Recorrer à narrativa para falar de trabalho e readaptaçÃo na escola1



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RECORRER À NARRATIVA PARA FALAR DE TRABALHO E READAPTAÇÃO NA ESCOLA1
GERLIN, Meri Nadia Marques

Universidade Federal do Espírito Santo

Esse texto inicia uma conversa sobre experiências de trabalhos de professoras “readaptadas”2 que atuam em bibliotecas de escolas do Sistema Municipal de Vitória/ES. Puxemos então, alguns fios, com o objetivo de tecer alguns sentidos levando em consideração “a experiência que passa de pessoa a pessoa [e que] é a fonte a que recorrem todos os narradores” (BENJAMIN, 1996, p.198). Para isso, busca-se contemplar múltiplos aspectos que constituem o seu cotidiano: sócio-culturais, políticos, subjetivos e educacionais.
Narrar a história de trabalho/de vida dessas trabalhadoras, eis aí uma tarefa nada fácil, no entanto, frente à possibilidade de análise das narrativas, é possível reconhecer que a escola necessita tomar conhecimento da história dos que nela atuam. Sendo assim, tentaremos tecer movimentos de trabalhos e reflexões que se direcionaram para o objeto desta pesquisa: narrar o trabalho de professoras em situação de “readaptação”, tentando acompanhar o trabalho pedagógico que desenvolvem na escola.

CONSIDERAÇÕES QUE ANTECEDEM A JUSTIFICATIVA DESTA PESQUISA


Entre narradoras que se confundem com os personagens do filme “Narradores de Javé”3, uma fábula cinematográfica brasileira, é possível tentar encontrar a realidade vivida?
O filme conta a história de sujeitos de um povoado fictício nordestino, que ao saberem que a sua cidade iria ser inundada para dar lugar a construção de uma usina hidrelétrica, encontram uma solução: escrever a história dos moradores do local. E para isso recorrem as suas próprias narrativas.

“Narradores de Javé” ajuda-nos a tecer algumas reflexões sobre a arte da narrativa, que segundo Benjamin (1996) está em vias de extinção. A proposta então, de narrar novos (ou antigos) contextos, que na maioria das vezes contam uma história de trabalhadoras guiada por políticas que não valorizam o trabalho vivido, torna-se o desafio deste estudo: contar a história de trabalho e de vida das professoras “readaptadas”, contando a versão das trabalhadoras, no fazer cotidiano das escolas.

Nessa perspectiva, acreditamos que a narrativa possa nos ajudar no desafio de escrever um pouco dessa história, concordando com Heckert (2004, p. 27) quando expõe que “práticas de resistência são aquelas que não apenas atendem ao prescrito, ao designado, mas que no seu fazer esboçam outros modos de ação”.
Para isso, como “catadoras de pensamentos” (JESUS, 2003, p.143), recorremos a narrativas, outrora colhidas, para lembrar de alguns momentos em que as professoras diziam não se sentir mais professoras, devido não atuarem em uma sala de aula.
Com isso, algumas colocações foram narradas, o estado de “readaptação” como castigo devido a prováveis “doenças” vividas e sentidas: “eu adorava dar aula quando era professora [...] acreditava que nunca pudesse ficar doente [...], [...] os alunos eram difíceis, porém adorava o trabalho que fazia [...]”. (Narrativas de professoras em situação de readaptação)
Com isso percebemos que as narrativas traziam insatisfação por sentirem-se professoras no passado, constituindo-se a readaptação então, num processo aliado a idéia de deixar de ser professor. Entretanto, trabalhar não seria somente a execução de técnicas, também o fazer do tecido social que se abriria para as dinâmicas intersubjetivas da psicodinâmica do reconhecimento do trabalho (DEJOURS, 1999).
As narrativas contribuem com a cartografia4 deste trabalho, pois acreditamos que enquanto acompanhamos os movimentos que fazem essas trabalhadoras, também possamos tentar compreender o processo histórico vivido, assim como as possibilidades frente seus saberes e práticas. Por meio de questionamentos - possibilitados por essas conversas - poderemos exercitar uma crítica que dê visibilidade aos trabalhos instituídos, e assim, quem sabe, “auxiliar na construção de outra escola e de outras práticas sócio-pedagógicas” (BARROS, 1987, p.226), que privilegiem a vida no seu movimento expansivo e não vida contrariada.
Qual seria então o próximo passo? Acreditamos que ilustrar o fio condutor que tece a (re) invenção de novas práticas e a produção de novos sentidos de trabalho que envolve fatos do cotidiano, sendo necessário entender que “o cotidiano está cheio de alternativas, pois construí-las é a sua própria forma de ser, de usar, de fazer” (ALVES, 1998, p.127), apontado para uso que fazemos desse trabalho.

EXPERIÊNCIAS TECIDAS SOBRE A POSSIBILIDADE DE TRABALHOS PEDAGÓGICOS


Esse fio começa a ser costurado com a implantação do “Projeto de Revitalização dos Espaços Escolares”, em setembro de 1997. Naquela época, a Rede Municipal de Educação de Vitória era constituída de 38 escolas de Ensino Fundamental e de 42 Centros de Educação Infantil que atendiam a 33.831 alunos e a 1.000 crianças de 6 anos, objetivando dinamizar a escola e centro de educação infantil com projetos pedagógicos que afirmavam práticas educativas que buscavam desestabilizar os fazeres cristalizados na escola.
Nesse contexto costuraremos o tecido dessa história em escolas de ensino fundamental, devido nos ajudar a falar do trabalho das referidas professoras. No início, o Projeto atendia a 13 unidades escolares, e a sua experiência de implantação no município de Vitória, mostrou “resultados significativos da prática educativa, quando nele [foram] envolvidos, a partir de uma ação coletiva, alunos, professoras, diretores e auxiliares na reconstrução do ambiente escolar, inclusive a própria comunidade” (GOMES, 2000 p.88).
No início do ano de 1998, a Secretaria de Educação adquiriu livros para atendimento às 37 escolas do Ensino Fundamental e para que esse acervo pudesse chegar às unidades foi necessário a realização de uma avaliação das condições reais em que se encontravam as escolas, sendo detectada a necessidade de profissionais que atuassem em espaços de incentivo a leitura e a pesquisa.
Para a realização dos trabalhos relacionados ao atendimento à comunidade escolar, as escolas, em sua maioria, contavam com professoras que passaram por uma chamada “readaptação”, já que a escola a partir do projeto era vista como um espaço que oferecia múltiplas possibilidades de ações pedagógicas e culturais, abordando questões importantes para professores, alunos e demais membros da comunidade.
Sendo assim, as professoras readaptadas coordenaram momentos que falavam de desejos e de vidas, como oficinas de poesia, orientação à pesquisa, reforço escolar, oficinas de músicas, encontro com o autor, realizações de feiras, atividades em sala de aula e outras que possivelmente ainda venham a narrar.
Entretanto o que havia de novo ou de velho nesse trabalho vivido na época do projeto?
Retiramos da memória algumas narrativas como tentativa de resposta a essa questão, como a fala de uma professora readaptada que atuava em uma escola da rede e, que ao se envolver com os referidos trabalhos encontrou algo de que realmente gostava de fazer: pintar. Na época, a professora narrou que trabalhar com projetos pedagógicos tornou-se uma terapia, ajudando em seu tratamento médico.
Outra professora resolveu aprofundar-se nos estudos musicais para oferecer oficinas de música na escola: “Você precisa ver os cadernos de música das crianças, está lindo”. Uma outra ainda, auxiliando a professora de português durante uma pesquisa disse: “aqui me sinto professora de todas as matérias”.
Ouvir as narrativas das professoras traz a possibilidade de contar histórias que ainda não foram narradas, pois “existem outras formas de ver/ouvir o presente que não são as estratégias do poder” (ALVES, 1998, p. 126). Recorremos então, a Foucault (2001), para nos permitir a reflexão de que “pontos” de resistência estariam em toda a rede de poder e, se dariam no plural, sendo eles possíveis, necessários, improváveis, espontâneos, selvagens, solitários, planejados, enfim, prontos ao compromisso, ao trabalho pedagógico, ao prazer ou ao sacrifício.
As narrativas das professoras apresentam como resultado uma grande insatisfação devido as profissionais sentirem seu trabalho desvalorizado e, a partir da readaptação, não serem consideradas professoras, o que leva-nos a constatação de que o trabalho oferecido como alternativa, nas bibliotecas, na maioria das vezes desqualifica o processo histórico dessas profissionais.
A pesquisa também aponta que as atuais políticas educacionais têm provocado efeitos nocivos na saúde das trabalhadoras (BARROS, 2001), levando muitas vezes a doença e a processos de readaptação. Por outro lado indica-nos também que o trabalho pedagógico fala de movimentos de resistências/saúde e, da perspectiva de instituir outras possibilidades de vida, sendo que essa história não pode ser esgotada durante essa discussão, pois a narrativa das professoras que se encontram afastadas da regência acaba de se soltar. E quem conta um ponto acaba sempre narrando/aumentando outros pontos, não é?
REFERÊNCIAS:
ALVES, Nilda. Trajetórias e redes de formação de professores. RJ: DP&A, 1998.

BENJAMIN, W. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. SP: Brasiliense, 1994.

BIBLIOTECA Escolar: resignificando o espaço físico numa perspectiva técnico-pedagógica. In: XIX Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e documentação. Anais, v.1, 24 a 30 de set. Porto Alegre: FEBAB, 2000.

BARROS, Maria Elizabeth Barros de. Articulações saúde-trabalho no campo da educação: os efeitos das transformações contemporâneas do trabalho docente. Pesquisa de pós-doutorado. RJ: FIOCRUZ, 2001.

______ . A transformação do cotidiano: vias de formação do educador: a experiência da administração em Vitória/ES. Vitória: EDUFES, 1997.

DEJOURS, Chirstophe. . Fator humano. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999.

FOUCALT, Michel. A história da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 2001.

GOMES, M. R. L. Intervenção no espaço/tempo escolar: uma experiência de trabalho. In: BARROS, M. E. B. de.; SILVA, A. de A. Psicopedagogia: alguns hibridismos possíveis. Vitória: Saberes Instituto de Ensino, 2000.

HECKERTT, A. L. C. Narrativas de resistências: educação e políticas. 2004. Tese de doutorado – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal Fluminense, 2004.

JESUS, Regina de Fátima de. História oral – da prática da pesquisa à prática docente: uma opção epistemológica. In: GARCIA, R. L. (Org.). Método: pesquisa com o cotidiano. RJ: DP&A, 2003.

RONILK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.



VITÓRIA. Prefeitura Municipal. Estatuto do Magistério Público do Município de Vitória. Vitória: Prefeitura Municipal, 1990.

1 Texto baseado em pesquisa de mestrado.

2 A readaptação dos ocupantes de cargo de magistério ocorrerá mediante mudança para outro cargo de igual classe e nível de habilitação e dar-se-á, quando for julgado incapaz, de acordo com o laudo médico oficial, para exercício de suas funções específicas, desde que não se configure a necessidade imediata de aposentadoria. (VITÓRIA, 1990, p.15).

3 Filme brasileiro dirigido por Eliane Caffé lançado em 2003.


4 Segundo Ronilk (1989, p. 15) a cartografia seria um desenho que acompanha, e que se faz ao mesmo tempo, as transformações das paisagens psicossoais. O termo que teria migrado da geografia, é o método escolhido para acompanhar o trabalho que as professoras desenvolvem na escola.


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