RecuperaçÃo de solos degradados pela agricultura



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UNIPAC – FUNDAÇÃO PRESIDENTE ANTÔNIO CARLOS

FACULDADE DE CIENCIAS JURIDICAS, CIÊNCIAS SOCIAIS, LETRAS E SAÚDE DE UBERLÂNDIA.

Rua: Barão de Camargos, nº. 695 – Centro – Uberlândia/MG.

Telefax: (34) 3223-2100

Profa: MSc. Angélica Araújo Queiroz
USO DA TERRA, FERTILIZANTES E CORRETIVOS II
RECUPERAÇÃO DE SOLOS DEGRADADOS PELA AGRICULTURA*

 

por Maria Teresa Villela Nogueira Abdo

 

          O surgimento de áreas degradas é considerado cada vez mais um tema preocupante. Conseqüentemente a recuperação destas áreas tem envolvido um grande número de técnicos das mais diversas áreas.


          Essas atividades têm assumido um papel fundamental na recuperação dessas áreas, pois com a degradação, inviabiliza-se o desenvolvimento sócio econômico uma vez que esses solos degradados se tornam improdutivos.


          Com a degradação do solo ocorre a poluição dos rios e o desaparecimento da flora e da fauna natural do local, acarretando na perda significativa da biodiversidade. Além do comprometimento da camada fértil do solo que pode ser perdida, removida ou enterrada, em áreas degradadas, observa-se uma alteração da qualidade e regime de vazão do sistema hídrico. Esses problemas estão interligados e qualquer diagnóstico ou intenção de minimizar os danos requer uma visão multidisciplinar.


          A recuperação de áreas degradadas é um conjunto de ações multidisciplinares, idealizadas e executadas por profissionais de diferentes especializações que visam proporcionar o restabelecimento de condições de equilíbrio e sustentabilidade existentes anteriormente em um sistema natural (Griffith & Dias, 1998).


          Para o projeto de avaliação mundial da degradação do solo (GLSOD - Global Assesment of Soil Degradation), os fatores de degradação de solo são:

- Desmatamento para fins de agricultura, florestas comerciais, construção de estradas e urbanização;

- Superpastejo;

- Atividades agrícolas, com o uso insuficiente ou excessivo de fertilizantes, uso de água de baixa qualidade na irrigação, uso inadequado de máquinas agrícolas e ausência de práticas agrícolas.

- Exposição do solo à ação dos agentes erosivos pela exploração intensa da vegetação;

- Atividades industriais ou bioindustriais que causam a poluição do solo.

          Atualmente cerca de 15% do solo mundial (1.966 106 ha) encontra-se degradado distribuído nas diferentes regiões do planeta:

 



Região

Porcentagem

América do norte

5%

Oceania

12%

América do sul

14%

África

17%

Ásia

18%

América central

21%

Europa

23%

 

          Avaliando-se a área de ação dos fatores de degradação temos a seguinte situação:

 


Fator de degradação

Porcentagem da área mundial degradada

Superpastejo

34,5%

Desmatamento

29,4%

Atividades agrícolas

28,1%

Exploração intensa da vegetação para fins domésticos

6,8%

Atividades industriais e bioindustriais

1,2%

 

          Na América do Sul, são 244 106 ha de solo degradado sendo que 41% devido ao desmatamento, 27,9% ao superpastejo, 26,2% a atividades agrícolas, 4,9% à exploração intensa da vegetação. No Brasil embora não ajam dados exatos, aponta-se o desmatamento e as atividades agrícolas como principais fatores de degradação.


          Embora o impacto de obras de engenharia e mineração sensibilize mais a população, essas atividades têm uma ação intensa em uma área muito menor quando comparada ao desmatamento e superpastejo. Deve-se avaliar o impacto de uma degradação tanto pela extensão quanto pela intensidade. Muitas vezes uma degradação pontual tem um efeito muito maior, pois pode atingir leitos de rio e comprometer uma bacia hidrográfica inteira (Griffith & Dias, 1998).


          No caso da agricultura, a retirada da mata, a implantação de pastagens com o uso inadequado de insumos onde o solo não fornece nutrientes suficientes para o desenvolvimento da vegetação, aliada a manutenção de carga excessiva de animais e o manejo inadequado dos solos sem o uso de práticas conservacionistas são as principais causas de degradação.


          Umas das dificuldades de recuperação destas áreas degradadas está na falta de diagnóstico precoce, pois a perda de solo com a ocorrência de erosão superficial e a perda de fertilidade demora a ser percebida pelos agricultores. Para que essa situação seja evitada a ciência do solo tem tentado associar a degradação à alteração dos parâmetros de qualidade do solo. Diversos autores têm apontado os parâmetros e atributos de qualidade do solo e salientam que os valores de referência não devem ser fixos.  Os valores de referência devem ser os obtidos em uma área próxima à área avaliada em que não tenha havido ação antrópica.


          Pode-se citar como indicadores de degradação:

Indicadores físicos - textura, profundidade do solo, profundidade do horizonte superficial e das raízes, densidade do solo, taxa de infiltração e capacidade de retenção de água.

Indicadores químicos - Carbono orgânico total, matéria orgânica do solo , N total, pH, condutividade elétrica, N, P e K disponíveis.

Indicadores biológicos - C e N contidos na biomassa microbiana, N potencialmente mineralizável (incubação anaeróbica) e taxa de respiração do solo.

          Além do manejo inadequado do solo, com ausência de práticas conservacionistas a retirada da mata natural ou a implantação de uma cobertura vegetal insuficiente acarreta na aceleração do processo de degradação. A cobertura vegetal protege o solo de diversas formas: na copa, na superfície e no interior pelas raízes; acrescenta matéria orgânica deixando os solos mais porosos que, juntamente com as raízes mortas que formam galerias, facilitam a penetração da água; as plantas tiram água do solo e lançam na atmosfera pela transpiração; sombreiam o solo diminuindo a evapotranspiração.


          Com base nessa situação, além de um trabalho de conservação ter uma abrangência regional, tomando a bacia hidrográfica como referência, ele deve analisar o uso posterior da área, dando importância substancial às praticas conservacionistas adotadas, ao manejo de solo das áreas de contribuição e à cobertura vegetal ou cultura agrícola que aí será implantada.

 

ESTABILIZAÇÃO DE UMA VOÇOROCA

          A seguir será apresentado um trabalho de estabilização de uma voçoroca, realizado na Estação Experimental de Agricultura de Pindorama, atualmente denominada APTA – Pólo Centro Norte. Numa área de aproximadamente 700 metros de extensão havia uma voçoroca que em alguns locais possuía até 15 metros de profundidade (Vieira & Martins, 1998).


          O processo erosivo aconteceu em uma área de solo originário de arenito, um argissolo, eutrófico, de textura arenosa/ média, bem drenado e com declividade compreendida entre 2 e 10%. Essa declividade aliada ao caráter muito arenoso do horizonte A e a diferença de porosidade e argila entre os horizontes A e B (gradiente textural), fazem com que sejam estreitamente susceptíveis á erosão hídrica (Lepsh e Valadares, 1976).  Essa susceptibilidade à erosão fora agravada pelo manejo inadequado da área,  aonde ao longo de décadas estava instalada uma pastagem com a área de contribuição sem práticas conservacionistas. Isso fez com que o volume de água em excesso e a má infiltração fossem cada vez mais aprofundando os trilhos do gado em direção ao leito de água localizado na parte mais baixa da área. Finalmente formou-se uma erosão de proporções consideráveis como  observado nas fotos abaixo:


 






 


Área antes das obras 1998

          O projeto consistiu basicamente na construção de quatro açudes em desnível que tinham como finalidade conduzir a água numa velocidade controlável e estabilizar o processo erosivo instalado.

          Foram construídos quatro taludes de contenção como pode-se observar abaixo:







 

          Para que a água excedente proveniente da chuva em época de maior precipitação pudesse escorrer livremente foram construídos canais escoadouros de concreto que ligam o açude ao açude subseqüente de menor ( fotos abaixo):







 

          Após o término das obras o que se viu foi uma estabilização do processo erosivo o que persiste até hoje conforme fotos abaixo:

 












Vista da área em 1998

 



Vista da área em 2005

 

          Após a estabilização do processo erosivo algumas práticas foram adotadas. A área de contribuição recebeu especial atenção com a instalação de algumas práticas conservacionistas. Dentre elas pode-se citar:

         






Área terraceada com bacia de retenção

 





Antes

Depois

 Recuperação de estradas

 





Canais vegetados para condução de água proveniente de terraço e curvas em desnível

 

 

RECOMPOSIÇÃO DA MATA CILIAR DO AÇUDE


 

          Como proposta de recuperação da cobertura vegetal, apresentamos a seguir o projeto de recomposição da mata ciliar do açude. Esse projeto foi desenvolvido em um açude adjacente ao local da voçoroca e é o que pretende-se realizar no entorno dos quatro açudes construídos na estabilização da voçoroca.

 
         Numa área de aproximadamente 50 x 200 metros foram plantadas aproximadamente 1600 mudas de espécies nativas. O espaçamento entre as mudas foi de 2,5 m x 3,0 metros e como a área possuía duas situações distintas, área seca e área úmida , foram utilizadas espécies adaptadas para cada situação. Na área úmida as mudas foram plantadas sobre elevações de terra “murunduns” para evitar podridão do caule e foram aberto pequenos drenos temporários. Na área seca as mudas foram plantadas em covas convencionais. A limpeza do terreno foi realizada com controle químico e roçadeira costal e o controle do mato foi feito até 150 dias após o plantio.

          A proporção de plantio para os grupos ecológicos foi: pioneira (P) 60-70%, secundárias (S) 30% e climácicas (C) 10%. O plantio no campo seguiu o esquema abaixo:

 

                       •P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P



                           P  S  P  P  P  S  P  P  P  S  P  P  P  S  P  P  P  S  P  P  P

                    S  P S  C  S  P  S  C  S  P  S  C  S  P  S  C  S  P  S  C  S  P

                      P  P  P  S  P  P  P  S  P  P  P  S  P  P  P  S  P  P  P  S  P

                        P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P  P

 

 

          Todas as mudas receberam 1,5 kg de calcário, 200g de superfosfato simples e cobertura morta assim como rega manual nas covas até o pegamento das mudas.


          A seguir algumas fotos da instalação do projeto:

 




Vista da área antes do plantio

 



Abertura de drenos e plantio em murunduns de mudas de área úmida

 



Vista da área durante o plantio

 



Vista da área após o plantio em 2003

 





Vista geral da área em 2005

 

Literatura Consultada


 

ABDO, M.T.V.N. Recuperação de áreas degradadas: o exemplo da voçoroca em Pindorama- Monografia. Curso de Especialização em Geografia e Meio Ambiente-FAFICA/UEL. Catanduva-SP,1999.158p.

GIFFITH, J. J.; DIAS,E. L. Conceituação e caracterização de áreas degradas. In: DIAS, E. L. & MELLO, J. W. V. Recuperação de áreas degradadas, Viçosa, UFV, 1998, p. 1 -7.

 

LEPSCH, I. F. & VALADARES, J. M. A. S. Levantamento pedológico detalhado da Estação Experimental de Pindorama. Bragantia, Campinas, v. 35, n. 40, p.1976.



VALERI, S. V.;POLITANO, W,; SENÔ, K. C. A ;BARRETO, A. .L. N. M. Manejo e recuperação florestal, Funep, Jaboticabal, 2003. 180p.

 

VIEIRA, S.R; MARTINS,A.l.M.e SILVEIRA, L. C.P. Relatório de Implantação do Projeto de Recuperação Ambiental da Estação Experimental de Agronomia de Pindorama, SP, Pindorama, 1999. 13p.


O que é mata ciliar
Como existem os cílios que protegem os nossos olhos, existem as matas no entorno dos rios, lagos, riachos, córregos e nascentes. É nessa área que existe a mata ciliar, que protege as nascentes de água e os animais aquáticos, evitando a erosão das margens, funcionando como filtro aos agentes poluidores, servindo de refúgio às aves e animais, favorecendo a criação de corredores de biodiversidade, preservando a biodiversidade da flora, dentre outras funções. São assim, de grande importância para a preservação da qualidade da água que consumimos.

Revegetação
Revegetação, é o plantio da vegetação mais próximo possível da mata original. Assim, após um levantamento das espécies de ocorrência natural na região, fazemos uma classificação delas quanto à exigência de luz para seu crescimento.

Espécies pioneiras
Espécies que iniciam o processo natural de cicatrização de uma clareira; têm crescimento muito rápido, produzem grande quantidade de sementes e se desenvolvem bem sob pleno sol.

Espécies secundárias
São espécies que participam dos estágios intermediários da sucessão; as secundárias iniciais têm crescimento rápido e vivem mais tempo que as pioneiras; as secundárias tardias crescem mais lentamente sob sombreamento no início da vida, mas depois aceleram o crescimento em busca dos pequenos clarões no dossel da floresta, superando as copas de outras árvores, sendo por isso denominadas de “emergentes”.

Espécies climáticas
Espécies que aparecem nos estágios finais da sucessão; são tolerantes ao sombreamento intenso e se desenvolvem bem nessa condição.

Plantio
delimitar a área a ser revegetada, evitando as margens em erosão;
proceder à limpeza da área com uma roçada, para a eliminação de ervas daninhas, evitando o revolvimento do solo e, conseqüentemente, a erosão;
delimitar o espaçamento entre as covas de 3 metros, 2 metros e 1,5 metros, conforme a figura de combinação de espécies;
preparar as covas com dimensões aproximadas de 30 cm de diâmetro por 40 cm de profundidade;
recomenda-se para cada cova a aplicação de 6 litros de esterco de curral (20% do volume da cova) ou 3 litros de esterco de galinha (10% do volume da cova) ou ainda 5 litros de húmus.

Combinação das espécies
o plantio deve ser heterogêneo com as espécies combinadas entre as de luz (pioneiras), as intermediárias (secundárias precoces e secundárias tardias) e as de sombra (clímax).
não plantar mais de 10% da mesma espécie.
plantar 30% de pioneiras 30% de secundárias e 30% de clímax.
Exemplo, no caso de plantar de 100 árvores, usar,
33 espécies pioneiras
33 espécies secundárias
33 espécies climáticas
Plantar as árvores o mais misturado possível, não plantar a mesma espécie uma do lado da outra, misture pioneiras, secundárias e climáticas.

Época de plantio
Deve ser feito na época das chuvas (setembro e março). O plantio em áreas de inundação, a partir de fevereiro, quando as chuvas são menos freqüentes, tem mais chances de sucesso.

Manutenção das mudas
As medidas necessárias para a conservação das mudas são a irrigação, a capina em coroamento, elevação de terra ao redor da muda para auxiliar o acúmulo da água, as roçadas periódicas até o fechamento das copas e o controle permanente das formigas cortadeiras. Em mudas grandes e em lugares de ventos fortes é preciso fazer o tutoramento das plantas. Este se faz com uma estaca amarrada ao lado da muda. São dois amarrios em formato de 8 com 2 dedos de espaço entre a árvore e a estaca, fazer o primeiro amarrio a 20 cm do chão e o segundo imediatamente antes da primeira bifurcação


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