 e intitulava-se Um Discurso sobre as Ciências. O livro trata da crise do paradigma científico dominante, e da emergência de um novo paradigma. Naquela altura, pouco entendi do que li. O que ficou foi a sensação de “final dos tempos”. O mundo se transformava, e conseqüentemente, nosso conhecimento sobre ele.

Mais tarde, na preparação do projeto para a seleção do curso de doutorado desta instituição, deparei-me justamente com essa crise de paradigma, que me atingiu em um nível que devo chamar, temerosamente, de individual. Essa crise, fruto igualmente das intensas discussões levadas a cabo no âmbito do Programa de Estudos Medievais – IFCS/UFRJ, aprofundou-se diante da necessidade renovada de lidar com conceitos associados ao dito paradigma emergente, ou pós-moderno. Tal paradigma, se é que podemos entendê-lo como único e homogêneo, foi e continua sendo, em praticamente todos os seus postulados, combatido virulentamente no campo da historiografia.

É para tentar resolver esta crise que nos propomos, neste estudo, a esclarecer o que vem a ser o paradigma pós-moderno, com base em alguns autores-chave, como Lyotard (para um panorama mais geral) e Jenkins (que discute as premissas deste paradigma e sua inserção na disciplina História). Levantaremos também as posições contrárias ao pensamento pós-moderno, valendo-nos de três autores: Eagleton (para um panorama mais geral) e Cardoso e Wood (em relação à História).

Esta discussão, no entanto, servirá como introdução para discutirmos os principais conceitos que norteiam nossa pesquisa: gênero e identidade. Futuramente, por conta do escasso tempo de que dispomos, empreenderemos a segunda parte desse estudo, que compreende a análise dos referidos conceitos e sua aplicação ao tratamento de algumas fontes. Para o conceito de gênero nos centraremos no pensamento de algumas especialistas, como Joan Scott, Jane Flax e Judith Butler, e nos posicionaremos com relação a elas por meio da adequação de suas idéias aos nossos objetos de estudo, findando por aplicá-lo na breve análise de uma fonte.3 O mesmo procedimento será aposto ao conceito de identidade, calcado nas considerações de dois autores: Katherine Woodward e Stuart Hall.


I

O PÓS-MODERNISMO: CONTEXTO E DEFINIÇÕES


  1. O contexto de surgimento do pós-modernismo

Como veremos mais adiante, uma das características do dito paradigma pós-moderno é a noção de que a História se confunde com a Literatura, sendo, portanto, narrativa. Em seu devido tempo nos posicionaremos relativamente a esta questão, mas neste item optou-se por empreender um relato das condições que possibilitaram o surgimento desta linha de pensamento (sempre levando em conta que ela é múltipla, e não um todo homogêneo). Esse relato, claro, tem várias versões, que enfatizam aspectos diferentes desse surgimento, conforme os que o constroem são contra ou a favor daquilo que surgiu. Tentaremos, na medida do possível, dar espaço para ambas as interpretações.

De forma geral, situa-se o surgimento “definitivo” de um pensamento pós-moderno na década de 60. Os principais embates nesse sentido, no entanto, dizem respeito à novidade desse pensamento e à sua filiação, confirmação e posicionamento acrítico em relação ao capitalismo. Oscila-se entre uma explicação que toma por base a idéia de “novo tempo”, e conseqüentemente, de adaptação às novas realidades; e uma análise que tende para a crítica dessa idéia de novo, vinculada a uma noção de que o pós-modernismo seria uma maneira de justificar e consolidar uma nova fase do capitalismo, utilizando-se para isso de idéias já dadas por pensadores antigos, como Nietzsche, e uma nova leva de teóricos formados pela desilusão com as lutas políticas de massa.

Por exemplo, de forma um tanto irônica, Ciro Cardoso atribui a ascensão do pós-modernismo à desilusão da geração de 68 com o desdobramento de suas lutas.4 Enquanto Jenkins acredita que o fracasso do tema comunista – a abolição da propriedade é a autêntica liberdade – levou a uma desconstrução do seu potencial, assim como a sua intenção universalista mostrou-se inadequada ao surgimento de variantes regionais.

O capitalismo ocidental, por outro lado, deparando-se com as duas Grandes Guerras, as crises econômicas, o fascismo, o nazismo, as críticas feitas ao capitalismo por pensadores como Gramsci e Althusser, o feminismo etc, enfrentou a demolição das últimas teorias que fundamentavam a idéia de progresso liberal, de crença otimista na racionalidade do homem. Para se valorizar – ou revalorizar – o capitalismo recorreu às forças de mercado. Mas essa aposta no “nexo monetário”, na escolha do consumidor, trouxe para primeiro plano o relativismo e o pragmatismo. O valor dos bens não é intrínseco, mas residem naquilo pelo que podem ser trocados. Nesta sociedade, também as pessoas “assumem o aspecto de objetos, encontrando seu valor em relações externas a si mesmas”.5

A moralidade privada e pública também se transforma; a ética se torna personalizada e narcisista, sendo relativa e livre de regras. “Nenhum absoluto moral transcende o cotidiano”.6 È claro que as práticas epistemológicas serão igualmente afetadas pelo relativismo e ceticismo. Temos agora apenas paradigmas, posições, perspectivas, modelos, ângulos. “Os objetos de conhecimento parecem elaborar-se arbitrariamente, reunidos à maneira de colagem”.7

Diante desse estado de coisas, os centros se decompõem e as metanarrativas parecem inverossímeis. O pós-modernismo é a expressão geral dessa situação. Percebamos, então, que esse “relato de fundação” é já uma definição dos postulados gerais do pós-modernismo, pois ambos se confundem, uma vez que o termo serve tanto para designar um período histórico quanto se referir a uma “nova” posição epistemológica que vem a reboque deste.

Este, no entanto, não é um movimento unificado, não é uma tendência associada à esquerda, ou direita, ou centro, nem resultado da dor de cotovelo de intelectuais parisienses pós-68, pelo menos para Jenkins.8 Ele defende que pensadores provenientes de diferentes grupos sociais e de diferentes disciplinas (Nietzsche, Freud, Saussure, Wittgenstein, Althusser, Foucault, Derrida)9 precisaram reavaliar, em seus discursos específicos, as bases de suas posições diante de transformações sócio-econômicas, políticas e culturais. Essas reavaliações, embora conduzidas de formas diversas e com diferentes finalidades, chegaram às mesmas conclusões: não era possível construir uma fundamentação. Desta forma, o ceticismo e o niilismo são o pressuposto intelectual do nosso tempo.


  1. ALGUMAS idéias E DEFINIÇÕES10

Juntamente ao pós-modernismo do estilo de vida e da escolha do consumidor existe, necessariamente, outro pós-modernismo: o da desregularização, dispersão e ruptura enquanto as seguranças da tradição e da comunidade são continuamente esmagadas. Entre esses dois extremos contemporâneos, existe um conflito que ameaça a estabilidade dos dois. O papel do pensador pós-moderno, segundo Malpas, deve ser explorar e questionar essa situação.11

Em nossa vida cotidiana esperamos senso comum e acessibilidade. Da perspectiva da razão científica ou da lógica filosófica, clareza e precisão devem ser os objetivos do pensamento. Mas o pós-modernismo, ao contrário, com freqüência tenta alcançar o que escapa a esses processos de definição e celebra o que resiste ou rompe com eles. Por conta disso, definir o pós-moderno não é tarefa fácil. Inclusive porque, aparentemente, não há UMA definição, mas várias. Há pouco consenso entre seus muitos adeptos e detratores sobre o que seria o pós-moderno, a que aspectos da cultura, pensamento e sociedade ele se relaciona, e como este pode mostrar formas de entender o mundo atual.12 Muito foi trazido para a discussão. Debates e, com freqüência, argumentos furiosos que tentaram determinar do que trata o pós-modernismo e a pós-modernidade. Alguns críticos celebram-no como um período de alegre liberdade marcado pela “escolha do consumidor”, outros o entendem como uma cultura que saiu dos trilhos enquanto comunidades ao redor do mundo têm suas tradições obliteradas pela difusão do capitalismo Para outros ainda, suas complexas teorias e produções culturais marcam a ruptura com qualquer envolvimento com o mundo real.

Essa pluralidade de visões tornou-se crucial para o sentido que o termo pós-moderno tem hoje. É importante, para entendê-lo, ao menos parcialmente, que se leve em consideração tanto sua natureza multifacetada quanto sua propensão a levantar debates entre as várias partes envolvidas em sua definição.

Para muitos, portanto, a mera menção à palavra pós-modernismo evoca idéias de fratura, fragmentação, indeterminação e pluralidade, sendo todas, de fato, conceitos-chave do pós-moderno. Antes de definirmos tais noções (com base, principalmente, no pensamento de Lyotard) é importante que se reconheça que a pós-modernidade é, em si, um discurso fraturado e fragmentário, por isso a escolha da análise de um autor específico. Embora muitos dos movimentos que passaram a ser chamados de pós-modernos tenham surgido ainda nas décadas de 50 e 60, foi entre o fim da década de 70 e o início dos anos 90, que os termos pós-modernismo e pós-modernidade se tornaram comuns mundo afora, mas especialmente na Europa e nos Estados Unidos.13

Porque foram tomadas como palavras-chave para definir o “espírito dos tempos” pela mídia, assim como por várias disciplinas acadêmicas, as múltiplas análises e relatos a seu respeito são irredutíveis à linguagem de uma área específica ou a uma forma de pensamento particular.14 De fato, uma das suas características mais radicais é a forma na qual, durante as últimas décadas, o pós-modernismo derrubou as fronteiras entre várias disciplinas acadêmicas, levando-as a novas formas de colaboração ou conflito.15 Cada disciplina estabelece seus próprios sentidos de pós-modernidade e pós-modernismo a partir de debates dentro das suas respectivas áreas.16 Mesmo depois do frenesi da mídia sobre o pós-modernismo, pela metade dos anos 90, as discussões dentro dessas disciplinas continuaram, e levaram a uma variedade de pós-modernismos construídos diferentemente. Nessa complexa mistura de idéias e movimentos, é impossível gerar concordância entre críticos sobre o que o pós-modernismo e a pós-modernidade possam ser.

Como meio de pensar o mundo contemporâneo, o pós-moderno já foi definido de várias formas: como uma nova formação estética;17 uma condição;18 uma cultura;19 um dominante cultural;20 um grupo de movimentos artísticos que empregam um modo paródico de representação autoconsciente;21 um período em que atingimos o fim da história;22 uma ilusão;23 uma formação política reacionária;24 um estado de coisas do mundo supostamente novo e teorias e posturas culturais relativas a essas coisas;25 um infeliz engano;26 uma doença27 ou simplesmente pura asneira.28 Todos os autores responsáveis por essas definições evocam idéias de ironia, ruptura, diferença, descontinuidade, jogo, paródia, hiper-realidade e simulação. O pós-moderno tem sido, para alguns, a radicalização da arte moderna que levou à experimentação avant-garde a novos limites, e para outros a democratização dos estudos culturais que fez com que os críticos dessem tanta atenção e valor ao entretenimento popular quanto davam aos mestres antigos. Para outros, e são esses que nos interessam aqui, a arte e a cultura são apenas a superfície de transformações políticas, sociais e filosóficas profundas do mundo contemporâneo.

Um dos primeiros autores a empregar o termo pós-moderno foi o crítico literário americano Ihab Hassan.29 Na segunda edição de seu livro The Dismemberment of Orpheus: Toward a Postmodern Literature, ele inseriu uma tabela das principais diferenças entre o modernismo e o pós-modernismo. Muitas das categorias que ele utiliza ainda hoje permanecem bastante controversas. Vejamos algumas delas:


Modernismo

Pós-modernismo

Forma (fechamento)

Anti-forma (abertura)

Propósito

Jogo

Hierarquia

Anarquia

Dustância

Participação

Criação

Desconstrução

Presença

Ausência

Centralização

Dispersão

Semântica

Retórica

Seleção

Combinação

Profundidade

Superfície

Narrativa/ Grande História

Anti-narrativa/Petite histoire

Causa

Diferença

Metafísica

Ironia

Determinação

Indeterminação

Transcendência

Imanência

Lista problemática e incompleta. O próprio Hassan problematiza suas categorias alegando que as dicotomias representadas em sua tabela (bem mais extensa, aqui fizemos uma seleção) são e serão sempre inexatas, já que as diferenças mudam e até colapsam, ao mesmo tempo em que abundam inversões e exceções nos dois casos. De forma geral, no entanto, os temas relativos ao modernismo são fechados e rígidos, enquanto os associados ao pós-modernismo são abertos. As dicotomias mostram outra característica do pós-modernismo, comentada mais acima, a integração e permeabilidade à várias disciplinas, portanto a tabela mistura categorias literárias, estilísticas e filosóficas.

Apesar das diferenças dos significados em cada área específica, o termo pós-moderno costuma ser empregado de duas formas: como pós-modernismo e como pós-modernidade. Essa distinção parece ser a fratura mais básica dentro de todo o fragmentado discurso pós-moderno. Geralmente, pós-modernismo tem sido usado para questões relativas a estilo e representação artística, enquanto pós-modernidade é empregado para determinar um contexto cultural específico ou um período histórico. Optamos, no entanto, por usar o termo pós-modernismo para caracterizar o conjunto do pensamento da pós-modernidade, entendida, portanto, como período histórico.

Um dos primeiros usos desta palavra ocorre na clássica obra de Toynbee A Study of History, publicada originalmente em 1954.30 Ali ele define a pós-modernidade como uma época histórica que se inicia no último quarto do século XIX e se caracteriza por guerras quase contínuas. Se, para ele, a modernidade é o zênite do progresso e do desenvolvimento, a Pós-modernidade é um período de declínio no qual os conflitos grassam incessantemente e os projetos humanistas do Iluminismo são abandonados nos conflitos nacionalistas que marcam muito da primeira metade do século XX. Apresentar a Pós-modernidade como um período de crise associado ao declínio dos valores humanistas e iluministas é um gesto comum a outros pensadores, e bastante persuasivo. Como afirma Stuart Sim


Em Toynbee temos uma visão da pós-modernidade como uma jornada em direção ao desconhecido na qual as antigas amarras culturais não mais se aplicam, e nossa segurança coletiva está potencialmente comprometida.31
Muitas das diferentes idéias e perspectivas sobre o pós-modernismo e a pós-modernidade se desenvolvem a partir da noção de que uma série de transformações fundamentais ocorreram no mundo durante o século XX, especialmente depois da II Grande Guerra. De acordo com esses relatos, a pós-modernidade é uma formação social que se origina nos últimos anos do século XIX, dá seus primeiros passos entre os conflitos militares, econômicos e sociais que assustam a primeira metade do século XX, e se estabelece por volta da primeira metade deste século, substituindo a modernidade como a forma dominante de organização social e cultural. Tendências como a globalização, mudanças no poder colonial, o desenvolvimento de novas redes de comunicação e o colapso de crenças e tradições políticas e religiosas no mundo inteiro parecem apontar para uma cultura que rapidamente se tornou diferente daquela experimentada por gerações anteriores. A ameaça da obliteração de toda a existência, seja provocada por uma guerra nuclear ou uma catástrofe natural, pesou sobre as idéias do que é fazer parte de uma cultura ou sociedade, e até mesmo sobre o que significa ser humano, forçando re-conceituações de algumas das mais básicas categorias do pensamento filosófico, social e político.

De acordo com Best e Kellner, o mundo moderno - suas certezas e projetos – fraturou-se e está agora aberto a novas forças, possibilidades e ameaças, na forma de idéias agrupadas sob o nome de pós-moderno.32 O resultado disso seria que o pós-moderno serviria para promover um


ethos cético que subestima o colapso de todos os paradigmas realistas ou representacionistas (...) e a necessidade de abandonar qualquer pensamento crítico sobre a injustiça social do ponto de vista da sociedade de classe.33
Para outros, o pós-moderno marca o ponto no qual “a proliferação de intervenções e argumentos discursivos podem ocorrer e assim se tornar uma fonte de ativismo superior e um movimento libertador mais radical” conforme a teoria pós-moderna “radicaliza mais profundamente as possibilidades emancipatórias oferecidas pelo Iluminismo e pelo Marxismo.”34
II

VISÕES “DE DENTRO” SOBRE O PÓS-MODERNISMO
Por conta do caráter multifacetado do pós-modernismo e a imensa produção bibliográfica sobre essa forma de pensamento, limitamo-nos à escolha de dois autores que pensaram o pós-modernismo e a pós-modernidade em dois âmbitos diferentes: a filosofia e a história.

    1. Lyotard e a Condição Pós-moderna

1.1 – Algumas palavras sobre Lyotard e o pós-modernismo

Jean-François Lyotard é um dos pensadores mais influentes da segunda metade do século XX. Sua obra mais conhecida, que será discutida nesse sub-item, A Condição Pós-Moderna: um relato sobre o saber,35 publicada pela primeira vez em 1979, foi largamente discutida por expoentes de todas as áreas do conhecimento social e cultural. Este livro é um dos textos fundadores da teoria pós-moderna. Ali, em uma série de capítulos curtos, ele analisa o controle feito sobre o saber e o poder por governos, corporações e mercados internacionais.

Lyotard é, sobretudo, um filósofo político preocupado com as maneiras por meio das quais nossas vidas são organizadas e controladas pelas sociedades que habitamos. Embora nem sempre utilize o termo, principalmente em outros de seus textos,36 a obra de Lyotard enfoca temas que agora são associados ao pós-modernismo. Como já tivemos a oportunidade de mencionar, este termo é comumente vinculado à perda de valores e crenças na sociedade atual, e à rejeição de parâmetros para julgar ou tomar decisões. O pós-moderno é freqüentemente “castigado” por aparentemente defender que, no pensamento contemporâneo, “vale tudo”, que os argumentos apresentados por alguém não são mais justos ou verdadeiros do que qualquer outro, e que o objetivo do pensamento é apenas experimentar ou satisfazer aquele que pensa. Essa versão do pós-modernismo, no entanto, é o anátema da filosofia de Lyotard. Em sentido análogo, a idéia de que, na pós-modernidade, a verdade e a justiça foram usurpadas por propaganda ideológica de super-poderes políticos e econômicos, e de corporações multinacionais, tendo, portanto, sua natureza transformada, é algo que Lyotard reconhece, mas combate ao longo de sua obra. Ele concorda que os critérios tradicionais de verdade e falsidade, certo e errado, bom e mau – entendidos como universais – são profundamente questionáveis. Mas não deixa de se perguntar a respeito do que significa, então, pensar e agir responsavelmente na ausência de regras absolutas e leis universais.

Para Lyotard, pensamento e ação devem se renovar constantemente. Portanto, não podemos dizer que exista um “sistema lyotardiano de pensamento” que possa ser aplicado como um instrumento a qualquer fenômeno cultural independentemente de suas diferenças. Ao contrário, o que sua filosofia incentiva é que se considere o que é único em cada evento, lutando continuamente para reinventar e inovar nossa análise sob a luz de novas informações, novos acontecimentos.

Dois termos são centrais para discutir a obra de Lyotard: Moderno e Pós-Moderno. Como já vimos, nenhum dos dois termos é de fácil definição, e não há qualquer consenso em torno de seus significados. Por isso é válido relatar brevemente algumas formas de seu emprego por outros pensadores.

Podemos dizer que, em boa parte dos casos, a Modernidade é vista como um período em que os homens começaram a se perceber de maneira diferente e, especialmente, passaram a se ver e às suas comunidades dentro de uma perspectiva de mudança, desenvolvimento, história. De acordo com Habermas, a Modernidade expressa a convicção de que o futuro já começou.37 Em outras palavras, a Modernidade preocupa-se com o progresso, seja ele expresso no desenvolvimento de idéias e tecnologia, na geração de riqueza ou de justiça para todos. Entende a sociedade como um estado de constante fluxo, inovação e desenvolvimento conforme as mudanças no conhecimento e nas técnicas alteram as identidades e experiências de indivíduos e comunidades. Os sistemas de pensamento modernos procuram por respostas universais para as questões sociais. As respostas diferentes, encontradas por grupos diferentes, tornam-se a base de sistemas políticos e organizações que lutam pela supremacia.

O pós-modernismo poderia ser definido como um desafio a essa forma moderna de organização social. Atualmente as formas modernas de organizar o mundo e o conhecimento sobre ele não fazem mais sentido, e por isso precisam ser repensadas. Por exemplo, Jameson argumenta que desenvolvimentos recentes do capitalismo, como sua difusão internacional e sua substituição da organização industrial em fábricas pela troca virtual na Internet e pelas comunicações globais, significa que as maneiras de analisá-lo, desenvolvidas no século XIX por pensadores como Marx, devem passar por um processo de reconsideração.38

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